9 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXIV


Mais alguns minutos passeando pelo hotel e os dois foram até a recepção, onde ficaram aguardando pela chegada do carro que os levaria até a casa onde ficariam hospedados, próxima de uma vila de pescadores, mas suficientemente distante de todo o resto do mundo, para que não fossem perturbados.

O motorista chegou dirigindo um jeep parecido com o de Jack, mas de um modelo um pouco mais antigo. Colocou toda a bagagem no carro, que estava com o ar condicionado ligado para gelar.

Jack e Clara sentaram-se no banco detrás e foram conversando com o motorista até a casa, percorrendo a bela, mas esburacada e estreita estrada que cortava a mata e que em sua porção final, não tinha sequer asfalto.

Mas quando chegaram, tudo parecia ter valido a pena. Envolta por uma mata exuberante, a bela casa surgia imponente, com seu teto de palha, paredes de vidro e um grande terraço que a rodeava completamente.
Ao redor, toda a estrutura que Jack já havia descrito, uma piscina deliciosa, quadras de esporte, um heliporto e um gramado bem cuidado, que separava a casa da mata, como a areia da praia a separava da água do mar.

Os empregados carregaram as malas para dentro do quarto e os dois cansados pela viagem, mas reenergizados por toda aquela beleza, não pensaram duas vezes, pegaram suas roupas de banho na mala e desceram para a praia, que continuava sob um sol forte, mesmo no final da tarde.

- Meu amor, isso parece um sonho! - disse Clara. - Esse lugar é maravilhoso...

- Eu te disse que valia a pena esperar... - disse Jack agarrando-a no mar e beijando-a. - Vem, vamos nadar um pouco até aquele pier.

Os dois nadaram e chegaram ao pier, que também fazia parte da propriedade e subiram nele. Só nesse momento, lembraram-se do protetor solar, mas não quiseram voltar para a casa para pegá-lo, apenas deitaram-se no pier, para descansar da longa viagem.

- Será que não ficaremos tostados nesse sol, Jack?

- Não se preocupe, Menininha... a dona Santa tem uma coisa ótima para passar na pele, quando nos queimamos...

- Dona Santa?

- Você vai conhecê-la daqui a pouco, é a cozinheira da casa desde a década de 90. A comida dela é maravilhosa... e ela é uma pessoa iluminada, cheia de sabedoria... você irá adorá-la, como eu a adoro...

- Tenho certeza que irei... Estou tão feliz que parece que meu peito vai explodir! - sorriu Clara, sentando-se ao lado de Jack no pier para assistir ao por do sol. - Isso tudo é lindo, mas o melhor ainda é estar com você... seus olhos ficam tão azuis aqui, com essa luz... pena que minha câmera está lá na casa...

- Vem aqui mais perto, Menininha... quero te mimar muito...

Agarrados um no outro, os dois viram o horizonte tornando-se avermelhado primeiro e depois dourado, enquanto poucas e delicadas nuvens encobriam de forma apenas parcial o sol, que delicadamente lançava colunas de luz que iluminavam pequenas porções do mar e da praia, dando um toque mágico à beleza criada pela natureza.

Tanta beleza que trazia lágrimas de emoção aos olhos de ambos, que assistiam juntos, em silêncio, àquele espetáculo do cotidiano. Os únicos sons que ouviam agora vinham dos pássaros que buscavam abrigo para a noite nas árvores da mata próxima, e o do arrebentar das ondas na praia, adiante.

- Nós merecemos tudo isso, meu amor... - disse Jack quebrando o silêncio. - Cada alegria e toda a beleza que a vida nos der...

- Ah Jack... - suspirou Clara, deitando-se novamente no deck de madeira. - Merecemos sim... a vida está nos dando porque merecemos tudo isso e muito mais...

- Querida, sabe do que me lembrei? Você está longe do seu remédio, se você tiver uma crise agora, nem sei o que fazer, sua maluquinha...

- Não se preocupe, meu amor... Estou bem. Nós nadamos até aqui e eu me sinto muito bem...

- Mas você deve ficar sempre perto do seu remédio...

- Mas eu estou bem, meu amor.. Vem aqui, relaxa aqui do meu lado. Quero te ver feliz hoje... O ar do mar me faz muito bem...

- Mesmo? Mas você teve uma crise lá no castelo do Jagger...

- Ah, mas eu estava estressada lá... aqui eu estou em paz. Tudo o que eu quero está aqui, comigo... - ela disse sentando-se no deck e acariciando o corpo de Jack.

- Ah meu amor... - disse Jack agarrando-a e prendendo-a sob seu corpo, ele tentou começar a despí-la.

- Não amor... aqui não! Vamos sair quebrados... - ela disse empurrando a mão de Jack e sentando-se.

- Hum, a Menininha quer conforto, é? - disse Jack prendendo os braços de Clara e empurrando-a de volta no chão.

- Sério amor... aqui não, podem nos ver, fotografar... já pensou na chateação depois...

- Ah amor...

- Ah nada... Além disso já está começando a escurecer e os mosquitos irão nos comer vivos, vem, melhor voltarmos para dentro... - disse mergunhando no mar e nadando na direção da casa.

Logo Jack mergulhou atrás dela e os dois saíram da água e atravessaram a faixa de areia para chegar à casa. Foram até um chuveiro instalado atrás da casa para tirar a areia dos pés e entraram.

- Vamos tomar um banho juntos, Menininha?

- Vamos amor... tem banheira aqui?

- Não sei, querida... vamos descobrir juntos? - sorriu Jack, envolvendo-a com uma toalha e guiando-a através da casa. - A que horas você quer jantar, amor?

- Por que? Não tem um horário fixo para servir o jantar?

- Não amor... a ideia desta casa é que ela funcione como um hotel, vem comigo, vamos na cozinha... quero que você conheça a Dona Santa..

- Olá Dona Santa!

- Oi filho... - disse a cozinheira ao vê-los entrando. - Quanto tempo...

- Esta é minha esposa Clara. - disse Jack para ela em um espanhol enrolado.

- Olá Dona Santa. - disse Clara beijando-a no rosto. Uma senhora negra, certamente com mais de 70 anos, que abriu um largo sorriso ao vê-la. - Muito prazer!

- Oi filha! Você fala português? - sorriu a mulher abraçando-a.

- Falo sim, Dona Santa. Sou brasileira...

- Achei que fosse gringa também... - riu docemente a mulher. - tão branquinha, como ele...

- Então o filho está melhor? - perguntou ela a Clara.

- Ele está muito bem, Dona Santa.

- Quando ele veio aqui há uns anos atrás, ele estava muito triste... Dava até dó...

- Não, agora ele está muito bem... Dia 18 vai fazer dois meses que nos casamos.

- Que bom, filha... Esse moço merece ser muito feliz... Ele é uma pessoa muito boa. Ele e o "seo" David...

- Eles estão felizes, Dona Santa. Pode ter certeza!

- Querida, diga para a Dona Santa que queremos jantar às 9 da noite. - disse Jack para Clara.

Clara traduziu o pedido e Dona Santa disse que tudo estaria pronto às 9 e que o menu seria uma surpresa para ele. Clara ofereceu para ajudá-la na cozinha e recebeu de volta um largo sorriso.

- Não tem necessidade, querida... Tenho meus ajudantes... Vocês querem um pouquinho de cocada de colher? Acabei de fazer...

- Não queremos atrapalhar a senhora, vamos tomar nosso banho agora e descansar um pouco da viagem... demorou quase um dia inteiro para chegar aqui...

- Ah mas o filho gosta do doce, filha. Vem aqui, vocês são de casa, não vão se incomodar de comer aqui na mesa da cozinha, vão? - disse a mulher docemente, puxando Jack e Clara para sentarem-se ao redor da mesa.

- Querido, ela está dizendo que tem um doce aqui que você gosta...

- Como eu falo em português que eu quero?

Clara ensinou-o e ele repetiu a frase para a cozinheira, que riu muito ao vê-lo falando português. - O filho vai aprender a falar português logo... - ela disse pegando as mãos dele. - Filha, fala para ele que essa nega véia aqui gosta muito dele.

- Ela está dizendo que gosta muito de você, Jack... - sorriu Clara.

- Oh querida! - ele disse abraçando e beijando a cozinheira no rosto. - Como falo para ela que também gosto muito dela?

- Gosto muito de você... - disse Clara emocionada em ver o carinho que Jack tinha pela mulher simples que cuidava da cozinha da casa.

Os dois comeram a cocada com gosto, conversaram mais um pouco com Dona Santa e foram para seu quarto tomar banho em uma grande e confortável banheira. No horizonte, nuvens escuras e raios começavam a cortar o céu, anunciando que uma tempestade se aproximava da costa onde chegaria a qualquer momento.

Cansados, depois de aproveitarem a banheira, Jack e Clara secaram-se e deitaram-se na cama para descansar um pouco. Mas antes do descanso, ainda mandaram mensagens para seus amigos em Londres e programaram o celular de Clara para despertar às 8:30, quando se vestiriam para o jantar.

- Vem aqui, Jack... descansar nos meus braços, meu amor...

Os dois dormiram abraçados e tão profundamente que quando o alarme soou para acordá-los, ambos estavam completamente desorientados e demoraram alguns minutos para se localizarem.

- Então Menininha? Dormiu um pouquinho? - sorriu Jack erguendo-se do travesseiro e apoiando-se nos braços.

- Dormi... e você?

- Sonhei que estávamos mergulhando e que estávamos transando debaixo d'água...

- Que lindo, amor! - disse Clara acariciando o rosto de Jack, ainda deitada no travesseiro. - Estou me sentindo tão relaxada agora que acho que derreterei pelo chão se me levantar...

- Mas vamos nos levantar que a comida da Dona Santa vale a pena... você vai ver, amor... - disse Jack levantando-se e puxando-a pela mão. - Vem amor... Pelo barulho já está chovendo. - disse caminhando até a cortina que escondia uma parede inteira de vidro, voltada para a praia.

- Meu Deus, que lindo isso, Jack... Até debaixo de uma tempestade, este lugar é maravilhoso...

- Eu sei querida... - disse Jack abraçando-a. - O David ofereceu uma quantia absurda para tentar comprar, mas o dono não quis vender. Então, ele conseguiu entrar como uma espécie de investidor nessa ideia de transformar a casa em um micro hotel para quem quer um lugar bonito e isolado e pode bancar a conta.

- O David é sócio deste lugar?

- É, amor... ele bancou toda a reforma. De lá para cá, ele tem direito a uma porcentagem do lucro e, de vez em quando, vem para cá passar uns dias.

- Por que ele nunca me contou isso?

- Ah querida... não sei se você já notou, mas o David é um ser um pouco estranho.. todos nós somos...

Os dois vestiram roupas confortáveis e caminharam até a sala de jantar onde foram surpreendidos por encontrar uma mesa arrumada impecavelmente, com o requinte de belos cristais, a mais fina porcelana, talheres e candelabros de prata com velas acesas.

- Amor... olha só que lindo. - disse Clara ao aproximar-se da mesa, enquanto Jack puxava a cadeira para sentar-se.

- É, amor... eu sei... este lugar é mesmo incrível. Pena que está chovendo forte, senão jantaríamos ali fora. - disse Jack apontando para o terraço, atrás da parede de vidro.

Assim que eles se acomodaram nas cadeiras, o jantar começou a ser servido, casquinhas de siri, belas saladas que misturavam verduras e frutas tropicais e camarões à baiana, o prato favorito de Jack, desde sua primeira estadia por lá.

A sobremesa foi um delicioso sorvete caseiro de frutas tropicais, servido dentro de um abacaxi.

- Tudo está muito perfeito. - sorriu Clara. - Me diz que eu não estou sonhando.

- Você não está sonhando, querida... isto tudo é culpa da Dona Santa. Vamos lá agradecê-la depois do jantar... ela é um anjo!

- Vamos sim, amor. Aliás, será que o David ficaria muito bravo se a roubássemos para trabalhar em nossa casa?

- Não podemos, amor... O David ama essa mulher! E tem uma outra coisa, já tentei fazer isso e ela me disse que não sai daqui, por nada...

- Ela é maravilhosa, amor...

- Tinha certeza de que você ia gostar dela, Menininha...

- E este lugar é apaixonante! - suspirou Clara.

Quando terminaram, foram até a cozinha agradecer à Dona Santa e ela se alegrou ao receber o carinho deles.

Depois, ela mesma os despachou de sua cozinha e eles então decidiram relaxar um pouco no terraço, que recebia uma brisa deliciosa vinda do mar, agora que a tempestade tinha se transformado em uma chuva leve.

- Ai querido... este lugar é tão incrível que dá vontade de mudar para cá... o David já morou aqui, não?

- Morou... naquela época a casa era bem mais simples. Foi antes da reforma. Ele tinha até a intenção de ficar por aqui, mas quando o casamento dele terminou, a distância começou a pesar demais e ele voltou para Londres.

- Eu sei... eu falo que gostaria de viver aqui, mas sei que nós dois não conseguiriamos... é muito longe, logo começaríamos a sentir falta daquela sensação de estarmos no meio de tudo... eu sei que para mim, seria difícil...

- Para mim também... até fico alguns meses na casa da montanha, mas logo começo a sentir falta da agitação e do palco, claro... E já que falei de casa, você sabe que horas são lá, agora?

- Umas três da manhã...

- Não é a toa que estou cansado... Vamos dormir, Menininha?

- Vamos sim, querido... também estou com sono...

Os dois caminharam então até o quarto, tiraram as roupas e foram dormir agarrados ouvindo o barulhinho da chuva batendo agora mansa nos vidros.

Clara logo começou a sonhar. Estava em São Paulo, no parque próximo a seu apartamento fotografando pássaros, como sempre fazia. Depois que sentiu que as sombras já não permitiriam mais boas fotos, ela pegou sua bicicleta e pedalou de volta até seu prédio.

Pegou o elevador, subiu e quando abriu a porta do elevador, percebeu que Mick esperava por ela, na porta de seu apartamento. Ao vê-lo lá, seu coração disparou. Jack estava viajando e ela tinha medo de estar sozinha com ele, mesmo assim, convidou-o a entrar.

Mick então começou uma longa conversa sobre o roteiro do filme, contando que teve algumas ideias que ela deveria incluir nas últimas cenas e ela apenas o escutava, até que ele simplesmente parou de falar e passou a encará-la, olhando profundamente em seus olhos.

Ela demorou um pouco, mas também se calou e os dois se beijaram, um beijo terno, mas carregado de desejo. Logo os dois se amavam, ali mesmo, no sofá da sala de estar.

Assustada, Clara abriu os olhos em seguida, percebendo que era apenas um sonho, ao ver Jack dormindo tranquilamente ao seu lado.

Não sabia por que, mas estes sonhos estavam cada vez mais frequentes em sua vida. Neles, Mick, sempre aparecia como seu amante. A novidade naquela noite era que pela primeira vez ela se entregava completamente a ele. E ele havia sido para ela um homem doce e apaixonado, que ela estava aprendendo a amar.

Continuar

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