14 de fev de 2013

Rockstar - Capítulo CXIV




Enquanto ela dormia, com um discreto sorriso nos lábios, em seus braços, Jack velava mais uma vez seu sono e agora se espantava com as manchas escuras que continuavam existindo sob seus olhos e sua magreza extrema. Sua pele não tinha mais qualquer brilho e assumia agora  tons acinzentados. Se não a conhecesse tão bem seria capaz de apostar que aquela pequena figura, quase desaparecida sob os cachos louros de seus cabelos, não era a mesma garota encantadora que brilhava sob a luz dourada do sol de Manhattan no dia em que se conheceram, há poucos meses.


E por mais que ele tentasse descansar,  o máximo de relaxamento que conseguia era um sono leve, constantemente interrompido por lágrimas, que secava rapidamente, cuidando para que, se ela acordasse, não percebesse seu real estado de espírito.

Tranquila com seu marido, dormindo agora pesadamente ao seu lado, Clara ouviu a porta do quarto se abrindo e na penumbra distinguiu a figura de Mick entrando e aproximando-se mais e mais de sua cama, e para sua surpresa, ele estava completamente nu.

Assustada, ela levantou-se e percebeu que também estava nua. Com medo de acordar Jack,  ela caminhou na direção de Mick, que a agarrou sem fazer qualquer som e passou a beijar e acariciar todo seu corpo. Os dois caminharam até a cama, e sem o mínimo  pudor, se amaram silenciosamente,  enquanto Jack continuava  dormindo em paz, na mesma cama.

Clara acordou repentinamente sentindo seu coração disparado dentro do peito e  suspirou aliviada ao perceber que aquele era só um pesadelo. Jack estava sim adormecido ao seu lado, mas Mick nunca esteve por lá e tudo estava silencioso e tranquilo.

Jack abriu os olhos e percebeu que mais uma vez ela chorava em silêncio. - O que foi meu amor? Você não está  bem?

- Ah, querido... Me perdoa... tive um pesadelo e me assustei... eu te acordei?

- Não, amor... mas acho que já está na hora do seu  remédio.  -  Ele disse ligando o celular. - Fica aí... vou buscar...

- Não, querido... vou levantar... não  quero passar o dia todo na cama...

- Está bem, querida... - Jack levantou-se e ajudou-a a levantar-se. - Vou te ajudar a vestir-se, então... suas mãozinhas estão tão geladas... vou aumentar o aquecimento da casa também...

- Acho que quero tomar um banho... você me ajuda? Tenho medo de cair no box...

- Vou sim, querida... segura no meu braço...

Os dois tomaram banho juntos, mas Jack ficou impressionado com a fragilidade de Clara que aparentava ter perdido muito peso nos últimos dias. Suas pernas pareciam varetas, muito finas, sem capacidade para sustentar o resto do corpo e suas mãos e braços tinham manchas escurecidas causadas pelas aplicações de medicamentos, no hospital.

Jack agora estava ainda mais preocupado com a esposa e carinhosamente cuidava dela, praticamente mantendo-a de pé, lutando para compensar a fraqueza de suas pernas.

- Querida... estava aqui pensando.... - Jack disse com medo de deixá-la mais nervosa.

- O que foi?

- Não seria melhor mandar todos os nossos hóspedes para o Four Seasons? É aqui perto, todos ficarão bem acomodados e você não precisa se cansar para cuidar deles...

- Não, querido... - ela disse - Eu sei que estou doente, que preciso me recuperar, mas já estou tão triste, gostaria de poder tê-los aqui conosco...

- E o Mick?

- Ele está aqui para nos ajudar...

- Mas será que sua família não vai começar a fazer perguntas? O que eu quero evitar é que você se desgaste...

- Meu amor... eu entendo o que você quer... mas acho que ainda consigo recebê-los aqui... - Clara disse começando a chorar novamente. - Eu sei que eu estou muito feia...

- Não, meu amor... vem aqui, vem... - Jack abraçou-a. - Você está linda, como sempre... apenas estou preocupado. Você não pode se desgastar...

- Eu quero melhorar... estou lutando muito, quero viver... mas ainda me sinto muito fraca... me ajuda, meu amor... me ajuda...

Jack pegou-a no colo e levou-a de volta a cama. Os dois agora choravam muito nos braços um do outro e ele se desesperava por vê-la tão triste.

- Querida, calma... por favor... - ele disse segurando-a em seus braços. - Você vai melhorar...

- Me perdoa, querido... - ela disse - Você vai precisar me ajudar a levantar, não tenho força para ficar de pé...

Jack pegou-a no colo e levou-a até o closet, colocou-a sentada em uma cadeira,  enquanto pegava as roupas para  vestir. A pedido dela, tudo bastante confortável e quente.

- O que é isso querido?

- Sua bota favorita...

- Não, amor... não tenho como usá-la hoje, tenho medo de me desequilibrar com todo esse salto... pega meu tênis, por favor...

- Claro! Me perdoa... não pensei direito, meu amor...

- Não tem importância... eu amo essas botas... só não conseguirei usá-las enquanto estiver assim, precisando que você me apoie para não cair... Olha para mim, Jack... estou muito feia... - ela disse depois de ver seu reflexo no espelho, no fundo do closet.- Acho que não conseguirei subir no palco com vocês...

- Você está linda, meu amor... como sempre... não se preocupe, logo você se recupera e nem vai mais lembrar que ficou doente... - ele disse abraçando-a novamente. - Você subirá naquele palco, nem que eu tenha que te levar para ele, no colo...  Então... está prontinha... vou só arrumar seus cabelos e já descemos juntos...

Ela pegou a mão de Jack e beijou. - Obrigada, meu amor...

- Eu te amo muito... - Jack disse beijando-a. - Então... vamos descer?

- Vamos, querido...

Jack apoiou Clara na escada e levou-a até a sala de estar, depois levou o remédio que ela deveria tomar e um copo de água.

- O Mick já levantou? - ela perguntou para seu mordomo, estranhando não encontrá-lo.

- O senhor Jagger  pediu para avisar que foi até  seu apartamento pegar algumas coisas, mas  voltará em seguida...

- Obrigada Bradley! - ela sorriu.

- Então, amor... já aumentei um pouco o aquecimento e pedi para a cozinheira preparar um lanchinho para você... ah... vou buscar uma manta lá em cima...

- Não precisa, querido... só vem aqui, ficar comigo...

- Mas você não vai comer nada?

- Vou sim... mas antes disso, quero te namorar um pouquinho...

Jack sentou-se no sofá ao lado dela e pegou-a no colo. - Não me conformo, querida... ainda acho que seria melhor mandarmos todos os nossos convidados para um hotel...  Você precisa descansar...

- Ah, amor... eu dou conta... você me ajuda e eu consigo... não quero deixá-los ainda mais preocupados comigo... o Mick nos ajuda e nós conseguiremos!

- Ele foi até a casa dele agora, não?

- Sim... disse ao Bradley que ía lá pegar algumas coisas, mas que volta em seguida...

- Ótimo... só pensei...

- Eu sei... eles voltam para cá, mas pedirei a eles para me deixarem descansar... ok?

- Você sabe que precisa, não querida?

- Eu sei que é um péssimo momento para eles estarem por aqui, mas acho que se o Jonas e o Mick nos ajudarem, teremos tudo sob controle.

- Está bem, Menininha...

Apoiada em Jack, Clara caminhou até a cozinha, onde comeu um lanche e conversou com a cozinheira sobre o andamento do jantar que estava preparando. Depois, voltou à sala,  conversou com Jennifer e Cindy por telefone e ajudou Jack a receber seu médico Doutor Jackson, que apenas retirou o curativo dos cortes e marcou uma data para fazer o exame que verificaria a eficiência da cirurgia.

- A senhora Noble está me parecendo muito abatida hoje, ela está doente?

- Está, foi internada ontem com uma anemia muito grave...

- Pobrezinha... mas ela está me parecendo anoréxica, ela é anoréxica?

- Não... ela tem um problema genético que provoca isso, é uma anemia muito grave que se manifesta quando ela passa por um grande stress... o senhor imagina que ela come muito,  até mais do que eu, mas o organismo dela tem uma tremenda dificuldade de aproveitar o que ela come... quando saímos de férias, antes da cirurgia, eu engordei 4 quilos e ela emagreceu 3, e comemos muito lá no Brasil...

- Hum... sinto muito... mas se for o problema que eu estou pensando, será muito difícil também que ela consiga engravidar, mesmo depois de recuperada... ela está seguindo uma dieta, não?

- Sim... ela recebeu do médico um caderno cheio de recomendações e está tomando uma porção de remédios. Ontem, ela desmaiou e chamei o doutor Pat Lanee para tratá-la...

- Pat Lanee? Ótimo! Ele é um grande especialista em sangue e se alguém neste país tem condições de recuperá-la é ele. Você sabe que esse problema dela não tem cura, não é? Talvez até um controle que a deixe bem a maior parte do tempo, mas será sempre necessário tomar certos cuidados...

- Eu sei... mas acredito que conseguiremos deixá-la bem... - Jack suspirou.

- Seria interessante se o senhor começasse a se informar sobre a possibilidade de uma "barriga de aluguel"... Como disse, é possível fazer uma inseminação artificial com material seu e dela e em seguida, podemos escolher uma  voluntária saudável para implantarmos o bebê... O doutor Lanee já deve tê-los alertado sobre os perigos de uma gravidez na  condição dela...

- Não falamos sobre isso, ontem apenas lutamos para que ela voltasse logo para casa...

- Então... acho melhor os senhores conversarem... e se ele recomendar a barriga de aluguel, conversem comigo.

- Está bem, doutor... - Jack disse bastante perturbado pela possibilidade de Clara não poder mesmo ter filhos.

- Mas fica tranquilo, a barriga de aluguel é um procedimento simples, para ambos e o resultado sempre é excelente...

- Nada é simples na situação em que ela está agora, doutor... ainda não direi nada a ela porque sei o quanto isso pode entristecê-la. Vou fazer o que puder para que não aconteça...

- É mesmo uma pena que uma moça tão adorável tenha um problema de saúde tão sério...

Jack ficou muito triste com tudo o que o médico disse a ele e desceu as escadas, secando as lágrimas de seus olhos. Clara percebeu sua tristeza e ficou preocupada com ele, mas não disse nada, fingiu que prestava atenção na conversa que estava tendo com Mick Jagger, que já tinha voltado com  uma pequena mala de roupas e sua guitarra acústica.

O doutor Jackson cumprimentou Clara e Jagger e partiu. Ela levantou-se e com alguma dificuldade caminhou até a porta, onde Jack estava parado observando a partida do médico.

- O que foi, meu amor? - Clara perguntou abraçando Jack.

- Nada, querida... então seu amigo está de volta...

- Sim querido... mas eu vi que você estava chorando quando desceu a escada... você está bem, meu amor? O médico disse alguma coisa?

- Não amor... não é nada...

- Está bem... me ajuda a voltar para o sofá... estou com medo de cair...

- Vem, querida... você quer comer alguma coisa?  Sua mão está tão gelada de novo....

- Acho que quero um capuccino... você também quer um? Mick, quer um capuccino?

- Quero sim, querida...

- Vou na cozinha, preparar para nós...

- Não amor.... vou te levar até o sofá, você fica lá com o Mick e eu vou lá na cozinha buscar capuccinos e uma daquelas suas caixas de chocolate...

- Está bem... - Clara sorriu e beijou-o no rosto.

- O Jack vai pedir os nossos capuccinos lá na cozinha...

- Eu sei, querida... - ele sorriu, aflito com a dificuldade que ela estava tendo para ficar de pé. - Será que não seria bom providenciar uma cadeira de rodas para você? Pelo menos por agora...

- Não... Tenho medo de não conseguir andar mais depois... preciso me esforçar para continuar andando...

- Mas você vai se melhorar, querida... tenho certeza... - Mick disse abraçando-a ternamente.

- Você pode me fazer um favor?

- Qual, querida?

- O Jack, ele desceu as escadas chorando... eu sei que ele não vai querer me dizer o que o médico disse pelo meu estado, mas assim eu fico mais preocupada, por não saber de nada...

- Meu amor... não se preocupe, vou perguntar para ele... mas agora, você precisa cuidar só de você... estou preocupado com sua saúde... ele também... você ainda não viu seu e-mail, viu?

- Não, querido...

- O Laurent já começou a pintar o seu quadro... está tão lindo...

- Está? - Clara sorriu, mas imediatamente seus olhos se encheram de lágrimas. - Quero ver... mas agora não dá, não quero que o Jack veja... precisa ser uma surpresa...

- Eu sei, amor... daqui a pouco te mostro...

Jack voltou para a sala com a bandeja com capuccinos, seguido pelo mordomo, com uma segunda bandeja com chocolates.

- O que você vai mostrar para ela daqui a pouco?

- Uma coisa que publicaram na internet sobre ela... - Mick sorriu.

- Come chocolate, amor... o Jonas me ligou e a sua família vai fazer uma excursão em Stonehenge também... por isso, só voltam amanhã...

- Como assim

- Porque o tempo está ótimo e eles querem aproveitar e fazer um pouco de turismo dessa vez... ele disse que estão se divertindo muito e só estão preocupados em saber se você melhorou...

- Não... tem alguma coisa de muito errado aí, eles viajaram sem malas... Você expulsou eles daqui? Jack, me diz a verdade, por favor...

- Não expulsei ninguém, meu amor... eu só pedi ao Jonas para levá-los para um passeio e dei a ele um cartão de crédito para cobrir todas as despesas, eles podem comprar o que quiserem, enquanto isso,   você  pode descansar...

- E a Kate? Por que ela não voltou ainda para casa?

- Eu pedi a ela para ir para o Four Seasons... ela achou melhor, disse que o pequeno Jack tem chorado muito à noite e ela não quer que ele perturbe seu sono...

- Mick, você pode me emprestar seu celular, por favor... - Clara disse chorando.

- Posso, querida... mas não briga com o Jack, ele está só te protegendo...

- Eu estou morrendo? É isso o que você não quer me dizer?

Jack chorava agora abertamente. - Me desculpa... - ele saiu pela porta para andar no jardim.

Mick segurou Clara no sofá. - Deixa, eu vou atrás dele... calma, amor... você precisa descansar... pega meu celular... - ele entregou seu celular para Clara e saiu atrás de Jack.

Ela pegou o celular, mas não encontrou coragem para ligar, chorou muito, teve uma crise de asma  e ansiosa,  resolveu ir até o jardim atrás deles. Levantou-se apoiando no sofá e começou a caminhar, bem devagar, ainda sentindo os joelhos dobrando-se incapazes de sustentar seu peso.

Concentrou-se para não cair, continuou andando até a porta. Depois, saiu para o jardim, não encontrou nem Mick, nem Jack e por isso continuou andando, rumo à parte detrás da casa, um vento gelado e úmido soprava seu rosto, mas ela lutava para continuar caminhando.

- Jack, Mick... Cadê vocês?

O frio passou a fazê-la tremer, sentindo suas mãos e seu rosto doloridos já, ela continuou caminhando na direção da piscina e da garagem. - Jack, por favor... estou congelando...

O tremor de Clara deixava-a ainda mais sem equilíbrio, ela então fez um último esforço para chegar ao banco de madeira próximo do jardim. - Jack, Mick... por favor, me ajudem... - ela disse, sentindo o frio roubar a voz de sua garganta. Deitou-se no banco e com a pouca força que restava, passou a bater nele e chutar seu encosto, tentando chamar atenção de alguém, antes de morrer de frio.

Continua

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