27 de abr de 2012

Rockstar - Capítulo LXXIX


Quando o celular tocou, ainda era noite escura lá fora, mas os sons da mata começavam a fazerem-se notar. Os dois se levantaram arrumaram suas mochilas,  tomaram um bom café da manhã e ainda embalaram um lanchinho preparado com capricho para eles por Dona Santa.

Vestidos com calças jeans e botas, os dois encontraram-se com Sillas no pé do morro e seguiram-no pelo caminho que cortava a mata, subindo lentamente por uma trilha levemente íngreme que aos poucos começava a ser iluminada pela luz do sol.

Clara estava maravilhada com tudo o que via, árvores centenárias ofereciam sombra e abrigavam muitos pássaros multicoloridos, que naquela hora da manhã faziam uma verdadeira sinfonia.

Aqui e ali ela avistava lindas orquídeas selvagens de todos os tipos e cores e usava sua câmera para levá-las com ela, já que segundo Sillas, era proibido tirar qualquer coisa daquela mata protegida por leis duras de preservação.

- Olha Jack, os fiscais estão loucos para achar alguma coisa de errado por aqui. O senhor Mersey sempre nos pede para tomar cuidado com eles, porque tem muita gente de olho nestas terras. Tem épocas que precisamos até aumentar o número de seguranças por aqui para evitar qualquer problema maior.

- Por favor, Sillas, ajuda o David, cuida bem deste lugar porque seria um pecado se essa beleza toda fosse destruída...

- Nós cuidamos, senhora Noble... estamos sempre de olho... - sorriu Sillas. - Ah, senhora Noble, por favor, não se aproxime muito desse tipo de vegetação...

- Por que?

- Esta área tem muitas cobras, incluindo jararacas e elas gostam muito de ficar enroladas no meio desse tipo de mato... por favor venha na minha direção...

- Cobras? - Clara voltou assustada depressa para perto do marido. - Eu tenho pavor de cobras... especialmente jararacas...

- Ah, querida... fica tranquila... por isso o Sillas tinha nos pedido para usar essas botas, não é?

- Sim, mas as jararacas são muito perigosas, não são Sillas?

- São sim, Jack... o veneno delas é muito forte,  mata um adulto em questão de poucas horas, mas não se preocupem, tenho antídoto para o veneno delas na bolsa, caso aconteça algum acidente.

- Fica mais perto de mim, Menininha...

- Sillas, este lugar não tem onças?

- Tem sim, mas elas são muito ariscas e só aparecem aqui pela mata durante a noite. Tem uma que costuma caçar sempre lá perto da cachoeira, já a avistei umas duas ou três vezes por lá. Mas elas são raridade, o que se vê mais nesse mato, além dos pássaros, são algumas espécies de macacos e animais pequenos como gambás e rãs. Isso porque esta é uma área bem preservada,  na maior parte das matas além das fronteiras das nossas terras quase não tem mais nenhum animal.

- Isso é uma pena... Olha... macacos ali, no alto daquela árvore... Vou tentar fotografá-los daqui... - sorriu Clara.

- A senhora deu sorte, são mico leões dourados... - sorriu Sillas. - Estão cada vez mais raros por aqui... E se a senhora observar, eles têm alguns filhotes nesse bando... Olha ali... em cima das costas daquela fêmea, ali, naquele galho.

- Já vi... consegui! Fotografei... Olha amor que coisa mais linda... - disse mostrando a foto para Jack, que sorriu.

Continuaram caminhando pela mata e aos poucos todos os sons dos pássaros pareciam desaparecer, enquanto um ronco começava a crescer. Aproximavam-se mais e mais de uma linda cachoeira de água límpida, que despencava de uma grande altura sobre um pequeno lago rodeado de pedras.

- Olha, meu amor... - disse Clara. - Que lugar mais lindo! Hum... Dá vontade de nadar nesse lago... é seguro, Sillas?

- Desculpa, senhora Noble, mas não é muito... a correnteza que a cachoeira cria nesse lago é muito violenta e puxa as pessoas para o fundo...

- Ah! Que pena! - sorriu Clara. - Podiamos nadar um pouco, não amor?

- É uma pena mesmo, Menininha... Estou suando como um maluco, já...

- Bem, vamos aproveitar a vista maravilhosa deste lugar para fazermos nossa parada para nos alimentarmos. - sorriu Sillas. - Vamos nos sentar sob aquela árvore ali?

- Estou encantada, Sillas. - sorriu Clara. - Nada me emociona mais do que estar assim, perto da natureza.

- Eu tenho uma casa de campo na fronteira com o País de Gales e lá, assim perto de uma fonte de água, que temos no topo da montanha, vimos uma mãe loba e dois filhotes... animais lindos... Foi no final de agosto, não foi, Menininha?

- Foi... mais ou menos uma semana depois do nosso casamento...

- Lobos também são perigosos, eu imagino...

- Eles fizeram alguns estragos no jardim da nossa casa e andaram atacando alguns rebanhos de fazendeiros da região, mas minha mulher entrou em contato com uma ONG de preservação para protegê-los de caçadores.

- Que bom... precisamos proteger todos os animais. Sabe que aqui, tem um tipo de macaco prego que tinha desaparecido da mata e agora, voltou a aparecer. Encontrei uma família inteira deles na semana passada aqui perto. Já até avisei um dos biólogos que trabalham aqui e eles devem vir para dar uma olhada neles...

- Que lindo! É bom saber que os animais estão voltando a ter alguma chance...

- Então, podemos continuar subindo? - perguntou Sillas. - Esta primeira parte é mais íngreme, logo atrás da cachoeira, mas depois melhora e lá de cima teremos uma visão mais completa da costa... 

- Vamos querida, eu te ajudo... - disse Jack pegando-a pela mão. - Está pronta?

- Estou, amor... vamos?

Lentamente os três continuaram a subir até o topo de onde tinha-se a mais bela vista de toda a costa, de lá, se via a casa, a mata e até de uma parte da vila de pescadores e suas pequenas casas coloridas.

- Este lugar... meu amor... - Clara disse completamente emocionada com o que via, agarrou-se em Jack. - Olha isso... que lindo...

- É lindo mesmo, meu amor... mas você é ainda mais... - Jack disse, beijando-a apaixonadamente. - Eu te amo, Menininha...

- Jack, eu também te amo... - sorriu Clara. - Sillas, será que você não pode nos fotografar? Acho que se nos sentarmos naquela pedra ali...

- Esse é o melhor lugar para pegar toda a paisagem no fundo... - sorriu Sillas ajeitando a câmera.

Sillas tirou três fotos dos dois juntos e eles gostaram muito do resultado. Tiraram mais algumas fotos da paisagem e começaram a descer lentamente, com Jack ajudando Clara nas partes mais íngremes.

Quando finalmente chegaram ao deck, estavam cansados, suados e com muita sede. Entraram na casa para refrescarem-se, tomaram água de coco providenciada prontamente por Charles e almoçaram juntos.

- Engraçado, mas aqui embaixo está muito mais quente do que lá em cima, não está? - disse Clara, voltando do quarto depois de tomar um banho rápido e vestir suas roupas de banho.

- É mais quente sim, amor... por causa da mata, lá em cima acaba sendo um pouco mais frio. - sorriu Jack. - Já está pronta para a praia?

- Acho que vou descansar um pouco na piscina após o almoço. O sol está muito forte, estou com medo de me torrar...

- Eu e o Sillas vamos jogar uma partidinha e depois me junto a você, querida...

- Está bem... acho que vou aproveitar e ler o roteiro que o Summers me mandou. Não gosto de deixar os outros esperando pelo meu trabalho... Vou levar meu tablet na piscina...

- Achei que você ia preferir descansar... mas se você quer trabalhar...

- Ah querido, não adianta, enquanto estou devendo um trabalho, não consigo simplesmente esquecer e relaxar...

- Eu sei, meu amor... não se preocupe... vai dar tudo certo... - Jack disse beijando-a antes dos dois afastarem-se, ela entrando no quarto atrás de seu tablet, ele tirando a camisa e acompanhando Sillas até o terraço.

Clara deu um longo suspiro, pegou seu tablet, um chapéu e sentou-se em uma das cadeiras ao redor da piscina, estava fisicamente cansada, mas muito feliz por tudo que havia visto naquele passeio pela mata. Ela e seu marido tinham mais isso em comum,  um grande amor pela natureza.

Ela abriu seu e-mail, leu mais uma mensagem enviada a ela por Mick Jagger e também uma de Jonas, seu sócio, preocupado com a chegada dela em São Paulo e o assédio da imprensa que já estava sendo grande desde que ela tinha publicado a foto dela e de Jack na praia, em seu blog.

Preocupada com esta informação Clara decidiu que precisariam de um segurança quando estivessem em São Paulo e resolveu que discutiria isso com Jack porque queria chamar o homem que Mick Jagger recomendara durante a festa de casamento de Paul McCartney.

Escreveu para Jonas explicando seus planos e ele respondeu imediatamente, dizendo que estaria pronto, esperando por suas ordens e que já tinha dito ao Roberto, ex-namorado dela, que eles estavam no Brasil, em um local inacessível,  mas que partiriam nos próximos dias de volta para Londres.

A informação deixou Clara ainda mais preocupada, conhecia muito bem os métodos de Roberto e tinha certeza que se ela e Jack não se protegessem muito bem, ele os perseguiria durante todo o tempo em que estivessem em São Paulo.

Também mandou um e-mail para sua irmã pedindo que deixasse o apartamento pronto para sua estadia com Jack na cidade, queria que ela mandasse fazer uma boa faxina e providenciasse a compra de alguns mantimentos para usarem durante os quatro dias em que estivessem por lá.

Depois, pegou seu celular e ligou para seus pais, confirmando que iria com Jack jantar com eles na quarta-feira e descobrindo que um grupo ainda maior de sua  família se reuniria também na sexta-feira, em uma pizzaria, para recebê-los em um outro jantar.

Desligou o telefone e decidiu subir para guardar os aparelhos em seu quarto. Assim que entrou, percebeu que Jack estava no banheiro, tomando banho e não quis perturbá-lo. Guardou o celular e o tablet em sua bolsa e voltou rapidamente para a piscina. Tirou sua canga e mergulhou na água que estava fresca naquele momento em que o sol não batia mais por lá.

Alguns minutos depois, Jack chegava na piscina, os cabelos ainda molhados do banho, ele simplesmente mergulhou e nadou até ela.

- Estou com saudades de você, meu amor... - disse Jack empurrando seu corpo contra o dela e prensando-a contra a beirada da piscina. - Você está com saudades de mim?

- Muitas... - Clara disse beijando-o. - Então, ganhou do Sillas?

- Ganhei e agora, quero ganhar meu prêmio...

- Estou percebendo... - ela sorriu ao sentir Jack acariciando seu corpo. - Não podemos fazer isso aqui, amor... quer ir até a praia?

- Vamos? - Jack saiu da piscina e puxou-a com ele para fora.

Os dois caminharam pela praia até o final e mais uma vez se amaram entre as pedras. O desejo entre eles era tão intenso que nem se lembraram de que estavam sob o sol forte do final da tarde que provavelmente torraria sua pele, que já estava sendo arranhada por algumas pedras próximas do local onde se deitavam.

- Jack... que loucura, meu amor... fizemos isso de novo... estamos aqui, no meio da praia, nus...

- Desculpa meu amor... mas precisava disso... Eu te amo tanto, querida... tanto...

- Eu também te amo, Jack... Você me faz muito feliz... mais feliz do que eu jamais sonhei que poderia ser... - ela disse enquanto voltavam a vestir-se. - Me sinto no paraiso quando estou ao seu lado.

- Ah querida... - Jack suspirou. - Nestes momentos, quase me arrependo de ter aceitado voltar para a Crossroads...

- Amor, sabe o que me intriga? Por que você decidiu isso só agora? O David e o Mike sempre pareceram dispostos a retomar a banda e você só dizia que isso nunca aconteceria novamente...

Jack respirou fundo, abaixou a cabeça e pegou as mãos de Clara entre as suas. - Já está na hora de você saber o porquê dessa minha atitude... me desculpa por não ter te contado antes, mas para mim, sem o Don, não existia mais Crossroads... Ele era meu irmão...

- Eu sei, querido... ele te abrigou quando você fugiu de casa...

- Sim e eu fiz questão de tê-lo na banda, mesmo colocando naquele momento, minha posição em risco. O Dave e o Mike já tinham outro baterista em mente, mas  aceitaram o Don, como podiam ter mandado eu e ele de volta para aquele pub fedorento onde me acharam...

- Eu sei querido... Mas quando tocaram juntos pela primeira vez, descobriram que eram maravilhosos juntos...

- Começamos fazendo um circuito de shows na Inglaterra, lugares pequenos, salões de baile, universidades e as pessoas começaram a se apaixonar pela banda. Em pouco tempo, embarcávamos para a América e por incrível que pareça, as pessoas lá também se apaixonaram pelo que fazíamos e passamos os próximos dez anos viajando pelo mundo, fazendo músicas, discos... era como viver em um mundo aparte. Tínhamos mansões, onde nossas esposas viviam com nossos filhos, carros, motos, barcos, um avião, mas viviamos em quartos de hotéis e de motéis, geralmente cercados por gente que mal conhecíamos. - Jack disse, tentando segurar as lágrimas.

- Querido... - suspirou Clara, puxando a cabeça de Jack para deitá-la  em seu ombro. - Vem... descansa em mim...

- Estou bem, amor... - sorriu Jack, limpando as lágrimas. - Eu e o Don sofríamos muito mais do que o Dave e o Mike; e o Brad precisava nos manter produtivos e nos cercava de mulheres, drogas e bebida. Eu sofria quieto, no meu canto. Passava muitas noites chorando no telefone, conversando com a Mary; mas o Don, ele se revoltava, bebia, batia em jornalistas, criava problemas com as groupies, fazia escândalos...

- Meu amor... - Clara pegou as mãos de Jack e beijou-as. - Que triste... Vocês eram tão unidos, mas se dividiram...

- Sim, querida. No começo eu ainda tentava ajudar, mas eu acabei isolado; completamente sozinho na minha vontade. O Dave e o Mike não me davam a mínima e o Brad passou a me perseguir, dizia que eu era um estraga prazer, que podia prejudicar  a banda com minha atitude... Depois de 4 ou 5 anos brigando com aquilo tudo, tentei encontrar alguma paz, tive casos com groupies, como a Linda Monsoon e a Laura Jones. Elas me distraíam e tornavam aquela situção menos insuportável...

- Ah, meu amor... - disse Clara. - Quando você fala sinto a tua dor, aqui dentro do meu peito...

- Bem... os meus casos começaram a abalar meu casamento. Eu e a Mary nos amávamos muito, mas a distância e as coisas que saíam na imprensa sobre a banda a feriam demais; ela passou a ter muitos ciúmes, mas o Brad sempre dava um jeito de afastar as esposas da estrada. Depois de muito lutar,  e em um momento em que estávamos bem de novo, ela ficou grávida e a turnê tinha terminado. Eu estava em Londres para uma reunião na gravadora e ela foi para Birmingham para uma consulta médica. Um motorista bêbado fechou o carro dela e aconteceu um acidente terrível. Ela perdeu o bebê e ficou três dias em coma.

Clara apenas acariciava os cabelos de Jack, que agora chorava muito no colo dela. - Amor, não precisa...

- Preciso sim... você precisa saber... Bem, demorou quase um ano para ela estar bem novamente. Eu pedi um tempo para a banda para cuidar dela e aquilo acabou sendo muito bom para todos, o Dave foi para a Suiça e internou-se em uma clínica, o Mike pegou a esposa dele e foi viajar, passou alguns meses morando na Holanda e ninguém se preocupou com o que estava acontecendo com o Don...

- Mas você precisava cuidar da Mary...

- Sim, claro... mas cuidando dela, me esqueci que meu irmão também precisava de cuidados... e o perdi de vista.

- Mas você precisava cuidar de sua família...

- Sim, mas se eu soubesse o que estava acontecendo com ele... O Don tinha voltado para casa também, mas a Julie, a mulher dele, já tinha sofrido tanto que não o queria mais e o expulsou de casa. Ele praticamente estava vivendo nas ruas de Birmingham...

Clara também chorava agora e o acariciava tentando consolá-lo.

- Quando o Dave voltou para casa e ficou sabendo pelo Brad o que estava acontecendo, ele convocou uma reunião da banda no estúdio do Dan Joyce, onde costumávamos ensaiar. A ideia dele era a de demitir o Don e contratar um outro cara... O Mike ainda não tinha voltado da Holanda e o Brad já estava marcando testes para contratar um baterista novo. Eu fui porque queria conversar com eles e fazê-los desistir da ideia... Queria que eles me ajudassem a interná-lo mas eles apenas queriam livrar-se dele...

- Ah, meu amor...

- Eu conversei com o Dave e ele tinha resolvido dar um tempo ao Don, ligou para o Brad e cancelou os testes, mas o Don apareceu lá no estúdio, muito bêbado e o Dave falou uma porção de bobagens para ele. O Don deu um soco na cara do Dave e quando eu fui tentar segurá-lo, ele disse que eu estava do lado dos inimigos dele e também me bateu. Em seguida, ele pegou uma garrafa de Jack Daniels que estava no balcão e com ela nas mãos foi até a Ferrari dele, que estava na porta do estúdio. Não consegui segurá-lo, ele era muito grande e muito forte para mim... Ele saiu acelerado de lá e em uma das curvas, a caminho da casa de campo dele, perto da nossa montanha, perdeu a direção e bateu violentamente em uma árvore.

- Eu sinto muito, querido... muito mesmo...

- Por isso não queria voltar com a banda. Para mim, aquele acidente terminou tudo... e eu e o David éramos os grandes culpados por tudo o que aconteceu.

- Não, querido... você não teve culpa... Você fez tudo o que podia por ele...

- Não fiz... a Mary já estava bem... eu podia ter ido ajudá-lo...

- Meu amor... você tinha que cuidar da sua família... Sei que você fez o seu melhor... você o amava, não amava?

- Muito...

- Então... eu conheço o seu caráter e sei que você nunca faria nada de ruim para alguém que você ama... Faria?

- Mas eu não o ajudei, quando ele precisou...

- Você tinha outros problemas querido... a mulher que você amava precisava de você... Imagino que se fosse comigo, você não me deixaria para cuidar de seu amigo, deixaria?

- Claro que não... Mas eu me senti culpado e fiquei com muita raiva deles, ainda mais depois, quando mal passou o funeral, eles já queriam fazer testes para um novo baterista... Dei um soco no nariz do David, vendi uma fazenda que tinha perto da nossa montanha e dei todo o dinheiro nas mãos da Julie, a esposa do Don. Eu estava com muita raiva e fiquei com medo de dar um tiro em alguém; então, peguei uma mochila e meu jeep e fui embora para Marrakech, o lugar mais longe que eu conhecia... A Mary foi com as crianças uns três meses depois e ficamos um ano por lá...

- E quando você voltou... retomou a amizade com o David e com o Mike?

- Sim, muito lentamente, não queria vê-los nunca mais, mas voltamos a conversar... nunca mais falei com o Brad... Com o fim da banda, o David começou a fazer outros trabalhos e o Brad o agenciava, o Mike foi para a América e passou a fazer trilhas sonoras e sumiu das nossas vistas por alguns anos... De tempos em tempos eles me ligavam para ver se eu tinha mudado de ideia, mas para mim, não tinha volta...

- E o que mudou agora?

- Você... quando você apareceu na minha vida, senti que tudo mudou. Meus sentimentos mudaram... eu sentia tanto carinho por você, queria tanto te fazer feliz que pela primeira vez, depois da morte do Don, senti que não ia doer tanto ir para a estrada com os caras... Já tinha feito dois discos com o Dave e viajamos fazendo shows; não tinha por que não te dar essa alegria de nos ver juntos, meu amor...

- Querido... por mais que eu me sinta feliz com esse teu gesto, eu me preocupo com você...

- Não precisa se preocupar, querida.... estou deixando tudo para trás, de verdade... Na época em que o Don morreu, eu achei que a banda tinha acabado com a minha vida, mas agora, não penso mais assim... Eu tenho orgulho da minha história na Crossroads e sinto muitíssimo pela forma que ela terminou, mas me sinto forte novamente e estou disposto a escrever novos capítulos agora que você está ao meu lado...

- Jack... - Clara abraçou-o e beijou-o. Os dois ficaram ali, sentados nas pedras agarrados por alguns minutos tentando parar de chorar até que Clara levantou-se e puxou-o para um mergulho no mar. - Vem... vai te fazer bem...

- Já me fez, Menininha... Vamos para casa?

- Vamos, querido... acho que ficamos tempo demais aqui na praia hoje... minha pele está ardendo...

- Vamos falar com a Dona Santa... ela cuida da gente, Menininha...

- Você está bem?

- Melhor do que nunca, querida... Nos últimos 30 anos em que passei tentando lidar com a minha culpa, nunca me senti melhor do que hoje, me sinto feliz de poder contar como tudo aconteceu a você, meu amor... O teu carinho é um bálsamo para a minha dor...

- Meu amor... espero estar a altura de tudo o que você vê em mim...

- Você é muito melhor do que tudo que já sonhei... Vem, Menininha... quero esquecer esse passado triste e te mimar pelo resto do dia...

Os dois entraram em casa e foram direto para a cozinha para pedir um pouco da loção para curar queimaduras que Dona Santa sempre preparava para eles de uma forma tão carinhosa.

- Claro filhos, vou buscar as ervas lá fora... acabei de fazer esses biscoitinhos... pode pegar filhos, ainda estão quentinhos do forno... - sorriu Dona Santa enquanto tirou o pano que cobria uma travessa cheia de biscoitos delicados de polvilho.

Clara e Jack serviram-se enquanto a esperavam voltar. - Que delícia isso, Jack... - sorriu Clara. - quer um chá?

- Não amor... vou só comer os biscoitos.... Dona Santa é mágica, não querida?

- É mesmo! Adoro tudo o que ela faz... Sente só o perfume do jantar que ela está preparando...

- Delicioso... Ah, meu amor... será que sempre será assim?

- Assim como?

- Essa felicidade que você me dá todos os dias, esse carinho e essa paciência que você tem comigo...

- Claro, meu amor... eu não consigo ser diferente, eu te amo muito, Jack... tenho vontade de passar todo o meu tempo cuidando de você...

- Ah, querida... Queria tanto ter te encontrado há mais tempo...

- Meu amor, nos encontramos na hora certa... - Clara disse beijando-o mais uma vez. - Você me faz feliz demais... querido...

- Pronto, filhos... as ervas estão todas aqui, vou preparar o óleo para vocês... querem ir para o quarto, agora? Levo o óleo lá para vocês...

- Não, Dona Santa... esperamos ficar pronto... - sorriu Clara. - O perfume do jantar está maravilhoso! O que a senhora está preparando para o jantar?

- Ah, filha... são comidas nordestinas; carne seca com purê de abóbora, feijão de corda e manteiga de garrafa... você já experimentou, filha?

- Hum! Já comi uma vez, em uma viagem que fiz com meus pais pelo Nordeste... adorei! O Jack também vai amar, tenho certeza... - disse Clara sorrindo e traduzindo para ele o menu.

- Jack gostar! - sorriu Jack tentando falar português. - Dona Santa é magico!

- Ele está aprendendo filha... - sorriu Dona Santa. - Logo ele vai entender tudo o que a gente fala...

- Vai sim... ele é muito inteligente, Dona Santa e eu o amo muito... - sorriu Clara.

- Nossa filha... Hoje vocês dois estão muito vermelhos! Precisa tomar mais cuidado com o sol, a pele de vocês é muito branquinha...

- Eu sei, Dona Santa... - sorriu Clara. - Está tudo muito ardido agora. Esquecemos da vida no sol hoje...

- Mas não faz mal, filha... vocês passam o óleo e vai ficar tudo bem...

- Santo óleo esse da senhora! - sorriu Clara. - Não bastasse o sol,  o Jack ainda está com uma mancha enorme nas costas, porque caiu no barco na sexta-feira...

- Ah filha... tenho tintura de arnica... passa na mancha que some... Vou lá pegar para você...

- Obrigada, Dona Santa! Devia ter pedido antes para a senhora...

- Coitado... olha só que mancha feia...

- Ela vai buscar um remédio para passar na sua batida nas costas, querido...

- Obrigado, Dona Santa! - Jack disse em português.

- Pronto, filha... está tudo aqui... o óleo e a tintura de arnica... Agora, vocês tomam banho e você passa nele, primeiro a arnica... faz uma massagem para melhorar a circulação e depois passa o óleo que a queimadura não vai doer mais...

- Obrigada Dona Santa, a senhora é um anjo! - Clara disse beijando a velha senhora.

- Obrigado Dona Santa... - disse Jack beijando-a também. - Você muito linda!

- Obrigada filho!

Os dois foram para o quarto com os dois preparados de Dona Santa. Estavam agora muito felizes e tranquilos, tiraram as roupas, entraram na banheira juntos e apenas relaxaram. Depois, Clara cuidou da mancha nas costas de Jack e espalhou o óleo por todo o corpo dele. E depois, ele espalhou o óleo pelo corpo dela.

- Vamos nos vestir, Menininha? - disse Jack atirando-se nu na cama. - Ai que alívio... esse óleo da Dona Santa é mesmo milagroso...

- Ah, querido... o que vamos vestir?

- Não sei, amor... por mim, nada... - riu Jack. - Você fica linda nua...

- Não fico não... - riu Clara. - Ah! Já sei... aquele vestido de alças ali... é bem fresquinho e solto... não vai ficar raspando na minha pele queimada... Você não vai se vestir?

- Não sei o que vestir, querida...

- Aquela camisa branca mais larga ali e a bermuda bege... pode ser? Pelo menos são roupas mais confortáveis que não vão ficar raspando na pele queimada.

- Você está linda... vamos dançar hoje de novo?

- Vamos, amor... É tão bom dançar com você!

- Ah, não prende o cabelo... - disse Jack. - Gosto do seu cabelo solto...

- Está bem, querido... se veste... estou quase pronta e você ainda está aí, deitado... - Clara disse aproximando-se dele e acariciando seus cabelos. - Vem... quero arrumar seus cachos...

Jack puxou Clara em cima da cama e prendeu-a sob seu corpo.

- Ah, amor... agora não... vem se vestir, vem...

- Tudo bem... você não me quer... eu entendo... - disse Jack levantando-se, com um indisfarçável tom de desapontamento na voz. - Vou me vestir...

- Jack, não é assim... - Clara levantou-se e puxou-o para perto. - Eu te amo muito e te desejo muito...

Jack beijou-a e começou a tirar sua roupa, mas desta vez ela não resistiu e os dois se amaram mais uma vez só deixando o quarto bem mais tarde, quando jantaram e foram mais uma vez andar na praia, mais unidos do que nunca.

Descalços na areia, Clara queria ir até o final da praia, mas Jack disse que preferia ficar um pouco mais perto da casa naquele momento.

- Querida, há um mês estávamos em Paris, naquela festa do Paul, lembra? Quando você docemente me tirou de lá para uma das melhores noites de nossas vidas?

- É mesmo, amor... eu queria te surpreender...

- E conseguiu... de verdade... eu sai para fazer um chá e quando voltei...

- Foi uma noite maravilhosa, meu amor...

- Bem, querida... tive hoje a mesma ideia, amanhã faz dois meses que nos casamos e bem... - disse Jack tirando do bolso uma pequena caixa de veludo. - Meu amor por você só aumenta... feliz aniversário de dois meses!

- Meu amor! - disse Clara abraçando-o. - Você não devia...

Dentro do pequeno estojo uma corrente com um pendente em formato de coração, todo cravejado de diamantes.

- Fui eu quem escolhi, se você não gostar...

- Não gostar? Meu amor, é lindo! Pendura no meu pescoço!

- Mandei fazer uma gravação atrás... Aqui está um pouco escuro para ver, mas diz: "Eu te amo infinitamente, Menininha"

- Ah Jack! - Clara disse sentindo as lágrimas brotarem de seus olhos. - Eu também te amo!

Jack prendeu a jóia no pescoço de Clara e beijou-a. Os dois caminharam de volta para seu quarto, onde passaram uma noite de puro envolvimento.

Continua

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