27 de fev de 2013

Rockstar - Capítulo CXIX


- Clara! - Jack chacoalhou-a em suas mãos. - O que? Mick... me ajuda... - ele soltou-a delicadamente no chão, desesperado.

Há muito tempo não pensava mais nele, mas depois que o viu, chegando na estrada que levava até o castelo, quis novamente procurar em seu baú seu maior tesouro,  o pequeno livro, de capa de couro vermelha, a única lembrança material que tinha ficado do que viveram juntos e novamente levou-o para sua cama, como fez por muito tempo na época em que ele partiu. Mais uma vez, ele amanheceu sob seu travesseiro e ela novamente beijava-o  carinhosamente, assim que abria os olhos. Seu pai já tinha voltado da vila, e assim, ela soube de tudo o que tinha acontecido; ele confirmou o que todos já comentavam por lá; o príncipe Jacques estava de volta e finalmente se casaria com a filha do Duque de Villeneuve, a princesa Catherine.

Um casamento que havia sido arranjado assim que  a princesa nasceu, pelos dois duques, o duque de Grimaldi, pai de Jacques e o Duque de Villeneuve, senhor de uma área ainda maior, muito bela e próspera, mais ao norte, entre os alpes e o mar.

Nada se sabia ao certo, as pessoas na vila comentavam, mas ninguém podia afirmar nada, depois da expulsão de Ann e de seu pai, do castelo, eles passaram bastante tempo escondidos na vila, com medo da ordem que a duquesa tinha dado, de matá-los se cruzassem o caminho do príncipe ou de qualquer pessoa que vivia no castelo.

Para a mãe do príncipe Jacques, ela era a grande responsável pelo fim da glória dos Grimaldi, a filha da bruxa que a tinha penalizado tanto a ponto de trazê-la para seu castelo e criado como sua filha, parecia não negar suas origens e tinha sido  a razão de Jacques, o filho único do grande Duque ter desonrado sua casa.
Ao apaixonar-se por aquela moça sem berço, ele deu um duro golpe em sua casa e sua teimosia, fez seu pai adoeçer de desgosto, especialmente quando descobriu que a carta chamando o filho para lutar como oficial do rei, na guerra contra a Áustria era falsa, um embuste criado por ele apenas para fugir de seu compromisso de casar-se com a princesa Catherine.

O respeito pelas pessoas que habitavam aquele castelo tinha acabado e todos na vila comentavam que o comportamento de Jacques na Corte era um verdadeiro escândalo,  outro dandi, circulando entre os poderosos de Versalhes,  gastando todo o ouro de seu pai com inumeras  amantes.

- Clara... acorda, por favor... - ela ouviu a voz de Jack, transtornado, acariciando seu rosto suavemente, enquanto Mick andava ao redor,  celular na mão, pronto para ligar para o médico.

- Mick, espera... não liga ainda, ela está acordando...

- O que aconteceu? - Ela perguntou para Jack, que apenas a abraçou chorando.

- Você desmaiou, querida... - Mick disse aproximando-se dela e pegando sua mão. - Como você se sente?

- Estou um pouco tonta... mas estou bem...

Jack chorava inconsolável, agarrando-a em seus braços. - Me perdoa, Menininha...

- Jack, meu amigo... vem... você precisa descansar um pouco...

- Eu quase a matei, Mick... o amor da minha vida... - ele disse ainda chorando muito.

- Vem, bebe um pouco de água... - ele disse entregando um copo para Jack, tentando separá-lo de Clara. - Vamos, amigo,  você precisa dormir um pouco, até o efeito da bebida passar.

Ainda intrigada com o que tinha visto em seu sonho, ela esperou ansiosamente pelo retorno de Mick à sala de estar. - Como ele está?

- Bem, querida... deitei-o na cama, de lado, para evitar problemas... vai ficar bem...vamos deixá-lo dormir um pouco e mais tarde subimos para vê-lo...

- Obrigada, meu amigo... Mick... preciso te contar uma coisa...

- O que foi, querida? - Mick disse, sentando-se perto dela, no sofá em que ela estava deitada. - Será que não é melhor chamar o Dr Lanee?

- Não, eu estou bem... eu só desmaiei porque, bem... o dia de hoje está sendo bem pesado para mim, não?

- Quer uma bebida?

- Não, querido... obrigada...

- Ok... então, o que você queria me dizer?

- Sabe, no outro dia em que eu desmaiei no jardim? Eu tive um sonho estranho... estava em uma outra época...

- Na casa da montanha?

- Não... é estranho, mas eu não era a Ceridwen, era uma outra pessoa...

- Mesmo? Quem?

- Primeiro, eu me vi no meio de um enorme campo, colhendo lavandas, mas parei meu trabalho para ver um príncipe passar a cavalo, pela estrada próxima do campo... quando o vi, lembrei-me que o amava e que vivia com ele, em seu castelo... foi uma lembrança boa, que deixou meu coração tão feliz...

- Meu Deus! Será alguma lembrança de outra vida?

- Acho que sim... - as lágrimas começaram a correr em seu rosto, um choro de pura emoção.

- Meu amor... - Mick pegou-a em seus braços e segurou-a, por alguns minutos, enquanto ela chorava.

- Não sei o que faria se você não estivesse aqui...

- Querida... tudo o que eu quero no mundo é estar aqui, ao seu lado... te amo tanto... - ele beijou-a com paixão. - Se pudesse, te levava de novo para o meu quarto... - ele sussurrou no ouvido dela.

- Não posso, meu amor... você viu como o Jack está magoado? Eu não posso fazer isso com ele...

- Meu amor... calma... fica tranquila... ele está tão bebado que...

- Não, Mick... exatamente por isso... ele está tão bebado que não consegue fingir que não se importa... ainda estou sentindo a dor dele, aqui, no meu peito...

- Ah, querida... vamos conseguir, tenho certeza... agora, eu quero te ver tranquila, o Jack está dormindo, daqui a pouco, seus parentes estão chegando... o que eu quero agora é que você respire fundo, suba comigo para o seu quarto, onde iremos até seu closet escolher uma roupa linda e algumas jóias para o jantar. Vou arrumar seu cabelo, cuidar da sua pele,  fazer sua maquiagem... tudo para te ver linda hoje à noite...

- Meu doce amigo... - ela sorriu e beijou-o. - Você é maravilhoso para mim...

- Eu te amo... sou seu... estou aqui... inteiro, nessas suas mãozinhas pequenas, que terminam nesses bracinhos fininhos... Vamos?

- Será que não vamos acordar o Jack?

- Ele está muito bebado... não vai acordar tão cedo...

- Tenho medo, porque o sono dele é muito leve, acorda com qualquer barulhinho...

- Ah, querida... também sou assim... é uma coisa de nosso ouvido musical, um pouco mais sensível... Mas acho que nem uma bomba conseguiria acordá-lo agora...

Pelo sim, pelo não, Clara e Mick entraram no quarto em silêncio, foram diretamente ao closet, onde escolheram as roupas que ela usaria e, por insistência de Mick,  pegaram algumas jóias no cofre. Ele tinha decidido que Clara deveria impressionar seus parentes e amigos naquele jantar e não poupou esforços para que isso acontecesse.
Ajudou-a a tomar banho, fez uma longa massagem com óleos essenciais em todo o seu corpo, depois, vestiu-a, penteou-a e maquiou-a tão bem como alguém que preparava uma estrela de cinema para uma festa de gala. Estava penalizado com as grandes manchas roxas que encontrou em seus pulsos, depois da luta para livrar-se das mãos fortes de Jack.

- Linda... estou me apaixonando novamente, cara Lady Noble... - Mick fez uma mesura e beijou-lhe a mão.

- Ah, querido... - ela sorriu para ele. - Vamos para a sala de estar? Eles já devem estar chegando...

- O que você dirá a eles para justificar minha presença nesta casa?

- Gostaria de poder dizer a verdade, mas eles nunca entenderiam... bem... vou dizer o que já disse antes, que você está aqui para trabalhar com meu marido no meu futuro disco solo e que, penalizado pelo meu estado atual, decidiu que deveria ajudá-lo a cuidar de mim...

- Tudo bem...

- Bem, já que estamos falando sobre isso, preciso te dizer que meu pai acredita que você e meu marido têm um caso e que fiquei doente porque os flagrei juntos...

Mick deu uma gostosa gargalhada e abraçou-a: - Pobrezinha... seu pai é ótimo, quero conhecê-lo melhor nesta noite...

- Ele é um ogro, isso sim... se o conheço, vai passar a noite toda te maltratando... te xingando... ah querido...

- Não me importo, querida... perto das coisas que sempre falaram de mim, por aí... isso não é nada... como jornalista, você deve fazer uma ideia, não?

- Claro, querido... - ela sorriu. - Já li uma ou duas biografias não autorizadas assustadoras...

- Pois é... por isso eu queria tanto que você me ajudasse a escrever a minha versão dos fatos... nunca fui um santo, mas também alguns desses livros fazem crer que entre as décadas de 70 e 80, transei com toda a população de Nova York...

- E não transou?

- Meu amor... que pergunta? - ele riu. - Bem... se dissessem a ilha de Manhattan, ou  o Upper East Side, mas toda Nova York? Até para mim é um pouco exagerado, não acha?

Clara riu muito de sua piada  e abraçou-o novamente, no momento em que o mordomo avisava da chegada da van com sua família no portão de casa. Mick deu-lhe a mão e levou-a até a porta: - Agora, calma... vamos recebê-los, você está linda...

- Obrigada querido, mas acho melhor eu recebê-los sozinha... eu tenho medo que eles percebam o que está acontecendo entre nós...

- Tem razão, minha querida... Vá sozinha, mas se precisar de mim, estarei aqui no piano, vou fingir que estou trabalhando...

- Obrigada, meu amor... - ela beijou-o no rosto.

- Vai lá, recebê-los... vai... - Mick sorriu abrindo  o teclado do piano e colocando sobre ele um lápis e um bloco de papel.

Enquanto isso, Clara saiu pela porta da frente da casa e caminhou até a van.

- Você está melhor, querida? - a mãe de Clara perguntou, quando ela foi abraçá-la.

- Estou, mamãe.. - ela sorriu, puxando também seu pai para mais perto. - Me desculpem, meu marido ficou muito preocupado com minha saúde e...

- Nós sabemos, querida... o Jonas nos explicou... você está linda, hoje... - o pai dela sorriu beijando-a no rosto. - Vamos entrar, está muito frio... Como faz frio nessa terra...

Todos entraram e Bradley e mais uma empregada da casa recolheram seus pacotes e os levaram até os quartos. Mick levantou-se graciosamente do piano e cumprimentou um a um os parentes e amigos de Clara, falando com eles em um português razoável.

- Ué? Cadê o Jack? - O pai de Clara perguntou a queima roupa e para quem quisesse ouvir. - Deixou o namorado aqui e se mandou?

- Papai! O Mick não é namorado do Jack... ele está lá em cima, descansando porque teve um dia muito cansativo hoje. Por favor, não destrate o Mick... ele é nosso amigo, está aqui para me ajudar e não merece ser tratado dessa forma...

- Não tem problema... - Mick respondeu para Clara em português para que seu pai também entendesse. - Não estou namorando com ninguém nesta casa, senhor... - ele sorriu charmosamente para Paulo, estendendo-lhe a mão. - Então, podemos ser amigos, senhor Giacome?

- Desculpa... - Paulo respondeu. - É que estou muito nervoso... minha filha, ela quase morreu da outra vez que teve esse problema...e o tal do cantor não está nem por perto para cuidar dela...

- Fica tranquilo, senhor... eu estou cuidando dela... Ela não está linda hoje?

- Está... - Jonas sorriu, tentando interromper a discussão de uma vez. - Minha querida amiga está bem melhor do que quando saímos...

- Obrigada, Jonas... - ela sorriu. - Então... vocês querem tomar um banho e trocar de roupa antes do jantar?

- Sim... - sorriu Ciça. - Eu e a Renata vamos subir agora... Vamos? Papai, mamãe? Jonas?

- Vamos sim... - Jonas disse sorrindo. - Vocês viram como os dois estão arrumados, vocês não querem passar vergonha na hora do jantar, querem?

- Não... não é nenhuma vergonha... - Clara respondeu. - Vocês fiquem a vontade para vestirem o que quiserem... só imaginei que quisessem relaxar um pouco antes do jantar... estou errada?

- Claro que não, querida... - Ana, a mãe de Clara sorriu, pegou o marido pela mão e puxou-o na direção das escadas. - Vamos subir... tomar um banho, Paulo...

Assim que todos subiram, Mick sentou-se novamente no piano e passou a tocar uma melodia suave, queria fazê-la relaxar.

E quando ela percebeu que todos tinham subido, ela levantou-se do sofá e foi até Mick, beijou seu pescoço e sussurrou em seu ouvido: - Eu te amo... Obrigada de novo...

Sem preocupar-se com nada, Mick agarrou-a em seus braços e beijou-a com paixão, deixando-a apavorada, preocupada de ser flagrada em seus braços, mas também surpresa com o que ele a fazia sentir.

Continua

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