28 de dez de 2013

Rockstar - Capítulo CXLIV



A estrada para chegar ao castelo também não foi fácil. A tempestade, com ventos que sopravam do mar, varria a pista estreita e a tornava escorregadia, condições que deixaram os três quietos, apenas sentados no banco detrás da limousine, de mãos dadas,  apavorados também em terra, enquanto circundavam a montanha.

Entraram rapidamente no castelo e reuniram-se aos outros convidados, também assustados com a inclemência daquela tempestade.

- Desculpem queridos, parece que a natureza não tem qualquer respeito pelas nossas agendas... mas não deixaremos essa tempestade horrível estragar todo o nosso final de semana... teremos nosso descanso, nossa diversão e nossa música; como merecemos... - ele sorriu simpaticamente. - Quero meus convidados felizes, como estou feliz em tê-los todos aqui... Tomei a liberdade de reservar a vocês os quartos que vocês usaram da outra vez que estiveram aqui... meus empregados irão ajudá-los com a bagagem... me perdoem, mas preciso agora localizar o Charlie e minha convidada especial madame Hublot... Nos reunimos daqui a pouco, às 6 da tarde aqui neste salão para um cocktail... Obrigado por estarem aqui...

- Obrigado por nos convidar, Mick... - David sorriu de volta, liberando todos para seguirem para suas suítes.

Clara e Jack subiram as imensas escadarias e seguiram até o belo quarto com sua imensa cama com dossel, tinha seus vasos cheios de muitas rosas cor de lavanda e tinha recebido um novo quadro, um original de Monet, da fase de Giverny, retratando um belo campo de lavandas, na frente do qual Clara parou imediatamente, boquiaberta.

- O que foi, amor?

- Este quadro.. mais um Monet...

- É um original? - Jack perguntou aproximando-se dela e abraçando-a por trás, com os olhos na tela. - Claro que é um original, ele faz tudo o que pode para te impressionar, não é?

- Ah, meu amor... me perdoa...  eu não tenho intenção de te magoar quando faço isso... eu e o Mick temos isso em comum, nós dois amamos a arte e...

Jack calou-a com um beijo, puxando-a pelas mãos até a cama, enquanto a despia. -  Eu preciso ter você agora...

Os dois se amaram com o desespero de quem acabou de ver a morte bem de perto, há poucas horas, naquele avião, que lutou tanto para escapar inteiro da tempestade que o cercava. Precisavam comemorar o fato de estarem vivos e ainda juntos, apesar de tudo.

- Menininha... - Jack quebrou o silêncio, enquanto descansavam depois da total entrega. - Eu sei que você me ama... sinto isso quando estamos juntos...

- E está certo... eu sou sua... Jack... você sabe disso... e é isso o que eu quero... ser sua...

- Você quer dizer que esqueceu dele definitivamente?

- Não... eu quero dizer que você me tem inteira com você, aqui, agora... como te sinto inteiro comigo...

- Mas isso significa...

- Isso significa o que disse... sempre que estou com você, estou inteira com você... e isso significa que você não precisa ter ciúmes de ninguém... ok?

- Eu estou tentando, querida... de verdade... - Jack deu um sorriso sem graça enquanto dizia isso. - Eu te juro que tento entender como você pode amar nós dois ao mesmo tempo... eu não consigo pensar em mais ninguém, nem em mais nada... já te disse que até a música me parece uma coisa tão pequena diante do que temos...

- Mas eu não quero isso, querido... nunca quis... quando você me fala esse tipo de coisa eu me sinto uma monstra que está te destruindo... eu estou aqui para te fazer feliz, lembra?

- E me faz, Menininha... muito...

- Não seria capaz de te tirar da música... sei que é ela que te mantem vivo, meu amor...

- Não... não é mais... é você...

- Ah, meu amor... não fala assim... vem... vamos nos arrumar, já são quase 6 da tarde... estou tão ansiosa para conhecer a história desse lugar...

- Você gosta dessas coisas, não Menininha? Arte, história...

- E você não gosta?

- Gosto... mas gosto muito mais de você...

- Vem amor... não gosto de deixar nossos amigos esperando...

Os dois vestiram roupas bonitas e quentes e desceram para o salão onde todos já estavam reunidos, em dois grupos, como de hábito, Cindy e Jennifer um pouco mais distantes da grande roda de músicos, falando de música, como sempre.

. - Querida... - Mick disse ao ver Clara aparecendo nos últimos degraus. - Quero apresentá-la ao Charlie...

- Senhora Noble! Finalmente! - Charlie levantou-se e caminhou até ela, beijando sua mão. - O Mick fala tanto de você que sinto que já a conheço...

- O Mick é um amigo muito querido... é uma honra conhecê-lo finalmente...

- Ah Jack, meu caro... sua esposa é mesmo uma princesa como os rapazes me disseram...

- Oi Charlie, meu velho, como vai? - Jack beijou-o no rosto. - Ela é sim... a mulher mais linda do mundo...

- Sei que não sou, queridos... - Clara sorriu. - Mesmo assim, fico muito feliz de ouví-los dizendo isso...

- Adorável... não? - Mick aproximou-se do grupo novamente.

- Tem razão...

- Ah, senhor Watts, o senhor é muito gentil... - Clara sorriu, um pouco encabulada e beijou-o no rosto. - Obrigada...

- Prefiro ser chamado de Charlie, querida... - ele sorriu e beijou mais uma vez a mão de Clara. 

Depois de pegar uma taça de champagne, Clara caminhou até onde suas amigas já estavam reunidas, conversando sobre o terror que sentiram no voo. - Querida, hoje você não estava sozinha em seu medo.... - Jennifer sorriu. - Quase morri também... acho que foi o pior voo da minha vida...

- Da minha também... - Cindy mostrou as mãos ainda trêmulas. - Acho que vou precisar de muito champagne para conseguir dormir esta noite...

- Estou um pouco mais calma agora, graças ao meu amor... - Clara suspirou. - Vou precisar muito dessa calma, amigas... o momento em que eu e o Jack teremos uma conversa definitiva com o Mick se aproxima, minha saúde está mais equilibrada, é a nossa melhor chance... o que é uma pena... porque ainda o amo muito...

- Você tem sorte de tê-lo tão apaixonado por você, querida... - Jennifer sorriu. - Antes de você descer, ele me disse que sabe da sua intenção de afastar-se e entende e respeita o seu relacionamento com o Jack, mas que vai doer muito ficar longe... Me deu muita pena...

- Ah, Jenni... - Clara suspirou já com os olhos cheios d'água. - Eu sei disso tudo... quero muito ter um tempo sozinha com ele para conversarmos direito... ele é tão carinhoso comigo e eu não consigo deixar de amá-lo...

Mick percebeu o olhar dela através da sala e sorriu. Desejava tê-la em seus braços, mas sabia qual era a sua intenção. Pressionada pelo marido, certamente ela pediria que se afastasse e ele o faria, mesmo que isso o destruisse. Assim, a teria ainda como amiga e poderia voltar a vê-la e com o tempo, quem sabe, poderia tê-la novamente nos braços, quando tudo se acalmasse.

Clara acompanhou Mick com os olhos, quando ele se afastou do grupo para atender o celular, voltando alguns minutos depois, de braço dado com uma bela mulher. Loura, alta, com enormes olhos azuis, a  historiadora Susan Hubllot, poderia ser facilmente confundida com uma modelo, mas era  professora de História Francesa na Universidade de Sorbonne, pesquisadora e autora de inúmeros livros sobre o assunto.

Sua maior especialidade era a nobreza francesa, duques, príncipes, reis; como  historiadora ela fazia pesquisas profundas e publicava biografias completas de muitos  personagens da época anterior à revolução, que transformou a França em uma república. E, a pedido de um dos antigos donos do Chateau St Jordan, ela também pesquisou longamente a história do castelo e da família nobre que lá tinha vivido por tantas gerações.

Foi por causa desse livro que Mick teve a ideia de convidá-la. Mais especificamente o capítulo dentro dele que tratava da história do Duque Jacques de Grimaldi, o homem que encomendou a pintura do afresco "O Idílio" para Rafaello Santucci, um promissor pintor renascentista que teria desaparecido logo após terminar o trabalho no castelo.

Mick caminhou dramaticamente até a frente da gigantesca lareira acesa do salão principal do castelo e apresentou a Doutora Hubllot para cada um de seus outros convidados. - Querida Clara, esta é a Doutora Susan Hubllot... Madame Hubllot, esta é Clara Noble... - Mick sorriu ao perceber nos olhos de Clara, um lampejo bem maior de ciúmes do que ele esperava. Estava muito feliz com sua sorte, além de profunda conhecedora da história de toda a região, aquela era mesmo uma mulher suficientemente bela para deixar Clara insegura.

- Muito prazer... - Clara disse em francês para a mulher que sorriu timidamente. Provavelmente sentindo-se embaraçada diante de tantas celebridades reunidas na mesma sala. - Então é a senhora que conhece a história completa deste lugar...

- Sim... - a mulher sorriu timidamente. - Fiz uma descoberta incrível, ontem, aqui, que mudará completamente os rumos de minha pesquisa...

- Mesmo? - Clara arregalou os olhos, curiosa. - Que descoberta?

- É uma surpresa, querida... - Mick sorriu. - Depois do jantar, todos vocês saberão...

Clara queria continuar a conversa, mas Mick levou a historiadora adiante, para apresentar às suas amigas que estavam reunidas no sofá, relatando para Patti Richards, que acabara de chegar com Keith Richards e Ron Wood, todo o sofrimento que tinha sido a viagem delas até o castelo.

- Clara, querida... - Jack chamou-a para perto dele. - O que vocês estavam falando?

- A doutora Hubllot me disse que fez uma grande descoberta, ontem, aqui no castelo... - Clara sorriu. - O Mick disse que ela escreveu um livro sobre a história dele. E eu estou morrendo de curiosidade agora...

- E o fato da doutora Hubllot ser linda, não te afeta nem um pouco, afeta?

- Não sei do que você está falando, querido... - Clara disfarçou.

- Você está com ciúmes agora porque o Mick a está levando para conhecer todos os seus amigos... ela é mesmo linda, não é?

- Ah, querido... sou assim tão transparente?

- É... - Jack sorriu. - Mas isso não é ruim... não se preocupa, meu amor... ele ainda te ama...

- É tão estranho ouvir você dizendo isso... - Clara pegou Jack pela mão. - Me perdoa por ter estragado tudo para nós querido...

- Ah, meu amor... - Jack agarrou-a e beijou-a. - Você não estragou nada... você é a melhor coisa que já aconteceu em minha vida...

- Eu te amo...

Enquanto os dois namoravam, o cocktail que antecederia o jantar continuava a ser servido. Mick conversava com Keith e Ronnie, enquanto a Doutora Hubllot respondia as muitas questões feitas a ela por David Mersey e Charlie Watts.

Como não podia deixar de ser, quando se tratava de Mick Jagger, o jantar foi sofisticado, combinando perfeitamente com o maravilhoso cenário daquele salão e seu teto ocupado pelo lindo afresco pintado por Rafaello Santucci.

Clara agora estava mais quieta, prestando muita atenção a tudo o que  a Doutora Hubllot dizia sobre sua pesquisa, tentando advinhar a tal surpresa que ela tinha prometido aos convidados de Mick para aquela noite.

Mick por sua vez parecia apreensivo, como se aguardasse o momento para dizer algo muito importante e estivesse ensaiando  mentalmente, sem parar, ainda com medo de perder a coragem.

Depois da sobremesa, uma mousse de chocolate, com calda de cerejas; foi servida junto com o melhor champagne, os convidados foram chamados por Mick para acomodarem-se na sala de televisão, no segundo andar do castelo, onde a Doutora Hubllot faria sua aguardada palestra especial sobre a história do castelo e finalmente revelaria a tal surpresa.

Acomodada em uma pequena sala com cadeiras de cinema, Clara agora segurava a mão de Jack o tempo todo, não sabia dizer o que era a tal surpresa, mas ficava mais preocupada a cada minuto que passava.

- O que foi, querida? Está com frio? Me dá essas mãozinhas que vou esquentá-las.... - Jack pegou as duas mãos de Clara e prendeu-as entre as suas. - Mick... será que não tem como aumentar um pouco o aquecimento? A Clara está congelando...

- Claro... vou providenciar... - ele disse caminhando até um dos cantos da sala e abrindo os controles do sistema de climatização. Além disso, pediu a um empregado para trazer uma manta para ela, que chegou apenas alguns segundos antes das luzes da sala se apagarem.

- Meus queridos amigos... - Mick sorria agora no pequeno palco, na frente da tela de cinema. - É um prazer recebê-los todos neste final de semana aqui nesta casa. Há alguns dias, eu tive um sonho que muito me intrigou... ele se relacionava a este castelo e à fascinante história do belo afresco de sua sala de jantar. Pesquisei então na internet atrás de mais pistas e foi lá que encontrei o nome da Doutora Susan Hubllot, que depois descobri ser a autora de um livro sobre este lugar e a família nobre que o ocupou através dos séculos... convidei-a para vir até aqui e depois que conversamos um pouco e contei a ela sobre o meu sonho e ela ficou tão curiosa com o que disse, que veio imediatamente para cá, ver se as informações que dei a ela por telefone estavam corretas... bem... mas acho que seria mais adequado que ela nos contasse sobre suas descobertas... com vocês, a Doutora Susan Hubllot!

Clara e seus amigos aplaudiram a doutora, enquanto Mick caminhava até a poltrona ao lado dela e do marido. - Continua com frio, querida? - ele sussurrou no ouvido de Clara discretamente, pegando sua mão e beijando-a.

- Melhorou, querido, obrigada... - ela respondeu com um sussurro também.

A doutora Hubllot aproximou-se de um púlpito que foi colocado sobre o pequeno palco por um dos empregados do castelo, apresentou-se e disse que antes de tudo, mostraria a eles um documentário feito pela BBC, há aproximadamente um ano,  e que tinha tido a colaboração dela no roteiro. E depois de falar brevemente sobre o documentário, a Doutora pediu que o projetor fosse ligado e ela sentou-se para assistí-lo junto com eles.

Clara estava agora tensa, olhava para a tela, sem conseguir sequer absorver todas as informações e a história que ela acompanhava, que ainda tinha cenas dramatizadas mostrando o drama completo do romance entre o Duque Jacques de Grimaldi e a pequena imigrante britânica Anne de Bretagne.

A versão dramatizada era a da lenda que parecia a mais aproximada daquilo que os historiadores tinham encontrado na documentação daquela região, livros, registros e a história contada de boca-a-boca através dos séculos.

O duque Jacques Grimaldi, depois de passar alguns anos em Versalhes, voltou para suas terras e como as encontrou em uma profunda crise, após um longo período de secas e invernos gelados, aceitou o casamento arranjado desde sua infância por seus pais, com Catherine de Villeneuve, a rica filha do Duque de Villeneuve.

Mas neste retorno, reencontrou sua namorada de infância, Anne de Bretagne, a filha do velho cavalariço de seu pai, um homem que tinha emigrado da Inglaterra, com a filha ainda muito pequena nos braços, depois de ver sua mulher queimada por bruxaria em uma fogueira.

Com pena da pequena e bela menina de cabelos vermelhos, a Duquesa de Grimaldi, decidiu criá-la junto com seus filhos e demais crianças nobres que viviam no castelo, por isso, ela recebeu a educação que apenas as damas nobres recebiam e estava pronta para frequentar até mesmo os salões de Versalhes.

Na adolescência, ela passou a ser a dama de companhia da Duquesa e o então Príncipe Jacques, em uma das muitas festas que aconteciam no castelo, começou a sentir-se cada vez mais atraído pela jovem e os dois criaram uma bela amizade, que com o tempo, transformou-se em um romance com consequências trágicas.

Quando a Duquesa soube do amor que seu filho tinha por sua dama de companhia, ela expulsou a garota e seu pai do castelo e há razões para acreditar que colocou um preço na cabeça dos dois, o que fez com que ambos passassem alguns anos escondidos em um vilarejo distante do castelo.

Inconformado com a atitude de sua mãe e acreditando que Anne estivesse morta, Jacques forjou uma carta de convocação do rei e partiu para Versalhes, onde passou muitos anos.

Com o tempo, e o patrimônio cada vez mais magro, pelas dificuldades econômicas causadas por uma longa seca na região, a Duquesa desistiu de seus planos e Anne e seu pai  passariam a ocupar novamente uma pequena fazenda, na estrada do castelo, onde cuidariam de uma grande plantação de lavandas, que o pai de Anne comercializava com os muitos perfumistas da região e que Anne tinha começado ela mesma a transformar em deliciosos perfumes... 

Clara agora não conseguia acreditar no que via e ouvia... o campo de lavandas, ela já o tinha visto em um sonho e agora, tinha a impressão forte de que sabia de tudo o que teria acontecido na curta vida de Anne de Bretagne, dali em diante e começou a chorar, quieta e discretamente, enquanto Jack a abraçava.

Os amigos de Mick aplaudiram o final do documentário, mas ainda não tinham ideia do que esperar das tais novas descobertas que a Doutora Hubllot tinha feito nos últimos dias, em que passou no castelo pesquisando.

- Obrigada, senhoras e senhores... - ela disse em um inglês com um forte sotaque francês. - Bem, não sei se todos aqui  perceberam que este documentário apenas reproduz a história oral que permaneceu, de personagens que viveram aqui neste castelo.
Até então, preenchíamos com a história oral, tudo o que nos faltou de documentação sobre a vida destas pessoas, que aqui viveram esse drama, cujo maior documento histórico ainda era a pintura feita no teto do salão de jantar deste castelo.

Conhecido como "O Idílio", este afresco, agora sabemos, foi encomendado a Rafaello Santucci, pelo Duque de Grimaldi, no ano de 1763; exatamente no mês de abril, quando o pintor terminou uma pintura encomendada pela igreja do vilarejo de St Jordan, o mais próximo daqui, naquela época e assim estava livre para assumir  seu novo encargo.
Que começou a ser realizado, exatamente no dia 23 de Abril de 1763. E esta exatidão é a grande e maravilhosa surpresa que o senhor Jagger me proporcionou.

Estava eu, prestes a dar mais uma aula na Universidade de Sorbonne, na manhã de ontem, quando um recado me foi entregue por uma das minhas auxiliares. Era um pedido para entrar em contato com o senhor Jagger, que eu sabia, havia adquirido recentemente o  castelo St Jordan.

Quando liguei para ele, desisti da aula que tinha para dar. Deixei tudo para trás e vim correndo para cá. Ele me perguntou especificamente sobre um dos móveis da biblioteca deste castelo, uma escrivaninha, que eu tinha usado por muitos dias, durante a pesquisa que fiz aqui, há seis anos, quando escrevi meu livro.

Mas a informação que ele me deu era diferente daquela que eu tinha. Ele me perguntou especificamente sobre um compartimento secreto, que podia ser encontrado no fundo falso da última gaveta do móvel. Naquele momento, o senhor Jagger não me disse que se tratava de um sonho dele, então imaginei que talvez o tivesse encontrado acidentalmente e corri para cá, chegando ontem, no final da tarde.

Mal cheguei aqui, corri até a biblioteca e exatamente na posição descrita pelo senhor Jagger finalmente encontrei o compartimento secreto e dentro dele, uma coleção sem preço de documentos históricos.

Este conjunto de diários, do Duque de Jacques de Grimaldi e este pequeno livro de capa vermelha, uma raríssima edição da "Lenda de Ceridwen e Berthold", que por sinal, está retratado no Idílio... é o pequeno livro vermelho nas mãos de Anne de Bretagne... - ela mostrou o detalhe na foto do afresco, usando a tela de cinema e uma caneta laser.

Bem... o senhor Jagger só me disse como soube do compartimento escondido na escrivaninha, quando chegou aqui e posso então concluir que foi pura sorte, para mim, como pesquisadora, que ele tenha sonhado com tal coisa. Assim... a partir destes diários, sei que poderei escrever minha melhor biografia de um homem nobre francês até hoje. E assim... só posso agradecer ao nosso anfitrião desta noite, por esta que é uma das mais importantes descobertas documentais da minha carreira de historiadora.

- Eu que agradeço, Doutora Hubllot... - Mick disse, levantando-se de sua poltrona, caminhando até o palco e apertando as mãos da historiadora. - Bem... como a doutora disse, tive um sonho muito vívido, na noite após a estreia do show da Crossroads e, porque ele me intrigou, decidi procurar mais dados sobre o castelo e encontrei na internet seu livro, doutora.

- Interessante, senhor Jagger... e viu então a escrivaninha em seu sonho?

- Vi mais... em meu sonho, entrava na biblioteca, abria o compartimento secreto e passava algumas horas escrevendo, à luz de velas nestes diários...

- Impressionante, Mick... - David decidiu que deveria falar. -  Isso só pode significar uma coisa, meu velho...

- Sei onde você quer chegar, Dave, mas não sei se acredito nestas coisas...

Depois do final da palestra da Doutora Hubllot, todos os convidados desceram para a sala de estar para aproveitarem a noite, com um fondue à beira da lareira. Para o desespero da historiadora, que temia que vinho e os petiscos servidos para os convidados, acabassem por destruir um dos frágeis cadernos, de onde ela aceitou ler algumas páginas, desde que continuasse usando luvas, com muito medo dele ser destruído, antes que pudesse tirar dele todos os textos.

A longa narrativa em um francês polido, emocionou Clara e Mick, que mesmo distantes um do outro, em lados opostos da sala, faziam um grande esforço para conter suas lágrimas, disfarçando-as para que ninguém percebesse.

- Que história linda... - Patty Richards também chorava quando a narrativa da Doutora Hubllot terminou. - Meu francês não é o mais perfeito do mundo, mas dá para perceber que ele a amava muito... que achado, o seu, doutora...

-  Verdade, senhora Richards... - Susan Hubllot era só sorrisos, depois de levantar-se das almofadas jogadas no chão, onde todos se sentavam e colocar seu precioso caderno a salvo em uma grande caixa de plástico, junto com os outros livros e documentos que tinha encontrado. Agora ela podia relaxar e aproveitar o vinho e a conversa perto da monumental lareira. - É uma história e tanto esta que tenho em mãos agora, graças ao senhor Jagger e será uma imensa oportunidade para mim... só tenho a agradecê-lo por me ajudar desta forma...

- Imagina, doutora Hubllot... - Mick sorriu simpaticamente. - Eu fico feliz em poder ser de alguma ajuda para a senhora...

- Me chame de Susan, por favor... acho que é o mais adequado nesta situação, sentada ao redor desta lareira tão agradável, no meio de pessoas tão notáveis... estou muito feliz de estar aqui...

- Está bem... Susan, meu nome é Mick... - Mick sorriu para sua convidada. - Mais vinho?

Aos poucos, as conversas em grupo, foram tornando-se mais íntimas e alguns dos convidados, resolveram aproveitar a noite fria para descansar da longa e penosa viagem até lá. Inclusive o anfitrião Mick Jagger, que discretamente, subiu para sua luxuosa suíte, levando pelas mãos sua mais nova amiga íntima, Susan Hubllot.

- Você ouviu o que a doutora disse, Menininha? - Jack e Clara eram os últimos ainda bebendo vinho, sentados na frente da lareira. - Então Berthold e Ceridwen são lendas...

- Você acha isso, Jack?

- Não sei mais o que eu acho, querida... Mas se não aconteceu...

- Se não aconteceu naquela época, está acontecendo agora... eu te amo tanto...

- Mas você também ama ele...

- Eu não sei mais, querido... sabe o casal da pintura?

- Sei... é uma outra história trágica...

- Tenho sonhado com eles... a história que a doutora Hubllot contou... eu a tenho visto em meus sonhos...

- Você acha que pode ter sido a tal Anne de Bretagne?

- Talvez...

- E o Mick era o tal do duque, não era?

- Não sei, querido... mas acho que sim...

- Faz sentido... quero dizer... vocês talvez tenham se reencontrado para terminar o que começaram...

- Não sei... mas acho que isso ajudaria a explicar muita coisa, não?

- Acho... aliás... vocês dois deveriam conversar sobre isso agora... o que ele está fazendo na cama com a tal da doutora?  Você está com ciúmes agora, não está?

- Não... seria uma tolice ter ciúmes dele... eu preciso esquecê-lo... só isso... - Clara não conseguia mais conter as lágrimas, estava muito magoada por tudo o que estava acontecendo naquele castelo e Jack carinhosamente se calava e a abraçava, oferecendo seu apoio.

- Vamos subir, querida? - Jack levantou-se e ajudou-a a levantar-se do chão. - Vamos descansar... amanhã tudo será melhor...

- Vamos, querido... - ela agarrou-se em Jack e com ele subiu lentamente a imensa escadaria do castelo, estava com medo de cair depois de beber bem mais do que sua cota do delicioso vinho vermelho encorpado que tinha sido servido no castelo por toda a noite.

Jack ajudou-a a trocar de roupas e abrigou-a com seu próprio corpo do frio que vinha das paredes de pedra do castelo.

As ondas do mar batiam violentas contra as pedras da praia, naquela manhã cinzenta e ela sentia muito frio e mais do que isso, sentia a falta dele, seu amado duque estava longe,  em Paris. E apesar de seus pedidos, para ficar escondida até seu retorno, ela não conseguia mais respirar dentro daquele pequeno quarto oculto atrás da parede, em uma casa qualquer da vila, que seu pai tinha arrumado para eles.

Precisava respirar e já que não conseguiria ir ao seu lugar favorito no mundo, o carvalho no meio do gramado, no jardim do castelo, ela caminhava na areia da praia próxima, mesmo sentindo que estava arriscando-se a ser vista por um dos assassinos da duquesa.

E assim que conseguiu caminhar até uma das pedras em que costumava sentar-se na praia, ela pegou o pequeno livro de capa vermelha e o abriu. As lágrimas corriam abundantes em seu rosto, de saudades e de solidão. Tanto tempo separados, sua gravidez já estava bem adiantada e logo ela daria a luz a um filho e aquele estava sendo um dos raros momentos de paz que tinha depois da partida de seu amado.

O livro a fazia sonhar, de repente, diante de seus olhos, a majestade das montanhas verdes de sua terra se erguiam, e os ventos quentes do verão traziam no ar o perfume do campo de lavandas em que Ceridwen se deitava, como ela, esperando pela volta de seu amado.

Como ela, Anne agora ouvia o som de cavalos aproximando-se ao longe; nem se preocupou muito, continuando com os olhos presos a beleza da história de amor que lia mais uma vez, achando que o som que escutava era apenas mais um delírio de seu coração já pesado de saudades.

Mas seu delírio parecia estar ficando mais e mais real, a medida que o som aproximava-se. Tirando finalmente os olhos do livro, ela viu dois cavaleiros aproximando-se, usando as cores do castelo da duquesa Catherine. Ela precisava agora de um esconderijo e rápido.

Lembrou-se da caverna de cristal, na ilha adiante, mas não tinha um barco e por isso, decidiu correr para entrar na mata, que rodeava o castelo, onde sua carroça estava escondida. Correu até ficar sem fôlego, chegou à carroça e pegou a pequena estrada que atravessava o campo de lavandas, onde tinha vivido com seu pai e a marca queimada de onde antes ficava seu casebre, servia para lembrá-la que estava correndo um enorme risco agora.

Seu cavalo era bom, mas os cavaleiros continuavam aproximando-se, cada vez mais rápidos. Desta vez não haveria escapatória, seu destino estava selado... e seu coração sucumbia de tristeza por saber que jamais veria de verdade o rostinho do filho de seu amado, com quem conversava todas as noites em seus sonhos... estava partindo da vida com o coração partido...

- Jack! - Clara acordou em prantos, assustada quando um raio caiu próximo do castelo fazendo um enorme estrondo. - Querido...

- Calma, meu amor... foi só um raio...

- Não... querido... não foi o raio... eu... eu... tive um pesadelo horrível...

- Vou pegar um copo de água para você... calma...

- Não... Jack... por favor... só me abraça...

- O que foi? O que você sonhou?

- Com a minha morte... eu era Anne de Bretagne... eu fui assassinada por dois soldados da duquesa... eles mataram meu filho... Jack... eu estava grávida...

- Calma, querida... já passou...

- A dor que eu senti, quando eu percebi que nunca o teria nos meus braços...

Jack a abraçava e chorava junto com ela. Seu coração estava em frangalhos, por ver a mulher que amava sofrendo tanto e por finalmente entender as ligações anteriores que ela tinha com seu rival. Para seu azar, elas eram muito mais profundas do que ele gostaria que fossem e ele agora sentia ainda mais ciúmes dos dois juntos.

- Calma, meu amor... vou buscar um copo de água para você... vai ficar tudo bem... - Jack levantou-se da cama e foi até o banheiro, onde pegou um copo de água para Clara. - Calma... respira fundo... acho melhor você tomar um daqueles comprimidos que o médico receitou...

- Ah... querido... me desculpa... eu não queria...

- Amor... fica tranquila... está tudo bem... estou aqui para cuidar de você... relaxa... deita em mim... eu quero te envolver no meu amor...

- Jack... - Clara beijou Jack com paixão e  envolveu-a com seus braços, como se quisesse distanciá-lo daquela dor.

- Querida... vou pegar seu comprimido...

- Não... não quero ficar dopada... me deixa sentir minha tristeza, Jack...  eles me mataram, mas o que mais me doeu, foi não ter tido a chance de ver meu filho nascer...

- Não pensa mais nisso, meu amor... Que tal irmos embora daqui, assim que amanhecer?

- Não precisa, amor... podemos ficar... eu prometo que não vou te incomodar mais... vou ficar bem quietinha no meu canto, lá no estúdio...

- Não, amor... não suporto te ver assim triste... vamos passar o resto da semana na nossa montanha...

- Vou melhorar... por você... pelo Mick e por nossos amigos que estão aqui também para ajudar a minha carreira... eu devo isso a eles...

- Meu amor... você não deve nada a ninguém... quero que agora você pense só no que é melhor para você... no que vai te fazer bem...

- Estar com você aqui, do meu lado, me faz bem, Jack... eu te amo...

- Ah, Menininha... se eu pudesse, arrancaria com as minhas mãos toda essa dor que você sente... acho que você precisa conversar com o Mick sobre esse sonho... é uma coisa que vocês viveram e precisam superar juntos...

- Você tem razão... mas não quero pensar sobre isso agora... Estou tentando organizar a minha cabeça e acalmar meu coração... esse sonho me deixou muito triste...

- Deita em mim... descansa, Menininha... vou te ninar, até que você pegue no sono novamente...

Com os olhos inundados de lágrimas, Clara beijou-o com paixão. Ela atirou-se nos braços dele e tentou relaxar, precisava distanciar-se da dor que estava sentindo. O carinho dele acalmou-a e os dois pegaram no sono  juntos e sonharam com um por do sol perfeito na sua montanha.

Acordaram emocionados e se amaram, lenta e apaixonadamente, afastando toda a dor que sentiram para longe.

Juntos tomaram um longo banho de banheira e desceram abraçados bem tarde, prontos para o brunch que já estava sendo servido no salão de jantar, sob o afresco, que Clara agora sabia, retratava o drama de sua vida anterior ao lado do Duque Jacques de Grimaldi.

Continua


Rockstar - Capítulo CXLIII


Sentindo-se melhor, depois de passar algumas horas conversando com Mick, Clara subiu para seu quarto e arrumou as malas para a viagem. Estava com outro ânimo agora, depois de sentir-se derreter nos braços de Jack, agora ela esquecia completamente sua missão de pedir a Mick para afastar-se.

E enquanto, ela e Mick conversavam animadamente sobre o final de semana, Jack fugia deles. Aliás, não demorou muito para ele arrumar uma desculpa e sair de casa, voltando no último instante, quando Mick e Clara já estavam prestes a subir no carro que os levaria ao aeroporto.

- Onde você estava, amor?

- Desculpa, querida... fui conversar com o Dan... ele me ligou e eu fui até o pub...

- Tudo bem, querido... só fiquei preocupada... você vai viajar com essa roupa?

- Vou... por que? Não estou bem?

- Está sim... Jack, querido... me perdoa...

- Por que?

- Porque fiquei conversando com o Mick... é que eu e ele... nós temos conversado muito sobre a história do castelo e...

- Eu sei, querida... não precisa se justificar comigo... está tudo bem... você o ama, vocês têm muito em comum... eu saí porque vocês precisavam de espaço...

- Jack... vem aqui, por favor... - ela puxou-o para perto de seu corpo e agarrou-se nele. - Me perdoa... se eu estou te magoando... vou pedir ao Mick para afastar-se... não suporto mais te ver triste...

- Não estou triste, querida... eu sei o que você me fez sentir lá no quarto... ah, Menininha... não precisa separar-se dele, está tudo bem...

- Mas eu quero... sinto que se não o fizer, vou te perder e não sobreviverei se isso acontecer...

- Você não vai me perder... de jeito nenhum, meu amor... - Jack beijou-a longamente, tirando-lhe o ar e fazendo-a perder o rumo.

- Amor... - ela suspirou. - Preciso chamar o Mick... ele me pediu para avisá-lo quando você chegasse... para que ele possa chamar o motorista que irá nos levar ao aeroporto.

- Ok... - ele sorriu. - Você pegou minhas gaitas?

- Sim, amor... estão naquela sacola ali, ao lado das nossas malas... - Clara sorriu. - Peguei aquela case preta inteira. Você vai levar sua guitarra também?

- Vou... deixa, vou buscar lá no quarto... não se preocupa... falta minha bolsa também...

- E a minha... vou chamar o Mick e depois já vou lá em cima pegar...

- Não quer que eu traga para você?

- Não, amor... eu preciso conferir se peguei tudo... câmera, iPad, jóias, remédios... estou com medo de esquecer alguma coisa...

- Está bem, querida... vou buscar minha guitarra, enquanto você chama o Mick...

- Ouvi seu carro chegando...  - Mick disse ao chegar na sala de estar, trazendo uma pequena mala de couro em uma mão e seu celular na outra. - Já estou ligando para meu motorista... ele deve chegar aqui em uns cinco minutos...

- Está bem, amigo... - Jack sorriu e seguiu para o quarto que em breve seria sua sala de música, que ainda não estava terminado e, por enquanto, estava sendo usado para armazenar sua coleção de discos e seus instrumentos.

Mick esperou que ele se afastasse para aproximar-se de Clara. - Então? Está tudo bem entre vocês?

- Está... obrigada por me ouvir... sei que sou uma chorona chata...

- Não é... eu te amo muito... quero te ver feliz... adoro te ver sorrindo...

- Você é maravilhoso comigo, querido... e eu te amo muito... - Clara disse abraçando-o, enquanto Jack chegava à porta da sala de estar, completamente despreparado para a cena que encontrou. 

- Então... vamos? - Jack disse colocando a case com sua guitarra acústica no chão. - Amor... vamos buscar nossas bolsas lá em cima?

Clara sorriu e piscou para Mick, enquanto subia as escadas ao lado de Jack. - Vamos amor... o Mick já chamou o motorista... ainda preciso pegar  meus remédios na cozinha... não me deixa esquecer...

- Está bem, meu amor... você não pode deixar de tomá-los...

- Não agora que estou melhorando... sabe que me pesei hoje cedo e recuperei mais um quilo?

- Mesmo? Que bom, meu amor! Fico feliz... viu... está tudo bem... o Mick está te ajudando...

- Ele me ajudou muito hoje... quando você saiu de casa e eu comecei a chorar, porque estava sentindo a sua dor...

- Mas...

- É... eu senti... você fugiu com medo de nos ver juntos... e, embora ele me ajude muito, acho que precisamos nos afastar... porque eu não quero te perder... - Clara disse chorando novamente. - Por favor... não me abandona...

- Não vou te abandonar, Menininha... nunca... - ele a abraçou, ajudando-a a conferir as coisas que precisava colocar na bolsa e depois foi buscar seus remédios na cozinha, sentindo-se muito culpado por seus ciúmes.

Sua culpa o fez ainda mais carinhoso. O voo foi bastante acidentado, a tempestade, que pegaram no caminho, balançava sem clemência o pequeno avião, deixando todos apavorados a bordo e Clara em pânico, tremendo nos braços de Jack.

- Calma, meu amor... - ele sussurrava em seu ouvido, enquanto ela escondia o rosto em seu peito. - Já vamos chegar...

- Clara, querida... quer um uísque? - Sem precisar levantar-se,  Mick pegou uma garrafa e copos no armário próximo de seu assento.

- Aceito sim... - ela disse chorando. - Me desculpa... mas... estou apavorada...

- Todos estamos, querida... - Mick sorriu, distribuindo copos de uísque, entre seus convidados. - Se cairmos, pelo menos, morreremos bebados, como bons rockstars...

- Ah, Mick, meu velho... - David riu. - Só você para me fazer rir em uma situação como essa... Calma princesa... vai dar tudo certo, querida...

- Vocês são maravilhosos comigo... sei que estou sendo ridícula...

- Não meu amor... você é linda... tão doce... - Jack disse, beijando-a. - Eu te amo tanto...

- Ah, querido.... eu te amo... muito... - ela sorriu.

- Bem... parece que escapamos desta vez... - Mick sorriu.

- Senhoras e senhores, acabamos de contornar a tempestade e daqui a poucos minutos estaremos pousando no aeroporto de Nice, por isso, pedimos que permaneçam sentados e com seus cintos afivelados. A temperatura é de 5 graus centígrados e o horário local é  16:18 minutos.

Todos os amigos a bordo, comemoraram e aplaudiram de forma barulhenta assim que o avião parou no hangar, onde limousines os esperavam.

- Chegamos, querida... - Mick levantou-se de seu assento e estendeu a mão para ajudá-la a levantar-se. - me perdoa por essa  viagem terrível?

- Claro, querido... - ela levantou-se e abraçou-o. - Me desculpa por ser tão pateticamente medrosa...

- Eu também estou gelado, querida... Vem... vamos descer... Jack, amigo, nos livramos de uma boa hoje...

- Está tudo bem, Mick... Vamos descer... quero vocês dois comigo, no carro... agora...- Clara disse, ainda nervosa depois de todo o medo que sentiu.

- Claro, amor... vamos nós três juntos, então... - Mick sorriu, pegando a mão de Clara e beijando. - Vamos, lá, amigo?

- Vamos sim... - Jack sorriu, abraçando Clara e Mick. - Me desculpem, se os fiz sofrer até agora... não tenho esse direito... Clara, você é livre... nós três somos livres... não terei mais ciúmes...

- Também não... - Clara sorriu. - Eu amo vocês dois... muito... e, meus queridos... eu quero, eu preciso, resolver nosso impasse... não quero mais ver nenhum de nós sofrendo... Preciso muito ver vocês dois felizes...

- Não se preocupem comigo... farei exatamente o que vocês dois quiserem... se precisam de mais espaço, eu me afasto... se me quiserem por perto, estarei por perto... estou nas suas mãos... 

Clara puxou os dois para mais perto e os abraçou. Desceram do avião com suas bagagens de mão e entraram em uma das limousines que os esperava no hangar. Os três juntos, a turbulência no voo  serviu para aproximá-los ainda mais, para a alegria de Mick e desespero de Jack.


Continua

27 de set de 2013

Rockstar - Capítulo CXLII

 

Assim que acordou, Jack levantou-se, tomou um banho e deu uma olhada pela janela, vendo-a descer do carro e entrar pela porta da frente de casa, fugindo da chuva.

Sem falar com ninguém, Clara subiu e foi deitar-se no quarto que seus pais tinham ocupado nos últimos dias; estava tão triste e cansada, que nem passou pela sua cabeça que Jack já podia estar acordado e procurando por ela, por toda casa.

Jack ficou desesperado depois de ir ao jardim e percorrer quase toda a casa sem encontrá-la, passou a perguntar a todos os empregados por ela, até que finalmente, com medo de encontrá-la, decidiu bater na porta do quarto de Mick Jagger.

- Mick... - Jack disse batendo na porta. - Posso entrar?

- Claro... - ele respondeu, sentando-se na cama, ainda tonto de sono. - Bom dia, Jack... algum problema?

- A Clara... - Jack disse suspirando aliviado por não encontrá-la lá dentro. - Você sabe onde ela está?

- Não... quer dizer... ela ía ao aeroporto levar os parentes dela... não é isso?

- Sim... ela levou, mas a vi chegando há pelo menos uma hora, mas não consigo encontrá-la...

- Espera um pouco, Jack... calma... - Mick disse pegando seu celular na mesa de cabeceira e ligando para o celular de Clara.

- Alô... - ela respondeu do outro lado da linha, depois de alguns toques. - Mick? É você?

- Oi, querida... o Jack está te procurando... onde você está?

- Ah... desculpa... estou no quarto de hóspedes... estava cansada e não queria perturbar o sono dele... me perdoem, não imaginei que ele fosse ficar me procurando pela casa... posso falar com ele, Mick?

- Claro, amor... - Mick sorriu e passou o telefone para Jack.

- Oi amor... onde você está? Fiquei preocupado...

- Ah, Jack, querido... me perdoa... voltei triste e cansada e não quis te perturbar... estou no quarto dos meus pais... Já vou até você...

- Não...  fica aí... vou subir para conversarmos... - ele disse desligando o telefone e devolvendo-o a Mick. - Obrigado Mick... e me desculpa por te acordar...

- Não se preocupe, amigo... vai lá cuidar dela... ela me pareceu tão triste ontem, depois do show...

- É verdade... ela nem dormiu a noite passada, chorou quase a noite toda...

- Vai lá cuidar dela, então... e se precisar de mim, é só me chamar... vou me levantar agora, comer alguma coisa e só saio daqui quando ela estiver bem...

Só depois de sair do quarto de Mick, Jack permitiu-se chorar. Subindo os degraus de dois em dois, ele sentia-se aliviado por não tê-la encontrado no quarto do rival, mas ao mesmo tempo preocupado por ela não o ter procurado.

- Clara, meu amor... - Jack bateu na porta e ela a abriu. Estava chorando descontroladamente. - O que foi, querida? Vem...

Jack fechou a porta e levou-a até a cama, sentando-a em seu colo e envolvendo-a com seus braços. Chorava junto agora, desesperado por não saber como fazê-la parar. Ficou ainda alguns minutos, apenas agarrado a ela, sem saber o que dizer. Não compreendia aquela crise depois de tanta felicidade apenas um dia antes.

- Me diz, amor... o que você quer... faço o que você quiser... sou seu, estou aqui para você...

- Me perdoa, Jack... fiquei muito triste de me despedir dos meus parentes e...

- Ah, meu amor... traga todos para cá...

- Não querido... - ela disse tentando controlar seu choro. - não precisa... estou nervosa, cansada...

- Me perdoa... se eu não te dei a atenção que você precisa...

- Não, meu amor... não é você... sou eu... estou sentindo uma dor imensa hoje... estou te magoando, estou magoando o Mick... não posso deixar que isso aconteça mais...

Jack interrompeu-a com um beijo. - Eu te amo... não duvida disso nem por um segundo...

- Mas...

- Não tem mas aqui... - Jack disse apontando o próprio peito. - Não tem dúvida, não tem dor... só amor... me deixa te fazer feliz, querida... por favor... me dá essa chance...

Ela beijou-o apaixonadamente e os dois mergulharam um no outro, com todas as emoções à flor da pele eles se amaram novamente e a tristeza profunda que Clara estava sentindo, afastou-se para longe enquanto ela voltava a sentir-se envolvida pelo carinho de Jack.

- Eu não te mereço, Jack... - ela disse abraçando-o.

- Ah, meu amor... vem... vamos comer... estou com muita fome agora... - Jack sorriu, esforçando-se para mantê-la sorrindo.  - Estou aqui para te fazer feliz, como você me faz feliz...

- Eu te amo tanto, meu querido... tanto... me perdoa se não sou...

- Não tenho nada a perdoar... eu te amo... - Jack levantou-se e levou-a pela mão até o banheiro, onde os dois lavaram o rosto, depois vestiram-se e desceram, encontrando Mick no caminho, também indo tomar café na sala de jantar.

- Bom dia, meu amor... - Mick disse puxando-a pelo braço e abraçando-a. - Como você está?

- Melhor, querido... desculpe... fiquei tão triste de ver meus parentes partindo...

- Por que você não os convida para morar aqui em Londres? - Mick perguntou - Jack, acho podemos comprar uma casa para eles... aqui no bairro mesmo... 

- Não, queridos... obrigada, mas acho que isso não será possível... a vida deles é no Brasil, nunca aceitariam ficar aqui...

- Ah, amor... - Mick insistiu. - Conversei bastante com seu pai... acho que é só uma questão de comprar para eles uma casa boa, aqui perto... posso procurar isso para você... o que você acha, Jack?

- Farei o que a Clara quiser... - Jack respondeu um pouco contrariado ao perceber Mick tão disposto a interferir na vida dele e de sua mulher.

- Ah... Mick... falando no meu pai... - Clara sorriu. - Quero te agradecer muito por tê-lo tratado tão bem... aliás... você tem se mostrado mesmo um grande amigo... nunca vou me esquecer disso...

- É amigo... você tem sido muito bom para nós dois... obrigado... - Jack sorriu para Mick. - E então? Vamos viajar a que horas, mesmo?

- Às três... acho que precisamos sair daqui antes das duas... - Mick respondeu. - Já está tudo confirmado... o Charlie já está lá... me ligou agora de manhã para queixar-se do tempo, como se eu fosse o responsável por não termos sol... mas esse é o Charlie... - ele sorriu. - O Ron e o Keith chegam só à noite... e hoje, teremos uma convidada especial, que também já me ligou confirmando.

- Convidada? - Clara perguntou com medo da resposta.

- Sim querida... - Mick sorriu. - Todos que vão ao castelo são bastante interessados em conhecer a história dele e por isso, eu convidei a Doutora Susan Hubllot, a autora de um livro sobre ele, para nos contar tudo... meu motorista vai buscá-la no aeroporto de Nice... estou tão animado sobre isso... ela conhece em detalhes a história dos amantes do "Idílio", sabe até seus nomes...

- Mesmo? Nossa! Então eles existiram mesmo... Uau! Acho que vou adorar... - Clara sorriu, deixando Jack com ciúmes.

- Conversei com ela ontem... inclusive me disse que pesquisou longamente para o livro na biblioteca do castelo, na época em que o banco era o dono. Ela disse que vai nos mostrar todas as suas descobertas...

- Ah querido... obrigada... acho que esse é o melhor presente que você poderia me dar... - Clara sorriu. - Eu te amo...

- Bem, querida... vou ligar para o Dave, ver como as coisas estão...

- Está bem, querido... - Clara disse ao marido, que já tinha se levantado da mesa e já a beijava na testa, antes de ir na direção da sala de estar. Sentia-se irritado, com a insistência de Mick e ainda mais com a receptividade que ela encontrava em Clara. Ía mesmo ligar para David, precisava desabafar com alguém, não esperava por sentí-la tão longe, depois de tê-la tão entregue em seus braços.

 Continua
 

21 de set de 2013

Rockstar - Capítulo CXLI


Sozinha no camarim, Clara não fazia muito além de rever os vídeos dela e de Jack publicados no Youtube e chorar. Por mais que Mick corresse em sua direção e sua Ferrari chegaria  a ser multada por excesso de velocidade no caminho até a Arena, nada parecia rápido o suficiente para acalmar o coração de Clara, triste, abandonado naquela imensa sala, sem ninguém para dizer-lhe que tudo terminaria bem.

Jack também sentia um peso enorme em seu coração. Sabia que era o sofrimento de Clara, sua dor, a culpa por não conseguir decidir-se por apenas um dos dois amores que carregava em seu peito.

Enquanto discutia com David, Mike  e Peters, mais uma vez, coisas que pareciam sem qualquer importância, como contratos de transmissão ao vivo para a TV a cabo de um dos shows da turnê, pelo qual receberiam mais alguns milhões, ele estava longe, pensando em seus sentimentos, na vontade que sentia de simplesmente largar tudo aquilo e voltar para os braços dela.

- Jack... você concorda com o contrato? Vinte milhões de dólares pela transmissão do show de Nova York? Jack?

- Velhão... será que não dá para responder?

- O que?... desculpa... estava longe....

- Percebemos, Jack... - Peters sorriu simpaticamente. Com toda a crise que Jack vinha atravessando nos últimos dias, o empresário frio e difícil, parecia ter se transformado em uma pessoa um pouco mais compreensiva e passara a tratá-lo de uma forma mais humana. - O que eu estava perguntando é se eu devo aceitar a oferta de vinte milhões de dólares pela transmissão do show de Nova York em pay-per-view...

- Velhão... eu acho que podemos conseguir mais...

- Então é isso, Peters... vamos negociar... quero ganhar cada centavo que eles puderem nos pagar... não pretendo continuar fazendo isso por muito tempo, por isso, é melhor conseguir todo o dinheiro que pudermos agora...

- É isso mesmo, Jack... - Michael Silver sorriu. - Agora que você voltou a esta sala, temos um pouco mais de força para negociar... e não é só sobre tirar cada centavo que pudermos, mas também sobre dar a nós mesmos o valor que temos...

- Está bem... quanto devo pedir então? Eu sinto que ainda existe alguma margem para negociação, acho que esse valor ainda está abaixo do que eles são capazes de pagar...

- Faça uma nova tentativa, Peters... - David sorriu simpaticamente, enquanto mantinha os olhos presos em Jack, preocupado com a expressão de tristeza e desespero em seu rosto.

- Então... estamos conversados? - David lutava para terminar logo aquela reunião, mas Peters trazia mais e mais assuntos para a mesa, queria mostrar a seus chefes que era um administrador zeloso, mas não percebia que quase matava Jack ao fazê-lo.

Os olhos de Clara já estavam bem inchados de tanto chorar, quando ela levantou-se do sofá para abrir a porta de seu camarim para Mick Jagger entrar.

- Trouxe para você, minha querida... - Ele disse assustado por encontrá-la tão triste novamente e entregando-lhe o bouquet de rosas e as duas caixas de chocolate que ele tinha acabado de comprar no caminho. - Ah, meu amor... vim correndo... vem... vamos colocar as flores no vaso,  lavar o rosto e conversar... não suporto te ver assim triste...

- Me perdoa querido... obrigada... - ela disse, lutando contra sua própria tristeza, tentando conter aquela sensação de que o fim estava próximo. - Obrigada, Mick... você não deveria perder seu tempo comigo, mas te agradeço muito por ter vindo e por me trazer estas flores tão lindas...

- Ah, meu amor... o que o Jack fez para você ficar tão triste?

- Nada... pelo contrário... é que... ah, Mick... estou me sentindo muito sozinha... ele precisa trabalhar e eu fico aqui, esperando por ele... e me sentindo uma monstra por não conseguir viver sem você...

Mick apenas sorriu, secou as lágrimas de seu rosto com as pontas de seus dedos. Depois arranjou as rosas que tinha trazido em um enorme vaso que encontrou junto com as flores que tinham chegado naquele dia e pegou-a pela mão, levando-a ao banheiro para lavar o rosto. Era seu jeito de cuidar de Clara, a mulher que amava, enquanto ela ainda permitia que cuidasse.

- Trouxe também chocolate, meu amor... vem... vamos comer um pouco... estou com fome... - Mick sorriu novamente, tentando tirá-la de sua tristeza. - Então... você quer me contar o que aconteceu?

- Ah, Mick... acho que estou enlouquecendo... pouco a pouco... acredito que é isso que acontece com quem não consegue controlar o que sente... com quem ama tanto quanto eu amo...

- Meu amor... calma... respira... vem aqui... - ele puxou-a para perto de seu corpo e abraçou-a. - Estou aqui para te ajudar... Vem... vamos sentar,  preciso te ver bem...

- Clara.... - Jack batia agora na porta do camarim de Clara. A reunião tinha terminado e ele queria ficar com ela, conversar como precisavam.

- É o Jack, querido... - Clara sorriu. - Preciso abrir a porta...

- Deixa que eu abro... - Mick levantou-se frustrado por não ter tido tempo para cuidar dela dessa vez. - Oi Jack...

- Oi Mick... não sabia que você estava aqui...

- Acabei de chegar... a Clara estava chorando muito e resolvi vir até aqui para cuidar dela...

- Chorando? - Jack  caminhou até a esposa e abraçou-a, preocupado. - O que foi, meu amor?

- Estou muito triste, querido... muito... me desculpa...

- Não peça desculpas, meu amor... calma... vai dar tudo certo... vamos ficar bem... Mick, por favor, cuida da Clara porque eu preciso resolver mais umas coisas para o show de hoje... o David está me esperando, só passei aqui para ver como estavam as coisas...

- Pode deixar que eu cuido, Jack... - Mick voltou a sentar-se onde estava antes de Jack chegar, pegando as mãos de Clara entre as suas e beijando-as. - Vamos conversar, comer um pouco e logo, ela estará bem... não é querida?

- Vou tentar... - Clara disse tentando interromper o choro. - Jack, querido... me perdoa...

- Meu amor... não tenho o que perdoar... fica em paz... por favor... - Jack saiu tentando controlar-se para não chorar na frente dela. Saiu pelo corredor indo rapidamente até o outro camarim.

- Querida... - Mick abraçou-a. - Calma... vamos conversar... estou aqui para te ouvir...

- Você viu? - Clara disse voltando a chorar. - Eu estou perdendo o Jack... ele vai me abandonar...

- Não vai, querida... hoje é dia de show... ele precisa trabalhar... não se preocupa... vamos conversar e eu vou te dar o carinho que você precisa... enquanto o Jack cuida do que ele precisa cuidar... ele não está te deixando... eu também não... descansa em mim, querida... - ele sorriu, beijando-a na testa. - promete para mim agora que vai tentar melhorar...

- Eu prometo... - ela tentou sorrir para ele, mas não conseguiu. - Obrigada querido... eu sei que estou chata, não deveria tomar seu tempo com as minhas bobagens...

- Bobagens? Não, meu amor... eu e o Jack queremos te ver feliz de novo...

- Mas ele desistiu de mim... você viu... ele foi embora...

- Fica tranquila, meu amor... calma... ele só ficou triste de te ver assim e por isso fugiu daqui para que você não percebesse...

- Você acha isso?

- Tenho certeza, minha querida... vamos fazer o seguinte? Você melhora, come alguma coisa e vai atrás dele... vocês conversam e tudo fica bem...

- Obrigada Mick... você é meu melhor amigo nesse mundo... - Clara sorriu. - Eu te amo...

- Também te amo... vem... vamos comer um pouco... - ele disse levando-a novamente até o banheiro. - Vamos lavar esse rosto lindo... e você vai ficar bem...

- Obrigada, querido... - ela disse quando ele abriu a caixa de chocolates e ofereceu a ela, pegando também um bombom. - Você acha que é isso? Que ele não quer que eu o veja triste?

- Tenho certeza... eu conheço seu marido... ele deve estar chorando agora no outro camarim...

- Você acha que eu devo ir até ele?

- Acho... mas melhora antes.... quer beber alguma coisa? Champagne?

- Quero... vou conseguir... quero melhorar para conversar com ele... não posso vê-lo triste...

- É isso mesmo, amor... você vai ficar bem... ele vai ficar bem e eu também ficarei... pronto... está melhor?

- Estou querido... preciso lutar contra essa dor porque o Jack precisa de mim agora... você me entende, não?

- Claro que entendo... E quero te ver feliz....

- Você me faz feliz, querido... por favor, me espera... vou conversar com o Jack e já volto...

Ela saiu pelo corredor e caminhou até o camarim dos rapazes, batendo na porta. - Jack... querido... posso falar com você...

David abriu a porta e ela entrou. Jack agora chorava sentado no sofá. David saiu discretamente deixando-os sozinhos e ela apenas caminhou até Jack e abraçou-o, sem dizer nada.

Ficaram lá abraçados, chorando até criarem coragem para conversar novamente.

- Meu amor... o Mick me disse que notou que você tinha saído do camarim chorando...

- Me desculpa, querida... quando eu vi o Mick com você... eu fiquei com ciúmes... por isso vim para cá... estávamos tão bem hoje...

- Estamos bem, Jack... eu estava triste porque não consigo deixar de lado tudo o que sinto e sei que estou te decepcionando...

- Não está, meu amor... eu é que não devo ficar sentindo ciúmes desse jeito... então... está melhor?

- Estou.... vem... vamos até o meu camarim... o Mick comprou chocolate para nós...

- Está bem... - Jack beijou-a. - Vamos lá... prometo que não terei mais ciúmes... não quero mais que você se sinta pressionada a deixá-lo...

- Você é muito querido, Jack... eu juro que estou lutando muito para esquecer tudo o que sinto por ele, mas está tão difícil...

- Eu sei, meu amor... não quero mais te ver lutando... relaxa e vamos seguir em frente... está bem?

- Está bem, querido... - ela sorriu e beijou-o. - Obrigada por aceitar o inaceitável....

Os dois voltaram ao camarim de Clara de mãos dadas e lá, comeram e passaram o resto da tarde conversando com Mick.

A segunda noite de show foi perfeita como a primeira, mas todos voltaram cedo para casa. Os parentes de Clara embarcavam para o Brasil, no dia seguinte, muito cedo  e ela fez questão de acompanhá-los no aeroporto, enquanto Mick e Jack continuavam dormindo.

O caminho de volta para Clara foi muito triste, ela não tinha conseguido dormir a noite inteira e com o momento de partir para o castelo se aproximando mais a cada momento, ela desabou no carro, chorando por todo o caminho de volta.

Aquela manhã estava gelada, como se repentinamente se lembrasse em que estação do ano estava, a chuva fina gelada e o céu cinzento pareciam ajudar a ilustrar a sua falta de horizontes naquele momento.

Continua 

23 de ago de 2013

Rockstar - capítulo CXL



- E o seu namorado? - Jack deu um sorrisinho malicioso, enquanto terminava de vestir-se novamente. - Ele te disse a que horas vem para cá?

- Não... - Clara olhou para ele indignada com o tom que ele estava usando. - Você não vai começar com isso de novo, vai?

- Não estou começando com nada, meu amor... calma... não fica toda bravinha... ele é seu namorado, não é?

- É... quero dizer... acho que continuará sendo, pelo menos até o final desta semana...

- É isso o que você está planejando? Romper com ele no castelo?

- Não estou planejando nada, Jack... apesar de estar sendo tudo tão maravilhoso entre nós, nestes últimos dois dias, ele continua muito importante para mim...

- Meu amor... eu sei... não se preocupe com isso... eu só queria saber onde está seu coração agora...

- Com você, meu querido... ele está sempre com você... - Clara sorriu e ajeitou os cabelos longos de Jack. - Mas arrumei esse problema sozinha e sairei dele sozinha também... por enquanto, não quero perder nenhum dos dois... aliás, antes de você vir aqui e conversarmos, achei que tinha te perdido e doeu tanto que me deu vontade de morrer...

- Ah, meu amor... não suporto te ver triste... estamos bem, não estamos? - Jack sentou-se novamente no sofá e pegou-a no colo.

- Muito bem, querido... mas tenho medo... tenho tido uns sonhos estranhos, não consigo lembrar de nada quando acordo, mas sinto que alguma coisa de muito ruim está para acontecer...

- Ah, meu amor... não fica assim... será que não seria melhor conversar com alguém sobre isso? Quer que eu ligue para a Kate? Acho que ela pode te indicar um bom terapeuta...

- Acho que você tem razão, querido... ela pode me ajudar sim... vou ligar para ela quando voltarmos de Nice... aliás, agora, que já melhorei bastante e minha família vai voltar ao Brasil, quero que ela venha novamente morar conosco... até o apartamento deles estar pronto... estou com saudades do pequeno Jack...

- Está bem, minha vida... o que você quiser... como você quiser... para mim também será muito bom... você sabe que convivi muito pouco com a minha filha e ainda me sinto bastante culpado por isso...

- Eu sei, querido... - Clara deitou a cabeça no peito de Jack. - Minha culpa também não me deixa... sei o quanto estou te magoando, magoando o Mick... você tem razão, acho que conversar com a Kate pode me ajudar... estou tão cansada de sentir que estou fazendo tudo errado...

- Não está, meu amor... você nos ama, não tem nada de errado nisso... nós dois somos seus amantes e amigos... além disso, você nunca nos enganou... nós dois sempre soubemos o que estava acontecendo, você nunca mentiu para nós, mentiu?

- Não... não consigo mentir para quem eu amo... sou assim...

- Eu te amo tanto...  Só você tem este efeito sobre mim... Olha isso... - ele disse tentando secar as lágrimas que agora escorriam de seus olhos.

Clara agarrou-se nele e os dois apenas choraram em silêncio por alguns minutos, interrompidos por batidas na porta. - Velhão... você está aí? - David Mersey e Michael Peters precisavam de respostas de Jack e Clara enxugou os olhos e abriu a porta, enquanto Jack também se ajeitava.

- Desculpa Princesa, mas precisamos do Velhão... estamos com um problema com a setlist, será que você pode vir conosco?

- Está bem... - Jack disse com uma expressão contrariada. - Amor... eu já volto...

- Ok, querido... - ela disse, beijando-o na boca. - Vou estar aqui...

Clara pegou o tablet e ligou-o novamente. Enquanto ela dava uma olhada no que tinha sido publicado sobre o show da noite passada, o tablet começou a apitar, avisando que alguém queria falar com ela. Do outro lado da tela, Mick Jagger sorrindo.

- Olá querida... está tudo bem com você?

- Oi Mick... tudo bem... você não vem para cá?

- Mais tarde... estou resolvendo algumas coisas aqui no escritório antes... Já vou para aí... ele te deixou sozinha, de novo?

- Estava com o Jack, mas o David veio buscá-lo aqui e eu acabei sozinha... achei que as coisas estariam mais calmas hoje, mas não estão...

- Ah... não se preocupe... as coisas são assim mesmo... puxa... queria estar aí com você...

- Estou muito triste hoje... meus parentes vão embora amanhã cedo e  mesmo assim, o Peters não os deixa ficarem aqui comigo...

- Meu amor... ele trabalha para vocês e não ao contrário... quer que eu ligue para ele?

- Não... - ela disse não conseguindo mais segurar as lágrimas. - Desculpe querido... estou tão triste...

- Estou indo para aí... não consigo te ver assim...

- Não precisa vir, querido... não se preocupe comigo, vou ficar bem...

- Não vai não... vou cuidar de você... é por mim também... estou tendo um dia muito difícil... só você consegue me fazer relaxar, depois do que passei por aqui neste escritório... tem aquele chocolate maravilhoso aí?

- Não, querido... ontem acabou tudo...

- Vou passar naquela loja, perto da nossa casa e levar, então...

- Está bem... vou tentar comer alguma coisa agora... ligar para casa para saber se meus pais já saíram para vir para cá... o Jack quer que eu converse com a filha dele que é terapeuta...

- E o que você acha disso?

- Preciso de ajuda, estou cansada de me sentir culpada... não consigo aceitar o que eu sinto...

- Calma, meu amor... vou ligar para o meu piloto e já vou para aí... quero ir cedo amanhã para Nice... aliás, por mim, ia para lá nesta noite mesmo, logo depois do show...

- Por favor Mick, não venha... o Jack não vai entender, eu sinto que ele espera que eu converse com você no castelo e que tudo termine neste final de semana entre nós...

- Eu sei, meu amor... mas não se preocupe... vou fazer exatamente o que você me pedir que eu faça... mas quero estar com você agora, não suporto a ideia de te ver assim tão triste, meu amor...

- Estou ficando cansada de mim mesma... eu te adoro, mas sinto que isso está machucando muito o Jack...

- Fica tranquila, meu amor... vou até aí, conversamos, comemos chocolate e você já vai sentir-se melhor... me deixa te fazer feliz, por favor...

- Está bem, querido... eu queria tanto poder te fazer feliz de verdade...

- Mas você faz... Pronto... mandei uma mensagem para o celular do meu piloto pedindo que ele me ligue... já estou a caminho... eu te amo...

- Eu te amo, querido... mas não precisa vir até aqui agora...

- Mas eu quero ir... preciso cuidar de você... já estou a caminho....

- Ok, então... já que não vou te convencer a não vir,  estou te esperando...

Ela desligou o tablet, levantou-se do sofá e caminhou até a mesa com comida e bebida, pronta para ela. Pegou um croissant de chocolate, uma taça de champagne e voltou para o sofá, pegou o celular, ligou para Jonas que disse que tinham acabado de sair de casa e estavam no trânsito, a caminho da Arena.

Mick chegou a considerar usar o helicóptero para ir até a a Arena, mas não era só a pressa, pensou que queria fazê-la feliz e por isso passou antes na sala de sua secretária e pediu a ela que contatasse duas lojas para ele, pediu que a floricultura preparasse um grande maço com rosas cor de lavanda e que a loja próxima da casa de Clara, entregasse 20 caixas de chocolate na casa dela e deixasse duas prontas para ele retirar nos próximos 10 minutos.

Enquanto isso, continuava conversando com uma historiadora francesa que finalmente tinha localizado e estava disponível para ir ao castelo naquele dia mesmo, examinar livros da biblioteca e contar a história de sua longa pesquisa sobre a família que habitara aquele lugar há muitos séculos.

Precisava fazê-la feliz... sabia que estava remando completamente contra a maré. Mas sentia que precisava continuar lutando para manter vivo aquele amor. 


Continua