28 de mai de 2012

Rockstar - Capítulo LXXXV


Pegaram no sono por alguns minutos, mas depois de tanta paz, Clara acordou repentinamente, confusa, assustada e de um pulo levantou-se do sofá.

- Amor... o nosso jantar... precisamos nos preparar, estamos atrasados...

- Ah? O que? - Jack acordou meio zonzo. - Calma, amor... olha o relógio ali... são só quatro e meia...

- Mesmo? - Clara riu quando conseguiu ver o relógio na estante. - Achei que já era noite...

- Não é, Menininha... - riu Jack. - Volta aqui... estou com frio...

Clara deitou-se novamente com ele no pequeno sofá e os dois namoraram até serem interrompidos pela ligação de Jonas, confirmando que iria com eles ao jantar e de Michael Peters, a seguir, perguntando se ela estava mesmo disposta a dar uma entrevista a Roberto Junqueira.
Depois de dar um longo suspiro, Clara aceitou e ele disse que agendaria uma entrevista por telefone, em um dos dias em que atenderiam a imprensa.

- Acho que logo trabalharemos muito, amor... - Clara disse abraçando Jack. - Quero mais férias...

- Eu também... nunca vou me cansar de estar assim, em paz, com você... Você vai atender aquele palhaço, então, amor?

- O Peters vai agendar uma entrevista por telefone, no meio das tantas entrevistas que já estão marcadas.  Tenho a impressão de que nunca conseguiremos nos livrar dele, querido...

- Não tem importância, amor... Vem, vamos nos preparar... está começando a ficar tarde, o Jonas disse que estará aqui às sete... ainda temos que prender seu cabelo, o meu...

- Não estou com vontade de me disfarçar hoje, amor...

- Tudo bem por mim, querida... você que sabe...  ficou nervosa agora, não?

- Como você sabe que estou nervosa?

- Sua voz... ela fica um pouquinho  mais aguda quando tem alguma coisa te incomodando... Já notei que ela costuma ficar assim quando o Jagger está por perto...

- Fica é? Bem, acho que não consigo mesmo guardar nenhum segredo de você... estou nervosa sim, acho que já te disse que a parte da minha família que encontraremos hoje não é  minha favorita...

- Amor... tudo mudou na sua vida agora... Você está feliz, milionária e mais linda do que nunca... Eles não podem te magoar mais...

- Mas certamente irão me magoar... Quantas vezes eu estava muito feliz e quando os encontrava, eram tantas as críticas e tão duros os olhares de reprovação que eu voltava para casa arrasada...

- A família do meu pai fez bem pior, Menininha... eram muito ricos, mas quando ele decidiu casar-se com minha mãe, que era de uma família de operários, eles afastaram-se e o abandonaram à propria sorte. Era a época da Segunda Guerra e quando minha irmã nasceu, eles mal conseguiam sustentar-se. As coisas só ficaram um pouco melhores depois, quando eles se mudaram para Stourbridge, para meu pai poder trabalhar em um grande projeto de construção de uma vila de operários por lá...

- Eles sempre foram cruéis comigo, com meus pais e com meus irmãos... às vezes acho que a única coisa que importa para eles é o dinheiro, por isso a  minha família na cabeça deles sempre estava errada porque não éramos como eles, não seguiamos aquela mentalidade do trabalhe em qualquer coisa, não importa o que, só o quanto você ganha...

- Mas seus livros, eles fizeram sucesso...

- Não importa para eles, sempre achavam um jeito de me criticar e diminuir qualquer alegria que eu pudesse sentir pelo sucesso que eu fiz. Nada que eu fazia importava para eles, prêmios, entrevistas, elogios... eles sempre procuravam alguma coisa para me jogar para baixo... - ela disse com os olhos molhados de lágrimas.

Jack abraçou-a e ficou segurando-a nos seus braços por alguns minutos. - Hoje eles não farão isso, Menininha... eu estarei lá para te proteger... Vou pedir ao Jonas para me traduzir tudo o que falarem com você e se eles disserem qualquer coisa rude, saberei muito bem como responder...

- Jack, você é maravilhoso comigo... eu te amo...

- Vem... vou cuidar de você... vamos tomar um banho, fazer uma massagem e vou te deixar tão linda que faremos com que todos se calem...

Os dois entraram no chuveiro juntos e Jack cuidou de Clara como tinha prometido e depois de uma massagem relaxante com óleos essenciais, ele a vestiu, secou  e arrumou seus cabelos e até a maquiou.

Por último, ele pendurou o colar com o coração de diamantes que tinha dado a ela há poucos dias e estavam prontos para sair.

- O Jonas já chegou, amor, está subindo...  - Clara disse depois de atender seu celular. - Vamos embora?

- Pegou tudo, querida?

- Sim... falta só minha bolsa e o álbum de fotos para devolver para minha mãe...

- Você está linda! - Jack disse pegando sua mão e beijando-a. - Uma rainha...

- Ah, querido... eu te amo muito e te agradeço muito por tudo o que fez por mim...

- Eu te amo, querida...

Jack abriu a porta do apartamento para Jonas.

- Boa noite... - sorriu Jonas. - Nossa! Vocês vão assim? Sem disfarce?

- Boa noite, Jonas... - respondeu Jack. - Amanhã, nós já vamos embora, acho que é importante que a Clara vá hoje como ela se sente melhor...

- Tem razão... - sorriu Jonas. - Qualquer coisa temos o Moreira e os três homens dele, não?

- Exatamente! - riu Jack. - Nós os contratamos para isso...

Os três foram até a garagem, subiram na bela Mercedes preta de Moreira e seguiram para a Vila Olimpia, bairro onde ficava a badalada pizzaria que sua família tinha escolhido para aquele jantar.

A viagem foi lenta, com o habitual trânsito pesado das sextas-feiras incomodando o caminho, mas eles chegaram no horário combinado, entraram no restaurante e tiveram uma noite muito agradável.

Clara distribuiu o novo disco da Crossroads para algumas pessoas e convidou todos para irem a Londres ver o show de estreia, recebendo como resposta todo o tipo de desculpas; como já tinham feito  anteriormente com o convite para o casamento e mais uma vez, ela fez questão de deixar claro que bancaria a viagem dos pais, irmãos e amigos mais próximos, mas que as outras pessoas deveriam custear sua viagem.

- Você está brilhando hoje, querida... - Jack sussurrou no ouvido de Clara. - Tenho muito orgulho de você!

- Eu te amo, Jack. - ela disse em seu ouvido. - Meu amor... eu tenho muito orgulho de você também!

Com o carinho e atenção que recebeu de Jack por toda a noite, Clara sentia-se agora relaxada em um ambiente que sempre a deixava tensa e depois de conversar com todos, Jack, Clara e Jonas partiram do restaurante no final da noite, acompanhados pelos seguranças que tinham contratado.

- Clara, querida... você parou diversos corações naquela pizzaria hoje... - sorriu Jonas. - E nem precisou de mim para proteger-se... Mas acho que já está na hora de plantar um canteiro de arruda no seu jardim, em Londres, querida...

- Você acha, Jonas?

- O que é arruda? - Jack perguntou intrigado.

- É uma planta que dizem ser boa para espantar a inveja... - sorriu Clara.

- Hum... Será que conseguiremos encontrar esta planta em casa? - disse Jack. - Quero fazer uma plantação disso no nosso jardim, amor...

- Sempre tive alguns vasos dela em casa, vou pesquisar se ela pode ser encontrada em Londres, amor...

- Mas você acha isso, Jonas? Que eles estavam com inveja?

- Sempre te disse isso, Clarinha... elas te criticam tanto porque queriam ser você... hoje isso estava mais claro do que nunca... A sua prima tentando diminuir seu anel de noivado foi a pior parte...

- O que? Quem é sua prima? Aquela loira que estava sentada perto do Jonas? O que ela fez?

- Exato, amor... Ela pegou minha mão e perguntou que pedra era aquela no meu anel e eu disse que era um diamante... ela respondeu... tem certeza? Diamantes não são dessa cor... eu perdi a calma e respondi... não são porque este é raro, tem 25  quilates, é da Tiffany's de Londres, mas nada disso importa de verdade, o melhor deste anel é que ele muda de cor conforme a luz... como os olhos do meu marido...

- Cheque mate! - riu Jonas. - Eu sei que ela é sua prima, mas eita mulherzinha mais chata... Engraçado, seu pai é um cara tão bacana, como ele pode ter nascido no meio dessa família?

- Não sei, querido... - riu Clara. - Bom, mas o que importa é que vi todos, conversei com todos, e agora não podem mais alegar que os abandonei...

- Gostei da ideia de você ter convidado algumas pessoas para irem em casa agora... - sorriu Jack. - Gosto dos seus amigos, Menininha!

- Queria conversar com eles com mais calma... aliás, vou ligar para o bar e pedir que eles entreguem alguma coisa para todos comerem...

- Bolinho? - sorriu Jack.

- Sim, amor... vou pedir umas 5 porções... Todos amam esse bolinho... Tem mais algumas coisas em casa, queijos, azeitonas... vou passar na padaria também, para pegar um pouco de pão e ums patês...

- Se eu soubesse disso, teria comido um pouco menos, querida...

- Decidimos na hora, amor... quando minhas tias começaram a monopolizar a conversa com aquela história de que era muito perigoso casar, sem conhecer bem a pessoa...

- Deus! Elas disseram isso?

- E não é tudo, Jack. - riu Jonas. - Uma delas disse que conhecia alguém que ganhou uma bolada na loteria e que, do mesmo jeito que ele ficou rico, da noite para o dia, ele perdeu tudo e foi parar na rua, virou mendigo...

- Acho que precisaremos fazer um reflorestamento inteiro daquela tal erva! - riu Jack. - Imagina quando o Jonas comprar o nosso apartamento aqui... 

- Eu? - riu Jonas. - Que apartamento?

- Ainda não te disse, mas o Jack quer comprar um apartamento perto do parque do Ibirapuera, para usarmos quando viermos para cá...

- Posso ver isso para vocês... mas você sabe que é caro, não? - perguntou Jonas.

- Sim, a Clara me disse... queria que ela passasse toda a gravidez aqui, mas ela não quer... Está preocupada que eu largue de vez minha carreira...

- Estou sim, amor... - sorriu Clara. - Mas vamos fazer tudo certo, não Jonas? Você procura um apartamento bom para nós, uns 3 ou 4 quartos, perto do parque, em uma rua tranquila, depois eu e o Jack cuidamos do resto, não é querido?

- Isso mesmo... quero um andar bem alto e,  se possível, uma cobertura ou com uma  varanda grande, onde minha mulher possa ter um jardim...

- Vou trabalhar nisso a partir da próxima semana... - sorriu Jonas. - Estamos chegando...

- Será que nossos convidados já chegaram? - disse Clara tentando olhar os arredores, enquanto o carro aproximava-se da entrada da garagem.

- Clara, deixa que eu vou à padaria buscar o que falta... faz uma lista do que precisa, que eu trago. - disse Jonas. - O bar vai trazer as outras coisas? Vocês têm bastante vinho, não?

- Tem umas duas ou três  garrafas... é pouco, não?

- Passo no mercado também, vou trazer mais umas 3... o pessoal que vem aqui bebe bem...

- Traz umas 6, então, Jonas... - sorriu Jack. - Eu e a Menininha queremos que esta noite seja especial...

- Ah, Jonas... traz alguma coisa doce, um sorvete, uma torta ou um bolo... e uma garrafa de refrigerante... para salvar quem exagerar na bebida... - disse Clara.

Tudo tranquilo ao redor do prédio e Jonas saiu rápido para as compras, enquando Jack e Clara prepararam-se para receber seus convidados.

- Que bom que você ainda está aqui, Jack... - sorriu Clara. - Achei que você fugiria de mim depois que conhecesse o resto da minha família...

- Não fugiria de você, amor... agora, deles...  não consigo mentir, pelo que vocês comentaram... Ufa! Será que seus pais não querem mudar-se para Londres?

- Não, querido... - riu Clara. - Meus pais amam isso aqui e não se acostumariam por lá... meu pai odeia frio... 

- Uma pena... mas estaremos sempre por aqui, o Jonas vai procurar um apartamento para nós...

- Vai, não é... você odiou o meu apartamento...

- Não, amor... eu gostei muito daqui... só acho que podemos ter mais espaço e mais conforto, especialmente quando você estiver com um barrigão enorme, esperando pelo nosso filho... - riu Jack. - Não vamos caber juntos nesta cozinha, quando isso acontecer...

- Isso é muito doce, querido... - Clara riu. - Corta este queijo em cubos pequenos para mim, vou pegar mais taças de vinho no armário...

Os amigos de Clara foram chegando, Jonas também voltou das compras e logo todos estavam reunidos na pequena sala de estar, conversando, sentados em almofadas e no tapete, já que os sofás nunca conseguiam mesmo comportar muita gente.

Mais do que relaxada, Clara agora mostrava-se radiante, fazendo planos para passear em Londres com as amigas e mostrando fotos e vídeos que tinha feito durante as férias na Bahia.

Jack também estava muito feliz, conversando com os amigos de Clara como se fossem velhos amigos seus e a noite foi longa, com todos partindo para casa quando o dia já estava amanhecendo.

Antes de ir, Jonas ainda ajudou Jack e Clara a arrumarem a cozinha, mas acabou indo embora também, um pouco mais tarde, deixando-os sozinhos para finalmente descansarem.

- Você está brilhando no escuro hoje, Menininha... - sorriu Jack. - Sinto a tua alegria aqui... no meu peito, meu amor...

- Estou feliz, meu amor... Você me fez muito feliz hoje... vem, quero te fazer feliz agora... - Clara disse puxando-o para o quarto, onde os dois despiram-se e deitaram-se para dormir agarrados.

A manhã de sábado já ía alta, quando Jack acordou-a beijando suavemente seu corpo, tirando-a de um sonho em que os dois, em uma era distante, se amavam no campo de alfazemas, próximo de sua casa na montanha.

- Bom dia, amor... - sorriu Jack. - Tive um sonho tão doce com nós dois que não consegui te esperar acordar...

- Eu também estava tendo este mesmo sonho, querido... e adorei acordar com seu carinho... - ela disse acariciando os cabelos longos de Jack. - Estou triste hoje, vamos embora, daqui a pouco...

- Mas estaremos juntos, meu amor...

- Eu sei, querido... - Clara respondeu sentindo as lágrimas molharem seu rosto. - Não sei se consigo explicar... sinto saudades de cada minuto maravilhoso que passo ao seu lado...

- Não precisa sentir saudades... - Jack disse secando as lágrimas de Clara com a ponta dos dedos. - Estamos juntos... todos os nossos minutos serão sempre assim, Menininha... quero ver um sorriso agora...

Clara beijou-o e os dois logo se levantaram, tomaram banho juntos e saíram disfarçados para tomar café da manhã na padaria.

- Não vou sentir saudades dessa peruca, amor... - sorriu Clara. - Sinto falta de deixar meu cabelo voando ao vento...

- Vamos trocar a peruca e o boné por toucas... Chicago é um gelo nesta época do ano...

- É mesmo... - Clara suspirou. - Mas será tão bom pegar o pequeno Jack no colo, que nem estou me preocupando com o frio...

- Eu também, meu amor... Vou ligar para a Kate daqui a pouco para ver como estão as coisas...

- E o David?

- O que tem ele?

- Você não vai ligar para ele?

- Não... ainda estamos de férias, não tenho pressa de voltar ao trabalho... pensa assim, querida, se ele não está me ligando é porque está tudo bem...

- Tem razão, querido... acho que sou ansiosa demais com algumas coisas, mas acho que precisarei ligar para o Mick, saber sobre a tal reunião.

- Pode ligar, querida... - sorriu Jack. - Já te disse que será melhor para nós dois você ir para Paris e ficarmos longe um do outro durante a semana toda. Você não gosta de Paris?

- Gosto... mas ainda prefiro cuidar de você. - sorriu Clara. - Quer saber? Vou ligar para o Mick, saber o que está acontecendo e depois me decido. Será que ele ainda está em Barbados?

- Deve estar, querida... uma vez que os Stones começam é difícil que eles parem antes de terminar...

- Ah, amor... vou ligar de uma vez para ele... que horas são em Barbados agora?

- É cedo lá, querida... o fuso horário é parecido com o dos Estados Unidos. Deve ser muito cedo...

- Verdade, querido...

- E seus pais? Já ligou para eles?

- Combinei tudo ontem, vamos almoçar lá e passamos o dia com eles. Quando sairmos, já colocaremos toda a bagagem no carro e de lá vamos direto para o aeroporto.

- Vamos deixar tudo pronto então, quando voltarmos para o apartamento. Falta pouca coisa para embalar e você está tristinha de novo...

- Sou assim, querido... sinto demais quando estou muito feliz em um lugar e tenho que ir para outro. Eu sei que ficaremos bem, que estaremos felizes, mas meu coração fica triste assim mesmo...

- Nada de tristeza, Menininha... vou te mimar tanto, que toda essa tristeza vai embora de você...

- Você é lindo, meu amor... e consegue sempre iluminar meu dia...

Os dois voltaram para casa, terminaram de organizar a bagagem, trocaram de roupa e decidiram que não usariam disfarces. Foram para a casa dos pais de Clara, almoçaram uma deliciosa lasanha de camarão, conversaram, divertiram-se e fizeram planos para o próximo encontro da família, em Londres e quando já eram quase cinco e meia da tarde, partiram para o aeroporto.

O voo estava marcado para as 10 da noite, mas o trânsito de São Paulo os obrigava a sair com bastante antecedência, pois mesmo em um sábado era completamente imprevisível o que eles encontrariam pelo caminho.

- Vamos chegar rápido hoje, amor... - sorriu Clara. - O trânsito está tranquilo...

- Pena que não é o outro aeroporto... a casa dos seus pais é tão perto...

- Pois é, amor... Meu celular está tocando... - disse Clara. - É o Mick... Alô...

- Como você está, querida?

- Tudo bem, Mick... achei que você fosse me ligar...

- Desculpe, estava esperando uma resposta do Summers. Ele é um pouco complicado, às vezes...

- Percebi...

- A nossa próxima reunião será mesmo em Paris, querida... ele vai a um evento lá e quer nos encontrar, a única coisa que consegui é que não será mais no dia 29, mas no dia 30 de outubro, no Hotel Georges V, às 4 da tarde.

- Melhorou... - sorriu Clara. - Assim, posso sair de Londres, no dia 30, de manhã, ir à reunião e voltar para casa assim que ela terminar para cuidar do meu marido.


- Onde você está agora, querida?

- Ainda no Brasil, mas embarco para Chicago daqui a pouco. E você?

- Em Barbados, querida... pensei que não conseguiríamos desta vez, mas já temos algumas coisas muito boas prontas... estou louco para te mostrar...

- Fico feliz, por vocês, Mick...

- Seu marido está ao seu lado, não...

- Sim...

- Ok! Nos vemos em Paris, então, querida... boa viagem, meu amor...

- Obrigada Mick... nos vemos em Paris...

- Então, Menininha... finalmente ele te ligou...

- É... estava esperando acertar tudo com o Summers antes. A reunião será no dia 30, às 4 da tarde, logo depois da reunião vou para o aeroporto e volto para casa para cuidar de você.

- Que bom, amor... - sorriu Jack. - Ele ainda está em Barbados?

- Sim, querido... - sorriu Clara. - Disse que já tem uma porção de músicas prontas...

- Ótimo... Espero que eles se disponham a tocar nas Olimpíadas, no ano que vem, querida...

- Disso eu não sei, Jack... Como fã ficaria feliz com shows dos dois... Gosto muito de ambos e sinto muito orgulho de estar perto de vocês neste momento. Ao mesmo tempo, depois que você me disse que está triste com esse retorno, me sinto culpada por desejar te ver no palco...

- Não se sinta, querida... Ainda teremos algum tempo para decidirmos tudo isso... enquanto isso, quero cuidar de você, te mimar muito... 

- Hum... gostei... adoro quando você cuida de mim... - sorriu Clara encaixando-se nos braços de Jack, enquanto o carro em que estavam cortava rapidamente a cidade.

Clara estava com um pouco de medo do momento de chegar ao aeroporto, mas foi mais uma vez surpreendida pela competência de Moreira. Os dois desceram em uma área do aeroporto usada apenas por autoridades e lá, foram recebidos por funcionários do aeroporto e da companhia aérea que logo encaminharam a sua bagagem para o check in, entregaram suas fichas de embarque e os guiaram através de corredores de uso de funcionários até a sala vip.

- Estamos a salvo, querida. - sorriu Jack. - Fico feliz de termos contratado o serviço do Moreira. Foi caro, mas foi perfeito...

- Também gostei muito, Jack. - sorriu Clara, enquanto tentava acompanhar o passo rápido do funcionário do aeroporto através de um longo corredor, até um elevador. - Oi, você sabe me dizer se tem alguém da imprensa aqui no aeroporto hoje?

- Tem sim, senhora Noble... - sorriu o funcionário. - A segurança me disse que tem uma porção de jornalistas lá embaixo, então, colocamos alguns seguranças na porta do terminal da companhia aérea e eles estão todos concentrados por lá... terão uma surpresa quando perceberem que o voo já partiu...

- Espero que a sala vip esteja tranquila... - sorriu Jack. - Não adianta muito fugir dos jornalista e cair no colo de uma multidão com câmeras nos celulares...

- Está senhor... - sorriu o funcionário. - Mas se houver algum problema, já temos autorização para levá-los à sala dos pilotos.

- Perfeito! - sorriu Clara. - Estaremos tranquilos então, querido... Podemos usar nossos iPads lá, não?

- Sim, sem problemas. - respondeu o funcionário. - Só teremos um pequeno problema... A polícia federal.

- O que tem? - perguntou Clara.

- Os senhores terão que passar pelo guichê da policia federal. Nós os levaremos por uma área de serviço, mas é provável que terá uma fila em que terão que aguardar.

- Isso não é problema... - riu Jack. - Eventualmente encontramos pessoas por aí... não precisamos de tanto isolamento ou um tratamento tão especial assim...

- É porque tem artistas que, quando eu aviso isso, costumam não gostar; alguns até perguntam quanto custa para serem atendidos em particular.

- Não somos assim... - Clara respondeu. - Jamais faríamos este tipo de exigência, não gostamos de tumulto, ou do assédio da imprensa, mas não nos importamos de sermos perturbados por fãs ou curiosos, de vez em quando.

- Bem, chegamos! - sorriu o funcionário ao abrir a porta de vidro da sala vip para que eles entrassem. - Os senhores aguardam aqui. Daqui alguns minutos, um segurança irá levá-los ao guichê da polícia federal.

- Obrigado! - disse Jack, sentando-se em um sofá que encontrou livre na sala. - Menininha, vem aqui, esta sala está muito gelada.

- Está mesmo, querido... - sorriu Clara encaixando-se entre os braços do marido. - Então, vou ligar para o Jonas, ele me pareceu um pouco decepcionado quando você disse que ele não precisava vir ao aeroporto conosco.

- Também achei, querida... mas isso aqui é só chatice... queria poupá-lo.

- Eu sei, amor... mas ele fica chateado, o Jonas é um bom amigo, quer sempre ajudar...

- Daqui uns dias nos encontramos com todo mundo de novo e vai ser muito bom...

- Então, gostou da minha casa?

- Muito, meu amor... Eu consegui te ver aqui por inteiro e senti ainda mais carinho por você...

- Lindo! - Clara beijou-o e os dois só interromperam seu namoro para irem até a fila de verificação de passaporte e depois, voltaram à sala vip onde continuaram agarrados esperando pela chamada de seu voo.

E depois de um voo muito tranquilo, na primeira classe, os dois chegavam em Nova York prontos para fazer sua conexão até Chicago, em um jato particular. Era ainda de manhã cedo quando chegaram ao JFK, passaram pela verificação de passaportes e tiveram uma conversa rápida com o piloto que os levaria até Chicago que deixou ambos apreensivos, pois existia a previsão de uma nevasca nas próximas horas.

- Já estou sentindo falta do sol da Bahia... - sorriu Clara. - Vamos voltar, amor?

- Eu também queria, amor... queria estar na praia, com você, nas nossas pedras...

- Ah Grandão... vamos estar bem... tenho certeza...

- Eu também, querida...

Logo o piloto foi buscá-los na sala de trânsito do aeroporto e eles seguiram com ele em um carro até o pequeno jato que os esperava pronto em um hangar afastado. Desceram rápido e entraram no avião, a temperatura estava muito baixa e um vento úmido soprava aumentando ainda mais a sensação de frio.

- Querida... fica aqui pertinho de mim, que eu te aqueço... Não achei que fossemos encontrar tanto frio por aqui. Vou ligar para a Kate, amor... Kate, querida, já chegamos em Nova York, tudo bem com vocês? Vamos almoçar juntos hoje, não?   Ah, sei... entendo... está bem, querida, nos vemos no jantar então... Um beijo querida...

- O que foi amor?

- A Kate tem um compromisso para o almoço, uma festa lá na ONG dela...

- Ah, que pena amor...

- Ela está nos trocando pelos garotos que ela e o Mark atendem... poxa, viemos de longe para almoçarmos sozinhos...

- Ai querido... você ficou decepcionado, não?

- Um pouco... a Kate é terrível, quer apostar que ela vai nos dizer que não vai mudar mais para casa?

- Ah amor... esse almoço também pode ser uma despedida dos pacientes, dos colegas da ONG...

- Espero que sim...

- Senhor e senhora Noble... - disse o comandante. - Estamos prontos para a decolagem... vamos embora?

- Vamos sim, comandante Hawthorne... - sorriu Jack. - Antes que comece a nevar...

- Está muito frio mesmo, senhor Noble... - respondeu o piloto. - Chicago também está congelando, lá também tem nevado bastante nos últimos dias.

- Então é melhor partirmos o quanto antes... - disse Clara preocupada, ajeitando-se na cadeira e prendendo o cinto de segurança.

Logo o jatinho decolava levando-os em uma viagem bastante turbulenta de um pouco mais de uma hora. Tempo em que Jack passou em silêncio, enquanto Clara, tentava distrair-se dos solavancos dando uma olhada em seu iPad e descobrindo que toda a imprensa tinha ficado muito frustrada por não conseguir fotografá-los em São Paulo.

- Querido... estão dizendo aqui que nos escondemos da imprensa em São Paulo e que passamos alguns dias na cidade, no final das nossas férias, depois de irmos para um local secreto na Bahia.

- Que bom que eles não descobriram, querida... - disse Jack suspirando.

- Você está triste porque a Kate não vai almoçar conosco? - disse Clara, pegando a mão de Jack e beijando-a.

- Não consigo esconder... acho que estava muito ansioso para ver minha filha e meu neto e essa mudança de última hora me decepcionou um pouco.

- Não fica assim, querido... esse almoço só pode ser de despedida...

- Assim espero, amor... - Jack sorriu, levantando-se da poltrona. - Quer um uísque?

- Não, querido... é muito cedo para beber...

- Este avião está chacoalhando bastante e você não está com medo hoje?

- Você precisa do meu apoio hoje, querido... estou usando todas as minhas forças para me controlar...

Ouvindo aquilo, Jack caminhou na direção da poltrona de Clara e beijou-a. - Eu te amo, Menininha... Você é maravilhosa comigo... obrigado por me apoiar...

- Estarei sempre do seu lado, meu amor... - Clara disse, levantando-se de sua poltrona e sentando-se no colo de Jack. - Eu te amo...

Um aviso do piloto de que estavam aproximando-se do aeroporto de Chicago interrompeu o namoro dos dois. Eram 7:45 da manhã e a temperatura no aeroporto O'Hare era de apenas 5 graus centígrados.

- Amor, está frio... você está bem agasalhada? - perguntou Jack preocupado.

- Estou... este casaco de couro é bem quentinho...

- Cade minha bolsa de mão? Acho que tenho um cachecol lá para você... e uma touca para esquentar suas orelhinhas... - Jack sorriu. - Quero você quentinha para mim...

- Você me esquenta, amor... - sorriu Clara.

O desembarque foi rápido, os dois desceram do avião, entraram em um carro do aeroporto que os levou até o terminal de passageiros, retiraram a bagagem e seguiram até a locadora de carros onde Jack tinha feito a reserva de um jeep igual aquele que usava em casa, para usar durante os dias em que estivessem na cidade.

Com tudo acertado no escritório da locadora, eles pegaram o carro, embarcaram a bagagem e seguiram para o hotel Four Seasons, onde tinham uma reserva da mesma suite Royal que tinham utilizado há pouco mais de um mês atrás, quando o bebê de Kate nasceu.

- Até que podemos usar bem este cancelamento do almoço com a Kate... - disse Clara ao chegar na suite. - Não sei quanto a você, mas estou me sentindo muito cansada... acho que preciso de um banho e de algumas horas de sono para melhorar...

- Eu também, amor...

Os dois nem desfizeram as malas, tiraram as roupas, entraram juntos rapidamente no chuveiro e foram deitar-se na enorme cama do hotel, onde dormiram agarrados até o meio dia.

- Bom dia, querida... - Jack disse quando viu Clara abrir os olhos. - Então... está mais descansada?

- Estou amor... Vamos comer alguma coisa? Quer ir a algum lugar almoçar?

- Não sei, amor... - Jack ativou o controle remoto que abria a cortina que cobria a parede toda de vidro do arranha-céu. - Tenho a impressão de que está nevando lá fora...

- Tinha esquecido como a vista daqui é linda... - disse Clara levantando-se da cama e ficando ao lado de Jack na janela. - Amor... mas parece que está muito frio agora, olha essas nuvens... acho melhor pedirmos alguma coisa para o serviço de quarto e ficarmos por aqui mesmo...

- Não estou com fome, querida...

- Não fica assim... vem, me ajuda a escolher alguma coisa gostosa para nós... - Clara disse puxando-o pela mão de volta para a cama. - Vem querido...

Jack interrompeu-a, beijando-a. - Desculpa, amor... não queria te deixar triste...

- Eu não gosto de te ver triste, meu amor... - Clara disse abraçando-o. - Vem... vamos nos vestir... quer ir almoçar fora?

- Não... almoçamos aqui mesmo... não quero te levar nesse frio a toa... vamos escolher alguma coisa, comemos e depois, acho que podemos ficar por aqui mesmo, conversar, ver um filme...

- Já sei... vamos trabalhar no livro?

- Ótimo! Onde nós paramos, mesmo?

- Vocês estavam fazendo a primeira turnê pela Europa, depois que a banda estourou e o David estava doente...

- Ah! Isso mesmo... fizemos três shows na Inglaterra, era começo do outono e o David pegou pneumonia... o Brad não queria cancelar os shows e viajamos para o continente para alguns shows na França... Ele estava com muita febre e acabou desmaiando na metade do primeiro show, em Paris... Eu fiquei desesperado... tinha a impressão de que ele não conseguiria sobreviver, uma ambulância levou-o para o hospital; ele tinha se casado há pouco tempo com uma modelo e eu liguei para ela avisando sobre a situação... o Brad quase me matou quando soube...

- Ai amor...

- Então, vamos comer? Vem aqui escolher alguma coisa no menu, querida... Hum... queria bolinho...

- Eu também amor... - sorriu Clara. - Você se apaixonou mesmo pelos bolinhos de bacalhau...

- Sim... e não foi só por eles... o Brasil é um lugar maravilhoso... adorei estas férias, te conhecer melhor, conhecer melhor seus amigos, seus parentes, estar com você naquele paraíso... foi tudo delicioso...

- Também gostei muito, meu amor... Foi tudo perfeito e me senti muito feliz lá com você... foram férias de que nunca me esquecerei...

- Vamos pedir isso aqui... - disse Jack apontando para a foto de um rosbife com batatas que encontrou no menu. Parece bom...

- Parece sim, querido... - sorriu Clara. - deixa que eu ligo... vinho?

- Sim, amor... pede duas garrafas...

- E cheesecake de frutas vermelhas de sobremesa?

- Ótimo, querida... sabe... estou voltando a ter fome... - Jack sorriu. - Pena que teremos que nos vestir para almoçar...

- Não exatamente... podemos pedir que apenas tragam a comida... não precisamos de mordomo, garçons...

- Ótimo amor!

Clara fez o pedido e a comida foi trazida até a porta da suite, em um carrinho, ainda nus, Clara e Jack arrumaram a mesa da sala de jantar e almoçaram. Depois serviram-se de mais vinho e Jack continuou contando a ela sobre a turnê europeia de 1971, enquanto ela gravava tudo em um pequeno gravador. Estavam retomando o trabalho no livro e sentiam-se unidos e tranquilos.

Continua

16 de mai de 2012

Rockstar - Capítulo LXXXIV


Clara preparou o almoço com capricho, cortou uma peça de filet mignon, ainda sobra do churrasco; preparou uma salada de folhas com frutas e um risoto com um pedaço de queijo gorgonzola que comprou no mercado.

Para acompanhar, os dois beberam uma garrafa de vinho. Após o almoço,  arrumaram a cozinha e logo estavam prontos para ouvirem juntos pela primeira vez, o novo disco da banda Crossroads.

Trinta anos após o fim, a banda que inspirou Clara por toda a sua vida, agora inspirava-se no amor de um de seus membros por ela para voltar a tocar juntos e criar novas músicas.

- Querida, antes que comecemos a ouvir o disco, quero que você saiba que você é a razão maior dele existir e de tudo de lindo que tem acontecido desde que nos encontramos pela primeira vez, em Nova York. Eu te amo muito e tudo o que as letras deste disco dizem é para você...

- Meu amor... - sorriu Clara com lágrimas nos olhos. - Eu não sei nem o que te dizer... meu coração está transbordando de tanto amor.

- Vem, vamos ouvir o disco... chorando assim, você vai ficar desidratada... - Jack agarrou Clara e sentou-se com ela no sofá, enquanto tentava secar seus olhos.

Os primeiros acordes de "Unexpectedly" começaram a soar e já surpreenderam Clara. Ela ainda não tinha ouvido a versão final que agora contava com piano e violinos na introdução dando à música a mesma atmosfera romântica da versão que foi tocada durante seu casamento com Jack.

E o disco seguiu com todo o novo repertório, que ela já tinha ouvido de uma forma ou de outra, durante a composição, ensaios e gravações, mas que agora, finalizado, estava ainda mais bonito e emocionante.

Jack também estava emocionado, já tinha ouvido e aprovado todas aquelas músicas, mas agora chorava ao vê-la em seus braços, sentindo todo o amor que ele tinha colocado naquele trabalho, naquela música que, no final das contas, era a expressão de tudo o que sentiam um pelo outro, desde antes de  nascerem, quando tinham outros nomes e viveram uma história trágica.

Depois de ouvir o disco pela primeira vez, Clara e Jack tentaram controlar o choro, pararam o CD player, enxugaram as lágrimas e pegaram mais uma taça de vinho.

- Querida, vem, vamos nos arrumar e sair um pouco... - disse Jack acariciando-a. - Não gosto de vê-la  chorando desse jeito, meu amor... tenho que cuidar de você, Menininha... Vem, vamos tomar um banho, ligar para o Moreira e descer até aquele parque... precisamos nos distrair... não quero te ver triste, meu amor.

- Não estou triste, Jack... estou emocionada... meu coração está derretido de tanto amor, por você, por essa música maravilhosa. - Clara disse abraçando-o. - Mas estou achando uma boa ideia ir até o parque... hoje o dia está lindo e eu quero que você veja o por do sol ao meu lado.

- Ótimo... vou avisar o Moreira... engraçado, mas eu achei que a imprensa toda estaria na nossa porta quando chegássemos e não tinha ninguém. Acho que seu ex finalmente desistiu...

- Não conta com isso, querido... o Roberto deve estar agora mesmo se preparando para invadir nosso apartamento por helicóptero... Ainda bem que encontramos o Marcelo na loja e ele me ajudou a relaxar um pouco...

- Hum... o Marcelo? - riu Jack. - Ele me pareceu uma pessoa interessante... apesar da distração...

- Ele me reconheceu disfarçada, querido...

- Ah, mas ele conviveu com você por anos... não vale...

- Verdade... - sorriu Clara.

Os dois tomaram um banho rápido, vestiram-se, colocaram seus disfarces e já estavam prontos quando Moreira e seus homens chegaram para levá-los ao parque do Ibirapuera.

- É um dos meus lugares favoritos nesta cidade, Jack... tenho certeza de que você vai gostar...

- Você gostou do disco, meu amor?

- Gostar? Eu amei... querido... para mim foi muito emocionante...  Acho que os fãs, a crítica, enfim... todo mundo irá adorar esse disco, mas eu... não consigo encontrar  palavras para expressar a emoção que ele me causou.

- Não me importo muito com o que as outras pessoas possam pensar, só quero agradar uma pessoa neste mundo. Se eu consegui te agradar, então, consegui o que queria!

- Você me faz muito feliz, querido... Estou me transformando em uma garota mimada, de tanto que você me cerca de amor...

- Eu quero exatamente isso... te mimar...  - riu Jack.

- Estamos quase chegando, querido...

Os dois carros entraram pelo portão do parque e estacionaram lado a lado, próximos do prédio da Bienal. Para não chamar atenção, logo Jack e Clara separaram-se do grupo de seguranças, que passaram a seguí-los de longe, respeitando sua privacidade.

- Então Menininha... você vinha muito aqui?

- Sempre que podia... Aliás, eu pegava minha bicicleta, passava no escritório do Jonas, na avenida e sempre o convidava, mas ele nunca queria vir... - riu Clara. - O segurança do prédio dele implicava com a minha bicicleta e depois, o Jonas reclamava comigo... mas quanto mais ele reclamava, mais eu ía lá de bicicleta...

- Rebelde! - riu Jack. - Ah  Jonas... se eu estivesse no lugar dele... Nós já estariamos casados há anos, Menininha... Já teríamos uma porção de filhos...

- Como eu te disse, querido... o Jonas sempre foi meu amigo e um grande parceiro de trabalho e nem eu, nem ele, nunca quisemos misturar as coisas. Se namorássemos, provavelmente, não conseguiríamos chegar aonde chegamos...

- Tive muita sorte de vocês dois pensarem assim, querida... - sorriu Jack. - Este lugar é mesmo lindo, Menininha... Tem como alugar bicicleta aqui?

- Tem... vamos até lá... mas será que não vai complicar as coisas para o Moreira?

- Não vamos correr deles, querida... vamos passear bem devagar por aí... quero ver tudo...

- Está bem... - sorriu Clara. - Vamos descer por aqui, o aluguel de bicicletas fica ali adiante...

Clara entregou seu cartão de crédito para alugar a bicicleta e para sorte deles, o atendente não fez nada que indicasse tê-la reconhecido e em duas bicicletas, os dois percorreram uma boa parte do parque, quase vazio no meio da tarde.

- Vamos parar um pouco, Menininha? Quero tirar umas fotos suas ali, no meio daquelas flores...

- Ok, querido...

Os dois desceram de suas bicicletas e tiraram algumas fotos de ambos sentados no gramado, junto de flores com cores fortes, que tinham visto de longe.

- Você está linda, meu amor... - Jack disse olhando-a através da lente da câmera. - Estou gostando tanto daqui que acabei de me decidir, vou comprar mais um apartamento para nós aqui... quero um bem perto do parque, você vai passar sua gravidez inteira aqui, do meu lado... Peça para o Jonas escolher alguma coisa apropriada, confio no gosto dele.

- Querido... um apartamento aqui perto custa uma fortuna...

- Não tem importância... aqui, neste lugar, consigo te sentir feliz, relaxada... Você está quase levitando, amor... este aqui é o teu habitat, como o meu é a nossa montanha...

- Acho que sim, Jack... - sorriu Clara. - Somos perfeitos juntos, mas vivemos um bom tempo longe um do outro antes de nos conhecermos... é natural que já tenhamos nossos próprios lugares especiais...

- Você não quer passar a gravidez aqui?

- Não é isso, querido... eu quero sim... mas estou preocupada porque sei que não conseguiremos fazer isso, teremos muitos shows a fazer...

- Não... assim que você engravidar, acabou... quero estar do seu lado durante os nove meses e estaremos aqui, no Brasil, longe de tudo...

- Mas Jack...

- Mas nada, Menininha... não abro mão disso... faremos os shows que já estão marcados, faremos tudo o que combinamos e depois, serei seu marido e pai do nosso filho em tempo integral...

- Eu não vou permitir isso...

- Como, não vai, Menininha? Já decidi...

- Não, querido... você me entristece quando diz isso...

- Mas...

- Por favor, deixa eu falar?  Eu sei que ainda não te conheço tão bem, mas pelo que sei até agora, você não vive sem a música. Não quero ser uma razão para você afastar-se dela. Sei o quanto significa para você...

- Já te disse que você significa mais... Não quero te deixar sozinha um só minuto...

- Mas não vai... estaremos juntos todo o tempo, não precisamos nos afastar do mundo... Estaremos felizes em qualquer lugar em que estivermos, ok?

- Está bem, querida... Mas comprarei um apartamento de qualquer jeito... Você e o Brasil estarão para sempre na minha vida...

- Meu amor... você está decepcionado comigo, não...

- Claro que não, querida... por que eu estaria? Você é a mulher da minha vida.

- Então por que você quer me colocar nesta posição, de alguém que vai te roubar de algo que você ama, sua música, sua banda?

- Talvez eu esteja cansado... a música me fez sofrer muito... levou embora meu melhor amigo, meu filho, minha esposa...

- Eu entendo o que você me diz, mas tudo o que eu quero na minha vida é te ver feliz e você está me dizendo que voltou com a Crossroads só para me agradar e que isso te faz sofrer... como você acha que isso me faz sentir?

- Me perdoa, querida... Não quero te deixar triste, mas achei que você precisava saber como me sinto...

- Me perdoa você, Jack... eu não posso te levar a fazer uma coisa que você não quer...

- Mas eu quero...

- Então não estou entendendo... por que você fica me dizendo essas coisas? Você quer que eu me sinta culpada, é isso? Quer me torturar?

- Vem aqui, Menininha... não quero te torturar... eu só desabafei e agora sei que não deveria ter feito... A última coisa no mundo que eu quero é te fazer sofrer, meu amor... - Jack disse puxando-a para mais perto dele e abraçando-a. - Vamos conseguir, seremos felizes na estrada e fora dela...

- Eu já sou feliz, querido... Você me faz muito feliz, mas quero te ver feliz também e se isso não acontecer, não permitirei que você sofra sem tomar uma atitude, está bem?

Jack respondeu com um beijo apaixonado, estavam juntos e aquele amor ultrapassava mais uma fronteira, indo para onde segredos não conseguem mais existir.

- Amor... vamos ver o por do sol? - disse Clara ajeitando a bicicleta novamente para pedalar até o lago. - Vem, me segue...

Os dois pedalaram até a beirada do lago, sentaram-se no gramado apenas esperando o espetáculo das cores do céu, mudando no horizonte. Para não ficar desesperada, Clara tinha decidido silenciosamente que apenas pensaria nas implicações do desabafo de Jack, quando chegasse em casa.

- Ah querida... tem mesmo certeza que não quer ficar por aqui? Este lugar é tão bonito...

- Tenho, amor! Teremos muito a fazer nos próximos meses e por mais que tudo que tenhamos vivido até agora seja lindo... precisamos voltar ao nosso trabalho, você aos palcos, eu, terminando o livro e o roteiro... e juntos, fazendo nosso filho e cuidando um do outro, como cuidamos até agora...

- Seu plano é perfeito, querida... mas compraremos um apartamento aqui...

- Já temos um apartamento aqui, meu amor...

- Mas quero um lugar maior, para nós e nosso filho...

- Está bem, querido... sempre tive um desejo secreto de viver neste bairro, mas estava muito acima de qualquer coisa que eu pudesse pagar...

- Agora você pode... - sorriu Jack. - Quero te cercar de beleza por todos os lados, Menininha... vou ligar para o Jonas e ele vai procurar um bom negócio para nós...

- Então, vamos devolver as bicicletas e voltar para casa, amor?

- Espera um pouco... - disse Jack, abraçando-a. - Quero ter você um pouco aqui... Nossas férias estão quase no final e logo vamos voltar para casa...

- Antes vamos pegar o pequeno Jack no colo e brincar um pouquinho com ele...

- Isso vai ser lindo também, querida! Você sabe onde podemos comprar uns presentinhos para levar para ele?

- Sei... Vamos lá amanhã de manhã, que tal?

- Ótimo! E hoje?

- O que tem hoje?

- A noite vai estar linda, queria sair para beber em algum lugar, com você...

- Vamos sim, querido... Será uma noite linda sempre que estivermos juntos... aqui, em Londres, na nossa montanha... tanto faz o lugar... se a gente estiver assim...

- Você tem toda razão, Menininha. - Jack sorriu e beijou-a. - Então, vamos devolver as bicicletas?

- Vamos, amor...

Lentamente, eles pedalaram de volta até a barraca de aluguel de bicicletas, pagaram pelo serviço e então seguiram para onde os carros estavam estacionados para voltarem para casa.

- Demos muito trabalho para vocês hoje, Moreira... - sorriu Jack ao entrar no carro.

- Estamos aqui para isso, senhor Noble... Além disso, meus homens precisam de um pouco de exercício... - sorriu Moreira. - Os senhores vão para casa, agora?

- Sim, Moreira! Só espero que nossa casa não esteja cercada por jornalistas...

- Não acredito, senhor Noble... estamos fazendo tudo certo...

- Mas encontramos com um jornalista hoje de manhã, no parque perto da nossa casa... ele ameaçou chamar os colegas, mas até a hora em que saímos de casa, não tinha ninguém por lá...

- Saberemos logo se ele falou alguma coisa para alguém... estamos quase chegando... - sorriu Moreira. - Até aqui, tudo normal...

Em poucos minutos eles entravam na garagem do prédio e para alívio de todos, nada de anormal ao redor. O desembarque dos dois então foi rápido e Clara pediu a Moreira para levá-los a um shopping, no dia seguinte, às 10 da manhã.

- Então... acho que seu namorado desistiu de nós...

- Ah... com o Roberto tudo é possível... eu ainda tenho medo dele aprontar alguma coisa horrível...

- Vamos jantar fora, Menininha?

- Não, querido... ainda tem muita carne na geladeira, vou preparar mais um daqueles filés e uma salada... que tal?

- Hum... perfeito... ainda temos vinho, não?

- Sim, amor...

- Vou te ajudar a preparar nosso jantar... Gosto como a cozinha deste apartamento é pequena, querida...

- Jack, meu amor... - sorriu Clara. - Então... está gostando deste meu apartamentinho...

- Gostando? Eu viveria aqui o resto dos meus dias... Mesmo esbarrando com seus ex-namorados todas as vezes que saíssemos de casa...

- Você é adorável, sabia?

- Mesmo te decepcionando tanto quanto te decepcionei hoje à tarde?

- Você não me decepcionou, querido... fiquei feliz por você ter confiado em mim e dito a verdade, apesar dessa verdade não ser exatamente uma coisa que me agrade... tinha certeza de que você estava feliz de voltar para a Crossroads...

- Não exatamente, querida... mas vou fazer porque você estará lá, ao meu lado...

- E o David? O Mike?

- Gosto deles, o Dave é um irmão para mim... mas a Crossroads, querida... Toda vez que eu penso na banda, lembro do que aconteceu com o Don e me sinto mal. Ao mesmo tempo, lembro o quanto você adora essa música e sinto o prazer que você sente quando nos vê no palco...

- Mas é muito pouco para justificar a dor que você sente, meu amor...

- Não, querida... agora, eu vivo para te fazer feliz e isso me faz feliz, apesar de toda a dor... Descansa, Menininha... e me dá essa chance de te fazer feliz...

- Está bem... querido... Por enquanto, decidi que tentarei acalmar meu coração... Se você precisar de mim para desabafar, o que quer que seja, estou aqui... ainda sonho com o momento em que você vai me dizer que não sente mais estas dores... quero te curar, meu amor...

- E já me curou! Não se preocupa comigo, Menininha... só me deixa te fazer feliz... - Jack sorriu, pegando uma colher para misturar a salada. - Isto aqui, já está bom?

- Está ótimo, amor...  Acho que o filé também já está pronto... vamos jantar?

Jantaram, beberam vinho, tomaram um banho e vestiram-se novamente para sair. A ideia era aproveitar a noite quente e estrelada em um dos muitos bares com mesas na calçada, muito comuns em toda a avenida.

Escolheram um que ficava junto ao Masp; o bar tinha mesas espalhadas ao redor de árvores, um lugar tranquilo e agradável onde pediram cerveja e uma porção de bolinhos de bacalhau, um prato que transformou-se imediatamente na mais nova paixão de Jack.

- Querida, você sabe fazer esse prato? - perguntou Jack sorrindo. - De agora em diante, precisarei comer sempre... isso é muito bom!

- Sei sim, Grandão... Farei sempre que você quiser... - riu Clara. - Quero te enlouquecer de prazer na mesa e na cama...

- Você já me enlouquece, Menininha... Vai ser muito difícil ficar uma semana inteira sem ter você...

- Isso também me preocupa, querido... o médico não disse que poderíamos fazer uma inseminação artificial...

- Ah querida... quero fazer tudo certo... nosso filho precisa ser feito em uma noite como esta, linda, com o céu cheio de estrelas, não em um consultório médico...

- Eu sei, amor... mas uma semana sem você será horrível para mim também...

- Você pode ir para Paris, na tal da reunião com o Mick...

- Ah amor... não tenho a menor intenção de ir a esta reunião. Quero ficar em casa, cuidando de você...

- Mas mesmo para mim, é melhor que você vá... passa a semana toda lá... você me conhece, será uma tortura estar perto de você e não poder fazer nada...

- Mas vou gostar de cuidar de você, nem que tenha que dormir em um dos outros quartos...

- Essa é a minha Menininha... - Jack sorriu e pegou as mãos de Clara para beijá-las. - Você sabe que para mim, a ideia de você ir ao encontro do Mick é uma coisa que não me agrada, mas eu sei que você tem que trabalhar e, já que ele não vai mesmo largar do seu pé, você vai para a reunião e depois volta para mim...

- Vou pensar no que farei... ele não ligou mais, espero que tenha desistido dessa reunião...

- Não sei... ele só quer uma coisa... você...

- Mas eu não quero ele, aliás, achei que era impossível, mas a cada dia que passa me sinto mais e mais sua...

- Eu sou completamente seu, querida... Você costumava vir a este lugar?

- Sim querido... fiz muitas reuniões com o Jonas aqui e não só isso, também vinha me divertir com meus amigos... O telão hoje está desligado, mas já vi algumas vezes  shows da Crossroads e aquele seu DVD com o David.

- Vinha aqui namorar, também?

- Engraçado... mas agora que você está falando eu percebo que estive algumas vezes aqui com o Marcelo e com o Roberto, mas nunca trouxe mais ninguém... Preferia preservar os lugares que eu mais gostava para desfrutar com as pessoas que eu queria que ficassem na minha vida para sempre...

- Hum... eu também sou assim, Menininha... eu já te disse que você foi a primeira namorada que levei na nossa montanha, não disse?

- Eu sei, amor... E isso me deixou muito feliz...

- Vamos pedir mais uma porção?

- De bolinhos de bacalhau? - Clara riu ao vê-lo tentando repetir o nome do prato.

- Sim... isso... - riu Jack. - Vou aprender português, querida...

Os dois passaram mais algumas horas no bar e quando começava a madrugada, voltaram para casa a pé, com outra porção de bolinhos que pediram para viagem. Um pouco tontos com a cerveja, eles foram direto para o quarto e se amaram até o amanhecer, quando pegaram no sono abraçados.

Às nove da manhã, acordaram, tomaram banho juntos e prepararam-se para ir ao shopping. Logo desciam até a garagem onde Moreira e seus três auxiliares esperavam por eles.

- Bom dia, senhores... - disse Moreira ao vê-los aproximando-se. - Então, para qual shopping devemos ir?

- Morumbi, Moreira... - sorriu Clara. - Acho que é o mais tranquilo nesta hora da manhã...

- Está bem... mas não esperem por muita tranquilidade... - sorriu Moreira. - Não existem mais lugares tranquilos em São Paulo e nem mesmo o horário ajuda.

- Mas acho que não nos incomodarão... - sorriu Clara. - Ontem fomos ao Ibirapuera e depois, a um bar aqui na Paulista, onde ficamos muitas horas e ninguém nos reconheceu...

- Os senhores têm sorte, mas não vale a pena abusar dela... - sorriu Moreira. - O senhor Jagger sempre prefere que tomemos todos os cuidados e graças a isso, ele nunca foi incomodado aqui na cidade, apesar de vir aqui diversas vezes por ano...

- Nossos disfarces estão funcionando Moreira... - sorriu Clara. - Ninguém nos olha mais do que uma vez... acho que desta vez, estamos seguros...

- Espero que esteja certa, senhora Noble... Por serem lugares fechados, os shopping centers são os locais mais propícios a problemas que começam com o assédio simples dos fãs e terminam com perseguição da imprensa... precisamos de muita cautela...

- Mas se andarmos sozinhos, teremos mais chances de não sermos notados... - disse Jack.

- Sim, mas precisaremos estar próximos, para qualquer emergência... Como fizemos no parque...

- Aliás quero agradecer o que vocês fizeram para nós ontem... - sorriu Clara. - Vocês foram sensacionais...

- É o nosso trabalho, senhora Noble... - sorriu Moreira. - E novamente, o trânsito de São Paulo...

- Estamos tranquilos, Moreira... - sorriu Jack. - Só temos compromisso à noite e já sei que passaremos uma parte da tarde arrumando nossa bagagem; não é Menininha?

- Vamos arrumar, sim... amanhã vamos para Chicago, querido... você sabe a que horas é o voo?

- É às 9 da noite, querida... vamos para Nova York, infelizmente é um voo de carreira e, de lá, vamos de jato privado até Chicago.

- Vamos estar bem, querido... Você sabe que prefiro aviões grandes...

- Eu sei, amor... mas é tão mais confortável um avião só para nós...

- Ah, amor... mas eles balançam tanto... eu chego cansada e nervosa...

- Eu sei, amor... também fico assustado...

- Senhores, estamos chegando ao shopping, enquanto estacionamos os carros, os senhores descem para a praça de alimentação com meus dois homens. E lá nos aguardam... é importante que os senhores nos aguardem...

- Vamos tomar café da manhã, Moreira. - disse Jack. - Acordamos tarde e estamos com fome...

- Querido, neste shopping tem uma Starbucks... Vamos tomar café nela?

- Claro, amor... Moreira, vamos direto para a Starbucks...

- Perfeito... vocês pegam uma mesa, meus dois homens pegam outra e quando descermos, pegamos uma terceira, para não chamar atenção.

- E nós vamos comer nossos muffins de chocolate favoritos... não vamos, Menininha? - riu Jack.

- Vamos sim, amor....

Os dois desceram  do carro, em uma área do estacionamento que ainda estava vazia e logo chegavam à cafeteria. Como tinham calculado, naquela hora da manhã, o movimento do shopping ainda estava pequeno, o que deu a eles ainda mais segurança para relaxar.

Clara entrou na fila, fez o pedido e os dois já tinham começado a apreciar sua refeição quando Moreira e o terceiro segurança chegaram ao restaurante.

- Todo mundo já está aqui, o shopping está vazio e ninguém vai nos incomodar hoje... Tem alguma coisa melhor? - sorriu Clara.

- Somos perfeitos juntos, meu amor. - sorriu Jack. - E sendo assim, merecemos todos os muffins do mundo!

- Isso mesmo, querido... e os bolinhos de bacalhau também...

- Hum! Aqui tem algum lugar onde eles sirvam aquela delícia?

- Está viciado mesmo, amor... - riu Clara. - Acho que tem... mais tarde podemos procurar por aí, Grandão...

- Então vamos logo fazer as nossas compras, o Moreira pediu para não demorarmos muito...

Mais uma vez, os dois compraram roupas e brinquedos para o neto de Jack e já circulavam cheios de sacolas quando Jack viu a vitrine de uma das joalherias do shopping.

- Vamos comprar um presente para a Kate, amor? Olha esse colar da vitrine, que bonito...

- É lindo, amor... mas será que não vamos nos arriscar sermos reconhecidos... você não vai comprá-lo com dinheiro, vai?

- Vem, amor... eles não vão nos reconhecer...

- Está bem...

O colar da vitrine que tinha encantado Jack era uma gargantilha de pedras brasileiras coloridas, montada em ouro amarelo. Os dois entraram na loja e perceberam imediatamente que a segurança começou a movimentar-se.

- Jack, acho que estão com medo de nós, novamente... como naquela loja em Birmingham... - ela sussurrou no ouvido do marido.

- Acho que sim... - riu Jack. - Fica tranquila, amor...

- Bom dia. - Clara disse para a vendedora. - Gostariamos de ver aquele colar de pedras brasileiras da vitrine.

- Pois não, senhora...

- Noble, meu nome é Clara Noble.... - Clara disse sorrindo.

- Mesmo? - sorriu a vendedora. - A Clara Noble, a escritora, casada com o rockstar.

- Estamos disfarçados, mas somos nós...

- Desculpa senhora... não os reconhecemos... por favor, sentem-se... vou buscar o colar.

O tratamento mudou completamente assim que Clara se identificou. E mesmo disfarçados, os dois posaram para algumas fotos ao lado dos vendedores da loja e deram alguns autógrafos.

Antes de sair, eles pediram que os vendedores esperassem um pouco para postar as fotos na internet, para que tivessem a chance de ir embora do shopping sem serem descobertos e foram atendidos e o único que não gostou nada da ideia deles terem revelado sua identidade foi Moreira, preocupado com o que poderia acontecer, assim que a notícia da presença dos dois em São Paulo, se espalhasse.

- É uma pena, senhora Noble... - disse Moreira ao entrar no carro depois de acomodar todas as sacolas no porta malas. - Estávamos indo tão bem...

- Fiquei com medo... os seguranças da joalheria estavam prestes a chamar a polícia, me desculpe, mas tive que dizer a eles que não estava lá para assaltar a joalheria.

- Não tem importância, senhora Noble. - sorriu Moreira. - Nós estamos preparados para qualquer eventualidade.

- Ótimo, Moreira! - sorriu Jack. - Sabemos que podemos contar com vocês!

No caminho para casa, os dois estavam tranquilos, almoçariam, arrumariam a cozinha, as malas para a viagem no dia seguinte e depois estariam livres para descansar um pouco e prepararem-se para jantar com os parentes e amigos de Clara em uma pizzaria. 

- Você não quis que eu te comprasse um presente hoje, lá na joalheria... você não gosta de joias, amor?

- Gosto... claro que gosto, amor... mas você já me mima tanto. Já estou  ficando com medo de que você me estrague...

- Mas eu quero te estragar, Menininha... quero vê-la sempre linda e feliz, querida.

- Não preciso de presentes ou jóias para ser feliz... já tenho você!

- Isso você tem mesmo, meu amor... - Jack sussurrou em seu ouvido.

Mais uma vez os dois tinham exagerado nos presentes para o pequeno Jack e tiveram alguma dificuldade para encaixar tudo em suas malas. Jack  mostrou novamente  uma incrível capacidade de organização e solucionou todo o problema de espaço. Fora das malas, só ficaram poucas peças, que ainda usariam, ou que tinham sido lavadas e estavam secando na área de serviço.

- Pronto, amor... o que devo fazer agora? - sorriu Jack. - Como posso melhor serví-la?

- Vem aqui, Grandão... - sorriu Clara puxando o marido até a sala. - Passamos tantos dias aqui e não fiz ainda uma coisa...

- O que? - Jack sorriu maliciosamente, estendendo as mãos para começar a despí-la.

- Não é isso... - riu Clara. - Lembra que te disse que sei tirar o Tarot?

- É mesmo! - Jack sorriu. - Minha bruxinha favorita... Aliás... quando você estava em dúvida se queria ou não ir para Nova York me encontrar, o que as cartas disseram?

- Primeiro tudo estava muito nebuloso, apareciam cartas muito estranhas e eu fiquei ainda mais perdida do que já estava; mas lembro que assim que decidi que viajaria, saiu "A Estrela", que é uma carta que significa esperança e coisas novas...

- Hum... lindo!

Clara pegou um pequeno pacote na gaveta, embrulhado em um lenço azul marinho com planetas e estrelas desenhadas em dourado e levou-o até a mesa da sala de jantar. Depois, foi até um pequeno altar que mantinha em um canto da sala de estar e pegou uma vela, um porta incenso, uma pequena drusa de cristal transparente e um  cálice de prata, com flores delicadas em relevo, que tinha comprado em uma feira de antiguidades.

- Que bonito, achei que as cartas bastavam... - sorriu Jack ao vê-la arrumando todos os objetos sobre a mesa.

- Cada um destes objetos simboliza um dos elementos. - ela disse apontando para eles. - Água, terra, fogo e ar...

- Gosto muito destas coisas, querida... sabe que sempre tive muito respeito pelos antigos rituais, desde a época em que ouvia meu avô falando sobre eles...

- Eu sei, amor... quando você me contou sobre sua relação com o seu avô, lembro que senti em meu coração uma onda enorme de ternura... É lindo o que você sente pelas suas raízes celtas...

- Acho que sempre me senti ligado àquela montanha, você não sabe, Menininha o que eu sentia antes de te conhecer, sempre que subia lá... era como chegar em casa, mas encontrá-la vazia... faltava você...

- Ah, meu amor... - Clara beijou-o emocionada. Mesmo agora que sabia algumas das razões para aquele sentimento, as emoções a tomavam completamente. - Sinto tantas coisas quando penso em nós, na nossa montanha...

- Eu sei, querida... sinto isso também... - Jack disse, com os olhos cheios de lágrimas.

Os dois se abraçaram e ficaram alguns minutos assim, parados, em silêncio, no meio da sala de jantar. Pareciam dançar, sem música, carregados por uma avassaladora onda de amor, que os atingia em cheio.

Ainda emocionada, Clara pegou Jack pela mão e levou-o até a cozinha, onde serviu vinho para ambos, esforçando-se para voltar à concentrar-se naquilo que pretendia fazer que era tirar as cartas do Tarot para Jack.

- Amor... é melhor eu te explicar como o Tarot funciona... embora exista toda essa aura mística e ele tenha a fama de ser uma forma de advinhar o futuro, ele é uma ferramenta que vai buscar as informações no nosso inconsciente; uma parte da nossa mente que é muito sábia, vê tudo, guarda tudo, entende tudo... mas tem um pequeno problema, ela só conhece uma linguagem, a simbólica, coisa que nosso consciente tem uma certa dificuldade em entender, daí sonhamos, temos intuições, impressões e pensamentos estranhos, que podem ser importantes, mas nem sempre entendemos o que querem dizer.

- Daqui a pouco você vai me dizer que não é uma bruxinha... por favor, não me tire essa alegria de saber que você tem muitos poderes... - Jack sussurrou no ouvido de Clara.

- Todos temos poderes, meu amor... somos deuses brincando de humanos... Vem, vamos nos preparar para ler o Tarot para você...

- Espera... - disse Jack, puxando-a pela mão e beijando-a apaixonadamente. - Eu te amo tanto, Menininha...

- Você é meu paraíso, meu amor... - sorriu Clara. - Vamos ver o que o Tarot pode fazer por você?

- O que eu devo perguntar querida? - disse Jack quando os dois sentaram-se ao redor da mesa da sala de jantar.

- Aquilo que você mais quer saber... você pode perguntar o que esperar agora ou até pedir um conselho sobre como resolver algum problema. Agora não estou aqui como a sua mulher, mas como alguém que vai ajudá-lo a entender o recado que o teu inconsciente quer te dar.

- Querida, então já sei o que vou perguntar... - Jack agora esforçava-se para sorrir. - O que devo fazer para que a Crossroads deixe de doer tanto?

- Ótimo! Você fez uma pergunta muito boa, amor... Agora vou me concentrar em limpar minha mente, enquanto você se concentra na sua pergunta...

Clara pegou o baralho de tarot, separou somente os arcanos maiores e agora fechava os olhos, lutando para limpar sua mente e manter-se distante, o ideal era que suas opiniões sobre o assunto não interferissem na escolha das cartas, isso seria mais fácil se a pessoa que estava em sua frente fosse completamente desconhecida, mas seu envolvimento com Jack fatalmente atrapalharia aquele processo. Ela usou então uma respiração que costumava usar antes da meditação e pediu à Deusa que iluminasse seu entendimento para que pudesse ajudá-lo da melhor forma naquele momento.

Depois, quando sentiu que era o momento certo, ela apoiou o baralho na mesa, sobre o pano, estendendo as cartas em uma fileira e pediu que ele escolhesse aleatoriamente cinco delas, para a leitura.

Clara posicionou as cinco cartas na ordem em que foram tiradas, no formato de uma cruz. Depois abriu a primeira delas e apareceu uma figura feminina, segurando sem demonstrar que fazia qualquer esforço a boca de um enorme leão, chamada "A Força"; o arcano número XI, que fez Clara abrir um largo sorriso.

- Querido... esta carta diz o que está a favor da sua questão, o que você já tem em você para resolvê-la e "A Força" significa que você não só está muito disposto a buscar essa solução, como está comprometido em buscá-la; muito bem Jack, você tem muita vontade de melhorar...

- Tem razão, amor... - Jack disse sorrindo. - É uma mulher, segurando um leão?

- Sim querido... ela fala de uma vontade superior controlando nossos instintos... Reparou que tem um símbolo do infinito no chapéu dela?

- É mesmo! Olha só... estas cartas são lindas, amor...

- Este baralho é francês, ganhei do Marcelo, ele tinha uma coleção de tarots e até um mini baralho que carregava sempre no bolso... Amor, preciso me concentrar de novo para virar a próxima carta...

- Esta próxima carta é o obstáculo, o que está no seu caminho, que impede ou atrapalha  que você solucione este problema. - Clara virou a carta e apareceu uma figura de ponta cabeça, pendurada pelos pés. - Querido, este é  "O Enforcado" e significa que embora você tenha todos estes sentimentos de tristeza e amargura, eles começarão aos poucos dar lugar a novas ideias, que suas dores estão com o tempo contado... Amor... isso é muito bom!

- Engraçado, mas me sinto assim... preso por uma coisa que já não me serve mais... racionalmente faz todo sentido do mundo, mas não passa um dia em que não pense nisso, em que não me culpe de algum jeito por tudo o que aconteceu.

- Mas o primeiro passo você já deu... falta só reforçar essa ideia de libertar-se e logo, você se sentirá muito melhor, meu amor...

- Esta terceira carta aponta o caminho, a direção que deve ser tomada para que você alcance a paz que tanto quer. - Clara virou a carta que apresentava uma mulher nua, abaixada despejando dois jarros de água em uma fonte sob a luz de uma estrela brilhante. - Amor...  esta carta é "A Estrela"! E é a melhor possível também... ela fala de esperança, de otimismo, de despir-se de tudo, despojar-se do passado e colocar-se nu perante essa nova situação. Esquecer o que te incomoda, medos, preconceitos... acreditar que tudo irá melhorar, porque tudo irá melhorar... lindo demais, querido... - Clara pegou a mão dele sobre a mesa, já com os olhos cheios de água.  - Amor... não poderia ser melhor... que cartas lindas que você tirou...

- Seu amor por mim é que é lindo, Menininha... Sabe o que  vejo nesta carta? Você é a estrela que me ilumina...

- Ah Jack, não fala assim... você me emociona muito quando diz essas coisas...

- Estou dizendo a verdade, querida... preciso ser muito sincero agora, eu sinto que esta carta me fala do quanto teu amor já fez por mim e o quanto ele ainda fará...

Clara respirou fundo, queria beijá-lo, mas não podia, tinha que voltar a concentrar-se nas cartas.

- Meu amor... esta próxima carta é uma espécie de resposta final, aquilo que você pode obter como resultado de suas próximas ações... - Clara disse virando a quarta carta, onde se via uma mulher seminua, dançando com dois bastões em suas mãos, cabelos ao vento, no centro do que parece ser uma guirlanda feita de folhas verdes. Quatro seres fantásticos  ao redor dessa guirlanda, um anjo, uma águia, um touro e um leão; ocupam os quatro cantos da carta. 

- Outra mulher nua... significa que uma linda criatura será a responsável pela minha cura... principalmente quando está nua...

- Jack... meu amor... "O Mundo" é a melhor carta do Tarot... estou feliz por você... como você pediu um conselho, sobre como agir, esta carta pede que você mude seus horizontes, procure olhar para o mundo como quem está recomeçando... E pode ter certeza que no que depender desta mulher nua aqui... você terá todo o apoio que precisa para que isso aconteça...

- Obrigado, meu amor... - Jack pegou a mão de Clara e a beijou. - Você é meu anjo... minha própria vida.

- Falta só mais uma carta, querido... vou virá-la agora... ela fala sobre a tua atitude sobre a sua própria pergunta, como se sente agora com esta sua dor... - Clara virou a carta que tinha uma figura assustadora, uma caveira passeia por um campo, onde se vê pedaços de corpos mutilados.

- Verdade, amor... esse sou eu... quase morto... "A Morte"... vou morrer logo, então?

- Não, amor... não... esta carta não fala de morte física, fica tranquilo... aqui ela só está servindo para mostrar que é um momento de transformação e de libertação, você se liberta do passado e começa uma nova vida, onde tudo começa a mudar a partir do instante em que você decidiu mudar... Querido, não poderia estar mais feliz por você, meu amor! - Clara levantou-se da cadeira e sentou-se no colo de Jack, beijando-o como se estivesse prestes a perdê-lo.

Jack começou a despí-la e os dois se amaram no pequeno sofá do apartamento,  onde sentiram que uma imensa onda de ternura os envolvia e acariciava. Eram mais uma vez Berthold e Ceridwen banhando-se na luz da Deusa, agarrados a uma felicidade momentanea, mas infinita.

Continua

7 de mai de 2012

Rockstar - Capítulo LXXXIII



- Alô! - Clara respondeu completamente tonta ao seu celular que gritava antes das 7 da manhã. - David?

- Bom dia, princesa! - sorriu David do outro lado da linha. - Posso falar com o velhão? Tentei o telefone dele, mas está desligado...

- Claro... amor... é o David... - Clara entregou a ele o telefone e foi até o banheiro, para dar-lhe um pouco de privacidade. Lavou o rosto, prendeu os cabelos e vestiu seu robe, antes de ir para a cozinha preparar o café da manhã. Panquecas, chá, queijo, manteiga, pães e geléias.

- Bom dia, amor... - disse Jack enquanto ela terminava de preparar a mesa. - Desculpa, o David não parece ter a mínima noção do que é fuso horário...

- Não tem problema, querido... boas notícias?

- As melhores... parabéns, senhora Noble, seu disco já alcançou platina no dia do lançamento e recorde mundial de vendas. Até agora, apenas 10 da manhã lá em casa, já vendeu mais de três milhões de cópias só hoje e ainda não computaram a pré-venda.

- Meu Deus! Parabéns, meu amor! Vocês merecem muito mais do que isso. Vamos sair para comemorar depois do café?

- Sim, meu amor! Quero te mimar hoje o dia todo... Vamos levar aquelas fotos para copiar?

- Vamos... tem um laboratório bem perto daqui e depois podemos ir andar um pouco no parque...

- Aquele parque lá embaixo?

- Não, amor... esse é mais perto, a entrada dele é aqui na avenida mesmo...

- Ótimo! Não vamos precisar do Moreira, vamos? - sorriu Jack.

- Não, querido... fomos no mercado ontem e não fomos reconhecidos, duvido que hoje, aqui por perto,  alguém vá nos perturbar... Será que o disco sai hoje aqui também?

- Acho que sim... é lançamento mundial, não?

- É que o Brasil é meio estranho nestas coisas... nunca se sabe...

- Tem alguma loja boa para isso por aqui, Menininha?

- Tem duas ótimas... não se preocupe, querido... vamos dar uma olhada nelas mais tarde. Quero comprar alguns discos para distribuir para minha família e meus amigos...

- Acho que passaremos dos cinco milhões de discos ainda hoje, querida... - riu Jack. - Quantos discos você vai comprar?

- Uns 20... não quero esquecer de ninguém...

- Será que isso não chamará atenção na loja?

- Verdade... não tinha pensado nisso... acho que vou comprar aos poucos... uns 5 de cada vez...

- Melhor... - sorriu Jack. - Hum, amor... estas panquecas estão deliciosas...

- Obrigada, querido! Foram feitas com muito amor... Aliás, não disse nada, mas muito obrigada por tudo o que você fez ontem à noite. Por tratar tão bem minha família, meus amigos... fiquei muito feliz...

- Meu amor... eu amo você e os amo também. Gostei muito de conhecê-los melhor ontem... e também te conhecer melhor... Vou copiar seu album de fotos de infância inteirinho. Quero levar estas fotos conosco para casa... Você era uma criança linda, parecia um anjo... Amor, só uma coisa eu não entendi...

- O que, querido?

- Sua mãe me perguntou super preocupada se você estava comendo direito...

- Ah... - suspirou Clara. - Melhor eu te contar... quando tive aquela depressão, porque briguei com o Roberto, lembra?

- Sei, amor... o que tem?

- Eu parei de comer... fiquei uma semana sem comer e fui parar em um hospital, quase morri... Minha família tem medo que aconteça de novo...

- Meu amor... - disse Jack segurando as mãos de Clara. - Vou cuidar ainda mais de você... sempre...

- Não precisa, querido... - sorriu Clara, os olhos molhados. - Aprendi minha lição... Eu nunca mais deixarei ninguém acabar comigo como o Roberto acabou.

Jack abraçou-a e os dois ficaram quietos abraçados por alguns minutos.

- Meu amor... me perdoa... demorei muito tempo para te achar... - Jack chorava agarrado a ela agora.

- Querido, não foi culpa sua... foi minha... eu deixei acontecer, era uma criança boba e me desesperei demais, depois dele ter acabado com o resto de auto-estima que eu tinha. O ruim é que foi para sempre, depois da internação, nunca mais meu metabolismo foi o mesmo. O médico me disse que tenho um problema genético, que ficaria quietinho se eu nunca tivesse passado fome. Como eu parei de comer... acabei ficando com essa anemia para sempre...

- Amor... não tinha ideia... Por isso você faz aquele tratamento para não ovular?

- Sim, querido... Como meu corpo tem muita dificuldade de processar o ferro que eu como, fico anemica e assim, quanto menos eu sangrar, é melhor...

- Mas você pode ter filhos, não pode?

- Posso sim... segundo meu médico, é só deixar de tomar a injeção de hormônios, quando o prazo dela vencer, que volto a ovular normalmente e posso engravidar.

- E quando isso vai acontecer?

- Deixa eu ver... o médico agendou uma consulta para o dia 20/12. Mas assim que chegar em casa, vou marcar uma consulta para que ele me prepare para engravidar, fazer exames, tomar vitaminas e assim que passar o efeito da  injeção de hormônios, estarei pronta.

- E até lá continuamos tentando sempre, não?

- É, Grandão... - riu Clara. - Mesmo porque acho que não consigo mais viver sem... Você me acostumou muito mal...

- Vem aqui, vem...  - Jack disse sentando-a em seu colo e beijando-a. - Vamos trabalhar muito nisso... no nosso filho... Não vejo a hora de ter ele nos meus braços e antes disso, de ver essa barriguinha magrinha bem grandona... acho que assim que você engravidar, tirarei férias e só volto a trabalhar depois que ele tiver uns 3 anos...

- Você é maravilhoso demais comigo... estou me transformando em uma garota terrivelmente mimada... - sorriu Clara, beijando-o.

- É isso que eu quero... vou estragar você... te dar tudo o que você quiser ou sonhar...

- Então... meu lindo... vem me ajudar a arrumar a cozinha, vamos sair, quero passear com você o dia todo hoje...

- Seu desejo é uma ordem... - sorriu Jack. - Vamos cuidar da cozinha e, depois, eu cuido de você... Vamos almoçar na rua?

- Minha mãe me deu tanta comida ontem, que tenho dó... Voltamos para casa e eu preparo um almoço para nós... Vamos passar no mercado para comprar umas frutas e verduras frescas para complementar nossa refeição... que tal?

- Não poderia pensar em nada melhor... Como é bom estar aqui com você...

E em clima de muito amor, os dois arrumaram toda a cozinha e depois cuidaram um do outro e prepararam-se para sair. Com roupas simples, mas usando seus disfarces, os dois pegaram o elevador e desceram até o térreo.

- Bom dia,  seo Raimundo! - Clara disse ao porteiro do prédio, que parou alguns segundos antes de responder.

- Bom dia... a senhora é nova no prédio?

- Não, seo Raimundo... sou eu, a Clara do 712... - sorriu ela. - Você não me reconheceu?

- Dona Clara! Mas a  senhora está tão diferente...

- Estou disfarçada! Este aqui é meu marido, Jack Noble.

- Oi, muito prazer... - disse Raimundo estendendo a mão para Jack que sorriu.

- Ele não fala nossa língua Raimundo... - sorriu Clara.

- O seu Jonas falou que a senhora vinha, deixou ordens de não dizer para ninguém que a senhora está aqui. Sabe o seo Roberto?

- Sei... o que tem ele?

- Ele veio aqui ontem "de tarde" para perguntar da senhora e eu disse que a senhora estava viajando...

- Isso mesmo, seo Raimundo... ele não pode saber de jeito nenhum que estamos aqui... Sempre que ele vier aqui, ou ligar perguntando, o senhor diz que não me vê desde que eu viajei, está bem?

- Sim, dona Clara. - sorriu Raimundo. - Parabéns pelo casamento! A senhora vai morar aqui?

- Obrigada, seo Raimundo. - sorriu Clara. - Não... estamos de férias e vamos embora no sábado. Viemos só para descansar um pouco e depois voltamos para Londres. Meus irmãos irão cuidar do meu apartamento, até eu decidir o que fazer com ele, mas é provável que volte aqui, de tempos em tempos, só para passar uns dias... Bom... agora eu e meu marido vamos passear um pouco por aí... bom dia seo Raimundo!

- Bom dia, dona Clara, seo Jack...

- Bom dia, seo Raimundo... - Jack respondeu em português.

Os dois saíram para caminhar de mãos dadas pela avenida, primeiro foram até o laboratório fotográfico onde pediram cópias de todas as fotos do álbum de infância de Clara e combinaram de ir buscá-las no final da tarde.

- Então, amor... vamos aonde agora?

- Vamos até o parque... aproveitamos agora que não temos nada nas mãos para dar um passeio lá e depois subimos para comprar algumas coisas... que tal?

- Perfeito! Vamos aproveitar nosso dia, então, querida... Como o sol daqui é bom... lá em casa as pessoas sonham com uma coisa assim, mas quase nunca temos... vocês têm muita sorte...

- O parque é ali, amor... do outro lado da rua...

- Muito perto, querida... sabe que estou começando a adorar este lugar em que você morava.

- Sempre gostei muito daqui, Jack. - sorriu Clara, levando Jack através de um corredor coberto pelas árvores, até seu banco preferido dentro do parque. - Este parque era meio estranho até algum tempo atrás, mas agora voltou a ser ocupado pelas pessoas da região.

- Sabe amor... estava aqui pensando... quando estiver grávida... podemos passar alguns meses aqui... no seu apartamento mesmo, ou compramos um outro lugar aqui por perto... o que você acha?

- Eu acho maravilhoso, amor... mas será que conseguiremos? Temos uma turnê para fazermos, lembra?

- Sim, querida... mas vamos conseguir fazer tudo... você vai ver...

- Confio em você tão completamente que sei que daremos conta de tudo, meu amor... Você está ouvindo?

- O que?

- O canto desse pássaro... está ouvindo?

- Lindo, querida... Você sabe que tipo de pássaro é esse?

- Não sou especialista, mas acho que é um sabiá... ele está sempre por aqui, de manhã... Sempre que podia vinha aqui para ouví-lo... é lindo, não?

- Muito lindo, querida... Estou adorando conhecer os lugares da sua vida, querida...

- Estou muito feliz de mostrá-los a você, meu querido...

- Clara? - disse repentinamente uma voz que ela conhecia muito bem. - Então é verdade... você está mesmo em São Paulo.

Jack levantou-se imediatamente do banco, disposto e pronto a protegê-la. Clara também levantou-se, pegou a mão de Jack com sua mão trêmula e gelada.

- Não conhece mais os amigos? - disse Roberto com sua expressão mais cínica, fazendo o impossível para tentar disfarçar sua vontade de rir, diante do medo que havia causado.

- O que você quer? - perguntou Clara sem paciência para os jogos do ex-namorado.

- Uma entrevista... lembra? - sorriu Roberto. - Te pedi uma em Paris...

- Você deveria ter procurado o Michael... agora não estou dando entrevistas para ninguém... estou de férias com meu marido...

- Ah... mas eu sou seu amigo... esta regra não deveria valer para velhos amigos...

- Roberto, ela já respondeu... ela não dará entrevistas. Você está invadindo um momento particular nosso... por favor vá embora...

- Este lugar é público, senhor Noble... Como será o paradeiro de vocês, caso a Clara continue me dizendo que não dará entrevista...

- Chantagem, agora? - ela respondeu revoltada caminhando na direção dele. - Quer saber? Pode fazer o que quiser, publicar meu endereço na primeira página de todos os jornais do Brasil... Não vou te dar nenhuma entrevista, nem agora, nem nunca mais... Chega! Tenho seguranças contratados para nos proteger, caso a imprensa nos persiga... e por favor, nos deixe em paz, ou chamarei a polícia...

Jack também deu alguns passos para a frente, protegeu Clara em um de seus braços e lançou um olhar decidido na direção de Roberto.

- Chega, Roberto! Não queremos vê-lo mais por perto e se você insistir, buscaremos nossos direitos. Deixe minha esposa em paz!

- Está bem... Depois não reclamem... - disse Roberto afastando-se deles.

- Você está bem, querida? - disse Jack abraçando Clara. - Nossa, você está gelada...

- Desculpa amor... mas fiquei muito nervosa... E agora? O que faremos? Será que ele vai mesmo colocar toda a imprensa no nosso pé?

- Não importa, querida... temos nossos seguranças e vamos embora no sábado... fica tranquila, meu amor... Quer ir para casa?

- Não, amor... Vamos em algum lugar, preciso beber alguma coisa...Minha garganta está seca...

- Vamos, meu amor...

Os dois caminharam até a saída do parque e foram a um café, dentro de uma livraria, próxima do parque. Mesmo naquela manhã de sol quente, Clara tremia e tinha as mãos geladas, o que deixava Jack bastante preocupado.

- Calma, meu amor... Vamos tomar alguma coisa bem quentinha... quer um capuccino? - disse Jack sentado ao lado dela na cafeteria da livraria, vou entrar na fila...

- Não amor, eu vou... se te reconhecem...

- Não vão me reconhecer, Clara. Descansa um pouco, vou pegar alguma coisa para nós... quer um daqueles muffins de chocolate que você gosta tanto?

- Quero, amor... você é lindo e eu te amo!

- Eu te amo, querida... - Jack disse dando-lhe um beijo e caminhando até a fila de clientes para fazer o pedido dos dois.

Enquanto Jack esperava por sua vez na fila, Clara ouviu outra voz conhecida próxima dela.

- Clara? É você? Lembra de mim?

- Oi Marcelo... - sorriu Clara desconcertada ao ver outro de seus ex-namorados reconhecê-la mesmo disfarçada. - Claro que me lembro.

Jack percebendo de longe a aproximação de um homem desconhecido da mesa de sua esposa, saiu rapidamente da fila e caminhou de volta até ela.

- Tudo bem, querida? - Jack perguntou ao aproximar-se.

- Tudo amor... este é Jack, meu marido, Jack, esse é o Marcelo Leibowitz, meu ex-namorado.

- Como vai... - Marcelo estendeu a mão para Jack e sorriu. - Então você também se casou... só que seu marido não fala português e eu me casei com a Silvia, lembra dela? A nossa professora de Yoga?

- Claro, Marcelo...

- Sente-se conosco, Marcelo, aceita um café? Vou buscar para nós...

- Obrigado! Aceito sim, seu marido é muito gentil, Clara... - disse Marcelo puxando uma cadeira da mesa ao lado para sentar-se com eles.

- Então, o que você tem feito. além daqueles livros maravilhosos... comprei todos e achei-os geniais...

- Muita coisa, Marcelo... - sorriu Clara pensando no quanto era estranho seu ex desconhecer tudo o que estava acontecendo ultimamente em sua vida. - Então, você e a Silvia...

- Pois é... faz uns seis meses, eu vivi em Paris nos últimos quatro anos e quando estava quase terminando meu curso de extensão, encontrei com ela na rua, por acaso. Saimos juntos por lá e acabamos nos apaixonando. Você conhece Paris, não?

- Minha lua de mel foi lá...

- Então você sabe o que eu quero dizer... E você? Onde conheceu o Jack?

- Em Nova York... - sorriu Clara. - É uma longa história, mas um mês depois estávamos nos casando...

- Sério? Assim rápido?

- Nos apaixonamos um pelo outro no momento em que nos vimos pela primeira vez... Não tinha porque esperar mais tempo...

- Que lindo! Eu fico feliz que isso tenha acontecido com você! O que ele faz?

- É músico... - Clara disse ainda surpresa por Marcelo não saber absolutamente nada sobre aquilo que a mídia não cansava de publicar sobre os dois.

- Você sempre gostou de música, não Clarinha?

- Sim, sempre gostei... - Clara disse fazendo o possível para segurar seu riso.

- Eu me lembro... - riu Marcelo. - Você era fanática por Stones, Crossroads... estava sempre ouvindo aqueles seus discos... Seu marido é de alguma banda?

Clara respirou fundo e aproveitou a chegada de Jack na mesa para fugir da pergunta.

- Café para mim e para você, capuccino para a Clara e muffins de chocolate para todos... - sorriu Jack. - Então você é o ex-namorado da Clara que é terapeuta, certo?

- Isso... namoramos uns cinco anos, não foi?

- Isso mesmo... quando eu terminei com o Roberto, eu fiquei doente e precisei de um terapeuta, minha mãe me apresentou para o Marcelo, mas a gente se encontrou em um lançamento de livro logo após a primeira sessão de terapia e acabamos namorando...

- E sendo assim, eu não podia continuar como terapeuta dela...

- Cinco anos? É um casamento... - disse Roberto, olhando para Marcelo com uma certa admiração.

- É, mas não foi... quando começamos a morar juntos, acabamos terminando... o Marcelo não tinha muito tempo para mim, não é?

- Mas você também já tinha começado a escrever seus livros e estava fazendo sucesso com eles, viajando, dando entrevistas...

- E você, trabalhando na sua pesquisa... - sorriu Clara. - Então,  finalmente você terminou sua extensão?

- Terminei! Finalmente mesmo! Agora estou organizando o material para escrever outro livro e devo voltar a lecionar aqui em São Paulo... e sua mãe? Ela ainda está lecionando?

- Não, acabou de aposentar-se... ainda está se sentindo um pouco perdida em casa...

- Sua mãe é uma grande professora... e uma grande amiga...

- Ela gosta muito de você... sorriu Clara. - Você tem o telefone dela? Liga para ela e vai visitá-la com a Silvia, ela vai gostar de revê-los. É uma pena, nós vamos embora no sábado, ou poderíamos marcar um jantar com vocês e meus pais.

- Você ainda não me disse de que banda o Jack é... - riu Marcelo. - É algum segredo?

- Da Crossroads, Marcelo... lembra da Crossroads?

- Sério? - riu Marcelo. - Meu Deus, como eu sou distraído... Esse é o famoso Jack Noble...

- Sim... - riu Jack. - Em carne, osso e boné...

- Desculpa não tê-lo reconhecido... mas nem imaginava isso... faz um bom tempo que perdi o contato com o resto do mundo, por assim dizer, mergulhado no meu trabalho.

- Não tem qualquer importância... - sorriu Jack. - Então você não deve nem estar sabendo que graças à Clara,  a Crossroads está voltando aos palcos...

- Mesmo? Você conseguiu isso, Clara? Puxa!

- E ela cantará no palco conosco... gravou uma das faixas do nosso novo disco que está saindo hoje...

- Nossa! Isso é grande, Clarinha! Grande mesmo! Estou muito feliz por vocês dois... A Silvia vai ficar maluca quando souber... ela também adora a Crossroads... Bem, foi muito bom encontrá-los, mas preciso voltar para casa... disse para a Silvia que vinha só pegar um livro que encomendei e já estou há um tempão aqui, conversando com vocês... Vou ligar para sua mãe, querida.... tchau, tudo de bom para vocês... - disse Marcelo, abraçando-os e partindo.

- Obrigada Marcelo! Tchau... - sorriu Clara.

- Você tem mesmo uma grande atração por malucos, não Menininha? - Jack disse assim que Marcelo saiu da livraria.

- Ah querido... - disse Clara, pegando a mão de Jack. - Sabe que o Marcelo tem QI acima da média? Ele foi até estudado quando era criança. por cientistas... Não parece, mas ele é um gênio.

- Não precisa ser gênio para se apaixonar pela mulher mais linda do mundo... - riu Jack, beijando as mãos de Clara. - Então, vamos pegar os CDs e voltar para casa?

- É mesmo... quero comprar pelo menos uns 5 agora... depois compramos mais... você não me mostrou nem a capa...

- É uma surpresa, querida... Vamos?

Os dois subiram as rampas até o setor onde eram vendidos CDs e DVDs e Clara ficou feliz ao ver de longe um grande poster onde o símbolo do infinito dourado, aparecia sobre desenhos de cada um dos membros da banda, vestidos com as fantasias medievais que usaram no videoclipe.

- Amor... - Clara disse apertando a mão de Jack, tentando conter a vontade que sentiu de chorar ao aproximar-se da mesa que tinha os CDs empilhados. - Meu coração está na boca, querido... - ela sussurrou no ouvido de Jack após pegar um dos CDs na mão.

- Estou feliz por você... - Jack sussurrou no ouvido de Clara. - Este disco se chama Forever... é o tempo que eu passarei te amando, querida...

- Ah amor... quero tanto te beijar, mas estou com medo...

Jack interrompeu o que ela dizia, beijando-a com paixão. - Não se preocupe, meu amor... ninguém está nos vendo, de verdade... você não viu seu ex...

- Não baseia nada no Marcelo... - riu Clara. - Ele é uma pessoa que vive dentro do mundinho dele a maior parte do tempo, nem percebe que está no meio de outras pessoas... nem sei como ele me reconheceu, no meio da loja...

- Mas estamos em paz, querida... ninguém nos vê de verdade enquanto estivermos assim, só nós dois, sem aquele monte de seguranças ao redor...

- Acho que você tem razão... - disse Clara pegando 5 CDs da pilha e colocando em sua sacola de compras. - Vamos até o caixa...

- Espera... - Jack disse pegando-a pelo braço. - Eles têm seus livros aqui?

- Têm sim...

- Quero comprar os que encontrar... não tenho ainda seus livros em português e preciso aprender esta lingua...

- Vem amor...

Clara levou-o através das rampas até o andar onde ficavam os livros e puxou-o até a estante onde costumava encontrar seus livros, mas foi surpreendida por vê-los em outra prateleira, junto com os best-sellers e últimos lançamentos.

- Hum... acho que eles querem lucrar com o meu novo status de esposa de rockstar...

- Rock Goddess, amor... sempre me chamaram de Rock God... - riu Jack. - Eles têm todos, vou levar todos...

- Vamos para o caixa, amor... ainda quero passar no mercado e comprar alguma coisa para fazer o almoço...

- Hum... você vai cozinhar para mim? - sorriu Jack, agarrado a Clara, na fila do caixa. - Você sabe que passarei o resto do dia te mimando, não?

- Ah, querido... ainda quero ouvir esse disco inteiro... - sorriu Clara e beijou-o. - Te amo tanto!

- Próximo... - disse a funcionária da loja, chamando-os para aproximarem-se do caixa. - Nossa! A senhora é fã da Crossroads, não?

- Sim... e tenho muitos amigos para presentear... - sorriu Clara.

- Ah... sabe que na noite passada, a loja ficou aberta até a uma da manhã e as pessoas fizeram fila para comprar esse CD, que começou a ser vendido à meia-noite...

- Que pena, eu perdi...

- Dá uma olhada na internet, tinha vários reporteres aqui gravando. É a primeira vez que esta loja faz isso por causa de um disco e, pelo resultado, acho que fará mais vezes... E dizem que foi essa moça brasileira, escritora destes livros que fez a banda voltar...

- É mesmo... - Clara sorriu. - Acho que vou procurar a reportagem no Youtube, obrigada... - Clara disse pagando a conta, enquanto Jack apenas olhava-a conversar.

De mãos dadas, os dois seguiram pela galeria, onde ficava a loja e saíram pela porta detrás, para irem ao supermercado, do outro lado da rua.

Clara pegou algumas verduras e frutas, algumas garrafas de vinho e mais duas de champagne. Tinham muito para comemorar e passariam aquela tarde comemorando a felicidade que estavam sentindo.

Continua