6 de mar de 2012

Rockstar - Capítulo LXXIII


- Amor, acho melhor não dormirmos agora... - disse Clara. - Tenho muita dificuldade de dormir no avião e a viagem é longa, é melhor ter sono...

- Eu durmo em qualquer lugar, Menininha. - riu Jack. - Dormi algumas vezes de pé, nos bastidores dos shows da Crossroads, durante os solos... o Brad estava sempre de olho e vinha me acordar para voltar ao palco...

- Pobrezinho do meu amor... estas turnês de vocês deviam ser terríveis...

- Eram um massacre... subiamos no palco bebados, doentes, cansados... acho que já contei para você que o Dave teve que ser internado no final de um show porque estava com pneumonia e mais de 40 graus de febre... era essa nossa rotina, amor...

- Isso tudo acabou, meu amor. Eu vou cuidar de você... sempre... - sorriu, acariciando os cabelos de Jack.

- Você é um anjo, meu amor... se ao menos você estivesse perto de mim, naquela época, nada de ruim teria acontecido.

- Eu queria tanto ter nascido antes... - suspirou Clara. - Vem amor, vamos andar um pouco no jardim... Vamos ficar longe da cama, porque assim, não corremos o risco de pegarmos no sono... Vou tirar umas fotos suas lá fora... vem...

Clara pegou sua câmera e tirou algumas fotos dos dois, usando o tripé e um temporizador. Depois, subiu as fotos para seu facebook e seu blog. Aproveitou e escreveu um pequeno texto falando sobre a ansiedade que os dois sentiam naquele momento pelas férias e pela proximidade cada vez maior da turnê.

Jack recebeu uma mensagem de texto de Khaled confirmando o horário em que passaria para levá-los ao aeroporto e Jennifer ligou de Paris, para onde tinha voltado logo cedo com Michael para desejar-lhes boas férias.

Jack e Clara desceram com as malas para a sala de estar, arrumaram a bagagem de mão e deixaram no quarto apenas as roupas que vestiriam na viagem. Tudo muito confortável para não incomodar durante as 12 horas de voo até o Rio de Janeiro; nem durante as 4 horas de espera para embarcar no voo do Rio para Porto Seguro, onde chegariam só no final da tarde, para aí pegar o carro que os levaria até São Francisco da Borda, um pequeno e isolado vilarejo de pescadores, no sul da Bahia, próximo de onde ficava a casa que alugaram e onde a sua chegada era esperada por volta das 8 da noite, horário local, mais de 24 horas depois de sua partida de Heathrow. Poderiam até chegar antes, mas não estavam dispostos a fazer a última parte do percurso de helicóptero.

David conheceu os donos daquela casa durante a década de 90, quando passou alguns meses por lá. Foi ele quem deu a ideia, e os meios para melhorar as instalações e fazê-la funcionar como um hotel de altíssimo padrão para pequenos grupos. Eles moravam em Porto Seguro e tornaram sua casa na praia em um empreendimento muito rentável. A casa, agora transformada em mansão, localizava-se em uma praia particular e agora tinha um pier e um heliporto a disposição de seus hóspedes além de todos os confortos possíveis. Era alugada com serviço completo e contava com uma equipe de empregados, incluindo seguranças, que garantiam o conforto e o isolamento que as ricas celebridades exigiam para suas férias.

Prontos para partir, os dois trouxeram a bagagem para a sala de estar, onde sentaram-se, esperando pela chegada de Khaled. O trânsito ainda estava razoável naquele horário e em pouco mais de uma hora, chegaram ao aeroporto, fizeram check in da bagagem e seguiram para a sala vip do aeroporto.

- Estava aqui pensando... - disse Clara, acariciando os cabelos de Jack. - São doze horas de voo, podíamos aproveitar para trabalhar no livro...

- Trabalhar, amor? - riu Jack. - Estamos de férias, Menininha... Vamos relaxar, não vou ficar tranquilo te falando sobre a minha vida dentro de um avião, entre pessoas estranhas...

- Não tinha pensado nisso, meu querido... É que estou tão ansiosa... estou aceitando tantas propostas, disco, turnê, filme... a única certeza que eu tenho é que não darei conta de tudo...

- Ah, amor... claro que dará e no meio disso tudo, ainda estaremos juntos e felizes. Já te disse, não se preocupa com nada, se você se sentir sobrecarregada, conversa comigo... Não quero ver a minha menininha estressada... Teremos tempo para o livro durante a turnê...

- Ok! Está bem, meu amor... - suspirou Clara. - Sabe, eu me conheço bem, enquanto não conseguir terminar estas coisas todas com que me comprometi, ficarei assim, nervosa, ansiosa...

Jack interrompeu Clara com um beijo. - Férias agora, amor... Só quero pensar em praia, sol e em nós dois juntos... pode ser?

- Está bem, querido... vou relaxar e passar os próximos quinze dias te mimando como nunca...

- É assim que se fala, amor... - Jack sorriu. - Ai Menininha, acho que cometemos um erro enorme desta vez...

- Erro?

- Podiamos ir para o Brasil em um avião particular, teriamos mais privacidade. - sussurrou nos ouvidos de Clara. - Poderia ser como naquele voo para Chicago...

- Hum... amor... Melhor parar... ou vamos acabar presos neste aeroporto por indecência...

- Eu não vejo a hora de podermos ser indecentes de novo... - disse Jack, beijando-a. - Ai Menininha...

- Vem aqui, amor... - disse Clara, pegando seu ipad na bolsa. - Vamos dar uma olhada na internet, para pensar em outra coisa...

Os dois então trataram de distrairem-se de seus desejos, lendo bobagens na rede e vendo as fotos do casamento de Paul. Um dos sites tinha publicado uma foto dela ao lado de Mick, como se os dois tivessem ido juntos à festa.

- Querido, passamos uns poucos minutos conversando com o Mick e você estava comigo o tempo todo... - disse Clara, mostrando a foto para Jack. - Não sei como conseguiram essa foto...

- Eles são assim mesmo, mas esta foto foi depois... - sorriu Jack. - Vi quando ele se aproximou de você mais tarde, de mãos dadas com a Gianna...

Clara sorriu e olhou nos olhos de Jack... - Você estava me vigiando?

- Não, meu amor... é que quando você está longe de mim, não consigo evitar de ficar te olhando... E quando está perto, não consigo parar de te beijar...

- Vem Jack... vamos dar uma volta pelas lojas do free shop? Acho que precisamos de mais distração...

- Vamos então, Menininha... quero comprar a loja inteira para você...

- Eu não quero comprar a loja, quero só parar de pensar no que estou pensando agora, Grandão...

Eles sairam da sala vip e seguiram pelos corredores do aeroporto, queriam distrair-se, mas lá fora, Jack foi logo avistado por fãs que o cercaram e pediram autógrafos e fotos. Logo, seguranças do próprio aeroporto os escoltaram de volta à sala vip, onde deveriam permanecer até o momento da chamada para o embarque.

- Desculpa Menininha... mas acho que não temos mais a liberdade que deveríamos ter...

- Não importa, amor... vamos esperar aqui dentro mesmo. Já está na hora de começarem a chamar nosso voo.

- Não me conformo com isso, querida... Estamos presos, em uma gaiola de ouro, mas presos...

- Ah querido, por favor, não se sinta assim...

- Sempre me senti, Menininha... Quando a turnê começar, você vai perceber isso também... me perdoa por te trazer para isso, meu amor...

Clara beijou-o e os dois foram abraçados para a fila de embarque. Lá, Jack foi reconhecido novamente e mais uma vez teve que assinar alguns autógrafos e posar para mais algumas fotos.

- Menininha, vem aqui de novo... - disse ele, puxando Clara novamente para seus braços. - Acho que isso deve piorar ainda mais...

- Eu sei, querido... Vamos ter paciência e nos cuidarmos, só isso... Ah! Foi isso que o Mick veio me dizer ontem no casamento, na hora da foto... Ele me deu o cartão de um segurança brasileiro que pode trabalhar para a gente, quando estivermos em São Paulo. Ele me disse que é de total confiança e que pode estar a nossa disposição...

- Você acha que precisaremos de um segurança lá?

- Não sei, amor... é uma cidade agitada, onde as pessoas não prestam muita atenção em quem está ao redor, mas quando percebem alguém famoso, podem criar uma confusão enorme.

Os dois seguiram pelo finger para dentro do avião e foram recebidos pela tripulação que também pediu por fotos. Depois, acomodaram-se em suas poltronas e receberam taças de champagne como cortesia.

- Hum... Menininha, acho que não vamos precisar de seguranças... você faz aquele negócio com o meu cabelo, que fez em Paris e ninguém irá nos reconhecer... Eu posso também usar meus óculos de grau na rua...

- Eu serei o nosso maior problema, em São Paulo. As pessoas costumam me reconhecer na rua...

- É mesmo, Menininha... Vamos comprar uma peruca para você? - riu Jack. - Cabelos longos, pretos... ninguém vai imaginar que é você... E você vai ficar uma delícia...

- Isso promete ser engraçado, amor... - riu Clara. - O lugar onde fica meu apartamento é muito movimentado, basta descer na calçada para encontrar muita gente, sempre... Talvez seja melhor ficarmos em um hotel...

- Eu quero ficar no seu apartamento... Não vamos ter problemas, Menininha... tenho certeza...

- Espero que não... - sorriu Clara pegando a mão de Jack. - Estou muito feliz de estar aqui, Grandão... do seu lado...

Jack sorriu e beijou as mãos de Clara. - Eu te amo, Menininha...

- Eu te amo, Jack. - disse Clara, beijando-o.

Enquanto os dois conversavam e namoravam tranquilamente, a cabine de primeira classe continuava a ser ocupada. E mais uma vez, os passageiros de primeira classe não se importavam nem um pouco com a presença do grande rockstar, o que era um alívio para ambos, que apenas desejavam que as 12 horas de voo até o Rio de Janeiro fossem sossegadas.

O avião decolou, um jantar sofisticado foi servido e Jack e Clara decidiram apenas aproveitar o conforto da primeira classe para relaxar. Jantaram, beberam champagne, exploraram o conteúdo das programações de bordo e pegaram no sono, de mãos dadas.

Era muito raro para Clara conseguir dormir dentro de um avião. Mesmo nas viagens mais longas, ela costumava ter muita dificuldade, mas desta vez tanto ela, como Jack dormiram tranquilamente e acordaram sorrindo, quando o café da manhã passou a ser servido aos passageiros.

- Bom dia, meu amor... - sorriu Jack. - Dormiu bem, querida?

- Bom dia, querido... senti falta dos seus braços ao meu redor, mas dormi... e você?

- Sonhei a noite toda com nós dois, foi tão bom...

- E eu sonhei que estávamos no meu apartamento, em São Paulo e a imprensa tinha descoberto e ameaçava invadir, quando nós dois conseguimos fugir pela porta dos fundos e passamos por eles de bicicleta e eles não nos viram... foi engraçado...

- Espero que a imprensa não descubra quando estivermos em São Paulo...

- E na Bahia?

- Não tem perigo, a casa é bem afastada e tem uma tremenda equipe de segurança ao redor. Lá estaremos em paz...

- Acho melhor então contratarmos o segurança do Mick para nos acompanhar em São Paulo.

- Vamos ver... não queria abrir mão do prazer de ficar sozinho com você... sem empregados, sem seguranças... Só eu e você...

- Hum... que lindo... Você tem claustrofobia?

- Não amor, por que?

- Meu pai diz que meu apartamento é tão pequeno, que mais parece uma coisa que a gente veste... que mais de uma pessoa dentro dele já vira multidão...

- Querida, eu já morei na rua... minha cama era um banco no meio de um parque de Birmingham... você acha mesmo que eu vou me sentir mal de dividir um apartamento com você? Vou é me sentir no paraíso... quanto mais apertado, melhor...

Clara sorriu para ele e os dois terminaram o cafe da manhã e logo foram até os toaletes arrumarem-se para o desembarque. Na volta dos toaletes, receberam formulários da imigração brasileira para preencherem.

- Senhora Noble, entendeu todas as recomendações do Peters? - sorriu Jack. - Você precisa fazer essas coisas todas direitinho...

- Ah, eu sei, amor... Fiz tudo como ele me disse e todos os documentos estão aqui... Acho que não teremos problemas.

- Acho que posso pedir até cidadania brasileira, não posso?

- Você é maluquinho... - riu Clara. - Imagina o que as pessoas não iriam dizer ao vê-lo pedindo cidadania brasileira...

O voo pousou no aeroporto Tom Jobim e eles seguiram com os demais passageiros até a imigração onde foram recebidos com um largo sorriso de admiração pelo funcionário, fã da Crossroads que estava muito feliz por atendê-los e liberá-los para seguir viagem.

O voo até Porto Seguro seria em avião particular e estava programado para sair do Rio somente às 11 da manhã. Eles então pegaram suas malas e foram encaminhados para uma sala de conexão que estava mais vazia, onde existia uma possibilidade menor de serem incomodados durante as quase cinco horas de espera.

- Cinco horas aqui esperando... - disse Jack. - Será que não podemos dar uma volta pelo Rio? Pegar um taxi aqui na porta e passearmos um pouco? Vem, vamos dar um passeio...

- Vamos amor... Guardamos a bagagem em um armário e vamos andar um pouco na praia... Ai Jack, vamos precisar abrir nossa mala, pegar uns bonés e trocar nossas roupas por coisas mais apropriadas... Precisa ser rápido porque este aeroporto é distante da cidade...

Clara prendeu o cabelo de Jack e colocou o boné por cima. Ele trocou sua camisa de mangas longas e calça jeans por camiseta e bermuda e ela colocou um vestido longo estampado e uma sandália, no lugar das roupas esportivas que estava usando e também prendeu os cabelos e escondeu-os sob um chapéu.
Guardaram as malas nos armarios do aeroporto e pegaram um taxi até a praia de Copacabana.

Conversaram com o motorista e ficaram felizes por não serem reconhecidos por ele. Desceram na porta do hotel Copacabana Palace, atravessaram a avenida e caminharam um pouco no calçadão onde tiraram fotos um do outro, como dois turistas comuns, na manhã ensolarada daquela terça-feira.

- Viu menininha... estamos bem, ninguém nos reconheceu até agora. - riu Jack. - Você achando que precisava de seguranças... quando tudo o que a gente precisa são roupas que nos confundam com o cenário...

- Verdade, amor... - sorriu Clara. - Estou tão feliz de estar aqui com você, que nem sei mais o que dizer. Esse lugar é lindo, não?

- Lindo mesmo... Estar aqui com você parece um sonho, Menininha... Como se fala "eu te amo" em português?

- Eu te amo!

Jack repetiu a frase e beijou-a novamente. Parados, no meio do calçadão, aquele era só mais um dos inúmeros casais de turistas a passear por aquela calçada que se estende por toda a orla.

Apesar da manhã de sol, o movimento na praia ainda era pequeno, porque era muito cedo para uma terça-feira comum, de trabalho, na cidade. Clara ainda queria uma foto dos dois juntos e aproximou-se de um outro casal de turistas para pedir para fotografá-los. E depois de caminhar mais um pouco, os dois sentaram-se em uma barraca da praia para tomarem uma água de coco.

- Eu poderia me acostumar com essa vida, Menininha... - riu Jack. - Se eu decidisse me aposentar, esquecer de tudo e me mudar para um lugar como este, você viria comigo?

- Meu amor, eu iria com você para qualquer lugar, mas você sente mesmo vontade de aposentar-se? Conseguiria ficar longe dos palcos, da música?

- Não sei, querida... Às vezes eu sinto vontade de largar tudo... ainda mais agora que estamos juntos, não tem nada mais lá fora que me interesse. Não preciso de mais nada além de você.

- Ai Jack... eu sabia... destrui sua vida com essa história de volta da Crossroads...

- Meu Deus, não! Nunca! Estou muito feliz de voltar a tocar com meus amigos, amor... Mais do que você imagina até... Mas neste instante, quando olho ao meu redor e vejo essa paisagem linda e a mulher que eu amo, aqui, ao meu lado... Eu fico pensando que não tem mais nada nesse mundo que me interessa, nem a música, nem o palco... nada mais me faz falta.

- Você é maravilhoso, querido... e eu estou vivendo um sonho desde que te conheci. Tem horas que eu fico repassando na cabeça o primeiro dia da nossa relação e me sinto culpada por ter me atirado nos seus braços tão rápido, mas ao mesmo tempo... eu me sinto tão feliz com você, que desejava ter te beijado antes, na sua suíte, quando meu celular tocou...

- Só não te beijei para não te assustar... Se eu te dissesse que estava te procurando porque já te desejava, sem te conhecer, você ia achar que eu era um louco...

- É meu amor... o destino armou muito bem conosco... e eu sou muito grata a ele por ter feito isso...

- Querida, acho que precisamos voltar para o aeroporto... o piloto vai procurar a gente na sala de embarque às 10 da manhã. Vamos voltar lá no hotel para pegar o taxi?

- Não precisa, vem comigo... - disse Clara puxando Jack pela mão até um ponto de taxi do outro lado da rua.

Os dois voltaram tranquilamente para o aeroporto, pegaram suas malas e sentaram-se na sala de embarque combinada, aguardando pela chegada do piloto, que apareceu pontualmente às 10 da manhã para encontrá-los.

- Senhor Noble! - sorriu Marcos. - Nossa, quase não o reconheço com esse boné...

- Olá Marcos, tudo bem? - Jack cumprimentou-o. - Esta é minha esposa, Clara...

- Como vai, senhora! - sorriu Marcos. - Prontos para embarcar?

- Estamos sim, Marcos...

- Ótimo! Então me sigam, meu carro está parado aqui fora e eu vou levar vocês dois nele até a ala de onde saem os voos privados.

Os três entraram no carro de Marcos e seguiram para uma parte mais afastada do aeroporto, onde entraram de carro em um dos hangares, onde o co-piloto e o avião já esperavam por eles.

- Marcos, será que já não podemos ir embora? Antes das 11 horas, quero dizer...

- Desculpe senhor Noble, fique a vontade na aeronave, mas amanhã é feriado aqui no Brasil e precisamos seguir os horários estipulados porque este aeroporto é muito movimentado. Se sairmos antes da hora, eles não nos darão autorização para a decolagem...

- É mesmo, amor... amanhã é feriado por aqui... - sorriu Clara. - Tinha me esquecido deste detalhe...

- Sem problemas, Marcos... acho que estamos é ansiosos para descansar um pouco...

- São só duas horas de voo e os senhores já estarão em Porto Seguro.

- Então vamos chegar à uma da tarde... - riu Jack. - Me deram outra previsão... aqui, olha o que está escrito...

- Não, senhor... seria assim se fosse em um voo regular, que tem escalas, acho que o Charles se confundiu... nós vamos direto para lá. Se o senhor quiser posso entrar em contato com o motorista que vai levá-lo para São Francisco da Borda e checar se ele tem o horário correto.

- Sim, faça isso, por favor. - disse Jack preocupado. - Amor, acho que o nosso roteiro não está certo.

- Fica tranquilo, querido... eles irão acertar tudo para a gente, deve ser algum mal entendido. - sorriu Clara. - Eu estranhei muito o tempo de voo até lá, mas achei que nosso voo era de linha, só descobri que era um voo particular quando você me disse que precisávamos esperar pelo piloto.

- Senhor Noble, acabei de falar com o motorista, ele vai pegá-lo no aeroporto às três da tarde; tem umas duas horas e meia de estrada até São Francisco... os senhores chegarão lá no final da tarde...

- Enfim, uma surpresa boa... - sorriu Jack. - No planejamento que tínhamos, chegaríamos só às 8 da noite... muito bom, não querida?

- Ótimo! - sorriu Clara. - Vamos chegar a tempo de assistir ao por do sol, amor... Espero que o tempo esteja bom por lá...

- Marcos, como está o tempo lá na Bahia?

- Muito bom, senhor. A previsão promete sol para a semana inteira e algumas chuvas, mas só hoje à noite...

- Que bom! - sorriu Jack. - Estaremos muito bem, Menininha...

- Os senhores gostariam de um drink? Temos whisky e vinho à bordo...

- Não, obrigado... - disse Jack. - É muito cedo para beber... Quer bebida, amor?

- Não, obrigada... - sorriu Clara. - Estas telinhas são para exibir filmes?

- Sim senhora, temos um folheto explicativo do funcionamento delas e uma extensa lista de programas disponíveis. São filmes, shows e videoclipes musicais para entretenimento de nossos passageiros. Os senhores também podem usar seu telefone celular e internet em seus aparelhos, a bordo.

- Não preciso de distrações, senhor Marcos, posso passar o voo inteiro olhando apenas para minha linda esposa...

- Jack...

- Tem toda razão, senhor... - sorriu Marcos. - Sua esposa é uma bela filha desta terra...

- Sim, estarei sempre em débito com este país maravilhoso, que me deu seu anjo mais precioso...

- Meu amor, não exagera, querido... não sou um anjo, sou uma pessoa comum...

- Desculpa senhora, - interrompeu Marcos. - Mas ouvi a senhora cantando e sua voz é realmente angelical...

- Obrigada, o senhor é muito gentil. - sorriu Clara.

- Bem senhores, devo agora assumir meu posto na cabine. Em suas poltronas temos um intercomunicador, se tiverem alguma dúvida, ou pedido, basta apertar este botão e falarão comigo e com o co-piloto De Marchi.

- Obrigado comandante. - sorriu Jack para Marcos, que fechou a porta externa do avião e seguiu para a cabine de comando. - Então, meu anjo, pronta para decolar?

- Sim, meu amor... - sorriu Clara pegando a mão de Jack.

Às onze horas em ponto, o avião começou a rolar na pista e decolou logo a seguir. Clara, que tinha ficado curiosa com o conteúdo dos vídeos de bordo, lia atentamente o folheto com as instruções de operação.

- Você quer mesmo ver vídeos... - sorriu Jack, ao vê-la buscando em um longo menu, o título de sua preferência.

- Olha que lindo isso, querido... tem o filme da Crossroads... vamos assistir?

- Ah! O filme... - riu Jack. - O diretor nos mandava fazer essas cenas e nós obedecíamos. Nos arrebentamos de trabalhar para no final a crítica dizer que é um dos piores filmes da história, que só vale pelas cenas do show em Londres.

- Querido, se serve como consolo, eu amo esse filme... Tenho ele em DVD em meu apartamento e sempre o assistia. A versão de "Song of the Woods" que tem nele é simplesmente linda.

- Para mim, particularmente, foi um trabalho muito difícil. A Mary estava grávida da Kate e passava muito mal. As filmagens me prendiam no estúdio dia e noite e ela sozinha na nossa fazenda. Eu cheguei a ter uma crise de exaustão, uma noite. O David gritou com o diretor, me colocou no carro e me levou para o hospital.

- Pobrezinho do meu amor... - disse Clara pegando a mão dele e beijando. - Você prefere ver outra coisa? Stones em Copacabana?

- Menininha... - riu Jack. - Pode colocar o filme, amor... se você gosta, eu também tentarei gostar...

- OK! - ela disse apertando sua escolha na tela. - Gosto de saber tudo sobre você, cada história, cada detalhe, eles me ajudam a entender o homem maravilhoso que eu amo.

- Não sei o que você vê em mim, querida... - riu Jack. - Sinceramente...

- Amor... você está falando sério? Olha só para você ali na tela, não me lembro de ter visto na minha vida um homem tão bonito, tão sexy...

- Eu nunca me senti grande coisa, Clara. Sempre me senti alto demais, desajeitado... Nunca vi no espelho isso que as pessoas dizem que veem em mim.

- Isso é ainda mais encantador, sabia? O que vou dizer agora não é porque sou casada com você, ou porque eu te amo, mas você é o homem mais atraente que eu já vi na vida...

- Ah Menininha, assim você me deixa sem graça...

- Além disso, você é um homem carinhoso, afetuoso... Se você fosse só bonito, acho que teria me decepcionado em nosso primeiro encontro, em Nova York.

- Eu sei, querida. Não acho que você conseguiria se ligar a alguém só pela aparência. Você pode ser tudo, menos frívola.

- Engraçado, mas nos vídeos desta época você parece tão cheio de si, vaidoso como um pavão...

- Mas minha vaidade não é sobre minha aparência, querida. Eu tinha orgulho sim, nessa cena, mas não era da minha beleza, era da música que eu estava fazendo... Quando fizemos este filme, eu estava realizado como homem, era o bluesman que eu sempre tinha sonhado ser.

- Que lindo... - disse Clara com os olhos molhados de lágrimas, no momento em que os primeiros acordes de "Song of the Woods" chegavam aos alto falantes. - Desculpa, essa música sempre faz isso comigo...

- A inspiração para esta música foi você, minha Ninfa, meu amor...

Clara desafivelou seu cinto de segurança, levantou-se de seu assento e sentou-se no colo de Jack. Ele beijou-a e secou suas lágrimas. E assistiram abraçados e em silêncio, ao restante do filme.

- Sabe amor, é a primeira vez que assisto a esse filme e não me sinto incomodado pelo drama que estava vivendo naquele momento. Estou até gostando dele...

Enquanto os dois namoravam, os alto falantes começaram a trazer a voz do comandante Marcos. - Senhores passageiros, já estamos em aproximação final do aeroporto de Porto Seguro. A temperatura local é de 31 graus e o horário local é 1:42 da tarde. Peço agora que os senhores coloquem seus assentos na posição vertical e afivelem seus cintos de segurança.

Clara obedeceu imediatamente e alguns minutos depois o avião já estava pousado rolando pela pista na direção do terminal de passageiros.

- Então, senhores. Prontos para desembarcar? - sorriu Marcos abrindo a porta da cabine. - Está bem quente lá fora...

- Já percebemos... - disse Jack. - Então vamos? Querida, pegou todas as coisas?

- Sim, amor... - sorriu Clara. - Vamos descer?

Os dois desceram do avião e caminharam pela pista, enquanto sua bagagem era levada em um pequeno carro até o terminal de passageiros. Assim que chegaram ao terminal, perceberam que não havia um restaurante lá para almoçarem e perguntaram a um funcionário onde encontrariam um e ele indicou o restaurante de um hotel a poucos quilometros dali.

Os dois então pegaram a bagagem, pegaram um taxi e logo estavam em um belo hotel da região, rústico, mas muito agradável, cercado por verde por todos os lados e com um belíssimo conjunto de piscinas.

- Jack, este lugar é lindo... olha só o mar lá embaixo... - disse Clara enquanto escolhia uma mesa no terraço do restaurante. - Quero tirar várias fotos daqui... Meu amor, isso aqui é um paraíso...

- Você é meu paraíso, meu amor... - sorriu Jack. - Mas este lugar é muito bonito...

Os dois optaram por comida leve, salada, peixe assado e frutas, acompanhados por sucos de frutas. Ainda tinham mais de duas horas de viagem de carro para chegar ao seu destino e temiam passar mal se comessem algo mais pesado.

- Querido, será que não tem mesmo problema deixar nossa bagagem lá na recepção? Não vamos nos hospedar aqui...

- Não tem, amor... sou especialista em bagagem e já fiz isso inúmeras vezes por aí... - riu Jack. - Eles querem uma boa gorgeta e isso eu sempre dou... Sabe, estava aqui reparando... Você fica linda, nessa luz daqui, meu amor...

- Você é muito doce querido... Bem, acho que agora estamos oficialmente em lua de mel, não?

- Desde que te conheci nós estamos, querida... Acho que fiz alguma coisa de bom nessa vida para merecer esse amor.

- Eu também, querido... eu também... Já sofremos muito, acho que estamos ganhando uma compensação agora.

- Nesta vida, Menininha, você já sofreu tanto assim? Você é muito jovem...

- Nem tanto, amor... mas todos os meus relacionamentos, até hoje foram desastrosos... você conheceu o Roberto, não? Ele me sufocava com ciúmes, fazia pouco do meu trabalho, do meu talento...

- E por que você gostava dele? - sorriu Jack.

- Ah, eu era uma bobona... uma adolescente que tinha acabado de entrar na faculdade. Era o primeiro momento em que eu me sentia uma adulta de verdade. Encontrei o Roberto e achei que ele era lindo e tinha todo o lado político dele, ele fazia parte do Diretório Acadêmico e me ensinou uma porção de coisas... Mas depois, com a convivência, fui percebendo o quanto ele era estranho... hoje tenho medo dele.

- Mas você não teve namorados antes dele? - perguntou Jack.

- Tive, mas nada muito sério... o Roberto foi o primeiro homem que eu amei, de verdade...

- Ah Menininha... quando você fala dele, não consigo evitar de sentir ciúmes...

- Não sinta... ele me fez sofrer muito. Já te falei que quando nos separamos tive uma depressão horrível... Não desejo para ninguém o que passei. Eu chorava dia e noite...

- Amor... queria tanto ter te conhecido antes e evitado que você sofresse...

- Seria maravilhoso... Mas acho que eu teria medo de você...

- Medo? Por que?

- Porque eu era muito infantil, muito boba... Imagina se você aparecesse na minha frente; um homem vivido, mais velho... acho que correria de você...

- Eu sei que sou muito velho para você, Menininha...

- Velho? - riu Clara. - De jeito nenhum... Te amo desesperadamente, Jack e você não tem nada de velho - Clara aproximou-se de Jack e sussurrou em seu ouvido. - Sinceramente meu amor, muitas vezes acho que vou enlouquecer quando nos amamos...

- Ai Clara, meu amor... - disse Jack beijando-a. - Você não imagina como me faz bem ouvir isso. Queria poder te levar para uma suite desse hotel e...

- Vamos chegar logo na nossa casa, amor... quero ver o por do sol na praia, ao seu lado...

- Sabe o que esquecemos? - riu Jack. - Não liguei ainda para o motorista, ele vai nos buscar no aeroporto e não vai nos encontrar...

- Ah, liga para ele, amor... - riu Clara, procurando sua máquina fotográfica na bolsa e tirando fotos da vista do terraço. Depois, ela virou a câmera para Jack e fotografou-o falando ao telefone. Estava irreconhecível, com os cabelos presos sob o boné e com os olhos cobertos por óculos escuros, mas ela suspirava por ele agora.

Assim que ele terminou o telefonema, Clara pediu a outros turistas que estavam no restaurante para fotografá-los juntos. Estavam tão felizes que se imaginavam invencíveis.

Continua

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