10 de fev de 2013

Rockstar - Capítulo CXI


Os dois passaram o dia todo na suite Versalhes, recuperando o tempo perdido e só no meio da tarde, o celular de Clara os tirou de seu idílio, Kate, Mark e o pequeno Jack já estavam em Londres, instalados no lindo quarto de hóspedes preparado para eles e já contando com a ajuda de uma babá providenciada  pelo escritório de Peters.

O telefonema serviu para lembrá-los que era preciso arrumar a bagagem porque partiriam de volta para casa naquela mesma noite.

- Amor... ao menos você deixou o celular ligado? Se eles precisarem falar conosco, irão nos achar?

- Claro que sim, querida... mas já está tudo programado... o voo sai daqui às 10 da noite e serão mais nove horas de volta para casa... contra o fuso horário... resumindo, chegamos lá ao meio-dia...

- Eu sei... mas precisamos ficar ligados no que está acontecendo... estou estranhando, você sabe que  ninguém da minha família deu qualquer sinal de vida até agora... estou preocupada...

- Fica tranquila, amor... Liga para eles. Quanto aos caras, eu só pedi que me dessem um tempo, para ficar com você... se houver algum problema maior, eles nos avisam, não se preocupe... estou com fome... vamos comer alguma coisa?

- Está bem, querido... vou tentar comer... mas não prometo nada...

- Como assim? Você precisa comer, ou vai acabar internada... eu sei que você não está feliz, mas eu estou preocupado com você...

- Amor... calma... é que vivemos tantas coisas nesses últimos dias... e eu sempre fui assim... quando fico nervosa ou triste... tenho muita dificuldade para comer, chego a passar dias sem colocar nada na boca...

- Amor... olha... eu entendo tudo... mas não consigo deixar de me preocupar... o médico me disse que você está muito fraca... eu e o Mick não te contamos, mas ele disse que se você continuar assim, recusando-se a alimentar-se, nós devemos te levar a um hospital... por favor, Menininha...

- Está bem... eu vou tentar... - ela disse com lágrimas nos olhos.

- O que eu peço?

- Sorvete de chocolate, com calda de  morango... acho que é a única coisa que eu conseguiria comer agora...

- Ok... vou pedir para nós dois... pensei em pedir panquecas também com calda de chocolate e morango... pode ser?

- Pode... me perdoa, Jack... estou tão cansada.... acho que eu devia mesmo voltar para o Brasil... para não te atrapalhar mais...

- Você me mata quando diz isso... - Jack disse com os olhos cheios de água. - Eu te amo, Menininha... me perdoa se estou te decepcionando tanto...

- Meu amor... você é minha vida, querido... eu não estou decepcionada, só muito cansada, pensando em tudo o que passamos nestes últimos dias... no quanto nós três sofremos porque eu fui uma idiota...

- Não se culpe... vem comigo... vou pedir nossas panquecas e sorvete... quer alguma coisa para beber? Champagne?

- Não... ainda estou tomando aqueles remédios que o médico me receitou... pede refrigerante para mim... e para você também...

- Verdade, amor... eu bebi ontem e só depois lembrei...

- Olha, amor... eu não sei o que pode acontecer comigo, de agora em diante... mas não importa o que aconteça... eu quero que você fique bem e siga sua vida...

- Você está me assustando, querida... não vou aceitar te perder... de jeito nenhum...

- Eu já passei por isso antes... eu não conseguia comer e...

- Querida... esquece... como eu posso continuar vivendo sem a minha vida? Eu vou cuidar de você, nem que tenha que transferir meu próprio sangue para suas veias... eu não vou te deixar ir assim...

- Ah Jack... eu te amo tanto... - ela disse chorando novamente. - me perdoa... não tenho o direito...

- Eu amo você... sou seu... não sei o que você entende quando eu digo isso... mas eu quero dizer que dependo completa e totalmente de você... sem você, eu sei que não vou conseguir continuar vivo...

Clara abraçou-o e beijou-o. - Isso não vai acontecer, meu amor... vou me tratar e já me recupero... eu te prometo que não te darei mais trabalho...

- Amor... eu estou aqui para cuidar de você... sei que você vai ficar bem e logo, nosso filho estará conosco, me ajudando a mimar muito a mãe dele...

- Lindo... não vejo a hora disso acontecer...

Clara fez força para terminar seu sorvete, mas não deixou Jack perceber. Estava nervosa porque mesmo aquelas guloseimas de que sempre gostou tanto, não desciam, um problema que ela só tinha enfrentado antes na época em que foi parar na UTI,  muito perto da morte por inanição.

- Querido... a Jen não te entregou umas sacolas de compras de ontem, entregou?

- Não... ela me falou alguma coisa sobre sacolas, mas estava tão fora de mim, que não me lembro...

- Vou ligar para ela, então... - Clara sorriu, pegando seu celular. - Já te disse que te amo?

- Ah, meu amor... vem aqui comigo... - Jack puxou-a para seu colo e passou a beijar seu pescoço, enquanto abria sua camisa.

- Eu preciso telefonar, querido... Jen... querida, tudo bem?

- Oi Clara... como você está?

- Bem melhor... você chegou a trazer minhas compras de ontem para cá?

- Não... Elas estão aqui comigo, vou levá-las junto com as minhas para o aeroporto... o Jack não te disse?

- Ele só lembrava que você tinha dito algo sobre sacolas... - Clara sorriu. - O pobrezinho, passou os últimos dias bem perdido...

- E como vocês estão agora?

- Tentando nos recuperar... não vai ser fácil, mas vamos conseguir...

- E o Mick?

- Estamos tentando ser amigos... ele vai para Paris hoje... ah, não quero falar nele... - ela disse com lágrimas correndo de seus olhos.

- Querida... fica tranquila... vai dar tudo certo... - Jennifer disse preocupada com a amiga que parecia estar lutando muito para continuar bem. - E o Jack?

- Ele está aqui comigo... me ajudando... Ok, então Jen... vou voltar para nossas malas... conversamos mais tarde...

Clara desligou o telefone e Jack sentou-a em seu colo e abraçou-a. - Ah, meu amor... tudo isso vai passar...  Tenho certeza  de que ficaremos bem...

- Eu queria tanto ter essa certeza... me perdoa...

Jack beijou-a apaixonadamente e depois limpou as lágrimas de seus próprios olhos. - Vamos, querida... ainda falta arrumar muita coisa...

- Está bem, querido... - ela tentou sorrir, sentindo mais uma vez a dor que vinha do peito dele.

Cansada e triste, Clara mergulhou em um silêncio estranho, que Jack não conseguia vencer com seu carinho e o clima dentro daquela suite agora era tão gelado quanto a chuva fina que caia soprada pelo vento.

A escuridão veio cedo naquela noite e Clara parou na janela para observar o movimento de figuras fantasmagóricas, caminhando pela larga avenida que separava o hotel do Central Park.

Jack, já triste por sentir outra batalha perdida, apenas aproximou-se dela e abraçou-a por trás. - Me perdoa, querido... a suite Versalhes desta vez foi um desperdício... Quando eu me lembro, da primeira vez em que olhei por essa janela e vi o Central Park lá fora, brilhando sob o sol...

- Não, meu amor... - Jack disse apertando-a entre seus braços e beijando-a com desespero.

- Ah Jack! - Clara suspirou. - Eu queria tanto estar a altura desse amor...

- Eu vou te fazer feliz, meu amor... você vai esquecer dele...

- Já esqueci... - Clara mentiu para tentar aplacar a dor que ainda sentia. - Vamos nos preparar para ir embora?

- Vamos amor... - Jack pegou-a pela mão e os dois foram até o quarto. Vestiram as roupas que estavam separadas para a viagem, deram uma última passada pelo quarto e desceram para fazer o checkout. Continuavam silenciosos, mas não se desgrudavam nem por um segundo.

- Então, querida... acho que é isso... - Jack disse depois de pagar a conta de sua hospedagem e pegar os recibos para ser reembolsado pela produtora de Peters.

Subiram na limusine e seguiram para o aeroporto Kennedy, agarrados um ao outro, apenas apreciando a paisagem noturna de Nova York sob a chuva, que agora caia torrencial.

- Querida... será que conseguiremos decolar com esse tempo? - Jack disse tentando tirar Clara de seu silêncio.

- Espero que sim, amor... - ela suspirou. - Precisamos ir para casa... já estou ficando preocupada, ainda não me sinto nada segura para cantar com você... e a Kate já chegou... é tão ruim ter convidados em casa e não poder estar lá...

- A Kate compreende, meu amor.... quanto ao show, vai dar tudo certo... vamos ensaiar mais um pouco nos próximos dias. O Peters alugou um estúdio pertinho de Londres e lá eles montaram um dos palcos da turnê, com a configuração completa  com telão, cenário... você vai adorar...

- Será que eu vou conseguir, querido?

- Claro que sim... você tem muito talento, querida... Sua voz é linda e você parece um anjo... o público vai te adorar, meu amor... mas ainda existe pequeno detalhe, que não é nada pequeno, na verdade...

- Qual detalhe?

- A sua vontade de fazer isso... Você quer mesmo estar no palco ou está fazendo isso só para agradar esse bando de rockstars veteranos bobos que estão sempre ao seu redor?

- Não sei, querido... senti-me muito bem no palco, no dia do meu aniversário, mas você estava lá, segurando a minha mão... não sei  se seria a mesma coisa se estivesse sozinha...

- Mas você sabe que pode e que não precisa de mim para nada, lá no palco, não sabe?

- Não sei... de verdade... mesmo sabendo que você estará lá,  tem horas que me dá um pânico enorme, só de pensar que vai ter uma multidão me olhando... tenho medo de tudo, de tropeçar nos meus pés, desafinar, esquecer a letra... não quero envergonhar vocês...

- Ah, querida...  não esquenta com isso... vamos gravar em video os ensaios e você vai ver... você é a coisa mais linda e doce cantando... só falta ter um pouquinho de fé em si mesma...

- Acho que ando um pouco abalada demais nestes últimos dias para ter essa fé...

- Não vamos falar sobre isso... eu quero esquecer estes últimos dias...

- Eu também... amor... mas eu estava aqui pensando...

- Sim, querida...

- As festas de fim de ano estão chegando... queria que minha família passasse o natal conosco...

- Claro, amor... o que você quiser... vamos fazer uma festa para todos lá na nossa casa... Sabe, querida... meus últimos natais não foram muito mais do que beber até cair, sozinho, na frente da lareira... no meu apartamento em Londres, ou na casa da montanha... onde calhasse de eu estar, na verdade...

- Ah... pobrezinho do meu amor... Nunca passei um natal longe da minha família... sempre foi muito bom, tenho saudades do jeito que a casa dos meus pais fica cheirando... com todos aqueles assados que a minha mãe prepara. Nunca tivemos muito dinheiro, mas ela  sempre faz comida suficiente para alimentar todo o bairro... e os enfeites?  Ela esperava eu e meus irmãos voltarmos da escola para montar a árvore de natal e meu pai ficava lá, todo enrolado naqueles fios com lampadinhas... - Clara disse com os olhos lacrimejando. - Ai amor... vai ser muito lindo ter todos ao nosso redor... seus filhos, meus pais, meus irmãos...

- Há muito tempo, eles não passam o natal comigo... O que sei é que todos os anos, a Mary e a Jane se revezam e eles vão para a casa delas...

- Mas neste ano quero todos aqui comigo, ao seu redor... não vou aceitar desculpas...

- Querida... seu celular está tocando... - Jack disse ao ver a tela do aparelho acendendo-se ao lado deles, no banco do carro.

- É o David... - ela sorriu ao ver o nome do amigo piscando na tela. - Oi David...

- Princesa, posso falar com o Velhão... o celular dele está desligado de novo...

- Claro... Jack... ele quer falar com você... disse que seu celular está desligado...

- Oi cara... existe uma razão para esse celular estar desligado... o que foi?

- O Peters mandou avisar que,  por causa dessa tempestade, o aeroporto Kennedy está fechado...  o piloto ligou dizendo que quando isso acontece, os aviões particulares entram numa longa fila de espera, na qual as companhias aéreas têm prioridade e isso pode significar ficar horas esperando por uma autorização para decolar...

- Ah... que saco! E o que vocês farão?

- Eu conversei com o Peters e ele já combinou com o piloto;  estamos adiando a volta para casa para amanhã ao meio-dia. Então, Velhão, avisa o motorista da sua limusine para voltar para o hotel... O Peters já conversou com o gerente do Four Seasons e a suite está pronta para vocês...

- Ok, então...  Menininha... vamos voltar para o hotel... o aeroporto está fechado por causa do tempo ruim e o pessoal decidiu viajar só amanhã... preciso pedir ao motorista para voltar ao hotel... só vai levar um minuto querida...

 Jack avisou o motorista que precisou dar uma volta considerável para pegar o caminho que levava de volta a Manhattan.

- Então vamos voltar para a suite Versalhes... - Clara suspirou. - Querido, acho que preciso ligar para os meus pais, eles ainda não me passaram os dados do voo deles... só espero que eles não cheguem amanhã em Londres...

- Liga, amor... mas não é muito tarde lá?

- É mesmo... vou ligar para o Jonas... ele vem junto... aliás estou estranhando muito todo mundo... mandei os bilhetes, mas preferi deixar que eles marcassem, porque estava ocupada e com problemas e eles nem me avisam quando vem...

- Calma, amor... o Jonas deve estar sabendo de tudo...

- Oi Jonas, tudo bem? Então... quando vocês chegam em Londres mesmo?

- Oi Clara.... tudo bem? Você já está em Londres?

- Não... ainda estou em Nova York... o aeroporto fechou por causa de uma tempestade e só vou sair daqui amanhã, só chego em casa de madrugada...

- Você não recebeu meu e-mail então... nós conseguimos um voo para Londres no dia 5, à noite, chegamos no dia 6,  de manhã... no Heathrow... Então, você não sabia?

- Não... eu não recebi esse e-mail... vem todo mundo no mesmo voo?

- Sim, quer dizer, quem está indo sou eu, seus pais, a Ciça e a sua amiga Renata... o resto não conseguiu liberação do emprego e disse que usará a passagem nas férias de Natal... estava tudo bem explicado no e-mail que eu te mandei...

- Mas eu não recebi... ah... que droga! Bom... a novidade é que eu vou chamar todo mundo para o Natal aqui em casa... mas me diz o número do voo, para eu anotar aqui... 


- Deixa eu pegar aqui a anotação... é o British Airways 2345... que estranho, o e-mail está aqui como enviado...

- Não... mas tudo bem... a que horas vocês chegam no domingo?

- Às 8 da manhã...

- Ok.... então estarei no aeroporto para pegar vocês... qual o terminal?

- O terminal 1... E você como está?

- Estou bem... só chateada de não poder voltar para casa hoje, a filha do Jack chegou hoje e não estou lá ainda... estou me sentindo presa aqui... e como estão todos?

- Todo mundo está bem, querida... a Sara me disse que encontrou com você e que você estava com problemas...

- Mas já está tudo bem... ela vem também, não?

- Sim... mas ela vai de Nova York, disse que já tem tudo pronto para viajar... fica tranquila que todo mundo está a caminho... o hotel já foi reservado pelo escritório da produção, seus pais vão ficar na sua casa, certo?

- Isso...mas não faz sentido que vocês fiquem no hotel... acho melhor que todos fiquem na minha casa, então...

- Não, querida... é muita gente, muita bagunça... não queremos incomodar... vamos para o hotel, imagino que você estará 

- Vamos decidir isso quando vocês chegarem, está bem?

- Ok! Você é quem manda... O que mais? Deixa eu ver... mais nada... está tudo certo, como sempre... só não entendi por que você não recebeu meu e-mail...

- Nem eu, Jonas... bom, se está tudo certo, vou voltar para os braços do meu marido... um beijo, querido... até domingo...

- Até domingo, querida!

- Então?

- Ele me mandou o e-mail, mas eu não recebi... eles chegam no domingo de manhã, em um voo da British...

- Então fica tranquila, amor... vamos buscá-los e passaremos o domingo todo com eles... - Jack sorriu. - Vou mandar uma mensagem para o Khaled já... vamos com a van dele buscar todo mundo...

- Perfeito, querido... 

- Tudo tem uma solução, meu amor... só nós não temos... sinto muito, mas estamos presos aqui...

- Não, querido... está tudo bem... estava mesmo com medo de voar com esse tempo, quer saber, não dá para confiar nem naquele monstrengo...

- Você não gosta nada de voar...

- Sempre fui assim, querido... gosto de viajar, mas sofro muito no caminho... - Clara sorriu pegando a mão de Jack. - Tenho medo de tempestades também, mas quando você está comigo... não sinto medo de nada...

- Ah, meu amor... - Jack puxou Clara para mais perto, envolvendo-a. - Descansa aqui nos meus braços... eu tenho certeza de que agora estaremos bem...

- Eu estava tão triste e cansada depois de tudo que aconteceu... mas acho que estou melhorando... você é bom demais para mim, Jack...

- Sonhei a minha vida toda em ter você aqui comigo e agora que eu tenho,  não posso te deixar ir embora...

Agarrados um ao outro, os dois atravessaram a tempestade e agora conseguiam ver novamente as luzes de Manhattan. A limousine parou na porta do hotel e em uma questão de minutos, estavam novamente na suite Versalhes.

Mas se a noite foi de romantismo e aconchego, a manhã seguinte foi de correria; cansados, os dois dormiram demais e precisaram correr muito para chegar ao aeroporto e ao avião da turnê que os esperava na pista do aeroporto JFK.

- Obrigado por aparecer, Velhão... - David disse assim que os viu entrando na aeronave, apressados, procurando as poltronas para sentarem-se.

- Olá pessoal, desculpa... - Clara disse sem graça. - Esquecemos de colocar o alarme do celular para tocar...

- Ah, Princesa... - Sempre é um prazer revê-la... - David disse, levantando-se, pegando a mão de Clara e beijando.

- Cara... é a minha mulher... dá para ficar longe?

- Paz... Velhão... - David sorriu, abraçando o amigo. - Então, vocês me parecem melhores...

- Estamos sim... aliás, eu quero pedir perdão a todos vocês por ter atrapalhado tanto esta viagem... prometo que isso nunca mais acontecerá... - Clara suspirou. - Agradeço a colaboração e paciência de todos vocês e gostaria de comunicar que tudo está resolvido agora e eu e o Jack estamos muito bem novamente.

- Que bom! - David sorriu. - Estamos felizes por vocês... de verdade!

- Então faremos nossa  reunião de resultados assim que o avião decolar... - Peters interrompeu a conversa, sorrindo.

- Reunião? - Jack perguntou desconfiado.

- Sim... quero só fazer uma atualização de dados com vocês e todos nós poderemos descansar no restante da viagem.

- E você, amor? Vai descansar na suite?

- Não, querido... vou conversar um pouco com  minhas amigas... - Clara sorriu.

- Ótimo... temos muita coisa para te contar, querida... - Jennifer sorriu. - Você não tem ideia...

- Viu, amor?

- Está bem, querida... mas eu também quero que você coma alguma coisa... - Jack respondeu, chamando o comissário de bordo. - Você pode servir logo alguma coisa para minha mulher?

- Claro, senhor... assim que decolarmos trago um lanche para a senhora... - ele sorriu. - Os senhores também gostariam de um lanche?

- Não obrigado... - disse Peters. - Comemos no hotel. Comeremos só bem mais tarde agora...

Quando todos estavam prontos, o avião decolou e, assim que as luzes que pediam que permanecessem sentados e com os cintos apertados, se apagaram, os homens seguiram para a sala ao lado, que também era utilizada como sala para as refeições.

- Jenni, não era para a Ann Kurtiss estar aqui conosco hoje?

- Nós achávamos que sim... mas parece que ela está resolvendo umas coisas em Nashville. Nós também estranhamos não vê-la nessa viagem...

- Acho que é obra do Jack? Quero dizer... será que ele pediu ao Peters... - Clara perguntou para as amigas...

- Não sei, querida... também achamos estranho... talvez tenha acabado tudo entre ela e o Peters, quem sabe?

- Mas não é só isso que temos para comentar com você, querida... - Cindy disse. - O Mick me ligou hoje, ele já está em Paris e disse que está sofrendo muito e que o Laurent mandou para ele umas ideias e que ele já repassou tudo para você por e-mail... quem é Laurent?

- Ah... é o pintor que restaurou o afresco do castelo de Nice... ele vai pintar meu presente de natal para o Jack...

- Você vai dar um quadro para o Jack? Do que? Vai posar nua?

- Não... eu pedi que ele desenhasse eu e o Jack juntos, no campo de alfazemas, na nossa vida passada...

- Uau... que ideia! Você acha que ele vai gostar?

- Acho que sim... sabe que estive pouco tempo lá na montanha, mas sinto muita falta dele... como se fosse a minha casa...

- Esse lance de vocês é mesmo algo extraordinário... mais uma razão para você pensar muito bem antes de tomar qualquer decisão precipitada, Clara... - Cindy disse preocupada com a amiga, que sequer havia tocado no sanduiche quente servido pelo comissário de bordo há alguns minutos. - Querida... sei que não é da minha conta, mas acho que você deveria comer alguma coisa... o Jack nos disse...

- Eu sei... - Clara suspirou, olhando para seu sanduíche. - É que eu não estou conseguindo comer... não depois de ter acabado com a vida de três pessoas, com a minha fraqueza...

- Querida... não faça isso com você mesma... - Jennifer disse pegando a mão da amiga. - Todos nós estamos muito preocupados com você...  o Mick me disse que já está fazendo contatos com médicos que possam te tratar,  chegou até a falar sobre uma clínica na Suiça que cuida de casos como o seu...

- E o Jack? Ele sabe disso?

- Claro, querida... o médico que te atendeu no outro dia, no hotel, deixou os dois apavorados...o David me disse que o Mick está todo o tempo em contato com o Jack... ele não te disse isso?

- Não... acho que ele não quer me assustar... além disso, tem medo de falar sobre o Mick comigo... Estou ainda muito confusa e minha doença piora tudo... juro que estou tentando... mas é tão difícil... - Clara disse abrindo o papel que envolvia o sanduíche e dando uma mordida. - Por que eu tenho que ser assim? Eu quero viver, eu quero ser feliz... e tudo o que consigo para mim mesma é essa sensação ruim de tristeza e morte... - ela disse desistindo de vez do sanduiche e caindo novamente no choro.

- Clara, querida... não fica assim... - Cindy aproximou-se e abraçou a amiga. - Você pode ser feliz com o  Jack... vocês têm a vida toda pela frente...

- Não é o que eu sinto, Cindy... aliás... eu quero pedir uma coisa a vocês... se acontecer alguma coisa comigo...

- Não fala assim...

- É preciso... - Clara suspirou. - Se acontecer alguma coisa comigo, vocês podem ajudar o Jack a se recuperar?

- Meu Deus, não seja tão dramática... antes que aconteça qualquer coisa, o Mick vai te internar na tal clínica e em dois tempos você melhora...

- Eu já passei por isso antes, sei do que estou falando... eles me faziam comer o tempo todo, me davam transfusões e mais transfusões de sangue e eu continuava a perder peso... cheguei a ficar em coma, na UTI, desenganada pelos médicos... por isso, estou preocupada... não comigo, mas com o Jack...

- Mas temos certeza que desta vez será diferente... logo vocês dois estarão juntos, em casa... ah... eu sei que você ama o Mick, mas não há nada no mundo que o Jack não faria por você, ele te adora, vocês só precisam ficar juntos por um tempo e tudo volta ao normal...

- Espero que sim...

- Tenta comer seu sanduíche, amiga... vai... faz uma forcinha...

- Está bem... - ela disse, resolvendo tentar mais uma vez, comendo o sanduíche até o final e bebendo o copo de suco que foi servido junto com ele. - Pronto... comi...

- Muito bem, querida... - Jennifer sorriu. - Será que essa reunião vai demorar muito?

- Acho que não... eu só tenho muita pena de ter atrapalhado tanto essa viagem...

- Ah... mas acho que foi tudo muito bem... o David me disse que o Peters fechou mais uma porção de datas nos Estados Unidos e que a venda dos CDs cresceu ainda mais por lá...

- Isso é muito bom...- Clara sorriu. - Estou feliz que eles estejam fazendo tanto sucesso... eu não sei, mas o que senti quando os vi tocando juntos novamente, foi que todos estão bem com a decisão, felizes...  é tão bom vê-los felizes...

- É... no palco, eles estão muito felizes... - Cindy sorriu. - Querida... você não vai ver o e-mail do Mick? Ele me pareceu um pouco ansioso...

- Vou ver sim... estou sentindo falta dele... - Clara disse com os olhos cheios de lágrimas, enquanto pegava seu iPad na bolsa. - Parece que vou passar o resto da minha vida chorando...

- Calma, querida... você vai se recuperar...

- Espero que eu consiga... mesmo...

Clara abriu o e-mail de Mick, nem quis ler o que ele tinha escrito, foi direto para as fotos dos esboços que Laurent já estava fazendo para o quadro. Emocionou-se muito ao ver os desenhos. Pareciam fotos das cenas de seus sonhos, Berthold deitado com a cabeça no colo de Ceridwen, enquanto a família de lobos brincava perto deles.

- Olha isso... - Clara mostrou o esboço para as amigas. - Eu não posso destruir esse amor...

- Calma, querida... vocês estarão bem... tenho certeza... Uau! Esse artista é muito bom... esse desenho é lindo...

- Que lindo... - Jennifer disse ao pegar o tablet nas mãos. - Imagina só quando ele colocar as cores... - O Mick gostou dos desenhos?

- Não sei... vou ler agora o e-mail... - Clara suspirou, pegando novamente seu tablet. - Eu queria tanto que tudo fosse diferente...

"Meu amor... estou enviando em anexo os esboços que o Laurent fez do quadro que você encomendou, eu particularmente fiquei comovido com o resultado porque senti dentro do meu coração que era exatamente isso que você queria.
Me perdoa a dor que eu causei, nunca foi minha intenção... eu continuo te amando mais a cada dia que passa, embora eu agora tenha entendido que não tenho nenhum direito de colocar em risco algo tão sublime quanto o amor de vocês.
Por favor, não se afaste de mim, ainda não sou suficientemente forte para ficar longe de você. Sei que apenas continuo vivo porque meu coração se prende à mais tola das esperanças, a de ter você novamente em meus braços, mesmo sabendo que é impossível.
Não quero destruir seu casamento e me contentarei em simplesmente poder estar perto de você, como um amigo, que adora sua amiga mais doce e amada... "

Clara parou de ler e caiu novamente no choro, no momento exato em que Jack e os rapazes voltavam da reunião.

- O que houve? O que foi, meu amor? - Jack disse desesperado por encontrá-la chorando novamente. - O que aconteceu?

- Nada, querido... - Clara respondeu apagando a tela do tablet. - Ainda estou me recuperando, meu amor... me perdoa, estou tentando me controlar, mas ainda estou muito abalada...

- Você comeu alguma coisa?

- Comi sim, querido... agora acho que vou me deitar... não me sinto bem...

- Meu amor... vem... vou te mimar um pouquinho lá em cima... você já vai melhorar...

Os dois subiram para sua suite e Jack sentou-se na cama e pegou Clara em seu colo. Não perguntou nada, nem disse uma palavra, apenas segurou-a em seus braços com muito carinho e esperou até que ela parasse de chorar.

- Obrigada, Jack... me desculpa... acho que preciso ainda de algum tempo para me sentir melhor....

- Meu amor... eu te amo muito... não consigo ser diferente... vi que você estava com o tablet nas mãos... o Mick te ligou, te escreveu?

- Sim, ele me mandou um e-mail... nada demais, mas ainda estou muito abalada e não preciso de mais do que isso... a culpa não é dele, é minha...

- Fica tranquila, querida... você já respondeu o e-mail?

- Não... depois eu respondo... não tem pressa... ah, Jack... estou tentando reagir, me afastar de tudo isso, mas é tão difícil...

- Eu sei... não precisa se justificar... eu sei o quanto você gosta dele...

Clara interrompeu a conversa beijando Jack e o beijo colocou-o em ação. Os dois mergulharam um no outro, deixando de lado tudo o que tinha acontecido nos últimos dias e depois, pegaram no sono cansados, abraçados.

Jack acordou primeiro, levantou-se, vestiu seu robe e desceu as escadas; encontrou seus amigos assistindo a um filme na sala que tinha as poltronas mais confortáveis naquele avião. Chamou um dos comissários e pediu bandejas com frutas, sucos, queijos e pães para ele e para Clara. Eles  comeriam na suite.

- Velhão... - David levantou-se de sua poltrona e aproximou-se de Jack. - Então... como ela está?

- Ela ainda está muito abalada, mas agora está dormindo um pouco... Só quero que esse pesadelo termine logo, estou muito preocupado com a saúde dela...

- Ela vai melhorar... a Princesa te ama, Velhão...

Ainda em clima de carinho, eles comeram juntos  na suite e só desceram para o pouso em Heathrow, às 3 da manhã, horário local, depois de 9 horas de voo, em uma madrugada gelada de outono. Não chovia em Londres, mas o clima não podia ser mais frio, mesmo com o céu coberto de estrelas.

Continua

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