11 de jun de 2012

Rockstar - Capítulo LXXXVII


A luz pálida de um sol gelado atingiu logo cedo as paredes de vidro da suite de Clara e Jack, iluminando o novo dia. E mesmo com o frio, os dois levantaram cedo, pediram o café da manhã para o serviço de quarto e logo foram para a casa de Kate, onde passariam o dia todo embalando objetos, arrumando malas e principalmente, revezando-se nos cuidados com o pequeno Jack.

Clara não falou mais nada sobre o telefonema de Ann, na noite passada, mas cada vez que ela ouvia um celular tocando, ficava claro que ela ainda não tinha digerido muito bem a ideia de que a ex de Jack havia ligado para ele novamente.

Os quatro almoçaram a comida chinesa que pediram por telefone e despediram-se no final da tarde, quando Jack e Clara voltaram para o hotel levando duas malas de Kate, que seguiriam com eles para Londres, no dia seguinte.

Cansados, mas dispostos a aproveitar bem o último dia de suas férias, eles foram juntos para a enorme banheira de mármore da suíte onde tomaram um longo banho, seguido de massagens com óleos essenciais, retomando o clima de lua de mel parcialmente disperso pelas tarefas da mudança de Kate.

Vestiram seus roupões, arrumaram as malas para embarcar no dia seguinte e depois descansaram na suite pelo restante do dia, interrompidos algumas vezes por telefonemas dos amigos e de Michael Peters, avisando que tinha enviado por e-mail uma lista com todos os próximos compromissos previstos na agenda para os próximos dias.

Porém, nenhum dos dois tinha a menor curiosidade de saber sobre estes compromissos; para ambos, enquanto não tivessem todos os detalhes sobre o que precisavam fazer, estariam livres para fazer o que quisessem, e as férias ainda não tinham terminado.

Jack estava ainda mais romântico naquele dia, fazendo de tudo para agradá-la, uma atitude que provavelmente seria vista por suas amigas como a maior  prova de que sentia-se culpado por ter traído sua confiança na noite anterior, mas ela preferia entender seus gestos como expressão daquilo que ela também sentia, a tristeza pelo final das férias mais maravilhosas de sua vida.

- Quero uma noite perfeita hoje, querida... vamos sair para jantar, Menininha? - Jack disse interrompendo uma conversa de Clara com Jonas no celular. - Depois podemos dançar um pouco...

- Dançar? - Clara sorriu. - Adoro! Onde nós vamos?

- Não se preocupe, você vai ver... - Jack riu. - Vem, quero cuidar de você e te vestir...

Já no caminho, Jack contou tudo sobre o restaurante, o mais caro de Chicago e certamente na lista dos mais caros do país, aquele era um lugar badalado, frequentado apenas pelos muito ricos, que não se importavam em pagar uma pequena fortuna por uma refeição, desde que estivessem cercados pela beleza e pelo luxo.

Como o Cinq, em Paris, aquele era um lugar para ver e ser visto, com obras de arte contemporânea penduradas nas paredes, um visual moderno e clean, onde até pratos e copos tinham formatos inusitados e eram frutos da criação de designers;  o ambiente do restaurante era quase tão importante quanto o sabor de suas iguarias. E como todo o ambiente frequentado por ricos e famosos, habitualmente concentrava alguns fotógrafos em sua porta, que se agitaram muito assim que Jack e Clara deixaram o carro nas mãos de um manobrista.

- Fotógrafos... de novo... - Clara disse agarrando-se a Jack e caminhando rapidamente tentando sair do alcance deles.

- Ah, querida... infelizmente não há muito o que possamos fazer sobre isso... mas lá dentro não teremos mais problemas...

- Não estou reclamando, querido... eu entendo perfeitamente...

- Apesar dos fotógrafos na porta, este tipo de restaurante é o melhor de todos para frequentarmos... as pessoas aqui, nem nos olham duas vezes, estão esforçando-se para provar que pertencem ao ambiente e acham que perturbar famosos não é algo de bom gosto a se fazer. Observa, querida... eles irão nos olhar uma ou duas vezes e estaremos em paz pelo resto da noite...

- Que bom... este lugar é lindo... - ela disse no ouvido de Jack, enquanto os dois seguiam o maitre até sua mesa.

Com o menu em mãos, Jack pediu King Crab, um dos principais pratos do restaurante, para ambos e tranquilamente, eles puderam apreciar sua refeição bebendo champagne e relaxando enquanto conversavam.

- Querido... onde é a pista de dança? - Clara perguntou sorrindo.

 - Este lugar não tem pista de dança...

- Não? Mas você disse que iríamos dançar hoje...

- Disse e vamos... - Jack riu mantendo o mistério. - Vamos dançar depois... se bem que seria muito engraçado se nos levantássemos aqui, no meio das mesas e dançássemos...

- Tem razão, querido... - Clara sorriu. - Chocaríamos toda essa gente que está aqui, fingindo-se de bem comportada... Mas acho que eles chamariam a polícia e aí estaríamos encrencados, amor...

- Verdade... imagina amanhã as manchetes: Casal de roqueiros drogados perturbam a paz em restaurante de luxo. O Peters teria um enfarte...

- Queria que fosse sempre assim...

- Não entendi...

- Nosso relacionamento... adoro conversar com você...

- Mas e as outras coisas que fazemos? Você não gosta?

- Claro que gosto... o que eu quero dizer é que eu adoro a sua companhia, esta viagem que fizemos foi tão perfeita... nunca imaginei que seria assim...

- Nem eu, Menininha... Estou apaixonado pela minha melhor amiga... - Jack disse pegando a mão de Clara e beijando-a.

Depois da sobremesa, igualmente sofisticada e saborosa, Jack pediu e pagou a conta e os dois já estavam seguindo pelo corredor que levava até a porta externa do restaurante quando foram interrompidos por um segurança da casa.

- Desculpe senhor Noble, mas existe uma grande concentração de fotógrafos na porta principal do restaurante, já chamamos a polícia para controlar o tumulto, mas para sua segurança, será melhor que saiam pela porta dos fundos do estabelecimento...

- Ótimo! - Jack sorriu. - Não nos importamos... só precisamos que o nosso carro esteja lá...

- Seu ticket de estacionamento, por gentileza...

Jack entregou o ticket e assim que tiveram um ok da segurança, atravessaram a cozinha e a área administrativa do restaurante, entraram no carro e partiram.

- O GPS continua desligado... - Clara sorriu ao ver o marido atravessando a cidade, naquela noite de segunda-feira. - Então vamos dançar aonde?

- Estamos quase lá, Menininha... - Jack disse cortando as  avenidas largas até uma área que tudo indicava ser um grande centro comercial, completamente deserto naquela noite gelada.

- Vou estacionar aqui, estamos perto do lugar, não quero precisar andar muito nesse frio... - Jack sorriu ainda fazendo mistério. - Vem amor...

Eles caminharam por um quarteirão  de calçadas largas e desertas  até chegarem ao que aparentava ser um antigo prédio de apartamentos na esquina. Jack tocou a campainha de um dos apartamentos e os dois entraram em um pequeno hall mal iluminado, nada do que Clara estivesse esperando.

- Vem amor... vamos descer...

- Como assim, descer?

- Sim... o lugar onde vamos fica no porão deste prédio... - Jack sorriu. - Vem amor...

Os dois desceram dois lances de escadas e chegaram a um corredor ainda mais mal iluminado que o do hall.

- Querido... estamos indo na casa de alguém?  - Clara perguntou cada vez mais assustada.

- Não, amor... estamos indo ao melhor e mais bem guardado segredo desta cidade... - Jack sorriu.

- Jack! Entra! - disse um homem negro muito magro que abriu a porta. - Nossa! Ela é mesmo linda, amigo... - ele sorriu pegando a mão de Clara. - Boa noite, sou Louis Jackson, bem que o David me disse que ela é uma princesa...

- Muito prazer... - ela sorriu ao ver que a porta se abria para um grande salão do que aparentava ser um bar, com um grande balcão, algumas mesas e um pequeno palco cheio de instrumentos. Espalhadas pelas paredes, inúmeras fotos de artistas de blues, indicando que todos os grandes mestres já tinham passado por lá ou frequentavam a casa.

- Bem vinda, senhora Noble ao "The Joint", o melhor clube de blues desta cidade....

- Aqui é um clube de blues? - Clara perguntou espantada, olhando ao redor e vendo algumas das mesas ocupadas por poucas pessoas, enquanto outras sentavam-se em bancos próximos do bar.

- Sim... desde 1928, esta é a melhor casa desta cidade, atravessou a lei seca intocada e ainda permanece como o melhor lugar do mundo para se ouvir blues, nas últimas 8 décadas. Quando ela nasceu, o blues era uma música marginal, os músicos se reuniam em lugares que ficavam nas beiradas da cidade, do outro lado dos trilhos e todos ficaram  muito orgulhosos quando este lugar começou a funcionar. Era uma conquista... - sorriu Louis. - E se você está aqui, significa que alguém a considera uma pessoa merecedora de conhecer este grande segredo...

- Me considero honrada por isso, senhor Jackson...

- Me chama de Louis, querida... por favor, acomodem-se, o show começará daqui alguns minutos... - disse o homem afastando-se da mesa, onde um cartão muito simples fazia as vezes de menu.

- Sei que acabamos de jantar muito bem, mas você precisa experimentar o camarão a creole daqui... é uma delícia...

- Hum... parece maravilhoso, amor! - sorriu Clara.

- Conheci este lugar em 1974, estávamos em turnê e eu e o David sempre dávamos nossas escapadas para conhecer melhor a música que nos fascinava tanto, fomos até New Orleans e conhecemos alguns músicos locais e eles nos indicaram o Louis, como a pessoa que teria contatos dentro da Chess de Chicago, para conseguir umas gravações antigas, da década de 30, que o David estava procurando. Deixamos a banda lá no sul, pegamos voos de carreira e viemos correndo para cá e o Louis, ainda meio desconfiado, nos levou à Chess, onde conhecemos o Muddy Waters e ele nos convidou para vir vê-lo tocar naquela noite... a nossa sorte foi que era nossa folga, só tinhamos show no dia seguinte, na Flórida, para onde embarcamos no dia seguinte, em estado de graça...

- Que lindo, amor... e vocês viram o Muddy Waters tocando aqui?

- Eu chorei muito naquela noite... ele era um dos meus maiores ídolos e foi maravilhoso conhecê-lo e depois do show, ainda conversamos por horas sobre música...

- Acho que adoraria conhecê-lo também... amo a música dele.

A casa foi enchendo aos poucos e na hora do show, estava com pelo menos a metade de sua lotação. Uma boa parte das pessoas que chegavam conheciam Jack e vinham cumprimentá-lo.

- Senhoras e senhores, boa noite! Hoje temos uma atração muito especial para vocês... Depois de terminarem sua turnê internacional ao lado do grande Jack Noble, eles trazem seu talento para o "The Joint". Com vocês, "The Princes of New Orleans"!

Aplaudidos, os músicos veteranos tocaram um repertório variado de blues tradicionais, enquanto Jack e Clara dançavam abraçados...

- Não te disse que íamos dançar hoje à noite? - Jack sussurrou no ouvido de Clara.

- Você é maravilhoso, meu amor... - Clara sorriu e beijou-o.

Jack foi convidado para subir ao palco e cantou com a banda a música "Love In Vain", uma das favoritas do disco que fizeram juntos e também uma das músicas que Clara mais gostava. Logo depois do show, a banda desceu do palco e sentou-se ao redor da mesa de Jack, onde passaram o resto da noite, contando lendas e histórias sobre os mestres do blues que todos tanto amavam ali.

Clara e Jack saíram de lá quando o dia já tinha amanhecido; foram direto ao hotel, terminaram de arrumar a bagagem, tomaram café da manhã e partiram para o aeroporto. As férias estavam terminando, mas a sensação de terem vivido uma noite inesquecível continuava com eles, mesmo sem dormir.

Continua

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