18 de abr de 2012

Rockstar - Capítulo LXXVII


Jack e Clara acordaram assim que o celular de Clara começou a tocar, às 7 da manhã. Levantaram-se, vestiram-se com roupas simples, embalaram toalhas e mudas de roupas, aproveitaram o delicioso café da manhã e sentaram-se esperando a chegada de Sillas.

Diferente dos dias anteriores, o céu estava encoberto de nuvens e tudo indicava que não demoraria muito para chover. Clara ficou ainda mais nervosa quando percebeu o quanto o mar estava mexido, no caminho até a vila de pescadores.

- Sillas, vai chover hoje, não vai? - Clara perguntou. - Não é perigoso ir para o mar assim?

- Vai sim, senhora Noble. Mas não é perigoso. Os pescadores são bastante experientes e acredito que não deixarão o senhor Noble ir se tiver algum perigo...

- Não se preocupe, Menininha... - sorriu Jack. - Você está com medo à toa...

Por mais que os dois homens garantissem, Clara continuava nervosa e segurava as mãos de Jack com força durante todo o trajeto de barco até a vila.

- Você está nervosa, amor? - sorriu Jack abraçando-a. - Vai dar tudo certo, não fica com medo, não...

- Eu estou tentando não ficar, querido... Mas tenho muito medo de que vocês peguem uma tempestade no mar hoje...

- Fica tranquila, senhora Noble... Não faremos nada arriscado...

Assim que o barco chegou no pier da vila, Jack e Sillas foram com o senhor Joaquim e mais três pescadores até o barco de pesca e logo partiram para o alto mar, deixando Clara com dona Graça, na praia.

- A filha está assustada hoje, não está? - sorriu dona Graça, pegando as mãos de Clara. - Olha, querida, não fica nervosa. Se começar a chover muito eles voltam para casa. Não tem perigo... Vem, vamos fazer o almoço com bastante carinho, que logo eles estarão aqui

- Eu estou tentando me controlar, dona Graça, gosto muito de cozinhar, mas estou com tanto medo...

- Ah, filha... não fica... tudo vai ficar bem e quando menos você espera, eles estarão aqui; felizes e cheios de histórias novas para contar...

- Eu amo muito o Jack, dona Graça... ele é a minha própria vida...

- E você é a vida dele, pode ter certeza... O filho de vocês está aqui novamente... ele está te abraçando agora e dizendo que ama muito vocês dois. Que criança mais linda, filha...

- Ah, dona Graça, diz a ele que nós dois já o amamos muito... - Clara disse chorando e abraçando a velha senhora.

- Vem filha... vamos lá para dentro cozinhar...

Clara passou algumas horas ajudando dona Graça a preparar o almoço, cortou temperos, ajudou a colher verduras na horta e cuidou do arroz, enquanto dona Graça cozinhava o feijão e preparava os peixes.

- Dona Graça, isso foi um raio?

- É, filha... vai chover a qualquer momento...

- Será que eles voltam logo? - Clara disse, caminhando até a janela e olhando com medo para um mar cada vez mais cinzento. - Dona Graça, estou ficando apavorada...

- Filha, eles estão bem... logo chegam para o almoço... - dona Graça disse pegando-a pela mão. - Calma, vem comigo, quero pegar mais um pouco de couve lá fora...

Tentando disfarçar sua preocupação, Clara ajudou pacientemente dona Graça a collher os pés de couve e a preparar uma salada.

- Calma, filha... eles já estão chegando... Seu filho está sorrindo aqui do seu lado e dizendo que estava ao lado dele porque ele estava muito aflito, preocupado com a filha...

- Ah dona Graça... - Clara começou a chorar. - Diz para meu filho para cuidar dele porque já o perdi antes e não quero mais perdê-lo.

- Ele sabe disso filha e está te abraçando de novo. Disse que quer ver vocês felizes e disse que o barco já está chegando no pier...

Clara deixou tudo que estava fazendo e correu até o deck sob uma chuva forte que começava a cair. Jack tinha acabado de desembarcar e estava molhado até os ossos.

Eles simplesmente se agarraram sob os pingos grossos, beijaram-se e correram para entrar na casa de Dona Graça.

- Meu amor, você vai ficar toda molhada... - disse Jack agarrando-a e tentando cobrí-la com sua própria roupa. - Vem, vamos entrar...

- Não tem importância, querido...

- Ah, querida, foi tudo bem... quando a tempestade engrossou eles trouxeram o barco de volta para a costa... Você não faz ideia do quanto o mar jogou esse barco de um lado para o outro...

- Ai amor, vem... vamos trocar de roupa... - disse Clara entrando na casa de mãos dadas com Jack.

- Oi filha... Não disse que eles chegavam logo? - sorriu dona Graça. - Vocês querem uma roupa emprestada? Vão acabar doentes com essas roupas molhadas...

- Obrigada dona Graça, trouxe roupas para trocarmos e toalhas, na mochila ... - sorriu Clara. - Podemos usar seu quarto, ou banheiro?

- Vem para meu quarto, filhos...

Sillas e Joaquim chegaram alguns minutos depois. Estavam protegendo também a lancha de Sillas que agora balançava amarrada no pier da vila como se fosse feita de papel.

- Isso é que foi um batismo de fogo, Jack... - sorriu Sillas. - O mar te recebeu com toda a sua fúria...

- É, filho! Faz tempo que não cai uma dessas por aqui... - riu Joaquim. - Vocês vão almoçar com a gente, não?

- Vamos sim, "seo" Joaquim... - sorriu Clara.

- Ah, então seu marido vai contar tudo o que aconteceu no mar com a gente agora, filha... - riu o velho pescador, uma risada quase infantil de tão franca e inocente.

- Vou para a cozinha ajudar a dona Graça... - disse Clara. - Já vamos almoçar...

- Vai amor... - sorriu Jack aproximando-se de Sillas que passou a traduzir sua conversa com os pescadores.

Clara voltou à cozinha e ajudou dona Graça a preparar tudo para servir o almoço, enquanto a chuva caia forte lá fora, com muitos raios assustadores. Almoçaram e depois ficaram todos reunidos na casa do "seo" Joaquim esperando a chuva passar e ouvindo Jack narrar suas aventuras no mar, enfrentando a temível tempestade que os fez voltar ao porto.

Quieta, Clara apenas o olhava contar suas aventuras, empolgado, dramatizando cada passagem; um homem irresistível, não só pela aparência, mas por uma dose de carisma que ainda não tinha visto em ninguém.

- O Jack é um cara muito valente... - disse Sillas. - Eu fiquei tremendo quando vi o tamanho da nuvem que vinha na nossa direção, e ele, firme, como se não fosse nada...

- Ele podia ser um de nós... - disse "seo" Joaquim sorrindo. - Não teve medo do mar, nem da tempestade, mas respeitou os dois e por isso foi respeitado... Quer ser pescador, Jack?

- Se minha esposa concordar... - sorriu Jack pegando Clara pela mão depois que Sillas traduziu o convite. - Mas acho que ela não concordaria...

- É muito perigoso, querido... - sorriu Clara. - Eu ficaria em casa, dia e noite, preocupada com você... Acho que não conseguiria viver assim...

- Bem, ela manda... - disse Jack. - Estou aqui para fazer toda e qualquer vontade dela... se ela não quer que eu me torne um pescador...

- Ah, aí não dá! - riu "seo" Joaquim. - Mulher tem que obedecer o marido e nunca ao contrário...

- Deixa ele pensar assim... - riu Dona Graça. - Não custa...

Todos riram da piada dos dois e por toda a duração do temporal, eles continuaram reunidos na pequena casa do pescador, contando histórias, brincando e rindo muito; como se todas as pessoas ali se conhecessem há muitos anos.

Assim que a chuva se acalmou, os três pegaram a lancha de Sillas e voltaram para a casa em que estavam hospedados.

O mar continuava bastante agitado e Clara passou o percurso todo agarrada em Jack. Sillas apenas os deixou no deck e partiu logo em seguida com sua lancha. Disse que precisava aproveitar para chegar logo antes que o tempo voltasse a piorar.

- Será que não é perigoso para o Sillas ir embora agora? O mar está tão mexido...

- Ele sabe o que está fazendo, Menininha... não se preocupe... Vamos entrar?

- Vamos... Está começando a chover de novo...

- A tempestade no mar foi assustadora, querida. - disse Jack abraçando Clara para tentar protegê-la da chuva. - Fiquei lá só pedindo a Deus para não me levar porque eu queria te ver de novo...

- Ah, meu amor... - sorriu Clara. - Eu estava desesperada, mas a Dona Graça disse que o nosso filho estava com você e que vocês já estavam voltando...

- Não vejo a hora de ter esse menino nos meus braços, querida...

- Eu também, Jack...

- Bem, querida... sei que dizem que não há nada mais perigoso do que uma mulher com um taco nas mãos, mas correrei esse risco... Vamos jogar uma partida de sinuca?

- Hum... prepare-se para perder, querido... - riu Clara, acompanhando-o até a varanda. - Você não sabe do que sou capaz...

Apesar da brincadeira, Clara não tinha qualquer habilidade naquele jogo e Jack nem precisou de muito esforço para vencê-la. Os dois jogaram e depois sentaram-se na varanda para namorar.

- Então, Menininha... você é muito fraquinha... - riu Jack. - Não deu nem para a saída...

- Ah, amor... tinha uma mesa destas na faculdade, mas eu joguei muito pouco naquela época, nunca tive a chance de aprender a jogar direito...

- Você é linda, meu amor... não precisa aprender a jogar... gosto de ganhar de vez em quando... - riu Jack.

- Ah, querido... é tão bom estar aqui nesse paraíso, com você, que vou fingir que não ouvi esse seu comentário...

- É maravilhoso estar aqui com você, Menininha... você sabe que já passei por muitas coisas complicadas na vida, mas sei também que nunca fui tão feliz quanto estou sendo agora. Vem aqui comigo, amor... vamos para o quarto... - Jack sussurrou no ouvido de Clara. - Quero te mimar um pouquinho...

Clara seguiu Jack até o quarto, ele queria comemorar o fato de ainda estar vivo, embora tenha evitado entrar em detalhes, para não assustar Clara, sua aventura no mar tinha sido bem mais perigosa do que ela sonhava. Estava cansado, dolorido e ainda bastante assustado.

- Querido... sou eu que estou vendo coisas ou tem uma enorme mancha roxa nas suas costas? - perguntou Clara quando ele tirou a camisa. - Deixa eu ver isso.. O que aconteceu com você, amor?

- Eu não queria te preocupar, querida... não foi nada, quando o barco estava jogando por causa da tempestade, eu cai e bati as costas, está meio dolorido ainda...

- Amor! Não era bom ir a um médico para ver se não tem nada quebrado? - disse ela agora procurando por mais manchas no corpo dele.

- Não precisa de médico, amor... - Foi só a pancada. Estou bem...

- Quer que eu faça uma massagem com óleos essenciais para ver se melhora?

- Quero sim, amor...

Clara pegou o frasco de óleos essenciais na mala e fez massagem nas costas de Jack. Lentamente, ela cuidou dele e aos poucos a massagem se transformou em carinhos e logo os dois se amavam com suavidade, mas com muito desejo.

Depois do amor, os dois tomaram banho juntos e vestiram-se para jantar com capricho. Clara não disse nada, mas tinha ficado muito preocupada com Jack e com o risco de vida que ele tinha corrido.

- A chuva não está dando um tempo hoje, Jack... queria tanto passear na praia com você.

- Amanhã, nós vamos... Os pescadores disseram que amanhã vai ter sol...

- Falando neles, o que aconteceu de verdade lá no mar, Jack? Se você não me contar, minha imaginação é capaz de criar coisas bem piores...

- Não foi nada, querida... - sorriu Jack. - Eu cai no barco porque ele estava balançando muito e bati as costas no chão... Não corri nenhum risco, Menininha.... Fica tranquila...

- Só quero te pedir uma coisa... por favor, não arrisque mais sua vida por bobagens. Se tivesse acontecido alguma coisa com você hoje, acho que eu morreria. Não consigo nem pensar na possibilidade de te perder...

- Ah meu amor... Vem aqui, vem... - disse Jack puxando-a para mais perto no sofá. Você não vai me perder... Não fica pensando bobagem, querida... Sou inteira e completamente seu para sempre...

- Meu amor... - disse Clara, beijando-o apaixonadamente.

Os dois namoraram e cansados, foram deitar-se cedo. O barulho da chuva embalou seu sono e mais uma vez eles dormiram agarrados.

- Filha, fica tranquila. O filho de vocês disse que vai nascer de qualquer jeito...

- Por que a senhora diz isso, Dona Graça?

- Ele me disse que tem um outro homem que é apaixonado pela filha... Que se você e seu marido não conseguirem fazer ele nascer, ele vai te aproximar desse outro homem...

- O que? Não!

Clara acordou nervosa depois do sonho. Levantou-se, vestiu seu robe de seda e foi até a janela, não estava mais chovendo, assim, ela decidiu andar um pouco na praia.

Ainda estava tudo escuro quando ela chegou à areia da praia. Então, ela decidiu sentar-se em uma das cadeiras, enquanto todos os detalhes daquele sonho ainda rodavam em sua mente.

Suas mãos agora tremiam muito e nem a visão deslumbrante de um céu completamente estrelado conseguia acalmá-la.

- Amor... o que foi? - Jack disse ao aproximar-se dela. - Eu acordei e não conseguia te achar... fiquei assustado, querida...

- Ah amor, me perdoa... - disse Clara levantando-se e abraçando-o. - Tive um pesadelo e não quis te acordar...

- Querida, vem aqui... - disse Jack sentando-se na cadeira de praia e puxando-a para sentar-se com ele. - Está tudo bem, agora. Foi só um sonho...

- Meu amor, me perdoa... - disse Clara chorando agarrada a Jack.

- Calma, querida. Está tudo bem... descansa aqui em mim... Você não precisa temer nada. Vamos assistir ao nascer do sol? Está quase na hora... Viu como o céu ficou limpo depois daquela tempestade?

- Este lugar é um paraíso, Jack. Me sinto dentro de um sonho muito bom... Escuta amor, os passarinhos já estão cantando na mata...

- Olha ali embaixo, o céu já está ficando transparente, o sol já vem... - sorriu Jack.

A natureza renascia para mais um dia e o mar refletia todas as cores do céu que agora mais parecia uma imensa tela de um quadro, pintado com capricho por um grande mestre das artes.

A luz que aumentava gradualmente revelava todas as cores aos olhos dos dois que agora apenas olhavam e choravam abraçados um ao outro, em silêncio.

Enlevados por aquela beleza, os dois voltaram ao seu quarto e dormiram até um pouco mais tarde.

Continua

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