27 de set de 2012

Rockstar - Capítulo XCVI


- Bom dia, amor... - Jack sussurrou no ouvido de Clara, acordando-a antes do alarme do celular soar. - Vai se arrumar, não quero que você se atrase...

- Bom dia, querido... - ela sorriu e beijou-o. - Vou me preparar para ir... fica deitado, amor... dorme até mais tarde...

- Estou com fome... vou levantar para tomar café... você toma café comigo?

- Claro que tomo, querido... quer que eu te ajude a levantar?

- Acho que não... preciso começar a andar com minhas próprias pernas, agora que o Mick vai te sequestrar...

- Ele não vai me sequestrar, é só mais uma reunião chata sobre aquele roteiro...

- Eu sei... ao menos, não se arruma muito... não quero que aquela raposa velha fique ainda mais tentada a te beijar...

- Ah, meu amor... vem aqui... - ela disse abraçando-o. - Como você está? Ainda dói muito?

- Dói, querida... mas já vai passar... vou me cuidar, não se preocupe comigo, sou um bom paciente, faço tudo o que o médico mandou direitinho...

- Não queria te deixar sozinho... - Clara disse com os olhos já cheios d'água. - Não é justo...

- Eu sei... vou estar bem... o Bradley me ajuda... ele me parece um bom sujeito...

- Pedi ao David para vir aqui para passar o dia com você... ele me disse que chega lá pelas 9 da manhã...

- Pediu? Quando? Eu não vi isso, Menininha...

- Quando você estava na sala, falando com o Mike... assim, vocês podem trabalhar naquela música linda que ele fez para mim...

- Eu te amo, querida... muito... você é tudo para mim... e é muito estranho estar aqui, nesta cama, do seu lado e não poder fazer tudo o que eu desejo...

- Ainda faremos isso muito, meu amor... não se preocupe... vamos conseguir e logo teremos nosso filho...

- É por ele que estou fazendo isso... por ele e por você... Agora vai lá se arrumar para ir para sua reunião...

- Já vou, querido... - Clara levantou-se e foi até o banheiro, tomou um banho rápido e vestiu as roupas que já tinha separado na noite anterior, tailleur cinza, de lã, que ela usaria sobre uma camisa de seda branca, com botas pretas, seu casaco de couro e uma paximina preta por cima, fechando melhor a garganta e um casaco de couro preto, por cima de tudo.

- Você está linda! - Jack disse ao vê-la pronta, ajeitando os cabelos que ficariam soltos.

- Vem, meu amor... vou te ajudar a vestir-se...

- Não precisa... vou tentar me virar sozinho... - Ele disse levantando-se da cama e caminhando lentamente até a cadeira onde estavam suas roupas. - Viu... já consigo me vestir...

- Lindo... toma cuidado, querido... não faz muita força...

- Mas não estou fazendo muita força, meu amor... estou bem... e morrendo de ciúmes que a minha mulher linda vai encontrar com aquele desclassificado...

- Volto rápido para você... vem... vamos lá para a sala de jantar... - ela disse pegando sua bolsa e dando a mão para Jack, para ajudá-lo a andar.

Os dois foram lentamente até a sala de jantar, que já tinha um café da manhã completo servido para ambos. Clara comeu bem e fez com que Jack comesse e tomasse todos os remédios que deveria. Depois ajudou-o a ir até a sala de estar, terminou de arrumar-se e sentou-se ao lado dele  para esperar a chegada do carro que viria buscá-la e logo um belo Mercedes preto, passava pelos portões da casa e ela beijava Jack, que fez questão de caminhar com ela até o carro.

- Vou tentar voltar o mais cedo possível, se precisar de alguma coisa, me ligue... Se sentir alguma coisa diferente, avise o Bradley. Ele tem também os telefones do seu médico e do hospital...

- Querida... estou bem... de verdade... pode ir... - Jack disse beijando-a apaixonadamente. - Eu te amo...

- Eu também te amo, querido... - Ela disse entrando no carro, que partiu rápido pelas ruas de Kensington, entrando na garagem do apartamento de Mick, alguns poucos quarteirões dali.

- Bom dia, querida... - Mick disse ao entrar no carro e sentar-se no banco detrás ao lado dela. - Então vamos para Paris? Nossa, você está linda...

- Estou com frio... esta cidade não é fácil...

- Vou aumentar o aquecimento do carro... como está o Jack?

- Está bem... para mim está sendo muito dificil deixá-lo em casa, está tão frágil, dolorido...

- Querida, ele vai ficar bem... logo voltamos para Londres e você poderá cuidar dele...

- Cuidarei sim... sabe, Mick... eu pensei muito, de ontem para hoje e vi que não sou mesmo capaz de trair o Jack... eu o amo demais para isso...

- Eu sabia... você ama o Jack, ele ama você e eu fico aqui, te amando, sozinho... quase enlouquecendo de tanto desejo...

- Me desculpa, Mick... mas está muito difícil para mim...

- Quer dizer que você me deseja? Que aquele beijo de ontem...

- Aquele beijo de ontem foi maravilhoso, querido... mas...

Mick agarrou-a e beijou-a, seu corpo agora pressionando-a contra o banco do carro. - Por favor, Mick... - ela disse empurrando-o e pegando seu remédio de asma na bolsa. - Estou com falta de ar...

- Me perdoa, querida...  você está bem?

- Fiquei nervosa, mas já ficarei bem... - ela disse guardando o remédio. - Por favor, vamos tentar conversar...

- Está bem, meu amor... vou me controlar... não quero deixá-la nervosa... Vamos conversar...

- Vamos conversar sim... o que eu estava querendo te dizer é que eu sinto muita atração por você, mas não posso permitir que nada aconteça entre nós, porque amo o Jack e não irei traí-lo, de jeito nenhum... me perdoa... não tenho coragem...

- Fica tranquila, querida... quero que você se sinta segura ao meu lado,  sou seu amigo, não vou mais tentar te beijar. Somos amigos agora, ok?

- Ok! Obrigada por me entender...

- Querida, por favor, não me agradeça... estou aqui, lutando comigo mesmo,  tentando me convencer de que posso ser seu amigo quando tudo o que eu quero é ter você nos meus braços...

- Não posso... - Clara disse chorando e abraçando-o. - meu marido...

- Ele não está aqui...

- Não posso mentir para ele... seria como mentir para mim mesma...

- Fica calma, meu amor... fica calma... - Mick beijou-a no rosto. - Eu quero te ver feliz, não te fazer chorar...

O longo caminho de Londres a Heathrow foi percorrido rapidamente naquela manhã de domingo, Clara estava muito nervosa e com medo da possibilidade de ser fotografada por paparazzi embarcando, mas acalmou-se quando o carro entrou direto no hangar onde o avião esperava por eles.

Os dois estavam em silêncio agora, apenas atentos aos detalhes do embarque, que mesmo sem bagagem, precisava seguir o ritual de verificação de documentos por funcionários de alfândega fazendo o possível para fingirem-se indiferentes àquela notícia que tinha potencial para ferver todos o tablóides.

- Querida, você já pensou no que um repórter de tablóide não daria para estar no lugar desses funcionários da alfândega...

- Pois é, Mick... e se um deles falar alguma coisa para um desses reporteres...

- Eles não falam... você não imagina o que esses caras vêem no dia a dia deles... você já viu algum comentário na imprensa?

- Não... mas eu tenho medo... não confio em ninguém...

- E não deve confiar mesmo... todas as pessoas que trabalham para mim assinam acordos de confidencialidade e acredito que seu marido também os usa...

- Sim... os empregados da nossa casa foram todos contratados pelo Michael Peters e meu marido me disse que eles são proibidos de dizer qualquer coisa a nosso respeito...

- Então...

- Mesmo assim, não gosto deles ao nosso redor... não sei... não me sinto a vontade de verdade, até estar completamente sozinha com meu marido, ou com meus amigos.

- E comigo?

- O que tem?

- Não é mais só uma questão de privacidade, você não quer que seu marido descubra sobre nosso relacionamento...

- Mas somos amigos, Mick... eu não te disse no carro...

- Eu estava aqui pensando sobre o que você me disse... mas não consigo concordar...

- Como não consegue? - ela disse agarrando-se na poltrona depois de um grande solavanco causado por turbulência. - Eu não posso... lembra?

- Por que não pode? Você disse que também me deseja... o que tem de errado em duas pessoas que se desejam tanto ficarem juntas?

- Mick... por favor... eu não quero falar mais nisso..

- Mas eu quero... eu preciso ter você... não posso ser seu amigo se fico todo o tempo pensando em te abraçar e te amar... por que você me tortura? Por que renega o que sente?

- Por favor... não posso... se estou te incomodando tanto, vamos acabar logo com isso... assim que esse avião pousar em Paris volto para minha casa e você não precisa me ver nunca mais.

- Não... querida... por favor... eu só estou te pedindo para nos dar um pouco de paz... não tem nada de heroico, ou nobre nessa sua atitude... antes eu achava que você não me queria, mas agora, eu sei que você me quer e me deseja tanto quanto eu te desejo...

- Mick... - ela disse pegando a mão dele. - Me escuta... eu preciso me controlar, você também... porque meu marido não vai entender nunca isso e eu nunca mentirei para ele... nem o magoarei apenas por um desejo...

- Então você admite que me quer também?

- Claro que eu quero... mas não posso querer, não posso...

- Por que? Você é dona de si mesma, pode e deve fazer o que deseja...

- Não posso e não devo, se isso for magoar o homem que eu amo... e irá magoá-lo muito...

- Você acha que ele é fiel? Que nunca vai sair por aí com outras mulheres? Você é muito ingênua... na época da Crossroads... sinceramente querida, eu o vi fazendo coisas que me deixariam envergonhado...

- Eu sei, Mick... eu sei quem é meu marido... mas pedi a ele para nunca me contar sobre esses excessos, não quero que nosso relacionamento perca o encanto.

- Me desculpe, mas você está sendo muito infantil...

- Olha quem fala... só porque não está acostumado a ouvir não como resposta, me chama de infantil...

- Você tem razão, não estou acostumado a ouvir não como resposta... pelo contrário, as mulheres estão sempre fazendo de tudo para me levar para a cama...

- Então, aquela que não faz isso tem algum problema, certo?

- Você é que está dizendo isso... Eu quero você porque eu quero... existe sim o desejo pela mulher linda e encantadora, que eu ainda não tive e além dele, existem sentimentos que estão quase me enlouquecendo. Só consigo suportá-los porque sei que um dia você vai ser minha...

- Você tem mesmo muita autoconfiança... como sabe que um dia me terá?

- Porque eu sei... um dia, você não vai conseguir controlar mais esse desejo e ele vai atirá-la nos meus braços...

- Você é inacreditável... um rockstar de verdade... - Clara sorriu, ao vê-lo levantando-se e servindo whisky para ambos. - Não é cedo demais para bebermos?

- É cedo... mas acho que nós dois precisamos de uma bebida... eu sei que eu preciso...

- Eu não queria te magoar...

- Não está me magoando, querida... estamos só tendo uma conversa adulta sobre um desejo que está nos matando, mas que você considera inapropriado... aliás, que tal viver na capital do império? Porque voltamos à era vitoriana, não voltamos?

- Ah... por favor, Mick... não é assim que você vai me convencer...

- Não estou mais tentando... juro... é só um comentário sobre nossa situação peculiar... Então devo entender que você não quer ir ao meu apartamento comigo...

- Mas eu quero... estou certa de que você entendeu que não vai acontecer nada hoje entre nós...

- Opa! Existe uma esperança então... você disse hoje... não disse nunca... - Mick disse rindo e seu sorriso quebrou o gelo e terminou a discussão. Os dois começaram a rir e se abraçaram. - Ainda somos amigos?

- Claro e eu ainda te amo...

- Eu também te amo... sua maluquinha... - ele disse beijando-a no rosto. - Acho que estamos chegando...

Como se estivesse ilustrando o comentário de Mick, o piloto fez os avisos de segurança e logo pousava a aeronave na pista do aeroporto Charles de Gaulle. Paris estava chuvosa e os dois desembarcaram no hangar e caminharam até a Mercedes preta que esperava por eles. Estavam silenciosos, enquanto o carro rolava por largas avenidas quase vazias, rumo ao 16º Distrito, onde continuariam a conversa que começaram em Londres.

- Paris sob a chuva não parece tão linda... - disse Clara quebrando o silêncio.

- Ah querida... se eu pudesse, faria o sol brilhar, só para te deixar mais feliz...

- Com sol ou chuva, a resposta ainda é não...

- Deus... não estou tentando te seduzir agora... só estou jogando conversa fora para te entreter... você é minha convidada...

- Está bem... desculpa, fui rude... então... terminou a reforma de seu apartamento?

- Sim... você vai gostar de lá... aliás, aquele apartamento um dia será seu...

- Como assim, será meu?

- Porque você vai tirá-lo de mim no nosso divórcio... o castelo de Nice também...

- Lá vem... não vou sequer transar com você, quanto mais me casar e divorciar... depois a maluca sou eu...

- Estou brincando, querida... mas acho que vou mandar a conta do analista para seu marido pagar... depois de tanta rejeição é melhor que eu veja um profissional... - Mick disse servindo Whisky novamente para ambos.

- Vamos chegar bebados a reunião... - Clara sorriu. - Isso não é nada elegante...

- É sim... somos rockstars, meu amor... todos esperam que estejamos pelo menos um pouco fora de nós mesmos...

- Você é maravilhoso, sabia?

- Sei sim...  estava aqui pensando... será que você pode me matar uma curiosidade?

- Talvez... o que você quer saber?

- Como foi a primeira vez em que você transou com o Jack?

- Por que você quer saber isso?

- Por nada, só curiosidade... você não quer transar comigo, ao menos me conta como foi... foi em Nova York, não?  Eu estava lá na festa depois do show, lembra?

- Lembro... estava apavorada naquela festa...

- Por que? Você não tinha falado com o Jack antes?

- Tinha e nós quase tinhamos nos beijado, você se esquece que fui para lá assinar um contrato com ele, eu deveria ser a ghost writer do livro dele e ele era meu patrão, que eu estava conhecendo naquele dia... fiquei com muito medo sim...

- Com medo ou querendo beijá-lo?

- Os dois...  naquele momento eu sabia que não deveria ir para a cama com ele... embora não conseguisse pensar em outra coisa.

- Engraçado, acho que estou familiarizado com este sentimento... - ele sorriu. - Mas o que te fez ir assim mesmo?

- Eu não consegui me controlar...

- Imaginei... - Mick sorriu. - eu não tive essa sorte...

- Era um outro momento... agora tenho mais razões para me controlar... estou casada e logo estarei grávida, do meu marido...

- Mas está indo comigo para meu apartamento... a casa de um homem que quer ser o pai de todos os seus filhos... isso não me parece muito lógico...

- Eu estou indo porque ainda vou te convencer a ser só meu amigo e ficar em paz com isso...

- Paz? Agora você está brincando...

- Não estou... quero mesmo ficar em paz com você e  que você seja meu amigo...

Ele apenas balançou a cabeça negativamente e deu um sorriso discreto. Naquele momento, sua causa parecia mais perdida do que nunca, mesmo assim, ele não tinha nenhuma intenção de desistir.

Continua

19 de set de 2012

Rockstar - Capítulo XCV


Clara sentou-se na cama novamente, com seu copo de capuccino e ficou esperando pela chegada do marido. Alguns minutos depois, Jack chegava, com uma equipe de enfermeiros ao seu redor.

- Meu amor! - Clara disse ao vê-lo aproximando-se ainda sobre a maca. - Como você está?

- Completamente tonto, meu amor... E você?

- Com saudades de você... - ela sorriu e beijou-o no rosto, assim que os enfermeiros se afastaram, depois de o terem arrumado na cama. - Você ficou com saudades de mim?

- Muitas, meu amor... mas temo que você vai ficar com medo daquilo que está embaixo deste lençol...

- Eu amo tudo o que está aí embaixo, meu querido e nunca terei medo...

- Mas está tudo muito feio agora, roxo, inchado... depilado... acho que pelo bem do nosso casamento, você não poderá me ver nu novamente pelos próximos 6 meses...

- Exagerado! Isso é impossível, querido... - ela riu e sussurrou no ouvido dele.  - Vou cuidar de você todos os dias da minha vida... e cuidar de você inclui te mimar muito... e ficar nua ao seu lado...

- Eu te amo, Menininha... mas falando sério... está muito feio...

- Não me importo... vamos para casa?

- Vamos sim, amor... estou só esperando a minha alta...

- Vou ligar para casa e mandar que façam um bom almoço para nós... O que você quer comer?

- Sinceramente, querida... nada... estou dolorido, cansado e meio enjoado...

- Então vou mandar fazer uma sopinha bem quentinha para nós dois... que tal?

- Perfeito... acho que uma sopinha sempre vai bem... E você ainda não comeu nada hoje... não?

- Acabei de tomar um capuccino...

- Isso não é comida, amor... não adianta só desfazer a vasectomia... preciso que você me ajude para que nosso filho possa nascer...

- Eu sei, querido... desculpa... estava muito nervosa para comer qualquer coisa... E falando nisso... o Mick me ligou...

- Ah... e o que ele queria?

- Acertar os detalhes da reunião de amanhã... - ela disse tentando demonstrar naturalidade. - Ele vai mandar um carro me buscar em casa amanhã, às 8 da manhã e assim que a reunião terminar, volto para casa...

- Está bem, querida... não se preocupe comigo, vou estar bem... de verdade... o médico me disse que tudo vai estar bem em alguns dias...

- Assim espero... fico tão aflita de te ver nessa situação...

- Não fica, Menininha...  eu estou bem e você pode ir tranquila encontrar-se com aquele salafrário...

- Por favor, querido... você sabe que ele não significa nada para mim, eu te amo, Jack... - ela disse, beijando-o. - E quero estar a altura de tudo o que você espera de mim...

- Você é o meu sonho, meu amor...

- Bom dia novamente, senhor e senhora Noble! - o médico disse da porta para ambos. - Então, prontos para ir para casa? A senhora pode aguardar por uns minutos lá fora, enquanto faço um último exame e um curativo?

- Ok... - ela disse para o médico. - Estou lá fora, amor...

Enquanto esperava, Clara ligou para casa pedindo que uma canja de galinha fosse preparada. Tinha parado de pensar sobre o dia seguinte e seu encontro com Mick e agora concentrava-se apenas em cuidar de Jack com todo o amor que sentia por ele. Assim, com a autorização do médico, ela ajudou-o a vestir-se e pentear-se, antes de sentar-se na cadeira de rodas em que foi levado até a saída do hospital.

Logo os dois entravam no carro de Khaled e partiam para casa. Jack estava tranquilo e sorria para Clara, que não parava de mimá-lo; talvez tentando compensá-lo por uma traição que ainda não tinha acontecido, mas que ela temia muito que acontecesse.

Voltaram para casa e Khaled ajudou Jack a chegar no sofá da sala de estar, enquanto Clara mandava o mordomo até a farmácia providenciar a compra dos remédios prescritos para Jack e de uma bolsa apropriada para colocar gelo. Também passou pela cozinha para verificar o andamento do almoço e foi informada de que em quinze minutos tudo estaria pronto.

- Amor... nossa sopa estará pronta em 15 minutos... - ela sorriu, abraçando Jack e cobrindo-o com uma manta de lã. - Como você está?

- Estou bem, querida... vem sentar aqui comigo...

- Fiquei tão nervosa naquele hospital...

- Eu te disse que tudo daria certo, não disse, Menininha?

- Você me estragou, Jack... sou tão mimada agora que não consigo ficar mais sozinha, tenho que estar ao seu lado...

- Ah, meu amor... sabe que eu sonhei uma porção de coisas enquanto estava lá no hospital... mas a melhor, foi nós dois juntos, no seu apartamento lá no Brasil... foi lindo... No meu sonho você estava grávida... com um barrigão enorme...

- Mesmo? Que lindo! Espero que isso aconteça logo, essa cirurgia está custando muito caro para mim...

- Para mim também... mas vamos superar tudo isso... O que você acha de convidar nossos amigos para jantar aqui em casa hoje? Se isso não for te incomodar...

- Não é incomodo nenhum, meu amor... Se você se sente bem a ponto de recebê-los aqui, eu posso pedir à cozinheira para preparar algo de especial para eles e eu mesma farei um brigadeirão para a sobremesa... quer alguma coisa para o menu, querido?

- Está frio... aquela sopa francesa de peixe...

- Uma bouillabaisse?

- Isso!

- Hum... adoro! Vou pedir também uma salada e preparar uma outra coisinha que estou com vontade de comer... vai ser uma surpresa...

- Ah... você vai me deixar sozinho para ficar cozinhando?

- É tudo muito rápido... não vou te deixar muito tempo sozinho, meu amor...

- Está bem... se for assim, pode fazer o jantar... - Jack disse puxando-a para mais perto e beijando-a. - Hum... acho que os efeitos dos remédios que me deram no hospital já estão passando... a dor está aumentando...

- O Bradley está demorando para chegar com os remédios... será que aconteceu alguma coisa?

- Fica tranquila, querida... ele já vai chegar... Vou ligar para o Dave, para convidá-los...

- Está bem, amor... vou até a cozinha para avisá-los sobre o jantar. Querido... o Michael e a Jenni não iam para Paris hoje?

- Não sei... vou ligar para ele também... - ele disse contorcendo o rosto de dor ao mover-se para pegar o celular no bolso da calça. - Não se preocupe... estou bem...

Clara avisou a cozinheira sobre os planos para o jantar e deu a ela uma lista de ingredientes para os pratos que prepararia. Foi a seguir até a sala de jantar para ver se já estava pronta para almoçarem, enquanto Bradley, o mordomo chegava em casa e lhe entregava a sacola com as compras.

Ela então pegou a receita dada pelo médico e uma folha de papel e fez um esquema de horários para todos os remédios de Jack e pediu que a bolsa de gelo fosse preparada para uso logo após o almoço; depois ajudou Bradley a apoiar Jack no caminho até a mesa da sala de jantar, onde os dois almoçaram a sopa de galinha que Clara tinha pedido que fosse feita.

- Hum... está muito boa essa sopinha, amor... - Jack sorriu. - perfeito para esse frio... pena que não posso beber um vinho junto com ela...

- É, amor... você não deve beber enquanto estiver tomando remédios... quero que você se cuide... por isso o suco... para você e para mim...

- Você é linda... mas não precisa ficar sem vinho por minha causa...

- Preciso, querido... vou cuidar de você muito bem... se você não pode beber, eu também não posso...

- Ah, meu amor... falei com o Dave e com o Mike e todos eles virão para cá hoje à noite... o Mike vai para Paris, mas só amanhã...

- Ótimo! Já pedi os ingredientes dos pratos que farei para a cozinheira e daqui a pouco, depois que eu te colocar na cama para dormir um pouco, vou até a cozinha cuidar do nosso jantar...

- Gostei da ideia... mas terei que dormir na poltrona hoje... não posso subir escadas...

- Acho que já resolvi esse problema também, meu amor... - Clara sorriu. - Você logo verá, depois do almoço...

- Amo você, Menininha... minha vida era tão sem graça antes de te conhecer...

- Eu amo você, Jack... - ela sorriu. - Por favor, sirvam a sobremesa agora...  desculpa, querido, mas não tive tempo de providenciar nada além de frutas... prometo que cuidarei melhor de nossas refeições por aqui de agora em diante...

- Mas tudo está perfeito, meu amor...

- Queria ser perfeita para você, meu amor...

- Mas você já é...

- Então, querido... acho que estávamos muito perdidos nos últimos dias, viajamos, tivemos a festa... e por isso, me esqueci de uma coisa muito importante...

- O que amor?

- Temos um quarto aqui embaixo e ele está vazio, eu até já encomendei  os aparelhos de ginástica mas eles ainda não foram entregues... assim... pedi aos empregados para montar a cama do quarto de hóspedes, que é ligeiramente menor e mais leve do que a cama da nossa suíte e podemos dormir aqui embaixo, enquanto você se recupera...

- Você é mais do que perfeita, meu amor... e eu te amo muito...

- Bradley, o quarto está pronto?

- Está sim, senhora...  o senhor quer uma ajuda para caminhar até ele, senhor Noble?

- Ele quer sim, Bradley.... ah... está na hora do remédio, por favor traga o antibiótico, tem uma letra A marcada na tampa. O outro remédio, que tem a letra P na tampa é para a dor e deve ser tomado às três da tarde... na cozinha, ao lado dos remédios, tem uma lista com os horários de cada um, quero que ela seja seguida rigorosamente.

- Sim senhora...

- Que linda! Você é maravilhosa... será que você aceitaria descansar comigo em nosso quarto provisório?

- Aceito sim, meu amor... Vou ajudar o Bradley a levá-lo até lá, depois, trocaremos suas roupas e em seguida, colocaremos a bolsa de gelo e você vai dormir no meu colo... ok?

- Ótimos planos, Menininha... sou todo seu, querida...

- E eu sou toda sua...

Clara cuidou de Jack e os dois dormiram abraçados por algumas horas,  Clara apenas acordou-o por alguns minutos para tomar a medicação e ambos voltaram a dormir.

Às seis da tarde, Clara levantou-se, tomou um banho, preparou um empadão de camarões e um brigadeirão para o jantar, pegou seu carro na garagem e foi até uma loja de flores comprar algumas flores para decorar a casa, para receber bem seus convidados.

Depois, acordou Jack, ajudou-o a tomar uma chuveirada  rápida e a vestir-se para o jantar. E ajudou-o a caminhar de volta até a sala de estar.

- Amor, senta aqui um pouquinho comigo...

- Não era bom colocar novamente a bolsa de gelo?

- Mas vai molhar a minha roupa...

- Verdade, querido... quando eles forem, colocamos a bolsa de novo... está doendo?

- Um pouco... mas vou ficar bem...

- Vou até a cozinha para ver como estão as coisas... acho que tem outro remédio para você tomar agora...

- Vai lá, amor... mas não precisa ficar assim, toda agitada... eles são de casa...

- Ah, mas eles nos tratam tão bem na casa deles, quero tratá-los bem aqui...

Mais alguns minutos, os quatro convidados chegavam à casa e eram recebidos por Clara, na sala de estar e enquanto David e Michael faziam piadas e mais piadas sobre a cirurgia de Jack, Clara tentava conversar com suas amigas, sem muito sucesso e decidia que arrumaria uma oportunidade de se falarem depois do jantar.

- Querida, de onde vieram essas flores? - Jack perguntou ao ver o arranjo de rosas que decorava a mesa do jantar.

- Fui até a floricultura hoje à tarde, com meu carrinho, amor... foi tão bom...

- Querida! Que bom! Só toma cuidado porque se te pegam dirigindo sem licença, você vai ter uma bela dor de cabeça...

- Fui muito rápido, querido... mas vou atrás da auto-escola assim que puder... sabe fiquei tanto tempo sem dirigir, que me esqueci o quanto eu gosto, principalmente esse carrinho tão lindo...

- Tem que dar corda para ele andar antes, querida? - riu David.

- Ah... você é muito maldoso, Dave... ele é lindo... adoro!

- Você é quem é linda, Clara... - Jack disse mandando um beijo para ela. - E esta torta de camarões... estou ainda mais apaixonado por você, querida...

- É uma coisa que eu gosto de fazer e me deu vontade de comer hoje... que bom que você gostou, amor...

- Delicioso, Princesa! Você tem certeza de que nunca foi chef de cozinha no Brasil?

- Tenho, querido... só gosto de comer, por isso, cozinho...

- Está muito bom, mesmo, Clara... - sorriu Jennifer. - Você podia abrir um restaurante...

- Obrigada, queridos... - Clara sorriu. - Que bom que vocês gostaram...

O jantar seguiu com a alegria que era costumeira quando aqueles amigos se encontravam, o brigadeirão da sobremesa foi recebido com festa e depois dele, David ajudou Jack a ir até a sala de estar e as conversas passaram a ser sobre música.

Com a desculpa de mostrar os novos vestidos em seu closet, Clara levou as amigas até o quarto para poderem conversar aquilo que queriam.

- Você enlouqueceu Clara? Vai até Paris para transar com o Mick? - Cindy disse mostrando sua indignação com a atitude da amiga.

- Não... quero dizer... não vou transar com ele, vou conversar e tentar acabar com essa história de uma vez...

- Mas a Jenni disse...

- Eu sei... hoje de manhã, eu estava muito nervosa, me sentindo sozinha naquele hospital e quando ele me ligou oferecendo companhia, não resisti...

- Mas não foi só isso, não é... vocês se beijaram... - Jennifer interrompeu.

- Sim, nos beijamos e eu fiquei confusa,  senti coisas que não queria ter sentido... Daí fiz o que pude para me controlar e ao invés de mandá-lo embora de lá, para diminuir a tentação, fiquei perto dele e respirei fundo... porque sinceramente, tudo o que eu queria era beijá-lo de novo...

- Meu Deus! - Cindy disse espantada. - Então você quer mesmo transar com ele...

- Calma, ainda não terminei de explicar... o que nós dois sentimos... ele também se conteve, ou teríamos transado ali mesmo, no quarto do hospital...

- Enlouqueceram mesmo, as coisas estão piores do que imaginava... 

- Depois fizemos o possível para nos acalmarmos, conversamos, ficamos amigos novamente e ele foi embora... e eu cheguei a pedir a ele para cancelar a reunião com o roteirista... meu plano era me afastar, para ver se aquilo que eu estava sentindo passava... daí eu liguei para a Jenni... e ela me disse uma coisa que me fez pensar melhor... quanto mais fugirmos um do outro, mais a importância disso vai crescer dentro da gente, o que é um perigo, porque podemos acabar tomando uma atitude precipitada e assim, correremos o risco de magoar o Jack.

- Então, amanhã... enquanto ele ainda não pode nem andar direito, vocês vão para Paris, transam e voltam como se nada tivesse acontecido... - Cindy disse ainda inconformada.

- Mas não é essa a ideia, Cindy... isso pode até acontecer, mas amanhã eu e o Mick vamos conversar e encontrar a melhor saída...

- Saída? Clara, você está ouvindo o que você está dizendo? Você é muito ingênua, parece uma criança pronta a entrar na jaula de um tigre, dizendo que vai convencê-lo a não te morder...

- Mas o Mick é meu amigo e tem sido um cavalheiro comigo, desde o dia em que nos conhecemos... não acho que ele irá se aproveitar da confiança que tenho nele...

- Jenni, você que já transou com ele... o que você diz?

- Melhor comprar camisinha, Clara... - ela sorriu. - Ele nunca tem...

- Vocês acham que isso vai... Estava me sentindo tão civilizada por tentar resolver essa questão com alguma dignidade...

- Querida, sei que não é da nossa conta, que já faz tempo que ele te persegue, que você nunca foi totalmente indiferente a ele e que você está em um momento delicado da sua relação com o Jack, mas não vá fazer a bobagem de arranjar um amante logo agora... se o Jack descobre, nem sei o que pode acontecer.

- Mas eu não quero um amante... eu quero só conversar com ele... tentar deixar isso tudo para trás... - Clara disse com os olhos cheios de lágrimas. - Você acha que estou sendo ingênua, então...

- Está, querida... mas nós te amamos e estamos do seu lado, qualquer que seja a decisão que você resolver tomar e também estamos aqui para o que você quiser ou precisar...

- Eu vou a Paris amanhã, de manhã... se quiser qualquer coisa, me liga... vou estar no meu apartamento lá pelas 10.

- Ok, obrigada Jen...

- Mas o Mick é terrível... - Cindy disse ajeitando os cabelos de Clara que estavam soltando-se do rabo de cavalo. - Eu sei que não tenho nada com isso, mas não deixa sua culpa te paralisar... nem te levar a fazer coisas que você não quer... nós te amamos...

- Obrigada, minhas amigas... vocês estão me ajudando muito... - Clara arrumou-se novamente e achou melhor descer para a sala de estar, para evitar que Jack ficasse desconfiado de alguma coisa.

David estava sentado ao piano, mostrando uma nova melodia para Jack que tinha acabado de compor.

- Amor... vem ouvir isso... Olha que música linda o David está fazendo para você...

Clara sorriu e encaixou-se nos braços de Jack para ouvir a nova música. Sentia-se ainda mais apaixonada por ele e este sentimento, dava forças a ela para enfrentar o que acontecesse no dia seguinte, com a cabeça erguida.

Continua