28 de jun de 2013

Rockstar - Capítulo CXXXVII

 
Jack e Paulo foram para casa, onde Jonas e Mick já esperavam prontos para sair. O restaurante era próximo da casa, mas o trânsito da hora do almoço costumava ser complicado. Para não ter problemas com os paparazzi, que certamente se agitariam com a chegada de Mick e de Jack juntos no restaurante, Mick ligou para o segurança que costumava acompanhá-lo.

As compras de Clara e de sua família continuavam firmes, agora, motorista e segurança ajudavam a carregar sacolas para dentro do carro. Ela estava feliz, mesmo sendo interrompida aqui e ali,  enfrentava o assédio dos fãs sempre com um enorme sorriso.

- Ela nasceu para isso... - Renata comentava com Ciça depois de Clara parar novamente para tirar mais uma foto ao lado de duas adolescentes que festejavam a sorte de encontrá-la ali, andando na rua.

- O que vocês estão cochichando aí? - Clara sorriu ao aproximar-se novamente do grupo.

- Nada... estávamos comentanto o quanto você já parece uma estrela... todas essas fotos... já teria mandado o Bóris para cima desse pessoal aí, sem dó...

- Bóris?

- É... - Ciça riu. - Não entendemos o nome do segurança e resolvemos chamá-lo de Bóris... você se importa?

- Por favor, meninas... não façam isso... eu tenho que conviver com essas pessoas depois que vocês forem para o Brasil... - Clara riu. - O nome dele é Worthington...

- Ah... mas Bóris é mais fácil... - Renata riu.

- Já está na hora... - Clara disse olhando o relógio do celular. - Vamos para o restaurante?

- Vamos... é muito longe daqui? - A mãe de Clara perguntou depois de colocar mais sacolas com compras no carro.

- Não... são uns dois quarteirões naquela direção... mas vamos de carro, porque senão não conseguiremos passar pelos paparazzi...

- Paparazzi? - Ciça sorriu. - Eba! Posso fazer umas poses para eles? Deixa irmã...

- Ciça... você está se revelando! Não vamos fazer pose nenhuma... vamos descer do carro e aproveitar a ajuda do Bóris para entrar no restaurante rapidinho... Na saída, talvez... se o Jack e o Mick estiverem de bom humor, paramos alguns segundos para umas fotos... senão... não paramos... entramos correndo nos carros e vamos para casa rapidamente para não sermos seguidos... todo mundo entendeu?

- Claro, filha... e vocês duas vão fazer o que ela falou, não vão?

- Pode deixar, mamãe... - Ciça sorriu. - Estávamos só brincando...

- Não se preocupe, mamãe... elas estão falando assim agora porque ainda não viram esses paparazzi de perto... deixa elas... vão ficar tão assustadas que já mudam de ideia.

Por causa da mão do trânsito na King's Road, Khaled precisou dar uma boa volta para chegar à porta do restaurante já estranhamente tomada por um grande número de paparazzi, todos agitados já ao perceberem o carro aproximando-se da porta.

Mesmo mantidos do lado de fora da grade e contidos pelos seguranças do restaurante, os fotógrafos gritando e os flashes que iluminavam ainda mais aquela tarde londrina ensolarada, assustaram Ana, Ciça e Renata que, como Clara imaginava, correram sob o abrigo do segurança, para dentro do restaurante.

- Que medo, Clara... isso é horrível... - Ciça disse ainda assustada. - Não quero ser famosa, não...

- Filhinha... você está bem?

- Estou mamãe... vamos ver se o Jack já chegou... - ela disse caminhando até o balcão onde o maitre da casa recebia os clientes. - Meu marido já chegou?

- Ainda não, senhora Noble... a mesa de sempre já está reservada... por favor, me acompanhem...

- Obrigada! - ela sorriu e chamou suas acompanhantes para seguir o maitre até a mesa em que costumava sentar-se, quando almoçava lá.

- Nossa, irmã... que chique... - Ciça sussurrou no ouvido de Clara assim que chegaram à mesa que as esperava. - Sempre me esqueço o quanto você é rica agora...

- Ah... para já, Ciça... não fica pegando no pé da sua irmã desse jeito... você sabe que ela não gosta...

- Estou só brincando... poxa... não se pode nem brincar mais...

- Pode... mas não fica falando esse tipo de bobagem... principalmente quando o papai estiver aqui... vocês sabem que ele não gosta desse tipo de lugar...

- Está bem, Clara... vamos nos comportar... não é verdade, Renata?

- Vamos sim... não queremos pagar mico... não em um lugar como este... Por falar em micos? Posso bater umas fotos nossas aqui, para postar no meu Facebook?

- Nunca fiz isso, mas é melhor perguntar ao maitre se pode, antes, ok?

- Ok...

- Eles chegaram, querida... - Dona Ana disse a frase que fez o coração de Clara disparar, enquanto recebia também as garrafas de água mineral que o garçom servia para ela e para suas acompanhantes.

- Boa tarde, minhas queridas... - Jack disse, entregando um enorme bouquet de rosas cor de lavanda, nas mãos de Clara. - Olá, meu amor...

- Oh querido... obrigada! Eu te amo, muito... - Ela sorriu, pedindo ao garçom para cuidar de suas flores, enquanto almoçavam. - Jonas, papai, Mick... então, todos já estão aqui... gostaram da minha ideia?

- Muito... - Mick disse chamosamente, enquanto beijava as mãos de todas as mulheres da mesa. - O senhor Paulo ainda está assustado com os fotógrafos lá fora...

- Ah, papai... desculpa... mas eles são assim mesmo...

- Eu sei, filha... o Mick me explicou tudo... - Paulo disse com um sorriso.

- Obrigada, querido... - Clara sorriu para o amante, que devolveu o sorriso.

- Você não precisa agradecer, minha querida... adoro seu pai...

- Paulo, que gravata é essa? - Dona Ana estranhou a bela gravata de seda azul que o marido estava usando no pesoço.

- Ah... o Mick me deu... bonita, não é?

- Linda... mas... por que ele te deu uma gravata? Você trouxe gravata na mala, não trouxe?

- Trouxe... mas essa que ele me deu é mais bonita.. falei para ele que a Clara tinha me mandado vestir terno e gravata e ele me deu essa de presente... é muito mais chique que a minha, não é?

Clara assistindo a cena apenas sorriu novamente para Mick, que sorria para ela. - Obrigada querido... - ela sussurrou, enquanto Jack fazia força para não fazer uma careta. Ele também estava de terno e gravata, coisa que detestava usar, mas que agora vestia apenas para agradar Clara. Por que exatamente naquele dia, depois de amanhecer tão feliz nos seus braços, ela já tinha chorado pela ausência do amante, e agora, não parava de sorrir para ele.

- Então... já sabem o que irão pedir? - Jack disse olhando Clara nos olhos e depois abrindo o menu do restaurante. - O que vocês querem?

- Não sei... o que é bom aqui? - Ciça respondeu sorrindo.

- Vocês gostam de lagosta, não? - Clara perguntou. - Aqui tem uma na champagne que é maravilhosa...

- Adoro! - Ciça sorriu. - Mamãe... papai?

- Pode ser filhinha.... - Dona Ana sorriu. - Não é Paulo?

- Pode, querida... bem que você me disse, não é Mick?  - Paulo sorriu para Mick. - Aqui, todo mundo gosta muito de frutos do mar...

- Eu sei... o restaurante favorito da Clara em Paris é  de frutos do mar... já estivemos lá muitas vezes... não foi querida?

- Sim... eu adoro aquele restaurante e quero levar todos vocês lá, um dia desses... - Clara sorriu, preocupada já com a amizade que seu pai parecia ter desenvolvido em uma questão de poucas horas com Mick Jagger.

Lagostas servidas e  bem apreciadas, Jack sugeriu como sobremesa um bolo de chocolate crocante com sorvete e calda de morango,  consumido com mais uma garrafa de champagne e ele esperou até que todos terminassem para fazer uma nova surpresa para Clara.

- Preciso falar agora algumas palavras... vou pedir que o Jonas traduza para o português... bem... não é segredo para ninguém aqui nesta mesa, que a noite passada foi uma das mais felizes da minha vida... eu compartilhei o palco,  a pista de dança e a cama com a mulher mais maravilhosa do mundo...

- Ah, meu amor...

- Por isso... hoje eu quero mimá-la e cobrí-la de presentes... - Jack disse, tirando do bolso a caixinha com o anel de diamantes que tinha comprado há poucas horas. - Obrigado por me fazer tão feliz, meu amor...

- Jack! - Ela disse surpresa. - Oh, meu amor...

Jack pegou o anel na caixinha e colocou-o no dedo anular da mão direita de Clara, que beijou-o. - Obrigada, meu amor, que lindo! Eu te amo muito... você me faz muito feliz...

Era a vez de Mick sentir-se apreensivo, com medo de perder a mulher que amava. Apesar da reação que ela teve de manhã à sua ausência, ela tinha passado a noite toda nos braços do marido e agora parecia muito empolgada com aquele novo presente. Ele precisava de um plano, necessitava agir, ser rápido e eficaz, ou ela perceberia que os sentimentos que tinha por ele a impediam de ser feliz realmente ao lado de Jack, coisa que ela era antes dele insistir tanto, até fazê-la admitir que o amava e deixá-la naquela situação difícil.

- Nossa, filhinha... que lindo... - Dona Ana disse sorrindo. - Seu marido está muito apaixonado...

- É, Clarinha... olha só... - Ciça disse pegando a mão de Clara para ver melhor o anel. - Nossa! Lindo mesmo, mamãe...

- Então, queridos... vamos para casa?  - Clara disse depois de mais uma rodada de champagne.

- Vamos... estou louca para experimentar de novo aquelas roupas lindas que nós compramos... - Ciça sorriu. - Ah... o dia de hoje está sendo inesquecível para mim...

- Que bom, Ciça! - Clara sorriu. - Para mim também... eu amo todos e cada um de vocês... é muito bom tê-los todos aqui, comigo... e vai ser ainda melhor nas festas de final de ano, vamos passar o Natal e o Ano Novo juntos, não vamos?

- Ah, querida... - Dona Ana, sorriu. - Vamos sim... até o Fernando vem...

- Que bom... estou com saudades dele...

A conversa continuava na mesa, com Mick encantando todos conversando em português. Enquanto Jack apenas tentava concentrar-se esperando a chegada da conta; geralmente uma visita do gerente do restaurante na mesa e a manifestação de sua alegria por estar recebendo clientes tão distintos.

O gerente logo veio, cumprimentou as estrelas da mesa e seus acompanhantes e logo todos estavam apreciando capuccinos ou xícaras de café expresso, acompanhados de deliciosos bombons de chocolate belga na sala de estar da casa de Clara.

Lá sim, eles puderam ser fotografados como queriam Ciça e Renata, depois de fugirem e esconderem-se do bando de paparazzi, homens rudes que deram trabalho tanto aos seguranças que os acompanhavam como aos que trabalhavam para o restaurante.

- Vocês sempre enfrentam aqueles caras quando vão ao restaurante? - Renata perguntou para Clara ainda impressionada com o que tinha visto. - É assustador...

- Basicamente sim... mas hoje eles estavam um pouco piores do que o de costume... eu fiquei apavorada quando eles começaram a nos seguir de moto.

- Bom, querida... me senti o James Bond, fugindo daquelas motos, com o Mick... - Paulo não parava de sorrir depois de mais  uma amostra do poder da Ferrari de Mick,  seu mais novo melhor amigo. Um cara muito mais simpático que aquele hippie sem graça que sua filha tinha escolhido como marido. Até uma gravata ele já tinha ganho de presente dele. E segundo sua filha, uma das caras, embora ele nunca tenha se preocupado muito com bobagens como marcas de roupas, aquela era do tipo que ele jamais teria condições de comprar com o que ganhava de aposentadoria. 

Mas aquela gravata era um começo para coisas maiores,  como comprar seu próprio carro esporte; sabia que seria muito caro, mas sua filha era uma rockstar agora e vivia coberta de diamantes, até os jornais diziam que ela e o marido tinham mais de 3 bilhões de reais na conta, agora que a turnê tinha começado. O preço daquela Ferrari, para ela seria quase nada, bem que ela poderia lhe dar  uma de presente no Natal. Não era muito a cara dela, um presente daqueles, mas poderia acontecer, não poderia?

Era uma pena ela ter se casado com o rockstar errado. Mick sim era "o cara" para ela, ele sim a trataria como ela merece, alguém que tinha um castelo, um avião e uma Ferrari,  certamente trataria sua filha como uma rainha e seria capaz de dar a ela uma Ferrari de presente,  quem sabe um gesto tresloucado de amor como aquele, a ganharia de vez. Ainda mais depois que o  hippie cabeludo que ela chamava de marido deu a ela apenas aquele carrinho de brinquedo.

Completamente alheio aos sonhos de Paulo, Mick sentou-se no piano, fazia isso quando precisava pensar mais claramente sobre um assunto e agora, sua cabeça rodava por não poder competir com os presentes que Jack sempre dava a ela. Não que não pudesse dar a ela joias ainda mais caras ou uma Ferrari como a sua. O problema era que ela não aceitaria o presente, Jack fez questão de pagar até por aquela coroa que ela usava nos shows agora.

Começou a tocar uma balada suave, "Hard Woman" uma pequena canção de sua carreira solo que voltava à sua mente naquele instante. Não era nem sua intenção, mas assim que cantou o primeiro verso, ouviu um gritinho de Clara que aproximou-se imediatamente do piano, sentando-se ao seu lado e sussurrando em seu ouvido: - Eu amo essa música!

Mick sorriu, beijou sua mão e começou a tocar novamente. Quem diria, Jack com suas flores e joias tinha sido derrotado por uma canção... aquela não era uma "mulher difícil de se agradar, afinal".

Ao ver a cena, Jack afastou-se, pegou o telefone e subiu para o escritório para conversar com David,  um jeito digno de ficar longe, pelo menos naquele momento em que Clara só tinha olhos para seu amante. Não esperava aquele desfecho, não depois da noite tão incrivelmente perfeita que tiveram.
Aquela noite não podia ter acabado naquela crise de choro, de manhã, depois que ela descobriu que ela achou que foi abandonada, não, aquela noite tinha sido suficientemente  poderosa para varrê-lo para sempre de suas vidas.

Continua

6 de jun de 2013

Rockstar - Capítulo CXXXVI


Quando já conversava com Jonas, sentado na sala de estar, o mordomo Bradley aproximou-se para avisar  sobre a chegada do carro do senhor Jagger, que pelo barulho, era mais uma vez a Ferrari, para a alegria dos parentes de Clara que foram todos conferir de perto o belo e caríssimo carro esporte, agora parado no jardim, na porta da frente da casa.

- Bom dia... - ele disse em português para Paulo e para Jonas, carregando um maço de lavandas em suas mãos. - A Clara está?

- Sim... - Jonas respondeu em inglês. - Ela está se preparando para sair, mas ainda está em casa... Uau, que máquina, hein?

- Obrigado... não é sempre que a uso, mas acho que hoje ela estava querendo sair da garagem... então a Clara vai sair?

- Vai... com a mãe e a irmã... vão fazer umas compras...

- Ah... bem... vou lá conversar com a nossa estrela... com licença... vou deixar o carro aberto, se vocês quiserem vê-lo mais de perto... só tomem cuidado para não soltar o freio...

- Obrigada Mick... é muito lindo... - Jonas disse, traduzindo depois para Paulo.

- Jack Noble... bom dia... - Mick cumprimentou Jack, beijando-o no rosto, uma cena que fez o pai de Clara fazer uma careta e voltar a mergulhar os olhos no belo carro vermelho à sua frente. - Vocês sabem o que fizeram ontem naquele show? A mídia está enlouquecida hoje, ninguém fala de outra coisa...

- Estou muito feliz com isso... trabalhamos bastante para que tudo funcionasse e é muito bom que tenha dado certo... Mas vamos entrar, a Clara já deve ter descido...

- Como ela está?

- Melhor... conversamos um pouco e consegui convencê-la a comer e tomar os remédios... só depois ela me disse que tinha combinado essa saída... me desculpe...

- Não tem importância... vou ficar por aqui hoje... já tinha programado isso, não tenho muito o que fazer, acho que vou à O2 vê-la novamente no palco... ela está muito chateada?

- Ela achou que você a estava abandonando, mas depois que contei a ela o que conversamos no telefone, ela se acalmou um pouco... Cara... se você vai mesmo abandoná-la, este é o pior momento possível...

- Não vou... mas senti que ela estava muito longe de mim, ontem... por isso fui passar a noite no meu apartamento...  me arrependi no momento em que cheguei lá e para ser completamente sincero, dormi muito pouco de ontem para hoje...

- Tudo bem, amigo... mas acho melhor você falar com ela... - Jack disse, olhando para a porta de casa, de onde Clara saía, com um vestido de seda azul, com delicadas flores brancas, que voava ao vento quente, naquele outono londrino, incomum. Uma delicada echarpe de seda branca protegia sua garganta e os longos cabelos louros estavam presos em um rabo de cavalo.

- Bom dia, Mick... - ela sorriu e beijou-o no rosto. - Vamos conversar?

- Você está linda, minha querida... trouxe lavandas hoje, achei que elas combinam com você... e aí, você me perdoa não ter voltado ontem para cá?

- Claro, querido... Obrigada pelas flores... são lindas... elas significam muito para mim... - ela sorriu. - Você acha seguro deixar o Jonas e o meu pai brincando no seu carro, daquele jeito?

- Confio neles, querida...

- Jack... cuida para que eles não destruam o carro, amor... - ela sussurrou no ouvido do marido. - Vou conversar com o Mick no escritório...

- Tudo bem, amor... não se preocupe... - Jack disse, beijando-a rapidamente e caminhando até a Ferrari de Mick.

- Não se preocupe, querida... - Mick sorriu. - É um carro bem mais forte do que parece...

- Sim... mas se quebrar alguma coisa, nenhum dos dois tem dinheiro para consertar...

- Não se preocupe... se quebrar alguma coisa, apresento a conta para seu marido, ok? - Mick riu, fazendo-a rir também.

A sala de visitas estava vazia e assim, Mick e Clara subiram direto para o escritório. - Belo retrato esse do seu marido... - Mick comentou ao ver a enorme pintura de Jack em seus tempos de "Deus do Rock", pendurada na parede.

- Compramos em Paris, estava na vitrine de uma galeria em Montmartre quando o achamos... - Clara sorriu. - Me desculpa... não imaginei que o Jack fosse te ligar...

- Eu sei... ele me disse... me perdoa... não quis que você achasse que estava sendo abandonada... eu te juro que nem pensei direito... acho que tive ciúmes de ver vocês tão bem ontem, no topo do mundo, fiquei com medo de estar sobrando...

- Ah, querido... eu te amo... me desculpa... eu sei que não posso exigir nada de você... mas me senti tão triste... você sabe como é a minha cabeça, fiquei com medo de estar sendo abandonada...

- Meu amor, me perdoa... me perdoa... passei quase a noite toda em claro, pensando em como eu iria te ganhar de novo...

- Mas você não me perdeu, querido...

- Ah, meu amor... - Mick puxou-a para seus braços e beijou-a. - Eu te amo... mas me doeu tanto achar que tinha te perdido...

- Em mim também, quando o Bradley me disse que você não tinha voltado para casa, o chão desapareceu sob os meus pés... eu continuo te amando tanto quanto ontem...

- Me perdoa, querida... eu fiquei louco de ciúmes... vocês dançando ontem, pareciam tão felizes juntos... eu queria estar no lugar do Jack... ter você nos meus braços...

- Não fica assim... amanhã vamos para o seu castelo e poderemos conversar melhor... sem medo, sem preocupação... conversei bastante com o Jack e ele me apoia tanto... e é tão doce comigo que me sinto culpada pelo que está acontecendo entre nós...

- O Jack é um grande cara... gosto muito dele... não sei se conseguiria segurar essa situação que ele segura... eu te amo tanto... poderíamos ser tão felizes juntos...

- Ele me disse que abriria mão de mim, se fosse para me fazer feliz... eu o amo tanto... me sinto um peso na vida dele... justo eu, que não o deixa olhar para o lado, não consigo resistir a outro homem... pior ainda... estou amando tanto este outro homem, que não consigo ser feliz sem ele...

- Eu te amo... - Mick abraçou-a novamente, tentando fazê-la parar de chorar. - Fica tranquila... só me afastarei  se você me mandar embora... sou seu...

Os dois se beijaram novamente e decidiram que se encontrariam mais tarde, quando ela voltasse para casa depois das compras. Mick disse que faria companhia para os homens que ficariam em casa e que iria ao show, ver novamente ela e Jack cantando. - Não vou perder a chance de vê-la no palco novamente hoje, querida... não sei quais seus planos, mas vou para a Arena me emocionar novamente com sua beleza...

- Ah, querido... eu nem sei o que te dizer... vai ser muito bom ter sua companhia lá... - Clara disse, despedindo-se de Mick com um beijo no rosto, na sala de estar, onde se juntou às pessoas que a esperavam para sair para as compras. As quatro entraram no jipe de Jack, deixando a Mercedes de Khaled no páteo da frente da casa, junto com a Ferrari de Mick.

- Então filha? Você está melhor? - Dona Ana perguntou para Clara assim que o carro começou a andar. - Conversou com o Mick?

- Conversei... está tudo bem... estou me sentindo melhor agora... fiquei muito abalada hoje cedo... ainda não consigo viver sem ele...

- Ah filha... e seu marido? Como ele fica? Você não o está magoando?

- Ele me aceita como eu sou... ah mamãe... eu amo os dois... não consigo viver sem eles... mas vamos conversar melhor neste fim de semana... amanhã vamos para o castelo do Mick, em Nice e vamos tentar conversar melhor e tomar uma decisão...  dói muito amar os dois...

- Claro que dói... não entendo como você arrumou um problema desses, filha... você sempre foi tão inteligente...

- Mamãe... não é uma questão de inteligência, mas de carinho, envolvimento... os dois se dizem meus... e eu me sinto deles... nós nos amamos... é estranho, eu sei, mas não tem outro jeito de explicar o que está acontecendo...

- Os dois sabem tudo, Clara? Quero dizer... o Jack sabe que você e o Mick estão juntos? - Ciça perguntou, ainda tentando digerir as informações.

- Os dois sabem, Ciça e os dois me dizem que sou dona deles... que farão aquilo que eu decidir...

- Cuidado, Clara... acho muito perigoso isso... homens são naturalmente competitivos, os dois dizem agora que aceitam a situação, mas, não sei até onde isso vai... aquela Ferrari linda não foi tirada à toa da garagem, querida... - a mãe de Clara disse preocupada com o que estava acontecendo com a filha. - Ok, são artistas, mais sensíveis, mais abertos... mas continuam sendo homens... o instinto masculino logo vai se manifestar...

- Tenho medo que aconteça bem mais do que isso... no momento, ando em pânico de engravidar do Mick...

- Puxa... isso pode acabar muito mal.... - Renata disse também preocupada com a amiga. - Toma cuidado porque se você ficar grávida do Mick, é capaz do Jack nunca mais querer te ver...

- Eu sei... por isso estou com medo... vou ao médico assim que voltar de Nice... e se voltar a transar com o Mick, vai ser com camisinha...

- Meu Deus... e você não estava usando? E se pegar alguma doença? Eles sempre foram muito promíscuos, filha...

- Não... mãe... não são mais... são como executivos de grandes companhias, chefiam corporações imensas... por isso, os seguros os obrigam a fazer exames periódicos... os dois são completamente saudáveis... meu medo é só esse... da gravidez... mesmo porque eu e o Jack temos planos para isso... ele já fez a reversão da vasectomia e, agora, quando eu deveria tomar outra dose daquele hormônio para impedir a ovulação, vou ao médico tomar hormônios para facilitar a gravidez...

- Você se cuida, Clara... o Jack está se controlando agora... mas não sei o que vai acontecer se você tiver um filho com o Mick... sem falar no escândalo... já pensou?

- Eu vou tomar cuidado... vamos mudar de assunto, agora? Vocês querem comprar o que? - Clara sorriu, tentando tirar o foco da conversa de sua vida pessoal.

- Eu quero uns casacos bons de inverno e umas lembrancinhas para dar de presente... nós vamos passar o final de ano com vocês, mas acho bom já comprar umas lembrancinhas para o pessoal que vai ficar lá no Brasil...

- E como estão as coisas por lá?

- Tudo bem... mas você sabe... sempre os mesmos fazendo as mesmas coisas... - Ciça sorriu. - Até o papai está com o "pé atrás" dessa vez... suas tias não param de ligar para ele, sempre especulando, se você mandou dinheiro, se deixou de mandar...

- Mas o papai ainda tem uma parte daquele dinheiro que eu mandei, não tem? - Clara perguntou preocupada.

- Sim... ele tem... está naquelas aplicações que o Jonas fez para ele... eu estou controlando, porque senão ele gasta tudo, filha... você sabia que sua tia já andou especulando sobre o quanto você mandou, se continuava mandando... não gosto do tom deles, você sabe...

- Eu vou mandar mais... mas eu quero que vocês comprem imóveis com o que eu mandar... para investir... quero que a Ciça e o Fernando coloquem esses imóveis para alugar, para terem um dinheiro a mais, além do salário... o papai também... o Jonas está procurando um apartamento bom em São Paulo para mim e para o Jack... nós queremos alguma coisa na Vila Nova Conceição... quero que estes imóveis que vocês comprem também sejam em bairros bem valorizados... vou pedir ao Jonas para ajudar vocês na procura...

- Está bem... - Ana sorriu para Clara. - Eu sei que você quer nos ajudar, filha... mas todos estão bem... não precisa se preocupar tanto...

- Mas me preocupo... quero ver vocês tranquilos, sem nem precisar pensar em dinheiro... ok? Se existe uma coisa boa nesta minha situação atual é eu poder ajudar as pessoas que amo... e não consigo ficar em paz, de verdade, se vocês não estiverem também...

- Ah, filha... quem eram aquelas pessoas que estavam conversando com você lá na festa ontem?

- Não sei mamãe... falamos com tanta gente...

- Sim... mas era uma família... uma senhora bonita, com o cabelo vermelho, olhos azuis, ela estava com um moço lindo, alto, a cara do seu marido... aquele moço é filho dele, não?

- Ah... sim... a Linda... é... o rapaz é filho do Jack... ela era uma groupie e eles tiveram um caso por anos, mas quando ela ficou grávida, o Jack estava casado e ela, então, casou-se com um outro rapaz que era namorado dela... ele assumiu o filho como dele, mas o Jack deu a ela uma loja linda na Carnaby Street, que ela tem até hoje... sabe que quando chegamos aqui em Londres, pela primeira vez, ele me levou à loja dela e foi lá que ele me comprou o primeiro presente que me deu... aquele conjunto de colar e brincos indianos com rubis e diamantes... amei as jóias e a loja... mas até hoje tenho ciúmes da relação deles... 

- Ciúmes? Por que? - Renata perguntou.

- Porque ele sempre deixa claro que ela é uma espécie de melhor amiga dele, que ele  adora...

- Hum... isso não é bom... - Ciça sorriu. - Mas ela é casada, não é? Quero dizer... o Jack não tem ainda um caso com ela...

- Não... mesmo assim... ele a trata com tanto carinho que sempre me deixa um pouco nervosa...

- Ele é carinhoso, querida... - dona Ana, disse segurando a mão de Clara. - Mas não acho que você deva se preocupar com nenhuma outra mulher neste mundo... ele te ama tanto que consegue dividí-la com outro homem... você já pensou nisso?

- Eu sei, mamãe... mas... às vezes é maior do que eu, eu acabo perdendo a cabeça...  aquela história de ontem, no metrô... eu briguei com ele por causa daquela Ann Kurtiss... ainda bem que ela nem chegou perto do Jack na festa...

- Quem é essa?

- Não sei se vocês repararam nela... é uma loira alta, de cabelo liso, que estava com o empresário do Jack ontem... com um vestido curto preto, de paetês... Ah, gente, ela gravou um disco com o Jack... lembram?

- Ah... sei... mas se ela nem chegou perto do Jack...

- Acho que ela ficou com medo de outro escândalo... depois da história do vídeo... - Clara disse, perturbada. - Talvez o Jack tenha dado ordens para o Peters mantê-la longe, para não me contrariar... o Jack me protege muito, sabe... ah... por que eu tinha que me apaixonar pelo Mick? Por que?

- Não mandamos no nosso coração, querida... - dona Ana disse sabiamente, um pouco antes de chegarem na King's Road, uma das ruas favoritas de Clara para fazer compras. A manhã clara e ensolarada levou muita gente às ruas também, todos felizes por poderem desfrutar das alegrias da decoração natalina, sem os rigores do clima gelado habitual para aquela época do ano.

- Só pode ser o aquecimento global... - as pessoas comentavam preocupadas, cada vez que tinham uma chance. Aquele hábito tão inglês de falar do tempo, estava diferente em conteúdo, naquela semana de tanto sol.

Além do sol, a presença de Clara chamava atenção nas lojas que ela e seu pequeno grupo percorriam, atrás de presentes, roupas e acessórios, que compravam alegremente; ocasionalmente interrompidas por pedidos de fotos e autógrafos. A pedido de Clara, o segurança, que Jack pediu para acompanhá-las ficava atento, distante do grupo, mas pronto para protegê-las de assédios mais inconvenientes ou de um possível ajuntamento maior de pessoas.

- Mamãe... este vestido é a sua cara... olha só que lindo... - Clara disse animada com um belo vestido de festa na vitrine. - Vai mamãe, experimenta...

- Ah, filha... é muito... não tenho nem lugar para ir com um vestido desses...

- Tem sim... quero te ver linda, mamãe... vai lá provar o vestido... vai ser um presente meu... vai...

- Ah, querida... mas não precisa...

- Precisa sim... - Clara disse pedindo à vendedora para trazer o vestido da vitrine, no tamanho de dona Ana, para que ela provasse.

- Lindo esse vestido, Clara...- Ciça sorriu. - Vai ficar perfeito nela...

- Vai sim... sabe... eu fico muito feliz de podermos ter o que quisermos agora... ficava tão aflita antes, vendo ela e o papai lutando tanto e não conseguindo quase nada... agora, quero que ela viva como uma rainha... espera, um instante, acho que meu celular está tocando... alô... - ela disse afastando-se um pouco do grupo, ao ver o nome de Mick na tela do aparelho. - Olá querido...

-  Olá, meu amor... então... como estão as coisas?

- Bem... e aí?

- Bem também... seu marido saiu para dar uma volta na Ferrari, com seu pai e eu aproveitei para vir até seu quarto, sentir seu perfume...

- Mick... você está maluco? Se o Jack te pega aí dentro...

- Mas já vou sair... só precisava sentir seu perfume... e nada como ficar um pouco no seu quarto, no seu closet, para isso...

- Ah... querido... você pode me fazer um favor?

- Sim... o que você quiser, meu amor...

- Estava aqui pensando... por que não almoçamos todos juntos no francês? Vou ligar para o Jack, chamando-o... é claro que meu pai vai reclamar, mas você o coloca na Ferrari, ele vai adorar ser visto descendo de uma Ferrari, na porta daquele restaurante, cheio de fotógrafos...

- Entendi... e eu vou adorar almoçar com a mulher mais linda de Londres... e toda a sua família... inclusive seu marido... ótima ideia, querida... vou ajudar você a convencê-los... meu amor... pode ficar tranquila...

- Obrigada, querido... vou ligar para o Jack agora... ah... e por favor, não o deixe vê-lo aí...

- Está bem, amor... já vou sair... ah... tomei a liberdade de pedir para sua arrumadeira colocar as lavandas no vaso do seu quarto... ficaram lindas aqui...

- Eu te amo... - Clara riu. - Beijos...

- Beijos, amor...

Assim que desligou, ligou para Jack, propondo o almoço em família no francês e ele considerou uma ótima ideia, mas só teria certeza sobre o que faria, quando voltasse para casa e pedisse a Jonas para traduzir os planos de Clara para Paulo, que naquele momento, parecia uma criança, passeando ao redor do Hyde Park no belíssimo carro de Mick.

Jack até tentou explicar a ele, em um espanhol muito ruim, o que Clara estava dizendo, mas não conseguiu. Então, ele entregou o celular nas mãos de Paulo e Clara mesmo explicou.

- Papai... estamos combinando todos de almoçarmos juntos em um restaurante aqui perto de onde estamos fazendo compras... você vem com o Mick, na Ferrari e o Jack vem com o Jaguar, junto com o Jonas... ok? Quero todo mundo aqui... entendeu, papai?

- Entendi... não se preocupa, filha... vou sim... com o Mick, então?

- É... e você vai colocar terno e gravata, não vai?

- Tudo bem, filha... mas esse restaurante é muito chique, é?

- Um pouco... mas eu quero que vocês venham...

- É que fico sem jeito nesses lugares...

- Não fica não... quero almoçar com todo mundo e quero ver você lindo... entendeu? A mamãe me disse que você trouxe terno e gravata na mala... pois então você vai usar... ok?

- Está bem, está bem, filha... eu vou...

- Ótimo... vamos esperar por vocês... agora passa o telefone para o meu marido... Jack, querido...

- Oi, amor!

- Resolvido... quero os quatro aqui, no francês, às 2 da tarde, pode ser?

- Claro que pode... você manda, eu obedeço, com um sorriso nos lábios, meu amor...

- Ah, que lindo... querido... você me faz tão feliz... eu não te mereço, amor... de verdade...

- Merece sim... você merece todo amor que eu puder te dar... tudo o que eu estou sentindo agora, contando os segundos para ter você em meus braços de novo...

- Eu te amo, Jack... muito... vou desligar... até daqui a pouco, beijos meu amor...

- Beijos, querida... - Jack suspirou, desligando o celular. - Amo muito a sua filha, senhor Paulo... - Jack disse em um espanhol enrolado para o pai de Clara.

- É... eu sei... - Paulo sorriu para ele. - Ela ama muito você... Vamos para casa agora?

- Vou passar em um lugar antes... vamos até a joalheria, senhor Paulo, quero dar mais um presente para a Clara... - Jack disse lentamente em espanhol, conseguindo se fazer entender.

- Ela vai gostar muito da surpresa... - Paulo sorriu.

- Foi aqui que comprei o anel de noivado para Clara, senhor Paulo. Vou comprar mais um anel para ela...

Os dois entraram na loja e um sorridente gerente logo veio em sua direção, mostrando jóias lindas e Jack encantou-se com um lindo anel com diamantes azulados. Mais uma vez, ele apenas entregou o cartão de crédito para o vendedor e assinou a fatura, sem sequer perguntar o preço de uma jóia que muito provavelmente era das mais caras disponíveis na loja.

- Você é mesmo apaixonado por ela, não? - Paulo perguntou a Jack, que não entendeu exatamente a pergunta, mas acabou respondendo.

- Eu amo a Clara mais do que tudo no mundo, senhor Paulo... - Jack sorriu. - Ela é a mulher mais linda e doce que conheci... quero fazê-la feliz... vou comprar flores também...

- Sabe, Jack... eu sei que você não entende bem o que eu falo, mas eu vou dizer assim mesmo... a minha filha está muito feliz com você... obrigado por não desistir dela...

Jack sorriu, não compreendia as palavras de Paulo, mas sentia que eram sobre o amor de Clara por ele, um sentimento que continuava enchendo seu coração de esperança, de um dia voltarem a ser felizes de verdade. Um casamento de duas pessoas apenas, sem mais nenhuma interferência externa.

Continua 

2 de jun de 2013

Rockstar - Capítulo CXXXV


Ele sabia que alguma coisa estava muito errada assim que passou pelo casebre transformado em cinzas na estrada. No lugar de suas antigas paredes, marcas negras de carvão no chão, pareciam tentar esquecer que ali, um dia, alguém viveu.

O campo florido de lavandas, uma mancha roxa que serpenteava dobrada pelo vento, continuava ali, alheio ao drama de quem o tinha cuidado por tanto tempo. Mas o que teria acontecido com o casebre e com quem vivia nele? A visão o deixou apreensivo, quando foi para Paris, o pai de sua amada ainda vivia ali, apesar de seus convites para acompanhar a filha e voltar a viver no castelo, o velho cavalariço nunca se esqueceu dos anos que passou fugindo dos assassinos da velha duquesa e não conseguia confiar em seu filho.

O altivo senhor de toda a região, voltava para casa, sentindo seu coração pesado, uma sensação que tinha sentido durante todos os meses que passou em Paris; culpa daquela pequena bruxa que amava desde a infância, ela que o tinha ensinado como sentí-la, mesmo estando há muitas milhas de distância, agora, quando a buscava, consegua apenas sentir o vazio e um medo enorme que tinha se manifestado pela primeira vez quando ainda estava a serviço do rei, na Corte de Versalhes, onde passou pelo embaraço de ter que explicar uma crise repentina de choro que teve, diante de todos.
Se ao menos ela não fosse teimosa como seu pai e tivesse aceitado viajar com ele, estariam felizes agora, em Paris, e ele não estaria sentindo aquela enorme dor em seu peito.

- Vou ligar para ela... - Mick, acordou mais uma vez em uma noite em que não conseguia dormir por muito tempo, aquela era a pior crise de insônia que teve nos últimos tempos, pegou o celular em suas mãos pela terceira vez naquela noite, mas novamente, não conseguiu encontrar coragem.

Desistiu  do sono, levantou-se da cama e foi até o escritório pesquisar na internet. Precisava entender o que estava acontecendo e precisava ser logo, ele sentia que Clara estava cada vez mais distante e depois de vê-la tão feliz nos braços de Jack, naquela noite, pareciam não existir mais esperanças. 

E ele, que raramente se arrependia de alguma coisa, agora estava arrependido de ter ido passar a noite em seu apartamento. Deveria estar lá, perto dela, mesmo que a ouvisse gemendo de prazer nos braços do marido, no quarto ao lado, a noite toda, ele precisava estar lá. Mas já que estava em casa, podia tentar compreender o que estava acontecendo, o porquê daqueles sonhos estranhos com o castelo e com os amantes do afresco chamado "O Idílio".

Escreveu e-mails para o antigo dono do castelo e para um velho amigo, especialista em artes, perguntando onde poderia conseguir mais informações sobre a pintura e depois continuou sua pesquisa; encontrou um website sobre castelos da França e escreveu para a autora pedindo mais informações bibliográficas, pesquisando longamente, sem encontrar muito mais do que guias turísticos e catálogos das obras de arte que podiam ser vistas em cada um deles.

Para piorar, o castelo que agora era dele, ainda constava em um deles como um hotel de luxo, à disposição de hóspedes dispostos a pagar caro pela experiência de viverem alguns dias como reis, há poucos minutos da bela cidade de Nice.

Quando os primeiros raios de sol tocaram as janelas da biblioteca, ele ainda estava lá, agora enviando ordens para sua equipe do escritório para serem insistentes com as pessoas que contatou e que ele deveria ser avisado assim que qualquer novidade surgisse.

Sentia que precisava daquela informações, mas não saberia exlicar o porquê. Exatamente ele, que sempre foi tão racional, tão desprovido de crenças e misticismo, sentia que talvez eles fossem sua última esperança de continuar ao lado da mulher que amava.

Muito cedo também, a casa de Jack e Clara se agitava, depois de uma das noites mais perfeitas de suas vidas, eles desciam a escadaria para dividir a mesa do café da manhã com uma família barulhenta que agora trocava histórias e impressões sobre o show, a festa e a preparação para o embarque de volta ao Brasil, na manhã seguinte.

- Bom dia... - Clara disse sorrindo, assim que chegou à mesa. - O Mick ainda não acordou?

- Ou isso, ou madrugou... - Jack sorriu. - Bradley, onde está o senhor Jagger?

- Não sei, senhor... ele  não retornou à casa, desde ontem, quando saiu de manhã...

Clara não conseguiu disfarçar a expressão de preocupação e Jack a de alegria. - Já sei... você vai ligar para ele... - Jack disse rindo. - Ah, amor... você o conhece... tinha uma porção de modelos naquele camarim ontem... ele deve estar agora escolhendo uma nova girafa para namorar... certamente está tudo bem, querida...

- Ah Jack... não fala assim... você sabe que fico preocupada...

- Me perdoa, Menininha... mas estamos tranquilos, felizes... tivemos uma noite tão maravilhosa... você nem está mais doente... além disso, da última vez que chequei, ele era um homem livre e com vida própria, não?

- Acho que sim... - Clara suspirou, serviu-se de  um copo de água levantou-se da mesa, sem comer nada, deixando seus parentes e amigos todos surpresos e preocupados.

- Jack... ela não comeu nada? - Jonas traduziu a pergunta de Paulo para Jack que continuava na mesa. - Vocês brigaram?

- Não... deixa eu terminar meu café, já  vou atrás dela... não se preocupe... não é nada... - Jack sorriu.

- Minha filha ficou nervosa porque o Mick não está aqui hoje... - Dona Ana disse em bom inglês para Jack, que apenas balançou a cabeça discretamente, confirmando aquilo que ela disse. - Filho, por que você não liga para ele? Pede que ele volte para cá... ela ainda está confusa demais, deve estar achando que foi abandonada... 

- O que foi, Ana? - Paulo perguntou, sem entender o que a esposa dizia. - O que o hippie aprontou dessa vez?

- Nada, querido... nada... Onde vamos hoje? - Ana perguntou para Jonas, tentando mudar de assunto. - Todos precisamos deixar a bagagem arrumada ou vamos nos atrasar para o voo amanhã cedo... e não podemos... a Clarinha me disse que o trânsito para o aeroporto, de manhã é infernal...

- Eu quero fazer compras, mamãe... - Ciça respondeu rápido. - A Clara me prometeu ontem que me levaria para comprar umas roupas boas de inverno, aqui em Londres...

- Eu também, vou fazer compras, Dona Ana... combinamos ontem, na festa... - Renata também disse. - Vou comprar uns presentes para levar para casa...

- Com licença... vou atrás dela... - Jack disse, levantando-se da mesa e pegando o celular. - Obrigado, dona Ana... acho que a senhora tem razão, ela precisa dele ainda...

- Bom dia, Mick...

- Oi Jack... bom dia... como ela está?

- Confusa... triste... preocupada... mesmo depois de ter uma noite linda ao meu lado... Cara... ela já não comeu nada no café da manhã... você sabe o que isso significa, não sabe? Se ela ficar mal de novo, eu te arrebento...

- Calma, Jack... já vou para aí... achei que vocês estivessem bem... quer dizer... achei que... desculpa... vou me vestir e já vou para aí... quer que eu fale com ela?

- Não... eu falo... ela nos deixou falando sozinhos na mesa do café e foi para o jardim... vou atrás dela agora... desculpa, cara... mas não sabia o que fazer...

- Eu sei... vai lá cuidar dela... desculpe, não esperava por isso... não hoje...

Jack desligou o celular, sabia onde procurar por ela e atravessou o gramado até o mesmo carvalho que ela costumava usar como abrigo... dia após dia... sentando-se a sua sombra para tentar relaxar, chegar a conclusão dos impasses que a torturavam...

- Oi Menininha... - Jack disse, dando um sorriso e sentando-se ao lado dela, aos pés da árvore.

- Oi, meu amor... mais uma vez te decepcionei, não?

- Claro que não, querida... - Jack envolveu-a com seus braços. - Nós tivemos a noite mais linda de nossas vidas ontem... não sei quanto a você, mas eu me senti tão feliz que... acho que não tenho palavras para explicar... você foi minha e eu fui seu... acho que nunca tinha experimentado nada parecido... uma plenitude tão grande...

- Ah, Jack... você vê... me sinto uma monstra por estar estragando tudo... sabe o que senti na noite passada? - Clara disse chorando muito.

- Minha vida... não chora assim...

- Eu... eu me senti grávida... desejei muito ter feito o nosso filho na noite passada... de tão feliz que eu estava... e agora...

- Não se preocupe, minha vida... tenha certeza que eu entendo, é natural,  até ontem você chorava de amor pelo cara... mesmo com o que tivemos, não podia esperar que hoje ele sumisse e você simplesmente sorriria para mim e diria, tudo bem... já o esqueci... você não é assim... o relacionamento de vocês é importante... eu sei que ele não vai terminar assim...

- Ah, meu amor... me perdoa... mas ele...

- Olha, amor... vou te explicar o que aconteceu... ele me disse que nos viu juntos ontem, na festa...

- Você falou com ele?

- Liguei para ele antes de vir para cá... ele me disse que está vindo te ver...

- Você não devia ter feito isso... agora ele vai achar que estou desesperada por ele...

- Não, querida... ele não vai achar nada...  Ele me disse que achou que estávamos bem e que era melhor afastar-se, só isso...

- Foi o que ele disse?

- Falamos muito rapidamente, eu contei para ele que você ficou triste quando descobriu que ele não estava aqui e ele me disse isso, que estávamos tão bem que ele achou melhor afastar-se... mas disse que viria para cá, em seguida...

- Não queria que isso acontecesse... estou muito triste... porque agora entendi que o que aconteceu entre nós dois tem um destino certo... terminar assim... eu e ele teremos que esquecer tudo e continuarmos nossas vidas... acho que estou sentindo a dor do fim agora... o vazio... ah, Jack... eu vou entender se você quiser se afastar... eu sei que é muito difícil insistir em uma relação com alguém como eu... assim confusa, chata...

- Linda, doce... o amor da minha vida... ah, querida... se afastar-se de mim for o que você precisa para ser feliz...

- Não... não vou ser feliz longe de você, nunca... eu preciso de você comigo... mas estou preocupada com sua felicidade...

- Eu sou feliz... você não pode duvidar disso depois do que vivemos na noite passada... estou ainda te sentindo na minha pele, meu amor... eu te amo... muito... como disse... só me afastarei se souber que isso vai te fazer feliz... está bem?

- Ah, meu amor... - Clara abraçou Jack novamente e os dois se beijaram, ainda unidos por um sentimento muito forte e cada vez mais indestrutível.

- Vamos lá para dentro? Estou aflito porque você não comeu nada...

- Está bem... vou comer... pior que tinha combinado com minha irmã de sair para fazer algumas compras...

- Mas vocês podem ir... querem que eu acompanhe?

- Não, amor... não precisa... acho que será mais fácil se formos só nós...

- Vocês vão, mas eu quero que um segurança acompanhe... vou ligar para o Khaled... agora, ele leva vocês e acompanha pelas ruas... agora você é uma estrela, Menininha e as pessoas podem ser perigosas para você...

- Ah, meu amor... não sou uma estrela... continuo sendo só sua mulher... e sei que sou muito ruim nisso...

- Você é o amor da minha vida... a mulher mais linda que existe nesse mundo...não me importo que você ame outro homem, desde que você me ame também, eu estou feliz... só fico preocupado quando te vejo assim triste... meu amor...

- Está bem... vem... vamos para dentro... combinei com minha irmã e minhas amigas de sair para umas compras hoje... não quero decepcioná-las mais do que já decepcionei...

- Amor... todo mundo te ama... vou pedir para o Khaled te levar... vou pedir um segurança também... acho que depois de ontem, vocês podem ter alguma dificuldade para andar por aí... não quero ver minha Menininha passando nervoso de graça...

- Você acha, amor?

- Não acho... tenho certeza... você vai ver... hoje você vai sentir... as pessoa te... olha, amor... eu não vou contar como é... você vai sentir...

- Eu te amo, querido... você é muito bom para mim... muito mesmo...

- Ah, amor... vem... precisamos ir para a Arena no fim da tarde... é melhor você entrar, comer alguma coisa e se preparar para sair...

- E o Mick?

- O que tem ele?

- Você me disse que ele vem para cá...

- Vem... mas acho que vocês não vão brigar, vão?

- Não... não tenho intenção de brigar com ele... mas como eu te disse, estou chateada... não esperava que isso acontecesse tão rápido... e que ele desistisse de mim, assim, sem sequer falar comigo...

- Ah... querida... fica tranquila... não acho que tenha sido isso... acho apenas que ele ficou com ciúmes...

- Vamos para dentro, amor... vou me arrumar para sair com minha família... se ele chegar a tempo, converso com ele, se não chegar, conversamos mais tarde, quando eu voltar...

- Hum... você está brava com ele... - Jack sorriu. - Pobre diabo... ele vai ouvir muita coisa hoje, não vai?

- Não sei... quero só conversar com ele... entender o que aconteceu... daí vejo o que farei...

- Tudo bem... só não quero te ver mais triste...

Os dois entraram em casa e enquanto Clara combinava com a família a saída para compras, Jack fazia os contatos com o escritório e pedia os serviços de Khaled e mais um segurança para levar Clara e sua família para as compras.

Mas antes, Jack a fez comer um sandwiche de roastbeef bem recheado e beber uma vitamina de frutas que ele mesmo bateu, além de tomar todos os comprimidos receitados pelo doutor Lanee para controlar sua anemia.

E depois que ela subiu para tomar banho e vestir-se, ele ainda ligou para Michael Peters e David Mersey, para saber se existia alguma novidade para o segundo show e foi informado que não, que tudo estava tranquilo e que a reação geral à estreia tinha sido avassaladora e o empresário tinha recebido mais dez propostas de show, só naquela manhã.

Continua