21 de set de 2013

Rockstar - Capítulo CXLI


Sozinha no camarim, Clara não fazia muito além de rever os vídeos dela e de Jack publicados no Youtube e chorar. Por mais que Mick corresse em sua direção e sua Ferrari chegaria  a ser multada por excesso de velocidade no caminho até a Arena, nada parecia rápido o suficiente para acalmar o coração de Clara, triste, abandonado naquela imensa sala, sem ninguém para dizer-lhe que tudo terminaria bem.

Jack também sentia um peso enorme em seu coração. Sabia que era o sofrimento de Clara, sua dor, a culpa por não conseguir decidir-se por apenas um dos dois amores que carregava em seu peito.

Enquanto discutia com David, Mike  e Peters, mais uma vez, coisas que pareciam sem qualquer importância, como contratos de transmissão ao vivo para a TV a cabo de um dos shows da turnê, pelo qual receberiam mais alguns milhões, ele estava longe, pensando em seus sentimentos, na vontade que sentia de simplesmente largar tudo aquilo e voltar para os braços dela.

- Jack... você concorda com o contrato? Vinte milhões de dólares pela transmissão do show de Nova York? Jack?

- Velhão... será que não dá para responder?

- O que?... desculpa... estava longe....

- Percebemos, Jack... - Peters sorriu simpaticamente. Com toda a crise que Jack vinha atravessando nos últimos dias, o empresário frio e difícil, parecia ter se transformado em uma pessoa um pouco mais compreensiva e passara a tratá-lo de uma forma mais humana. - O que eu estava perguntando é se eu devo aceitar a oferta de vinte milhões de dólares pela transmissão do show de Nova York em pay-per-view...

- Velhão... eu acho que podemos conseguir mais...

- Então é isso, Peters... vamos negociar... quero ganhar cada centavo que eles puderem nos pagar... não pretendo continuar fazendo isso por muito tempo, por isso, é melhor conseguir todo o dinheiro que pudermos agora...

- É isso mesmo, Jack... - Michael Silver sorriu. - Agora que você voltou a esta sala, temos um pouco mais de força para negociar... e não é só sobre tirar cada centavo que pudermos, mas também sobre dar a nós mesmos o valor que temos...

- Está bem... quanto devo pedir então? Eu sinto que ainda existe alguma margem para negociação, acho que esse valor ainda está abaixo do que eles são capazes de pagar...

- Faça uma nova tentativa, Peters... - David sorriu simpaticamente, enquanto mantinha os olhos presos em Jack, preocupado com a expressão de tristeza e desespero em seu rosto.

- Então... estamos conversados? - David lutava para terminar logo aquela reunião, mas Peters trazia mais e mais assuntos para a mesa, queria mostrar a seus chefes que era um administrador zeloso, mas não percebia que quase matava Jack ao fazê-lo.

Os olhos de Clara já estavam bem inchados de tanto chorar, quando ela levantou-se do sofá para abrir a porta de seu camarim para Mick Jagger entrar.

- Trouxe para você, minha querida... - Ele disse assustado por encontrá-la tão triste novamente e entregando-lhe o bouquet de rosas e as duas caixas de chocolate que ele tinha acabado de comprar no caminho. - Ah, meu amor... vim correndo... vem... vamos colocar as flores no vaso,  lavar o rosto e conversar... não suporto te ver assim triste...

- Me perdoa querido... obrigada... - ela disse, lutando contra sua própria tristeza, tentando conter aquela sensação de que o fim estava próximo. - Obrigada, Mick... você não deveria perder seu tempo comigo, mas te agradeço muito por ter vindo e por me trazer estas flores tão lindas...

- Ah, meu amor... o que o Jack fez para você ficar tão triste?

- Nada... pelo contrário... é que... ah, Mick... estou me sentindo muito sozinha... ele precisa trabalhar e eu fico aqui, esperando por ele... e me sentindo uma monstra por não conseguir viver sem você...

Mick apenas sorriu, secou as lágrimas de seu rosto com as pontas de seus dedos. Depois arranjou as rosas que tinha trazido em um enorme vaso que encontrou junto com as flores que tinham chegado naquele dia e pegou-a pela mão, levando-a ao banheiro para lavar o rosto. Era seu jeito de cuidar de Clara, a mulher que amava, enquanto ela ainda permitia que cuidasse.

- Trouxe também chocolate, meu amor... vem... vamos comer um pouco... estou com fome... - Mick sorriu novamente, tentando tirá-la de sua tristeza. - Então... você quer me contar o que aconteceu?

- Ah, Mick... acho que estou enlouquecendo... pouco a pouco... acredito que é isso que acontece com quem não consegue controlar o que sente... com quem ama tanto quanto eu amo...

- Meu amor... calma... respira... vem aqui... - ele puxou-a para perto de seu corpo e abraçou-a. - Estou aqui para te ajudar... Vem... vamos sentar,  preciso te ver bem...

- Clara.... - Jack batia agora na porta do camarim de Clara. A reunião tinha terminado e ele queria ficar com ela, conversar como precisavam.

- É o Jack, querido... - Clara sorriu. - Preciso abrir a porta...

- Deixa que eu abro... - Mick levantou-se frustrado por não ter tido tempo para cuidar dela dessa vez. - Oi Jack...

- Oi Mick... não sabia que você estava aqui...

- Acabei de chegar... a Clara estava chorando muito e resolvi vir até aqui para cuidar dela...

- Chorando? - Jack  caminhou até a esposa e abraçou-a, preocupado. - O que foi, meu amor?

- Estou muito triste, querido... muito... me desculpa...

- Não peça desculpas, meu amor... calma... vai dar tudo certo... vamos ficar bem... Mick, por favor, cuida da Clara porque eu preciso resolver mais umas coisas para o show de hoje... o David está me esperando, só passei aqui para ver como estavam as coisas...

- Pode deixar que eu cuido, Jack... - Mick voltou a sentar-se onde estava antes de Jack chegar, pegando as mãos de Clara entre as suas e beijando-as. - Vamos conversar, comer um pouco e logo, ela estará bem... não é querida?

- Vou tentar... - Clara disse tentando interromper o choro. - Jack, querido... me perdoa...

- Meu amor... não tenho o que perdoar... fica em paz... por favor... - Jack saiu tentando controlar-se para não chorar na frente dela. Saiu pelo corredor indo rapidamente até o outro camarim.

- Querida... - Mick abraçou-a. - Calma... vamos conversar... estou aqui para te ouvir...

- Você viu? - Clara disse voltando a chorar. - Eu estou perdendo o Jack... ele vai me abandonar...

- Não vai, querida... hoje é dia de show... ele precisa trabalhar... não se preocupa... vamos conversar e eu vou te dar o carinho que você precisa... enquanto o Jack cuida do que ele precisa cuidar... ele não está te deixando... eu também não... descansa em mim, querida... - ele sorriu, beijando-a na testa. - promete para mim agora que vai tentar melhorar...

- Eu prometo... - ela tentou sorrir para ele, mas não conseguiu. - Obrigada querido... eu sei que estou chata, não deveria tomar seu tempo com as minhas bobagens...

- Bobagens? Não, meu amor... eu e o Jack queremos te ver feliz de novo...

- Mas ele desistiu de mim... você viu... ele foi embora...

- Fica tranquila, meu amor... calma... ele só ficou triste de te ver assim e por isso fugiu daqui para que você não percebesse...

- Você acha isso?

- Tenho certeza, minha querida... vamos fazer o seguinte? Você melhora, come alguma coisa e vai atrás dele... vocês conversam e tudo fica bem...

- Obrigada Mick... você é meu melhor amigo nesse mundo... - Clara sorriu. - Eu te amo...

- Também te amo... vem... vamos comer um pouco... - ele disse levando-a novamente até o banheiro. - Vamos lavar esse rosto lindo... e você vai ficar bem...

- Obrigada, querido... - ela disse quando ele abriu a caixa de chocolates e ofereceu a ela, pegando também um bombom. - Você acha que é isso? Que ele não quer que eu o veja triste?

- Tenho certeza... eu conheço seu marido... ele deve estar chorando agora no outro camarim...

- Você acha que eu devo ir até ele?

- Acho... mas melhora antes.... quer beber alguma coisa? Champagne?

- Quero... vou conseguir... quero melhorar para conversar com ele... não posso vê-lo triste...

- É isso mesmo, amor... você vai ficar bem... ele vai ficar bem e eu também ficarei... pronto... está melhor?

- Estou querido... preciso lutar contra essa dor porque o Jack precisa de mim agora... você me entende, não?

- Claro que entendo... E quero te ver feliz....

- Você me faz feliz, querido... por favor, me espera... vou conversar com o Jack e já volto...

Ela saiu pelo corredor e caminhou até o camarim dos rapazes, batendo na porta. - Jack... querido... posso falar com você...

David abriu a porta e ela entrou. Jack agora chorava sentado no sofá. David saiu discretamente deixando-os sozinhos e ela apenas caminhou até Jack e abraçou-o, sem dizer nada.

Ficaram lá abraçados, chorando até criarem coragem para conversar novamente.

- Meu amor... o Mick me disse que notou que você tinha saído do camarim chorando...

- Me desculpa, querida... quando eu vi o Mick com você... eu fiquei com ciúmes... por isso vim para cá... estávamos tão bem hoje...

- Estamos bem, Jack... eu estava triste porque não consigo deixar de lado tudo o que sinto e sei que estou te decepcionando...

- Não está, meu amor... eu é que não devo ficar sentindo ciúmes desse jeito... então... está melhor?

- Estou.... vem... vamos até o meu camarim... o Mick comprou chocolate para nós...

- Está bem... - Jack beijou-a. - Vamos lá... prometo que não terei mais ciúmes... não quero mais que você se sinta pressionada a deixá-lo...

- Você é muito querido, Jack... eu juro que estou lutando muito para esquecer tudo o que sinto por ele, mas está tão difícil...

- Eu sei, meu amor... não quero mais te ver lutando... relaxa e vamos seguir em frente... está bem?

- Está bem, querido... - ela sorriu e beijou-o. - Obrigada por aceitar o inaceitável....

Os dois voltaram ao camarim de Clara de mãos dadas e lá, comeram e passaram o resto da tarde conversando com Mick.

A segunda noite de show foi perfeita como a primeira, mas todos voltaram cedo para casa. Os parentes de Clara embarcavam para o Brasil, no dia seguinte, muito cedo  e ela fez questão de acompanhá-los no aeroporto, enquanto Mick e Jack continuavam dormindo.

O caminho de volta para Clara foi muito triste, ela não tinha conseguido dormir a noite inteira e com o momento de partir para o castelo se aproximando mais a cada momento, ela desabou no carro, chorando por todo o caminho de volta.

Aquela manhã estava gelada, como se repentinamente se lembrasse em que estação do ano estava, a chuva fina gelada e o céu cinzento pareciam ajudar a ilustrar a sua falta de horizontes naquele momento.

Continua 

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