11 de ago de 2012

Rockstar - Capítulo XCIV


Quando desligou o celular, Clara já estava arrependida de ter permitido que Jagger fosse até ela. Levantou-se, caminhou pelos corredores do hospital em busca de uma garrafa de água para beber, queria tomar um comprimido para dor de cabeça e recebeu explicações de uma recepcionista de como chegar à cafeteria do hospital.

Quando estava no corredor, voltando para o quarto, encontrou-se com Mick, de chapéu, óculos escuros e com um cachecol ao redor do pescoço, ele apressou o passo quando a viu vindo em sua direção, pegou-a pela mão e os dois entraram no quarto, onde ele tomou o cuidado de fechar a porta, antes de abraçá-la em silêncio.

- Obrigada, Mick... - Clara disse limpando as lágrimas. - Me perdoa, não devia ter deixado você vir até aqui... estou muito nervosa...

- Querida... eu entendo... não se preocupe com isso... estou aqui por você, sou seu amigo, lembra?

- Eu sei, mas estou me sentindo muito mal agora. Parece que estou fazendo uma coisa muito errada, que sou a pior esposa do mundo por me sentir aqui sozinha. Já estava me sentindo culpada por ele ter que fazer essa cirurgia, deixá-lo vir até aqui faz com que eu me sinta uma monstra...

- Querida, esta cirurgia é simples, já me informei sobre ela, o Jack volta para casa ainda hoje...

- Eu sei, mas é uma cirurgia, agora mesmo eles estão cortando e costurando meu marido... eu nunca deveria ter permitido isso, onde eu estava com a cabeça...

- Calma, querida... - Mick disse abraçando-a novamente. - Vem aqui, vamos sentar na cama, relaxa um pouco, quero que você se acalme. Meu Deus, suas mãos estão geladas... você está com frio?

- Não... acho que preciso de um café... espera aqui, vou buscar na cafeteria...

- Deixa que eu vou...

- Não... não quero que ninguém te veja... uma foto sua por aqui em um tablóide qualquer e meu casamento acaba... O Jack não entenderia nunca...

- Então ele não te merece...

- Ele está certo, eu sou um fracasso como esposa...

- Não é... se fosse, eu não estaria aqui sentindo tanta inveja do Jack, como estou agora...

- É melhor eu ir buscar um café para nós dois, antes que você me deixe ainda mais nervosa... Como você quer seu café?

- Puro, forte e sem açúcar... o champagne ontem me pegou de jeito...

- Já volto... - ela disse sorrindo simpáticamente para ele, antes de sair do quarto e fechar a porta. Estava nervosa e tentava apenas prestar atenção no labirinto de corredores que a levaria até a cafeteria. Depois era apenas voltar pelo mesmo caminho e tentar continuar conversando com Mick.

- Obrigada pelo café, querida... - Mick sorriu. - Agora beba o seu... ainda está gelada? Deixa ver essas mãozinhas...

- Estou melhor... - Clara sorriu. - Não queria ser assim, mas sou... choro o tempo todo, tenho muito medo de tudo e amo demais o Jack...

- Querida você é só um ser humano... não seja dura demais com você mesma...

- Estou me sentindo um lixo... chamei para perto de mim o único homem que meu marido vê como uma ameaça ao nosso relacionamento.

- Mas estou longe de ameaçar qualquer coisa, querida... Sei que você ama o Jack e que não tenho chance com você... 

- Eu já disse isso para ele tantas vezes, mas ele vê em você a mesma ameaça que eu vejo naquela ex dele, a Ann Kurtiss... Não posso culpá-lo,  também sinto muitos ciúmes quando aquela mulher está perto...

- A Gianna tem ciúmes de você, querida... ela me disse, um pouco antes de embarcar para Nova York dizendo que não queria nunca mais me ver...

- Ela? Meu Deus, mas ela não deveria... gosto muito dela, é uma boa amiga...

- Ela sabe o que sinto por você... eu tive que dizer como me sentia depois de um longo interrogatório... aquela italiana não é fácil...

- Gosto muito de vocês dois... gostaria muito que ficassem juntos e felizes...

- Eu também... mas acho que é difícil para ela entender que tenho uma vida, não posso ficar atrás dela todo o tempo...

- Vocês terminaram tudo?

- Ela me ligou quando eu estava em Barbados, conversamos e convidei-a para passar uns dias em Paris. Acho que vamos estar bem, querida...

- Que bom! Você acha que  devo falar com ela? Quer dizer, tirar da cabeça dela essa bobagem de ciúmes?

- Melhor não... vai parecer muito estranho para ela se você o fizer... ela já acha que temos um caso, se você for falar com ela, aí sim ela terá certeza. De uma certa forma, não consigo parar de desejar que fosse verdade... tê-la nos meus braços...

- Por favor, Mick...

- Tem razão... vim até aqui para te acalmar e não paro de te deixar mais nervosa...

- Me perdoa... mas ainda não consigo trair meu marido...

- Eu sei... não se preocupe comigo... ainda posso sonhar que estou te beijando, não?

- Você nunca desiste...

- Acho que não... - Mick sorriu e aproximando-se de Clara, acariciou seu rosto e beijou-a. Um beijo terno, apaixonado, que ela não conseguiu impedir.

- Por favor, Mick... acho melhor você ir...

- Me perdoa... não consegui me controlar... mas você tem razão... é melhor eu ir embora...

A cabeça de Clara girava rápido e seu coração estava acelerado, aquele beijo tirou-a completamente do ar, mas ela não queria que ele fosse embora. - Mick, sobre a reunião amanhã... será que você pode cancelar?

- Você não quer me ver mais?

- Não... claro que não, você é meu amigo, gosto muito de você... só preciso respirar um pouco, cuidar do meu marido... - ela disse, os olhos cheios de lágrimas mais uma vez.

- Não chora... vem aqui... - ele disse abraçando-a novamente. - Está bem... vou me encontrar com o Summers e depois te ligo para dizer o que decidimos... me desculpe, não tentarei beijá-la mais, vou me controlar, não posso perdê-la...

- Não vai... tenha certeza que não... - ela sorriu para ele, acariciando seu rosto. - Me desculpa, mas ainda não consigo trair meu marido...

- Eu sei... - ele disse beijando-a na testa. - Eu te amo, mesmo assim... Você sabe quando a cirurgia do Jack está prevista para terminar?

- Eles me disseram que demora entre duas e três horas, ele entrou na sala às seis e meia, já são oito e meia, então acho que a qualquer momento...

- Quer que eu vá perguntar?

- Não, querido...

- Então quer que eu vá embora?

- Não... por favor, fica mais um pouco... se você me deixar aqui sozinha acho que vou enlouquecer...

- Vou ficar... vem, vamos sentar novamente... - ele disse levando-a até a cama. - Então, já sabe o que as pessoas comentaram sobre a festa de ontem?

- Não... quer dizer... vi algumas coisas na internet, mas acho que ainda precisamos dar um tempo para as pessoas publicarem alguma coisa mais elaborada do que fotos e vídeos...

- A festa foi mesmo maravilhosa querida, me diverti muito e você estava linda no palco... uma estrela... para dizer a verdade, pensaria duas vezes antes de deixá-la cantar com os Stones... - Mick riu.

- Ah... não é verdade... você não pode estar achando que roubei a cena da Crossroads... eu?

- Roubou, querida... aliás, a Scotland Yard deve chegar aqui para prendê-la a qualquer momento...

- Só você para me fazer rir... eu te amo, meu amigo...

- Eu também te amo... - ele disse beijando a mão de Clara. - Mas acredita em mim, você iluminou aquele palco. Eles deveriam mesmo te dar mais dinheiro por aquele disco...

- Não sei... - Clara suspirou. - Não acho isso certo, não fiz nada, só cantei com meu marido, já recebi um dinheiro absurdo por essa gravação e sinceramente não preciso de nada...

- Meu amor, você não tem a mínima ideia do que fez naquele palco ontem, não?

- Eu só cantei com o Jack...

- Clara, você hipnotizou aquela plateia... sabe aquelas lendas de uma sereia que leva os homens para a morte, só com a voz...

- Ah, pára Mick... eu não sou nada disso... sou uma mulher comum, que só estava naquele palco porque teve a sorte de ter um Deus do Rock apaixonado por ela...

- Não fala assim... você precisa ver que tem valor, não negue seu talento, querida...

- Eu não tenho talento, Mick... sou uma escritora... não uma cantora..

- Você tem talento, sua voz é linda, você é linda e tem carisma... tenho certeza que logo será maior do que a Crossroads...

- Não sei... você, o Jack, o David... são todos grandes profissionais, mas gostam de mim... tenho medo de não pertencer de verdade a esse mundo e estar me enganando...

- Não está... e sei que ontem você sentiu, não sentiu?

- O que? O que você acha que eu senti?

- Uma vontade de ficar naquele palco para sempre, sentindo o calor das luzes, a energia... a música... me diz que não sentiu...

- Senti sim... ai, meu Deus, será que é isso?

- É isso sim, amor... Eu até fiz algumas músicas para você e quero que você as grave... o Dave vai produzir seu disco solo, não?

- Foi o que ele disse...

- Sei que seu marido não vai gostar, mas quero estar envolvido... tenho uma vontade enorme de trabalhar com você... você vai me chamar?

- Vou... claro que vou... - ela sorriu. - só espero não te decepcionar...

- Não vai... confia em mim...

- Confio... Vamos ver se a cirurgia do Jack já terminou?

- Vamos... - Mick disse, levantando-se da cama e pegando-a pela mão e caminhando pelos corredores do hospital até a porta da recepção do centro cirurgico do hospital.

- Por favor, tem como saber se a cirurgia do senhor Jack Noble já terminou?

- Ainda não, senhora... quando terminar, o doutor Jackson irá procurá-la no quarto do senhor Noble... não se preocupe, senhora... está tudo bem...

- Ok... obrigada...

- Vamos voltar para o quarto, querida... esperar mais um pouco...

Os dois caminharam de volta até o quarto, Clara sentia-se um pouco mais relaxada e agora apenas conversava com Mick para ajudar a passar o tempo.

- Querida... estou achando melhor ir embora... - Mick disse levantando-se da cama onde estava sentado ao lado de Clara. - O médico pode comentar alguma coisa com seu marido e ... não quero prejudicar seu casamento...

- Você tem razão, querido... não quero deixar o Jack nervoso... Você foi um grande amigo hoje, Mick... não sei nem como te agradecer...

- Pode contar sempre comigo, querida... eu te amo... - ele disse beijando-a no rosto.

- Eu te amo, Mick! - ela disse retribuindo o beijo e abraçando-o. - Nunca me esquecerei do que você fez por mim hoje...

- Ah Clara... melhor eu ir... tchau, querida... me liga quando seu marido sair da cirurgia...

- Pode deixar... obrigada... tchau...

Clara voltou a sentar-se na cama... já eram 9 da manhã e por isso, ela decidiu que não era cedo demais para falar com Jennifer sobre o que tinha acabado de acontecer.

- O que? O Mick te beijou? - Jennifer disse do outro lado da linha. - Eu não sei nem o que te dizer... então? Vocês estão juntos agora?

- Não Jenni!

- Você bateu nele, então?

- Não... o beijo foi bastante carinhoso, mas conversamos e eu expliquei para ele que não quero trair meu marido... ele parece ter entendido...

- Mas você parece não ter entendido... claro que o beijo foi carinhoso, ele te ama... Não acredito que você não tenha sentido nada...

- Senti... quis beijá-lo mais... mas tive medo de ficar ainda mais confusa e pedi para que ele não fizesse mais esse tipo de coisa... aquele homem é... eu quero dizer...

- É... você o deseja... admita... não tem nada errado nisso... você sente uma enorme atração por ele...

- Eu o amo, Jenni... muito... mas quero continuar sendo amiga dele... não quero e não vou trair meu marido...

- E vai trair você mesma? Deixar esse desejo entre vocês crescer e não fazer nada sobre ele? Você não vai encontrá-lo em Paris amanhã?

- Não! Pedi que ele cancelasse a reunião e ele vai sozinho conversar com o roteirista...

- Clara, resolve isso... aproveita essa reunião e vai falar com ele direito... Não sei se deveria dizer isso, mas esse desejo de vocês é aquele que costuma acabar com os casamentos...

- Eu sei... vou me afastar dele...

- Não... você deve fazer ao contrário... afastar-se será pior, vai chegar um momento em que os dois vão enlouquecer e o Jack irá flagrá-los e nunca mais vai olhar para você... pensa, Clara...

- Mas não vou até Paris transar com ele...

- Não... vai lá para conversar melhor, em um lugar seguro e se acontecer alguma coisa, não será o final do mundo... você ama o Jack, tem um casamento perfeito com ele e deseja o Mick. Tudo continua como está, só que mais tranquilo, sem essa espada em cima da cabeça de vocês... pensa, mulher...

- Não sei... estou muito confusa... mas preciso resolver isso de uma vez... acho que você tem razão... vou ligar para o Mick e pedir que ele remarque a reunião... espero conseguir...

- Vai lá, amiga... depois me conta...

Sem pensar muito, Clara ligou para Mick.

- Oi, minha querida, a cirurgia já terminou?

- Não... estou te ligando porque pensei melhor e decidi ir à reunião com o Summers amanhã... Você já falou com ele?

- Não... mas isso é ótimo, meu amor... vamos com  meu jatinho...

- Não gosto de jatinhos, querido... vou comprar uma passagem em um voo de carreira... a que horas é a reunião?

- Às 11 da manhã, no restaurante do George V... vem com meu jatinho, querida... é mais fácil, vamos para o meu apartamento conversar e na hora da reunião, vamos juntos para o hotel...

- Está bem, então...quer saber... não quero mais complicação, acho que aceitarei sua oferta, seu jato está aqui em Londres?

- Está... viajamos juntos para Paris amanhã cedo e  podemos conversar no caminho...

- Ok, querido...

- Vou mandar meu carro te buscar às 8 da manhã... você pode dizer para o Jack que já estou em Paris... você estará na sua casa, não?

- Estarei... eu não gosto de mentir para o Jack,  mas quanto menos ele souber, é melhor...

- Tem razão, querida... não quero destruir seu casamento, quero te fazer feliz, meu amor...

- Eu quero ter paz, Mick... e para isso preciso muito conversar direito com você e continuar vivendo bem com meu marido, sem me sentir, como estou me sentindo agora...  - ela disse com lágrimas correndo em seu rosto. - Ok, então Mick? Vamos conversar?

- Calma, meu amor... vamos conversar sim...

- Tchau Mick... te ligo quando o Jack sair da sala de cirurgia...

- Está bem, querida... beijos...

- Beijos...

Clara levantou-se da cama e caminhou até o corredor do hospital onde encontrou com o médico de Jack, ainda com as roupas da sala de cirurgia, vindo em sua direção.

- Senhora Noble? - ele disse para Clara. - Bom dia, sou o dr Horace Jackson, muito prazer... - ele disse estendendo a mão para cumprimentá-la. - A cirurgia já terminou e foi um grande sucesso, todos os canais foram restaurados e o que se espera é que ele tenha sua capacidade de ter filhos restaurada.

- Que bom, doutor... - ela disse secando as lágrimas. - E quando poderei vê-lo?

- Daqui alguns minutos... o senhor Noble está agora na sala de recuperação, ainda sob o efeito do tranquilizante que demos a ele para a cirurgia. Vamos acordá-lo e se tudo estiver bem, por volta do meio-dia, ele terá alta... foi um procedimento bem simples e agora, no pós-cirurgico, ele precisará apenas de repouso e uma bolsa de gêlo no local para ficar bem...

- Gêlo, doutor?

- É... daqui a pouco, quando ele estiver no quarto, explico melhor para vocês dois...

- Ok... vou até a cafeteria pegar uma bebida quente para mim e já volto...

- Perfeito, senhora... já conversamos... foi um prazer conhecê-la, o senhor Noble é mesmo um homem de muita sorte... - ele sorriu.

- Obrigada... - ela sorriu de volta para ele. Estava cansada daqueles elogios e seguiu pelos corredores do hospital até a cafeteria, onde pediu um capuccino. Voltou com ele nas mãos e contou para Jennifer pelo telefone tudo o que tinha combinado com Mick. Tentava não pensar muito, para não aumentar a culpa que agora a deixava muito perto de ter um ataque de nervos.

Continua

9 de ago de 2012

Rockstar - Capítulo XCIII



- Jack, amor... está na hora... - ela disse beijando-o no pescoço. - Vamos nos vestir?

- Vamos, querida... - Jack disse, levantando-se e indo para o banheiro. - Minha mochila?

- Está na cadeira... já está pronta... - ela respondeu levantando-se também e procurando no closet o cabide com as roupas que tinha separado para ambos.

- Obrigado, amor... não sei o que faria sem você... - Jack disse abraçando-a. - Está chovendo, não?

- Acho que sim, querido... - Clara disse agarrando-se a ele. - Eu sei que você precisa fazer essa cirurgia, mas...

- Eu sei, amor... vai dar tudo certo e logo nosso filho estará chegando... - Jack sussurrou em seu ouvido. - Sonhei com ele nesta noite...

- Mesmo? Ele falou alguma coisa?

- Estávamos na nossa montanha e ele corria entre as alfazemas... enquanto você tentava fotografá-lo, eu apenas aproveitava a sombra das árvores para descansar um pouco.

- Que lindo, amor... - ela disse com os olhos cheios d'água.

- Não chora, Menininha... ainda temos muita felicidade esperando por nós... você vai ver...

- Ah amor... eu sei disso... não estou triste, apenas fico muito emocionada quando penso no nosso filho... - Clara disse beijando-o. Por alguns minutos, os dois ficaram apenas abraçados, no meio do quarto. Desceram com a mochila do Jack e a bolsa de Clara nas mãos.

- Amor, você não vai tomar café da manhã? - Jack perguntou quando a viu sentar-se ao seu lado na sala de estar, a espera da chegada do motorista que os levaria ao hospital.

- Não tenho fome, querido... pelo menos agora...

- Você precisa comer...

- Ai, Vida... estou muito nervosa para comer... me perdoa... Eu te amo... quero te ver bem... não se preocupe comigo... assim que eu sentir fome, vou procurar alguma coisa...

- Ok... mas come... por favor...

- Vou comer sim, amor...

- Senhor Noble... - interrompeu Bradley, o novo mordomo da casa. - o motorista, já está na porta.

- Obrigada, Bradley... - Jack respondeu. - Vamos, amor?

- Vamos... - ela disse agarrando-se a Jack para sob o guarda-chuva, e caminhando até o carro estacionado na frente da casa.

O dia ainda não tinha clareado e a chuva deixava aquela madrugada ainda mais gelada. Os dois entraram no banco detrás da Mercedes preta de Khaled e lá se abraçaram. Lágrimas corriam silenciosas pelo rosto de Clara que apenas se abrigava nos braços de Jack da sensação de frio que a paisagem molhada de Londres trazia ao passar pelas janelas do carro.

O desembarque na porta do hospital foi rápido e a presença de Michael Peters, desembaraçando todo o processo burocrático da internação, ajudou-os a serem encaminhados diretamente para o quarto particular onde Jack seria preparado para a cirurgia.

Clara tinha autorização para permanecer no quarto durante essa preparação, mas optou por sair e ficar no corredor, para dar a Jack mais privacidade. Depois de deixá-lo pronto, uma enfermeira foi buscar Clara no corredor e ela apenas acariciou o rosto dele e beijou-o na testa, pois ele já estava dormindo, efeito de um tranquilizante potente aplicado durante o processo de preparação.

E enquanto a maca que o levava era empurrada pelos corredores até a sala de cirurgia, Clara sentou-se no quarto, pegou sua bolsa e tirou dela seu tablet, para distrair-se de sua aflição. Mas seu pensamento não se movia muito além da culpa que sentia. Ela nunca deveria tê-lo deixado ir tão longe, deveriam ter optado pela inseminação artificial, como o médico sugerira.

A culpa deixava tudo ainda mais lento. Ela navegava na internet, baixava o novo livro de um escritor que admirava e que acabara de ser lançado. Lia e respondia mensagens e e-mails que tinha recebido por seu aniversário e nada do tempo passar. Não podia ligar para ninguém, era cedo demais, mais ainda no Brasil que mesmo com o horário de verão ainda tinha menos duas horas em comparação com Londres, onde eram só 7 da manhã.

Enquanto olhava a internet, seu celular começou a tocar e ela ficou em dúvida se devia ou não atendê-lo quando viu o nome Jagger piscando na tela.

- Bom dia, querida... - dizia a voz de Mick antes mesmo de ela dizer qualquer coisa. - O Jack já está sendo operado?

- Quem te falou sobre essa cirurgia?

- Você... lembra que marcamos uma reunião em Paris, amanhã?

- Verdade... desculpa, estou muito nervosa agora... tudo bem com você?

- Tudo, querida... não fique nervosa, pelo que me informei, esta cirurgia é bastante simples...

- Mas é uma cirurgia, ele está lá, sendo cortado e costurado, enquanto estou aqui... - Clara disse enquanto as lágrimas voltavam a molhar seu rosto. - Não deveria tê-lo deixado fazer isso...

- Fica tranquila, querida... você está sozinha?

- Estou... o Michael Peters esteve aqui, mas já foi embora, estou no quarto do Jack, esperando que a cirurgia termine...

- Eu posso ir até aí... te distrair para você não ficar nervosa...

- Não, Mick...

- Por favor... qual o nome do hospital?

- Por favor, Mick... não venha para cá... Não quero deixar meu marido nervoso...

- Mas ele nem saberá que estive aí, querida... quero só segurar a sua mão e te dizer que tudo vai dar certo... quando ele voltar da cirurgia, vou embora e você poderá cuidar dele...

- Ok... acho que preciso mesmo de um amigo agora... o hospital se chama London Bridge...

- Sei onde fica... qual o número do quarto?

- 431...

- Estou indo para aí...

- Obrigada... - ela disse pensando na loucura que estava fazendo e em tudo o que Jack diria se soubesse daquela necessidade que ela tinha naquele momento de conversar com alguém, mesmo que esse alguém fosse Mick Jagger.

Continua

8 de ago de 2012

Rockstar - Capítulo XCII



Depois de uma preparação corrida, os dois entraram na limousine que os levaria ao tapete vermelho da super produção planejada para marcar o lançamento do disco. Clara não disse nada a Jack, mas estava bastante nervosa quando o carro estacionou para os dois descerem.

Ela agarrava-se firme ao braço de Jack, com medo de cair, completamente desorientada com os gritos e flashes.

- Estou muito tonta, amor... -  sussurrou no ouvido de Jack, que sorriu e abraçou-a.

Charles Hutton guiou-os até alguns repórteres que os entrevistaram, poucas perguntas e estavam livres para entrar. Um jantar de gala os esperava no grande salão, boa comida e muito champagne.

No hall de entrada, Clara parou repentinamente, seu coração batendo muito rápido,  puxou Jack pelo braço e sussurrou em seu ouvido: - Meu amor, vem aqui... preciso te dizer uma coisa...

- O que foi, querida?

- Estou muito feliz por estar aqui com você hoje... eu te amo...

- Ah Menininha... - Jack puxou-a e beijou-a com paixão. - Eu te amo tanto!

- Desculpe interromper, sou a hostess da festa, devo guiá-los agora até sua mesa. Por gentileza, me sigam...

Jack e Clara, de mãos dadas, entraram no salão atrás da moça e assim chegaram na mesa onde já estavam David, Cindy, Michael Silver, Jennifer, Michael Peters, Ann Kurtiss, Mick Jagger e Silvia Huskins.

- Princesa, Velhão! - David levantou-se e beijou-os. - Então, chegaram!

- Boa noite, David... - Clara sorriu e passou a cumprimentar uma a uma todas as pessoas da mesa. - Boa noite, Mick...

- Boa noite, querida... antes de mais nada, parabéns pelo seu aniversário!

- Obrigada...

- Esta é Silvia Huskins, uma amiga australiana que acabei de conhecer em Barbados...

- Prazer... - as duas se cumprimentaram.

- Então, como está minha nova estrela, hoje? - Michael Peters perguntou assim que Clara sentou-se em sua cadeira.

- Não me sinto uma estrela, Peters... mas obrigada pelo presente de aniversário que você me mandou... está aqui...

- Você merece, querida... todos concordam comigo, até a gravadora que já melhorou muito aquela proposta para você...

- Merece mesmo, amor... - Jack sorriu, pegou a mão de Clara e beijou-a.

- A senhora Noble é mesmo preciosa... - Mick sorriu, provocando. - Jack, você não sabe a sorte que tem...

- Não Mick... - ela respondeu, interrompendo-o. - Quem tem sorte de estar com o Jack sou eu...

- Que lindo seu vestido, amiga... - Jennifer disse tentando evitar que o clima amistoso da mesa mudasse. - Você está linda, querida...

- Obrigada, Jen... estou muito feliz hoje...

- É, Velhão! O Mick tem razão, você teve sorte demais de encontrar a Princesa... - sorriu Michael Silver.

- Então, Mick, como estão as gravações? Já terminaram? - Jack perguntou tentando mudar o foco da conversa.

- Quase...  tivemos que interromper porque o Charlie tem um compromisso em Nova York nesta semana, mas semana que vem continuamos em Nice, no meu estúdio... Aliás, gostaria muito de tê-los todos novamente por lá...

- Infelizmente o senhor Peters  lotou nossas agendas de compromissos nos próximos dias... - sorriu David. - Mas sempre podemos pedir a ele para trocar algumas datas para nos liberar uma semana... que tal, Peters?

- Posso estudar... mas isso pode complicar muito nosso trabalho... é um convite maravilhoso e embora eu não ache prudente mexer na agenda,  se vocês fizerem questão, posso ver o que dá para ser feito...

- Estude com carinho, Peters, porque queremos ir. Acompanhar as gravações dos Stones em Nice será muito bom... - David sorriu com os olhos fixos em Jack, que agora o fulminava com os olhos.

- Vamos, sim... será ótimo brincar um pouco mais naquele estúdio, Mick... - disse Michael Silver. - Aquela sua mesa é uma Ferrari...

- Falando em máquinas, gostou da sua, Princesa? - David perguntou para Clara. - O Jack me mostrou, mas não pude acreditar que você queria mesmo aquele carrinho de brinquedo...

- Adorei, David... o Jack me deu de presente um Mini Cooper hoje... já dei uma volta no quarteirão com ele...

- Ah esse carrinho é fofo, David... - Cindy sorriu. - Combina muito com a Clara...

- Eu adorei... estou louca para tirar minha licença para dirigí-lo aqui...

- Um mini cooper? - riu Mick. - Esta eu não esperava... é um carrinho de brinquedo...

- Ah, mas eu gosto... sempre gostei de carros pequenos, no Brasil, antes de vender o carro para comprar meu apartamento, também tinha um carro pequeno... dá para estacionar em qualquer lugar... eu adoro... meu amor não poderia me dar um presente mais lindo do que esse!

- Eu comprei porque sabia que você gostava... mas se você quiser  trocar seu carrinho de brinquedo por um carro de verdade...  - Jack sorriu.

- Não é de brinquedo, amor... e eu não o trocaria por nada... - Clara sorriu.

Enquanto eles conversavam, o jantar ia sendo servido. Clara optou por comer pouco e beber ainda menos, tinha medo de sentir-se pesada e não conseguir cantar e além disso, já  estava começando a sentir-se ansiosa e com medo de fazer alguma bobagem no palco.

- O que foi, amor? - Jack perguntou ao pegar sua mão e sentí-la gelada.

- Estou nervosa, amor... - Clara sussurrou no ouvido dele. - Tenho medo de estragar a apresentação de vocês...

- Calma, querida... você é uma estrela e vai brilhar muito hoje...

- Você é muito doce, meu amor... te amo muito... - Clara disse beijando-o.

- Querida, logo após o jantar nós vamos para o camarim para nos prepararmos para tocar... você quer vir conosco?

- Quero sim, amor... se não for atrapalhar, quero estar com você...

- Então vocês farão mesmo um pocket show hoje? - Mick Jagger perguntou a Jack ao ouvir a conversa dele com Clara.

- Sim, vamos tocar algumas coisas acústicas hoje, inclusive "The Light", com minha mulher fazendo o dueto comigo...

- Que lindo! É sempre um prazer ouví-la cantar, querida...

- Obrigada, Mick... - ela sorriu, um pouco sem graça, com medo de Jack reagir às provocações de Mick. - Nós vamos agora para o camarim nos prepararmos para a apresentação...

- Querida, eu estarei por aqui, esperando ansiosamente para ouvir  sua voz de anjo... Silvia, você precisa vê-la cantando...

Assim que terminou a sobremesa, Jack pegou Clara pela mão e os dois seguiram pelos corredores até o camarim, já pronto para recebê-los.

- Vem amor... vamos aquecer essa mãozinha gelada... Tony, onde está o meu conhaque?

- Aqui, Jack... - o roadie respondeu trazendo uma garrafa e um copo para ele, que já tinha um outro copo em mãos.

- Você vai ficar quentinha, Menininha... - Jack disse servindo doses generosas da bebida para ambos.

- Você pode beber, amor?

- Posso sim... até as duas da manhã, pelo menos... depois, tenho que fazer jejum de tudo, até de água... Mas isso não vai doer nada, perto de ficar duas semanas sem poder ter você... - Jack disse acariciando o rosto de Clara e suspirando.

-  Nós vamos conseguir, querido... eu sei que vamos... - ela disse beijando-o. - Estou muito preocupada com essa cirurgia, mas tenho certeza que tudo vai dar certo...

- Velhão... vocês saíram correndo da mesa, não entendi nada... O Mick estava atacando a Princesa de novo?

- Não... a Clara estava nervosa, trouxe ela para cá para acalmá-la um pouco...

- Princesa, fica tranquila... você está cantando lindamente... é só fazer o que você sabe...

- Estou tentando me acalmar, Dave, obrigada...

- E o Mike?

- Ele já vem... está conversando com o Peters... e com a namorada dele...

- Quero esse dois bem longe do camarim... - sorriu Jack. - O que você acha, Dave? Temos como mantê-los lá fora?

- Isso vai ser complicado, cara... vamos fazer uma reunião com o Mike e ver como vamos nos livrar desses dois durante a tournê... nem que eu tenha que conversar com o Peters...

- Ih, cara... não sei não... - Jack disse pegando o celular no bolso para desligá-lo. - Será que o Peters não vai engrossar não?

- Acho melhor vocês deixarem isso para lá, Jack... - ela disse interrompendo a conversa dos dois. - Não quero que vocês façam nada, acho que terei que me acostumar com a ideia de ter essa mulher sempre por perto...

- Não a quero perto de você, Clara... Não... vou falar com o Peters e ver se ao menos conseguimos impedí-la de ir para Nova York... - Jack respondeu pegando a mão de Clara. - Ela não pode ficar perturbando você, meu amor...

- Meu amor... eu não ligo... estou tentando enxergar as coisas de um jeito diferente agora...

- Muito bem, Princesa... deixe que ela provoque e não reaja, isso irá acabar com ela muito mais do que tomar qualquer iniciativa para afastá-la... e deixe que eu cuido para que o Velhão não chegue perto...

- Obrigada, Dave... - Clara sorriu. - Você é um grande amigo... obrigada mesmo!

- Dave, amanhã a Cindy tem algum compromisso?

- Ela vai para Viena logo cedo, por que?

- Queria que alguém ficasse com a Clara no hospital amanhã cedo... a Jennifer vai para Paris, certo...

- Não precisa, Jack...  eu vou estar bem, te esperando acordar da anestesia para irmos para casa...

- Vocês querem ficar em Heathcliff Hall?

- Não precisa, Dave... - Clara sorriu. - Vamos para nossa casa e dormiremos alguns dias na sala de estar, para que o Jack não precise subir escadas...

- Mas acho que seria mais prático se vocês fossem para lá... - David insistiu. - Vocês podem dormir na sala de música...

- Eu não acho que isso seja necessário... - Clara respondeu pegando mais uma dose de conhaque para ela e para Jack. - O Khaled nos leva ao encontro de vocês e pronto... vamos para Nova York todos juntos...

- Estou muito atrasado? - Michael Silver perguntou assim que chegou ao camarim. - Desculpem, amigos... estava acertando umas coisas com o Peters...

- Não, Mike... - Jack sorriu. - O que o Peters queria dessa vez?

- Ele estava me perguntando se queremos ou não que ele mexa na agenda para irmos até o castelo do Mick... eu disse que temos interesse sim e ele disse que vai ajeitar tudo para encaixar essa viagem... Ah... disse também que a Ann Kurtiss está indo para Nashville amanhã...

- Amanhã? - Jack sorriu. - Amor... nos livramos dela!

- Minha sorte está melhorando, querido... aliás, nossa sorte...

- Parabéns, Princesa! Agora que estamos todos felizes, deixa eu te avisar como será o show... vamos tocar estas 7 músicas da lista... - mostrando uma folha de papel escrita para Clara. - Você vai entrar logo depois de "Love You Forever"... Ok?

- Ok.... Vocês vão subir no palco agora?

- Vamos, querida... você vai nos assistir da coxia, não?

- Sim, amor... vou com você até lá...

Poucos minutos depois, Michael Peters, um segurança e um roadie guiavam a banda toda e Clara através dos corredores do teatro, até o palco, onde uma das gravações que Jack tinha feito no estúdio com David, começou a soar nos alto falantes e as cortinas se abriram.

- Boa noite, Londres! - Jack gritou no microfone para a plateia que reagiu com muito barulho. Flashes e luzes de câmeras se acendiam em cima do palco e logo abaixo dele e centenas de celulares já brilhavam nas mãos do público. - Rockin' Over...

Clara agora não conseguia tirar os olhos do palco, onde Jack, como sempre, entregava-se totalmente ao que cantava. Olhos fechados, seus gritos pareciam carregar toda a dor e o desespero de uma alma que nunca viveu um segundo sequer de tranquilidade em sua existência.

As lágrimas brotavam totalmente alheias à sua vontade, molhando seu rosto e o que sentia agora era apenas a vontade de abraçá-lo, estar ao seu lado, tentando de algum jeito confortá-lo.

- Aí, pessoal! Que bom que vocês ainda se lembram de nós! Então... gostaram do nosso novo disco? - ele perguntou apenas para ouvir o rugido das vozes. - A próxima música que nós vamos cantar começou tudo isso, quero dedicá-la a mulher em que ela foi inspirada... Clara... eu te amo! - ele disse, mandando um beijo para ela, na lateral do palco.

"Unexpectedly" foi emendada com "Love you Forever", a grande balada romântica da Crossroads; lenta, quase fantasmagórica, ela chegava aos alto falantes acompanhada com fervor religioso pelo público que cantava junto com Jack.

- Obrigada, Londres! Agora eu gostaria de chamar a este palco a grande razão de a Crossroads estar hoje aqui novamente e mais do que isso, o grande amor da minha vida... quero que vocês recebam agora a minha Rainha da Luz, Clara Noble!

Clara já não conseguia ver nada, era como se entrasse em um mundo a parte de cores fortes e sons que a invadiam e desorientavam. Sentia seu coração na boca e fez um grande esforço para concentrar-se,  apenas caminhar  até Jack, no centro do palco e beijá-lo.

- Boa noite, Londres... - ela disse assim que sentou-se no banquinho. Respirando fundo para concentrar-se no que precisava fazer.

Logo os acordes de "The Light" enchiam a Roundhouse e ela cantou mais uma vez como tinha ensaiado tantas vezes. Sua voz e a de Jack Noble, um dos mais importantes rockstars da história saindo juntas dos alto falantes da casa. Mas se ela pensasse nisso, não conseguiria cantar e por isso não tirava seus olhos da letra que ia sendo mostrada frase por frase no Teleprompter.

Jack a olhava e seus olhos brilhavam, enquanto ele segurava sua mão e a guiava através da canção, cantada pela plateia com um fervor quase religioso.

Assim que a música terminou, Jack levantou-se de seu banquinho e abraçou-a.

- Clara Noble, senhoras e senhores... - David disse no microfone.

Ela agradeceu os aplausos e saiu do palco, voltando à coxia, onde Mick Jagger estava parado, esperando por ela.

- Você aqui? - ela perguntou intrigada.

- Vou cantar "Crossroads" no final com seu marido. - ele sorriu docemente. - Você estava maravilhosa no palco...

- Obrigada... - ela sorriu sem graça.

Jack voltou para seu banquinho, agora com um violão nas mãos. - Fiz esta canção para uma fada que um dia encontrei na mata... - ele disse, tocando os primeiros acordes de "Song of the Woods". - Quero dedicá-la a uma fada, que esteve neste palco há apenas um minuto...

Clara mandou um beijo para Jack e começou a cantar junto, completamente emocionada por estar ouvindo novamente sua música favorita sendo cantada para ela.

- Ele tem razão... - Mick disse em seu ouvido.

- O que? - Clara perguntou.

- Você é uma fada... - ele disse, acariciando seu rosto e secando uma lágrima que corria por ele.

- Não, Mick... por favor... - ela disse empurrando-o.

- Está bem, querida... Não quero deixá-la nervosa.... - ele disse pegando a mão de Clara e beijando-a. - Desculpe...

- Tudo bem, Mick...

Mick subiu ao palco e cantou junto com Jack e o show terminou, a banda recebeu um disco de diamante quíntuplo  pela vendagem recorde de seu disco de retorno e logo Jack e Clara estavam sozinhos novamente, na limousine, a caminho de casa.

- Amor... está muito frio... vai ser difícil acordar cedo amanhã para ir ao hospítal... - Jack disse agarrando-se em Clara para aquecê-la. - Quer ficar em casa? O Khaled vai nos levar, mas você não precisa ir, o Peters vai até lá me ajudar com a papelada...

- Nem pensar... estarei sempre com você, meu amor... não importa se debaixo de neve, sol ou tempestade... não te abandonaria em um momento como esse...

- Você estava linda no palco hoje... acho que me apaixonei de novo...

- Ah Jack... adoro quando você diz essas coisas para mim... eu estava muito feliz lá... tão feliz que tive medo de me perder e nem conseguir cantar... foi maravilhoso...

- Que bom! Eu te disse que você é uma estrela... nasceu para isso, meu amor... eu sei que você ainda vai brilhar muito...

Clara apenas suspirou. Sentiu-se feliz no palco, realizando um sonho antigo de fã da Crossroads, mas ainda não conseguia ver-se como uma artista. Menos ainda uma estrela.

- Agora eu quero ser só sua mulher... - Clara disse beijando-o apaixonadamente e os dois namoraram durante o caminho curto para casa, subiram as escadas abraçados e foram juntos para a cama. Tinham que acordar cedo no dia seguinte, mas não se importaram de não dormir, o amor os impulsionava e deixava-os dispostos para enfrentar o que viesse a seguir.

Continua

4 de ago de 2012

Rockstar - Capítulo XCI



A ideia era que o taxi a deixasse na porta detrás da casa de shows, mas exatamente ali, fãs, repórteres e fotógrafos concentravam-se tornando impossível qualquer aproximação. Clara então pediu ao motorista que parasse um pouco antes e sem sair do carro, ligou para Jack, que conseguiu que os seguranças fossem ao  seu encontro e a escoltassem para dentro da barreira.

- Senhora Noble... - o segurança estendeu a mão para ajudar Clara a sair do taxi. - Boa tarde, sou Jake Eliott e vou escoltá-la para dentro da casa. A senhora está pronta para ir?

- Sim... Obrigada...

Ela deu a mão para ele e cercada por mais alguns seguranças, atravessou a barreira de fãs, fotógrafos e jornalistas que começaram a agitar-se assim que seu taxi estacionou. Clara abaixou-se de encontro ao peito de Jake e caminhou quase carregada por ele, enquanto os outros homens barravam a aproximação da multidão.
Só depois de ter algum trabalho para entrar, ela pode observar o fascinante edifício redondo construido no século XIX para permitir que as locomotivas fossem monobradas e que durante o século XX passara a abrigar shows de bandas importantes como The Doors e Crossroads. Agora, totalmente reformada, a casa tinha a capacidade de receber um público de até 3.300 pessoas.

- Pronto, chegamos... - o segurança sorriu ao passar pela porta. - Por favor, siga-me, o senhor Peters me pediu para guiá-la até o palco...

- Ok... - ela disse caminhando ao lado do rapaz que a guiava através de corredores estreitos cheios de fios e equipamentos. - É muito longe?

- Não, senhora... - sorriu o segurança. - Já estamos chegando...

Os dois subiram por uma pequena escada de madeira e já estavam em cima do palco. - Olá pessoal... - Clara disse tentando sorrir depois de surpreender-se ao ver seu marido conversando na plateia com Ann Kurtiss.

- Parabéns pelo seu aniversário, querida... - Michael Silver disse beijando-a depois de deixar seu baixo nas mãos de um roadie.

- Obrigada, Mike...

- É mesmo! Princesa! - David disse também aproximando-se dela e abraçando-a. - Parabéns... nós te amamos muito...

- Obrigada, David... vocês são muito gentis comigo...

- Clara, amor... - Jack disse, subindo no palco e agarrando-a. - Você está linda!

- Obrigada... - Clara disse empurrando-o. - David, então, vamos logo passar a música, estou querendo ir para casa descansar um pouco antes da festa...

- Claro, Princesa, você é quem manda... - disse David, surpreso com sua atitude. - Está tudo bem?

- Já tive dias melhores, querido... - ela tentou sorrir simpaticamente, mas não conseguiu.

- O que foi, querida? - Jack perguntou ainda sem entender e tentando novamente em vão, aproximar-se da esposa e sendo mantido por ela a distância.

- Nada...  Então, vamos fazer o show sentados em banquinhos? - Clara perguntou soltando-se dos braços de Jack e caminhando na direção de David.

- O que foi, amor? Não estou entendendo... - disse Jack.

- Já disse que nada! Ou tem alguma coisa aqui que eu não sei?

- Pessoal, quero parar um pouco porque preciso conversar com minha mulher... Amor, vem aqui para o camarim para a gente conversar...

- Desculpa, querido, mas acho melhor passarmos logo o som para que eu possa ir descansar em casa. Então, aquele banquinho ali é para mim?

- Clara, o que foi?

- Nada... só estou tentando agilizar este ensaio para poder ir descansar...

Ann Kurtiss subiu ao palco neste instante e Clara olhou-a com tanto desprezo que todos ficaram espantados com a coragem dela de aproximar-se para cumprimentá-la:

- Então, é seu aniversário, querida... parabéns... - Ann disse abraçando Clara.

- Obrigada, querida... - ela respondeu controlando-se para ser educada. - Então... vamos trabalhar? Jack, Dave, Mike?

- Vamos lá, Jack... a Princesa está com pressa... - David disse pegando seu violão de 12 cordas e sentando-se em seu banquinho.

- Obrigada por me compreender, Dave.

- Você não vai me dizer o que está acontecendo, Menininha, vai? - Jack disse aproximando-se dela e pegando-a pela mão.

- Não está acontecendo nada... já disse... quero cantar logo... estou muito cansada e preciso descansar antes da festa de hoje à noite... será que é tão difícil de entender isso?

- Está bem... Tudo pronto? Dave, Mike?

- Tudo... vamos lá... 1, 2, 3... 1, 2, 3, 4... - David disse antes de começar a tocar "The Light".

Clara respirou profundamente e passou a olhar apenas para o teleprompter que trazia a letra da música que ela e Jack deveriam cantar. Jack olhava para ela ainda tentando compreender sua atitude, enquanto ela apenas concentrava-se na música que queria ensaiar, decepcionada por ter encontrado o marido com a única pessoa no mundo que ela tinha pedido para ele evitar.

- Perfeito, Princesa! Cada vez que você canta, você fica melhor... - sorriu David.

Jack agora chorava abertamente e Clara vendo-o, levantou-se do banquinho e foi na direção dele, também chorando. Os dois se abraçaram e apenas choraram juntos por alguns minutos.

- Me perdoa, Jack... - ela sussurrou no ouvido dele. - Quando te vi falando com ela, fiquei cega de ciúmes... Eu te amo...

Jack puxou-a para mais perto e beijou-a.

- Chega por hoje, pessoal! - Jack disse avisando que ele e Clara estavam indo embora. - Qual o horário da festa mesmo?

- Às 11 as limousines passam em casa... Princesa, hoje você vai ter um dia de estrela, com tapete vermelho e tudo... - David disse pegando sua mão e beijando-a. - Não conte nada para a Cindy, mas sei que você será a mulher mais linda desta festa... tenho certeza!

- Obrigada David, você é um amor...

- Vamos embora, Menininha?

- Vamos, meu amor... - Clara sorriu, agarrando-se em Jack. - Até mais tarde, queridos...

Os dois se despediram e seguiram para a porta de saída, de onde conseguiram sair escoltados por uma grande equipe de seguranças e mesmo assim, ficaram assustados com a agitação que causaram. Gritos, flashes, Clara escondia-se nos braços de Jack e os dois partiram rapidamente, ainda apavorados com a possibilidade de serem seguidos.

- Amor... vou dar umas voltas antes de ir para casa, porque não quero essa gente na porta da nossa casa...

- Está bem, querido... - Clara respondeu com medo de estarem sendo seguidos. - Jack, você não está correndo muito?

- Não, amor... estou dentro do limite desta área... apenas não quero dar tempo a eles de nos alcançar. Mas já vou diminuir, vamos passar o próximo sinal e daí já posso andar normalmente.

- Ok, amor... - ela disse olhando para trás, tentando perceber se algum carro continuava atrás deles. - Não estou vendo nenhum carro vindo para cá, amor... pode relaxar...

- E você?

- O que tem eu?

- Por que você estava tão nervosa lá na Roundhouse, posso saber?

- Por que você estava conversando com aquela pistoleira, posso saber?

- Ah... tudo aquilo foi porque você me viu falando com a Ann?

- Você me disse que ia fugir dela... você não estava fugindo...

- Amor, estávamos falando sobre o show... nada demais...

- Mas não gosto de vê-la perto de você, Jack... você ainda não percebeu isso?

- Me perdoa, querida... não queria te deixar contrariada. Eu amo você e só você, Menininha... não pense nem por um segundo nisso porque não consigo te trair, nem que eu quisesse... me sentiria traindo a mim mesmo...

- Ah querido, não é pela traição... é que aquela mulher fica dizendo que quer você e que vai tirar você de mim... me dói muito...

- Não vai, não... quer saber? Deixa ela para lá... isso não vai acontecer, não importa o que ela diga ou ache...

- Está bem, querido... vou tentar não ficar com ciúmes... eu confio em você, só não consigo confiar nela...

- Vou fugir dela hoje à noite... aliás, passarei a noite toda colado em você e não te largarei um segundo nesta festa. Vamos para casa, agora?

- Vamos, meu amor... - Clara sorriu. - acho que preciso dormir um pouco, estou me sentindo muito cansada...

- Vamos direto para o nosso quarto... quero te mimar um pouquinho antes de nos prepararmos para a festa. Então, você gostou dos nossos novos empregados?

- Gostei, amor... conversei rapidamente com alguns deles antes de sair para o salão e os achei simpáticos... Só falei com a cozinheira, as duas arrumadeiras e o mordomo... ainda não vi o jardineiro...

- Ele só virá definitivamente a partir da próxima semana porque ainda estão trabalhando na estufa, no fundo da casa... mas segundo o Peters, ele é muito bem recomendado e tão bom quanto todos os outros que já estão na casa desde a semana passada.

- Será que vamos conseguir dar conta de tudo isso? Tenho tanto medo de não conseguir...

- Vamos sim, Menininha... tenho certeza disso... estamos no rumo certo...

Depois de ter certeza de que não estavam sendo seguidos, Jack abriu o portão e entrou com o carro, estacionando na porta de casa, para que Clara descesse e depois seguindo para guardar o carro na garagem. Não iria usar mais o carro por alguns dias, já que iriam à festa de limousine e no dia seguinte, seriam levados ao hospital por Khaled, o motorista que trabalhava para a produtora de Michael Peters.

Clara entrou em casa, falou com os pais e os irmãos que ligaram no celular para cumprimentá-la pelo aniversário e também atendeu o telefonema de Jonas. Percebeu que Jack estava demorando para entrar em casa e resolveu ir até a garagem atrás dele.

- Jack, amor... - ela chamou na porta fechada. - Querido? Onde você está?

- Aqui, amor... - ele disse abrindo a porta da garagem para revelar uma surpresa para Clara, um pequeno Mini Cooper, na cor vermelha, com uma faixa branca pintada em cima e um enorme laço de fita dourada sobre o teto. - Feliz Aniversário, meu amor!

- Jack! Que lindo, querido! Você não devia...

- Devia sim... você me disse que gosta destes carrinhos, eu resolvi comprar um para você...

- Meu amor... Obrigada... - ela disse agarrando Jack e beijando-o. - Vou precisar fazer aulas para aprender a dirigir nessa mão invertida daqui...

- Vai sim... e quando estiver pronta, você vai poder dirigir seu carrinho de brinquedo... vem aqui vê-lo por dentro...

- Ele é lindo, meu amor... Você é tão maravilhoso comigo, querido... - Clara disse chorando. - Estou tão feliz que não consigo nem expressar direito o que estou sentindo...

- Quer dirigí-lo um pouco? Dar uma volta no quarteirão?

- Você acha que eu consigo?

- Tenho certeza que sim, amor... vem...

- Não era melhor tirarmos esse laço? Não gosto de ficar chamando atenção na rua...

- Não se preocupe, estamos em Londres e ninguém liga para isso...

Jack colocou Clara no assento do motorista e explicou a ela todos os comandos do pequeno carro, e alguns minutos depois, ela dirigia através do portão e dava uma volta completa pelo quarteirão.

- Você dirige direitinho, amor... - sorriu Jack. - Não terá nenhuma dificuldade de aprender a dirigir do lado certo...

- Lado certo? - Clara riu. - Eu te amo, sabia?

- Eu te amo mais, Menininha... vamos voltar para casa?

- Vamos... porque preciso te agradecer mais propriamente pelo presente...

- Hum... então sou eu quem vai ganhar um presente...

De volta à garagem, Clara desceu do carro com Jack e os dois entraram em casa, onde Bradley, o mordomo recém contratado os chamou para mostrar-lhes os presentes que Clara tinha recebido. Flores, caixas de chocolate, cartões e outros pacotes os esperavam na sala de estar.

- Vem, amor... me ajuda a abrir meus presentes... - Clara disse para Jack abrindo cada um dos pacotes e cartões.

- Amor... olha isso... o Michael Peters me mandou uma pulseira de diamantes... - Clara sorriu mostrando a jóia para o marido. - Que linda!

- É o mínimo que ele poderia fazer para alguém que deu tanto lucro a ele nestes últimos meses... Olha, querida, estas flores foram mandadas pelo Mick... Quer ler o cartão?

- Quero sim, amor... - Clara estendeu o braço para pegar o cartão, que Jack entregou-lhe. - "Querida Clara, parabéns pelo seu dia. Você é uma estrela e este é só o início de uma carreira que será brilhante! Beijos, Mick Jagger."

- Hum... ao menos desta vez ele não te cantou...

- Viu, querido... ele finalmente entendeu que eu sou sua... e só sua... quer chocolate? - Clara disse abrindo uma das caixas de bonbons que recebeu. - Olha amor, esta veio da Ann Kurtiss...

- Eu quero outra coisa, amor... vem... deixa os pacotes aí e vamos para o quarto...

Jack e Clara subiram a escadaria e caminharam de mãos dadas até sua suíte, onde passaram as próximas horas nos braços um do outro. Para não perderem a hora deixaram o alarme do celular pronto para despertá-los em tempo de arrumarem-se para a festa.

Continua

3 de ago de 2012

Rockstar - Capítulo XC


Acordaram tarde, com fome, vestiram-se e foram atrás de seu café parisiense favorito, próximo do hotel,  onde eram servidos os melhores croissants de chocolate do mundo; um bom começo de dia para duas pessoas que apenas queriam aproveitar o momento, juntas e felizes, antes de todas as incertezas que se anunciavam na próxima etapa de suas vidas.

- Vamos almoçar no nosso restaurante, em Montmartre?

- Mas ele não fecha nesta temporada?

- Seu francês é melhor do que o meu, mas pelo que eu entendi, o que fecha é só aquela parte aberta, atrás do restaurante, o salão continua funcionando...

- Hum, querido... é mesmo... adoro aquele lugar... engraçado, quando estive nesta cidade pela primeira vez, me senti tão frustrada por você não estar comigo e agora, para mim, ela está cheia de memórias de momentos bons que passamos juntos...

A conversa dos dois foi interrompida repentinamente pela aproximação de um grupo de fãs que reconheceram Jack e  chegaram pedindo autógrafos e fotos. Tudo indicava que teriam um tumulto nas mãos caso não agissem rápido e até mesmo Clara, que já estava acostumada com sua posição a sombra do marido, estava sendo assediada com pedidos de fotos e autógrafos.

- É melhor irmos embora... - Jack sussurrou no ouvido dela, ao perceber mais gente tomando coragem para aproximar-se deles. - Vou lá dentro pagar a conta...

Jack pediu mais croissants de chocolate para levar ao hotel, pagou a conta e os dois saíram do café e pegaram um taxi que os deixou há uma quadra do hotel, na rua detrás, despistando outro grupo de pessoas que os seguia em um taxi.

- Querido... parece que os despistamos... - sorriu Clara quando os dois desceram do carro.

- É, desta vez conseguimos, mas acho que não podemos mais andar por aí, assim, sem difarce, sem seguranças... sinto muito querida...

- Não se preocupe... nada disso me incomoda... estou feliz demais por estar aqui, com você... O que é esse pacote na sua mão?

- Comprei mais croissants de chocolate para nós... vamos subir para terminar nosso café?

- Hum... você é maravilhoso, sabia?

Entraram no hotel, subiram para sua suite e, com medo de continuarem sendo assediados pelos fãs, decidiram só sair de lá para o encontro com Jean Paul, à tarde.

Com o tempo livre no hotel, Clara decidiu usar seu tablet para atualizar-se, ler seus e-mails e depois ver o que estavam falando sobre a banda nas redes sociais e na imprensa e descobriu que a presença dos dois em Paris já tinha sido descoberta pela imprensa e alguns veículos já republicavam as fotos tiradas dos dois no café.

- Amor, olha só como esse pessoal é rápido... - ela disse mostrando a ele uma matéria em um site de celebridades que comentava sobre a presença dos dois na cidade.

- Já começou... estamos perdendo nossa liberdade, meu amor... - Jack respondeu puxando-a para seu colo, beijando seu pescoço e acariciando-a - Mas eles não vão entrar aqui...  - ele sussurrou.

- Hum... que bom... - Clara sorriu, colocando o tablet sobre a mesa e entregando-se aos carinhos de Jack. - Aqui estamos livres para fazermos o que quisermos...

Os dois se amaram mais uma vez no sofá da sala de estar da suíte e ali, decidiram apenas descansar um pouco, já que agora estavam com medo de circular e serem perseguidos por fãs e jornalistas. Mais tarde, tomaram um longo banho juntos na banheira de mármore, vestiram-se com roupas quentes e elegantes e foram para o atelier de Jean Paul, que, como sempre, os recebeu com festa.

- Linda... - sorriu Jean Paul saudando-a assim que ela desceu do carro. - Querida, a internet inteira está comentando sobre a presença de vocês em Paris...

- Olá Jean Paul... ficamos assustados hoje... de repente tinha uma multidão no restaurante e na rua...

- Meu amor, é o sucesso... Boa tarde, Jack...

- Boa tarde, Jean Paul... - Jack respondeu com um sorriso.

- Vamos entrar, queridos... não confiem nesse solzinho pálido da tarde parisiense, ele pode até deixar o céu azul, mas não tem força para nos aquecer...

- Percebemos... mas pelo menos não está tudo cinza como lá em casa... - sorriu Jack enquanto ele e Clara caminhavam atrás do estilista até seu escritório.

- Por favor, sentem-se, vou buscar o vestido... Querida, você vai ficar absolutamente linda nele... aliás, você perdeu peso, não?

- Perdi sim, Jean Paul, três quilos...

- Perdeu peso, querida? - Jack olhou para ela preocupado. - Quanto?

- Três quilos, amor...

- Mas eu não percebi... como não percebi?

- Porque estamos juntos todo o tempo... é mais difícil de notar...

- Não... mas eu tinha que ter notado... me perdoa, querida...

- Não tenho o que perdoar, meu amor... estou bem... não se preocupa...

- Mas eu estou preocupado... quero dizer, acho que ganhei uns cinco quilos nestas férias, como você conseguiu perder peso?

- Meu metabolismo é estranho, querido... já te disse isso...

A volta de Jean Paul para a sala interrompeu momentaneamente a conversa dos dois, mas não a preocupação de Jack que agora olhava-a mais detalhadamente tentando compreender como um detalhe tão importante tinha escapado de sua atenção.

O vestido que Jean Paul fez para ela era de veludo, cor de vinho, ajustado ao corpo, tinha mangas longas e um grande decote.

- Que lindo, Jean Paul! Estou louca para prová-lo... - Clara sorriu ao  pegar o vestido das mãos do figurinista. - Meu amor... que coisa mais linda...

Clara foi até o provador e colocou o vestido, percebeu que estava um pouco largo em alguns pontos, mas sentiu-se poderosa dentro dele; tinha certeza de que faria muito sucesso na festa da noite seguinte com ele.

- Então? - ela disse quando chegou ao escritório.

- Uau! Meu amor... você está linda...

- Tem razão, Jack... mas acho que precisarei apertar um pouco... aqui... - Jean Paul disse puxando um pouco o decote de Clara.

- E se eu usar um daqueles sutiãs que aumentam o tamanho? - Clara disse aflita por ter que ajustar o vestido.

- Ah, querida... não sei... posso ajeitar isso rápido para você... vocês estão no George V?

- Sim... estamos lá até amanhã de manhã... - Jack respondeu.

- Está bem... posso acertar isso rápido para você e mandar entregar no hotel, fica tranquila...

- Ok... estou tranquila... quer dizer... eu sinto muito de te dar o trabalho...

- Meu amor... não é trabalho... você é a minha modelo favorita e terei muito prazer em acertar este vestido para você... fica tranquila que ele estará perfeito... ah... tem também os sapatos... vou buscá-los...

- O que foi, amor? - Jack perguntou ao perceber que Clara estava quase chorando.

- Nada... estou chateada por ter emagrecido... só isso...

- Não fica, amor... vai dar tudo certo...

- Pronto... está aqui... experimenta, querida...

- Ainda bem que os pés não emagrecem... - Clara sorriu. - Perfeitos...

Jack e Clara despediram-se de Jean Paul, quando o sol já estava começando a se por, naquele outono europeu em que os dias ficavam cada vez mais curtos. Ainda nervosa e insegura sobre sua saúde, Clara controlou-se até o momento em que o carro saiu dali e começou a chorar.

- O que foi, amor? - Jack perguntou assustado. - Não gostou do vestido?

- Não é isso... - Clara respondeu tentando conter-se. - É que todas as vezes que eu emagreço, como agora, sem nenhuma razão, eu descubro que minha anemia está pior e, se piorar, o médico já disse que eu não posso engravidar...

- Calma, amor... vamos procurar um bom médico para você... tenho certeza de que vai dar tudo certo...

- Me perdoa, querido... estou tão preocupada...

- Mas não se preocupe... - Jack acariciou os cabelos de Clara. - Você está com fome? Acho que vou te ajudar a recuperar os três quilos ainda hoje...

- Mesmo, amor? - Clara limpou as lágrimas do rosto.

- Você gosta de comida marroquina?

- Acho que nunca comi... é parecida com comida indiana?

- Não muito, mas é bem temperada e apimentada como a comida indiana... você gosta de comida indiana?

- Gosto... tem um restaurante indiano perto do meu apartamento, eu ía sempre almoçar lá...

- Sou suspeito para falar sobre o Marrocos, Menininha... eu já até cheguei a considerar comprar uma casa por lá... é claro que ultimamente as coisas não são mais as mesmas, mas ainda quero te levar para lá... é um lugar lindo...

- Ah, meu amor... acho que seria um sonho ir  com você...

- Estamos chegando ao restaurante, é aquele ali... É bem simples, mas delicioso...

- Acho que nunca fui e nem serei essa pessoa sofisticada que você acha que eu sou, adoro as coisas simples... por dentro, ainda sou a garota pobre da América do Sul que teve a sorte de encontrar seu príncipe encantado...

- Eu? Príncipe encantado? - Jack riu. - Não tenho nada de príncipe, querida, nem gostar da Monarquia, eu gosto... sou apenas um artista popular que se apaixonou pela música americana que ouvia e teve muita sorte. Não tenho grandes fantasias sobre meu papel, sempre procurei ter os pés no chão...

- Adoro ouvir isso, querido... - Clara disse acariciando o rosto de Jack e beijando-o. - Eu te amo e para mim, você é um príncipe...

- Ah, meu amor... - Jack beijou-a apaixonadamente e os dois desceram do carro e caminharam de mãos dadas até o restaurante.

Por razões que os dois desconheciam, embora o restaurante estivesse bem movimentado naquela noite, eles não foram incomodados e assim puderam apreciar a carne de cordeiro favorita de Jack acompanhada por um surpreendente vinho marroquino, que deixou Clara encantada.

- Querido, você tinha razão, este restaurante é muito bom... só você mesmo para conseguir me fazer sorrir neste momento em que estou tão preocupada...

- Amor... para tudo existe uma solução... nosso filho logo estará conosco... não se preocupe... - ele disse beijando a mão de Clara. - Vamos fazer tudo certo, você vai melhorar e antes que perceba, estará grávida... prometo continuar  tentando fazer esse bebê todos os dias...

- Ah, querido... - Clara suspirou. - nunca pensei que algum dia minha vida seria assim, tão feliz, tão plena...

- É exatamente isso o que eu quero... minha felicidade é te ver feliz... Já decidiu o que quer de presente, além das bicicletas?

- Quero estar com você, sempre que puder... quero envelhecer ao seu lado...

- Isso não será possível... você sabe que sou muito mais velho e  um dia te deixarei sozinha no mundo...

- Querido, isso é imprevisível... já vi muita gente jovem morrer antes de seus pais...

- Amor... não fala isso... o natural e o certo é que eu morra antes, mesmo porque se acontecer alguma coisa com você, eu sei que morrerei junto... não conseguiria viver nem mais um dia...

- Querido, não quero falar mais sobre morte, estamos em Paris, felizes... e isso é tudo o que eu quero pensar agora... no quanto eu te amo e te desejo...

- Meu amor... estou muito feliz com você e embora eu saiba que  passaremos por coisas não exatamente agradáveis nos próximos dias, eu sei que vai valer a pena, porque estaremos juntos.

- Disso você pode ter certeza, Jack... terá que me aturar por muito tempo ainda... e eu continuarei assim, chata, morrendo de ciúmes de qualquer mulher que chegue perto de você...

- Eu sei... também não posso te criticar... cada vez que o Jagger chega perto de você, tenho vontade de socá-lo...

- Amor... ele é só um amigo... e nunca será nada mais do que isso... Acho que você tem me feito feliz demais para eu pensar em outro homem... - Clara riu.

- Menininha... você é maluquinha... mas eu te amo tanto que estou com vontade de mandar embrulhar a nossa sobremesa, para comermos lá no hotel...

- Então vamos, querido... - Clara sussurrou no ouvido de Jack. - Preciso de você agora...

Jack pediu que os doces marroquinos da sobremesa fossem embrulhados e eles voltaram para o hotel mergulhados no mais absoluto clima de lua de mel, tão concentrados um no outro que nem perceberam a movimentação de fotógrafos na porta ou o grupo de repórteres a espera deles no saguão. Enquanto a segurança do hotel era reforçada para garantir o sossego dos hóspedes, Clara e Jack subiam beijando-se no elevador e passariam a noite toda desfrutando do amor que sentiam.

Uma chuva fina batia contra as janelas da suite,  na manhã seguinte, quando os dois acordaram apressados, recolhendo as roupas e objetos que tinham espalhado pela suite e preparando-se para uma corrida até o aeroporto, pois tinham perdido a hora e estavam atrasados para o voo que sairia do aeroporto Charles de Gaulle às 10 da manhã.

- Vou tentar chegar, Menininha, mas não acho que dará tempo... talvez seja melhor ver qual o próximo horário...

- Tudo bem, amor... vou procurar no tablet... melhor ainda, vou ligar para a companhia aérea...

- Pede para fazer uma reserva no voo seguinte, porque não conseguiremos chegar a tempo... ah amor... me perdoa...

- Não foi culpa sua, querido... estava tão feliz ontem à noite que esqueci de programar o celular para tocar...  Pelo menos o Jean Paul já mandou o vestido...  vou ligar para o meu cabelereiro, para a Jen e para a Cindy também... Elas combinaram de ir comigo lá no salão de beleza do hotel para nos prepararmos.

- Ah amor... hoje é seu aniversário, deveria ser um dia especial...

- Não se preocupe, Jack... já está sendo um dia especial... estamos em Paris, juntos, não poderia estar mais feliz... - Clara disse sorrindo.

- Mas eu queria te mimar hoje o dia todo, o café da manhã perfeito com todos aqueles croissants de chocolate, trazido na cama, junto com o maior bouquet de rosas que eu pudesse encontrar...

- Amor... não se preocupa com isso... estamos juntos, estamos voltando para casa, teremos uma festa linda hoje à noite e muitos cafés da manhã perfeitos na cama... você é o melhor marido do mundo, querido...

- Ah, querida... eu te amo tanto... - Jack beijou Clara mais uma vez antes de descerem do carro, no estacionamento do aeroporto.

Alguns repórteres estavam no saguão e assim que os dois chegaram foram cercados, fotografados e precisaram da ajuda da segurança do aeroporto para chegarem à sala vip, de onde saíram para embarcar no voo das 11:30 da manhã.

Londres continuava chuvosa quando chegaram pouco mais de uma hora depois e Khaled os levou em sua Mercedes preta de volta para casa. Jack tinha muitos compromissos naquele dia e apenas teve tempo de deixar Clara e a bagagem em casa, para pegar seu carro e seguir até o escritório de Michael Peters, onde aconteceria uma reunião.

Clara, por sua vez, guardou as roupas da bagagem, apresentou-se para cada um de  seus novos empregados, trocou-se de roupa e saiu a pé para ir encontrar-se com Jennifer e Cindy no salão de beleza do hotel Four Seasons Over the Park.

- Clara, querida! Parabéns! - sorriu Jennifer abrindo os braços ao ver a amiga chegando ao saguão do hotel onde esperava por ela.

- Obrigada Jen! Desculpe pelo atraso, perdemos a hora e estamos correndo atrás desde então... o Jack, pobrezinho, só comeu o lanchinho do avião até agora e já está na reunião com o Peters...

- E você? Está com fome?

- Não, querida, hoje não acordei muito disposta... Eu e o Jack jantamos em um restaurante marroquino ontem e acho que meu corpo não se deu muito bem com aquela comida forte e temperada...

- Ai, Clara... você deveria comer alguma coisa assim mesmo... você precisa se cuidar... não pode perder mais peso...

- Eu sei, querida... ninguém está mais preocupada com esta situação do que eu, mas hoje... estou muito enjoada... muito nervosa... queria que tudo fosse diferente...

- Como diferente?

- Tivemos alguns probleminhas com fãs e com a imprensa em Paris e fiquei nervosa... para dizer a verdade, já estava nervosa desde ontem, quando o Jean Paul precisou apertar todo o meu vestido  para a festa de hoje porque ele estava largo...

- Você me disse no telefone, mas não acho que seja uma razão para preocupar-se, você só precisa procurar um bom médico.

- Não sei... já trato deste problema há muito tempo e nunca melhoro de verdade... estou cansada, sabe...

- Querida, tenho certeza de que irá ficar bem... você falou com a Cindy, não?

- Falei... ela me falou sobre a reunião...

- Pois é... hoje as coisas estão um pouco complicadas demais para o meu gosto...

- Então vamos descomplicar... que tal sairmos para tomarmos um capuccino, enquanto ela não chega?

- Acho que podemos fazer isso... quem sabe assim eu relaxo um pouco mais...

- Ótimo! Não tem muitos problemas que uma xícara de capuccino fumegante não resolvam, em um dia frio como este... - Jennifer riu. - Bem... talvez não resolva, mas nos faz um bem...

- Verdade, querida... - Clara sorriu.

As duas caminharam até o café de uma livraria próxima do hotel, onde pediram capuccinos e muffins de chocolate; apreciando de verdade o fato do aquecimento da loja estar ligado, depois de sentirem muito frio na rua.

- Já estou percebendo que o inverno por aqui não vai ser fácil para mim...

- É a primeira vez que vem para cá nesta época do ano?

- Sim... já estive em Londres inúmeras vezes, mas esta é a primeira vez em que estou aqui nesta época... acho que vou congelar, não?

- Ah, querida... vai... mas não agora... entre janeiro e fevereiro, a temperatura por aqui fica ainda pior... mas acho que até lá, você já se acostumou...

- Espero que sim... Não era bom mandar uma mensagem para a Cindy? Acho que ela vai nos procurar lá no hotel quando chegar...

- Vou mandar, querida... - Jennifer disse digitando rapidamente no seu celular uma mensagem para a amiga. - Tenho uma notícia não muito boa para te dar...

- O que houve?

- O Mick Jagger já voltou de Barbados e irá hoje à noite na festa... sozinho...

- Como sozinho? A Gianna ainda não voltou de Nova York?

- Ainda não... e não sei se volta tão cedo... conseguiu um contrato ótimo com a  Lancome, pelo que ela me disse ontem, ele a convidou para passar uns dias em Nice, mas ela não está disposta a voltar para a Europa tão cedo...

- Bem, quer saber, problema dele... quero só uma coisa hoje à noite, aproveitar para estar com o Jack, porque amanhã ele faz a cirurgia...

- Então o Mick não vai mais te incomodar?

- Claro que vai, mas depois de passar tanto tempo sozinha com o Jack, minha certeza de que ele é o homem que eu quero aumentou ainda mais e estamos mais unidos do que nunca.

- E ele?

- O que tem?

- Você acha que ele vai conseguir manter a Kurtiss longe dele?

- Tenho certeza... ele tem sido maravilhoso comigo e já me disse que quer ela longe...

- Espero que você esteja certa, porque ontem ela disse para quem quisesse ouvir que estava com saudades do Jack e que ficará muito feliz de estar perto dele novamente na viagem.

- E o Peters? Não fala nada sobre isso?

- Ele tinha saído da sala para acertar uns detalhes com a produção... essa conversa foi no palco da Roundhouse onde eles foram ver os detalhes do cenário da apresentação de hoje...

- Apresentação? O Jack não me disse nada...

- Ele não sabe, querida... - sorriu Jennifer. - O David decidiu ontem fazer um pocket show acústico hoje com 3 ou 4 músicas para os convidados da festa de lançamento. Eles irão passar o som hoje mesmo, depois da reunião com o Peters.

- Bem, acho que eles então não têm intenção de me chamar para cantar. Não me disseram nada...

- Acho que não...

- Ah... o velho truque de reunir-se no café da livraria... - sorriu Cindy ao chegar na mesa das amigas. - Então... como estão as coisas?

- Muito bem, querida... - Clara respondeu abraçando a amiga. - Quer um capuccino?

- Vou lá pedir, querida... Então... é seu aniversário, não? Parabéns!

- Obrigada, Cindy! A Jen estava me contando sobre a apresentação que nossos maridos farão hoje à noite...

- Pois é, querida... acho que daqui a pouco eles te ligam... o Dave disse que quer que você cante também...

- Isso vai ser muito difícil para mim... mas acho que devo tentar, não? Como irei enfrentar a multidão na O2 daqui alguns dias se não consigo cantar em uma festa?

- Tem razão querida... e o seu vestido?

- Agora está lindo... o Jean Paul acertou onde estava largo e mandou entregar no hotel ontem à noite. Estou tão nervosa com essa minha perda de peso... o Jack não disse nada, até me apoiou quando soube, mas sei que ele também está preocupado...

- Calma, querida... você vai fazer um tratamento, não vai?

- Vou...

- Então... não tem com o que se preocupar... Um bom médico resolverá seu problema... - Cindy sorriu. - Então... qual o horário que vocês marcaram com o Pablo afinal?

- Três e meia... ainda temos 20 minutos...

- A Jen te falou sobre a Kurtiss?

- Já... acho que não vou conseguir me livrar dela tão cedo, não?

- Pense positivo, Clara... se ela quiser transar com ele, terá que ser hoje porque a partir de amanhã, ele não poderá fazer mais nada por duas semanas... - riu Cindy.

- Eu sei... mas só de pensar que aquela pistoleira estará por perto nos próximos dias, fico muito nervosa. E olha que tenho tentado não ter ciúmes do Jack...

- Mas essa mulher é mesmo irritantemente descarada, querida... compreendemos completamente sua situação... - Jennifer disse tentando acalmar a amiga. - Você tem toda a razão para ter ciúmes.

- Tenho... - Clara respondeu interrompida pelo toque de seu celular. - É o Jack... alô... oi querido... sim... às 5? Ok... tentarei chegar, vou agora para o salão de beleza e depois nos vemos, então... Beijo, meu amor... te amo... tchau...

- Então você vai cantar, amiga?

- Vou... o Jack acabou de me avisar..

- Como se sente agora? - perguntou Cindy.

- Acho que bem... tenho que enfrentar isso de cabeça erguida, não tenho?

- Tem sim, querida... - Jennifer sorriu. - Então, vamos para o salão de beleza?

- Vamos amigas... já está na hora...

Clara e as amigas voltaram para o hotel e foram até o salão de beleza onde foram recebidas com festa por Pablo e sua equipe. Além dos cabelos, pés e mãos, Clara pediu uma massagem, uma tentativa de relaxar um pouco antes de enfrentar a noite que prometia ser uma das mais importantes de sua vida.

Ela e suas amigas deixaram o hotel apenas alguns minutos antes das cinco horas, despediram-se na porta e Clara pegou um taxi que a levaria até a Roundhouse, poucos quilometros distante dali. Durante a massagem tinha se decidido viver o momento e não pensar muito e, agora, para ela subir ao palco na frente de todos aqueles convidados que estariam lá naquela noite, ela só precisava de suas roupas e maquiagem.

Continua