27 de set de 2012

Rockstar - Capítulo XCVI


- Bom dia, amor... - Jack sussurrou no ouvido de Clara, acordando-a antes do alarme do celular soar. - Vai se arrumar, não quero que você se atrase...

- Bom dia, querido... - ela sorriu e beijou-o. - Vou me preparar para ir... fica deitado, amor... dorme até mais tarde...

- Estou com fome... vou levantar para tomar café... você toma café comigo?

- Claro que tomo, querido... quer que eu te ajude a levantar?

- Acho que não... preciso começar a andar com minhas próprias pernas, agora que o Mick vai te sequestrar...

- Ele não vai me sequestrar, é só mais uma reunião chata sobre aquele roteiro...

- Eu sei... ao menos, não se arruma muito... não quero que aquela raposa velha fique ainda mais tentada a te beijar...

- Ah, meu amor... vem aqui... - ela disse abraçando-o. - Como você está? Ainda dói muito?

- Dói, querida... mas já vai passar... vou me cuidar, não se preocupe comigo, sou um bom paciente, faço tudo o que o médico mandou direitinho...

- Não queria te deixar sozinho... - Clara disse com os olhos já cheios d'água. - Não é justo...

- Eu sei... vou estar bem... o Bradley me ajuda... ele me parece um bom sujeito...

- Pedi ao David para vir aqui para passar o dia com você... ele me disse que chega lá pelas 9 da manhã...

- Pediu? Quando? Eu não vi isso, Menininha...

- Quando você estava na sala, falando com o Mike... assim, vocês podem trabalhar naquela música linda que ele fez para mim...

- Eu te amo, querida... muito... você é tudo para mim... e é muito estranho estar aqui, nesta cama, do seu lado e não poder fazer tudo o que eu desejo...

- Ainda faremos isso muito, meu amor... não se preocupe... vamos conseguir e logo teremos nosso filho...

- É por ele que estou fazendo isso... por ele e por você... Agora vai lá se arrumar para ir para sua reunião...

- Já vou, querido... - Clara levantou-se e foi até o banheiro, tomou um banho rápido e vestiu as roupas que já tinha separado na noite anterior, tailleur cinza, de lã, que ela usaria sobre uma camisa de seda branca, com botas pretas, seu casaco de couro e uma paximina preta por cima, fechando melhor a garganta e um casaco de couro preto, por cima de tudo.

- Você está linda! - Jack disse ao vê-la pronta, ajeitando os cabelos que ficariam soltos.

- Vem, meu amor... vou te ajudar a vestir-se...

- Não precisa... vou tentar me virar sozinho... - Ele disse levantando-se da cama e caminhando lentamente até a cadeira onde estavam suas roupas. - Viu... já consigo me vestir...

- Lindo... toma cuidado, querido... não faz muita força...

- Mas não estou fazendo muita força, meu amor... estou bem... e morrendo de ciúmes que a minha mulher linda vai encontrar com aquele desclassificado...

- Volto rápido para você... vem... vamos lá para a sala de jantar... - ela disse pegando sua bolsa e dando a mão para Jack, para ajudá-lo a andar.

Os dois foram lentamente até a sala de jantar, que já tinha um café da manhã completo servido para ambos. Clara comeu bem e fez com que Jack comesse e tomasse todos os remédios que deveria. Depois ajudou-o a ir até a sala de estar, terminou de arrumar-se e sentou-se ao lado dele  para esperar a chegada do carro que viria buscá-la e logo um belo Mercedes preto, passava pelos portões da casa e ela beijava Jack, que fez questão de caminhar com ela até o carro.

- Vou tentar voltar o mais cedo possível, se precisar de alguma coisa, me ligue... Se sentir alguma coisa diferente, avise o Bradley. Ele tem também os telefones do seu médico e do hospital...

- Querida... estou bem... de verdade... pode ir... - Jack disse beijando-a apaixonadamente. - Eu te amo...

- Eu também te amo, querido... - Ela disse entrando no carro, que partiu rápido pelas ruas de Kensington, entrando na garagem do apartamento de Mick, alguns poucos quarteirões dali.

- Bom dia, querida... - Mick disse ao entrar no carro e sentar-se no banco detrás ao lado dela. - Então vamos para Paris? Nossa, você está linda...

- Estou com frio... esta cidade não é fácil...

- Vou aumentar o aquecimento do carro... como está o Jack?

- Está bem... para mim está sendo muito dificil deixá-lo em casa, está tão frágil, dolorido...

- Querida, ele vai ficar bem... logo voltamos para Londres e você poderá cuidar dele...

- Cuidarei sim... sabe, Mick... eu pensei muito, de ontem para hoje e vi que não sou mesmo capaz de trair o Jack... eu o amo demais para isso...

- Eu sabia... você ama o Jack, ele ama você e eu fico aqui, te amando, sozinho... quase enlouquecendo de tanto desejo...

- Me desculpa, Mick... mas está muito difícil para mim...

- Quer dizer que você me deseja? Que aquele beijo de ontem...

- Aquele beijo de ontem foi maravilhoso, querido... mas...

Mick agarrou-a e beijou-a, seu corpo agora pressionando-a contra o banco do carro. - Por favor, Mick... - ela disse empurrando-o e pegando seu remédio de asma na bolsa. - Estou com falta de ar...

- Me perdoa, querida...  você está bem?

- Fiquei nervosa, mas já ficarei bem... - ela disse guardando o remédio. - Por favor, vamos tentar conversar...

- Está bem, meu amor... vou me controlar... não quero deixá-la nervosa... Vamos conversar...

- Vamos conversar sim... o que eu estava querendo te dizer é que eu sinto muita atração por você, mas não posso permitir que nada aconteça entre nós, porque amo o Jack e não irei traí-lo, de jeito nenhum... me perdoa... não tenho coragem...

- Fica tranquila, querida... quero que você se sinta segura ao meu lado,  sou seu amigo, não vou mais tentar te beijar. Somos amigos agora, ok?

- Ok! Obrigada por me entender...

- Querida, por favor, não me agradeça... estou aqui, lutando comigo mesmo,  tentando me convencer de que posso ser seu amigo quando tudo o que eu quero é ter você nos meus braços...

- Não posso... - Clara disse chorando e abraçando-o. - meu marido...

- Ele não está aqui...

- Não posso mentir para ele... seria como mentir para mim mesma...

- Fica calma, meu amor... fica calma... - Mick beijou-a no rosto. - Eu quero te ver feliz, não te fazer chorar...

O longo caminho de Londres a Heathrow foi percorrido rapidamente naquela manhã de domingo, Clara estava muito nervosa e com medo da possibilidade de ser fotografada por paparazzi embarcando, mas acalmou-se quando o carro entrou direto no hangar onde o avião esperava por eles.

Os dois estavam em silêncio agora, apenas atentos aos detalhes do embarque, que mesmo sem bagagem, precisava seguir o ritual de verificação de documentos por funcionários de alfândega fazendo o possível para fingirem-se indiferentes àquela notícia que tinha potencial para ferver todos o tablóides.

- Querida, você já pensou no que um repórter de tablóide não daria para estar no lugar desses funcionários da alfândega...

- Pois é, Mick... e se um deles falar alguma coisa para um desses reporteres...

- Eles não falam... você não imagina o que esses caras vêem no dia a dia deles... você já viu algum comentário na imprensa?

- Não... mas eu tenho medo... não confio em ninguém...

- E não deve confiar mesmo... todas as pessoas que trabalham para mim assinam acordos de confidencialidade e acredito que seu marido também os usa...

- Sim... os empregados da nossa casa foram todos contratados pelo Michael Peters e meu marido me disse que eles são proibidos de dizer qualquer coisa a nosso respeito...

- Então...

- Mesmo assim, não gosto deles ao nosso redor... não sei... não me sinto a vontade de verdade, até estar completamente sozinha com meu marido, ou com meus amigos.

- E comigo?

- O que tem?

- Não é mais só uma questão de privacidade, você não quer que seu marido descubra sobre nosso relacionamento...

- Mas somos amigos, Mick... eu não te disse no carro...

- Eu estava aqui pensando sobre o que você me disse... mas não consigo concordar...

- Como não consegue? - ela disse agarrando-se na poltrona depois de um grande solavanco causado por turbulência. - Eu não posso... lembra?

- Por que não pode? Você disse que também me deseja... o que tem de errado em duas pessoas que se desejam tanto ficarem juntas?

- Mick... por favor... eu não quero falar mais nisso..

- Mas eu quero... eu preciso ter você... não posso ser seu amigo se fico todo o tempo pensando em te abraçar e te amar... por que você me tortura? Por que renega o que sente?

- Por favor... não posso... se estou te incomodando tanto, vamos acabar logo com isso... assim que esse avião pousar em Paris volto para minha casa e você não precisa me ver nunca mais.

- Não... querida... por favor... eu só estou te pedindo para nos dar um pouco de paz... não tem nada de heroico, ou nobre nessa sua atitude... antes eu achava que você não me queria, mas agora, eu sei que você me quer e me deseja tanto quanto eu te desejo...

- Mick... - ela disse pegando a mão dele. - Me escuta... eu preciso me controlar, você também... porque meu marido não vai entender nunca isso e eu nunca mentirei para ele... nem o magoarei apenas por um desejo...

- Então você admite que me quer também?

- Claro que eu quero... mas não posso querer, não posso...

- Por que? Você é dona de si mesma, pode e deve fazer o que deseja...

- Não posso e não devo, se isso for magoar o homem que eu amo... e irá magoá-lo muito...

- Você acha que ele é fiel? Que nunca vai sair por aí com outras mulheres? Você é muito ingênua... na época da Crossroads... sinceramente querida, eu o vi fazendo coisas que me deixariam envergonhado...

- Eu sei, Mick... eu sei quem é meu marido... mas pedi a ele para nunca me contar sobre esses excessos, não quero que nosso relacionamento perca o encanto.

- Me desculpe, mas você está sendo muito infantil...

- Olha quem fala... só porque não está acostumado a ouvir não como resposta, me chama de infantil...

- Você tem razão, não estou acostumado a ouvir não como resposta... pelo contrário, as mulheres estão sempre fazendo de tudo para me levar para a cama...

- Então, aquela que não faz isso tem algum problema, certo?

- Você é que está dizendo isso... Eu quero você porque eu quero... existe sim o desejo pela mulher linda e encantadora, que eu ainda não tive e além dele, existem sentimentos que estão quase me enlouquecendo. Só consigo suportá-los porque sei que um dia você vai ser minha...

- Você tem mesmo muita autoconfiança... como sabe que um dia me terá?

- Porque eu sei... um dia, você não vai conseguir controlar mais esse desejo e ele vai atirá-la nos meus braços...

- Você é inacreditável... um rockstar de verdade... - Clara sorriu, ao vê-lo levantando-se e servindo whisky para ambos. - Não é cedo demais para bebermos?

- É cedo... mas acho que nós dois precisamos de uma bebida... eu sei que eu preciso...

- Eu não queria te magoar...

- Não está me magoando, querida... estamos só tendo uma conversa adulta sobre um desejo que está nos matando, mas que você considera inapropriado... aliás, que tal viver na capital do império? Porque voltamos à era vitoriana, não voltamos?

- Ah... por favor, Mick... não é assim que você vai me convencer...

- Não estou mais tentando... juro... é só um comentário sobre nossa situação peculiar... Então devo entender que você não quer ir ao meu apartamento comigo...

- Mas eu quero... estou certa de que você entendeu que não vai acontecer nada hoje entre nós...

- Opa! Existe uma esperança então... você disse hoje... não disse nunca... - Mick disse rindo e seu sorriso quebrou o gelo e terminou a discussão. Os dois começaram a rir e se abraçaram. - Ainda somos amigos?

- Claro e eu ainda te amo...

- Eu também te amo... sua maluquinha... - ele disse beijando-a no rosto. - Acho que estamos chegando...

Como se estivesse ilustrando o comentário de Mick, o piloto fez os avisos de segurança e logo pousava a aeronave na pista do aeroporto Charles de Gaulle. Paris estava chuvosa e os dois desembarcaram no hangar e caminharam até a Mercedes preta que esperava por eles. Estavam silenciosos, enquanto o carro rolava por largas avenidas quase vazias, rumo ao 16º Distrito, onde continuariam a conversa que começaram em Londres.

- Paris sob a chuva não parece tão linda... - disse Clara quebrando o silêncio.

- Ah querida... se eu pudesse, faria o sol brilhar, só para te deixar mais feliz...

- Com sol ou chuva, a resposta ainda é não...

- Deus... não estou tentando te seduzir agora... só estou jogando conversa fora para te entreter... você é minha convidada...

- Está bem... desculpa, fui rude... então... terminou a reforma de seu apartamento?

- Sim... você vai gostar de lá... aliás, aquele apartamento um dia será seu...

- Como assim, será meu?

- Porque você vai tirá-lo de mim no nosso divórcio... o castelo de Nice também...

- Lá vem... não vou sequer transar com você, quanto mais me casar e divorciar... depois a maluca sou eu...

- Estou brincando, querida... mas acho que vou mandar a conta do analista para seu marido pagar... depois de tanta rejeição é melhor que eu veja um profissional... - Mick disse servindo Whisky novamente para ambos.

- Vamos chegar bebados a reunião... - Clara sorriu. - Isso não é nada elegante...

- É sim... somos rockstars, meu amor... todos esperam que estejamos pelo menos um pouco fora de nós mesmos...

- Você é maravilhoso, sabia?

- Sei sim...  estava aqui pensando... será que você pode me matar uma curiosidade?

- Talvez... o que você quer saber?

- Como foi a primeira vez em que você transou com o Jack?

- Por que você quer saber isso?

- Por nada, só curiosidade... você não quer transar comigo, ao menos me conta como foi... foi em Nova York, não?  Eu estava lá na festa depois do show, lembra?

- Lembro... estava apavorada naquela festa...

- Por que? Você não tinha falado com o Jack antes?

- Tinha e nós quase tinhamos nos beijado, você se esquece que fui para lá assinar um contrato com ele, eu deveria ser a ghost writer do livro dele e ele era meu patrão, que eu estava conhecendo naquele dia... fiquei com muito medo sim...

- Com medo ou querendo beijá-lo?

- Os dois...  naquele momento eu sabia que não deveria ir para a cama com ele... embora não conseguisse pensar em outra coisa.

- Engraçado, acho que estou familiarizado com este sentimento... - ele sorriu. - Mas o que te fez ir assim mesmo?

- Eu não consegui me controlar...

- Imaginei... - Mick sorriu. - eu não tive essa sorte...

- Era um outro momento... agora tenho mais razões para me controlar... estou casada e logo estarei grávida, do meu marido...

- Mas está indo comigo para meu apartamento... a casa de um homem que quer ser o pai de todos os seus filhos... isso não me parece muito lógico...

- Eu estou indo porque ainda vou te convencer a ser só meu amigo e ficar em paz com isso...

- Paz? Agora você está brincando...

- Não estou... quero mesmo ficar em paz com você e  que você seja meu amigo...

Ele apenas balançou a cabeça negativamente e deu um sorriso discreto. Naquele momento, sua causa parecia mais perdida do que nunca, mesmo assim, ele não tinha nenhuma intenção de desistir.

Continua

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