24 de fev de 2013

Rockstar - Capítulo CXVIII



- Eu te amo, Menininha... eu te amo...

- Querido... me perdoa... não quero te deixar triste... vou melhorar, você vai ver...

- Eu sei que vai... agora vem, amor... precisamos ensaiar... quero voltar logo para nossa casa, cuidar de você...

Mal os dois se levantaram e já se ajeitavam para sair do camarim, quando Peters bateu na porta. - Jack, Clara, posso entrar?

- Entra, Peters... - Jack respondeu.

- Olha, amigo... da próxima vez vocês me avisam, ok? - Peters disse com um ar contrariado, assim que Jack abriu a porta.

- O que foi?

- Acabo de ter um problema enorme lá fora com a segurança... achei até que fosse algum tipo de atentado que estávamos sofrendo, até receber um telefonema do Mick Jagger dizendo que a tal ambulância,  tentando entrar no estúdio de qualquer maneira, tinha sido enviada por ele... por que vocês não me disseram nada?

- Porque não sabíamos... o Mick não nos disse nada também... - Clara disse, caminhando até sua bolsa e pegando o celular. - Vou ligar para ele...

- Jack, o que está acontecendo aqui? Posso saber?

- Nada... o Mick contratou esse especialista em sangue, para cuidar da Clara e, bem, acho que ele percebeu que minha mulher está doente e precisa de um médico por perto, para subir no palco... acho que é isso...

- Mas por que o Mick? Os dois estão juntos, é? - Peters perguntou a queima roupa.

- Não é da sua conta, Peters... - Jack respondeu rispidamente. - Só autoriza a entrada, que eu falo com eles... 

- Desculpa Peters... - Clara interrompeu o que poderia rapidamente transformar-se em uma briga. - Acabei de conversar com o Mick e ele nos mandou mesmo uma ambulância... é uma equipe do doutor Pat Lanee que ficará a minha disposição durante os ensaios e os shows, caso eu me sinta mal...

- Então está bem... vou liberar a entrada deles no estúdio... por favor não façam mais isso, preciso saber de tudo o que está acontecendo aqui, ou essa turnê corre riscos sérios...

- Nós também não sabíamos, desculpa, Peters... ele também não nos disse nada... - Clara sorriu, enquanto Peters deixava o camarim, falando com a segurança pelo rádio.

- O Mick não devia ter feito isso... - Jack disse pegando-a pela mão e voltando com ela para o sofá.

- Eu sei, querido... ele me pediu desculpas, disse que só lembrou quando estava no escritório e pensou apenas no meu bem estar...  ligou para o doutor Lanee e ele providenciou o envio da ambulância, para ficar de sobreaviso, caso eu tenha algum problema...

- Me desculpa, querida... eu me deixei levar pelo momento, ele está certo, é melhor termos recursos para te ajudar, caso você passe mal novamente... vou ligar para ele, para conversarmos... - Jack pegou seu celular, falou com Mick por alguns minutos, enquanto esperavam pela chegada da equipe médica no camarim. 

Depois de conversar com o médico, que era um dos sócios do Dr Lanee e a mesma enfermeira que já tinha colhido o sangue de Clara, de manhã;  Jack e Clara finalmente chegaram ao palco, onde toda a banda já esperava por eles.

- Vamos trabalhar um pouco, Velhão? - David disse no microfone, já impaciente, com sua guitarra ligada e pronta para começar a tocar.

Clara desceu do palco e sentou-se na cadeira reservada para ela, na plateia, enquanto sua amigas, já preocupadas com ela, perguntavam o que tinha acontecido.

Mas a música começou, e assim que o  "rolo compressor" da Crossroads começou a rodar,  não havia mais nada a se dizer ou comentar, apenas aquela música e a beleza que ela invocava. Penetrando nos poros, arrepiando a pele e fazendo Clara voltar a chorar cada gota de água que ainda restava em seu corpo.

Cindy, impressionada com o choro, pediu a um roadie que trouxesse uma garrafa d'água. - Você está bem, querida?

- Estou bem, Cindy... é que a Crossroads sempre me emociona muito...

- A mim também, querida... - Cindy sorriu.

No palco, David parou o ensaio, logo após o final da primeira canção. - Jake, eu acho que essa caixa da esquerda morreu... abre mais o volume dela aí...

- Para mim também, Jake, todo o lado esquerdo está parecendo desligado...

- Espera aí, Jack... acho que é um problema aqui na mesa... vamos parar para arrumar, já recomeçamos...

David e Jack desceram do palco e caminharam na direção de Clara e Cindy. - Como você está querida?

- Bem, amor... Estava lindo, você me emocionou muito agora cantando "Rockin' Over"... estou toda arrepiada...

Jack agarrou-se na esposa e beijou-a.

- Velhão... a coisa hoje parece que vai longe aqui... Princesa, você está bem?

- Estou Dave...

- Olha, querida... estava aqui pensando... acho que você precisa descansar, para sentir-se melhor amanhã... o que você acha de passarmos a sua música assim que eles disserem que as caixas voltaram a funcionar?

- Não sei... Jack? O que você acha?

- Acho uma boa ideia, Dave... estou aflito porque sei que isso aqui vai demorar muito... sempre tem alguma coisa que não funciona, ainda mais hoje, com essa história de telão...  Aliás, de quem foi a ideia dessa coisa? Quero mais ventiladores aqui na frente, olha como eu já estou suado... Jake... espera um pouquinho, amor... vou falar com o Jake ali embaixo para ver se dá para colocar mais ventiladores aqui...

- É, Princesa... o Jack sempre foi assim... meio complicado na hora de passar o som, mas a gente o ama assim mesmo... - David sorriu.

- Ele tem razão... esse telão deixa o palco muito quente... aqui, tudo bem... está o que, uns dez graus lá fora?

- Por aí...

- Agora imagina quando o show chegar no Brasil, por exemplo... em um estádio, 30 graus lá fora... Aqui em cima teremos pelo menos uns 50... - ela disse tirando o casaco de couro que estava usando até então e entregando-o a um roadie.

- Ela tem razão, Dave... - Silver disse aproximando-se dos dois, com uma garrafa de água nas mãos. - o palco está lindo, mas vai cozinhar-nos vivos, se deixarmos... imagina o coitado do Clarke, que está ainda mais perto dessa coisa... Paul... está muito quente aí?

- Oi, Silver... está sim... já pedi mais três ventiladores, mas acho que só vai melhorar mesmo se trouxermos a bateria um pouco mais para a frente...

- Vou lá embaixo falar com o Jake....

A parada demorou mais alguns minutos e enquanto o palco recebia mais ventiladores e a bateria era puxada alguns metros para a frente, todos aproveitavam a temperatura mais agradável do camarim para relaxar.

Alguns minutos depois, Michael Peters batia na porta e todos caminharam juntos pelos corredores que levavam de volta ao palco, Clara apoiavasse em Jack, ainda sem muita confiança em suas próprias pernas.

- Então, Menininha... vamos cantar? - ele sussurrou em seu ouvido. - está pronta?

- Estou meu amor... - ela respondeu e beijou-o no rosto, enquanto ajeitava-se em um dos três banquinhos sobre o palco.

De lá dava para ouvir os gritos de Michael Peters com o set designer, reclamando de sua total falta de consideração com os músicos.

- Jake, vamos passar "The Light" agora,  a Clara  precisa ir para casa descansar, então pessoal, a temperatura está melhor? Tudo funcionando?  - David disse. - Luzes? Telão? Johnny, me traz a acústica de 12...

Enquanto um exército de roadies se mexiam ao redor, deixando tudo pronto, Clara procurava acalmar-se, pensando apenas em sua tarefa. Pegou a mão de Jack e segurou-a firme e quando a música começou a soar, prestou atenção na letra que corria no teleprompter e soltou a voz no microfone a sua frente, tensa, com muito medo de errar e envergonhar seus amigos diante daquele exército de funcionários que tinham parado para vê-los cantar.

- Perfeito! - David sorriu assim que as últimas notas da música soaram, no enorme galpão vazio. - Princesa... eu te amo!

- Ah David... obrigada! - Ela sorriu, levantou-se do banquinho, abraçou e beijou Jack e seguiu para o camarim, não queria que vissem que estava chorando muito, ela seguiu sozinha pelo labirinto de corredores, enquanto ouvia ao longe a Crossroads passando mais uma música, a balada "Song of the Woods", a próxima no setlist do novo show e sua favorita.

Concentrada no que fazia, ela foi até o camarim, pegou sua bolsa, conversou com Peters e pediu a ele para combinar com a equipe médica  os detalhes de sua presença nos bastidores do show na O2, no dia seguinte, também pediu um motorista para levá-la de volta para casa. Por mais que quisesse continuar por lá e acompanhar os ensaios, era melhor para sua saúde que voltasse para casa e descansasse, pois já começava a sentir que suas pernas não estavam mais tão firmes quanto antes.

Da lateral do palco, ela acenou para Jack e foi embora, acompanhando Peters até a limusine, pronta para levá-la para casa. Estava triste,  mas aliviada.

Mal o carro começou a rodar na rodovia que a levaria de volta a Londres, seu celular começou a tocar, era Mick, querendo saber se tudo estava bem.

- Está tudo bem, querido... os rapazes disseram que o ensaio seria muito demorado, então nós passamos a minha música e já estou voltando para casa...

- Vou para casa também, querida... não quero deixá-la sozinha... - Mick disse preocupado.

- Não precisa, querido... vou comer alguma coisa e me deitar, não tem muito que eu possa fazer aqui sozinha, afinal...

- Não, meu amor... eu estou indo para aí... quero cuidar de você...

- Está bem, querido... estarei esperando então...

Assim que chegou em casa, Clara foi até a cozinha e pediu para a cozinheira preparar uma sopa de legumes bem leve para o almoço. Os remédios e o stress de sua condição já começavam a dificultar sua digestão, contribuindo para uma sensação quase permanente de mal estar. Pediu também um filé de salmão grelhado, com molho preparado a parte e uma salada, para que Mick tivesse a chance de alimentar-se bem também.

Pediu também uma boa quantidade de frutas para a sobremesa, seguindo a dieta indicada para ela a risca.

Depois de apenas alguns minutos, Mick chegava em casa, com um vaso com uma bela e rara orquídea nas mãos. - Boa tarde, minha querida... - ele sorriu. - Os rapazes me disseram que sua estufa está quase pronta, resolvi trazer essa pequena contribuição para embelezá-la...

- Que linda! Obrigada, querido... - Clara abraçou-o e beijou-o no rosto, mas ele virou-se e beijou-a na boca, um beijo apaixonado que deixou Clara momentaneamente sem ação.

- Mick, por favor... - ela suspirou.

- Desculpe... não queria deixá-la nervosa... é que eu ainda te amo, sabe?

- Também te amo, querido... mas não quero trair mais o Jack... lembra?

- Está bem, querida... tenho que pedir desculpas não só por isso, não é? Eu não pensei, só me lembrei de repente, que você estaria lá, naquela distância, frágil, emocionada e mandei uma equipe médica para te ajudar, caso tivesse problemas... o Jack ficou irritado comigo... não quis passar por cima dele, nem de ninguém...

- Eu sei, querido... mas o Peters ficou fazendo perguntas... ele ficou nervoso, não quer que o resto do mundo saiba sobre o que está acontecendo nesta casa. 

- Meu amor... eu quero cuidar de você, se pudesse te pegava no colo e ficava aqui, fazendo cada uma de suas vontades... você seria a garota mais mimada de todo o mundo...

- Já sou... - Clara sorriu e acariciou o rosto de Mick.   - Obrigada, querido...

- Eu te amo... - Mick puxou-a para mais perto de seu corpo e mesmo lutando contra as mãos dela que agora o empurravam, ele beijou-a novamente e passou a percorrer com suas mãos suas coxas e a abrir os botões de sua blusa.

- Não Mick... por favor...

- Eu sei que você quer...

- Não podemos, meus empregados... eles podem vir  aqui a qualquer momento... por favor...

- Vamos para o meu quarto então... vem... preciso de você agora... - Mick levantou-se, pegou-a no colo e carregou-a até o quarto improvisado para ele, na sala que ainda aguardava pelos aparelhos e acessórios que a transformariam em uma academia.

No colo de Mick, Clara chorava, mas não conseguia mais ignorar o desejo que sentia de entregar-se novamente àquele amor que a enlouquecia. Dentro do quarto, com as portas trancadas, os dois se amaram e depois descansaram nos braços um do outro.

Ela decidiu que desta vez não contaria nada a Jack sobre o que tinha acontecido, afinal, naquele mesmo dia tinha se recusado a entregar-se a ele, na limusine, rumo ao estúdio onde foram ensaiar e agora estava lá, na cama com Mick.

E se ela era o lado fraco daquele casamento e não conseguia mesmo resistir àquele desejo, era sua obrigação afastar-se e deixar Jack livre para fazer o que quisesse.  Quanto a ela, ficaria nos braços de Mick até que tudo terminasse; não colocava muita fé que aquele relacionamento fosse muito além, de qualquer maneira já conhecia  aquele homem suficientemente para saber que em pouco tempo se cansaria dela e se afastaria de uma vez por todas. 

- Meu amor... você está chorando...

- Me desculpa, querido... não é sua culpa,  isso não devia ter acontecido na primeira vez e eu deixei acontecer novamente... eu acho que devo ir embora, não posso continuar aqui machucando o Jack desse jeito...

- Ele não precisa saber... o que ele não sabe não pode machucá-lo...

- Ah Mick... no meu relacionamento com ele isso não existe... não posso enganá-lo... como te disse, nos conhecemos há muitos séculos...

- Isso não faz sentido, Clara... nenhum... eu sei que vocês acreditam nessa coisa toda, mas eu me sinto tão próximo de você, muito mais  do que ele. Somos perfeitos juntos e nunca me senti assim com ninguém nesse mundo... Já te disse isso... eu me apaixonei por você na primeira vez em que te vi, naquela noite, em Nova York...

- Não sei, Mick... eu ainda não entendo o que acontece comigo... por que eu não consigo resistir a ficar com você? Me desculpa, Mick... você é um homem inteligente, sedutor... me trata muito bem...

- Querida... você está tentando mesmo racionalizar o que está acontecendo aqui... é isso? Porque dói...

- Ah... me desculpa... eu te adoro... mas não entendo porque não consigo dizer não para você...

- Porque você me ama... Porque você sente que sou verdadeiro com você...porque você se sente sexualmente atraída por mim...

- Não sei, Mick...

- Como não sabe? Será que você não pode estar aqui só porque quer estar? Por que precisa ter alguma outra razão?

- Me perdoa... Ah, querido... eu acho que estou enlouquecendo... é que eu amo tanto o Jack que sinto que estou cometendo um crime contra ele, aqui com você... preciso de uma justificativa para isso... ou a culpa vai me matar... entende?

- Não... culpa não, meu amor... sabe... eu te conheço tanto e somos tão próximos, que me esqueço de que você é de outra geração... olha, amor... sei que vocês supervalorizam essa coisa de fidelidade... mas tudo isso é bobagem... eu e o Jack somos muito mais bem resolvidos nessa área...

- Como bobagem? Não importa o que você possa me dizer, estou aqui traindo o meu marido... o homem que eu amo...

- Mas você me ama também... eu sei que ama, seu corpo já me disse...

- Eu te amo sim... mas não posso amar... e isso está me enlouquecendo, entende? - Clara disse começando a chorar novamente.

- Calma... vem aqui, meu amor... - Mick prendeu-a em seus braços. - Descansa... vamos levantar agora, almoçar, andar no jardim e apenas aproveitar a companhia um do outro... está um solzinho tão bom lá fora...

- Está bem... você tem razão... não vou ficar pensando mais nisso... está muito difícil para mim... não deveria me sentir como estou me sentindo...

- E como você está se sentindo?

- Feliz de estar ao seu lado... eu sou uma monstra, não sou?

- Não! - Mick agarrou-a e beijou-a. - Nós nos amamos e isso é sublime... não sinta culpa...

- Vou tentar... - ela sorriu e acariciou Mick. - Vou tomar um banho... Preciso que você me ajude, tenho medo de cair no banheiro...

- Claro, meu amor... vou buscar roupas para você no seu closet, se você quiser...

- Quero sim, querido... vou te esperar aqui...

- Ok... alguma preferência?

- Roupas quentes e confortáveis... vou usar meu par de tênis, que já está aqui...

- Seu desejo é uma ordem, meu amor... já volto... - Mick levantou-se da cama, vestiu um robe de seda ainda mais chamativo e colorido do que aquele que ela  costumava usar e seguiu descalço pelos corredores da casa.

Subiu rapidamente os degraus com medo de ser visto pelos empregados, entrou na suite de Clara, trancou a porta e foi direto até seu closet. Abriu a porta e imediatamente começou a chorar ao sentir o perfume que ela usava em seu dia-a-dia, exalando de suas roupas.

Não resistiu e passou a vasculhar suas gavetas, ficou alguns minutos assim, desconcentrado, em êxtase, somente por estar tocando as delicadas lingeries da mulher que ele amava.

Demorou um pouco, mas Mick secou as lágrimas e  voltou a concentrar-se em sua tarefa; escolheu um belo suéter de lá, calças jeans, meias de lã e delicadas roupas íntimas para ela vestir. Pegou também uma jaqueta de couro e um cachecol, pois sabia que ela, naquele momento, por causa de sua fragilidade,  tinha pouca resistência ao frio.

- Você demorou...

- A culpa é sua...

- Minha?

- Eu comecei a sentir seu perfume e não resisti... me desculpa, fiquei fora de mim, envolvido por você....

- Ah, meu querido... vem aqui, vem... - ela chamou-o para deitar-se novamente ao seu lado, na cama. - Eu não sei por que, mas estou me sentindo em casa, nos seus braços...

- Ah... - Mick suspirou. - Eu sou mais seu do que nunca e estou feliz demais de tê-la aqui nos meus braços novamente... Por favor, não me expulse de sua vida...

- Eu não conseguiria fazer isso agora... acho que terei que deixar o Jack... para o bem dele...

- Não tome atitudes precipitadas, querida... eu sei o quanto vocês dois se amam, não tenho ilusões, sei que você estará sempre ligada a ele... seria devastador, para vocês dois, se vocês se separassem...

- Mas eu não posso continuar casada com ele e pensando em você...

- Mas você não pensa mais nele?

- Penso, claro que penso... ele é meu marido... não nos casamos por acaso... ah... não sei... me ajuda, Mick... eu preciso ter paz...

- Nós três precisamos, querida... e teremos... então... vamos tomar banho?

- Vamos... depois que minhas pernas ficaram assim fracas, não tive mais coragem de tomar banho sozinha...

- Meu amor... vem... você precisa comer também... já estou me sentindo culpado de mantê-la aqui no quarto por tanto tempo...

- Está tudo bem, querido... Vamos... eu pedi um almoço para nós dois... já deve estar pronto...

Mick tomou banho junto com ela e os dois vestiram-se e foram almoçar. Clara tomou seus remédios e sentia-se suficientemente bem para caminhar ao lado do amigo pelo jardim.
Exploraram toda a propriedade e escolheram a sombra de um carvalho centenário cujas folhas caídas tinham produzido um lindo tapete cor de fogo sob seu tronco, onde os dois sentaram-se para conversar.

- O que foi? - Mick perguntou para ela estranhando seu silêncio prolongado. - Você não vai ficar remoendo o que aconteceu hoje e...

- Não, querido... me desculpa... estava pensando naquele casal do afresco do seu castelo... você já tentou descobrir mais sobre eles?

- Não... só sei o que o antigo proprietário costumava dizer para  seus hóspedes... engraçado, mas aquela imagem sempre me perturbou um pouco, mesmo antes de saber a sua história... só decidi mantê-la ali depois de conversar com um amigo meu que trabalha no Louvre. Ele me disse que era um trabalho importante de um pintor italiano renascentista e que eu deveria mandar restaurá-lo. Foi ele quem me indicou o Laurent, que também trabalha para o Louvre...

- Eu até já sonhei com aquela cena, estava sob aquela árvore, com o Jack... cheguei a contar para ele o sonho e ele teve uma crise de ciúmes... você acredita?

- Imagina se ele nos encontra aqui, quando voltar do ensaio... - Mick sorriu. - Acho que nunca teremos paz...

- Eu tenho certeza disso, querido... - ela disse acariciando o rosto dele e suspirando. - Você está me fazendo tão bem, querido... se ao menos o Jack pudesse entender...

- Eu não vou a lugar nenhum, Clara... se estou te ajudando a melhorar, continuarei ao seu lado. O Jack tem que entender isso...

- Você é maravilhoso comigo... e pensar que achava que você estava tentando me seduzir só por ego... sabe? Pela caça...

- Não... eu te vi naquela noite, em Nova York... no camarim do show do Jack e já quis muito falar com você, te conhecer melhor... alguma coisa em você me pegou já naquele momento. Fiquei muito frustrado quando vi vocês se beijando... eu queria muito estar no lugar do Jack...

- Ah, querido... aquele beijo já tinha sido adiado... eu conheci o Jack no saguão do Four Seasons de Manhattan, e ele convidou eu e o meu sócio para almoçar com ele, na suite dele... Eu senti uma enorme atração por ele e vice-versa, mas quando ele tentou me beijar, eu fugi. Fiquei com medo de estragar o trabalho que ele estava me contratando para fazer...

- Mas depois você não teve mais medo?

- Não... acho que sou assim... eu não queria admitir para mim mesma que o desejo que estava sentindo por ele era intenso demais para ser negado...

- Foi amor a primeira vista também...

- É...

- E quando você me viu pela primeira vez? O que você sentiu?

- Ah, Mick... eu fiquei feliz de estar pela primeira vez perto de você... me senti realizando um dos meus sonhos...

- Você sonhava me conhecer?

- Será que todo mundo não sonha?

- Não sei... tem muita gente que se aproxima para me distratar, me agredir...

- Mesmo? Eu sempre amei a sua música, ela sempre me fez bem... eu comecei a ouvir vocês e fiquei curiosa para conhecer o blues e me apaixonei... sempre que vocês passaram pelo Brasil, eu dei um jeito de ir aos shows... e chorei o tempo todo de emoção.

- Ah, meu amor... - Mick abraçou-a e beijou-a. - Você é tão doce, tão linda... e agora está ficando um pouquinho gelada... acho que está na hora de entrarmos... está ficando muito frio aqui fora.

- Está bem, querido... vem... vou fazer um capuccino para nós dois... - ela disse apoiando-se no tronco da árvore para levantar-se do chão.

- Você está bem mesmo hoje, não?

- Culpa sua... - Clara sorriu, abraçando-o. - Você é o meu melhor remédio...

- Vamos voltar para o meu quarto, vem amor... - Mick sussurrou no ouvido dela.

- Não posso... vem comigo até a cozinha... me ajuda com os capuccinos...

- Ainda tem daqueles chocolates?

- Claro, amor... eu tenho várias caixas na minha dispensa... os empregados mantém meu estoque sempre abastecido... eu adoro esse chocolate...

- Eu também... - Mick sorriu. - Adoro o chocolate e a sua doçura, querida...

- Estou me sentindo tão bem agora, que estou com medo de tudo ser um sonho, Mick...

- Se você viesse comigo para o meu quarto eu te daria mais uma razão para sonhar...

- Ah, querido... - Clara suspirou. - Sempre sedutor... você sabe que não podemos, que o Jack pode chegar aqui a qualquer momento...

- Será que ele não te ligou?

- Acho que não... - ela disse carregando a bandeja com os dois capuccinos e uma caixa de chocolates até a sala de estar, seguida de perto por Mick. - Vou dar uma olhada no meu celular, está na sala de estar, na minha bolsa... Hum... parece que ele esqueceu que eu existo... nenhuma ligação, de ninguém...

- Você seria capaz de deixá-lo? Se ele te esquecesse... eu quero dizer... - Mick perguntou depois de tomar um gole do capuccino quente e espumante em sua xícara.

- Acho que não... mas hoje estou fazendo questão de não pensar em nada... desculpa... não tenho uma resposta para sua pergunta. Não agora...

- Uau! - Mick comemorou. - Acho que hoje eu consegui balançar suas estruturas mesmo... até ontem você começaria a chorar e diria que não consegue viver sem ele...

- Mas ainda acho que não consigo... eu o amo há muito tempo...

- Mas ele não faz bem para você...

- Faz sim...

- Mas eu sinto aqui dentro que um dia desses, você vai deixar tudo isso para trás e ficar comigo para sempre...

- Ah Mick... por favor... estou  aqui, lutando para manter a culpa longe e você vem me dizer isso...

- Me desculpa... não tive essa intenção...

- Nós podemos conviver bem... mas eu preciso que você me ajude... Me apóie...

- Meu amor, sou seu... inteiramente seu, ok? Não estou querendo forçar nada, aceito tudo o que você decidir... só me deixa ficar perto de você...

- Está bem, querido... estou me sentindo estranha hoje... quando fui para o seu quarto, achei que passaria o resto do dia chorando, deprimida... e o seu carinho me deu forças.

- Fico feliz em poder te ajudar, meu amor... de verdade... - Mick abraçou-a e beijou-a no rosto.

O mordomo Bradley pediu licença e interrompeu a conversa dos dois: - Senhora Noble, o senhor Jean Paul está na porta...

- Ah por favor, Bradley mande-o entrar... Nossa! Ele foi rápido... Mick, querido... você se importa de ir para seu quarto? Tenho medo que ele comente sobre a sua presença aqui e... você sabe...

- Claro, meu amor... tem razão... não podemos confiar em ninguém... - ele disse beijando-a na mão e começando a caminhar.

- Espera... - ela puxou-o,  beijou sua boca e entregou a ele a caixa de chocolates. - Leva o chocolate com você...

- Obrigado, amor... - Mick sorriu e seguiu para seu quarto. - Depois você me mostra como ficou seu figurino?

- Claro, querido...

Clara foi para a porta da casa e recebeu Jean Paul sozinha. Subiu com ele para seu quarto e experimentou o vestido na frente dos espelhos do closet, constatando que estava perfeitamente ajustado às suas novas medidas. Rapidamente, ela pegou os figurinos das mãos de Jean Paul, tentando evitar responder suas muitas perguntas.

- Pronto, querida... perfeito... não disse? Você está deslumbrante...

- Obrigada, Jean Paul...

- Aliás...  parece que você já melhorou bastante, desde hoje de manhã...

- Você acha? Estou tomando tantos remédios... acho que em algum momento eles têm que começar a fazer efeito, não?

- Não, querida... é uma coisa de pele, você estava apagadinha hoje cedo e agora está radiante...

- Estou? - Ela sorriu olhando-se no espelho mais uma vez. Concordava completamente com o diagnóstico do estilista, estava em um daqueles momentos em que sentia-se capaz de brilhar no escuro e saltar entre as nuvens, mas não tinha qualquer intenção de deixá-lo saber que a verdadeira razão para aquela melhora, estava naquele momento em um quarto improvisado, no primeiro andar da casa, muito provavelmente devorando uma caixa de chocolates.

- Bem querida... vou voltar ao meu hotel e terminar meu trabalho... trouxe esses dois para evitar imprevistos com o show de amanhã, mas ainda preciso terminar todos os outros... acredito que os entregarei a tempo do segundo show da O2; depois de amanhã, à tarde, eu os trarei pessoalmente...

- Obrigada querido... não sei o que seria de mim, sem você... - ela sorriu. Aliás, agora, era o que ela queria fazer, comemorando o retorno da força a seus braços e pernas, depois de dias de mal estar.

Clara pediu que Jean Paul descesse, enquanto ela se trocava novamente de roupa, descendo em seguida a escadaria de sua casa, com uma firmeza que não tinha há muito tempo. Quando Jean Paul disse que estava com pressa e que precisava ir embora, ela deu ordens a Bradley para conseguir um taxi para ele e despachou-o rapidamente de volta ao hotel.

Assim que ele se foi, ela caminhou até o quarto de Mick e encontrou-o estendido na cama, de olho na tela de seu tablet. - Já? - ele disse sorrindo.

- Já, meu amor... então... quer ver como ficou meu figurino? - ela perguntou para ele aproximando-se da cama e estendendo a mão.

- Acho que preferia te ver nua, mais uma vez... - ele sorriu e puxou-a para cima da cama, tirando seu sueter, beijando seus seios, enquanto acariciava todo seu corpo.

- Mick... não podemos... meu marido pode chegar a qualquer momento... quero poupá-lo, lembra?

- Ah, meu amor... me perdoa... mas você está tão linda, que é difícil resistir... como esse chocolate maravilhoso...

- Desculpa, querido... mas não quero arriscar mais meu casamento...

- Eu sei... vamos lá para a sala? Acho que está na hora de comer mais um lanchinho e tomar mais um remédio...

- Está bem, querido... - ela sorriu. - obrigada por ser compreensivo...

- Já te disse que sou seu... estou aqui para te ajudar...

Os dois foram direto para a cozinha onde verificaram como estavam os preparativos para o jantar e eles mesmos prepararam sanduíches com coisas que encontraram na geladeira e os comeram, sob os olhos atentos da velha senhora Hammer que parecia não entender muito bem o que estava acontecendo naquela casa, na ausência do senhor Noble.

- Senhora Noble, está tudo bem encaminhado para o jantar, só não sei ainda a que horas, ele deve ser servido... 

- Não sei, senhora Hammer... os nossos convidados ainda não me disseram a que horas irão chegar, nem meu marido... mas vou telefonar para eles daqui a pouco e já teremos uma ideia... ok?

- Ok, senhora Noble... o senhor e a senhora Benning estão voltando para cá também?

- Não... eles continuarão hospedados no hotel. Quem está chegando são meus pais, minha irmã e meus dois amigos... estaremos em oito pessoas nesta noite, senhora Hammer...

- Está bem, senhora... vou então aguardar para saber o horário do jantar...

- Obrigada... vou só terminar meu lanche e já providencio isso... - Clara sorriu.

Assim que acabaram de comer, Clara e Mick seguiram para a sala de estar e ela pegou seu celular e ligou primeiro para Jack, que estava com seu celular desligado e depois para Jonas que disse que já estava na estrada e chegaria em Londres em aproximadamente duas horas, pelos cálculos de Khaled. Depois de desligar o telefone, Clara deu um longo suspiro.

- Fico tão chateada quando não consigo falar com o Jack... - ela disse deitando sua cabeça no ombro de Mick.

- Calma, amor... vou ver se dou um jeito nisso para você... - ele disse pegando seu celular e ligando para Michael Peters.

- Oi Peters, aqui é o Mick Jagger, tudo bem?

- Tudo... a que devo a honra?

- O Jack Noble está com você?

- Não... o sound-check já terminou há algumas horas e ele foi embora com os rapazes... por que?

- Preciso falar com ele... será que você tem como pedir a ele para me ligar?

- Ok... vou ver o que posso fazer... 

- Obrigado...

Mick desligou o celular e imediatamente ligou para David Mersey.

- Mersey? Mick, querido, como foi o ensaio?

- Perfeito,  Mick, meu velho e aí,  como estão as coisas?

- Muito bem... o Jack Noble está por aí? Tentei ligar no celular dele, mas está desligado...

- O Velhão? Ele não está mais aqui... viemos comemorar o ensaio e ele destruiu o estoque do pub...  mandamos ele de volta para casa, no carro dele, mas com nosso motorista, já deve estar chegando por aí a essa hora...

- Obrigado, Dave... nos vemos amanhã...

- Com certeza, amigo... sabe que nós todos te amamos, cara! Você é muito importante para nós!

- Obrigado amigo! Eu também amo vocês!  Até amanhã! Beijo!

- Beijo!

- Então? - Clara perguntou ansiosa.

- O Jack está vindo para casa... mas pelo que o Dave disse, você não vai gostar...

- O que houve?

- Ele tomou todas no pub... e tem um motorista trazendo ele e o carro para casa...

- Droga! A culpa é minha!

- Não, meu amor... não se culpe... - Mick abraçou-a. - Fica tranquila, isso faz parte, já fiz isso muitas vezes... tenho certeza que não é sobre você... eu sempre bebia para comemorar quando tudo dava certo no ensaio ou para esquecer quando dava errado... enfim... eles saíram para comemorar e todo mundo encheu a cara... O Mersey também está bebado...

- Eu sei... ah, meu amor... obrigada por estar aqui, ao meu lado...

- Ah, querida... você vai precisar me trancar para fora, se quiser me ver longe... eu te amo...

- Também te amo... - ela sorriu e beijou-o. Lágrimas começaram a correr de seus olhos e ele passou a secá-las com seus dedos.

- Não chora, meu amor... tudo vai dar certo... tenho certeza...

Os dois ainda estavam abraçados no sofá quando o carro de Jack, conduzido por um motorista que trabalhava para a banda estacionou na porta da frente da casa. Clara e Mick foram a seu encontro e o ajudaram a descer do carro.

- Amor... vem... vamos entrar... está muito frio agora... - Clara disse para Jack, abraçando-o e levando-o para dentro, enquanto Mick pegava a chave do carro com o motorista e dava-lhe algum dinheiro para o taxi de volta.

- Querida... estou com saudades de você.... - Jack disse agarrando-a. - Vamos lá para o quarto... precisamos compensar o tempo perdido...

- Vamos, meu amor...

- Clara... vou colocar o carro na garagem... - Mick disse, enquanto os dois caminhavam até a porta.

- Oh, Mick, meu velho... - Jack voltou para cumprimentar Mick, beijando-o no rosto. - Obrigado por cuidar da minha mulher... você é um cara bacana... eu só fico irritado  quando você transa com a minha mulher, mas tudo bem... eu gosto de você assim mesmo... só não leva minha mulher embora...

- Não vou levar, amigo...

- Obrigado... - ele disse abraçando Mick e começando a chorar. - Sabe... eu preciso dela... é a única coisa que me mantem vivo... a minha ninfa... eu demorei muito para encontrá-la...

- Eu sei, Jack... vem... vamos lá dentro, está muito frio aqui fora... fica tranquilo, a Clara não vai a lugar nenhum...

- Vem meu amor... você precisa descansar... vamos para dentro... - Clara disse puxando-o pela mão.

- Por que você me traiu? - Jack pegou Clara pelos braços e chacoalhou-a com força.

- Querido... você está me machucando...

- Jack... por favor... solte-a. - Mick disse empurrando-o com força, mas sem conseguir libertá-la. - Você vai machucar a Clara...

- Mas eu preciso que ela me explique... Me diz, por que você tinha que fazer isso?

Clara em prantos desesperada, apenas tentava soltar-se dele. - Me solta... por favor... você está me machucando... - Ela empurrou-o novamente e o esforço e desespero da situação fizeram-na desmaiar em suas mãos.

Continua

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