28 de dez de 2013

Rockstar - Capítulo CXLIV



A estrada para chegar ao castelo também não foi fácil. A tempestade, com ventos que sopravam do mar, varria a pista estreita e a tornava escorregadia, condições que deixaram os três quietos, apenas sentados no banco detrás da limousine, de mãos dadas,  apavorados também em terra, enquanto circundavam a montanha.

Entraram rapidamente no castelo e reuniram-se aos outros convidados, também assustados com a inclemência daquela tempestade.

- Desculpem queridos, parece que a natureza não tem qualquer respeito pelas nossas agendas... mas não deixaremos essa tempestade horrível estragar todo o nosso final de semana... teremos nosso descanso, nossa diversão e nossa música; como merecemos... - ele sorriu simpaticamente. - Quero meus convidados felizes, como estou feliz em tê-los todos aqui... Tomei a liberdade de reservar a vocês os quartos que vocês usaram da outra vez que estiveram aqui... meus empregados irão ajudá-los com a bagagem... me perdoem, mas preciso agora localizar o Charlie e minha convidada especial madame Hublot... Nos reunimos daqui a pouco, às 6 da tarde aqui neste salão para um cocktail... Obrigado por estarem aqui...

- Obrigado por nos convidar, Mick... - David sorriu de volta, liberando todos para seguirem para suas suítes.

Clara e Jack subiram as imensas escadarias e seguiram até o belo quarto com sua imensa cama com dossel, tinha seus vasos cheios de muitas rosas cor de lavanda e tinha recebido um novo quadro, um original de Monet, da fase de Giverny, retratando um belo campo de lavandas, na frente do qual Clara parou imediatamente, boquiaberta.

- O que foi, amor?

- Este quadro.. mais um Monet...

- É um original? - Jack perguntou aproximando-se dela e abraçando-a por trás, com os olhos na tela. - Claro que é um original, ele faz tudo o que pode para te impressionar, não é?

- Ah, meu amor... me perdoa...  eu não tenho intenção de te magoar quando faço isso... eu e o Mick temos isso em comum, nós dois amamos a arte e...

Jack calou-a com um beijo, puxando-a pelas mãos até a cama, enquanto a despia. -  Eu preciso ter você agora...

Os dois se amaram com o desespero de quem acabou de ver a morte bem de perto, há poucas horas, naquele avião, que lutou tanto para escapar inteiro da tempestade que o cercava. Precisavam comemorar o fato de estarem vivos e ainda juntos, apesar de tudo.

- Menininha... - Jack quebrou o silêncio, enquanto descansavam depois da total entrega. - Eu sei que você me ama... sinto isso quando estamos juntos...

- E está certo... eu sou sua... Jack... você sabe disso... e é isso o que eu quero... ser sua...

- Você quer dizer que esqueceu dele definitivamente?

- Não... eu quero dizer que você me tem inteira com você, aqui, agora... como te sinto inteiro comigo...

- Mas isso significa...

- Isso significa o que disse... sempre que estou com você, estou inteira com você... e isso significa que você não precisa ter ciúmes de ninguém... ok?

- Eu estou tentando, querida... de verdade... - Jack deu um sorriso sem graça enquanto dizia isso. - Eu te juro que tento entender como você pode amar nós dois ao mesmo tempo... eu não consigo pensar em mais ninguém, nem em mais nada... já te disse que até a música me parece uma coisa tão pequena diante do que temos...

- Mas eu não quero isso, querido... nunca quis... quando você me fala esse tipo de coisa eu me sinto uma monstra que está te destruindo... eu estou aqui para te fazer feliz, lembra?

- E me faz, Menininha... muito...

- Não seria capaz de te tirar da música... sei que é ela que te mantem vivo, meu amor...

- Não... não é mais... é você...

- Ah, meu amor... não fala assim... vem... vamos nos arrumar, já são quase 6 da tarde... estou tão ansiosa para conhecer a história desse lugar...

- Você gosta dessas coisas, não Menininha? Arte, história...

- E você não gosta?

- Gosto... mas gosto muito mais de você...

- Vem amor... não gosto de deixar nossos amigos esperando...

Os dois vestiram roupas bonitas e quentes e desceram para o salão onde todos já estavam reunidos, em dois grupos, como de hábito, Cindy e Jennifer um pouco mais distantes da grande roda de músicos, falando de música, como sempre.

. - Querida... - Mick disse ao ver Clara aparecendo nos últimos degraus. - Quero apresentá-la ao Charlie...

- Senhora Noble! Finalmente! - Charlie levantou-se e caminhou até ela, beijando sua mão. - O Mick fala tanto de você que sinto que já a conheço...

- O Mick é um amigo muito querido... é uma honra conhecê-lo finalmente...

- Ah Jack, meu caro... sua esposa é mesmo uma princesa como os rapazes me disseram...

- Oi Charlie, meu velho, como vai? - Jack beijou-o no rosto. - Ela é sim... a mulher mais linda do mundo...

- Sei que não sou, queridos... - Clara sorriu. - Mesmo assim, fico muito feliz de ouví-los dizendo isso...

- Adorável... não? - Mick aproximou-se do grupo novamente.

- Tem razão...

- Ah, senhor Watts, o senhor é muito gentil... - Clara sorriu, um pouco encabulada e beijou-o no rosto. - Obrigada...

- Prefiro ser chamado de Charlie, querida... - ele sorriu e beijou mais uma vez a mão de Clara. 

Depois de pegar uma taça de champagne, Clara caminhou até onde suas amigas já estavam reunidas, conversando sobre o terror que sentiram no voo. - Querida, hoje você não estava sozinha em seu medo.... - Jennifer sorriu. - Quase morri também... acho que foi o pior voo da minha vida...

- Da minha também... - Cindy mostrou as mãos ainda trêmulas. - Acho que vou precisar de muito champagne para conseguir dormir esta noite...

- Estou um pouco mais calma agora, graças ao meu amor... - Clara suspirou. - Vou precisar muito dessa calma, amigas... o momento em que eu e o Jack teremos uma conversa definitiva com o Mick se aproxima, minha saúde está mais equilibrada, é a nossa melhor chance... o que é uma pena... porque ainda o amo muito...

- Você tem sorte de tê-lo tão apaixonado por você, querida... - Jennifer sorriu. - Antes de você descer, ele me disse que sabe da sua intenção de afastar-se e entende e respeita o seu relacionamento com o Jack, mas que vai doer muito ficar longe... Me deu muita pena...

- Ah, Jenni... - Clara suspirou já com os olhos cheios d'água. - Eu sei disso tudo... quero muito ter um tempo sozinha com ele para conversarmos direito... ele é tão carinhoso comigo e eu não consigo deixar de amá-lo...

Mick percebeu o olhar dela através da sala e sorriu. Desejava tê-la em seus braços, mas sabia qual era a sua intenção. Pressionada pelo marido, certamente ela pediria que se afastasse e ele o faria, mesmo que isso o destruisse. Assim, a teria ainda como amiga e poderia voltar a vê-la e com o tempo, quem sabe, poderia tê-la novamente nos braços, quando tudo se acalmasse.

Clara acompanhou Mick com os olhos, quando ele se afastou do grupo para atender o celular, voltando alguns minutos depois, de braço dado com uma bela mulher. Loura, alta, com enormes olhos azuis, a  historiadora Susan Hubllot, poderia ser facilmente confundida com uma modelo, mas era  professora de História Francesa na Universidade de Sorbonne, pesquisadora e autora de inúmeros livros sobre o assunto.

Sua maior especialidade era a nobreza francesa, duques, príncipes, reis; como  historiadora ela fazia pesquisas profundas e publicava biografias completas de muitos  personagens da época anterior à revolução, que transformou a França em uma república. E, a pedido de um dos antigos donos do Chateau St Jordan, ela também pesquisou longamente a história do castelo e da família nobre que lá tinha vivido por tantas gerações.

Foi por causa desse livro que Mick teve a ideia de convidá-la. Mais especificamente o capítulo dentro dele que tratava da história do Duque Jacques de Grimaldi, o homem que encomendou a pintura do afresco "O Idílio" para Rafaello Santucci, um promissor pintor renascentista que teria desaparecido logo após terminar o trabalho no castelo.

Mick caminhou dramaticamente até a frente da gigantesca lareira acesa do salão principal do castelo e apresentou a Doutora Hubllot para cada um de seus outros convidados. - Querida Clara, esta é a Doutora Susan Hubllot... Madame Hubllot, esta é Clara Noble... - Mick sorriu ao perceber nos olhos de Clara, um lampejo bem maior de ciúmes do que ele esperava. Estava muito feliz com sua sorte, além de profunda conhecedora da história de toda a região, aquela era mesmo uma mulher suficientemente bela para deixar Clara insegura.

- Muito prazer... - Clara disse em francês para a mulher que sorriu timidamente. Provavelmente sentindo-se embaraçada diante de tantas celebridades reunidas na mesma sala. - Então é a senhora que conhece a história completa deste lugar...

- Sim... - a mulher sorriu timidamente. - Fiz uma descoberta incrível, ontem, aqui, que mudará completamente os rumos de minha pesquisa...

- Mesmo? - Clara arregalou os olhos, curiosa. - Que descoberta?

- É uma surpresa, querida... - Mick sorriu. - Depois do jantar, todos vocês saberão...

Clara queria continuar a conversa, mas Mick levou a historiadora adiante, para apresentar às suas amigas que estavam reunidas no sofá, relatando para Patti Richards, que acabara de chegar com Keith Richards e Ron Wood, todo o sofrimento que tinha sido a viagem delas até o castelo.

- Clara, querida... - Jack chamou-a para perto dele. - O que vocês estavam falando?

- A doutora Hubllot me disse que fez uma grande descoberta, ontem, aqui no castelo... - Clara sorriu. - O Mick disse que ela escreveu um livro sobre a história dele. E eu estou morrendo de curiosidade agora...

- E o fato da doutora Hubllot ser linda, não te afeta nem um pouco, afeta?

- Não sei do que você está falando, querido... - Clara disfarçou.

- Você está com ciúmes agora porque o Mick a está levando para conhecer todos os seus amigos... ela é mesmo linda, não é?

- Ah, querido... sou assim tão transparente?

- É... - Jack sorriu. - Mas isso não é ruim... não se preocupa, meu amor... ele ainda te ama...

- É tão estranho ouvir você dizendo isso... - Clara pegou Jack pela mão. - Me perdoa por ter estragado tudo para nós querido...

- Ah, meu amor... - Jack agarrou-a e beijou-a. - Você não estragou nada... você é a melhor coisa que já aconteceu em minha vida...

- Eu te amo...

Enquanto os dois namoravam, o cocktail que antecederia o jantar continuava a ser servido. Mick conversava com Keith e Ronnie, enquanto a Doutora Hubllot respondia as muitas questões feitas a ela por David Mersey e Charlie Watts.

Como não podia deixar de ser, quando se tratava de Mick Jagger, o jantar foi sofisticado, combinando perfeitamente com o maravilhoso cenário daquele salão e seu teto ocupado pelo lindo afresco pintado por Rafaello Santucci.

Clara agora estava mais quieta, prestando muita atenção a tudo o que  a Doutora Hubllot dizia sobre sua pesquisa, tentando advinhar a tal surpresa que ela tinha prometido aos convidados de Mick para aquela noite.

Mick por sua vez parecia apreensivo, como se aguardasse o momento para dizer algo muito importante e estivesse ensaiando  mentalmente, sem parar, ainda com medo de perder a coragem.

Depois da sobremesa, uma mousse de chocolate, com calda de cerejas; foi servida junto com o melhor champagne, os convidados foram chamados por Mick para acomodarem-se na sala de televisão, no segundo andar do castelo, onde a Doutora Hubllot faria sua aguardada palestra especial sobre a história do castelo e finalmente revelaria a tal surpresa.

Acomodada em uma pequena sala com cadeiras de cinema, Clara agora segurava a mão de Jack o tempo todo, não sabia dizer o que era a tal surpresa, mas ficava mais preocupada a cada minuto que passava.

- O que foi, querida? Está com frio? Me dá essas mãozinhas que vou esquentá-las.... - Jack pegou as duas mãos de Clara e prendeu-as entre as suas. - Mick... será que não tem como aumentar um pouco o aquecimento? A Clara está congelando...

- Claro... vou providenciar... - ele disse caminhando até um dos cantos da sala e abrindo os controles do sistema de climatização. Além disso, pediu a um empregado para trazer uma manta para ela, que chegou apenas alguns segundos antes das luzes da sala se apagarem.

- Meus queridos amigos... - Mick sorria agora no pequeno palco, na frente da tela de cinema. - É um prazer recebê-los todos neste final de semana aqui nesta casa. Há alguns dias, eu tive um sonho que muito me intrigou... ele se relacionava a este castelo e à fascinante história do belo afresco de sua sala de jantar. Pesquisei então na internet atrás de mais pistas e foi lá que encontrei o nome da Doutora Susan Hubllot, que depois descobri ser a autora de um livro sobre este lugar e a família nobre que o ocupou através dos séculos... convidei-a para vir até aqui e depois que conversamos um pouco e contei a ela sobre o meu sonho e ela ficou tão curiosa com o que disse, que veio imediatamente para cá, ver se as informações que dei a ela por telefone estavam corretas... bem... mas acho que seria mais adequado que ela nos contasse sobre suas descobertas... com vocês, a Doutora Susan Hubllot!

Clara e seus amigos aplaudiram a doutora, enquanto Mick caminhava até a poltrona ao lado dela e do marido. - Continua com frio, querida? - ele sussurrou no ouvido de Clara discretamente, pegando sua mão e beijando-a.

- Melhorou, querido, obrigada... - ela respondeu com um sussurro também.

A doutora Hubllot aproximou-se de um púlpito que foi colocado sobre o pequeno palco por um dos empregados do castelo, apresentou-se e disse que antes de tudo, mostraria a eles um documentário feito pela BBC, há aproximadamente um ano,  e que tinha tido a colaboração dela no roteiro. E depois de falar brevemente sobre o documentário, a Doutora pediu que o projetor fosse ligado e ela sentou-se para assistí-lo junto com eles.

Clara estava agora tensa, olhava para a tela, sem conseguir sequer absorver todas as informações e a história que ela acompanhava, que ainda tinha cenas dramatizadas mostrando o drama completo do romance entre o Duque Jacques de Grimaldi e a pequena imigrante britânica Anne de Bretagne.

A versão dramatizada era a da lenda que parecia a mais aproximada daquilo que os historiadores tinham encontrado na documentação daquela região, livros, registros e a história contada de boca-a-boca através dos séculos.

O duque Jacques Grimaldi, depois de passar alguns anos em Versalhes, voltou para suas terras e como as encontrou em uma profunda crise, após um longo período de secas e invernos gelados, aceitou o casamento arranjado desde sua infância por seus pais, com Catherine de Villeneuve, a rica filha do Duque de Villeneuve.

Mas neste retorno, reencontrou sua namorada de infância, Anne de Bretagne, a filha do velho cavalariço de seu pai, um homem que tinha emigrado da Inglaterra, com a filha ainda muito pequena nos braços, depois de ver sua mulher queimada por bruxaria em uma fogueira.

Com pena da pequena e bela menina de cabelos vermelhos, a Duquesa de Grimaldi, decidiu criá-la junto com seus filhos e demais crianças nobres que viviam no castelo, por isso, ela recebeu a educação que apenas as damas nobres recebiam e estava pronta para frequentar até mesmo os salões de Versalhes.

Na adolescência, ela passou a ser a dama de companhia da Duquesa e o então Príncipe Jacques, em uma das muitas festas que aconteciam no castelo, começou a sentir-se cada vez mais atraído pela jovem e os dois criaram uma bela amizade, que com o tempo, transformou-se em um romance com consequências trágicas.

Quando a Duquesa soube do amor que seu filho tinha por sua dama de companhia, ela expulsou a garota e seu pai do castelo e há razões para acreditar que colocou um preço na cabeça dos dois, o que fez com que ambos passassem alguns anos escondidos em um vilarejo distante do castelo.

Inconformado com a atitude de sua mãe e acreditando que Anne estivesse morta, Jacques forjou uma carta de convocação do rei e partiu para Versalhes, onde passou muitos anos.

Com o tempo, e o patrimônio cada vez mais magro, pelas dificuldades econômicas causadas por uma longa seca na região, a Duquesa desistiu de seus planos e Anne e seu pai  passariam a ocupar novamente uma pequena fazenda, na estrada do castelo, onde cuidariam de uma grande plantação de lavandas, que o pai de Anne comercializava com os muitos perfumistas da região e que Anne tinha começado ela mesma a transformar em deliciosos perfumes... 

Clara agora não conseguia acreditar no que via e ouvia... o campo de lavandas, ela já o tinha visto em um sonho e agora, tinha a impressão forte de que sabia de tudo o que teria acontecido na curta vida de Anne de Bretagne, dali em diante e começou a chorar, quieta e discretamente, enquanto Jack a abraçava.

Os amigos de Mick aplaudiram o final do documentário, mas ainda não tinham ideia do que esperar das tais novas descobertas que a Doutora Hubllot tinha feito nos últimos dias, em que passou no castelo pesquisando.

- Obrigada, senhoras e senhores... - ela disse em um inglês com um forte sotaque francês. - Bem, não sei se todos aqui  perceberam que este documentário apenas reproduz a história oral que permaneceu, de personagens que viveram aqui neste castelo.
Até então, preenchíamos com a história oral, tudo o que nos faltou de documentação sobre a vida destas pessoas, que aqui viveram esse drama, cujo maior documento histórico ainda era a pintura feita no teto do salão de jantar deste castelo.

Conhecido como "O Idílio", este afresco, agora sabemos, foi encomendado a Rafaello Santucci, pelo Duque de Grimaldi, no ano de 1763; exatamente no mês de abril, quando o pintor terminou uma pintura encomendada pela igreja do vilarejo de St Jordan, o mais próximo daqui, naquela época e assim estava livre para assumir  seu novo encargo.
Que começou a ser realizado, exatamente no dia 23 de Abril de 1763. E esta exatidão é a grande e maravilhosa surpresa que o senhor Jagger me proporcionou.

Estava eu, prestes a dar mais uma aula na Universidade de Sorbonne, na manhã de ontem, quando um recado me foi entregue por uma das minhas auxiliares. Era um pedido para entrar em contato com o senhor Jagger, que eu sabia, havia adquirido recentemente o  castelo St Jordan.

Quando liguei para ele, desisti da aula que tinha para dar. Deixei tudo para trás e vim correndo para cá. Ele me perguntou especificamente sobre um dos móveis da biblioteca deste castelo, uma escrivaninha, que eu tinha usado por muitos dias, durante a pesquisa que fiz aqui, há seis anos, quando escrevi meu livro.

Mas a informação que ele me deu era diferente daquela que eu tinha. Ele me perguntou especificamente sobre um compartimento secreto, que podia ser encontrado no fundo falso da última gaveta do móvel. Naquele momento, o senhor Jagger não me disse que se tratava de um sonho dele, então imaginei que talvez o tivesse encontrado acidentalmente e corri para cá, chegando ontem, no final da tarde.

Mal cheguei aqui, corri até a biblioteca e exatamente na posição descrita pelo senhor Jagger finalmente encontrei o compartimento secreto e dentro dele, uma coleção sem preço de documentos históricos.

Este conjunto de diários, do Duque de Jacques de Grimaldi e este pequeno livro de capa vermelha, uma raríssima edição da "Lenda de Ceridwen e Berthold", que por sinal, está retratado no Idílio... é o pequeno livro vermelho nas mãos de Anne de Bretagne... - ela mostrou o detalhe na foto do afresco, usando a tela de cinema e uma caneta laser.

Bem... o senhor Jagger só me disse como soube do compartimento escondido na escrivaninha, quando chegou aqui e posso então concluir que foi pura sorte, para mim, como pesquisadora, que ele tenha sonhado com tal coisa. Assim... a partir destes diários, sei que poderei escrever minha melhor biografia de um homem nobre francês até hoje. E assim... só posso agradecer ao nosso anfitrião desta noite, por esta que é uma das mais importantes descobertas documentais da minha carreira de historiadora.

- Eu que agradeço, Doutora Hubllot... - Mick disse, levantando-se de sua poltrona, caminhando até o palco e apertando as mãos da historiadora. - Bem... como a doutora disse, tive um sonho muito vívido, na noite após a estreia do show da Crossroads e, porque ele me intrigou, decidi procurar mais dados sobre o castelo e encontrei na internet seu livro, doutora.

- Interessante, senhor Jagger... e viu então a escrivaninha em seu sonho?

- Vi mais... em meu sonho, entrava na biblioteca, abria o compartimento secreto e passava algumas horas escrevendo, à luz de velas nestes diários...

- Impressionante, Mick... - David decidiu que deveria falar. -  Isso só pode significar uma coisa, meu velho...

- Sei onde você quer chegar, Dave, mas não sei se acredito nestas coisas...

Depois do final da palestra da Doutora Hubllot, todos os convidados desceram para a sala de estar para aproveitarem a noite, com um fondue à beira da lareira. Para o desespero da historiadora, que temia que vinho e os petiscos servidos para os convidados, acabassem por destruir um dos frágeis cadernos, de onde ela aceitou ler algumas páginas, desde que continuasse usando luvas, com muito medo dele ser destruído, antes que pudesse tirar dele todos os textos.

A longa narrativa em um francês polido, emocionou Clara e Mick, que mesmo distantes um do outro, em lados opostos da sala, faziam um grande esforço para conter suas lágrimas, disfarçando-as para que ninguém percebesse.

- Que história linda... - Patty Richards também chorava quando a narrativa da Doutora Hubllot terminou. - Meu francês não é o mais perfeito do mundo, mas dá para perceber que ele a amava muito... que achado, o seu, doutora...

-  Verdade, senhora Richards... - Susan Hubllot era só sorrisos, depois de levantar-se das almofadas jogadas no chão, onde todos se sentavam e colocar seu precioso caderno a salvo em uma grande caixa de plástico, junto com os outros livros e documentos que tinha encontrado. Agora ela podia relaxar e aproveitar o vinho e a conversa perto da monumental lareira. - É uma história e tanto esta que tenho em mãos agora, graças ao senhor Jagger e será uma imensa oportunidade para mim... só tenho a agradecê-lo por me ajudar desta forma...

- Imagina, doutora Hubllot... - Mick sorriu simpaticamente. - Eu fico feliz em poder ser de alguma ajuda para a senhora...

- Me chame de Susan, por favor... acho que é o mais adequado nesta situação, sentada ao redor desta lareira tão agradável, no meio de pessoas tão notáveis... estou muito feliz de estar aqui...

- Está bem... Susan, meu nome é Mick... - Mick sorriu para sua convidada. - Mais vinho?

Aos poucos, as conversas em grupo, foram tornando-se mais íntimas e alguns dos convidados, resolveram aproveitar a noite fria para descansar da longa e penosa viagem até lá. Inclusive o anfitrião Mick Jagger, que discretamente, subiu para sua luxuosa suíte, levando pelas mãos sua mais nova amiga íntima, Susan Hubllot.

- Você ouviu o que a doutora disse, Menininha? - Jack e Clara eram os últimos ainda bebendo vinho, sentados na frente da lareira. - Então Berthold e Ceridwen são lendas...

- Você acha isso, Jack?

- Não sei mais o que eu acho, querida... Mas se não aconteceu...

- Se não aconteceu naquela época, está acontecendo agora... eu te amo tanto...

- Mas você também ama ele...

- Eu não sei mais, querido... sabe o casal da pintura?

- Sei... é uma outra história trágica...

- Tenho sonhado com eles... a história que a doutora Hubllot contou... eu a tenho visto em meus sonhos...

- Você acha que pode ter sido a tal Anne de Bretagne?

- Talvez...

- E o Mick era o tal do duque, não era?

- Não sei, querido... mas acho que sim...

- Faz sentido... quero dizer... vocês talvez tenham se reencontrado para terminar o que começaram...

- Não sei... mas acho que isso ajudaria a explicar muita coisa, não?

- Acho... aliás... vocês dois deveriam conversar sobre isso agora... o que ele está fazendo na cama com a tal da doutora?  Você está com ciúmes agora, não está?

- Não... seria uma tolice ter ciúmes dele... eu preciso esquecê-lo... só isso... - Clara não conseguia mais conter as lágrimas, estava muito magoada por tudo o que estava acontecendo naquele castelo e Jack carinhosamente se calava e a abraçava, oferecendo seu apoio.

- Vamos subir, querida? - Jack levantou-se e ajudou-a a levantar-se do chão. - Vamos descansar... amanhã tudo será melhor...

- Vamos, querido... - ela agarrou-se em Jack e com ele subiu lentamente a imensa escadaria do castelo, estava com medo de cair depois de beber bem mais do que sua cota do delicioso vinho vermelho encorpado que tinha sido servido no castelo por toda a noite.

Jack ajudou-a a trocar de roupas e abrigou-a com seu próprio corpo do frio que vinha das paredes de pedra do castelo.

As ondas do mar batiam violentas contra as pedras da praia, naquela manhã cinzenta e ela sentia muito frio e mais do que isso, sentia a falta dele, seu amado duque estava longe,  em Paris. E apesar de seus pedidos, para ficar escondida até seu retorno, ela não conseguia mais respirar dentro daquele pequeno quarto oculto atrás da parede, em uma casa qualquer da vila, que seu pai tinha arrumado para eles.

Precisava respirar e já que não conseguiria ir ao seu lugar favorito no mundo, o carvalho no meio do gramado, no jardim do castelo, ela caminhava na areia da praia próxima, mesmo sentindo que estava arriscando-se a ser vista por um dos assassinos da duquesa.

E assim que conseguiu caminhar até uma das pedras em que costumava sentar-se na praia, ela pegou o pequeno livro de capa vermelha e o abriu. As lágrimas corriam abundantes em seu rosto, de saudades e de solidão. Tanto tempo separados, sua gravidez já estava bem adiantada e logo ela daria a luz a um filho e aquele estava sendo um dos raros momentos de paz que tinha depois da partida de seu amado.

O livro a fazia sonhar, de repente, diante de seus olhos, a majestade das montanhas verdes de sua terra se erguiam, e os ventos quentes do verão traziam no ar o perfume do campo de lavandas em que Ceridwen se deitava, como ela, esperando pela volta de seu amado.

Como ela, Anne agora ouvia o som de cavalos aproximando-se ao longe; nem se preocupou muito, continuando com os olhos presos a beleza da história de amor que lia mais uma vez, achando que o som que escutava era apenas mais um delírio de seu coração já pesado de saudades.

Mas seu delírio parecia estar ficando mais e mais real, a medida que o som aproximava-se. Tirando finalmente os olhos do livro, ela viu dois cavaleiros aproximando-se, usando as cores do castelo da duquesa Catherine. Ela precisava agora de um esconderijo e rápido.

Lembrou-se da caverna de cristal, na ilha adiante, mas não tinha um barco e por isso, decidiu correr para entrar na mata, que rodeava o castelo, onde sua carroça estava escondida. Correu até ficar sem fôlego, chegou à carroça e pegou a pequena estrada que atravessava o campo de lavandas, onde tinha vivido com seu pai e a marca queimada de onde antes ficava seu casebre, servia para lembrá-la que estava correndo um enorme risco agora.

Seu cavalo era bom, mas os cavaleiros continuavam aproximando-se, cada vez mais rápidos. Desta vez não haveria escapatória, seu destino estava selado... e seu coração sucumbia de tristeza por saber que jamais veria de verdade o rostinho do filho de seu amado, com quem conversava todas as noites em seus sonhos... estava partindo da vida com o coração partido...

- Jack! - Clara acordou em prantos, assustada quando um raio caiu próximo do castelo fazendo um enorme estrondo. - Querido...

- Calma, meu amor... foi só um raio...

- Não... querido... não foi o raio... eu... eu... tive um pesadelo horrível...

- Vou pegar um copo de água para você... calma...

- Não... Jack... por favor... só me abraça...

- O que foi? O que você sonhou?

- Com a minha morte... eu era Anne de Bretagne... eu fui assassinada por dois soldados da duquesa... eles mataram meu filho... Jack... eu estava grávida...

- Calma, querida... já passou...

- A dor que eu senti, quando eu percebi que nunca o teria nos meus braços...

Jack a abraçava e chorava junto com ela. Seu coração estava em frangalhos, por ver a mulher que amava sofrendo tanto e por finalmente entender as ligações anteriores que ela tinha com seu rival. Para seu azar, elas eram muito mais profundas do que ele gostaria que fossem e ele agora sentia ainda mais ciúmes dos dois juntos.

- Calma, meu amor... vou buscar um copo de água para você... vai ficar tudo bem... - Jack levantou-se da cama e foi até o banheiro, onde pegou um copo de água para Clara. - Calma... respira fundo... acho melhor você tomar um daqueles comprimidos que o médico receitou...

- Ah... querido... me desculpa... eu não queria...

- Amor... fica tranquila... está tudo bem... estou aqui para cuidar de você... relaxa... deita em mim... eu quero te envolver no meu amor...

- Jack... - Clara beijou Jack com paixão e  envolveu-a com seus braços, como se quisesse distanciá-lo daquela dor.

- Querida... vou pegar seu comprimido...

- Não... não quero ficar dopada... me deixa sentir minha tristeza, Jack...  eles me mataram, mas o que mais me doeu, foi não ter tido a chance de ver meu filho nascer...

- Não pensa mais nisso, meu amor... Que tal irmos embora daqui, assim que amanhecer?

- Não precisa, amor... podemos ficar... eu prometo que não vou te incomodar mais... vou ficar bem quietinha no meu canto, lá no estúdio...

- Não, amor... não suporto te ver assim triste... vamos passar o resto da semana na nossa montanha...

- Vou melhorar... por você... pelo Mick e por nossos amigos que estão aqui também para ajudar a minha carreira... eu devo isso a eles...

- Meu amor... você não deve nada a ninguém... quero que agora você pense só no que é melhor para você... no que vai te fazer bem...

- Estar com você aqui, do meu lado, me faz bem, Jack... eu te amo...

- Ah, Menininha... se eu pudesse, arrancaria com as minhas mãos toda essa dor que você sente... acho que você precisa conversar com o Mick sobre esse sonho... é uma coisa que vocês viveram e precisam superar juntos...

- Você tem razão... mas não quero pensar sobre isso agora... Estou tentando organizar a minha cabeça e acalmar meu coração... esse sonho me deixou muito triste...

- Deita em mim... descansa, Menininha... vou te ninar, até que você pegue no sono novamente...

Com os olhos inundados de lágrimas, Clara beijou-o com paixão. Ela atirou-se nos braços dele e tentou relaxar, precisava distanciar-se da dor que estava sentindo. O carinho dele acalmou-a e os dois pegaram no sono  juntos e sonharam com um por do sol perfeito na sua montanha.

Acordaram emocionados e se amaram, lenta e apaixonadamente, afastando toda a dor que sentiram para longe.

Juntos tomaram um longo banho de banheira e desceram abraçados bem tarde, prontos para o brunch que já estava sendo servido no salão de jantar, sob o afresco, que Clara agora sabia, retratava o drama de sua vida anterior ao lado do Duque Jacques de Grimaldi.

Continua


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