14 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXV


Depois do sonho, Clara não conseguia mais dormir, até chegava a fechar os olhos por alguns minutos, pois estava cansada, mas acordava em seguida, angustiada.

Quando percebeu que os primeiros pássaros já cantavam na mata ao lado da casa, ela cansou de lutar para tentar dormir e decidiu levantar-se, vestiu seu robe, foi até o banheiro, pegou as roupas da mala e guardou-as no closet; depois, sentou-se na cama ao lado de Jack.

Olhava para ele dormindo, tão tranquilo, completamente alheio das coisas que agora faziam sua cabeça fervilhar, repassando sem parar as cenas de seu sonho, as palavras carinhosas que Mick sussurrou em seu ouvido, enquanto se amavam.

- Bom dia, amor... - disse Jack assim que abriu os olhos e a viu. - Já acordada? Está com algum problema?

- Não, querido... acho que é o fuso horário... Fiquei sem sono e aproveitei para colocar nossas roupas no closet... - Clara sorriu para tentar convencê-lo de que tudo estava bem.

- Mas ainda é muito cedo para levantarmos... Vem aqui, vou te fazer relaxar um pouquinho... - sorriu Jack, levantando-se, abraçando e envolvendo Clara em seus carinhos.

Cansada pela noite mal dormida e também pela luta que seu coração travava, pesado com a culpa por sentir-se traindo Jack. Ela resolveu entregar-se aos seus carinhos e deixar-se envolver pelo seu amor.

E Jack era só ternura, amava-a lentamente, acariciava e beijava cada centímetro de seu corpo, enquanto sua mente continuava lutando para esquecer seu sonho com Mick.

A batalha continuava acirrada em sua mente, mas em algum momento, que ela não saberia definir exatamente, o prazer de tê-lo em seus braços venceu e ela conseguiu deixar o sonho de lado, para viver plenamente o amor de Jack.

Mais relaxada e disposta a divertir-se, ela levantou-se com ele, vestiu seu biquini sob uma canga colorida e os dois sairam do quarto, ainda envolvidos por uma enorme onda de amor.

- Bom dia, senhor e senhora Noble. - cumprimentou o mordomo ao vê-los chegarem à enorme sala da casa. - O café da manhã será servido no terraço.

- Bom dia, Charles. - disse Jack ao rapaz que agora os guiava até o terraço. - Parece que teremos muito sol hoje...

- Sim, senhor. Se me permite uma sugestão, a praia hoje estará perfeita para um mergulho...

Clara ficou quieta, mas o rapaz, brasileiro como ela, falava com Jack em um inglês perfeito, com quase nenhum sotaque e quando ele os deixou sozinhos no terraço, ela encontrou a chance de comentar.

- Amor... Já tinha notado ontem, esse rapaz...

- O David pagou cursos de hotelaria e inglês para todos os funcionários da casa... e eles são todos ótimos. De total confiança.

- Estou impressionada!

- Daqui a pouco, vamos descer na praia e você vai conhecer o instrutor de mergulho... Vamos ver peixinhos?

- Vamos, querido... adoro essas coisas. É mergulho mesmo, com oxigênio?

- Não amor... com snorkels... mas você vai gostar, a água é transparente e está cheia de peixinhos coloridos... lindo... o que foi?

- Nada... estava olhando para seus olhos... eles ficam tão lindos aqui...

- Minha maluquinha! - sorriu Jack, beijando sua mão.

O café da manhã foi servido, ovos, frutas tropicais, geleias, compotas, chá, sucos e pães ainda quentes, preparados na própria casa.

- Já percebi que vamos engordar muito por aqui... - riu Clara. - Vamos ter que mandar alargar as roupas do figurino do show... Tudo é tão delicioso...

- Você é deliciosa, Menininha... - riu Jack. - Não me incomodaria de mergulhar novamente em seu corpo antes de irmos para a praia...

- Jack... As pessoas ouvem o que você disse...

- Não tem ninguém aqui conosco e todos têm instruções para fazerem seu trabalho e deixarem os convidados à vontade... Estamos em lua de mel, amor... as pessoas compreenderão... - riu Jack.

- É que eu fico sem graça...

- Ah Menininha... Você não sabe o quanto estou feliz de estar aqui com você... Quanto tempo na minha vida eu sofri, sozinho, ou com alguém que só me machucava...

- Estou aqui por você, meu amor... - Clara disse pegando a mão de Jack sobre a mesa. - Sou completamente sua e não vou te deixar sofrer nunca mais...

Jack pegou a mão dela e beijou-a. - Obrigado, Menininha... e quero que você saiba que sou seu, estou e sempre estarei aqui para você, não importa o que aconteça...

A frase de Jack foi suficiente para encher os olhos de Clara de lágrimas. Agora sentia muita culpa por seu sonho e precisava falar com alguém, que não fosse o Jack, sobre ele. Decidiu que quando voltassem da praia, daria um jeito de ligar para Jennifer. Precisava que alguém dissesse a ela que toda aquela angústia que sentia era bobagem.

- Então, terminamos? - perguntou Jack.

- Sim, amor... chega... Você não vai me querer mais se eu ficar gorda... - sorriu Clara.

- Vou te querer ainda mais, meu amor... Vamos dizer bom dia para a Dona Santa lá na cozinha e já descemos para a praia.

- Vamos sim, meu amor...

Os dois foram até a cozinha, beijar a velha cozinheira, pegaram sua bolsa de praia, seus chapéus e desceram para a praia mais próxima da casa. Caminharam um pouco, passaram protetor solar um no outro e foram andar pela areia até o final da praia, do lado oposto do deck, onde ela terminava em uma longa ponta e ficava ainda mais selvagem e deserta, com coqueiros e uma mata exuberante que terminava na faixa de areia branca e intocada.

- Será que podemos visitar a mata? - perguntou Clara.

- Sozinhos não... tem um pescador que levava o David em uma porção de mata, lá perto do deck, onde tem uma cachoeira. Depois pedimos a ele para nos levar. É um lugar lindo... você vai ver, Menininha...

- Como o David conseguiu manter este lugar assim? Intocado?

- Ele comprou todas as terras ao redor da casa, na época em que ainda estava brigando com o dono para comprar a casa. Não sei se você sabe, mas parece que tem leis aqui que impedem as pessoas de mexer nessa faixa de litoral e que ela nunca é sua de verdade... mas da Marinha do Brasil.

- Não sei... mas acho que já ouvi falar...

- Então, ele fez um acordo e bancou uma pesquisa ecológica da área e conseguiu todas as licenças das melhorias, com a promessa de preservar a mata ao redor. E tanto os funcionários do David, quanto os pescadores da vila cuidam para que ninguém se aproxime muito daqui.

- Não imaginava isso...

- O David adora isso aqui... acho que até mais do que Heathcliff Hall e desconfio que mais do que a Cindy...

- Não acredito... ele ama a Cindy...

- Vem, vamos sentar naquela pedra ali...

- O que foi? - disse Clara.

- O David não é um homem muito fiel. Nunca foi. Ele tem outras mulheres, lá em casa, aqui... são tantas que nem eu sei te dizer exatamente quantas...

- A Cindy sabe?

- Não tenho certeza se sabe... Ela nunca se aproximou muito de mim. Acho que a assustei na época em que eles estavam se conhecendo e agora, ela tem medo de mim...

- Sabe amor, sinto pena... eles nunca terão o que nós temos... E vou te dizer mais, essa coisa de ter uma porção de mulheres é a maldita vaidade masculina... um outro item dentro do capítulo carrões, castelos, aviões, iates e coisas do tipo. Daí vocês ficam mostrando para os amigos, olha só o que eu tenho... sou o máximo, porque posso bancar tudo isso...

- Talvez seja, amor... Já fui assim também, até meu divórcio com a Mary quase me matar... As mulheres se atiram aos nossos pés, você sabe disso... em alguns momentos a tentação fica grande demais.

- Eu sei, querido... - suspirou Clara. - Amor, acho que já está na hora de reforçar o protetor solar... não podemos ficar desprotegidos...

Novamente os dois espalharam protetor solar no corpo um do outro e decidiram nadar um pouco, na ponta da praia, quando ouviram o som de uma lancha aproximando-se do deck.

- Olha amor... Vamos voltar ao deck, o Sillas, que trabalha aqui como instrutor de mergulho já está lá... - disse Jack, pegando-a pela mão e levando-a de volta pela faixa de areia molhada.

Os dois subiram na lancha junto com o homem e seguiram para uma área mais distante da casa, onde não havia uma faixa de areia, mas pedras escuras que davam a impressão de que a mata terminava no mar.

E depois de algumas instruções rápidas e de vestirem seus coletes salva-vidas, Jack e Clara nadavam com máscaras e snorkels, observando a colorida vida submarina, que existia abundante por ali.

Depois de nadarem e verem peixes de todas as cores e formatos, além de lindos cavalos marinhos, os dois subiram novamente na lancha e foram levados de volta ao deck.

- Então, gostaram?

- É maravilhoso! Este lugar é abençoado... - disse Clara ainda emocionada por tudo que tinha visto. - Vi até uma moréia enorme entre os corais...

- Mesmo? Elas são perigosas, melhor ficar longe delas... - sorriu Sillas.

- Perigosas? - perguntou Jack.

- Elas têm dentes afiados e mordem... você pode sangrar até a morte, se uma delas te acertar de jeito...

- Que perigo, amor... - sorriu Clara. - Mas é tão difícil preocupar-se com algo assim quando tudo é tão lindo...

- É... tudo aqui é lindo mesmo... Graças ao senhor David que espantou os especuladores que estavam de olho nestas terras para construir um resort. Ele comprou tudo e colocou esse povo para correr. - disse Sillas.

Depois de descansarem um pouco, nas cadeiras de praia próximas da casa, os dois lavaram os pés no chuveiro, vestiram alguma coisa sobre as roupas de banho e foram almoçar. Mais uma vez na varanda, a mesa tinha saladas e comidas leves e um delicioso peixe assado com arroz e batatas. De sobremesa, sorvete, já que o dia estava muito quente.

Depois do almoço, os dois voltaram para a praia, mas Clara achou que o sol estava forte demais e preferiu descansar com seu tablet no colo, em uma rede que encontrou na varanda.

Jack por sua vez engajou-se em uma conversa animada sobre futebol, regada a cerveja gelada, com Sillas, em outra porção da varanda onde havia uma mesa de sinuca, em que eles agora jogavam.

Clara, deitada na rede, ainda pensava em seu sonho. Precisava que alguém dissesse a ela o porquê daquilo tudo. Por que ela tinha sentido tanta vontade de falar com Mick, ansiava até por ouvir aquelas bobagens que ele dizia, tentando seduzí-la.

Lutou contra sua ansiedade e chegou à conclusão de que seria melhor lutar sozinha para resolver aquela questão dentro de seu coração. Era óbvio que amava muito seu marido, mas agora também estava claro, que além da amizade e admiração que ela sentia por Mick, começava a surgir desejo.

Não tinha intenção de fazer nada quanto a isso, ligar para Mick seria uma loucura. Não só ela e Jack estavam em sua lua-de-mel, como Mick e sua amiga Gianna também estavam. Além do mais, ela temia o que ele poderia fazer se percebesse que tinha alguma chance.

Suspirou profundamente e resolveu distrair-se com a internet. Viu que as fotos dela e de Mick, no restaurante do hotel, agora rodavam o mundo nos sites de fofocas, ficou triste por estarem explorando sua vida daquele jeito e acabou escrevendo um post cheio de revolta em seu blog.

Sua batalha interna cresceu novamente e ela resolveu que deveria falar com Jennifer, pegou o celular e ligou para a amiga.

- Oi Clara, tudo bem? - disse Jennifer do outro lado da linha. - Como estão as coisas por aí?

- Ótimas... Eu e Jack estamos no paraíso... você já esteve aqui?

- Não querida...

- Ah, então precisamos vir todos juntos para cá, quem sabe quando a Crossroads fizer shows no Brasil, não sobrem uns dias na agenda para todos virmos para cá...

- Seria bom... preciso de um pouco de sol... aqui já está tão frio...

- Mesmo? Eu e Jack queríamos ir novamente à praia após o almoço, mas o sol está forte demais. Acredito que está perto dos 40 graus celsius por aqui e nem é verão ainda...

- Deus, mas é muito quente... acho que derreteria, querida... - riu Jennifer.

- Bem, mas não te liguei para falar sobre o tempo aqui, embora ele esteja lindo... liguei para falar sobre uma coisa que está me perturbando muito, desde a madrugada.

- O que foi? O Jack fez alguma coisa?

- Não querida... pelo contrário, ele tem me dado tanto carinho que estou me sentindo culpada pelo que vou te contar agora... Na noite passada, sonhei que estava em meu apartamento de São Paulo e o Mick apareceu lá na porta. Conversávamos sobre o filme, quando ele parou de falar e me beijou. Mas desta vez, eu não o rejeitei e acabamos transando no sofá... É a primeira vez que isso acontece e o pior de tudo... acordei decepcionada por ter sido só um sonho...

- Meu Deus... essa eu não esperava! Clara, você está se apaixonando pelo Mick?

- Eu não sei... estou com a cabeça fervendo desde que acordei, eu não quero trair o Jack... mas não consigo pensar em outra coisa, a não ser vê-lo novamente e ouvir sua voz...

- Você ligou para ele?

- Não! Não posso! Tenho medo do que ele pode fazer se achar que estou dando uma chance a ele...

- Melhor não ligar mesmo, querida... Quer saber o que eu faria? Daria um tempo, viveria o melhor que pudesse essa lua de mel com meu marido e se depois dela, ainda estivesse pensando no Mick... aí sim, conversaria com ele...

- Você está certa, Jenni. Acho que farei exatamente isso. Não quero pensar mais no Mick. Não está certo e se o Jack descobrir sobre isso, ele ficará arrasado e eu não posso deixar que isso aconteça... Foi muito bom falar com você... Acho que devo me concentrar agora em ser feliz com o Jack. Mesmo que para isso, eu tenha que sufocar o que estou sentindo...

- Querida, sempre que precisar de ajuda, você só precisa me ligar. Tenta não pensar mais nisso... você e o Jack têm tudo para serem felizes. Sei que eu não sou lá um grande exemplo e até já te incentivei a ficar com o Mick...

- Sim...

- Mas acho que se isto vai criar tanto sofrimento, é melhor afastar-se... e outra coisa, quando te falei para transar logo com ele, de uma vez, era só para acabar com a curiosidade dele e fazê-lo te deixar em paz, mas agora eu sinto que é um outro momento. Se ficarem juntos agora...

- Destruiremos as vidas de nós três, minha, do Jack e do Mick... - suspirou Clara. - Não vai acontecer... bem, Jenni, obrigada por me ouvir. Só de conversarmos, já estou me sentindo mais calma... Tchau Jenni, beijos.

- Beijos, querida. Se cuida!

Clara limpou as lágrimas do rosto e ergueu-se da rede, logo encontrou Jack ainda jogando sinuca com Sillas e aproximou-se dele em silêncio, enquanto Sillas jogava.

- Oi Menininha... - sorriu Jack abraçando-a. - Então o que está acontecendo no mundo hoje?

- Nada de especial... e você? Está ganhando ou perdendo? - perguntou Clara acariciando-o.

- Estava perdendo até agora, mas acho que com você ao meu lado, tudo vai melhorar... - sorriu, agarrando Clara e beijando-a. - Viu... ele já errou, Menininha...

- Vamos lá, senhor Noble... mostre seu jogo... - desafiou Sillas sorrindo.

Jack cheio de confiança e atitude, matou duas bolas em sequência, mas atrapalhou-se com a terceira.

- Suponho que não seja possível ser bom em tudo... - riu Jack. - Ao menos, tenho sorte no amor...

Clara riu e voltou a agarrar o marido, não suportava mesmo a ideia de vê-lo sofrer, por isso, estava decidida e esquecer qualquer sentimento que tivesse por Mick, mesmo que isso significasse que ela sofreria.


Continua

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