2 de jun de 2013

Rockstar - Capítulo CXXXV


Ele sabia que alguma coisa estava muito errada assim que passou pelo casebre transformado em cinzas na estrada. No lugar de suas antigas paredes, marcas negras de carvão no chão, pareciam tentar esquecer que ali, um dia, alguém viveu.

O campo florido de lavandas, uma mancha roxa que serpenteava dobrada pelo vento, continuava ali, alheio ao drama de quem o tinha cuidado por tanto tempo. Mas o que teria acontecido com o casebre e com quem vivia nele? A visão o deixou apreensivo, quando foi para Paris, o pai de sua amada ainda vivia ali, apesar de seus convites para acompanhar a filha e voltar a viver no castelo, o velho cavalariço nunca se esqueceu dos anos que passou fugindo dos assassinos da velha duquesa e não conseguia confiar em seu filho.

O altivo senhor de toda a região, voltava para casa, sentindo seu coração pesado, uma sensação que tinha sentido durante todos os meses que passou em Paris; culpa daquela pequena bruxa que amava desde a infância, ela que o tinha ensinado como sentí-la, mesmo estando há muitas milhas de distância, agora, quando a buscava, consegua apenas sentir o vazio e um medo enorme que tinha se manifestado pela primeira vez quando ainda estava a serviço do rei, na Corte de Versalhes, onde passou pelo embaraço de ter que explicar uma crise repentina de choro que teve, diante de todos.
Se ao menos ela não fosse teimosa como seu pai e tivesse aceitado viajar com ele, estariam felizes agora, em Paris, e ele não estaria sentindo aquela enorme dor em seu peito.

- Vou ligar para ela... - Mick, acordou mais uma vez em uma noite em que não conseguia dormir por muito tempo, aquela era a pior crise de insônia que teve nos últimos tempos, pegou o celular em suas mãos pela terceira vez naquela noite, mas novamente, não conseguiu encontrar coragem.

Desistiu  do sono, levantou-se da cama e foi até o escritório pesquisar na internet. Precisava entender o que estava acontecendo e precisava ser logo, ele sentia que Clara estava cada vez mais distante e depois de vê-la tão feliz nos braços de Jack, naquela noite, pareciam não existir mais esperanças. 

E ele, que raramente se arrependia de alguma coisa, agora estava arrependido de ter ido passar a noite em seu apartamento. Deveria estar lá, perto dela, mesmo que a ouvisse gemendo de prazer nos braços do marido, no quarto ao lado, a noite toda, ele precisava estar lá. Mas já que estava em casa, podia tentar compreender o que estava acontecendo, o porquê daqueles sonhos estranhos com o castelo e com os amantes do afresco chamado "O Idílio".

Escreveu e-mails para o antigo dono do castelo e para um velho amigo, especialista em artes, perguntando onde poderia conseguir mais informações sobre a pintura e depois continuou sua pesquisa; encontrou um website sobre castelos da França e escreveu para a autora pedindo mais informações bibliográficas, pesquisando longamente, sem encontrar muito mais do que guias turísticos e catálogos das obras de arte que podiam ser vistas em cada um deles.

Para piorar, o castelo que agora era dele, ainda constava em um deles como um hotel de luxo, à disposição de hóspedes dispostos a pagar caro pela experiência de viverem alguns dias como reis, há poucos minutos da bela cidade de Nice.

Quando os primeiros raios de sol tocaram as janelas da biblioteca, ele ainda estava lá, agora enviando ordens para sua equipe do escritório para serem insistentes com as pessoas que contatou e que ele deveria ser avisado assim que qualquer novidade surgisse.

Sentia que precisava daquela informações, mas não saberia exlicar o porquê. Exatamente ele, que sempre foi tão racional, tão desprovido de crenças e misticismo, sentia que talvez eles fossem sua última esperança de continuar ao lado da mulher que amava.

Muito cedo também, a casa de Jack e Clara se agitava, depois de uma das noites mais perfeitas de suas vidas, eles desciam a escadaria para dividir a mesa do café da manhã com uma família barulhenta que agora trocava histórias e impressões sobre o show, a festa e a preparação para o embarque de volta ao Brasil, na manhã seguinte.

- Bom dia... - Clara disse sorrindo, assim que chegou à mesa. - O Mick ainda não acordou?

- Ou isso, ou madrugou... - Jack sorriu. - Bradley, onde está o senhor Jagger?

- Não sei, senhor... ele  não retornou à casa, desde ontem, quando saiu de manhã...

Clara não conseguiu disfarçar a expressão de preocupação e Jack a de alegria. - Já sei... você vai ligar para ele... - Jack disse rindo. - Ah, amor... você o conhece... tinha uma porção de modelos naquele camarim ontem... ele deve estar agora escolhendo uma nova girafa para namorar... certamente está tudo bem, querida...

- Ah Jack... não fala assim... você sabe que fico preocupada...

- Me perdoa, Menininha... mas estamos tranquilos, felizes... tivemos uma noite tão maravilhosa... você nem está mais doente... além disso, da última vez que chequei, ele era um homem livre e com vida própria, não?

- Acho que sim... - Clara suspirou, serviu-se de  um copo de água levantou-se da mesa, sem comer nada, deixando seus parentes e amigos todos surpresos e preocupados.

- Jack... ela não comeu nada? - Jonas traduziu a pergunta de Paulo para Jack que continuava na mesa. - Vocês brigaram?

- Não... deixa eu terminar meu café, já  vou atrás dela... não se preocupe... não é nada... - Jack sorriu.

- Minha filha ficou nervosa porque o Mick não está aqui hoje... - Dona Ana disse em bom inglês para Jack, que apenas balançou a cabeça discretamente, confirmando aquilo que ela disse. - Filho, por que você não liga para ele? Pede que ele volte para cá... ela ainda está confusa demais, deve estar achando que foi abandonada... 

- O que foi, Ana? - Paulo perguntou, sem entender o que a esposa dizia. - O que o hippie aprontou dessa vez?

- Nada, querido... nada... Onde vamos hoje? - Ana perguntou para Jonas, tentando mudar de assunto. - Todos precisamos deixar a bagagem arrumada ou vamos nos atrasar para o voo amanhã cedo... e não podemos... a Clarinha me disse que o trânsito para o aeroporto, de manhã é infernal...

- Eu quero fazer compras, mamãe... - Ciça respondeu rápido. - A Clara me prometeu ontem que me levaria para comprar umas roupas boas de inverno, aqui em Londres...

- Eu também, vou fazer compras, Dona Ana... combinamos ontem, na festa... - Renata também disse. - Vou comprar uns presentes para levar para casa...

- Com licença... vou atrás dela... - Jack disse, levantando-se da mesa e pegando o celular. - Obrigado, dona Ana... acho que a senhora tem razão, ela precisa dele ainda...

- Bom dia, Mick...

- Oi Jack... bom dia... como ela está?

- Confusa... triste... preocupada... mesmo depois de ter uma noite linda ao meu lado... Cara... ela já não comeu nada no café da manhã... você sabe o que isso significa, não sabe? Se ela ficar mal de novo, eu te arrebento...

- Calma, Jack... já vou para aí... achei que vocês estivessem bem... quer dizer... achei que... desculpa... vou me vestir e já vou para aí... quer que eu fale com ela?

- Não... eu falo... ela nos deixou falando sozinhos na mesa do café e foi para o jardim... vou atrás dela agora... desculpa, cara... mas não sabia o que fazer...

- Eu sei... vai lá cuidar dela... desculpe, não esperava por isso... não hoje...

Jack desligou o celular, sabia onde procurar por ela e atravessou o gramado até o mesmo carvalho que ela costumava usar como abrigo... dia após dia... sentando-se a sua sombra para tentar relaxar, chegar a conclusão dos impasses que a torturavam...

- Oi Menininha... - Jack disse, dando um sorriso e sentando-se ao lado dela, aos pés da árvore.

- Oi, meu amor... mais uma vez te decepcionei, não?

- Claro que não, querida... - Jack envolveu-a com seus braços. - Nós tivemos a noite mais linda de nossas vidas ontem... não sei quanto a você, mas eu me senti tão feliz que... acho que não tenho palavras para explicar... você foi minha e eu fui seu... acho que nunca tinha experimentado nada parecido... uma plenitude tão grande...

- Ah, Jack... você vê... me sinto uma monstra por estar estragando tudo... sabe o que senti na noite passada? - Clara disse chorando muito.

- Minha vida... não chora assim...

- Eu... eu me senti grávida... desejei muito ter feito o nosso filho na noite passada... de tão feliz que eu estava... e agora...

- Não se preocupe, minha vida... tenha certeza que eu entendo, é natural,  até ontem você chorava de amor pelo cara... mesmo com o que tivemos, não podia esperar que hoje ele sumisse e você simplesmente sorriria para mim e diria, tudo bem... já o esqueci... você não é assim... o relacionamento de vocês é importante... eu sei que ele não vai terminar assim...

- Ah, meu amor... me perdoa... mas ele...

- Olha, amor... vou te explicar o que aconteceu... ele me disse que nos viu juntos ontem, na festa...

- Você falou com ele?

- Liguei para ele antes de vir para cá... ele me disse que está vindo te ver...

- Você não devia ter feito isso... agora ele vai achar que estou desesperada por ele...

- Não, querida... ele não vai achar nada...  Ele me disse que achou que estávamos bem e que era melhor afastar-se, só isso...

- Foi o que ele disse?

- Falamos muito rapidamente, eu contei para ele que você ficou triste quando descobriu que ele não estava aqui e ele me disse isso, que estávamos tão bem que ele achou melhor afastar-se... mas disse que viria para cá, em seguida...

- Não queria que isso acontecesse... estou muito triste... porque agora entendi que o que aconteceu entre nós dois tem um destino certo... terminar assim... eu e ele teremos que esquecer tudo e continuarmos nossas vidas... acho que estou sentindo a dor do fim agora... o vazio... ah, Jack... eu vou entender se você quiser se afastar... eu sei que é muito difícil insistir em uma relação com alguém como eu... assim confusa, chata...

- Linda, doce... o amor da minha vida... ah, querida... se afastar-se de mim for o que você precisa para ser feliz...

- Não... não vou ser feliz longe de você, nunca... eu preciso de você comigo... mas estou preocupada com sua felicidade...

- Eu sou feliz... você não pode duvidar disso depois do que vivemos na noite passada... estou ainda te sentindo na minha pele, meu amor... eu te amo... muito... como disse... só me afastarei se souber que isso vai te fazer feliz... está bem?

- Ah, meu amor... - Clara abraçou Jack novamente e os dois se beijaram, ainda unidos por um sentimento muito forte e cada vez mais indestrutível.

- Vamos lá para dentro? Estou aflito porque você não comeu nada...

- Está bem... vou comer... pior que tinha combinado com minha irmã de sair para fazer algumas compras...

- Mas vocês podem ir... querem que eu acompanhe?

- Não, amor... não precisa... acho que será mais fácil se formos só nós...

- Vocês vão, mas eu quero que um segurança acompanhe... vou ligar para o Khaled... agora, ele leva vocês e acompanha pelas ruas... agora você é uma estrela, Menininha e as pessoas podem ser perigosas para você...

- Ah, meu amor... não sou uma estrela... continuo sendo só sua mulher... e sei que sou muito ruim nisso...

- Você é o amor da minha vida... a mulher mais linda que existe nesse mundo...não me importo que você ame outro homem, desde que você me ame também, eu estou feliz... só fico preocupado quando te vejo assim triste... meu amor...

- Está bem... vem... vamos para dentro... combinei com minha irmã e minhas amigas de sair para umas compras hoje... não quero decepcioná-las mais do que já decepcionei...

- Amor... todo mundo te ama... vou pedir para o Khaled te levar... vou pedir um segurança também... acho que depois de ontem, vocês podem ter alguma dificuldade para andar por aí... não quero ver minha Menininha passando nervoso de graça...

- Você acha, amor?

- Não acho... tenho certeza... você vai ver... hoje você vai sentir... as pessoa te... olha, amor... eu não vou contar como é... você vai sentir...

- Eu te amo, querido... você é muito bom para mim... muito mesmo...

- Ah, amor... vem... precisamos ir para a Arena no fim da tarde... é melhor você entrar, comer alguma coisa e se preparar para sair...

- E o Mick?

- O que tem ele?

- Você me disse que ele vem para cá...

- Vem... mas acho que vocês não vão brigar, vão?

- Não... não tenho intenção de brigar com ele... mas como eu te disse, estou chateada... não esperava que isso acontecesse tão rápido... e que ele desistisse de mim, assim, sem sequer falar comigo...

- Ah... querida... fica tranquila... não acho que tenha sido isso... acho apenas que ele ficou com ciúmes...

- Vamos para dentro, amor... vou me arrumar para sair com minha família... se ele chegar a tempo, converso com ele, se não chegar, conversamos mais tarde, quando eu voltar...

- Hum... você está brava com ele... - Jack sorriu. - Pobre diabo... ele vai ouvir muita coisa hoje, não vai?

- Não sei... quero só conversar com ele... entender o que aconteceu... daí vejo o que farei...

- Tudo bem... só não quero te ver mais triste...

Os dois entraram em casa e enquanto Clara combinava com a família a saída para compras, Jack fazia os contatos com o escritório e pedia os serviços de Khaled e mais um segurança para levar Clara e sua família para as compras.

Mas antes, Jack a fez comer um sandwiche de roastbeef bem recheado e beber uma vitamina de frutas que ele mesmo bateu, além de tomar todos os comprimidos receitados pelo doutor Lanee para controlar sua anemia.

E depois que ela subiu para tomar banho e vestir-se, ele ainda ligou para Michael Peters e David Mersey, para saber se existia alguma novidade para o segundo show e foi informado que não, que tudo estava tranquilo e que a reação geral à estreia tinha sido avassaladora e o empresário tinha recebido mais dez propostas de show, só naquela manhã.

Continua

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