26 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXVI


- Já está ficando tarde, Jack... - sorriu Sillas. - Se você não se incomoda, sua revanche fica para amanhã. Minha esposa não gosta nem um pouquinho quando chego mais tarde em casa...

- Sua esposa também é brava, Sillas? Como a minha? - riu Jack.

- Eu não sou brava... - riu Clara.

- Não ela não é brava, Sillas... - Jack disse ao amigo balançando a cabeça. - Mas ela manda em mim e eu obedeço com um sorriso nos lábios...

- Minha esposa também é assim, Jack... acho que esse é um problema de todas as esposas... - sorriu Sillas. - Bem, senhores, até amanhã...

Jack e Clara ficaram olhando da varanda em silêncio, enquanto Sillas atravessava a porção de areia para chegar ao deck e também viram sua lancha afastar-se, enquanto o dia começava a escurecer.

- Você acha que uma pessoa pode suar toda a água que tem em seu corpo, Menininha? - perguntou Jack mostrando as marcas de suor que grudavam sua camiseta ao corpo. - Vou tomar um banho... quer ir comigo?

- Sempre... - sorriu Clara.

Os dois foram até o quarto e logo estavam prontos para o jantar, que desta vez foi servido com o mesmo requinte da noite anterior, mas no terraço da casa. O clima quente tornava a noite ainda mais convidativa e os ruídos que vinham da mata próxima serviam como perfeito complemento ao som das ondas indo e vindo na praia.

Os dois sentaram-se em uma rede na varanda e lá ficaram, conversando e bebendo algumas caipirinhas. E só perceberam que estavam embriagados quando levantaram-se para ir dormir. Sentindo o mundo girar, os dois caminharam até o quarto, tiraram as roupas e acabaram esquecendo-se de acertar o alarme do celular para a manhã seguinte e sem ele, acordaram às 8 e meia, correndo para arrumarem-se e tomar o café da manhã antes de encontrarem-se, atrasados, com Sillas no deck.

- Desculpa amigo, acho que bebemos demais ontem... - disse Jack assim que chegou ao deck, 20 minutos depois do horário combinado. - Essa caipirinha de vocês é mesmo uma coisa traiçoeira, você vai bebendo, bebendo e quando se levanta, ela te derruba...

- Não tem importância, senhor Noble. Vocês estão de férias, não estão? - sorriu Sillas.- Então, vamos subir na lancha?

Sillas ajudou Clara e Jack a subirem a bordo e seguiu na direção da ponta da praia, onde uma pequena vila com algumas casinhas simples se escondiam atrás da mata.

Logo, onde a praia parecia terminar, eles viram alguns barcos de pesca sobre a areia e mais além pequenas casas pintadas com cores fortes, um vilarejo, que dali parecia não ter qualquer estrutura, mas que era bem diferente daquilo que esperavam.

- Senhor Noble, este lugar, junto com a casa e a reserva de mata nativa deve tudo ao senhor David Mersey. Quando veio morar aqui, há alguns anos, o senhor Mersey ajudou os pescadores a se organizarem e hoje, aqui na vila, não existem patrões nem empregados. Tudo pertence a todos. A vila tem duas cooperativas, uma de pescadores, administrada pelos homens e outra de artesãos, administrada pelas mulheres. As cooperativas vendem o produto deles em Porto Seguro e todo o lucro é dividido entre todos.

As duas cooperativas foram inspiradas e fundadas por David Mersey, um patrono que toda aquela população de quase 200 pessoas venerava. Mesmo sem saber de sua importância artística, para eles, aquele homem era o defensor da vila e o benemérito que havia mudado o futuro de todos. E onde eles esperavam encontrar pessoas pobres e tristes, eles encontraram pessoas felizes e cheias de esperança.

Jack e Clara passearam pela vila e compraram algumas redes e toalhas de renda fabricadas ali, para levar para casa. Atencioso, Jack quis saber mais detalhes sobre o funcionamento da cooperativa e foi convidado a acompanhar o grupo de pescadores no mar, no dia seguinte. Clara não gostou muito da ideia, mas as mulheres dos pescadores a tranquilizaram, dizendo que não tinha perigo nenhum e que ele gostaria muito do passeio.

Os três almoçaram na casa do lider dos pescadores, o "Seo" Joaquim era o mais velho da vila e apesar de sua idade avançada era ainda um homem forte com a pele curtida pelo sol, como todos por ali. Sua esposa Dona Graça, por sua vez, chefiava o trabalho das artesãs e recebeu-os com um delicioso peixe assado complementado por arroz, feijão e uma boa salada com verduras colhidas em seu quintal.

Jack conversava com os homens usando Sillas como tradutor, enquanto Clara conversava com as mulheres. Quando Dona Graça descobriu que eles tinham se casado há pouco tempo, ela pegou Clara pelas mãos e levou-a até seu quintal, onde colheu algumas ervas, para fazer um preparado, com mel e cachaça.

- Filha... essa garrafada vai ajudar você a ficar grávida, é um fortificante bem "porreta". Sabe, não sei se você acredita nessas coisas, mas já tem um "minino" seguindo você. Ele é bonito como seu marido e vai nascer logo, logo.

- Mesmo, Dona Graça? - Clara perguntou com lágrimas nos olhos. - Meu filho? A senhora não sabe como isto me faz feliz...

- Toma uma colher por dia dessa garrafada que a menina vai se sentir melhor, mais forte...

- Obrigada, Dona Graça! - Clara disse abraçando a mulher, quando ela e Jack já estavam se despedindo e caminhando até o deck para pegar a lancha para casa. - A senhora me fez muito feliz hoje.

- Filha... O minino me pediu para te dizer que está com pressa de nascer... Não esquece de tomar a garrafada, viu...

- Vou tomar, Dona Graça... Obrigada por tudo... - disse Clara secando as lágrimas dos olhos. - Até amanhã...

Os três caminharam com seus pacotes até a lancha de Sillas.

- Se vocês não quiserem, não precisam voltar amanhã, eles entenderão... - disse Sillas para Jack.

- Mas eu quero... - sorriu Jack. - Já participei de muitas pescarias em casa, não tem perigo... Inclusive, se você souber de algo que eles precisam, é só me dizer... quero ajudá-los, são pessoas muito boas...

- Então está bem, venho buscá-los amanhã cedo...

- Sim, por favor... às 9, de novo?

- OK! - riu Sillas. - Poxa, bem que o David tinha me dito que vocês são como ele...

- Como assim? - perguntou Clara.

- Pessoas muito boas e acessíveis...

Os dois foram direto para o quarto assim que chegaram e tomaram um longo banho de banheira juntos, valorizando pela primeira vez a importância de um bom ar condicionado, depois de passarem o dia todo suando.

- Amor, o que a mulher do Senhor Joaquim disse para você quando te levou até a cozinha?

- Quando ela me deu aquela garrafa?

- Sim, tive a impressão de que você estava chorando quando voltou de lá...

- Ah Jack, disse Clara suspirando. - Ela me disse que estava vendo um lindo garotinho, parecido com você, ao meu lado e que ele tinha dito a ela que será nosso filho e que está com pressa de nascer...

- Sério? - sorriu Jack. - Nosso filho, amor? Meu Deus, vou correndo fazer essa cirurgia para ele nascer logo... - disse chorando e agarrando-se em Clara.

- Claro que sim... - sorriu Clara. - Fiquei muito feliz quando ela me disse isso...

- Queria poder fazê-lo agora... É tão injusto ter o coração e a alma transbordando assim de amor e não poder te engravidar agora... - disse Jack beijando-a e puxando-a para a cama.

Em meio a emoções muito fortes, os dois se amaram por horas e depois pegaram no sono. Quando Clara acordou no final da tarde, Jack não estava mais na cama. Ainda suspirando pelo que tinha acontecido entre eles, ela vestiu-se, perfumou-se e saiu a procura do marido.

Encontrou-o sentado na varanda, conversando com Sillas, segurando uma caipirinha em uma mão e um cigarro aceso na outra.

- Descansou, meu amor? - disse Jack levantando-se e puxando-a para perto.

- Descansei, querido... - sorriu Clara. - O fuso horário costuma acabar comigo. Fico alguns dias com o sono completamente descontrolado. Acho que é uma coisa de organismo.

- Eu também tenho esse problema, Clara. - Sillas sorriu. - Minha sorte é que não viajo muito... Quer uma caipirinha?

- Aceito sim, Sillas... deixa, vou buscar...

- Não, eu trago uma para você... - sorriu Sillas. - Mais uma, Jack? Para mim é a última do dia, preciso voltar para casa...

- Aceito sim, Sillas... - sorriu Jack.

- Amor, fumando? - Clara perguntou. - Pensei que você tinha parado...

- Só fumo quando bebo, querida... mas já parei... - disse apagando o cigarro no cinzeiro. - Você está bem?

- Estou, meu amor... esta tarde foi tão maravilhosa... - suspirou Clara. - Acho que estou me apaixonando de novo por você...

Jack puxou-a para mais perto e beijou-a. Um beijo apaixonado que deixou o coração de Clara aos pulos.

Alguns minutos depois Charles e Sillas chegavam ao terraço com caipirinhas e petiscos em uma bandeja e os três ficaram conversando por mais algumas horas, antes de Sillas partir para Porto Seguro, quando a noite já tinha caído.

- Querido, já estou um pouco tonta com toda essa caipirinha... acho que já vou programar o celular para tocar amanhã, antes que me esqueça... E você vai mesmo na tal da pescaria... Eu sei que eles disseram que não tem perigo... mas estou tão nervosa...

- Não se preocupa querida... Sabe que já tive um barco? Era um iate parecido com aquele do Mick, mas cansei dele depois de um tempo... Essas coisas não têm muita graça quando você não tem ninguém por perto para aproveitá-las com você...

- Mas você nunca estava sozinho...

- Ah Menininha... é a pior solidão... você tem alguém do seu lado e esse alguém não está mesmo com você, mas com sua fama, seu dinheiro ou seilá o que... Você está atraido por aquela pessoa, mas ela não sente nem isso, nem atração por você...

- Ai amor, eu sei como é isso... com o Marcelo, aquele meu namorado que era terapeuta. Depois de um tempo juntos, ele me deixava sempre sozinha... estava sempre trabalhando...

- Ele não sabia a sorte que tinha em ter você com ele... - disse Jack, abraçando-a e beijando-a. - Você é maravilhosa e eu te amo... muito...

Os dois ficaram mais um pouco na varanda conversando e foram jantar. Dona Santa preparou um jantar com pratos típicos nordestinos e depois de comer bastante e passar pela cozinha para conversar com a cozinheira, os dois foram caminhar pela praia, para fazer digestão.

Estavam cansados e resolveram ir dormir um pouco mais cedo do que o de hábito. O dia seguinte seria cheio de novas emoções e por isso era importante acordar descansados.

Continua

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