26 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXVI


- Já está ficando tarde, Jack... - sorriu Sillas. - Se você não se incomoda, sua revanche fica para amanhã. Minha esposa não gosta nem um pouquinho quando chego mais tarde em casa...

- Sua esposa também é brava, Sillas? Como a minha? - riu Jack.

- Eu não sou brava... - riu Clara.

- Não ela não é brava, Sillas... - Jack disse ao amigo balançando a cabeça. - Mas ela manda em mim e eu obedeço com um sorriso nos lábios...

- Minha esposa também é assim, Jack... acho que esse é um problema de todas as esposas... - sorriu Sillas. - Bem, senhores, até amanhã...

Jack e Clara ficaram olhando da varanda em silêncio, enquanto Sillas atravessava a porção de areia para chegar ao deck e também viram sua lancha afastar-se, enquanto o dia começava a escurecer.

- Você acha que uma pessoa pode suar toda a água que tem em seu corpo, Menininha? - perguntou Jack mostrando as marcas de suor que grudavam sua camiseta ao corpo. - Vou tomar um banho... quer ir comigo?

- Sempre... - sorriu Clara.

Os dois foram até o quarto e logo estavam prontos para o jantar, que desta vez foi servido com o mesmo requinte da noite anterior, mas no terraço da casa. O clima quente tornava a noite ainda mais convidativa e os ruídos que vinham da mata próxima serviam como perfeito complemento ao som das ondas indo e vindo na praia.

Os dois sentaram-se em uma rede na varanda e lá ficaram, conversando e bebendo algumas caipirinhas. E só perceberam que estavam embriagados quando levantaram-se para ir dormir. Sentindo o mundo girar, os dois caminharam até o quarto, tiraram as roupas e acabaram esquecendo-se de acertar o alarme do celular para a manhã seguinte e sem ele, acordaram às 8 e meia, correndo para arrumarem-se e tomar o café da manhã antes de encontrarem-se, atrasados, com Sillas no deck.

- Desculpa amigo, acho que bebemos demais ontem... - disse Jack assim que chegou ao deck, 20 minutos depois do horário combinado. - Essa caipirinha de vocês é mesmo uma coisa traiçoeira, você vai bebendo, bebendo e quando se levanta, ela te derruba...

- Não tem importância, senhor Noble. Vocês estão de férias, não estão? - sorriu Sillas.- Então, vamos subir na lancha?

Sillas ajudou Clara e Jack a subirem a bordo e seguiu na direção da ponta da praia, onde uma pequena vila com algumas casinhas simples se escondiam atrás da mata.

Logo, onde a praia parecia terminar, eles viram alguns barcos de pesca sobre a areia e mais além pequenas casas pintadas com cores fortes, um vilarejo, que dali parecia não ter qualquer estrutura, mas que era bem diferente daquilo que esperavam.

- Senhor Noble, este lugar, junto com a casa e a reserva de mata nativa deve tudo ao senhor David Mersey. Quando veio morar aqui, há alguns anos, o senhor Mersey ajudou os pescadores a se organizarem e hoje, aqui na vila, não existem patrões nem empregados. Tudo pertence a todos. A vila tem duas cooperativas, uma de pescadores, administrada pelos homens e outra de artesãos, administrada pelas mulheres. As cooperativas vendem o produto deles em Porto Seguro e todo o lucro é dividido entre todos.

As duas cooperativas foram inspiradas e fundadas por David Mersey, um patrono que toda aquela população de quase 200 pessoas venerava. Mesmo sem saber de sua importância artística, para eles, aquele homem era o defensor da vila e o benemérito que havia mudado o futuro de todos. E onde eles esperavam encontrar pessoas pobres e tristes, eles encontraram pessoas felizes e cheias de esperança.

Jack e Clara passearam pela vila e compraram algumas redes e toalhas de renda fabricadas ali, para levar para casa. Atencioso, Jack quis saber mais detalhes sobre o funcionamento da cooperativa e foi convidado a acompanhar o grupo de pescadores no mar, no dia seguinte. Clara não gostou muito da ideia, mas as mulheres dos pescadores a tranquilizaram, dizendo que não tinha perigo nenhum e que ele gostaria muito do passeio.

Os três almoçaram na casa do lider dos pescadores, o "Seo" Joaquim era o mais velho da vila e apesar de sua idade avançada era ainda um homem forte com a pele curtida pelo sol, como todos por ali. Sua esposa Dona Graça, por sua vez, chefiava o trabalho das artesãs e recebeu-os com um delicioso peixe assado complementado por arroz, feijão e uma boa salada com verduras colhidas em seu quintal.

Jack conversava com os homens usando Sillas como tradutor, enquanto Clara conversava com as mulheres. Quando Dona Graça descobriu que eles tinham se casado há pouco tempo, ela pegou Clara pelas mãos e levou-a até seu quintal, onde colheu algumas ervas, para fazer um preparado, com mel e cachaça.

- Filha... essa garrafada vai ajudar você a ficar grávida, é um fortificante bem "porreta". Sabe, não sei se você acredita nessas coisas, mas já tem um "minino" seguindo você. Ele é bonito como seu marido e vai nascer logo, logo.

- Mesmo, Dona Graça? - Clara perguntou com lágrimas nos olhos. - Meu filho? A senhora não sabe como isto me faz feliz...

- Toma uma colher por dia dessa garrafada que a menina vai se sentir melhor, mais forte...

- Obrigada, Dona Graça! - Clara disse abraçando a mulher, quando ela e Jack já estavam se despedindo e caminhando até o deck para pegar a lancha para casa. - A senhora me fez muito feliz hoje.

- Filha... O minino me pediu para te dizer que está com pressa de nascer... Não esquece de tomar a garrafada, viu...

- Vou tomar, Dona Graça... Obrigada por tudo... - disse Clara secando as lágrimas dos olhos. - Até amanhã...

Os três caminharam com seus pacotes até a lancha de Sillas.

- Se vocês não quiserem, não precisam voltar amanhã, eles entenderão... - disse Sillas para Jack.

- Mas eu quero... - sorriu Jack. - Já participei de muitas pescarias em casa, não tem perigo... Inclusive, se você souber de algo que eles precisam, é só me dizer... quero ajudá-los, são pessoas muito boas...

- Então está bem, venho buscá-los amanhã cedo...

- Sim, por favor... às 9, de novo?

- OK! - riu Sillas. - Poxa, bem que o David tinha me dito que vocês são como ele...

- Como assim? - perguntou Clara.

- Pessoas muito boas e acessíveis...

Os dois foram direto para o quarto assim que chegaram e tomaram um longo banho de banheira juntos, valorizando pela primeira vez a importância de um bom ar condicionado, depois de passarem o dia todo suando.

- Amor, o que a mulher do Senhor Joaquim disse para você quando te levou até a cozinha?

- Quando ela me deu aquela garrafa?

- Sim, tive a impressão de que você estava chorando quando voltou de lá...

- Ah Jack, disse Clara suspirando. - Ela me disse que estava vendo um lindo garotinho, parecido com você, ao meu lado e que ele tinha dito a ela que será nosso filho e que está com pressa de nascer...

- Sério? - sorriu Jack. - Nosso filho, amor? Meu Deus, vou correndo fazer essa cirurgia para ele nascer logo... - disse chorando e agarrando-se em Clara.

- Claro que sim... - sorriu Clara. - Fiquei muito feliz quando ela me disse isso...

- Queria poder fazê-lo agora... É tão injusto ter o coração e a alma transbordando assim de amor e não poder te engravidar agora... - disse Jack beijando-a e puxando-a para a cama.

Em meio a emoções muito fortes, os dois se amaram por horas e depois pegaram no sono. Quando Clara acordou no final da tarde, Jack não estava mais na cama. Ainda suspirando pelo que tinha acontecido entre eles, ela vestiu-se, perfumou-se e saiu a procura do marido.

Encontrou-o sentado na varanda, conversando com Sillas, segurando uma caipirinha em uma mão e um cigarro aceso na outra.

- Descansou, meu amor? - disse Jack levantando-se e puxando-a para perto.

- Descansei, querido... - sorriu Clara. - O fuso horário costuma acabar comigo. Fico alguns dias com o sono completamente descontrolado. Acho que é uma coisa de organismo.

- Eu também tenho esse problema, Clara. - Sillas sorriu. - Minha sorte é que não viajo muito... Quer uma caipirinha?

- Aceito sim, Sillas... deixa, vou buscar...

- Não, eu trago uma para você... - sorriu Sillas. - Mais uma, Jack? Para mim é a última do dia, preciso voltar para casa...

- Aceito sim, Sillas... - sorriu Jack.

- Amor, fumando? - Clara perguntou. - Pensei que você tinha parado...

- Só fumo quando bebo, querida... mas já parei... - disse apagando o cigarro no cinzeiro. - Você está bem?

- Estou, meu amor... esta tarde foi tão maravilhosa... - suspirou Clara. - Acho que estou me apaixonando de novo por você...

Jack puxou-a para mais perto e beijou-a. Um beijo apaixonado que deixou o coração de Clara aos pulos.

Alguns minutos depois Charles e Sillas chegavam ao terraço com caipirinhas e petiscos em uma bandeja e os três ficaram conversando por mais algumas horas, antes de Sillas partir para Porto Seguro, quando a noite já tinha caído.

- Querido, já estou um pouco tonta com toda essa caipirinha... acho que já vou programar o celular para tocar amanhã, antes que me esqueça... E você vai mesmo na tal da pescaria... Eu sei que eles disseram que não tem perigo... mas estou tão nervosa...

- Não se preocupa querida... Sabe que já tive um barco? Era um iate parecido com aquele do Mick, mas cansei dele depois de um tempo... Essas coisas não têm muita graça quando você não tem ninguém por perto para aproveitá-las com você...

- Mas você nunca estava sozinho...

- Ah Menininha... é a pior solidão... você tem alguém do seu lado e esse alguém não está mesmo com você, mas com sua fama, seu dinheiro ou seilá o que... Você está atraido por aquela pessoa, mas ela não sente nem isso, nem atração por você...

- Ai amor, eu sei como é isso... com o Marcelo, aquele meu namorado que era terapeuta. Depois de um tempo juntos, ele me deixava sempre sozinha... estava sempre trabalhando...

- Ele não sabia a sorte que tinha em ter você com ele... - disse Jack, abraçando-a e beijando-a. - Você é maravilhosa e eu te amo... muito...

Os dois ficaram mais um pouco na varanda conversando e foram jantar. Dona Santa preparou um jantar com pratos típicos nordestinos e depois de comer bastante e passar pela cozinha para conversar com a cozinheira, os dois foram caminhar pela praia, para fazer digestão.

Estavam cansados e resolveram ir dormir um pouco mais cedo do que o de hábito. O dia seguinte seria cheio de novas emoções e por isso era importante acordar descansados.

Continua

14 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXV


Depois do sonho, Clara não conseguia mais dormir, até chegava a fechar os olhos por alguns minutos, pois estava cansada, mas acordava em seguida, angustiada.

Quando percebeu que os primeiros pássaros já cantavam na mata ao lado da casa, ela cansou de lutar para tentar dormir e decidiu levantar-se, vestiu seu robe, foi até o banheiro, pegou as roupas da mala e guardou-as no closet; depois, sentou-se na cama ao lado de Jack.

Olhava para ele dormindo, tão tranquilo, completamente alheio das coisas que agora faziam sua cabeça fervilhar, repassando sem parar as cenas de seu sonho, as palavras carinhosas que Mick sussurrou em seu ouvido, enquanto se amavam.

- Bom dia, amor... - disse Jack assim que abriu os olhos e a viu. - Já acordada? Está com algum problema?

- Não, querido... acho que é o fuso horário... Fiquei sem sono e aproveitei para colocar nossas roupas no closet... - Clara sorriu para tentar convencê-lo de que tudo estava bem.

- Mas ainda é muito cedo para levantarmos... Vem aqui, vou te fazer relaxar um pouquinho... - sorriu Jack, levantando-se, abraçando e envolvendo Clara em seus carinhos.

Cansada pela noite mal dormida e também pela luta que seu coração travava, pesado com a culpa por sentir-se traindo Jack. Ela resolveu entregar-se aos seus carinhos e deixar-se envolver pelo seu amor.

E Jack era só ternura, amava-a lentamente, acariciava e beijava cada centímetro de seu corpo, enquanto sua mente continuava lutando para esquecer seu sonho com Mick.

A batalha continuava acirrada em sua mente, mas em algum momento, que ela não saberia definir exatamente, o prazer de tê-lo em seus braços venceu e ela conseguiu deixar o sonho de lado, para viver plenamente o amor de Jack.

Mais relaxada e disposta a divertir-se, ela levantou-se com ele, vestiu seu biquini sob uma canga colorida e os dois sairam do quarto, ainda envolvidos por uma enorme onda de amor.

- Bom dia, senhor e senhora Noble. - cumprimentou o mordomo ao vê-los chegarem à enorme sala da casa. - O café da manhã será servido no terraço.

- Bom dia, Charles. - disse Jack ao rapaz que agora os guiava até o terraço. - Parece que teremos muito sol hoje...

- Sim, senhor. Se me permite uma sugestão, a praia hoje estará perfeita para um mergulho...

Clara ficou quieta, mas o rapaz, brasileiro como ela, falava com Jack em um inglês perfeito, com quase nenhum sotaque e quando ele os deixou sozinhos no terraço, ela encontrou a chance de comentar.

- Amor... Já tinha notado ontem, esse rapaz...

- O David pagou cursos de hotelaria e inglês para todos os funcionários da casa... e eles são todos ótimos. De total confiança.

- Estou impressionada!

- Daqui a pouco, vamos descer na praia e você vai conhecer o instrutor de mergulho... Vamos ver peixinhos?

- Vamos, querido... adoro essas coisas. É mergulho mesmo, com oxigênio?

- Não amor... com snorkels... mas você vai gostar, a água é transparente e está cheia de peixinhos coloridos... lindo... o que foi?

- Nada... estava olhando para seus olhos... eles ficam tão lindos aqui...

- Minha maluquinha! - sorriu Jack, beijando sua mão.

O café da manhã foi servido, ovos, frutas tropicais, geleias, compotas, chá, sucos e pães ainda quentes, preparados na própria casa.

- Já percebi que vamos engordar muito por aqui... - riu Clara. - Vamos ter que mandar alargar as roupas do figurino do show... Tudo é tão delicioso...

- Você é deliciosa, Menininha... - riu Jack. - Não me incomodaria de mergulhar novamente em seu corpo antes de irmos para a praia...

- Jack... As pessoas ouvem o que você disse...

- Não tem ninguém aqui conosco e todos têm instruções para fazerem seu trabalho e deixarem os convidados à vontade... Estamos em lua de mel, amor... as pessoas compreenderão... - riu Jack.

- É que eu fico sem graça...

- Ah Menininha... Você não sabe o quanto estou feliz de estar aqui com você... Quanto tempo na minha vida eu sofri, sozinho, ou com alguém que só me machucava...

- Estou aqui por você, meu amor... - Clara disse pegando a mão de Jack sobre a mesa. - Sou completamente sua e não vou te deixar sofrer nunca mais...

Jack pegou a mão dela e beijou-a. - Obrigado, Menininha... e quero que você saiba que sou seu, estou e sempre estarei aqui para você, não importa o que aconteça...

A frase de Jack foi suficiente para encher os olhos de Clara de lágrimas. Agora sentia muita culpa por seu sonho e precisava falar com alguém, que não fosse o Jack, sobre ele. Decidiu que quando voltassem da praia, daria um jeito de ligar para Jennifer. Precisava que alguém dissesse a ela que toda aquela angústia que sentia era bobagem.

- Então, terminamos? - perguntou Jack.

- Sim, amor... chega... Você não vai me querer mais se eu ficar gorda... - sorriu Clara.

- Vou te querer ainda mais, meu amor... Vamos dizer bom dia para a Dona Santa lá na cozinha e já descemos para a praia.

- Vamos sim, meu amor...

Os dois foram até a cozinha, beijar a velha cozinheira, pegaram sua bolsa de praia, seus chapéus e desceram para a praia mais próxima da casa. Caminharam um pouco, passaram protetor solar um no outro e foram andar pela areia até o final da praia, do lado oposto do deck, onde ela terminava em uma longa ponta e ficava ainda mais selvagem e deserta, com coqueiros e uma mata exuberante que terminava na faixa de areia branca e intocada.

- Será que podemos visitar a mata? - perguntou Clara.

- Sozinhos não... tem um pescador que levava o David em uma porção de mata, lá perto do deck, onde tem uma cachoeira. Depois pedimos a ele para nos levar. É um lugar lindo... você vai ver, Menininha...

- Como o David conseguiu manter este lugar assim? Intocado?

- Ele comprou todas as terras ao redor da casa, na época em que ainda estava brigando com o dono para comprar a casa. Não sei se você sabe, mas parece que tem leis aqui que impedem as pessoas de mexer nessa faixa de litoral e que ela nunca é sua de verdade... mas da Marinha do Brasil.

- Não sei... mas acho que já ouvi falar...

- Então, ele fez um acordo e bancou uma pesquisa ecológica da área e conseguiu todas as licenças das melhorias, com a promessa de preservar a mata ao redor. E tanto os funcionários do David, quanto os pescadores da vila cuidam para que ninguém se aproxime muito daqui.

- Não imaginava isso...

- O David adora isso aqui... acho que até mais do que Heathcliff Hall e desconfio que mais do que a Cindy...

- Não acredito... ele ama a Cindy...

- Vem, vamos sentar naquela pedra ali...

- O que foi? - disse Clara.

- O David não é um homem muito fiel. Nunca foi. Ele tem outras mulheres, lá em casa, aqui... são tantas que nem eu sei te dizer exatamente quantas...

- A Cindy sabe?

- Não tenho certeza se sabe... Ela nunca se aproximou muito de mim. Acho que a assustei na época em que eles estavam se conhecendo e agora, ela tem medo de mim...

- Sabe amor, sinto pena... eles nunca terão o que nós temos... E vou te dizer mais, essa coisa de ter uma porção de mulheres é a maldita vaidade masculina... um outro item dentro do capítulo carrões, castelos, aviões, iates e coisas do tipo. Daí vocês ficam mostrando para os amigos, olha só o que eu tenho... sou o máximo, porque posso bancar tudo isso...

- Talvez seja, amor... Já fui assim também, até meu divórcio com a Mary quase me matar... As mulheres se atiram aos nossos pés, você sabe disso... em alguns momentos a tentação fica grande demais.

- Eu sei, querido... - suspirou Clara. - Amor, acho que já está na hora de reforçar o protetor solar... não podemos ficar desprotegidos...

Novamente os dois espalharam protetor solar no corpo um do outro e decidiram nadar um pouco, na ponta da praia, quando ouviram o som de uma lancha aproximando-se do deck.

- Olha amor... Vamos voltar ao deck, o Sillas, que trabalha aqui como instrutor de mergulho já está lá... - disse Jack, pegando-a pela mão e levando-a de volta pela faixa de areia molhada.

Os dois subiram na lancha junto com o homem e seguiram para uma área mais distante da casa, onde não havia uma faixa de areia, mas pedras escuras que davam a impressão de que a mata terminava no mar.

E depois de algumas instruções rápidas e de vestirem seus coletes salva-vidas, Jack e Clara nadavam com máscaras e snorkels, observando a colorida vida submarina, que existia abundante por ali.

Depois de nadarem e verem peixes de todas as cores e formatos, além de lindos cavalos marinhos, os dois subiram novamente na lancha e foram levados de volta ao deck.

- Então, gostaram?

- É maravilhoso! Este lugar é abençoado... - disse Clara ainda emocionada por tudo que tinha visto. - Vi até uma moréia enorme entre os corais...

- Mesmo? Elas são perigosas, melhor ficar longe delas... - sorriu Sillas.

- Perigosas? - perguntou Jack.

- Elas têm dentes afiados e mordem... você pode sangrar até a morte, se uma delas te acertar de jeito...

- Que perigo, amor... - sorriu Clara. - Mas é tão difícil preocupar-se com algo assim quando tudo é tão lindo...

- É... tudo aqui é lindo mesmo... Graças ao senhor David que espantou os especuladores que estavam de olho nestas terras para construir um resort. Ele comprou tudo e colocou esse povo para correr. - disse Sillas.

Depois de descansarem um pouco, nas cadeiras de praia próximas da casa, os dois lavaram os pés no chuveiro, vestiram alguma coisa sobre as roupas de banho e foram almoçar. Mais uma vez na varanda, a mesa tinha saladas e comidas leves e um delicioso peixe assado com arroz e batatas. De sobremesa, sorvete, já que o dia estava muito quente.

Depois do almoço, os dois voltaram para a praia, mas Clara achou que o sol estava forte demais e preferiu descansar com seu tablet no colo, em uma rede que encontrou na varanda.

Jack por sua vez engajou-se em uma conversa animada sobre futebol, regada a cerveja gelada, com Sillas, em outra porção da varanda onde havia uma mesa de sinuca, em que eles agora jogavam.

Clara, deitada na rede, ainda pensava em seu sonho. Precisava que alguém dissesse a ela o porquê daquilo tudo. Por que ela tinha sentido tanta vontade de falar com Mick, ansiava até por ouvir aquelas bobagens que ele dizia, tentando seduzí-la.

Lutou contra sua ansiedade e chegou à conclusão de que seria melhor lutar sozinha para resolver aquela questão dentro de seu coração. Era óbvio que amava muito seu marido, mas agora também estava claro, que além da amizade e admiração que ela sentia por Mick, começava a surgir desejo.

Não tinha intenção de fazer nada quanto a isso, ligar para Mick seria uma loucura. Não só ela e Jack estavam em sua lua-de-mel, como Mick e sua amiga Gianna também estavam. Além do mais, ela temia o que ele poderia fazer se percebesse que tinha alguma chance.

Suspirou profundamente e resolveu distrair-se com a internet. Viu que as fotos dela e de Mick, no restaurante do hotel, agora rodavam o mundo nos sites de fofocas, ficou triste por estarem explorando sua vida daquele jeito e acabou escrevendo um post cheio de revolta em seu blog.

Sua batalha interna cresceu novamente e ela resolveu que deveria falar com Jennifer, pegou o celular e ligou para a amiga.

- Oi Clara, tudo bem? - disse Jennifer do outro lado da linha. - Como estão as coisas por aí?

- Ótimas... Eu e Jack estamos no paraíso... você já esteve aqui?

- Não querida...

- Ah, então precisamos vir todos juntos para cá, quem sabe quando a Crossroads fizer shows no Brasil, não sobrem uns dias na agenda para todos virmos para cá...

- Seria bom... preciso de um pouco de sol... aqui já está tão frio...

- Mesmo? Eu e Jack queríamos ir novamente à praia após o almoço, mas o sol está forte demais. Acredito que está perto dos 40 graus celsius por aqui e nem é verão ainda...

- Deus, mas é muito quente... acho que derreteria, querida... - riu Jennifer.

- Bem, mas não te liguei para falar sobre o tempo aqui, embora ele esteja lindo... liguei para falar sobre uma coisa que está me perturbando muito, desde a madrugada.

- O que foi? O Jack fez alguma coisa?

- Não querida... pelo contrário, ele tem me dado tanto carinho que estou me sentindo culpada pelo que vou te contar agora... Na noite passada, sonhei que estava em meu apartamento de São Paulo e o Mick apareceu lá na porta. Conversávamos sobre o filme, quando ele parou de falar e me beijou. Mas desta vez, eu não o rejeitei e acabamos transando no sofá... É a primeira vez que isso acontece e o pior de tudo... acordei decepcionada por ter sido só um sonho...

- Meu Deus... essa eu não esperava! Clara, você está se apaixonando pelo Mick?

- Eu não sei... estou com a cabeça fervendo desde que acordei, eu não quero trair o Jack... mas não consigo pensar em outra coisa, a não ser vê-lo novamente e ouvir sua voz...

- Você ligou para ele?

- Não! Não posso! Tenho medo do que ele pode fazer se achar que estou dando uma chance a ele...

- Melhor não ligar mesmo, querida... Quer saber o que eu faria? Daria um tempo, viveria o melhor que pudesse essa lua de mel com meu marido e se depois dela, ainda estivesse pensando no Mick... aí sim, conversaria com ele...

- Você está certa, Jenni. Acho que farei exatamente isso. Não quero pensar mais no Mick. Não está certo e se o Jack descobrir sobre isso, ele ficará arrasado e eu não posso deixar que isso aconteça... Foi muito bom falar com você... Acho que devo me concentrar agora em ser feliz com o Jack. Mesmo que para isso, eu tenha que sufocar o que estou sentindo...

- Querida, sempre que precisar de ajuda, você só precisa me ligar. Tenta não pensar mais nisso... você e o Jack têm tudo para serem felizes. Sei que eu não sou lá um grande exemplo e até já te incentivei a ficar com o Mick...

- Sim...

- Mas acho que se isto vai criar tanto sofrimento, é melhor afastar-se... e outra coisa, quando te falei para transar logo com ele, de uma vez, era só para acabar com a curiosidade dele e fazê-lo te deixar em paz, mas agora eu sinto que é um outro momento. Se ficarem juntos agora...

- Destruiremos as vidas de nós três, minha, do Jack e do Mick... - suspirou Clara. - Não vai acontecer... bem, Jenni, obrigada por me ouvir. Só de conversarmos, já estou me sentindo mais calma... Tchau Jenni, beijos.

- Beijos, querida. Se cuida!

Clara limpou as lágrimas do rosto e ergueu-se da rede, logo encontrou Jack ainda jogando sinuca com Sillas e aproximou-se dele em silêncio, enquanto Sillas jogava.

- Oi Menininha... - sorriu Jack abraçando-a. - Então o que está acontecendo no mundo hoje?

- Nada de especial... e você? Está ganhando ou perdendo? - perguntou Clara acariciando-o.

- Estava perdendo até agora, mas acho que com você ao meu lado, tudo vai melhorar... - sorriu, agarrando Clara e beijando-a. - Viu... ele já errou, Menininha...

- Vamos lá, senhor Noble... mostre seu jogo... - desafiou Sillas sorrindo.

Jack cheio de confiança e atitude, matou duas bolas em sequência, mas atrapalhou-se com a terceira.

- Suponho que não seja possível ser bom em tudo... - riu Jack. - Ao menos, tenho sorte no amor...

Clara riu e voltou a agarrar o marido, não suportava mesmo a ideia de vê-lo sofrer, por isso, estava decidida e esquecer qualquer sentimento que tivesse por Mick, mesmo que isso significasse que ela sofreria.


Continua

9 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXIV


Mais alguns minutos passeando pelo hotel e os dois foram até a recepção, onde ficaram aguardando pela chegada do carro que os levaria até a casa onde ficariam hospedados, próxima de uma vila de pescadores, mas suficientemente distante de todo o resto do mundo, para que não fossem perturbados.

O motorista chegou dirigindo um jeep parecido com o de Jack, mas de um modelo um pouco mais antigo. Colocou toda a bagagem no carro, que estava com o ar condicionado ligado para gelar.

Jack e Clara sentaram-se no banco detrás e foram conversando com o motorista até a casa, percorrendo a bela, mas esburacada e estreita estrada que cortava a mata e que em sua porção final, não tinha sequer asfalto.

Mas quando chegaram, tudo parecia ter valido a pena. Envolta por uma mata exuberante, a bela casa surgia imponente, com seu teto de palha, paredes de vidro e um grande terraço que a rodeava completamente.
Ao redor, toda a estrutura que Jack já havia descrito, uma piscina deliciosa, quadras de esporte, um heliporto e um gramado bem cuidado, que separava a casa da mata, como a areia da praia a separava da água do mar.

Os empregados carregaram as malas para dentro do quarto e os dois cansados pela viagem, mas reenergizados por toda aquela beleza, não pensaram duas vezes, pegaram suas roupas de banho na mala e desceram para a praia, que continuava sob um sol forte, mesmo no final da tarde.

- Meu amor, isso parece um sonho! - disse Clara. - Esse lugar é maravilhoso...

- Eu te disse que valia a pena esperar... - disse Jack agarrando-a no mar e beijando-a. - Vem, vamos nadar um pouco até aquele pier.

Os dois nadaram e chegaram ao pier, que também fazia parte da propriedade e subiram nele. Só nesse momento, lembraram-se do protetor solar, mas não quiseram voltar para a casa para pegá-lo, apenas deitaram-se no pier, para descansar da longa viagem.

- Será que não ficaremos tostados nesse sol, Jack?

- Não se preocupe, Menininha... a dona Santa tem uma coisa ótima para passar na pele, quando nos queimamos...

- Dona Santa?

- Você vai conhecê-la daqui a pouco, é a cozinheira da casa desde a década de 90. A comida dela é maravilhosa... e ela é uma pessoa iluminada, cheia de sabedoria... você irá adorá-la, como eu a adoro...

- Tenho certeza que irei... Estou tão feliz que parece que meu peito vai explodir! - sorriu Clara, sentando-se ao lado de Jack no pier para assistir ao por do sol. - Isso tudo é lindo, mas o melhor ainda é estar com você... seus olhos ficam tão azuis aqui, com essa luz... pena que minha câmera está lá na casa...

- Vem aqui mais perto, Menininha... quero te mimar muito...

Agarrados um no outro, os dois viram o horizonte tornando-se avermelhado primeiro e depois dourado, enquanto poucas e delicadas nuvens encobriam de forma apenas parcial o sol, que delicadamente lançava colunas de luz que iluminavam pequenas porções do mar e da praia, dando um toque mágico à beleza criada pela natureza.

Tanta beleza que trazia lágrimas de emoção aos olhos de ambos, que assistiam juntos, em silêncio, àquele espetáculo do cotidiano. Os únicos sons que ouviam agora vinham dos pássaros que buscavam abrigo para a noite nas árvores da mata próxima, e o do arrebentar das ondas na praia, adiante.

- Nós merecemos tudo isso, meu amor... - disse Jack quebrando o silêncio. - Cada alegria e toda a beleza que a vida nos der...

- Ah Jack... - suspirou Clara, deitando-se novamente no deck de madeira. - Merecemos sim... a vida está nos dando porque merecemos tudo isso e muito mais...

- Querida, sabe do que me lembrei? Você está longe do seu remédio, se você tiver uma crise agora, nem sei o que fazer, sua maluquinha...

- Não se preocupe, meu amor... Estou bem. Nós nadamos até aqui e eu me sinto muito bem...

- Mas você deve ficar sempre perto do seu remédio...

- Mas eu estou bem, meu amor.. Vem aqui, relaxa aqui do meu lado. Quero te ver feliz hoje... O ar do mar me faz muito bem...

- Mesmo? Mas você teve uma crise lá no castelo do Jagger...

- Ah, mas eu estava estressada lá... aqui eu estou em paz. Tudo o que eu quero está aqui, comigo... - ela disse sentando-se no deck e acariciando o corpo de Jack.

- Ah meu amor... - disse Jack agarrando-a e prendendo-a sob seu corpo, ele tentou começar a despí-la.

- Não amor... aqui não! Vamos sair quebrados... - ela disse empurrando a mão de Jack e sentando-se.

- Hum, a Menininha quer conforto, é? - disse Jack prendendo os braços de Clara e empurrando-a de volta no chão.

- Sério amor... aqui não, podem nos ver, fotografar... já pensou na chateação depois...

- Ah amor...

- Ah nada... Além disso já está começando a escurecer e os mosquitos irão nos comer vivos, vem, melhor voltarmos para dentro... - disse mergunhando no mar e nadando na direção da casa.

Logo Jack mergulhou atrás dela e os dois saíram da água e atravessaram a faixa de areia para chegar à casa. Foram até um chuveiro instalado atrás da casa para tirar a areia dos pés e entraram.

- Vamos tomar um banho juntos, Menininha?

- Vamos amor... tem banheira aqui?

- Não sei, querida... vamos descobrir juntos? - sorriu Jack, envolvendo-a com uma toalha e guiando-a através da casa. - A que horas você quer jantar, amor?

- Por que? Não tem um horário fixo para servir o jantar?

- Não amor... a ideia desta casa é que ela funcione como um hotel, vem comigo, vamos na cozinha... quero que você conheça a Dona Santa..

- Olá Dona Santa!

- Oi filho... - disse a cozinheira ao vê-los entrando. - Quanto tempo...

- Esta é minha esposa Clara. - disse Jack para ela em um espanhol enrolado.

- Olá Dona Santa. - disse Clara beijando-a no rosto. Uma senhora negra, certamente com mais de 70 anos, que abriu um largo sorriso ao vê-la. - Muito prazer!

- Oi filha! Você fala português? - sorriu a mulher abraçando-a.

- Falo sim, Dona Santa. Sou brasileira...

- Achei que fosse gringa também... - riu docemente a mulher. - tão branquinha, como ele...

- Então o filho está melhor? - perguntou ela a Clara.

- Ele está muito bem, Dona Santa.

- Quando ele veio aqui há uns anos atrás, ele estava muito triste... Dava até dó...

- Não, agora ele está muito bem... Dia 18 vai fazer dois meses que nos casamos.

- Que bom, filha... Esse moço merece ser muito feliz... Ele é uma pessoa muito boa. Ele e o "seo" David...

- Eles estão felizes, Dona Santa. Pode ter certeza!

- Querida, diga para a Dona Santa que queremos jantar às 9 da noite. - disse Jack para Clara.

Clara traduziu o pedido e Dona Santa disse que tudo estaria pronto às 9 e que o menu seria uma surpresa para ele. Clara ofereceu para ajudá-la na cozinha e recebeu de volta um largo sorriso.

- Não tem necessidade, querida... Tenho meus ajudantes... Vocês querem um pouquinho de cocada de colher? Acabei de fazer...

- Não queremos atrapalhar a senhora, vamos tomar nosso banho agora e descansar um pouco da viagem... demorou quase um dia inteiro para chegar aqui...

- Ah mas o filho gosta do doce, filha. Vem aqui, vocês são de casa, não vão se incomodar de comer aqui na mesa da cozinha, vão? - disse a mulher docemente, puxando Jack e Clara para sentarem-se ao redor da mesa.

- Querido, ela está dizendo que tem um doce aqui que você gosta...

- Como eu falo em português que eu quero?

Clara ensinou-o e ele repetiu a frase para a cozinheira, que riu muito ao vê-lo falando português. - O filho vai aprender a falar português logo... - ela disse pegando as mãos dele. - Filha, fala para ele que essa nega véia aqui gosta muito dele.

- Ela está dizendo que gosta muito de você, Jack... - sorriu Clara.

- Oh querida! - ele disse abraçando e beijando a cozinheira no rosto. - Como falo para ela que também gosto muito dela?

- Gosto muito de você... - disse Clara emocionada em ver o carinho que Jack tinha pela mulher simples que cuidava da cozinha da casa.

Os dois comeram a cocada com gosto, conversaram mais um pouco com Dona Santa e foram para seu quarto tomar banho em uma grande e confortável banheira. No horizonte, nuvens escuras e raios começavam a cortar o céu, anunciando que uma tempestade se aproximava da costa onde chegaria a qualquer momento.

Cansados, depois de aproveitarem a banheira, Jack e Clara secaram-se e deitaram-se na cama para descansar um pouco. Mas antes do descanso, ainda mandaram mensagens para seus amigos em Londres e programaram o celular de Clara para despertar às 8:30, quando se vestiriam para o jantar.

- Vem aqui, Jack... descansar nos meus braços, meu amor...

Os dois dormiram abraçados e tão profundamente que quando o alarme soou para acordá-los, ambos estavam completamente desorientados e demoraram alguns minutos para se localizarem.

- Então Menininha? Dormiu um pouquinho? - sorriu Jack erguendo-se do travesseiro e apoiando-se nos braços.

- Dormi... e você?

- Sonhei que estávamos mergulhando e que estávamos transando debaixo d'água...

- Que lindo, amor! - disse Clara acariciando o rosto de Jack, ainda deitada no travesseiro. - Estou me sentindo tão relaxada agora que acho que derreterei pelo chão se me levantar...

- Mas vamos nos levantar que a comida da Dona Santa vale a pena... você vai ver, amor... - disse Jack levantando-se e puxando-a pela mão. - Vem amor... Pelo barulho já está chovendo. - disse caminhando até a cortina que escondia uma parede inteira de vidro, voltada para a praia.

- Meu Deus, que lindo isso, Jack... Até debaixo de uma tempestade, este lugar é maravilhoso...

- Eu sei querida... - disse Jack abraçando-a. - O David ofereceu uma quantia absurda para tentar comprar, mas o dono não quis vender. Então, ele conseguiu entrar como uma espécie de investidor nessa ideia de transformar a casa em um micro hotel para quem quer um lugar bonito e isolado e pode bancar a conta.

- O David é sócio deste lugar?

- É, amor... ele bancou toda a reforma. De lá para cá, ele tem direito a uma porcentagem do lucro e, de vez em quando, vem para cá passar uns dias.

- Por que ele nunca me contou isso?

- Ah querida... não sei se você já notou, mas o David é um ser um pouco estranho.. todos nós somos...

Os dois vestiram roupas confortáveis e caminharam até a sala de jantar onde foram surpreendidos por encontrar uma mesa arrumada impecavelmente, com o requinte de belos cristais, a mais fina porcelana, talheres e candelabros de prata com velas acesas.

- Amor... olha só que lindo. - disse Clara ao aproximar-se da mesa, enquanto Jack puxava a cadeira para sentar-se.

- É, amor... eu sei... este lugar é mesmo incrível. Pena que está chovendo forte, senão jantaríamos ali fora. - disse Jack apontando para o terraço, atrás da parede de vidro.

Assim que eles se acomodaram nas cadeiras, o jantar começou a ser servido, casquinhas de siri, belas saladas que misturavam verduras e frutas tropicais e camarões à baiana, o prato favorito de Jack, desde sua primeira estadia por lá.

A sobremesa foi um delicioso sorvete caseiro de frutas tropicais, servido dentro de um abacaxi.

- Tudo está muito perfeito. - sorriu Clara. - Me diz que eu não estou sonhando.

- Você não está sonhando, querida... isto tudo é culpa da Dona Santa. Vamos lá agradecê-la depois do jantar... ela é um anjo!

- Vamos sim, amor. Aliás, será que o David ficaria muito bravo se a roubássemos para trabalhar em nossa casa?

- Não podemos, amor... O David ama essa mulher! E tem uma outra coisa, já tentei fazer isso e ela me disse que não sai daqui, por nada...

- Ela é maravilhosa, amor...

- Tinha certeza de que você ia gostar dela, Menininha...

- E este lugar é apaixonante! - suspirou Clara.

Quando terminaram, foram até a cozinha agradecer à Dona Santa e ela se alegrou ao receber o carinho deles.

Depois, ela mesma os despachou de sua cozinha e eles então decidiram relaxar um pouco no terraço, que recebia uma brisa deliciosa vinda do mar, agora que a tempestade tinha se transformado em uma chuva leve.

- Ai querido... este lugar é tão incrível que dá vontade de mudar para cá... o David já morou aqui, não?

- Morou... naquela época a casa era bem mais simples. Foi antes da reforma. Ele tinha até a intenção de ficar por aqui, mas quando o casamento dele terminou, a distância começou a pesar demais e ele voltou para Londres.

- Eu sei... eu falo que gostaria de viver aqui, mas sei que nós dois não conseguiriamos... é muito longe, logo começaríamos a sentir falta daquela sensação de estarmos no meio de tudo... eu sei que para mim, seria difícil...

- Para mim também... até fico alguns meses na casa da montanha, mas logo começo a sentir falta da agitação e do palco, claro... E já que falei de casa, você sabe que horas são lá, agora?

- Umas três da manhã...

- Não é a toa que estou cansado... Vamos dormir, Menininha?

- Vamos sim, querido... também estou com sono...

Os dois caminharam então até o quarto, tiraram as roupas e foram dormir agarrados ouvindo o barulhinho da chuva batendo agora mansa nos vidros.

Clara logo começou a sonhar. Estava em São Paulo, no parque próximo a seu apartamento fotografando pássaros, como sempre fazia. Depois que sentiu que as sombras já não permitiriam mais boas fotos, ela pegou sua bicicleta e pedalou de volta até seu prédio.

Pegou o elevador, subiu e quando abriu a porta do elevador, percebeu que Mick esperava por ela, na porta de seu apartamento. Ao vê-lo lá, seu coração disparou. Jack estava viajando e ela tinha medo de estar sozinha com ele, mesmo assim, convidou-o a entrar.

Mick então começou uma longa conversa sobre o roteiro do filme, contando que teve algumas ideias que ela deveria incluir nas últimas cenas e ela apenas o escutava, até que ele simplesmente parou de falar e passou a encará-la, olhando profundamente em seus olhos.

Ela demorou um pouco, mas também se calou e os dois se beijaram, um beijo terno, mas carregado de desejo. Logo os dois se amavam, ali mesmo, no sofá da sala de estar.

Assustada, Clara abriu os olhos em seguida, percebendo que era apenas um sonho, ao ver Jack dormindo tranquilamente ao seu lado.

Não sabia por que, mas estes sonhos estavam cada vez mais frequentes em sua vida. Neles, Mick, sempre aparecia como seu amante. A novidade naquela noite era que pela primeira vez ela se entregava completamente a ele. E ele havia sido para ela um homem doce e apaixonado, que ela estava aprendendo a amar.

Continuar

6 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXIII


- Amor, acho melhor não dormirmos agora... - disse Clara. - Tenho muita dificuldade de dormir no avião e a viagem é longa, é melhor ter sono...

- Eu durmo em qualquer lugar, Menininha. - riu Jack. - Dormi algumas vezes de pé, nos bastidores dos shows da Crossroads, durante os solos... o Brad estava sempre de olho e vinha me acordar para voltar ao palco...

- Pobrezinho do meu amor... estas turnês de vocês deviam ser terríveis...

- Eram um massacre... subiamos no palco bebados, doentes, cansados... acho que já contei para você que o Dave teve que ser internado no final de um show porque estava com pneumonia e mais de 40 graus de febre... era essa nossa rotina, amor...

- Isso tudo acabou, meu amor. Eu vou cuidar de você... sempre... - sorriu, acariciando os cabelos de Jack.

- Você é um anjo, meu amor... se ao menos você estivesse perto de mim, naquela época, nada de ruim teria acontecido.

- Eu queria tanto ter nascido antes... - suspirou Clara. - Vem amor, vamos andar um pouco no jardim... Vamos ficar longe da cama, porque assim, não corremos o risco de pegarmos no sono... Vou tirar umas fotos suas lá fora... vem...

Clara pegou sua câmera e tirou algumas fotos dos dois, usando o tripé e um temporizador. Depois, subiu as fotos para seu facebook e seu blog. Aproveitou e escreveu um pequeno texto falando sobre a ansiedade que os dois sentiam naquele momento pelas férias e pela proximidade cada vez maior da turnê.

Jack recebeu uma mensagem de texto de Khaled confirmando o horário em que passaria para levá-los ao aeroporto e Jennifer ligou de Paris, para onde tinha voltado logo cedo com Michael para desejar-lhes boas férias.

Jack e Clara desceram com as malas para a sala de estar, arrumaram a bagagem de mão e deixaram no quarto apenas as roupas que vestiriam na viagem. Tudo muito confortável para não incomodar durante as 12 horas de voo até o Rio de Janeiro; nem durante as 4 horas de espera para embarcar no voo do Rio para Porto Seguro, onde chegariam só no final da tarde, para aí pegar o carro que os levaria até São Francisco da Borda, um pequeno e isolado vilarejo de pescadores, no sul da Bahia, próximo de onde ficava a casa que alugaram e onde a sua chegada era esperada por volta das 8 da noite, horário local, mais de 24 horas depois de sua partida de Heathrow. Poderiam até chegar antes, mas não estavam dispostos a fazer a última parte do percurso de helicóptero.

David conheceu os donos daquela casa durante a década de 90, quando passou alguns meses por lá. Foi ele quem deu a ideia, e os meios para melhorar as instalações e fazê-la funcionar como um hotel de altíssimo padrão para pequenos grupos. Eles moravam em Porto Seguro e tornaram sua casa na praia em um empreendimento muito rentável. A casa, agora transformada em mansão, localizava-se em uma praia particular e agora tinha um pier e um heliporto a disposição de seus hóspedes além de todos os confortos possíveis. Era alugada com serviço completo e contava com uma equipe de empregados, incluindo seguranças, que garantiam o conforto e o isolamento que as ricas celebridades exigiam para suas férias.

Prontos para partir, os dois trouxeram a bagagem para a sala de estar, onde sentaram-se, esperando pela chegada de Khaled. O trânsito ainda estava razoável naquele horário e em pouco mais de uma hora, chegaram ao aeroporto, fizeram check in da bagagem e seguiram para a sala vip do aeroporto.

- Estava aqui pensando... - disse Clara, acariciando os cabelos de Jack. - São doze horas de voo, podíamos aproveitar para trabalhar no livro...

- Trabalhar, amor? - riu Jack. - Estamos de férias, Menininha... Vamos relaxar, não vou ficar tranquilo te falando sobre a minha vida dentro de um avião, entre pessoas estranhas...

- Não tinha pensado nisso, meu querido... É que estou tão ansiosa... estou aceitando tantas propostas, disco, turnê, filme... a única certeza que eu tenho é que não darei conta de tudo...

- Ah, amor... claro que dará e no meio disso tudo, ainda estaremos juntos e felizes. Já te disse, não se preocupa com nada, se você se sentir sobrecarregada, conversa comigo... Não quero ver a minha menininha estressada... Teremos tempo para o livro durante a turnê...

- Ok! Está bem, meu amor... - suspirou Clara. - Sabe, eu me conheço bem, enquanto não conseguir terminar estas coisas todas com que me comprometi, ficarei assim, nervosa, ansiosa...

Jack interrompeu Clara com um beijo. - Férias agora, amor... Só quero pensar em praia, sol e em nós dois juntos... pode ser?

- Está bem, querido... vou relaxar e passar os próximos quinze dias te mimando como nunca...

- É assim que se fala, amor... - Jack sorriu. - Ai Menininha, acho que cometemos um erro enorme desta vez...

- Erro?

- Podiamos ir para o Brasil em um avião particular, teriamos mais privacidade. - sussurrou nos ouvidos de Clara. - Poderia ser como naquele voo para Chicago...

- Hum... amor... Melhor parar... ou vamos acabar presos neste aeroporto por indecência...

- Eu não vejo a hora de podermos ser indecentes de novo... - disse Jack, beijando-a. - Ai Menininha...

- Vem aqui, amor... - disse Clara, pegando seu ipad na bolsa. - Vamos dar uma olhada na internet, para pensar em outra coisa...

Os dois então trataram de distrairem-se de seus desejos, lendo bobagens na rede e vendo as fotos do casamento de Paul. Um dos sites tinha publicado uma foto dela ao lado de Mick, como se os dois tivessem ido juntos à festa.

- Querido, passamos uns poucos minutos conversando com o Mick e você estava comigo o tempo todo... - disse Clara, mostrando a foto para Jack. - Não sei como conseguiram essa foto...

- Eles são assim mesmo, mas esta foto foi depois... - sorriu Jack. - Vi quando ele se aproximou de você mais tarde, de mãos dadas com a Gianna...

Clara sorriu e olhou nos olhos de Jack... - Você estava me vigiando?

- Não, meu amor... é que quando você está longe de mim, não consigo evitar de ficar te olhando... E quando está perto, não consigo parar de te beijar...

- Vem Jack... vamos dar uma volta pelas lojas do free shop? Acho que precisamos de mais distração...

- Vamos então, Menininha... quero comprar a loja inteira para você...

- Eu não quero comprar a loja, quero só parar de pensar no que estou pensando agora, Grandão...

Eles sairam da sala vip e seguiram pelos corredores do aeroporto, queriam distrair-se, mas lá fora, Jack foi logo avistado por fãs que o cercaram e pediram autógrafos e fotos. Logo, seguranças do próprio aeroporto os escoltaram de volta à sala vip, onde deveriam permanecer até o momento da chamada para o embarque.

- Desculpa Menininha... mas acho que não temos mais a liberdade que deveríamos ter...

- Não importa, amor... vamos esperar aqui dentro mesmo. Já está na hora de começarem a chamar nosso voo.

- Não me conformo com isso, querida... Estamos presos, em uma gaiola de ouro, mas presos...

- Ah querido, por favor, não se sinta assim...

- Sempre me senti, Menininha... Quando a turnê começar, você vai perceber isso também... me perdoa por te trazer para isso, meu amor...

Clara beijou-o e os dois foram abraçados para a fila de embarque. Lá, Jack foi reconhecido novamente e mais uma vez teve que assinar alguns autógrafos e posar para mais algumas fotos.

- Menininha, vem aqui de novo... - disse ele, puxando Clara novamente para seus braços. - Acho que isso deve piorar ainda mais...

- Eu sei, querido... Vamos ter paciência e nos cuidarmos, só isso... Ah! Foi isso que o Mick veio me dizer ontem no casamento, na hora da foto... Ele me deu o cartão de um segurança brasileiro que pode trabalhar para a gente, quando estivermos em São Paulo. Ele me disse que é de total confiança e que pode estar a nossa disposição...

- Você acha que precisaremos de um segurança lá?

- Não sei, amor... é uma cidade agitada, onde as pessoas não prestam muita atenção em quem está ao redor, mas quando percebem alguém famoso, podem criar uma confusão enorme.

Os dois seguiram pelo finger para dentro do avião e foram recebidos pela tripulação que também pediu por fotos. Depois, acomodaram-se em suas poltronas e receberam taças de champagne como cortesia.

- Hum... Menininha, acho que não vamos precisar de seguranças... você faz aquele negócio com o meu cabelo, que fez em Paris e ninguém irá nos reconhecer... Eu posso também usar meus óculos de grau na rua...

- Eu serei o nosso maior problema, em São Paulo. As pessoas costumam me reconhecer na rua...

- É mesmo, Menininha... Vamos comprar uma peruca para você? - riu Jack. - Cabelos longos, pretos... ninguém vai imaginar que é você... E você vai ficar uma delícia...

- Isso promete ser engraçado, amor... - riu Clara. - O lugar onde fica meu apartamento é muito movimentado, basta descer na calçada para encontrar muita gente, sempre... Talvez seja melhor ficarmos em um hotel...

- Eu quero ficar no seu apartamento... Não vamos ter problemas, Menininha... tenho certeza...

- Espero que não... - sorriu Clara pegando a mão de Jack. - Estou muito feliz de estar aqui, Grandão... do seu lado...

Jack sorriu e beijou as mãos de Clara. - Eu te amo, Menininha...

- Eu te amo, Jack. - disse Clara, beijando-o.

Enquanto os dois conversavam e namoravam tranquilamente, a cabine de primeira classe continuava a ser ocupada. E mais uma vez, os passageiros de primeira classe não se importavam nem um pouco com a presença do grande rockstar, o que era um alívio para ambos, que apenas desejavam que as 12 horas de voo até o Rio de Janeiro fossem sossegadas.

O avião decolou, um jantar sofisticado foi servido e Jack e Clara decidiram apenas aproveitar o conforto da primeira classe para relaxar. Jantaram, beberam champagne, exploraram o conteúdo das programações de bordo e pegaram no sono, de mãos dadas.

Era muito raro para Clara conseguir dormir dentro de um avião. Mesmo nas viagens mais longas, ela costumava ter muita dificuldade, mas desta vez tanto ela, como Jack dormiram tranquilamente e acordaram sorrindo, quando o café da manhã passou a ser servido aos passageiros.

- Bom dia, meu amor... - sorriu Jack. - Dormiu bem, querida?

- Bom dia, querido... senti falta dos seus braços ao meu redor, mas dormi... e você?

- Sonhei a noite toda com nós dois, foi tão bom...

- E eu sonhei que estávamos no meu apartamento, em São Paulo e a imprensa tinha descoberto e ameaçava invadir, quando nós dois conseguimos fugir pela porta dos fundos e passamos por eles de bicicleta e eles não nos viram... foi engraçado...

- Espero que a imprensa não descubra quando estivermos em São Paulo...

- E na Bahia?

- Não tem perigo, a casa é bem afastada e tem uma tremenda equipe de segurança ao redor. Lá estaremos em paz...

- Acho melhor então contratarmos o segurança do Mick para nos acompanhar em São Paulo.

- Vamos ver... não queria abrir mão do prazer de ficar sozinho com você... sem empregados, sem seguranças... Só eu e você...

- Hum... que lindo... Você tem claustrofobia?

- Não amor, por que?

- Meu pai diz que meu apartamento é tão pequeno, que mais parece uma coisa que a gente veste... que mais de uma pessoa dentro dele já vira multidão...

- Querida, eu já morei na rua... minha cama era um banco no meio de um parque de Birmingham... você acha mesmo que eu vou me sentir mal de dividir um apartamento com você? Vou é me sentir no paraíso... quanto mais apertado, melhor...

Clara sorriu para ele e os dois terminaram o cafe da manhã e logo foram até os toaletes arrumarem-se para o desembarque. Na volta dos toaletes, receberam formulários da imigração brasileira para preencherem.

- Senhora Noble, entendeu todas as recomendações do Peters? - sorriu Jack. - Você precisa fazer essas coisas todas direitinho...

- Ah, eu sei, amor... Fiz tudo como ele me disse e todos os documentos estão aqui... Acho que não teremos problemas.

- Acho que posso pedir até cidadania brasileira, não posso?

- Você é maluquinho... - riu Clara. - Imagina o que as pessoas não iriam dizer ao vê-lo pedindo cidadania brasileira...

O voo pousou no aeroporto Tom Jobim e eles seguiram com os demais passageiros até a imigração onde foram recebidos com um largo sorriso de admiração pelo funcionário, fã da Crossroads que estava muito feliz por atendê-los e liberá-los para seguir viagem.

O voo até Porto Seguro seria em avião particular e estava programado para sair do Rio somente às 11 da manhã. Eles então pegaram suas malas e foram encaminhados para uma sala de conexão que estava mais vazia, onde existia uma possibilidade menor de serem incomodados durante as quase cinco horas de espera.

- Cinco horas aqui esperando... - disse Jack. - Será que não podemos dar uma volta pelo Rio? Pegar um taxi aqui na porta e passearmos um pouco? Vem, vamos dar um passeio...

- Vamos amor... Guardamos a bagagem em um armário e vamos andar um pouco na praia... Ai Jack, vamos precisar abrir nossa mala, pegar uns bonés e trocar nossas roupas por coisas mais apropriadas... Precisa ser rápido porque este aeroporto é distante da cidade...

Clara prendeu o cabelo de Jack e colocou o boné por cima. Ele trocou sua camisa de mangas longas e calça jeans por camiseta e bermuda e ela colocou um vestido longo estampado e uma sandália, no lugar das roupas esportivas que estava usando e também prendeu os cabelos e escondeu-os sob um chapéu.
Guardaram as malas nos armarios do aeroporto e pegaram um taxi até a praia de Copacabana.

Conversaram com o motorista e ficaram felizes por não serem reconhecidos por ele. Desceram na porta do hotel Copacabana Palace, atravessaram a avenida e caminharam um pouco no calçadão onde tiraram fotos um do outro, como dois turistas comuns, na manhã ensolarada daquela terça-feira.

- Viu menininha... estamos bem, ninguém nos reconheceu até agora. - riu Jack. - Você achando que precisava de seguranças... quando tudo o que a gente precisa são roupas que nos confundam com o cenário...

- Verdade, amor... - sorriu Clara. - Estou tão feliz de estar aqui com você, que nem sei mais o que dizer. Esse lugar é lindo, não?

- Lindo mesmo... Estar aqui com você parece um sonho, Menininha... Como se fala "eu te amo" em português?

- Eu te amo!

Jack repetiu a frase e beijou-a novamente. Parados, no meio do calçadão, aquele era só mais um dos inúmeros casais de turistas a passear por aquela calçada que se estende por toda a orla.

Apesar da manhã de sol, o movimento na praia ainda era pequeno, porque era muito cedo para uma terça-feira comum, de trabalho, na cidade. Clara ainda queria uma foto dos dois juntos e aproximou-se de um outro casal de turistas para pedir para fotografá-los. E depois de caminhar mais um pouco, os dois sentaram-se em uma barraca da praia para tomarem uma água de coco.

- Eu poderia me acostumar com essa vida, Menininha... - riu Jack. - Se eu decidisse me aposentar, esquecer de tudo e me mudar para um lugar como este, você viria comigo?

- Meu amor, eu iria com você para qualquer lugar, mas você sente mesmo vontade de aposentar-se? Conseguiria ficar longe dos palcos, da música?

- Não sei, querida... Às vezes eu sinto vontade de largar tudo... ainda mais agora que estamos juntos, não tem nada mais lá fora que me interesse. Não preciso de mais nada além de você.

- Ai Jack... eu sabia... destrui sua vida com essa história de volta da Crossroads...

- Meu Deus, não! Nunca! Estou muito feliz de voltar a tocar com meus amigos, amor... Mais do que você imagina até... Mas neste instante, quando olho ao meu redor e vejo essa paisagem linda e a mulher que eu amo, aqui, ao meu lado... Eu fico pensando que não tem mais nada nesse mundo que me interessa, nem a música, nem o palco... nada mais me faz falta.

- Você é maravilhoso, querido... e eu estou vivendo um sonho desde que te conheci. Tem horas que eu fico repassando na cabeça o primeiro dia da nossa relação e me sinto culpada por ter me atirado nos seus braços tão rápido, mas ao mesmo tempo... eu me sinto tão feliz com você, que desejava ter te beijado antes, na sua suíte, quando meu celular tocou...

- Só não te beijei para não te assustar... Se eu te dissesse que estava te procurando porque já te desejava, sem te conhecer, você ia achar que eu era um louco...

- É meu amor... o destino armou muito bem conosco... e eu sou muito grata a ele por ter feito isso...

- Querida, acho que precisamos voltar para o aeroporto... o piloto vai procurar a gente na sala de embarque às 10 da manhã. Vamos voltar lá no hotel para pegar o taxi?

- Não precisa, vem comigo... - disse Clara puxando Jack pela mão até um ponto de taxi do outro lado da rua.

Os dois voltaram tranquilamente para o aeroporto, pegaram suas malas e sentaram-se na sala de embarque combinada, aguardando pela chegada do piloto, que apareceu pontualmente às 10 da manhã para encontrá-los.

- Senhor Noble! - sorriu Marcos. - Nossa, quase não o reconheço com esse boné...

- Olá Marcos, tudo bem? - Jack cumprimentou-o. - Esta é minha esposa, Clara...

- Como vai, senhora! - sorriu Marcos. - Prontos para embarcar?

- Estamos sim, Marcos...

- Ótimo! Então me sigam, meu carro está parado aqui fora e eu vou levar vocês dois nele até a ala de onde saem os voos privados.

Os três entraram no carro de Marcos e seguiram para uma parte mais afastada do aeroporto, onde entraram de carro em um dos hangares, onde o co-piloto e o avião já esperavam por eles.

- Marcos, será que já não podemos ir embora? Antes das 11 horas, quero dizer...

- Desculpe senhor Noble, fique a vontade na aeronave, mas amanhã é feriado aqui no Brasil e precisamos seguir os horários estipulados porque este aeroporto é muito movimentado. Se sairmos antes da hora, eles não nos darão autorização para a decolagem...

- É mesmo, amor... amanhã é feriado por aqui... - sorriu Clara. - Tinha me esquecido deste detalhe...

- Sem problemas, Marcos... acho que estamos é ansiosos para descansar um pouco...

- São só duas horas de voo e os senhores já estarão em Porto Seguro.

- Então vamos chegar à uma da tarde... - riu Jack. - Me deram outra previsão... aqui, olha o que está escrito...

- Não, senhor... seria assim se fosse em um voo regular, que tem escalas, acho que o Charles se confundiu... nós vamos direto para lá. Se o senhor quiser posso entrar em contato com o motorista que vai levá-lo para São Francisco da Borda e checar se ele tem o horário correto.

- Sim, faça isso, por favor. - disse Jack preocupado. - Amor, acho que o nosso roteiro não está certo.

- Fica tranquilo, querido... eles irão acertar tudo para a gente, deve ser algum mal entendido. - sorriu Clara. - Eu estranhei muito o tempo de voo até lá, mas achei que nosso voo era de linha, só descobri que era um voo particular quando você me disse que precisávamos esperar pelo piloto.

- Senhor Noble, acabei de falar com o motorista, ele vai pegá-lo no aeroporto às três da tarde; tem umas duas horas e meia de estrada até São Francisco... os senhores chegarão lá no final da tarde...

- Enfim, uma surpresa boa... - sorriu Jack. - No planejamento que tínhamos, chegaríamos só às 8 da noite... muito bom, não querida?

- Ótimo! - sorriu Clara. - Vamos chegar a tempo de assistir ao por do sol, amor... Espero que o tempo esteja bom por lá...

- Marcos, como está o tempo lá na Bahia?

- Muito bom, senhor. A previsão promete sol para a semana inteira e algumas chuvas, mas só hoje à noite...

- Que bom! - sorriu Jack. - Estaremos muito bem, Menininha...

- Os senhores gostariam de um drink? Temos whisky e vinho à bordo...

- Não, obrigado... - disse Jack. - É muito cedo para beber... Quer bebida, amor?

- Não, obrigada... - sorriu Clara. - Estas telinhas são para exibir filmes?

- Sim senhora, temos um folheto explicativo do funcionamento delas e uma extensa lista de programas disponíveis. São filmes, shows e videoclipes musicais para entretenimento de nossos passageiros. Os senhores também podem usar seu telefone celular e internet em seus aparelhos, a bordo.

- Não preciso de distrações, senhor Marcos, posso passar o voo inteiro olhando apenas para minha linda esposa...

- Jack...

- Tem toda razão, senhor... - sorriu Marcos. - Sua esposa é uma bela filha desta terra...

- Sim, estarei sempre em débito com este país maravilhoso, que me deu seu anjo mais precioso...

- Meu amor, não exagera, querido... não sou um anjo, sou uma pessoa comum...

- Desculpa senhora, - interrompeu Marcos. - Mas ouvi a senhora cantando e sua voz é realmente angelical...

- Obrigada, o senhor é muito gentil. - sorriu Clara.

- Bem senhores, devo agora assumir meu posto na cabine. Em suas poltronas temos um intercomunicador, se tiverem alguma dúvida, ou pedido, basta apertar este botão e falarão comigo e com o co-piloto De Marchi.

- Obrigado comandante. - sorriu Jack para Marcos, que fechou a porta externa do avião e seguiu para a cabine de comando. - Então, meu anjo, pronta para decolar?

- Sim, meu amor... - sorriu Clara pegando a mão de Jack.

Às onze horas em ponto, o avião começou a rolar na pista e decolou logo a seguir. Clara, que tinha ficado curiosa com o conteúdo dos vídeos de bordo, lia atentamente o folheto com as instruções de operação.

- Você quer mesmo ver vídeos... - sorriu Jack, ao vê-la buscando em um longo menu, o título de sua preferência.

- Olha que lindo isso, querido... tem o filme da Crossroads... vamos assistir?

- Ah! O filme... - riu Jack. - O diretor nos mandava fazer essas cenas e nós obedecíamos. Nos arrebentamos de trabalhar para no final a crítica dizer que é um dos piores filmes da história, que só vale pelas cenas do show em Londres.

- Querido, se serve como consolo, eu amo esse filme... Tenho ele em DVD em meu apartamento e sempre o assistia. A versão de "Song of the Woods" que tem nele é simplesmente linda.

- Para mim, particularmente, foi um trabalho muito difícil. A Mary estava grávida da Kate e passava muito mal. As filmagens me prendiam no estúdio dia e noite e ela sozinha na nossa fazenda. Eu cheguei a ter uma crise de exaustão, uma noite. O David gritou com o diretor, me colocou no carro e me levou para o hospital.

- Pobrezinho do meu amor... - disse Clara pegando a mão dele e beijando. - Você prefere ver outra coisa? Stones em Copacabana?

- Menininha... - riu Jack. - Pode colocar o filme, amor... se você gosta, eu também tentarei gostar...

- OK! - ela disse apertando sua escolha na tela. - Gosto de saber tudo sobre você, cada história, cada detalhe, eles me ajudam a entender o homem maravilhoso que eu amo.

- Não sei o que você vê em mim, querida... - riu Jack. - Sinceramente...

- Amor... você está falando sério? Olha só para você ali na tela, não me lembro de ter visto na minha vida um homem tão bonito, tão sexy...

- Eu nunca me senti grande coisa, Clara. Sempre me senti alto demais, desajeitado... Nunca vi no espelho isso que as pessoas dizem que veem em mim.

- Isso é ainda mais encantador, sabia? O que vou dizer agora não é porque sou casada com você, ou porque eu te amo, mas você é o homem mais atraente que eu já vi na vida...

- Ah Menininha, assim você me deixa sem graça...

- Além disso, você é um homem carinhoso, afetuoso... Se você fosse só bonito, acho que teria me decepcionado em nosso primeiro encontro, em Nova York.

- Eu sei, querida. Não acho que você conseguiria se ligar a alguém só pela aparência. Você pode ser tudo, menos frívola.

- Engraçado, mas nos vídeos desta época você parece tão cheio de si, vaidoso como um pavão...

- Mas minha vaidade não é sobre minha aparência, querida. Eu tinha orgulho sim, nessa cena, mas não era da minha beleza, era da música que eu estava fazendo... Quando fizemos este filme, eu estava realizado como homem, era o bluesman que eu sempre tinha sonhado ser.

- Que lindo... - disse Clara com os olhos molhados de lágrimas, no momento em que os primeiros acordes de "Song of the Woods" chegavam aos alto falantes. - Desculpa, essa música sempre faz isso comigo...

- A inspiração para esta música foi você, minha Ninfa, meu amor...

Clara desafivelou seu cinto de segurança, levantou-se de seu assento e sentou-se no colo de Jack. Ele beijou-a e secou suas lágrimas. E assistiram abraçados e em silêncio, ao restante do filme.

- Sabe amor, é a primeira vez que assisto a esse filme e não me sinto incomodado pelo drama que estava vivendo naquele momento. Estou até gostando dele...

Enquanto os dois namoravam, os alto falantes começaram a trazer a voz do comandante Marcos. - Senhores passageiros, já estamos em aproximação final do aeroporto de Porto Seguro. A temperatura local é de 31 graus e o horário local é 1:42 da tarde. Peço agora que os senhores coloquem seus assentos na posição vertical e afivelem seus cintos de segurança.

Clara obedeceu imediatamente e alguns minutos depois o avião já estava pousado rolando pela pista na direção do terminal de passageiros.

- Então, senhores. Prontos para desembarcar? - sorriu Marcos abrindo a porta da cabine. - Está bem quente lá fora...

- Já percebemos... - disse Jack. - Então vamos? Querida, pegou todas as coisas?

- Sim, amor... - sorriu Clara. - Vamos descer?

Os dois desceram do avião e caminharam pela pista, enquanto sua bagagem era levada em um pequeno carro até o terminal de passageiros. Assim que chegaram ao terminal, perceberam que não havia um restaurante lá para almoçarem e perguntaram a um funcionário onde encontrariam um e ele indicou o restaurante de um hotel a poucos quilometros dali.

Os dois então pegaram a bagagem, pegaram um taxi e logo estavam em um belo hotel da região, rústico, mas muito agradável, cercado por verde por todos os lados e com um belíssimo conjunto de piscinas.

- Jack, este lugar é lindo... olha só o mar lá embaixo... - disse Clara enquanto escolhia uma mesa no terraço do restaurante. - Quero tirar várias fotos daqui... Meu amor, isso aqui é um paraíso...

- Você é meu paraíso, meu amor... - sorriu Jack. - Mas este lugar é muito bonito...

Os dois optaram por comida leve, salada, peixe assado e frutas, acompanhados por sucos de frutas. Ainda tinham mais de duas horas de viagem de carro para chegar ao seu destino e temiam passar mal se comessem algo mais pesado.

- Querido, será que não tem mesmo problema deixar nossa bagagem lá na recepção? Não vamos nos hospedar aqui...

- Não tem, amor... sou especialista em bagagem e já fiz isso inúmeras vezes por aí... - riu Jack. - Eles querem uma boa gorgeta e isso eu sempre dou... Sabe, estava aqui reparando... Você fica linda, nessa luz daqui, meu amor...

- Você é muito doce querido... Bem, acho que agora estamos oficialmente em lua de mel, não?

- Desde que te conheci nós estamos, querida... Acho que fiz alguma coisa de bom nessa vida para merecer esse amor.

- Eu também, querido... eu também... Já sofremos muito, acho que estamos ganhando uma compensação agora.

- Nesta vida, Menininha, você já sofreu tanto assim? Você é muito jovem...

- Nem tanto, amor... mas todos os meus relacionamentos, até hoje foram desastrosos... você conheceu o Roberto, não? Ele me sufocava com ciúmes, fazia pouco do meu trabalho, do meu talento...

- E por que você gostava dele? - sorriu Jack.

- Ah, eu era uma bobona... uma adolescente que tinha acabado de entrar na faculdade. Era o primeiro momento em que eu me sentia uma adulta de verdade. Encontrei o Roberto e achei que ele era lindo e tinha todo o lado político dele, ele fazia parte do Diretório Acadêmico e me ensinou uma porção de coisas... Mas depois, com a convivência, fui percebendo o quanto ele era estranho... hoje tenho medo dele.

- Mas você não teve namorados antes dele? - perguntou Jack.

- Tive, mas nada muito sério... o Roberto foi o primeiro homem que eu amei, de verdade...

- Ah Menininha... quando você fala dele, não consigo evitar de sentir ciúmes...

- Não sinta... ele me fez sofrer muito. Já te falei que quando nos separamos tive uma depressão horrível... Não desejo para ninguém o que passei. Eu chorava dia e noite...

- Amor... queria tanto ter te conhecido antes e evitado que você sofresse...

- Seria maravilhoso... Mas acho que eu teria medo de você...

- Medo? Por que?

- Porque eu era muito infantil, muito boba... Imagina se você aparecesse na minha frente; um homem vivido, mais velho... acho que correria de você...

- Eu sei que sou muito velho para você, Menininha...

- Velho? - riu Clara. - De jeito nenhum... Te amo desesperadamente, Jack e você não tem nada de velho - Clara aproximou-se de Jack e sussurrou em seu ouvido. - Sinceramente meu amor, muitas vezes acho que vou enlouquecer quando nos amamos...

- Ai Clara, meu amor... - disse Jack beijando-a. - Você não imagina como me faz bem ouvir isso. Queria poder te levar para uma suite desse hotel e...

- Vamos chegar logo na nossa casa, amor... quero ver o por do sol na praia, ao seu lado...

- Sabe o que esquecemos? - riu Jack. - Não liguei ainda para o motorista, ele vai nos buscar no aeroporto e não vai nos encontrar...

- Ah, liga para ele, amor... - riu Clara, procurando sua máquina fotográfica na bolsa e tirando fotos da vista do terraço. Depois, ela virou a câmera para Jack e fotografou-o falando ao telefone. Estava irreconhecível, com os cabelos presos sob o boné e com os olhos cobertos por óculos escuros, mas ela suspirava por ele agora.

Assim que ele terminou o telefonema, Clara pediu a outros turistas que estavam no restaurante para fotografá-los juntos. Estavam tão felizes que se imaginavam invencíveis.

Continua

3 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXII


Cansada de tentar dormir, Clara levantou-se, vestiu seu robe e caminhou até o banheiro, sem fazer nenhum barulho para não acordar Jack. Mas encontrou-o sentado na cama quando voltou ao quarto.

- Acordado, amor? - sorriu Clara.

- Não consigo dormir, querida... Vem aqui, quero ficar um pouco com você, para ver se consigo relaxar...

Clara voltou para a cama, encaixou-se nos braços de Jack e os dois passaram o resto da noite conversando e descansando; quando o dia amanheceu, pegaram no sono um pouco mais tranquilos.

Jack acordou cedo, levantou-se, vestiu seu robe e desceu para preparar o café da manhã.

Alguns minutos depois, Clara também acordou. Vestiu seu robe e desceu.

- Bom dia, meu amor... - disse ao encontrar Jack na cozinha preparando panquecas. - Que lindo você cozinhando para nós...

- Para você, minha vida... - sorriu Jack. - Acordei com vontade de cuidar de você...

- Assim vou ficar mal acostumada... - sorriu Clara aproximando-se dele e beijando-o. - Meu amor, doce e maravilhoso... - suspirou.

- Eu te amo tanto... - sorriu Jack. - Sonhei a noite toda com você. Estávamos descansando em uma praia deserta e o sol estava se pondo... você estava tão linda, lá, nos meus braços...

- Que sonho mais lindo, meu amor... - Clara disse, sentindo as lágrimas brotando em seus olhos. - Já estou chorando, sou uma boba mesmo...

- Você é adorável, querida... - sorriu Jack abraçando-a, beijando-a e secando suas lágrimas. - Vamos tomar nosso café e depois te ajudo a arrumar nossas malas.

- Está quase tudo arrumado lá em cima, amor... Estou feliz por ter deixado minhas jóias com a Cindy, ontem... - sorriu Clara. - Ía passar o tempo todo preocupada com elas se as deixasse aqui, sozinhas...

- Sinceramente, não acho que precisava, mas se você se sente mais segura assim, tudo bem... Você sabe que contratei uma empresa de segurança que cuidará da casa enquanto estivermos fora...

- Eu sei, amor, e digo isso não pelo valor das jóias... eu sei o quanto elas são caras, mas para mim, elas não têm preço, foram presentes seus... me sinto envolvida pelo seu amor, sempre que as uso...

Jack estendeu a mão e acariciou o rosto de Clara e ela o beijou novamente. - Eu te amo, Jack... muito... - sorriu e puxou-o para mais perto. - Olha, meu amor, se há um ano, alguém tivesse me dito que eu estaria hoje aqui, do seu lado... vivendo esse sonho, eu não teria acreditado. Se você quer saber, eu acho que não te mereço...

- Ah meu anjo... quem não te merece sou eu...

Os dois tomaram o café da manhã, arrumaram a cozinha e subiram para arrumar as malas. O voo sairia somente à noite, mas eles queriam deixar tudo pronto bem antes, teriam muitas horas de cansaço entre aeroporto e voo e decidiram que almoçariam no Pub do Dan, que era próximo de sua casa e depois, passariam algum tempo descansando no parque.

Khaled os levaria para Heathrow no final da tarde e os dois deixaram tudo o mais preparado possível para a partida.

- Está pronta? - perguntou Jack ao ver Clara abrir novamente a bolsa.

- Estou, amor, vou levar meu ipad para ver o que anda acontecendo por aí... Ainda sou jornalista e me sinto culpada quando fico assim, fora do mundo...

- Pega o meu também... - sorriu Jack. - Faz tempo que não entro no tal do twitter...

- Verdade, amor... vou tuitar também... - riu Clara. - Vamos embora?

Os dois saíram a pé e caminharam pelas ruas ensolaradas, mas muito frias, de mãos dadas.

- Está com frio, Menininha?

- Um pouco, amor. Me esquenta?

- Pode deixar... - disse Jack abraçando-a. - Vou te deixar quentinha...

- Quem vê todo esse sol jamais iria imaginar que está tão frio...

- Vamos fugir disso por uns dias, mas ele ainda estará por aqui quando voltarmos e deve piorar bastante...

- Eu sei amor, mas eu preciso me acostumar com ele. Eu vivo aqui agora, meu lugar é ao seu lado.

- Vou te proteger dele...

- Você é lindo, mas eu não quero ser protegida... é melhor eu me acostumar...

- Mas eu quero te proteger de tudo, até mesmo do frio... - disse Jack beijando-a na testa.

- Eu te amo tanto que até dói, Jack. - suspirou Clara. - Vamos atravessar aqui?

Jack e Clara atravessaram a rua e entraram rapidamente no pub.

- E aí Dan? - sorriu Jack.

- Altezas! - sorriu Dan saindo detrás do balcão e beijando Jack no rosto e Clara nas mãos. - Estava com saudades...

- Olá Dan... - sorriu Clara quando Jack puxou-a para longe do amigo. - Como você está?

- Melhor agora que estou recebendo a realeza em meu humilde estabelecimento. - disse Dan fazendo uma mesura.

- Viemos almoçar, Dan... Vamos para a nossa mesa, você vem anotar nosso pedido? - disse Jack ajudando Clara a tirar seu casaco.

- Já estou indo, alteza... - riu Dan. - Susy, vem pro balcão...

Dan levou o cardápio do pub e entregou-o nas mãos de Clara e de Jack.

- Tenho muito a agradecer a sua princesa, Jack... a sopa que ela nos ensinou está fazendo muito sucesso nestes dias frios...

- Que bom! - sorriu Clara. - Acho que vou tomar uma... quero também um filé de peixe e uma taça de vinho.

- O que você quiser, princesa! E você, velhão?

- Purê com salsichas e cerveja... - sorriu Jack.

- Ok... vou levar o pedido de vocês lá na cozinha e já volto para conversarmos...

Enquanto esperavam pelo retorno de Dan, Jack e Clara apenas continuaram namorando.

- Então, Velhão? - Dan sentou-se na mesa com eles. - Como estão as coisas?

- Maravilhosas, amigo! - sorriu Jack. - Já mudamos para a casa do John Taylor e vamos para o Brasil hoje à noite... quando voltarmos vamos dar uma festa e queremos você lá...

- Que bom, amigo! Então somos vizinhos de novo! Estou feliz por vocês... Mas quando será essa festa?

- Olha Dan, vamos passar quinze dias no Brasil e depois que voltarmos ainda terá a festa de lançamento do disco e acho que faremos esta festa de inauguração da nossa casa no começo de novembro. - sorriu Clara. - Mas antes disso, você irá à festa de lançamento do disco na Roundhouse, não?

- Vou sim, princesa... - sorriu Dan. - É só mandar o convite...

- Vou mandar um e-mail para lembrar o Michael Peters de te colocar na lista. - sorriu Jack. - Quanto à inauguração da nossa casa, passamos aqui para avisarmos. A verdade é que as coisas andam muito corridas, viagens, casamentos... muitas bolas no ar, no momento...

- É mesmo... vi fotos de vocês no casamento de Sir Paul! - riu Dan. - Como sempre, você estava linda, princesa! E o show?

- Está quase pronto... - sorriu Jack. - Já estamos trabalhando na setlist e quando voltarmos do Brasil, ensaiaremos mais um pouco e aí tudo começa...

- Que bom, cara! Estou super ansioso para vê-los tocando novamente! Imagina o que não será esta estreia...

- Nós também estamos ansiosos... Mas não fica falando em estreia agora que minha princesa fica nervosa... - riu Jack. - Ainda está longe, querida...

- Você está com medo da estreia, princesa?

- Estou sim... nunca pensei que algum dia eu iria subir em um palco, ainda mais ao lado da minha banda favorita. - suspirou Clara. - Além disso, sou muito tímida... sempre que falam na estreia, fico gelada, olha só... - ela disse pegando a mão de Dan.

- Meu Deus! Calma, princesa... vai dar tudo certo. Você tem uma voz linda e estará no palco ao lado dos melhores músicos do mundo...

- Me dá a mão que eu te esquento, amor... - disse Jack, pegando as mãos de Clara entre as suas. - Parecem duas pedrinhas de gelo...

- Vocês sumiram daqui por tanto tempo que eu imaginei que já estavam viajando...

- Pois é, Dan... - sorriu Clara. - Vamos viajar hoje à noite, para o Brasil. Vamos ficar em uma casa que alugamos, em uma praia bem distante. O Jack já esteve lá com o David, na década de 90. Eles me mostraram algumas fotos, é o paraíso!

- Que ótimo, amigo! - sorriu Dan. - Depois de tanto sofrimento, você merece... Aliás, princesa, cuida desse cara porque ele já passou por coisas muito ruins na vida...

- Eu sei Dan... - Clara disse, pegando as mãos de Jack. - No que depender de mim, ele nunca mais vai sofrer...

Os dois almoçaram e passaram mais algumas horas conversando com Dan sobre os próximos planos para a Crossroads e também sobre o passado. Clara pediu a Dan para gravar um pequeno depoimento sobre o início da banda, os primeiros ensaios e as coisas que tinha presenciado, para usar no livro.

E depois de muita conversa e algumas taças de vinho e copos de cerveja, os dois partiram, um pouco bebados, para seu programado descanso no parque. Caminharam até uma área tranquila, onde tinham estado algumas vezes e sentaram-se sob as árvores para descansar.

Ela não disse nada, mas o depoimento de Dan, serviu para deixá-la um pouco ansiosa e a fez pensar nas coisas que Jack disse que nunca contaria a ela sobre seu passado.

- Você ficou muito quieta depois do almoço, querida.

- Estou um pouco tonta, acho que bebi demais, amor... - sorriu Clara tentando disfarçar sua preocupação.

- Eu também bebi demais, mas sei que não é só a bebida... Se você não me perguntar, nunca saberá, amor...

- Mas acho que não quero saber, Jack... Eu sei que vocês estavam no topo do mundo e que existiam as drogas e as mulheres e tudo o mais... Está vendo, já sei de tudo, não preciso saber mais do que isso...

- Querida, eu também prefiro que você não saiba... Não porque não confio em você, ou qualquer bobagem desse tipo, mas porque são coisas muito horríveis que irão deixá-la chocada e que provavelmente, farão com que você não queira mais nem olhar nos meus olhos novamente... e eu não posso te perder...

- Isso não aconteceria, nunca... como te disse, não me importa seu passado... mas eu prefiro não saber porque sei que isso te machuca muito e não quero te machucar... te amo muito e não suporto te ver sofrendo...

- Ótimo... então não falamos mais sobre isso... ainda não estou pronto...

- Ótimo... eu não quero ouvir... agora, deita aqui no meu colo, que eu quero te mimar... - sorriu Clara, encostando-se no tronco de uma árvore, enquanto Jack deitava sua cabeça em seu colo. - Estamos em paz... é só isso que me interessa...

- Clara, onde está meu ipad?

- É mesmo... - riu Clara abrindo sua bolsa. - Tinha me esquecido deles.

Ela entregou o ipad de Jack para ele e pegou o seu. Ele sentou-se com o aparelho no colo e escreveu em seu twitter: "Eu te amo @ClaraOberhan!"

Vendo a mensagem dele, ela apenas respondeu: "Eu te amo @Jack_Noble!"

Sentados lado a lado no parque, os dois trocaram ainda mais algumas frases carinhosas no twitter e no final, Clara tirou uma foto dos dois juntos descansando no parque e postou-a, com a frase: "Estou sem palavras para expressar o quanto estamos felizes. Espero que esta imagem consiga dizer tudo."

As mensagens de ambos e a foto serviram para mais uma pequena explosão de audiência e ilustraram inúmeras matérias de sites, revistas de celebridades e jornais nos próximos dias. Nem Jack, nem Clara entendiam bem por que, mas a felicidade que ambos sentiam por estarem juntos, era notícia relevante para muita gente.

- Sei que já estou nesse meio há muito tempo, mas ainda me surpreende o fato de que as pessoas se interessam pelo que acontece na minha vida... Sou só um músico...

- Eu posso te dizer do que sei... eu me interessava pelo que acontecia com você, mas porque queria descobrir coisas que você tinha feito e eu ainda não tinha visto... e, claro, sempre tive muita inveja das mulheres que eram fotografadas ao seu lado, queria estar no lugar delas...

- Você é maluquinha, meu amor... - sorriu Jack. - Não sei o que você viu em mim...

Clara interrompeu o que Jack falava com um beijo, longo, apaixonado... Os dois decidiram então voltar para casa, descansariam um pouco mais por lá porque logo seria hora de ir para o aeroporto. As férias estavam chegando!

Continua