14 de mar de 2013

Rockstar - Capítulo CXXI


Agora que o príncipe Jacques estava de volta ao castelo era só uma questão de tempo até ele começar a passar diariamente com seu cavalo, pela estrada próxima do casebre em que Ann vivia com seu pai, sempre esperando pelo momento em que a encontraria sozinha em casa.

Assim, em uma bela manhã de outono, quando a carroça que o pai dela usava para levar os fardos com flores até a vila, não estava onde costumava ficar, ele decidiu que podia aproximar-se.

Anos tinham se passado e ela poderia estar casada agora, ter tido filhos, mas se os boatos de que era a filha de uma mulher queimada na estaca por bruxaria já afastavam qualquer pretendente daquela região, ter passado alguns anos escondida na vila, fugindo dos assassinos contratados pela duquesa de Grimaldi para matá-la, adicionavam um peso extra à sua condição e contribuíam para que mesmo bela e educada como uma dama da nobreza, ela continuasse presa a seu pai.

Para o príncipe, apesar dos anos que tinham passado, ela continuava linda. Mesmo com as vestes de camponesa que usava agora,  ela ainda  iluminava tudo ao redor quando chegava.
Quando era dama de companhia da duquesa, ela era a mais admirada de todas as damas dos salões que frequentava, pairando leve como uma borboleta, vestida em sedas finas e com suas maneiras impecáveis, era confundida com alguém de berço nobre, culta, bela e talentosa, cantava como um anjo, tocava piano muito bem e surpreendia a todos quando revelava ser apenas a filha do cavalariço do Duque, alguém sem berço ou  posição social.

Sua atual aparência era  muito menos polida e por isso, ainda mais atraente aos olhos do príncipe,  seus longos cabelos ruivos antes escondidos sob as perucas da moda,  voavam ao sabor do vento, a pele muito branca, os lábios carnudos e os enormes olhos azuis, faziam dela quase uma das criaturas selvagens da floresta,  mas suas maneiras ainda suaves de dama bem educada, a deixavam parecida com as tais fadas que os antigos costumavam ver  entre as árvores, ou um anjo, como os que estavam pintados nas paredes da capela do castelo.

Ainda lembrava-se em detalhes de tudo o que tinham vivido juntos e os últimos momentos de dor absoluta, quando a julgava morta pelas ordens cruéis de sua própria mãe.

Não conseguia perdoar sua mãe por mandar matá-la e mesmo depois de descobrir que ela estava viva, escondida em uma casa muito humilde, na vila, sua dor o fez desejar afastar-se para sempre do castelo.

Escolheu para si mesmo o caminho da covardia e da desonra, fugiu do  casamento que seus pais haviam decidido para ele e  pediu a um amigo que falsificasse uma mensagem do Rei da França, convocando-o para a guerra.

Discutiu muito com seus pais sobre seu dever de servir o Rei e finalmente partiu, levando consigo ouro dos cofres de seu pai,  seguiu para a Corte, onde passou anos vivendo como bem entendia, até sua mãe mandar-lhe  uma carta avisando que seu pai, o Duque de Grimaldi, estava morto e que o castelo agora pertencia a ele.

Aquela morte era providencial para seus planos, agora que suas indiscrições com a Marquesa de Vaublanc tinham sido descobertas, sua situação em Versalhes não poderia ser pior: A moça em questão também se dizia, era a amante favorita do  rei.

Seu castelo, na província era suficientemente distante de Paris para dar-lhe alguma segurança, depois de tornar-se persona non grata na corte.

Mas também no castelo existiam pendências que ele não esperava encontrar.

Nos últimos anos, os cofres do Duque quase não tinham mais ouro e, seus campos, afetados por uma longa seca, não produziam mais o suficiente para enchê-los novamente.
As vilas ao redor morriam, perdendo sua população para lugares mais ricos e a grande casa de Grimaldi estava fadada a um fim, caso ele, o único descendente do Duque, não se casasse e não tivesse filhos.

Amigos de sua família há muito tempo, o Duque e a Duquesa de Villeneuve tinham ajudado a Duquesa de Grimaldi durante toda a doença do Duque e esperavam por uma retribuição, embora soubessem de tudo o que tinha acontecido na corte, eles queriam que Jacques cumprisse a  promessa de casar-se com a princesa Catherine, unindo assim os dois castelos.


Para Jacques o cerco estava fechado, se antes tinha conseguido escapar do casamento, agora certamente não conseguiria e não valeria a pena nem tentar, seu destino estava selado e o casamento com Catherine era uma questão de mais alguns dias.

Nos anos que passou escondendo-se dos assassinos da Duquesa, Ann aprendeu que nunca deveria abrir a porta para estranhos, mas Jacques não era um estranho e quando ela abriu a porta para ele, logo ficou prisioneira de seus braços e envolvida por eles, recebeu seu primeiro beijo de amor, depois de tanto medo e espera...

Clara abriu os olhos assustada. Olhou para as janelas, banhadas pela luz dourada do sol e percebeu que o dia já tinha amanhecido. Também ouvia a  suave melodia que os pássaros faziam nas árvores ao redor de sua casa.
Sem lembrar-se exatamente o que tinha sonhado, sentou-se na cama e olhou para as próprias mãos, não sabia por que, mas esperava  vê-las com as unhas sujas e as muitas calosidades dos anos de trabalho no campo; mas suspirou aliviada ao ver  sua aliança de ouro e seu anel de diamante, os "olhos de Jack" e sorriu ao vê-lo adormecido na cama, ao seu lado.

Continua

Nenhum comentário: