7 de fev de 2013

Rockstar - Capítulo CIX

As portas duplas do sofisticado apartamento se abriram e sem saber o que fazer, ou dizer, Clara apenas olhou para Mick, que se aproximou dela com um enorme maço de rosas cor de lavanda nas mãos.

- São para você... - ele disse. - Me perdoa... eu precisava te ver e pedi a ajuda delas...

- Desculpa, Mick... - ela disse pegando as flores. - Não esperava por isso...

- Por favor, entre... encomendei um almoço especial para nós... Você me dá a honra de sua companhia, minha querida? - ele disse estendendo a mão para ela.

Ainda atônita, ela seguiu com ele para dentro do apartamento em silêncio. Alguns empregados de Mick, logo se aproximaram, oferecendo-se para cuidar de suas  flores e recolher seu casaco, bolsa e cachecol, para que ficasse mais a vontade.

Mick apenas a olhava, parecia  temer tocá-la, especialmente depois de ter sua atenção completamente roubada pelas roupas que  usava sob o casaco, calças jeans, botas de cano alto e uma camisa de cetim colada ao corpo, semi-aberta, revelando seus seios que agora arfavam.

- Você está linda, minha querida...

- Obrigada, Mick... - ela respondeu um pouco sem jeito, ao notar a direção de seu olhar.

- Posso fazer uma pergunta? Por que os óculos?

- Ah... desculpa... meus olhos estão tão feios... inchados, vermelhos... que achei melhor escondê-los...

Mick aproximou-se dela, tirou seus óculos, beijou seus dois olhos e depois sua boca, apaixonadamente, fazendo-a derreter-se em seus braços e esquecer-se imediatamente de todas as teorias que tinha formulado para defender-se da noção de que estava definitiva e perdidamente amando aquele homem.

- Eu te amo... Clara... muito... não tem um momento em que não pense em você, em tudo o que aconteceu entre nós...

- Nós não podemos... eu e o Jack estamos sofrendo muito desde aquele dia... eu não posso amar dois homens...

Mick agarrou-a e beijou-a novamente e o clima entre os dois esquentava mais e mais a cada minuto. Mas antes que acontecesse de novo, Clara afastou-se dele, com os olhos enchendo-se novamente de lágrimas.

- Não chora, meu amor... - ele disse, pegando-a pela mão e caminhando com ela até a sala de jantar, pronta para o almoço. - Vem... vamos almoçar... encomendei um... deixa eu ler aqui... - ele pegou um pedaço de papel no bolso do  blaser de veludo bem cortado. - "bowbow de cameron"

- Bobó de Camarão? - ela sorriu. - Adoro ver você tentando falar português...

- Quero aprender mais... - ele respondeu em seu português com sotaque carregado. - Você me ensina?

- Claro, querido... - ela respondeu em português, acariciando o rosto dele. - Você está me enlouquecendo, mas eu te amo...

- Eu te amo muito, querida. - ele disse beijando a sua mão, depois de puxar a cadeira para que sentasse.

Conversaram tranquilamente, como bons amigos que sempre foram durante a deliciosa refeição brasileira, regada a  suco de abacaxi com coco, sem alcool, que Mick mandou preparar porque sabia que Clara estava tomando remédios.

- Querido... está delicioso...

- Meu amor... eu preciso estar perto, cuidar de você.... senti-me terrivelmente culpado com tudo o que aconteceu... a Jennifer e a Cindy falaram muito comigo ontem, mas mesmo assim, eu precisava te ver...

- Eu estou me sentindo muito culpada também... não devia ter acontecido...

- Não querida... não suportava mais aquela tortura de te querer sem poder tê-la em meus braços...

- Eu também não, mas eu preciso cuidar do meu casamento... não importa o que o Jack disse... sei que ele sofreu muito com tudo isso e ainda está sofrendo... não quero que isso continue... dói muito saber que eu o magoei... eu o amo muito.

- Ah, minha doce Clara... eu entendo... quero te ajudar... mas não acho que você deva decidir nada assim,  levada pelo medo de perder o Jack... eu me coloco inteiramente nas suas mãos... sou completamente seu e por isso, me disponho a aceitar o que você decidir quanto a nós dois...

- Não podemos, Mick... você sabe que não podemos... eu sei o que tudo isso fez com o meu marido... eu não posso ser a razão do sofrimento dele...

- Eu sei, querida...  percebi isso ontem de manhã, lembra? Achei que você fosse morrer nos meus braços... sei muito bem que você simplesmente não se separaria dele ou o trairia novamente... sei de tudo isso, minha cara... mas também sei que o que aconteceu entre nós, no outro dia, não foi só uma questão de desejo...

- Você está certo, eu te amo... mas não devo, não posso te amar... serei sua amiga, estaremos sempre perto um do outro, mas não posso mais trair o Jack... por mais que exista desejo entre nós... eu não posso mentir para ele... não consigo transar com você, sem me sentir uma monstra...

- Eu sei, querida... relaxa... prometo a você que tentarei ser seu amigo e nada mais acontecerá entre nós, a menos que você queira... fica tranquila... quero te mostrar uma coisa que comprei há poucos dias, pensando em você, está na minha biblioteca... vem comigo?

- Claro, querido... - Clara sorriu e beijou-o no rosto. - Obrigada por me entender...

- Obrigado por não me deixar falando sozinho... vem, minha querida... - ele disse, abraçando-a e caminhando com ela por um longo corredor até uma porta elegante, que ele abriu.

Aquela sala também era luxuosa e sofisticada como o restante do apartamento,  com suas paredes pintadas na cor cinza chumbo, tinha pé direito muito alto, uma de suas paredes era uma imensa janela de vidro, que enchia o ambiente com a luz e as cores do Central Park no outono. A estante, dominava  os dois andares do lado oposto da janela e era lotada de volumes, enquanto no andar de baixo, uma elegante lareira e diversas poltronas confortáveis, mostravam a disposição do dono da casa em dividir aquele ambiente delicioso com seus convidados.

- Descobri que esta tela estava em leilão, lembrei-me do quanto você gosta deste artista e tive que comprá-la... - Mick disse apontando para a tela pendurada sobre a lareira. - É da fase de Giverny... você sabe...

Clara olhou para a tela emocionada. - Meu querido... mais um Monet?

- Estou montando uma coleção deles... você me falou dos jardins de Giverny com tanto entusiasmo, que acho que me apaixonei pela arte dele também... - ele disse abraçando-a na frente da tela e beijando sua testa. - A culpa é sua... meu amor...

- Mick... ah querido... - ela sorriu. - gostaria de algum dia poder andar nos jardins de Giverny com você...

- Seria maravilhoso, meu amor... sabe... quando olho para o afresco do castelo... sempre fantasio que somos nós dois, em outra vida... desfrutando brevemente de uma luz infinita, antes da mais dolorosa escuridão...

- Ah, Mick... - ela olhou para ele, com os olhos novamente cheios de água. - Se tudo fosse diferente...

Mick beijou-a novamente, os dois entregues àquela imagem do idílio perfeito, sob as árvores, em uma tarde de verão distante, iluminada pela luz dourada de um sol que nunca mais foi visto.

- Ah, querido... falando em quadros... eu e as minhas amigas estávamos fazendo compras de presentes para o Natal hoje...

- Já?

- É, querido... a turnê vai começar e estou com medo de deixar tudo para o último momento... Enfim... eu não sabia o que comprar para o Jack e me veio a ideia de encomendar um retrato, com aquele pintor que restaurou o afresco do seu castelo...

- Retrato? Por favor, diga que você não vai posar nua para aquele salafrário, vai?

- Não querido... por que salafrário?

- Desculpe... Sempre terei ciúmes das pessoas que podem te ver nua...

- Ai Mick... por favor... - ela sorriu. - Não vou posar... bom... - ela pegou Mick pela mão e sentou-se ao lado dele em um belo divã de veludo verde, estratégicamente posicionado na sala para permitir que quem nele se acomodasse, tivesse em sua frente a melhor vista do Central Park. - é uma história um pouco longa, melhor nos sentarmos...

- Hum... nossa... que mãozinha gelada... quer que eu acenda a lareira, meu amor?

- Não, querido... estou bem... - ela sorriu. - Tudo começou na minha lua de mel com o Jack, em Paris... nós dois tivemos exatamente o mesmo sonho, eu era uma sacerdotisa do Templo da Deusa e ele, um cavaleiro, que apareceu em minha vida e a mudou completamente....

- O mesmo sonho?

- Sim... e foi só a primeira vez... com o tempo, sonhamos muitas vezes com as mesmas pessoas, nas mesmas circunstâncias e com a ajuda do David, nós dois fizemos uma regressão a uma vida passada e... estava tudo explicado... eu era Ceridwen, uma aprendiz do Templo e ele era Berthold, um dos filhos do senhor de toda aquela região, que como não era o mais velho, estava destinado a ser um soldado...

- Vocês viram tudo isso? Mesmo?

- Sim, querido... mas foi uma história muito trágica... eu era ainda uma criança, que tinha sido admitida no templo há pouco tempo, como aprendiz, quando ele me viu pela primeira vez, em uma festa do povoado... ele se apaixonou por mim, me sequestrou e me levou para uma caverna, no topo da nossa montanha...

- Aquela montanha onde fica a casa de campo de vocês?

- Sim... exatamente... - ela disse, sentindo as lágrimas escorrendo de seus olhos. - Depois de alguns dias, ela conseguiu fugir dele, mas quando voltou ao templo, foi rejeitada pela Sacerdotisa e assim, não restou mais nada a ela além de voltar a montanha e  ficar com o homem que tinha destruído sua vida... Os dois construíram juntos uma casinha no alto daquela montanha e lá foram muito felizes... até que veio uma guerra e ele desapareceu... ela achava que tinha sido abandonada e revoltou-se contra seu destino... ficou na montanha sozinha, tentando comunicar-se em vão com o espírito de seu amado, que mesmo depois de morto ainda tentava voltar para ela...

- É muito triste mesmo... - ele disse, acariciando seu rosto e secando as lágrimas. - E você quer um retrato deles?

- Sim... quando era primavera... eles se amavam em um campo enorme de lavandas que cresce naturalmente até hoje por lá... quero um retrato deles, no meio desse campo, descansando da vida dura que levavam, nos braços um do outro...

- Que lindo, meu amor... tão trágico quanto o amor do casal do afresco... - ele disse abraçando-a. - Acho que o Jack vai gostar muito desse presente... quer que eu ligue para o Laurent? Você fala francês fluente, não? Para explicar a ele o que quer...

- Sim... e tenho algumas fotos da montanha, no meu tablet para mandar para ele...

- Ótimo... você manda para ele por e-mail... ah, querida... é o tal lugar dos lobos, não?

- É, Mick... aliás... acho que dá até para incluí-los no quadro... eram nossos companheiros de vida e depois que ele se foi, passaram a me defender dos intrusos...

- Lindo... acho que gostaria de conhecer a montanha de vocês...

- Eu adoraria... mas não sei se o Jack aceitaria isso... até me conhecer, ele recusava a levar suas namoradas lá... dizia que aquele lugar era apenas para as pessoas que eram para sempre em sua vida...

- Ele te ama muito... e pelo que você me disse agora, há muito tempo... estou comovido com a história que você me contou... quanto mais sei de você, mais eu te amo... Nunca parei muito para pensar sobre estas coisas... sempre fui muito bem resolvido, os religiosos se chocavam com o meu modo de viver e eu ficava o mais longe deles que eu podia... simples assim... mas as lendas da terra sempre me intrigaram... uma sacerdotisa? Faz sentido...

- Muitas coisas estranhas sempre aconteceram em minha vida, de uma forma ou de outra... e acabei estudando bastante sobre isso com a ajuda de um ex-namorado, no Brasil... quando fiz a regressão, tudo se encaixou... da emoção que eu sentia sempre que via o Jack cantando... à facilidade que tinha para compreender certas coisas como o Tarot, por exemplo...

- Bruxinha... - Mick sorriu e beijou sua mão. - minha adorável bruxinha... vem... vamos até a minha escrivaninha, amor... vou ligar para o Laurent... onde estão as fotos que você quer mandar para ele?

- No meu tablet, dentro da minha bolsa... que está...

- Vou pedir ao meu mordomo para trazê-la aqui... - ele disse caminhando até uma escrivaninha que ficava próxima das estantes de livros e tinha um grande monitor de computador em cima.

- Sua biblioteca é tão linda...

- É meu lugar favorito deste apartamento... John... traga a bolsa da senhora Noble até aqui. O que você prefere? Chá? Café? Capuccino?

- Capuccino, querido...

- E dois capuccinos... obrigado! Então... vamos ver... - ele disse ligando o computador e dando uma olhada rápida em seus e-mails, antes de pegar o endereço de Laurent  e começar a digitar uma mensagem em francês.

- Sua bolsa, madame... - o mordomo de Jagger disse entregando a bolsa a Clara com uma mesura. Enquanto isso, um garçom, servia em belos mugs, um delicioso capuccino, coberto com muita espuma e um leve toque de canela.

- Está uma delícia... - Clara sorriu, abriu sua bolsa e pegou seu tablet e um cabo que sempre carregava com ela. - Você precisa de um cabo, querido?

- Não, amor... me manda as fotos por e-mail... agora...

- Ah... claro... - ela riu. - Ainda me perco muito com essas tecnologias... - Estou te mandando... mas as pessoas... elas não têm nossa aparência atual... gostaria que ele nos reconhecesse na pintura...

- Você pode me descrever essas pessoas... ou melhor... não tem nenhum artista de cinema que seja parecido com eles?

- Não sei... eu era uma garota ruiva, com cabelos muito longos... cacheados... a pele muito branca... olhos verdes...

- Meu Deus... você devia ser linda...

- Eu era uma criança, querido... devia ter uns 13, 14 anos, no máximo... o Jack... era louro... um rapaz muito alto, com cabelos longos, também muito cacheados... engraçado... ele era muito parecido com ele mesmo... incrível, mas o Berthold era muito parecido com ele, no início de carreira... um príncipe encantado...

- Mas espera... pelo que você está me dizendo, vocês eram parecidos com o casal do afresco da minha sala de jantar... eu tenho uma foto boa aqui no computador, querida... o homem lembra muito o Jack no início da carreira e a mulher... parece muito com você...  - Mick disse mostrando uma foto em alta resolução do afresco, em seu computador. Ali, dava para ver em detalhes seus rostos. Os cabelos dela, longos e cacheados, em um tom de ruivo bem claro, muito próximo do louro.

- Mas o Berthold era bem mais jovem do que o príncipe, devia ter uns 17 anos... mal tinha pelos no rosto... tão lindo, meu amor. Engraçado... essa pintura sempre me comove... - ela disse, sentindo as lágrimas começando a correr em seus olhos...

- Amor... vem aqui... - ele disse puxando-a para seu colo e abraçando-a. - Ah, minha querida... eu te amo tanto...

- Eu também te amo, mas não podemos... - ela disse tentando secar as lágrimas de seu rosto. - Meu coração não suporta mais magoar o Jack...

Mick beijou-a no rosto e ela levantou-se do colo dele e voltou a pegar seu tablet nas mãos. - Ah! Lembra que falei sobre os lobos, na casa da montanha? Estou mandando uma gravação que fiz com os lobos na fonte, perto da nossa casa...

- Este lugar é muito bonito...

- Esta foto foi tirada exatamente no lugar onde ficava a nossa casa... era a vista da nossa janela... o vale, lá embaixo...

- A propriedade de vocês é tão linda...

- Eu adoraria recebê-lo lá, querido...

- Esses animais... que incrível... eles aproximaram-se muito de vocês...

- Quando os vi, senti que aquele foi o jeito da montanha dizer que eramos bem vindos novamente ali... fiquei muito emocionada...

- Eu imagino, querida... eles são encantadores...

Seu celular está tocando, querida... - Mick disse entregando a ela o aparelho que estava sobre a mesa.

- Oi Jack...

- Oi meu amor... terminamos uma das gravações e estamos no Plaza de novo... vocês já almoçaram?

- Já, querido... e você?

- Comemos em um restaurante perto do estúdio... a Jenni pediu para te avisar que suas compras estão no Plaza com ela...

- Ela está aí com vocês?

- Almoçamos juntos no Plaza e ela me disse que você foi almoçar com o Mick...

- Me desculpa... elas me trouxeram aqui, sem eu saber...

- Eu sei... não se preocupa, Menininha.... eu fiquei procupado quando elas me disseram, mas acho que vocês ainda precisam conversar...

- Mas, meu amor... eu não quero te magoar...

- Não estou magoado... eu preciso lidar com essa situação como um adulto. Você pode me dizer o que quiser... que não o ama, que nada mais vai acontecer entre vocês, mas eu sei que a sombra do que aconteceu  vai continuar pairando sobre as nossas cabeças... não quero te ver abrindo mão de nada por minha causa... preciso te fazer feliz...

- Ah, meu amor... eu não sei nem o que dizer... - ela disse irrompendo em um pranto desesperado.

- Querida... querida...

Vendo-a chorar, Mick levantou-se de sua cadeira e foi na direção dela, pegando o celular de suas mãos e abraçando-a. - Jack... sou eu... ela está chorando muito agora,  vou tentar acalmá-la... já ligo para você. - Vem aqui, meu amor..

Clara agarrou-se a Mick, que pegou-a no colo e levou-a de volta para o divã, acomodando-a em seus braços, acariciando seus cabelos, enquanto ela chorava e balbuciava palavras sem sentido. - Vou te servir um uisque querida...

- Não posso beber... estou tomando remédios... - ela disse, tentando controlar-se. - Me perdoa...

- Meu amor... calma... vou ligar para o Jack, ele está muito preocupado... E vou pedir um café forte para você... você pode tomar café, não?

- Posso...

- Ok... vou ligar para o Jack... - ele disse depois de pedir para seu mordomo trazer um café bem forte para ela. - Jack, oi amigo... - ele disse no celular de Clara.

- Como ela está?

- Se acalmando... pedi um café forte para ela agora, para meu mordomo... Ah Jack... será que você pode vir para cá, estou preocupado com ela... 

- Não peça isso, não posso atrapalhar o trabalho dele... - ela disse entre lágrimas. - Por favor...

- Desculpa, Mick... tenho mais um programa para gravar... tenta acalmá-la, se não conseguir, chama o médico... o número dele é...

- Eu tenho um cartão dele, Jack... mas ainda não vou ligar, acho que consigo acalmá-la sozinho, não quero que o médico venha  até aqui para dopá-la novamente... Ela precisa de carinho, não de mais remédios... Ai cara... está me doendo tanto vê-la assim...

- A mim também, Mick... depois da entrevista, vou correndo para aí...

- Ok, cara... obrigado! Você sabe o quanto ela significa para mim...

- Sei... para mim ela é mais do que tudo... é a minha própria vida,  não suporto a ideia de vê-la assim... Mick, se acontecer alguma coisa com essa mulher, acho que não sobreviverei... Vou gravar o Letterman e assim que terminar, vou até aí...

- Ok, cara... vai dar tudo certo... lembra que eu a amo também... a gente conversa depois... vou cuidar dela agora... me liga quando puder... - Mick desligou o telefone e abraçou Clara de novo.

- Mick... me perdoa... não quero criar mais problemas para você... eu não sei o que está acontecendo comigo... preciso conseguir me controlar, estou me sentindo o pior monstro do mundo, destruindo a mim mesma e atrapalhando a vida de vocês dois... o que eu posso fazer?

- Nada disso importa, meu amor... eu e o Jack estamos com você porque queremos estar... nós dois te amamos.... quem disse que você não pode nos amar? Não devemos satisfação para ninguém, podemos viver como quisermos, juntos ou separados.... aliás, quando o Jack chegar, vamos combinar de passarmos uns dias longe de tudo, no meu castelo, só nós três...

- Não podemos... tem a turnê...

- Mas a turnê vai parar no final do ano... não vai?

- Mas e as festas? Os filhos do Jack, a minha família... não podemos...

- Meu amor... podemos sim... acho que todas estas pessoas querem nos ver felizes... também tenho filhos e família e estou disposto a deixá-los esperando um pouco até ver a mulher da minha vida e o homem que ela ama, felizes e tranquilos...

- Isso é muita loucura... você conhece o Jack, sabe que ele nunca aceitaria...

- Ele quer te ver bem e se isso te fizer bem, ele aceitará... você mesma me disse que ele não gosta de receber pessoas estranhas na casa de campo de vocês...

- É... ele não gosta...

- Na outra noite, quando você estava dormindo, ele falou em irmos para lá... queria que nós dois cuidassemos de você... nós dois te amamos e vai fazer muito bem para nós três ficarmos longe do resto do mundo por algum tempo. O castelo também é um ótimo lugar para isso... e não é tão frio quanto a montanha... podemos ficar bem mais a vontade por lá... você não gosta do castelo de Nice?

- Claro que gosto... mas...

- Calma, querida... fica tranquila... vamos encontrar a nossa paz... nem que seja uma coisa só nossa... amo tanto você que tenho certeza que estaremos bem e juntos... não chora mais... por favor...

- Estou tentando... de verdade...

- Eu sei, meu amor... - ele disse segurando-a em seus braços. - Agora, calma... tudo vai ser resolvido... nós três estaremos muito bem... eu te prometo...

- Espero que sim, meu querido... eu gosto muito de você, mas não posso ferir o Jack...

- Ele está tranquilo, vai gravar o show do Letterman agora e depois virá aqui para conversarmos... como você está se sentindo?

- Melhor... me desculpa... fiquei desesperada quando descobri que o Jack sabia que eu estava aqui... eu não posso  magoá-lo... não estou aqui para trair a confiança dele...

- Eu sei, meu amor... calma... respira fundo... e descansa... daqui a pouco, o Jack estará aqui. Vou mandar que meus empregados preparem um jantar especial para nós e, se vocês quiserem, podem passar a noite aqui... tenho um quarto de hóspedes lindo... com uma vista ainda mais bonita do Central Park, do que esta da biblioteca...

- Obrigada querido... você tem sido muito bom para mim e para o Jack...

- Eu amo você, minha querida... e se alguém deve pedir desculpas aqui, sou eu... você estava tão bem com o Jack e eu apareci e destrui tudo.... me perdoa, meu amor...

- Ah, querido... você não tem culpa... eu tentei fugir do que estava sentindo, mas não consegui... depois... tentei acreditar que tinha me envolvido com você, porque estava com medo do meu relacionamento com o Jack... mas bastou vê-lo de novo, que tudo voltou aqui dentro do meu coração, ainda mais forte...

- Não entendi... do que você está falando?

- Encontrei-me ontem com dois amigos brasileiros, que sempre me ajudavam quando eu tinha alguma crise, me davam conselhos... são pessoas em que confio muito... que me ajudaram a continuar viva, quando eu achei que fosse morrer, depois que meu primeiro namorado sério me abandonou...

- Pobrezinha... quantos anos você tinha?

- Tinha acabado de fazer 20 anos...

- Então... eles me disseram que achavam que eu estava me envolvendo com você porque estava assustada com o tamanho do meu comprometimento com o Jack... eu estava tentando boicotar meu relacionamento...

- E você estava?

- Não... quando eles me disseram, fez sentido... achei que quando te visse novamente, não sentiria mais nada... mas quando você abriu a porta do apartamento, com aquelas rosas nos braços... tudo o que eu queria fazer era te beijar...

Mick agarrou-a e beijou-a apaixonadamente e os dois se entregaram ao que estavam sentindo; um amor maior do que eles, doce como o sol que se punha lentamente no horizonte dourando o céu, fundindo-se ao mar dourado e vermelho das árvores do parque atrás da janela.

- Isso não pode acontecer... não... por favor Mick...

- Está bem, querida... como você quiser... você está aqui, nos meus braços e isso me basta...

- Me perdoa... eu ainda sinto muita culpa...

- Eu sei, querida... não se preocupe... culpa é bobagem... o Jack disse...

- Não importa o que ele diga... eu sei o que ele está sentindo e chego a sentir sua dor, aqui dentro do meu peito...

Mick abriu os primeiros botões da camisa dela e beijou o lugar em que ela apontou. - Estou aqui para você, meu amor...

- Por favor, querido... vem, vamos sair daqui... não posso deixar que isso aconteça de novo...

- Isso é só amor... nada mais...

- Não, Mick... isso é traição e dor...  eu ainda amo o Jack, não posso ferí-lo...

- Mas não se importa de me ferir, não?

- Claro que me importo... mas eu me casei com ele... não está certo... eu não posso amar dois homens ao mesmo tempo...

- Me perdoa, querida... calma... o Jack virá para cá e iremos conversar e chegaremos a uma conclusão... não quero deixá-la nervosa novamente... mas eu amo você e está muito difícil para mim, não consigo abrir mão do que sinto...

- O destino nos atirou na pior das armadilhas... e eu não consigo ver uma saída...

- Meu amor... tudo tem uma solução... tudo... e não se preocupe com as pessoas lá fora... com os que apontam o dedo julgando, porque eles não estão aqui. Não é o peito deles que dói com a culpa de achar que estamos fazendo algo de errado... não existe certo ou errado aqui... somos adultos, ricos e ninguém tem o direito de nos dizer como viveremos nossas vidas...

- Eu sei... deixa o Jack chegar... vamos conversar. Sei até o que ele dirá, que não se importa, que podemos viver juntos... mas eu sinto a dor dele... sei que está muito decepcionado comigo...

- Mas ele não vai te abandonar... ele me disse que não se importava com o que acontecesse entre nós... apenas queria que você continuasse perto dele, mesmo que não o amasse mais...

- Então... não posso deixá-lo assim... duvidando do meu amor... eu deixaria de viver se ele me abandonasse... - seus olhos lacrimejando mais uma vez. - Só de pensar nisso... eu...

- Não, querida... calma... vamos resolver tudo... você estará bem e terá nós dois ao seu lado e seremos felizes... quanto a mim, você pode ter certeza de que não te abandonarei... mesmo que você queira que eu me afaste... eu estarei por perto para cuidar de você... sempre...

- Ah... por favor... não diga isso... eu quero que você me esqueça... quero te esquecer também... preciso te esquecer...

- Está bem... se for isso que você quer... - ele disse com um olhar triste. Pela primeira vez parecendo realmente  abalado com tudo o que estava acontecendo.

- Me perdoa, não é isso o que eu quero... mas...

- Mas o que? Já te disse... eu aceito suas condições... viveremos juntos, separados, em qualquer parte do mundo em que você se sinta bem... mas não sei se consigo simplesmente me afastar... a ideia de ficar longe de você...

- Eu sei, querido... - ela o beijou e ele a agarrou, prensando seu corpo contra o dela. - Não posso... por favor...

- Ah, querida...

- Me perdoa...

- Meu amor... vamos conseguir... sei que vamos... Nós três ficaremos bem... você vai ver... agora, venha até o computador, ainda não terminei meu e-mail para o Laurent... você ainda quer dar um quadro para o Jack, não?

- Quero sim... me perdoa...

Ele não disse nada, apenas puxou-a para sentar-se em seu colo, enquanto relia o que já tinha escrito. - O que você acha?

- Está ótimo... você vai ligar para ele também, não?

- Sim... você fala francês, não, querida?

- Sim, falo...

- Vou colocar o telefone no viva-voz... assim, se me esquecer alguma coisa, você me ajuda...

Os dois conversaram com o artista, que ficou feliz de receber aquele pedido inusitado e apenas pediu a Clara para enviar um texto que contasse mais alguns detalhes sobre aquelas pessoas que ele imaginou serem antepassados de seu marido.

Clara digitou rapidamente alguns detalhes daquela história, enquanto Mick, que tinha um conhecimento mais profundo da língua francesa, ajudava-a corrigindo os erros e sugerindo palavras mais apropriadas.

- Somos um time e tanto, querida... - Mick sorriu. - Você ouviu o Laurent? Ele está muito feliz de trabalhar para você...

- Sim... ele está, não é? - ela sorriu. - Gostei da minha ideia... quero que seja um presente muito especial...

- E será, meu amor... se eu estivesse no lugar dele, eu ficaria muito emocionado...

- Eu quero fazer o Jack feliz...nós eramos tão felizes quando viviamos juntos naquela montanha... nos amávamos no meio das flores... não me pergunte como, mas posso ainda sentir o perfume delas, sendo amassadas pelos nossos corpos...

- Lindo... - ele disse, puxando-a para mais perto e beijando-a novamente. - Desculpa... eu sei que não devia...

Clara beijou-o mais uma vez e os dois ficaram abraçados, quietos por alguns minutos, apenas navegando a enorme onda de amor que estavam sentindo naquela momento.

- Meu amor... me perdoa... Isso não pode acontecer mais... eu te quero muito, mas não posso mais trair o Jack...

- Eu sei, querida... - Mick sorriu e beijou-a na testa. - Você é muito doce...

Quando Jack finalmente chegou ao apartamento de Mick, os dois já tinham voltado para a sala de estar, onde conversavam, sentados no tapete, em frente à lareira, enquanto comiam bombons de chocolate.

- Jack, meu amor... - Clara levantou-se e beijou-o.

- Olá, querida... desculpa a demora...

- Jack, por favor... nos acompanhe... decidimos imitar os indianos e começar a refeição pela sobremesa... - Mick sorriu.

- Obrigado, Mick... - ele disse, sentando-se ao lado de Clara. - Então... como você está querida?

- Melhor, meu amor... o Mick me ajudou muito... conversamos a tarde toda...

- Que bom... obrigado Mick...

- Você me acompanha em um uísque?

- Estou tomando medicação... o que a Clara está bebendo?

- Refrigerante, amor... - Clara sorriu, mostrando a ele o copo alto cheio de gelo.

- Ok, vou buscar... vamos jantar daqui a pouco... vou aproveitar e ver como estão as coisas na cozinha... já volto...

- Está tudo bem com você, meu amor? - Jack abraçou Clara assim que Mick saiu da sala. - Vocês conversaram?

- Conversamos, querido... e me perdoa... mas eu não consigo simplesmente vê-lo como um amigo... - ela disse com os olhos já molhados novamente.

- Eu sei, meu amor... não tem importância... eu estarei em paz com qualquer decisão que você possa tomar...

- Meu amor... você é o homem mais doce do mundo... eu não quero te magoar, por isso, estou lutando muito para tentar fazer dele apenas um amigo...

- Querida... você não está me magoando... eu te entendo e te apoio... e continuo te amando...

- Mas eu não estou te fazendo feliz, Jack...

- Estou feliz sim, querida... você está aqui, ao meu lado... e é sincera comigo, me ama... por que eu não estaria feliz? Só precisamos conversar porque parece que teremos um casamento a três... e sinceramente, por isso, eu não esperava...

- Eu também não esperava, mas neste momento, eu estou muito confusa... acho que precisamos conversar muito, nós três...

- E iremos conversar, meu amor... não fica assim... - ele disse abraçando-a. - Tudo vai ficar bem... eu te prometo...

- Pronto, senhor Noble... seu refrigerante... - Mick sorriu. - Clara, querida... calma... - ele disse ao perceber que ela chorava novamente.

- Me perdoem... não quero mais chorar... - Clara disse, tentando secar os olhos, já inchados.

- Querida... come mais chocolate... você já vai melhorar... - Mick disse pegando a bandeja com bombons e entregando a ela. - Está tudo bem, minha querida... se você preferir que eu me afaste... farei tudo o que você quiser que eu faça...

- Por favor... não se afaste... - Clara disse. - Eu preciso ter tempo para entender tudo isso...

- Eu sugeri para a Clara, para passarmos uns dias no meu castelo... só nós três... longe de tudo...

- Você quer ir, querida? - Jack perguntou a Clara. - Eu faço o que você quiser...

- Está bem... podemos combinar isso então... - Clara disse, pegando a mão de Jack. - Assim que tivermos um espaço na nossa agenda podemos nos isolar lá... ou na nossa montanha...

- Me perdoa querida, mas na nossa montanha não... me desculpa, mas é o nosso refúgio e... por mais que eu te apoie...

- Eu sei, querido... eu disse isso para o Mick antes...  eu sabia que você não aceitaria...

- Aliás... me desculpa... mas ainda estou tentando me acostumar com a ideia de que o grande amor da minha vida me traiu... sou velho e lento para me adaptar... eu te amo tanto... não consigo entender, por que você precisa amar outro homem?

Clara olhava para Jack e não conseguia conformar-se, começou a chorar novamente, sentindo pela primeira vez que ele voltava a ser sincero quanto aos seus sentimentos e percebendo a sua dor.

- Mick... me desculpa... mas não consigo... - ele disse chorando e caminhando até a porta. Enquanto isso, os joelhos de Clara falhavam e ela despencava sobre o sofá.

- Minha vida acabou... - ela disse, enquanto Mick a abraçava, tentando acalmá-la. - Mick... por favor... - ela tirou a aliança e o anel de noivado de seu dedo e colocou os dois na mão de Mick. - Acho que preciso tomar uma decisão... entrega para ele... eu vou embora...

- Embora? Para onde?

- Para o aeroporto... vou embora para minha casa, no Brasil... de onde eu nunca deveria ter saído...

- Mas você não tem condições de sair assim... transtornada... calma... se você quer ir para o Brasil, eu te levo... vamos juntos no meu avião...

- Não... eu vou sozinha... não tenho mais um coração... não posso amar mais ninguém... eu destrui a coisa mais importante da minha vida... chega!

- Calma... se você não quer ir no meu avião... pelo menos me deixa te levar ao aeroporto...

- Querido... obrigada, mas não... vou pegar um taxi... não tenho bagagem, vai ser mais fácil assim... eu sabia que em algum momento ele assumiria o que estava sentindo de verdade... eu te amo muito, mas não vou conseguir continuar aqui, não depois do que eu fiz com o Jack... melhor eu ir...

- Não, querida... por favor... fica comigo... - Mick disse puxando-a pelo braço e agarrando-a. - Se ele não te ama o suficiente...

- Ele me ama... mas está com seu orgulho ferido... e eu... estou destroçada... minha vida acabou... eu não sou boa nem para mim mesma... não quero destruir sua vida também... melhor eu ir embora...

- Não vá... - ele a abraçou e beijou. - por favor...

Agarrada nele, ela chorava ainda mais. - Eu quero ir... eu perdi o Jack... será que você não me entende?

- Amanhã você conversa com ele... eu tenho certeza de que agora ele está indo até o Plaza, chorar nos ombros do Dave... calma, querida... ele não vai te abandonar...

- Ele já me abandonou, Mick... eu conheço o Jack... ele não vai querer me ver nunca mais... nisso, eu posso ajudá-lo, vou para o Brasil e fico lá... assim não atrapalho mais a vida de ninguém...

- Ah, querida... fica comigo... vamos ser felizes... vou ligar para o Keith e pedir um tempo... vamos viajar, descansar em algum paraíso tropical... por favor... não me negue isso...

- Olha Mick... eu te amo, mas não conseguirei ser feliz sabendo que decepcionei tanto o Jack... é melhor eu ficar longe mesmo...

- Vamos fazer uma coisa então... você passa a noite aqui, comigo... amanhã cedo, se você ainda quiser ir embora, eu te levo no meu carro até o aeroporto... está bem?

- Está bem, então... estou muito cansada... você se importa se eu for me deitar, agora?

- Não, meu amor... Vou te levar até o quarto de hóspedes... vem comigo... - ele pegou-a pela mão e levou-a até o quarto, deu a ela pijamas de seda que ficaram enormes em seu corpo franzino e deixou-a sozinha para preparar-se para deitar, voltando depois com um tranquilizante e um copo de água. - Toma esse comprimidinho, querida... tudo vai ficar bem... confia em mim...

- Obrigada, Mick e me perdoa... por mais que eu te ame... meu coração está tão destruído agora... não me sinto mais viva, querido...

- Eu sei, meu amor... eu sei, calma, descansa... amanhã vai ser outro dia... - ele disse desligando a luz do quarto para que ela dormisse. Depois, sentou-se na cama e segurou sua mão, até que pegasse no sono.

Ela chorou silenciosamente, até o remédio fazer efeito, ele então, levantou-se,  lavou o rosto, pegou seu carro e foi até o hotel Plaza, a procura de Jack, mas não o encontrou. Conversou rapidamente com David, que desta vez, não sabia onde o amigo estava, mas disse a ele para procurá-lo no Four Seasons, onde estava hospedado com Clara.

Preocupado com o amigo, David ofereceu-se para ir com Mick atrás dele e os dois finalmente o encontraram na suite Versalhes.

- Velhão... tem uma pessoa lá fora que quer conversar com você...

- Não quero falar com ninguém... por que ela tem que ser assim? Se ela me ama, não pode amar também aquele cara...

- Velhão... calma... ela é um anjo, não merece isso que você está fazendo... você sabe que ela é mais frágil do que um filhote de passarinho...

- Eu sei... mas ela ainda é a minha mulher... cara... como ela pode dizer na minha cara que gosta de mim e dele... sou eu, ou ele... não consigo dividir... não a minha mulher... ele que fique com ela... não quero mais saber... eu não tenho mais um coração... nunca mais conseguirei amar alguém...

- Foi exatamente essa a frase que ela usou... - Mick disse entrando inesperadamente no quarto de Jack, obrigando David a esforçar-se para tentar segurar Jack.

- Eu vou te matar, seu...

- Calma, Velhão... acho que vocês precisam conversar... eu sei que você ama a Princesa... Você também, Mick... por favor... calma... tudo já está de ponta cabeça, não precisamos de um escândalo,  não quero ver ninguém preso aqui por  perturbação da ordem, ou coisa pior... então... vamos ser adultos e conversar... a Clara merece, não merece? Querem um uísque? - David disse caminhando até o bar, pegando a garrafa e servindo três doses. - O que você estava dizendo, Mick?

- Antes de sair de casa, a Clara me disse exatamente essa frase que o Jack acabou de dizer... cortou meu coração... ela disse que não tinha mais um coração... e que nunca mais amaria ninguém... - Mick disse com lágrimas nos olhos. - Me desculpe Jack... mas eu nunca quis separar vocês... embora eu a ame muito, eu sei que ela não consegue viver sem você...

- Eu tenho vontade de te socar... você acabou com a minha vida...

- Calma, Velhão... calma... bebe um gole...

- Onde ela está?

- No meu apartamento... dei a ela um tranquilizante e cuidei dela até pegar no sono antes de sair... ela está arrasada... estou muito preocupado, ela queria ir para o aeroporto, voltar para o Brasil, no momento em que você foi embora... consegui convencê-la a descansar um pouco, para embarcar amanhã... acho que ela vai para lá assim que acordar...

- Dave, não deixa ela ir... - Jack disse voltando a chorar. - Vai lá... faz qualquer coisa, segura ela...

- Só você pode conseguir isso, Jack... ela não vai querer nem me ouvir... você sabe disso...- David disse servindo mais uísque no copo do amigo. - Velhão... ela te ama... e acho que é só ir até ela, com mais um daqueles maços de rosas ridiculamente grandes e pedir perdão... 

- Ah... me desculpa, Jack... mas ela me pediu para entregar isso para você... - Mick disse abrindo a mão e revelando nela o anel de noivado e a aliança de casamento de Clara.

- Ela... ah, Dave... o que eu faço? Ela não me quer mais...

- Quer sim, Jack... - Mick disse colocando as duas jóias nas mãos de Jack. - Olha... eu serei completamente sincero com você agora... eu amo muito a Clara... para mim, ela é o próprio sol, a luz que ilumina minha vida... mas não sou cego... não adianta tentar ser feliz com ela, porque ela só é feliz de verdade com você... e porque eu a amo, acho que você deve cuidar dela e amá-la como ela merece ser amada... eu daria o mundo inteiro para ela, mas ela quer só você...

- Você tem certeza disso? Quero dizer... é muito difícil para mim vê-la chorando pelos cantos porque  não pode estar com você...

- Cara... você não pode é deixá-la como está agora... quando dei o tranquilizante a ela, tive medo que  morresse nos meus braços, tão frágil... chorando tanto...

- Eu vou buscá-la quando amanhecer... deixa ela descansar agora... Dave, você me ajuda?

- Claro, Velhão... o que você quer que eu faça?

- Avisa todo mundo que não irei aos compromissos de amanhã... quero passar o dia cuidando dela... Mick... cara... eu não sei nem o que dizer para você... ela é a mulher da minha vida... e eu te juro que tentei entender... a coisa que eu mais quero na vida é fazer a Clara feliz, mas... eu não consigo mais fingir que não me importo... cada vez que ela te toca ou te beija... isso me mata aqui dentro...

- Eu sei, cara... eu sei... me desculpa... eu a amo muito... mas entendi que não poderei tê-la mais nos meus braços... tenho medo de destruí-la... fiquei muito assustado com o tamanho da tristeza dela, quando ela achou que estava te perdendo... tive a impressão de que seus olhos estavam se apagando...

- Eu sei, cara... eu sou um idiota, nunca deveria ter feito aquilo... você se importa se eu for até lá, agora? Quero estar com ela, quando ela abrir os olhos...

- Claro que não me importo... cuida dela, cara... você é o único que pode, não quero vê-la sofrendo nunca mais...

- Não vai... eu vou cuidar dela como sempre cuidei... mas por favor... dá um pouco de espaço para nós... eu sei que teremos a turnê... e depois as férias de final de ano... mas acho que preciso levá-la para longe... quem sabe passar uns tempos na praia...

- Velhão... calma... você primeiro precisa ganhá-la de volta...

- Isso eu não acho que será problema... é só uma questão de conversar com ela...ela está sofrendo muito, Jack... - Mick disse, com uma expressão cansada e triste. - Ela merece ser feliz...

- Desculpa, cara... sei que  ela gosta muito de você, que você é muito mais do que um amigo... mas definitivamente eu não consigo segurar essa onda...

- Eu sei, amigo...  isso vai ser difícil para mim... mas espero conseguir sobreviver... vou para Paris amanhã, nos encontramos daqui uns dias no castelo e de agora em diante serei só o amigo que sempre fui para ela...

- Então, Velhão... vamos lá para a casa do Mick?

- Vamos... mas espera... vou levar umas roupas para ela, está muito frio... e precisamos comprar umas flores...

Os três desceram e cruzaram Manhattan de madrugada procurando por uma floricultura aberta, mas  sem sucesso, decidiram deixar David no Plaza e depois seguiram para o apartamento de Mick, quando o dia já estava quase amanhecendo.

- Está muito frio, Jack... você trouxe um casaco apropriado para a Clara?

- Ah, sim... pobrezinha... ela não está acostumada com esse gelo todo...

- Me desculpa dizer isso, Jack... mas tem horas que eu gostaria apenas de abraçá-la e protegê-la do resto do mundo... ela me parece tão pequena e tão frágil...

- Eu não quis dizer nada na frente do Dave... mas... estou muito preocupado com ela... se acontecer algo comigo... você estaria disposto a cuidar dela?

- Claro... no que depender de mim, estarei sempre por perto... sei que estou pedindo demais, mas ... eu não vou conseguir ficar longe...

- Mas você me promete?

- Sim... prometo... eu vou cuidar dela... quero ajudá-la a ser uma grande estrela... por favor, não nos afaste...

- Não vou afastá-la de você, mas você precisa entender que ela é minha mulher... o amor da minha vida...

- Eu entendo... mas também a amo...

- Então... me ajuda... eu não quero nunca mais vê-la triste...

- Vou tentar... mas,  por favor, tenta entender que eu a amo muito... para mim é muito difícil resistir a ela...

- Mas resista! Tenho muito medo de toda essa confusão que você criou na cabeça dela... ela é só uma criança, já é horrível vê-la sentindo culpa... eu tentei com todas as minhas forças tolerar essa loucura... tentei evitar  tudo isso, mas está me matando...

- Desculpa, Jack... eu sinto o mesmo quando a vejo com você... vai ser muito difícil me afastar... não poder tê-la mais nos meus braços... mas vou tentar, por ela...

- Ok...

Os dois chegaram ao apartamento de Mick e Jack entrou no quarto onde ela dormia, apagada pelo efeito do tranquilizante. Olhou para ela e começou a chorar, saiu rápido, com medo de perturbar seu sono.

- Você sabe quanto tempo vai demorar para ela acordar? - Jack perguntou a Mick, limpando as lágrimas dos olhos. - Esse remédio que você deu a ela... sabe quanto dura o efeito?

-  Não... só sei que precisava acalmá-la... e ela chorou por muito tempo, até pegar no sono...

- Você ficou com ela?

- Até ela dormir... foi de cortar o coração...

- Vou ficar com ela, no quarto... quero estar por perto quando ela acordar...

- Vai, cara... eu vou dormir um pouco... está quase amanhecendo... mas quando ela acordar, por favor, não a leve embora antes de falar comigo... Acho que preciso dizer algo a ela... se for embora sem dizer nada, será pior...

- Chamo sim... obrigado por me ajudar... e me desculpa...

- Eu sei, amigo... vocês pertencem um ao outro... não vou mais interferir... daqui a pouco ela me esquece...

- Não acho que isso seja possível... eu a vi com você... sei que ela está muito apaixonada... não tenho muita esperança de que isso aconteça, a Clara não é uma mulher superficial... eu sei que nós dois ainda teremos muito sofrimento pela frente... Mas estaremos juntos... - Jack suspirou e entrou novamente no quarto.

Jack sentou-se em uma poltrona, em um dos cantos do belo e confortável quarto, que agora começava a receber alguma luz,  vinda de suas enormes janelas, filtrada por cortinas que aos poucos assumiam os mesmos tons dourados do céu lá fora.

Clara virou-se na cama, estendeu o braço, como sempre fazia procurando pelo marido, sem encontrá-lo. Lembrou-se e começou a chorar novamente. Tinha sido abandonada e não conseguia reagir. Abriu os olhos ao sentir que sua mão tinha tocado um objeto diferente no travesseiro.

Continua

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