22 de jun de 2012

Rockstar - Capítulo LXXXVIII


O sono que ambos estavam sentindo veio bem a calhar, ele os deixava prontos para um voo particular, de nove horas de duração, que os levaria de volta à Londres. Assim, tão logo o avião decolou, Clara levantou-se de seu assento, pegou travesseiros e cobertores no compartimento de bagagem, ajeitou sua poltrona e a de Jack na posição mais confortável possível  e programou o celular para despertá-los dali 8 horas, quando estivessem quase chegando em Londres.

- Obrigado, Menininha... acho que não tenho mais idade para passar a noite toda em claro sem me transformar em pó no dia seguinte... - ele sorriu e beijou as mãos de Clara assim que ela entregou-lhe o travesseiro.

- Eu também estou muito cansada, querido... - Clara sorriu. - Mas ainda sinto como se a noite passada tivesse sido um sonho... nem imaginava que poderia existir um lugar como aquele...

- Eu sei, meu amor... também me senti assim quando estive lá com o Dave, das outras vezes... para dizer a verdade, ontem foi a primeira vez que fui até lá sem ele...

- Você nunca foi lá sozinho, ou com sua esposa... ou uma namorada?

- Não... estive lá com o Dave algumas vezes e agora voltei com você... nem o Don, nem o Mike ficaram sabendo sobre aquele lugar... era nosso segredo de bluesmen, meu e do Dave...

- Obrigada, meu amor por compartilhá-lo comigo... você sempre me surpreende...

- Como eu te disse ontem, você é minha melhor amiga, quero dividir tudo com você... Então vamos dormir um pouco?

- Vamos, amor...

Clara ajeitou-se melhor na poltrona do avião e logo pegou no sono e mesmo com a turbulência que chacoalhava pequeno avião, não acordou. Jack também continuava dormindo tranquilamente, com seus cachos dourados espalhados sobre o travesseiro.

Ela acordou com um sorriso no rosto, espreguiçou-se gostosamente e alguns minutos antes do alarme do celular soar, desativou-o, levantando-se, guardando travesseiro e cobertor no compartimento de bagagens  e indo até o banheiro arrumar-se para a chegada em Londres. Penteou e prendeu os cabelos, escovou os dentes, ajeitou suas roupas e quando voltou à sua poltrona, encontrou Jack já acordado, olhando para ela.

- Acordou, amor?

- Oi, querida... não ouvi o alarme tocar... já estamos chegando? - ele disse esfregando os olhos.

- Eu desliguei o alarme para te deixar descansar um pouco mais... você não quer se ajeitar um pouquinho? Estamos quase chegando...

Jack levantou-se da poltrona, dobrou seu cobertor e guardou-o com o travesseiro no compartimento de bagagens.

- Só se você me ajudar... - Jack sorriu e estendeu a mão para Clara que acompanhou-o até o banheiro do avião. - Acho que não vou fazer a barba...

- Estamos indo para casa, querido... - Clara sorriu, enquanto penteava e prendia os cabelos longos de Jack. - Pronto... já está lindinho de novo...

- Sou um velho enrugado... não sei o que você vê em mim...

- Você é o homem que eu amo... - Clara disse agarrando-o e beijando-o. - Vem, vamos para as nossas poltronas, já está quase na hora de pousar...

Os dois sentaram-se, prenderam o cinto de segurança e em poucos minutos, o piloto anunciava que estariam pousando. Eram 3 da madrugada em Londres e a temperatura era de apenas 7 graus.

Tão logo o agente de imigração saiu do avião, depois de carimbar os passaportes de ambos, Clara e Jack  seguiram para o carro de Khaled, estacionado no hangar, próximo do avião e assim que toda a bagagem estava embarcada no carro, eles estavam a caminho de sua casa, em Kensington. 

O carro seguia rápido pelo trânsito livre, eram poucos os que desafiavam a madrugada gelada e úmida da cidade, enquanto os dois permaneciam quietos, abraçados no banco detrás da Mercedes, ainda meio sonolentos, mas reconhecendo a paisagem que tinham deixado para trás há poucos dias.

- Precisamos de mais férias, Menininha... - sorriu Jack. - Londres já está muito gelada...

- Teremos mais férias, querido... mas os próximos dias serão de muito trabalho... antes tinha tanto medo da estreia e agora, estou até começando a ficar ansiosa por ela.

- Eu também estou ansioso. Quero que tudo passe rápido para que a gente fique livre novamente. Tem tantos lugares onde eu quero te levar ainda... 

- Amor, vamos almoçar hoje lá no David, não?

- Isso... vamos para Heathcliff Hall às onze da manhã, temos que saber como estão as coisas, o que eles combinaram com o Peters... a festa de lançamento é depois de amanhã... aliás, seu aniversário também é, não Menininha?

- É sim querido... - Clara sorriu.

- Você ainda não me disse o que quer ganhar de presente...

- Já ganhei todos os presentes que poderia querer... eu tenho você, aqui comigo...

- Mas eu faço questão de te dar um presente assim mesmo... Ah amor... eu quero te ver feliz...

- Mas estou muito feliz. Sério! Nunca fui tão feliz em toda a minha vida... me sinto em casa quando estou com você...

- Eu quero te dar o mundo, meu amor... - Jack disse beijando-a.

- Olha amor, estamos chegando... - Clara disse ao perceber que o carro tinha entrado na rua onde  moravam. - Estou morrendo de fome, será que tem alguma coisa para comermos?

- O Peters me disse que os empregados deixariam tudo arrumado para nós... ele já contratou toda a equipe...

- Mesmo? Quantos empregados? Você sabe?

- Não tenho muita certeza, mas parece que tem uma cozinheira, duas arrumadeiras, um jardineiro e um mordomo... vamos ver como eles funcionam e se for preciso, contrataremos mais gente.

- Acho que não será preciso... já é gente demais andando pela nossa casa, não?

- Você vai se acostumar, querida... com o tempo você nem percebe mais a presença deles, como em Heathcliff Hall, os empregados de lá te incomodam?

- Não... mas não moramos lá, amor... eu sei que é bobagem minha, mas me sinto tão melhor quando nós dois estamos sozinhos...

- Eu sei, querida... mas a casa é enorme e teremos sempre muitos compromissos, precisamos de ajuda...

- Claro, meu amor... vou tentar me acostumar com a ideia... - ela sorriu abraçando-o.

O carro parou no páteo e os dois desceram e ajudaram  Khaled a levar a  bagagem para dentro. A pedido de Jack, os empregados não estariam por lá quando chegassem, queria conversar com eles somente depois que estivessem instalados novamente em casa, coisa que não aconteceria nos próximos dias, em que estariam em Heathcliff Hall.

Clara colocou as malas de Kate dentro do closet do quarto de hóspedes e deixou suas malas em sua suite. Naquele momento estava com muita fome e decidiu desfazer as malas só depois de comer alguma coisa.

Jack foi direto para a cozinha onde  preparou sua especialidade: purê com salsichas, que os  dois comeram com gosto, acompanhado de uma boa xícara de chá.

- Então, Menininha e o vestido para a festa?

- Que vestido?

- O que você vai usar na festa de lançamento? Já decidiu?

- Nem pensei sobre isso ainda, querido... mas acho que já tenho alguma coisa apropriada... Não sou do tipo que precisa de um vestido novo cada vez que vai sair de casa...

- Eu sei que não é, Menininha... mas  não seria melhor irmos até o Jean Paul?

- Amor... mas acabamos de chegar...

- Você me prometeu uma eterna lua de mel... acho que podemos ficar em Paris até o dia da festa... o que você acha?

- Você sabe que eu adoro Paris, não?

- Então... vou ligar para o George V, reservar nossa suíte e o voo... vamos de jato particular?

- Não... prefiro voo de carreira, amor... é melhor...

- Ok... Você marca com o Jean Paul e amanhã vamos ao atelier buscar um vestido novo...

- Meu amor... eu te amo muito, sabia?

- Sei sim... mas eu te amo mais... - disse Jack puxando-a pela mão e beijando-a. - Vou arrumar a cozinha, você não quer ir deitar um pouquinho?

- Quero, mas antes vou te ajudar aqui em baixo e também preciso desfazer as malas e preparar a bagagem que levaremos para Paris...

- Não precisa levar muita roupa, tenho a impressão de que estaremos muito mais nus do que vestidos por lá...

-  Eu tenho certeza disso... - Clara sorriu.

Os dois lavaram os pratos e arrumaram a cozinha e o dia ainda não tinha amanhecido quando terminaram de esvaziar as malas no closet e arrumaram uma mala com poucas roupas para levar a Paris.

- Querido, esta viagem não vai deixar o pessoal da banda irritado?

- Não querida, somos donos da nossa própria vida... e depois quero aproveitar para estar com você antes da cirurgia... Vai ser uma tortura não poder ter você por duas semanas inteiras...

- Meu amor, vem... vamos tomar um banho e deitar um pouco, ainda é madrugada e precisamos nos ajustar ao horário daqui de novo...

- Hum... estava com saudades da nossa banheira...

- Eu também, meu amor...

Os dois tomaram banho juntos na banheira e foram direto para a cama, onde se entregaram ao amor. Depois pegaram no sono e dormiram até o final da manhã, quando acordaram, vestiram-se, pegaram as malas que levariam para Paris e chamaram Khaled para levá-los até Heathcliff Hall.

- Já está esfriando, Menininha... você está bem agasalhada?

- Estou... adoro esse meu casaco de couro, ele é bem quentinho...

- Você está linda hoje, meu amor...

- Ah, querido... adorei a ideia de irmos para Paris... vai ser bom demais passar os próximos dias lá...

- Quero fazer minha Menininha feliz... - Jack sorriu e abraçou-a. - E ainda quero te dar um presente de aniversário, o que você quer ganhar?

- Não sei, amor... já tenho tudo o que eu quero, aqui, nos meus braços...

- Mas eu quero te dar um presente, amor... quer um carro?

- Não querido... ainda preciso fazer aulas de auto escola aqui. Não sei dirigir esses carros com a direção do lado errado... Já sei! Tive uma ideia...

- O que você vai querer então?

- Um par de bicicletas... uma para mim, outra para você... assim podermos passear pela cidade juntos... que tal?

- Ótima ideia! Mas seria um presente para nós dois... eu quero dar uma coisa para você...

- Ah, meu amor... está bem... nós vamos para Paris e eu escolho alguma coisa linda por lá... pronto!

- Perfeito! Você pode escolher o que quiser, Menininha... Eu vou te dar o mundo todo mesmo...

- Não quero o mundo... quero você... - Clara sorriu e beijou-o, enquanto o carro entrava na estrada particular que levava aos portões de Heathcliff Hall. - Engraçado... já estava com saudades deste lugar...

- Eu também... você sabe que eu amo o Dave, não?

- Sei sim... eu também o amo... tudo o que ele fez por aquele lugar, lá na Bahia. Agora eu estou admirando ele ainda mais... Aliás, meu amor... ainda é tão difícil ver vocês como pessoas comuns...

- Mas eu sou uma pessoa comum, quando você me conhecer direito, você vai ver que sou muito pior do que muita gente. Eu não presto, querida...

- Você é um homem maravilhoso, querido... eu sei que o seu passado ainda te machuca muito, mas eu sei também o quanto você é bom e o quanto você me faz bem. Queria muito ser capaz de te mostrar o quanto você é adorável...

- Não sou, não... e você vai descobrir... então olha o Dave ali... vamos descer...

David e Cindy esperavam pelos dois na porta e assim que o carro estacionou, ambos caminharam até ele, sorrindo.

- Velhão! Princesa! Bem vindos! Estávamos com saudades de vocês! - David disse beijando e abraçando os dois. - Então, que tal as férias?

- Foram maravilhosas, David! Cindy, seu marido merece um beijo... - Clara disse abraçando David novamente. - Aquele lugar é maravilhoso graças a você, querido!

- Eu amo seu país, Princesa... eu amo muito aquele lugar e farei tudo o que puder para preservá-lo...

- Poxa, brother... minha mulher... solta... - Jack disse puxando Clara pela mão.

Os quatro entraram na casa rindo muito dos ciúmes de Jack. Na sala de visitas, encontraram Jennifer e Mike, que também os cumprimentaram muito felizes em revê-los.

- Antes de qualquer coisa, precisamos dizer a vocês que estaremos aqui por poucas horas, decidi levar minha mulher à Paris no final do dia de hoje... - Jack disse abraçando Clara. - Ela precisa de um vestido novo para a festa de lançamento.

- A Princesa merece... aliás, merece muito mais do que você pode dar a ela, Velhão... Vocês já sabem como anda a vendagem do disco?

- Não,  estivemos um tanto fora do mundo nos últimos dias, queríamos aproveitar ao máximo nossas férias e nos isolamos um pouco... - sorriu Clara.

- Bem, querida... já estamos no Guiness como o disco mais vendido no dia do lançamento e também devemos receber o disco de diamante, pela vendagem de 4 milhões e meio de cópias só no dia do lançamento, sem contar os downloads diretos, pirataria e pré vendas que ainda não foram computados. - sorriu David. - Já pedimos até uma reunião com o Peters porque achamos que você merece mais dinheiro por sua participação, querida.

- Eu não quero mais dinheiro, David... - Clara respondeu rapidamente. - Não preciso de mais dinheiro...

- Querida, você merece... o David trouxe essa ideia e eu concordei... - disse Mike. - Vamos fazer uma reunião com o Peters na próxima semana. Você concorda, Jack?

- Totalmente... minha mulher merece... sem ela, nada disso estaria acontecendo...

- Até você, Jack? Será que só eu sou contra esta loucura? O disco é de vocês, se ele está vendendo ou não, foram vocês três que o fizeram, queridos... não tenho nada com isso...

- Você é a única razão para a existência desse disco, Clara... você merece... - Jack disse abraçando-a.

- Eles têm razão, Clara... - sorriu Jennifer. - Até na mídia as pessoas reconheceram isso... você já leu as críticas?

- Não...

- Muitos críticos importantes estão dizendo que os fãs da Crossroads devem agradecer você pela volta da banda e pela nova coleção de músicas... Você devia ir dar uma olhada na internet... Sua popularidade está crescendo cada vez mais, desde o lançamento do disco. - Jennifer respondeu.

- Não adianta me olhar assim, Menininha... desta vez não tive nada com isso, são seus amigos que estão falando... - Jack sorriu e beijou a mão de Clara. - Eu apenas estou aqui concordando com eles, você merece receber muito mais dinheiro por esse disco...

- Bem, isso será decidido em uma reunião na próxima semana... - sorriu David. - E já que vocês vão partir hoje para Paris, é melhor irmos almoçar cedo. Tenho muita coisa para mostrar para o Velhão lá no estúdio... Ainda vai demorar muito o almoço, Cindy?

- Não, Dave... está tudo pronto... vamos todos para a sala de vidro?

Clara não quis mais falar no assunto, mas a ideia de receber ainda mais dinheiro pelo disco a assustava. O almoço seguiu alegre, com os amigos atualizando-os em todos os assuntos, inclusive sobre a lista de convidados para a festa e os planos para a viagem de promoção para Nova York que fariam dali alguns dias.

- Ah... vocês não sabem da maior... - disse Michael Silver repentinamente com um tom que lembrou Clara algumas das mulheres que moravam ao lado de sua casa, durante sua infância,  que sua mãe apelidou de "central da CNN". - O Peters e a Ann Kurtiss agora estão vivendo juntos...

Em silêncio, Clara olhou fundo nos olhos de Jack, que  desviou o olhar, deixando-a ainda mais preocupada.

- Deve ser carma mesmo, essa mulher sempre rondando... - Clara sorriu e deu um suspiro profundo.

- Bom, se ela está com o Peters, acho que não vai mais me incomodar... - Jack respondeu, com um olhar que parecia, sem muito sucesso, tentar conquistar a simpatia  de Clara.

- Princesa, não se preocupe, vamos cuidar para que o Velhão não caia na mão dela novamente... estaremos de olho...

- Obrigada Dave... - Clara sorriu um pouco sem graça. - Mas o Jack sabe bem como me sinto sobre essa mulher. Acho que ele saberá ficar longe dela, não é amor?

- Claro, meu amor...

- Então, senhores, prontos para o estúdio? - sorriu David.

- Vamos porque hoje não teremos muito tempo... - Jack respondeu.

- Princesa, precisamos de você também, mas como sei que vocês querem conversar sobre vestidos e sapatos, vamos descer e te chamaremos só quando chegarmos à sua música, ok?

- Ok, David... estarei esperando...

Jack levantou-se da mesa, deu um beijo em Clara e seguiu seus amigos pelo corredor que levava ao estúdio, no subsolo.  Assim que os três desapareceram da vista, Clara, Jennifer e Cindy levantaram-se e foram até a sala de estar. Uma chuva fina batia leve nas paredes da sala de vidro.

- Estou muito nervosa, amigas... eu contei a vocês que peguei o Jack falando com a Ann por telefone há alguns dias?

- Ah querida... sinto muito... - disse Jennifer  - O David não disse para não te irritar ainda mais, mas o fato é que ela vai conosco para Nova York e provavelmente seguirá vocês por toda a turnê...

- O que? Ah... que droga! Ao menos, meu marido estará recém operado e não poderá fazer sexo por pelo menos duas semanas.

- Duas semanas? - Cindy perguntou espantada. - Não era uma semana só?

- O cirurgião explicou melhor para ele, um pouco antes de viajarmos, e ele só me contou há poucos dias... disse que não queria me preocupar, mas acabou me deixando ainda mais nervosa...

- Ah, amiga... fica tranquila... hoje em dia essas cirurgias são fáceis... - sorriu Jennifer. - Mudando um pouco de assunto, você já ligou para o Jean Paul?

- Ainda não... fizemos as reservas do hotel, das passagens, mas acabei esquecendo de marcar com ele...

- Então deixa que eu ligo... enquanto isso, vamos lá no meu closet que eu vou te mostrar o vestido que ele fez para eu usar na festa. Sabe que ele me disse que tinha também um vestido para você, mas não quis me mostrar, aquele bandido...

- Eu tinha pensado em usar aquele vestido de veludo que ele me deu...

- Ah... guarda aquele para o Grammy, querida... - sorriu Cindy. - Eu sei que você não leu nada ainda, mas a crítica está enlouquecida... nunca vi tantos elogios para um disco...

- Eu estou feliz por eles, mas não consigo me sentir bem com essa ideia de receber mais dinheiro por esse disco...

- Mas você não pode negar que é a maior responsável por tudo isso estar acontecendo... sem você, não existiria disco nenhum... - Jennifer respondeu. - Mais do que fazer os três voltarem a trabalhar juntos, você foi a inspiração para todas aquelas músicas lindas... Os rapazes têm razão, você merece ganhar muito mais dinheiro do que já ganhou...

- Preciso pensar... não gosto desta situação, sempre tenho a impressão de que é algum tipo de armação do Jack para me proteger e tirar o dinheiro dos herdeiros legítimos dele para dar para mim...

- Mas não é, Clara... O que o David disse é verdade, a ideia partiu dele e do Mike, o Jack nem sabia nada sobre isso... - disse Cindy, enquanto Jennifer ligava para Jean Paul marcando uma visita de Clara a seu atelier, na tarde do dia seguinte.

- Amiga, ele estará te esperando amanhã, às três da tarde. Me disse que tem exatamente o que você quer, um vestido de estrela de cinema que ele fez para você...

- Que bom!

- Falando em estrela de cinema, eu não conhecia esse coração lindo que você está usando no pescoço hoje... é novo?

- Ah Jen... é novo... ganhei do Jack, na véspera do dia em que fizemos dois meses de casamento... ele me fez uma surpresa tão linda... na praia, debaixo de uma lua incrível... foi inesquecível...

- Hum... acho que vou querer conhecer esse lugar que o Dave tem lá no Brasil... - sorriu Jennifer.

- Ah... tenho umas fotos no meu tablet, vou buscar... você já esteve lá, Cindy?

- Só uma vez... e você tem razão... é um lugar lindo, perfeito para uma lua de mel...

- Seria bom se pudessemos ir para lá... que lindo! O Mike anda meio estranho comigo, meio distante, deve ser pela proximidade da turnê, mas não estou gostando nada do comportamento dele.

- Não liga, Jen... o Dave tem passado as últimas noites no estúdio... há semanas ele só entra na nossa suite para tomar banho...

- O Jack ainda não está assim... quero dizer... nós passamos uma noite inteira falando sobre música com alguns amigos dele lá em Chicago e foi muito emocionante para mim, mas ele esteve o tempo todo do meu lado, para dizer a verdade, ele se revelou como o melhor companheiro de viagem que eu já tive...

- Dá para perceber que vocês voltaram de lá super bem, querida... você está até mais magra... - sorriu Cindy.

- Jura que dá para perceber que estou mais magra? - Clara respondeu preocupada. - Perdi três quilos... mas não queria perder... meu organismo está cada vez mais desregulado, comi até demais, mesmo assim, perco peso...

- Ah... não reclama disso, querida... você tem é muita sorte, se eu quiser perder 1 quilo que seja preciso passar pelo menos uma semana só bebendo água...- sorriu Cindy, fingindo-se indignada.

- Não estou reclamando por isso... é que eu quero engravidar e o médico já me disse que preciso melhorar muito da minha anemia para isso acontecer e sempre que eu perco peso assim é porque minha anemia está piorando, entendeu?

- Calma, Clara... tenho certeza que vai dar tudo certo... - sorriu Cindy.

O celular de Clara tocou avisando a chegada de uma mensagem de texto. - Preciso descer, eles estão me chamando...

- Vamos com você... - disse Cindy. - Vocês me ajudam a pegar umas garrafas de vinho na adega para levar lá embaixo?

- Sim, claro!  Vamos lá vê-los... - sorriu Clara. - É impressionante, mas quanto mais eu fico com o Jack, mais eu quero ficar...

- Nós sabemos, querida... - sorriu Jennifer. - Por sinal, esqueci de comentar, mas parece que o casamento do Jagger com a Gianna não anda nada bem...

- Sério? É uma pena, eu gosto muito dela... - Clara respondeu.

- Ela me ligou de Nova York ontem, disse que eles andavam brigando muito e por isso ela tinha decidido dar um tempo para ela mesma em Nova York.

- Espero que eles fiquem bem... - Clara suspirou. - Vocês sabem que tenho que encontrá-lo em Paris para uma reunião no próximo domingo...

- Vou passar o final de semana em casa, querida... - sorriu Jennifer. - Podíamos sair para umas compras...

- Não posso... volto para casa assim que a reunião terminar, o Jack vai ser operado no dia anterior e  não quero deixá-lo sozinho...

As três passaram na adega, pegaram taças e garrafas de vinho e levaram até o estúdio. Assim que a porta se abriu, Clara caminhou até Jack e abraçou-o.

- Vamos cantar, Princesa? - David disse sorrindo, enquanto trocava sua guitarra por uma acústica. - Mas antes, quero vinho, Cindy...

- Já vou até aí, querido.. - sorriu Cindy.

A versão de "The Light" executada pela banda era mais lenta e melódica. E a interpretação de Jack e Clara ficava mais e mais perfeita a cada vez que cantavam.

- Princesa! O que foi isso? - David perguntou emocionado. - Você voltou ainda melhor...

- Obrigada, Dave... - Clara respondeu secando as lágrimas. - A culpa é de vocês,  dessa música linda que vocês tocam... e deste homem maravilhoso que está aqui, do meu lado...

Jack agarrou-a e beijou-a e logo o ensaio estava encerrado com todos subindo de volta à sala de vidro, onde continuaram conversando e bebendo vinho, em um clima de tranquilidade que não conseguia calar a ansiedade que todos ali sentiam agora.

Todos agora esperavam pela chegada da estreia, quando encontrariam seu público na estrada, mais de trinta anos depois da banda Crossroads anunciar oficialmente seu fim.

Continua

11 de jun de 2012

Rockstar - Capítulo LXXXVII


A luz pálida de um sol gelado atingiu logo cedo as paredes de vidro da suite de Clara e Jack, iluminando o novo dia. E mesmo com o frio, os dois levantaram cedo, pediram o café da manhã para o serviço de quarto e logo foram para a casa de Kate, onde passariam o dia todo embalando objetos, arrumando malas e principalmente, revezando-se nos cuidados com o pequeno Jack.

Clara não falou mais nada sobre o telefonema de Ann, na noite passada, mas cada vez que ela ouvia um celular tocando, ficava claro que ela ainda não tinha digerido muito bem a ideia de que a ex de Jack havia ligado para ele novamente.

Os quatro almoçaram a comida chinesa que pediram por telefone e despediram-se no final da tarde, quando Jack e Clara voltaram para o hotel levando duas malas de Kate, que seguiriam com eles para Londres, no dia seguinte.

Cansados, mas dispostos a aproveitar bem o último dia de suas férias, eles foram juntos para a enorme banheira de mármore da suíte onde tomaram um longo banho, seguido de massagens com óleos essenciais, retomando o clima de lua de mel parcialmente disperso pelas tarefas da mudança de Kate.

Vestiram seus roupões, arrumaram as malas para embarcar no dia seguinte e depois descansaram na suite pelo restante do dia, interrompidos algumas vezes por telefonemas dos amigos e de Michael Peters, avisando que tinha enviado por e-mail uma lista com todos os próximos compromissos previstos na agenda para os próximos dias.

Porém, nenhum dos dois tinha a menor curiosidade de saber sobre estes compromissos; para ambos, enquanto não tivessem todos os detalhes sobre o que precisavam fazer, estariam livres para fazer o que quisessem, e as férias ainda não tinham terminado.

Jack estava ainda mais romântico naquele dia, fazendo de tudo para agradá-la, uma atitude que provavelmente seria vista por suas amigas como a maior  prova de que sentia-se culpado por ter traído sua confiança na noite anterior, mas ela preferia entender seus gestos como expressão daquilo que ela também sentia, a tristeza pelo final das férias mais maravilhosas de sua vida.

- Quero uma noite perfeita hoje, querida... vamos sair para jantar, Menininha? - Jack disse interrompendo uma conversa de Clara com Jonas no celular. - Depois podemos dançar um pouco...

- Dançar? - Clara sorriu. - Adoro! Onde nós vamos?

- Não se preocupe, você vai ver... - Jack riu. - Vem, quero cuidar de você e te vestir...

Já no caminho, Jack contou tudo sobre o restaurante, o mais caro de Chicago e certamente na lista dos mais caros do país, aquele era um lugar badalado, frequentado apenas pelos muito ricos, que não se importavam em pagar uma pequena fortuna por uma refeição, desde que estivessem cercados pela beleza e pelo luxo.

Como o Cinq, em Paris, aquele era um lugar para ver e ser visto, com obras de arte contemporânea penduradas nas paredes, um visual moderno e clean, onde até pratos e copos tinham formatos inusitados e eram frutos da criação de designers;  o ambiente do restaurante era quase tão importante quanto o sabor de suas iguarias. E como todo o ambiente frequentado por ricos e famosos, habitualmente concentrava alguns fotógrafos em sua porta, que se agitaram muito assim que Jack e Clara deixaram o carro nas mãos de um manobrista.

- Fotógrafos... de novo... - Clara disse agarrando-se a Jack e caminhando rapidamente tentando sair do alcance deles.

- Ah, querida... infelizmente não há muito o que possamos fazer sobre isso... mas lá dentro não teremos mais problemas...

- Não estou reclamando, querido... eu entendo perfeitamente...

- Apesar dos fotógrafos na porta, este tipo de restaurante é o melhor de todos para frequentarmos... as pessoas aqui, nem nos olham duas vezes, estão esforçando-se para provar que pertencem ao ambiente e acham que perturbar famosos não é algo de bom gosto a se fazer. Observa, querida... eles irão nos olhar uma ou duas vezes e estaremos em paz pelo resto da noite...

- Que bom... este lugar é lindo... - ela disse no ouvido de Jack, enquanto os dois seguiam o maitre até sua mesa.

Com o menu em mãos, Jack pediu King Crab, um dos principais pratos do restaurante, para ambos e tranquilamente, eles puderam apreciar sua refeição bebendo champagne e relaxando enquanto conversavam.

- Querido... onde é a pista de dança? - Clara perguntou sorrindo.

 - Este lugar não tem pista de dança...

- Não? Mas você disse que iríamos dançar hoje...

- Disse e vamos... - Jack riu mantendo o mistério. - Vamos dançar depois... se bem que seria muito engraçado se nos levantássemos aqui, no meio das mesas e dançássemos...

- Tem razão, querido... - Clara sorriu. - Chocaríamos toda essa gente que está aqui, fingindo-se de bem comportada... Mas acho que eles chamariam a polícia e aí estaríamos encrencados, amor...

- Verdade... imagina amanhã as manchetes: Casal de roqueiros drogados perturbam a paz em restaurante de luxo. O Peters teria um enfarte...

- Queria que fosse sempre assim...

- Não entendi...

- Nosso relacionamento... adoro conversar com você...

- Mas e as outras coisas que fazemos? Você não gosta?

- Claro que gosto... o que eu quero dizer é que eu adoro a sua companhia, esta viagem que fizemos foi tão perfeita... nunca imaginei que seria assim...

- Nem eu, Menininha... Estou apaixonado pela minha melhor amiga... - Jack disse pegando a mão de Clara e beijando-a.

Depois da sobremesa, igualmente sofisticada e saborosa, Jack pediu e pagou a conta e os dois já estavam seguindo pelo corredor que levava até a porta externa do restaurante quando foram interrompidos por um segurança da casa.

- Desculpe senhor Noble, mas existe uma grande concentração de fotógrafos na porta principal do restaurante, já chamamos a polícia para controlar o tumulto, mas para sua segurança, será melhor que saiam pela porta dos fundos do estabelecimento...

- Ótimo! - Jack sorriu. - Não nos importamos... só precisamos que o nosso carro esteja lá...

- Seu ticket de estacionamento, por gentileza...

Jack entregou o ticket e assim que tiveram um ok da segurança, atravessaram a cozinha e a área administrativa do restaurante, entraram no carro e partiram.

- O GPS continua desligado... - Clara sorriu ao ver o marido atravessando a cidade, naquela noite de segunda-feira. - Então vamos dançar aonde?

- Estamos quase lá, Menininha... - Jack disse cortando as  avenidas largas até uma área que tudo indicava ser um grande centro comercial, completamente deserto naquela noite gelada.

- Vou estacionar aqui, estamos perto do lugar, não quero precisar andar muito nesse frio... - Jack sorriu ainda fazendo mistério. - Vem amor...

Eles caminharam por um quarteirão  de calçadas largas e desertas  até chegarem ao que aparentava ser um antigo prédio de apartamentos na esquina. Jack tocou a campainha de um dos apartamentos e os dois entraram em um pequeno hall mal iluminado, nada do que Clara estivesse esperando.

- Vem amor... vamos descer...

- Como assim, descer?

- Sim... o lugar onde vamos fica no porão deste prédio... - Jack sorriu. - Vem amor...

Os dois desceram dois lances de escadas e chegaram a um corredor ainda mais mal iluminado que o do hall.

- Querido... estamos indo na casa de alguém?  - Clara perguntou cada vez mais assustada.

- Não, amor... estamos indo ao melhor e mais bem guardado segredo desta cidade... - Jack sorriu.

- Jack! Entra! - disse um homem negro muito magro que abriu a porta. - Nossa! Ela é mesmo linda, amigo... - ele sorriu pegando a mão de Clara. - Boa noite, sou Louis Jackson, bem que o David me disse que ela é uma princesa...

- Muito prazer... - ela sorriu ao ver que a porta se abria para um grande salão do que aparentava ser um bar, com um grande balcão, algumas mesas e um pequeno palco cheio de instrumentos. Espalhadas pelas paredes, inúmeras fotos de artistas de blues, indicando que todos os grandes mestres já tinham passado por lá ou frequentavam a casa.

- Bem vinda, senhora Noble ao "The Joint", o melhor clube de blues desta cidade....

- Aqui é um clube de blues? - Clara perguntou espantada, olhando ao redor e vendo algumas das mesas ocupadas por poucas pessoas, enquanto outras sentavam-se em bancos próximos do bar.

- Sim... desde 1928, esta é a melhor casa desta cidade, atravessou a lei seca intocada e ainda permanece como o melhor lugar do mundo para se ouvir blues, nas últimas 8 décadas. Quando ela nasceu, o blues era uma música marginal, os músicos se reuniam em lugares que ficavam nas beiradas da cidade, do outro lado dos trilhos e todos ficaram  muito orgulhosos quando este lugar começou a funcionar. Era uma conquista... - sorriu Louis. - E se você está aqui, significa que alguém a considera uma pessoa merecedora de conhecer este grande segredo...

- Me considero honrada por isso, senhor Jackson...

- Me chama de Louis, querida... por favor, acomodem-se, o show começará daqui alguns minutos... - disse o homem afastando-se da mesa, onde um cartão muito simples fazia as vezes de menu.

- Sei que acabamos de jantar muito bem, mas você precisa experimentar o camarão a creole daqui... é uma delícia...

- Hum... parece maravilhoso, amor! - sorriu Clara.

- Conheci este lugar em 1974, estávamos em turnê e eu e o David sempre dávamos nossas escapadas para conhecer melhor a música que nos fascinava tanto, fomos até New Orleans e conhecemos alguns músicos locais e eles nos indicaram o Louis, como a pessoa que teria contatos dentro da Chess de Chicago, para conseguir umas gravações antigas, da década de 30, que o David estava procurando. Deixamos a banda lá no sul, pegamos voos de carreira e viemos correndo para cá e o Louis, ainda meio desconfiado, nos levou à Chess, onde conhecemos o Muddy Waters e ele nos convidou para vir vê-lo tocar naquela noite... a nossa sorte foi que era nossa folga, só tinhamos show no dia seguinte, na Flórida, para onde embarcamos no dia seguinte, em estado de graça...

- Que lindo, amor... e vocês viram o Muddy Waters tocando aqui?

- Eu chorei muito naquela noite... ele era um dos meus maiores ídolos e foi maravilhoso conhecê-lo e depois do show, ainda conversamos por horas sobre música...

- Acho que adoraria conhecê-lo também... amo a música dele.

A casa foi enchendo aos poucos e na hora do show, estava com pelo menos a metade de sua lotação. Uma boa parte das pessoas que chegavam conheciam Jack e vinham cumprimentá-lo.

- Senhoras e senhores, boa noite! Hoje temos uma atração muito especial para vocês... Depois de terminarem sua turnê internacional ao lado do grande Jack Noble, eles trazem seu talento para o "The Joint". Com vocês, "The Princes of New Orleans"!

Aplaudidos, os músicos veteranos tocaram um repertório variado de blues tradicionais, enquanto Jack e Clara dançavam abraçados...

- Não te disse que íamos dançar hoje à noite? - Jack sussurrou no ouvido de Clara.

- Você é maravilhoso, meu amor... - Clara sorriu e beijou-o.

Jack foi convidado para subir ao palco e cantou com a banda a música "Love In Vain", uma das favoritas do disco que fizeram juntos e também uma das músicas que Clara mais gostava. Logo depois do show, a banda desceu do palco e sentou-se ao redor da mesa de Jack, onde passaram o resto da noite, contando lendas e histórias sobre os mestres do blues que todos tanto amavam ali.

Clara e Jack saíram de lá quando o dia já tinha amanhecido; foram direto ao hotel, terminaram de arrumar a bagagem, tomaram café da manhã e partiram para o aeroporto. As férias estavam terminando, mas a sensação de terem vivido uma noite inesquecível continuava com eles, mesmo sem dormir.

Continua

1 de jun de 2012

Rockstar - Capítulo LXXXVI


- Querida, me lembrei de uma coisa... naquele ano, depois do final da turnê europeia, voltamos para casa, passei um mês com a Mary e meu filho e ela engravidou novamente... era a Kate... o Brad queria gravar o novo disco nos Estados Unidos, mas eu e os rapazes não queriamos viajar, a esposa do Dave também estava grávida e nos mudamos todos para Londres. Foi o nosso melhor ano até então... estávamos em casa todo o tempo, foi uma temporada muito feliz... talvez seja por isso que desejo tanto ficar longe de tudo quando você estiver grávida, amor...

- A diferença agora é que mesmo na estrada, onde quer que você esteja, eu estarei também... não precisamos nos afastar de nada, amor... estaremos juntos...

- Tem razão, querida... acho que esta turnê será mesmo  diferente, você estará comigo todo o tempo...

- Exato... - sorriu Clara. - e te mimando tanto, que você vai achar que está em casa, não na estrada...

- Minha casa é aqui... - sorriu Jack. - No meio destes bracinhos e perninhas finas... amor...

- Eu te amo, Jack... - Clara sorriu e beijou-o.

Jack então levantou-se, pegou-a no colo e levou-a de volta ao quarto onde os dois passaram o resto da tarde se amando. Levantaram-se da cama depois que escureceu, tomaram um banho rápido, vestiram roupas quentes e foram até o apartamento de Kate, levando todos os presentes que tinham comprado para ela e para o bebê no Brasil e mais um bouquet de rosas e uma garrafa de vinho que compraram no caminho.

A nevasca prevista tinha chegado durante a tarde e provocado algum transtorno na cidade. Antes de sair, Jack ainda pediu para um funcionário do hotel ajudá-lo a preparar os pneus do Jeep para enfrentar as ruas ainda cheias de neve.

- Que bom... chegamos, querido... - Clara disse quando chegaram na porta do prédio de Kate. - Então, amor... mais tranquilo agora?

- Não... estou com medo...

- Medo?

- Acho que a Kate não quer mais vir para casa, por isso não quis almoçar conosco hoje...

- Não, amor... não acredito nisso... acho que hoje foi uma despedida para eles... acredito que ela esteja se preparando para ir para casa...

- Espero que sim, amor... estou nervoso mesmo...

- Vem cá... - Clara disse puxando-o para mais perto e beijando-o. - Fica tranquilo, meu amor... tenho certeza que você sairá deste apartamento muito feliz hoje... vamos lá?

- Eu te amo, Clara... - Jack sorriu.

- Eu também te amo, Jack.

Carregados de sacolas, os dois desceram do carro e entraram rapidamente no prédio, fugindo do vento gelado que agora soprava trazendo ainda mais neve.

- Jack, Clara... que alegria tê-los aqui... - Mark disse ao abrir a porta. - Entrem, por favor... a Kate está na cozinha às voltas com o jantar...

Os dois entraram  e foram até a sala de estar, onde deixaram suas sacolas e tiraram os casacos.

- Vou lá ajudá-la, Mark... - sorriu Clara.

- Acho que ela não precisa de ajuda, Clara... - respondeu Mark. - Não se preocupe...

- Eu gostaria de ajudar de qualquer forma... gosto muito de cozinhar... - Clara respondeu levantando-se do sofá e caminhando até a cozinha.

- Ela gosta mesmo de cozinhar, Mark e cozinha muito bem... - sorriu Jack. - Mas isso vocês verão com seus próprios olhos lá em casa...

- Olá, Kate... quer uma mãozinha? - Clara disse ao chegar na cozinha. - O que posso fazer por você?

- Oi Clara... - respondeu Kate atrapalhada, mexendo uma panela de risoto. - Obrigada pela ajuda... Me atrasei porque o pequeno Jack não parava de chorar hoje...

- Mas ele está bem?

- Sim, querida... levei-o até o médico... ele me disse que são só gases... dei o remédio que ele receitou e agora ele está dormindo... mas me atrasei para fazer o jantar...

- Não se preocupe, querida... o que posso fazer?

- Mexe isso para mim, que vou fazer a salada... - sorriu Kate. - É um risoto...

- Eu sei, querida... pode ir, sou boa de risotos... - Clara sorriu. - Fica tranquila...

- Obrigada Clara... o Mark brigou tanto comigo porque decidi fazer a comida, ao invés de comprar em algum lugar...

- Homens... eles nunca entendem... - sorriu Clara. - Se bem que seu pai é sempre tão doce comigo...

- Querida... vou lá na sala cumprimentá-lo e já volto... Obrigada pela ajuda...

- Não se preocupe que tudo está sob controle aqui... vai lá abraçá-lo, querida...

Kate foi até a sala de jantar e voltou com o bouquet de rosas nas mãos, alguns minutos depois.

- Obrigada pelas rosas, Clara... são lindas... adoro flores, mas o Mark é exatamente o oposto do meu pai, acho que ele é o cara menos romântico do mundo...  - Kate sorriu enquanto pegava um vaso para colocar as flores. - Já meu pai, lembro que quando ele estava em casa, nas raras vezes em que estava, muitas vezes ele mesmo cozinhava  e  tratava minha mãe como uma rainha...

- Ele me trata assim também, Kate... e não é porque estou apaixonada por ele, mas é o homem mais gentil e doce que já conheci... e quanto mais o conheço, mais o amo...

- Dá para ver em você, Clara... - sorriu Kate. - Você tem a aparência de alguém capaz de flutuar no ar e brilhar no escuro, querida...

- Me sinto assim, quando eu e Jack estamos juntos... mas tem uma coisa que está me incomodando há alguns dias e eu gostaria que você me ajudasse a entender...

- Pode dizer, Clara...

- Estávamos no Brasil descansando e repentinamente o Jack me disse que abandonará tudo, a banda, a carreira, quando eu engravidar... Você acha que ele faria isso?

- Hum... você já deve ter notado isso, mas meu pai é completamente imprevisível... Já o vi fazer coisas por impulso, que ninguém mais faria... Você não quer que ele se aposente?

- Não... na verdade acho que isso irá destruir a vida dele, porque sei que ele ainda ama muito a música e não consegue viver sem ela...

- Mas ele também te ama muito... e isso de abandonar tudo, ele fez isso quando a minha mãe estava me esperando. Lutou contra a banda e contra o Brad até conseguir ficar em Londres para gravar o disco... foi obra dele... já fez isso antes e, não será surpresa se fizer novamente... Sabe... meu pai é um homem muito romântico... ele é capaz de fazer qualquer coisa quando está apaixonado, como está agora...

- Ele me disse mais uma coisa, Kate...  que ainda dói muito para ele voltar para a Crossroads... que está fazendo por mim, mas que ainda é difícil para ele...

- Viu... ele é mesmo capaz de qualquer coisa por amor... ele te ama tanto que se dispôs a voltar com a banda...

- Mas ele tinha me dito antes que não sentia mais tanta dor e por isso voltaria para a banda...

- Acredito nisso também, querida... dá para ver que ele está melhor... meu pai, era uma pessoa muito triste antes de te conhecer... Olha, eu não deveria te contar isso, mas ele vivia deprimido, bebado... sei que me afastei dele, por causa do casamento, mas sinceramente me preocupava com as coisas que minha mãe me contava e eu cheguei a indicar uma terapeuta para ele há uns três anos. Ele não sabe disso, mas eu fiz minha mãe convencê-lo a se tratar...

- Ele me disse que fez terapia...

- Sim... ele fez... não era muito constante,  mas acredito que tenha ajudado... você sabe que ele se culpa pela morte do Don, não?

- Sei... sinto a dor dele dentro do meu próprio peito quando ele fala sobre isso...

- Então... aí está a raiz de todos os problemas dele... se você conseguir curar isso... então você terá o melhor marido do mundo, querida... - Kate sorriu.

- Acho que o risoto está pronto... - sorriu Clara. - e está com uma cara linda...

- Espero ter acertado a mão desta vez... - Kate disse despejando o risoto em uma travessa de louça para levar até a sala de jantar. - Me ajuda a levar tudo lá dentro?

Clara e Kate pegaram as travessas com comida e levaram até a mesa de jantar. Risoto  de queijo, carne assada com batatas e uma salada verde. Comida simples, mas muito boa.

- Delicioso, querida... - sorriu Jack. - Você está cozinhando muito bem...

- Obrigada papai... é muito bom recebê-los aqui... - Kate sorriu. - Então, como foram as férias no Brasil?

- Maravilhosas... vocês deveriam ir para lá também... ficamos na casa do Dave, na Bahia... - Jack disse. - Depois fomos para o apartamento da Clara em São Paulo.

- Agora vai demorar um pouco para podermos viajar de férias... - Mark respondeu. - O pequeno Jack precisa crescer um pouco para que possamos fazer isso novamente...

- Como ele está? Eu e o Jack estamos loucos para vê-lo...

- Lindo! - sorriu Mark. - ele era tão pequenininho quando nasceu que todas as roupinhas sobravam nele, agora ele está maiorzinho, ganhou peso... vocês irão vê-lo depois do jantar... E vocês? Quando farão o seu?

- Vou me operar na próxima semana... - disse Jack. - Desfazer a vasectomia e a partir daí, tentaremos ter o nosso filho...

- Eu sou um cara muito prático, Jack, mas ter um filho muda tudo mesmo... sou apaixonado por aquele menino desde que o vi pela primeira vez e ele quase cabia na minha mão...

- Sei do que você está falando, Mark... amo muito meus filhos... todos eles, até os que quase nunca vejo... Então, vocês vão para casa?

- Vamos sim, papai... estamos ainda resolvendo os problemas de nossa ONG, mas hoje fizemos um almoço de despedida para apresentar nossos substitutos para as pessoas que atendemos... foi triste, mas sabemos que podemos começar tudo de novo, em Londres... mais perto de você e da mamãe...

- Que bom, querida... - Jack sorriu e piscou para Clara. - Obrigado por aceitar... será lindo ter vocês por perto... Sabe, nossa casa está pronta e mandamos fazer um quarto lindo nela para o pequeno Jack... você vai ver...

- O quarto tem duas ligações, uma porta para a nossa suite e outra para um quarto de hóspedes anexo, onde vocês podem ficar, ou colocar uma babá... a escolha é de vocês...

- Obrigada Clara... vocês são mesmo muito queridos conosco... Vamos para Londres na semana do show e pretendemos ficaremos hospedados na casa de vocês, se não for incomodar...

- De maneira alguma... - sorriu Clara. - Será um prazer tê-los por lá... Então, Jack... pronto para mimar seu neto?

- Muito, querida... você sabe que vamos estragá-lo completamente, não, Kate?

- Sei... mas eu também o mimo todo o tempo... ele é muito lindo, papai... vocês verão...

- Estamos muito felizes querida... aliás... trouxemos um presente para você... - Jack tirou do bolso do paletó a caixinha com o colar de pedras preciosas que comprou no Brasil para ela. - Espero que você goste...

- Papai... não precisava... - Kate disse abraçando-o. - Que lindo! Obrigada!

- Comprei no Brasil é de pedras preciosas de lá...

- Lindo! Obrigada mesmo... Coloca no meu pescoço... Olha só, como ficou lindo...

- Lindo mesmo, Kate... - disse Clara. - Vou te ajudar com a louça, querida...

- Não... a louça é meu trabalho... meu e do Jack... - disse Mark. - vocês descansam agora... o pequeno Jack já vai acordar para mamar...

- Sim... e quando ele acordar, vamos todos vê-lo... - disse Kate.

- Ah... temos mais presentes... estas sacolas... são coisas bonitinhas que compramos no Brasil para ele...

- Meu Deus... meu filho vai precisar de um closet do tamanho deste apartamento... - riu Kate. - Obrigada... vocês são maravilhosos...

A babá eletronica começou a trazer o choro do pequeno Jack até eles e Kate levou todos ao quarto para vê-lo, enquanto cuidava dele.

- Ele é lindo, amor... - disse Clara pegando-o no colo. - Tira uma foto nossa, Jack? Já desliguei o flash e regulei a câmera, é só bater...

- Também quero uma foto, querida... - sorriu Jack. - Meu Deus como esse menino é lindo...

- Ele é mesmo... igualzinho você, Grandão...  Olha como a foto ficou linda!

- Me dá a câmera, Clara... - disse Kate. - Fica junto com o papai...

Os dois sairam do apartamento de Kate encantados e com uma grande coleção de fotos do pequeno Jack e combinaram com Kate e Mark, voltarem no dia seguinte para passarem o dia juntos e ajudarem nos preparativos para a mudança.

- Então, querido... não disse que daria tudo certo? Que sua filha estava se preparando para ir para casa?

- Clara, meu amor... eu estou tão feliz que quero pedir champagne assim que chegarmos no hotel... Se não fosse congelar, iria ao lago Michigan nadar um pouco...para comemorar... vamos dançar nus na neve?

- Ah meu amor... eu também estou muito feliz... acho que podemos dançar nus sim... mas na nossa suite, querido... Que tal?

- Perfeito! Os americanos são um povo muito chato... logo alguém chamaria a polícia e não estou com vontade de passar o resto da vida explicando aos jornalistas que não sou maluco, apenas gosto de ficar nu quando estou feliz...

- Vamos para o hotel, Grandão e você vai me explicar muito bem tudo isso... como é esta história de gostar de ficar nu quando está feliz...

- Ah Menininha... é tão bom estar aqui, com você... Você deixa tudo ainda melhor... meu coração parece que vai explodir de tanta alegria, querido... Amanhã estaremos com eles novamente... o pequeno Jack é lindo, não?

- Lindo mesmo, querido... Sabe... quando olhei para ele hoje... parece que já consigo vê-lo com uns 4 ou 5 anos brincando nos jardins da nossa casa, junto com o nosso filho... perguntando para a mãe dele como aquele menino tão pequeno pode ser tio dele? Falando nisso... agora teremos crianças pequenas frequentando nossa casa, precisamos mandar colocar uma rede na piscina...

- Faremos isso, querida... mas ainda é muito cedo, o pequeno Jack ainda vai demorar um bom tempo para começar a andar... E nosso filho, ainda nem foi feito...

- Vamos fazê-lo logo, meu amor... assim que pudermos... não vejo a hora de estar grávida...

- Já estamos chegando, querida... preciso tanto te beijar agora...

Jack e Clara desceram do carro e o entregaram ao manobrista do hotel, onde entraram abraçados e seguiram até seu elevador de vidro, onde finalmente se beijaram apaixonadamente e continuaram agarrados um no outro até chegarem ao 46º andar.

- Vou ligar para o serviço de quarto agora, amor... - Jack disse assim que entraram na suite. - Peço mais alguma coisa além do champagne, amor?

- Morangos...

- Hum... acho que nossa lua de mel está recomeçando...

- Ela nunca terminou, querido... - sorriu Clara.

Enquanto Jack falava com o serviço de quarto na sala, Clara trocava de roupas no quarto e vestia um conjunto de lingerie de seda preta que tinha comprado em Paris.

- Amor... Você não vem deitar-se? - Clara disse indo até a sala onde encontrou Jack desligando o celular e colocando-o rapidamente no bolso. - Quem estava te ligando a essa hora?

- Ninguém, querida... era só o Dave querendo saber se tudo estava bem?

- O Dave? Mas espera, se aqui é uma da manhã, em casa...

- São  sete da manhã... o Dave estava tomando café em Heathcliff Hall, querida...

- E por que você deu um pulo quando me viu entrando aqui e escondeu o celular rápido, no bolso, Grandão?

- Porque não queria que ele me atrapalhasse agora... você está linda, Menininha...

Clara pareceu aceitar a resposta do marido, momentaneamente, não disse nada, mas todo tipo de desconfiança rondava sua cabeça, que se acalmou um pouco apenas depois que o champagne e os morangos chegaram.

- Então... onde paramos mesmo? - Jack disse voltando para o quarto com o carrinho de serviço e tirando o roupão que tinha vestido para buscá-lo no corredor. - Ah! Estava falando o quanto você está linda... agora... assim... nua...

- Vem aqui, Grandão... você está falando demais hoje...

O celular de Jack, que estava ao lado da cama, tocou novamente.

- O celular, Jack... - Clara disse interrompendo os carinhos. - Você não vai atender?

- Deixa tocar....

Mas Clara pegou o telefone em suas mãos e viu o nome de David na tela. - É o David... - ela disse entregando o aparelho nas mãos de Jack e levantando-se da cama. - Melhor atender, ele deve ter esquecido de te dizer alguma coisa...

- Clara... - Jack chamou-a de volta, mas em vão. Ela já tinha vestido seu roupão de seda e ido até a sala de estar da suite, com seu tablet nas mãos. A cabeça rodando, sua desconfiança de que Jack tinha mentido transformada em certeza. Mas mentido por que?

Ela parecia buscar na internet uma resposta para o que fazer, depois de tudo o que tinham vivido juntos, tinha que voltar a enfrentar uma mentira dele.

- O que foi meu amor? - disse Jack saindo do quarto e caminhando até ela, na sala de estar.

- Nada... - ela respondeu sem tirar os olhos do tablet. - Então, o que o David queria?

- Saber quando voltaremos para casa...

- Ah... então ele não tinha perguntado quando ligou antes?

- Desculpa, querida... não era ele antes...

- E você mentiu para mim, porque...

- Era a Ann, ela queria me perguntar sobre uma música que eu encontrei, em uma pesquisa que fiz em New Orleans.

- Sei... isso tudo eu entendo... o que eu não entendo é por que você mentiu para mim?

- Me perdoa, querida... fiz sem pensar... fiquei com medo de você brigar comigo porque aquela louca me ligou...

- Eu não ia brigar com você, mas não mente mais para mim... por favor... - Clara disse levantando-se do sofá, indo até ele e abraçando-o. - Por favor, Grandão...

- Ah, meu amor... - Jack disse pegando-a no colo e levando de volta até a cama, onde os dois voltaram a se amar.

Continua