12 de jan de 2012

Rockstar - Capítulo LXV


- Hum, boa tarde querida! Como você está hoje? - ela ouviu a voz de Mick do outro lado da linha.

- Olá Mick. Tudo bem... e você?

- Melhor agora que estou falando com você... - sorriu Mick. - Mas sua voz me diz outra coisa...

- Não é nada, só cansaço... estava agora no estúdio e, não sei bem por que mas a música da Crossroads acaba comigo emocionalmente... estou em frangalhos, querido.

- Queria estar aí para te fazer descansar nos meus braços...

- Por favor, Mick... não fale assim... você queria que eu te ligasse...

- Desculpa querida. Não quero te causar nenhuma dor... O Jack Sommers chegou hoje de manhã em Londres e nós marcamos uma reunião para tratar sobre o roteiro do filme no restaurante do Ritz, amanhã às 10, um café da manhã para combinarmos como vocês dois trabalharão juntos. Passo aí, em Heathcliff Hall, às nove para te pegar?

- Nós todos estávamos combinando de ir para Londres amanhã para comprar roupas de palco para a banda... - disse Clara.

- Após a reunião, posso deixá-la onde você quiser... Não se preocupe... você estará segura ao meu lado, já te disse que somos amigos agora, não disse?

- Querido, não é isso... Me desculpa, estou me sentindo muito cansada agora e sei que o Jack vai ficar com ciúmes e... bem... estou sem energia para essa batalha...

- Quer que eu fale com ele?

- Não... Não precisa. Nos vemos então amanhã, às nove.

- Ok, querida. Se tiver alguma coisa que posso fazer por você, me avise... Fica em paz, meu amor.

- Tchau, querido. Um beijo...

Clara deu um longo suspiro e resolveu voltar ao estúdio. Desceu as escadas, entrou na sala de controle e de lá acenou para as amigas abrirem a porta para ela.

Jack estava completamente concentrado na música "Love you Forever" e cantava de olhos fechados e Clara preferindo não atrapalhar mais uma vez o ensaio, foi sentar-se com suas amigas, no sofá.

- Querida, está melhor? - perguntou Jack depois que a música terminou.

- Estou melhor sim. - Clara respondeu levantando-se do sofá e caminhando até ele. - Querido, o Mick Jagger me ligou...

- O que aquele cara quer agora? - perguntou Jack tirando o fone do ouvido.

- O Jack Sommers, roteirista do filme, está em Londres e ele marcou uma reunião para amanhã às 10, no restaurante do Ritz, no café da manhã. Disse que passa aqui às 9 para me pegar.

- Nós já tinhamos combinado com nossos amigos que íamos até nossa casa e depois faríamos compras para o show... - disse Jack pegando-a pela mão.

- Mas ele me disse que me leva onde eu quiser ir, depois da reunião. Posso encontrá-los por lá, amor...

- Claro... por que não? - Jack puxou-a mais perto e beijou sua mão. - O mínimo que aquele canalha pode fazer é te devolver para mim, depois de ter a chance de mais uma vez tentar te roubar...

- Querido, é só trabalho... Vou encontrá-lo para falar sobre o roteiro, só isso. - disse ela acariciando o cabelo de Jack. - Por favor, não fica nervoso, meu amor... Preciso de você comigo para conseguir dar conta de tudo o que preciso fazer.

- Eu vou tentar ficar bem, meu amor. - disse Jack, abraçando Clara. - Me desculpa, mas esse cara me tira do sério.

- Eu sei, querido... me desculpa também, mas é apenas uma reunião de trabalho sobre o roteiro do filme. Sinto muito que ela atrapalha nossos planos, mas eu preciso ir...

- Clara, não se preocupa. Vamos esperar por você na sua casa, queremos deixar tudo do seu gosto, querida. - sorriu Cindy. - Não é pessoal?

- Sim, Princesa... nós vamos lá ajudar a deixar tudo como você gosta... não liga para o Velhão... eu não ligo... - riu David.

- Obrigada pelo apoio, meus queridos, mas preciso conversar um pouco com meu marido. - disse Clara puxando Jack para fora do estúdio e levando-o até o corredor que seguia para a adega e para a escadaria que unia o subsolo ao resto da casa.

- O que foi, meu amor? - perguntou Jack com um ar triste e decepcionado.

- Isso aqui... - disse Clara, empurrando-o contra a parede, beijando-o apaixonadamente e deslizando as mãos por seu corpo. - Sempre que percebo seus ciúmes, tenho vontade de te mostrar o quanto te desejo.

- Ai menininha... me desculpa... Sou completamente seu, mas é tão difícil ver aquele cara...

- Eu sei... mas eu amo você, entendeu? Você...

Jack pegou Clara e pressionou-a com seu corpo contra a parede, o clima esquentava ainda mais entre os dois...

- Desculpa interromper, Princesa, mas estamos precisando ensaiar... Velhão, já para o estúdio...

- Vai querido... não quero atrapalhar o trabalho de vocês. Vou descansar um pouco, no jardim... estou esgotada emocionalmente e preciso de um pouco de distância, acho que vou buscar minha câmera e tirar umas fotos para ver se entro no foco de novo. Vai cantar amor, vai...

- Eu vou, querida. - disse Jack beijando-a. - Fica em paz... por favor.

- Vou ficar, amor... vai cantar antes que o Dave me expulse dessa casa... - sorriu Clara e depois seguiu pelo corredor até as escadas. Estava chorando e não queria que ninguém visse.

Clara foi até o quarto e atirou-se na cama. Sentia um cansaço maior do que ela, mas desejava que Jack estivesse ali. Assim ela teria a chance de mostrar a ele onde estava seu coração. Mas ele precisava ensaiar e, ela, preparar-se para encontrar novamente Mick Jagger.

Aquele encontro poderia complicar tudo, porque desta vez, os dois estariam completamente sozinhos.

Dentro de seu cansaço, ela estava até arrependida por aceitar aquele contrato de adaptação de sua história para o cinema e naquele momento, o sonho que sempre teve de ver suas histórias transformarem-se em filme, parecia tolo e vazio.
Respirou fundo, levantou-se, pegou sua câmera e foi até o jardim, mas apenas deu alguns passos no gramado e uma chuva fina e gelada começou a cair, obrigando-a a voltar para dentro de casa.

Clara subiu de volta em seu quarto, guardou a máquina fotográfica e pegou seu notebook. Respondeu e-mails e comentários de seu blog, facebook e twitter e deu uma olhada no planejamento dos próximos capítulos do livro. Naquele momento, tudo dependia de sentar-se com Jack e fazê-lo contar mais; mas não podia fazer isso agora.
Ele fingia que não, mas estava bastante abalado de saber que Clara se reuniria com Mick Jagger no dia seguinte.

Ela também sentia-se insegura sobre aquela reunião e depois de ir até o seu closet e achar que não tinha nada adequado para vestir, começou a sentir-se sufocada naquele quarto e resolveu que deveria andar no gramado, mesmo que ainda estivesse chovendo.

Vestiu uma jaqueta de couro, prendeu o cabelo e desceu as escadas, encontrando Cindy e Jennifer na sala de visitas.

- Que bom que vocês estão aqui fora... - sorriu Clara. - Vocês podem me ajudar? Estava pensando no meu figurino para a reunião de amanhã...

As duas amigas levantaram-se animadas e seguiram Clara até seu closet.

- Pensei nesse terninho cinza, com este casaco de couro por cima... - disse Clara. - O que vocês acham?

- Muito sério, Clara. - sorriu Jennifer. - Você não vai se encontrar com o Michael Peters, querida...

- Mas meu marido... não quero deixá-lo com ciúmes... - Clara respondeu com lágrimas nos olhos. - Sabe, estou sentindo uma dor horrível no peito hoje e sei que ela vem dele. Ele está muito triste por causa dessa reunião e preciso deixá-lo seguro... Nem que seja porque escolhi a roupa mais feia do meu armário para vestir amanhã...

- Ah querida... - disse Cindy, abraçando-a. - Não fica assim... Vem, vamos sentar. Quer um copo d'água? Vamos lá para baixo um pouco, depois terminamos de escolher alguma coisa para você...

As três desceram as escadas e foram caminhar um pouco no gramado, a chuva tinha parado e elas então foram até a estufa. Queriam que Clara se acalmasse e se distraísse um pouco.

- Olha querida, a minha orquídea favorita vai florir novamente. - sorriu Cindy. - O mundo está mesmo descontrolado, ela nunca floriu em outubro... é a primeira vez...

- Tão linda! - sorriu Clara com os olhos ainda cheios de lágrimas. - Desculpa, querida, mas preciso descer no estúdio. O Jack precisa de mim, agora...

Clara atravessou o gramado correndo e voltou para a casa, desceu as escadas e quando chegou na sala de controle do estúdio surpreendeu-se ao ver Jack sentado em um banquinho, pegando um copo de água que David estendia para ele, enquanto chorava com o rosto apoiado nas mãos. Sinalizou então para Mike, que abriu a porta para que ela entrasse.

Ela então caminhou em silêncio até Jack e fez sinal para David e Mike deixá-los sozinhos.

- Querido... - disse aproximando-se dele. - preciso falar com você, meu amor...

- Me perdoa, Clara. - disse Jack levantando-se e abraçando-a. - Está doendo muito...

- Eu sei... sinto a mesma dor, querido. - disse acariciando seus cabelos. - somos um só, lembra? Me diz tudo o que quer dizer, meu amor... estou aqui para ouví-lo...

- Não tenho o direito de ter tanto ciúme, ainda assim, tenho... - disse Jack puxando-a pela mão até os sofás do estúdio. - Sou mesmo um idiota...

- Não, meu amor, também tenho ciúme de você... Se pudesse, teria quebrado aquela vaca americana em mil pedaços... você sabe disso...

- Linda... - sorriu Jack. - Você é muito pequenininha e frágil para bater na Ann, meu amor... Você apanharia muito dela, isso sim... Mas eu amo você, meu amor... não ligo a mínima para ela e isso é o que importa.

- Mas é a mesma coisa que sinto sobre o Mick, meu querido... - sorriu Clara.

- Não é, eu sei... mas estou disposto a te ganhar dele... - disse Jack soltando os cabelos de Clara e deitando-a no sofá sob seu corpo. - Não importa o que ele te diga, eu te amo muito mais do que ele, Clara....

- Ai, Jack, meu amor... Você já me ganhou há muito tempo... desde que te vi pela primeira vez naquele saguão de hotel em Nova York, sou sua... irremediavelmente sua... - disse beijando-o com paixão.

- Vem, minha querida, vem... - disse Jack, levantando-se do sofá e puxando-a pela mão. E os dois subiram até o quarto, deixando seus amigos boquiabertos pelo caminho.

Em silêncio os dois se despiram e compartilharam o amor que sentiam. Com a dor e a urgência da última vez, aqueles momentos sublimes os acalmaram novamente e trouxeram a certeza e a paz dos sentimentos plenos.

- Meu amor... - Jack quebrou o silêncio. - Quero muito te mimar hoje o dia todo e amanhã e depois de amanhã e depois e todos os dias da minha vida...

- Meu querido... - Clara beijou-o. - Nada me fará mais feliz do que te fazer feliz... Estou aqui para você... Se você não quiser, nem vou na tal da reunião amanhã... dane-se o filme e minha carreira...

- Não, querida... - disse Jack sentando-se na cama. - Não pode ser assim... você vai e depois nos veremos na nossa casa... E vamos arrumá-la como você quiser e logo estaremos em paz, sozinhos, no Brasil... são só mais uns dias, meu amor...

- Eu já estou em paz, querido... para mim, me basta estar nos seus braços...

Jack e Clara passaram mais algumas horas no quarto e só desceram quando a noite chegou. Sorrindo, agarrados e felizes novamente.

- Desculpem, queridos, mas precisei conversar com minha pequena esposa... - sorriu Jack.

- Não tem problema, Jack. - disse David. - Eu e o Mike trabalhamos em outras coisas no estúdio... E a patroa disse que o jantar estará pronto daqui alguns minutos. Querem um drink?

- Vou ajudar a Cindy... Ela está na cozinha? - perguntou Clara.

- Sim, mas não acho que ela precisa de ajuda, querida. - disse David.

- Não preciso, querida. - disse Cindy trazendo uma garrafa de vinho nas mãos. - Quer vinho?

- Quero sim! - sorriu Clara. - Onde estão a Jenni e o Mike?

- Foram se preparar para o jantar. - sorriu David. - Venham aqui, queridas. Vocês podem pensar aquele monte de bobagens sobre preferirmos a música e tudo o mais, mas não tem nada que possa substituir a sensação de ter nossas amadas, nos nossos braços... vocês são lindas e ainda por cima, cheiram bem... Vem aqui, Cindy...

- Então? Tudo certo para amanhã, Clara? - perguntou Cindy. - Meu sócio me disse que a maior parte dos móveis já chegou e a casa está praticamente pronta.

- Tudo, querida. - sorriu Clara. - Sabe do que me esqueci... das coisas que usaremos no dia-a-dia. Pratos, copos, roupas de cama...

- Relaxa... podemos ver isso tudo amanhã... Acho que quando voltarem do Brasil, a casa estará totalmente pronta... o estúdio estará pronto na semana que vem... o David vai lá testar tudo para vocês...

- Queridos! Isso é maravilhoso! - sorriu Clara. - Estou muito feliz, estamos, não meu amor?

- Muito! - sorriu Jack ao ver o rosto de Clara iluminar-se. - Parece um sonho... eu e minha ninfa na nossa casa... Vou ligar para o Peters e pedir a ele para contratar os empregados enquanto estivermos no Brasil e quando voltarmos, daremos uma festa de inauguração!

- E uma festa de lançamento do disco, Jack! - disse David. - O Peters me ligou, enquanto você estava lá em cima. A festa de gala do lançamento do disco será na Roundhouse, no dia 28 de Outubro.

- No meu aniversário? - disse Clara. - Que lindo!

- É mesmo! É aniversário da minha princesa... Você se importa de comemorarmos nessa festa? - perguntou Jack.

- Não, querido... fico feliz... muito feliz! - sorriu Clara. - Depois comemoraremos na nossa casa... juntos...

- Hum... essa comemoração íntima me alegra ainda mais, querida! - sorriu Jack, beijando-a no rosto.

- Então, todo mundo feliz novamente nessa casa? - perguntou Jennifer, enquanto descia a escada de mãos dadas com Michael. - Que tal a festa de lançamento, Clara?

- Adorei a ideia! É no dia do meu aniversário! - sorriu Clara.

- Que lindo, querida! - sorriu Jennifer. - Então, vamos escolher as roupas para a reunião de amanhã? É capaz de ter imprensa no hotel e como sua personal stylist preciso te avisar que é importante aparecer sempre impecável em público.

- Depois do jantar, Jenni... - sorriu Clara. - Não preciso mais procurar a roupa mais feia do meu closet. Só alguma coisa adequada para um encontro de negócios.

- Isso mesmo, querida! - comemorou Jennifer. - Estou feliz por você... Aliás, todos nós estamos!

- Estamos sim, Princesa! - sorriu David.

- Então? Vamos jantar? - convidou Cindy.

Todos seguiram para a sala de vidro e o jantar transcorreu em clima de alegria e paz. Mais tarde, enquanto os homens se reuniam ao redor da coleção de discos de David, as mulheres iam ao closet de Clara escolher as roupas para a reunião. Botas, uma saia longa preta de veludo, blusa de tricot preta e uma paximina cinza. Tudo usado sob um charmoso sobretudo de couro preto.

- Lindo! - sorriu Clara. - Muito lindo! Vamos descer, agora? Quero beber um pouco mais de vinho, preciso relaxar ou não conseguirei dormir.

- Ainda nervosa? - perguntou Jennifer. - Acha que seu marido pode aprontar alguma?

- Não... - disse Clara. - O Jack está sendo um querido, me disse até que quer me ganhar do Mick, agora, imagina... mas eu sou ansiosa por natureza... Sempre que tenho um compromisso importante no dia seguinte, não consigo dormir...

- Acho que todas somos assim, em uma dose maior ou menor. - sorriu Cindy. - Mas me conta isso, o Jack disse para você que quer te ganhar do Mick?

- Disse... - suspirou Clara. - Ele acha que gosto mais do Mick do que dele...

- Que bobagem... - sorriu Jennifer.

- É, mas pelo que eu pude perceber ele se sente menos que o Mick, como se o Mick fosse alguém muito maior e mais digno do que ele. E eu posso dizer para vocês que, para mim, seria impossível amá-lo mais do já o amo.

- Mas você gosta do Mick também, não gosta? - perguntou Cindy.

- Pelo Mick, tenho carinho e admiração. Acho que sou mais fã do trabalho dele, do que qualquer outra coisa. Eu sempre gostei muito dos Rolling Stones e talvez, por isso, goste tanto da ideia de ser amiga dele...

- Mas ele não acha que é seu amigo, Clara. - disse Jennifer. - O Mick te vê como uma mulher atraente que ele quer ter nos braços. Você precisa tomar cuidado com isso, se não quer mesmo trair o Jack.

- E não tenho qualquer intenção de traí-lo. Não quero que ele sinta a dor que estava sentindo hoje à tarde, quando desci no estúdio. - disse Clara. - Não posso deixar que isso aconteça.

- Então, amiga, cuidado com o Mick. - sorriu Jennifer. - Porque ele vai sempre tentar alguma coisa.

- Vou tomar cuidado... - sorriu Clara. - Então? Vamos lá embaixo beber vinho?

- Vamos! - sorriu Cindy.

As três desceram e encontraram seus maridos na sala de música, ouvindo com atenção um velho disco de blues, enquanto David, com a guitarra na mão, tentava reproduzir os acordes que saiam das caixas de som.

- Amor, vem ouvir isso... - disse Jack puxando Clara para seu colo e sussurrando em seu ouvido, para não incomodar David. - Esse disco é de um dos maiores bluesman da década de 20 e há anos o David estava atrás dele porque quer tentar tirar esse solo.

- Que lindo! - disse Clara pousando a cabeça no ombro de Jack e apenas observando a cena. David Mersey, um dos melhores guitarristas do mundo, tentava tocar um velho blues de um músico que ele considerava um dos seus mestres.

- Está muito difícil isso, Jack... - disse David depois de tentar reproduzir o que ouvia. - Não tem como ser só o bottleneck...

- Deixa eu tentar... - disse Michael, pegando sua própria guitarra. - Acho que você pulou um acorde e isso está fazendo toda a diferença....

Cindy serviu vinho para ela e as amigas e em silêncio, sentou-se para também ficar observando.

- Assim, cara... - disse Jack puxando a gaita e tocando a sequência de notas que tinha ouvido.

- Não é Jack... - respondeu David. - Esta última nota não é assim... Cara, isso é impossível... o que eu não daria por uma máquina do tempo...

Quando ouviu essa frase, Clara lembrou-se de quantas e quantas vezes já a havia dito. Sempre que encontrava um bom vídeo dos velhos shows da Crossroads, na internet, ela a repetia, inconformada com seu destino de ter nascido tarde demais para ver a banda ao vivo. Mas eles estavam de volta e logo ela não só os veria, como os acompanharia em uma música, no palco.

- Ah cansei! - sorriu David. - Uma coisa que eu quero entender há 40 anos, não acho que será só em uma noite que vou conseguir...

- Você já conseguiu o disco, querido - sorriu Cindy aproximando-se dele para beijá-lo. - Mais dia, menos dia, você consegue...

- Tenho certeza que consegue, Dave. Você é um músico excepcional... - disse Clara sorrindo. - Mas agora, queria ouvir alguma coisa que desse para dançar...

- Seu desejo é uma ordem, Princesa. - respondeu David, levantando-se e pegando um disco de vinil nas prateleiras. - Vou colocar um daqueles que você gosta... Quer dançar, Cindy?

- Quero sim, amor... - sorriu Cindy.

- Vamos dançar, meu amor? - perguntou Clara puxando Jack pela mão assim que os primeiros acordes de um velho disco de Tony Bennet começaram a soar.

Os três casais passaram então a dançar agarrados aquelas músicas românticas que agora tocavam.

- Estou flutuando de tão feliz hoje, meu amor... - sussurrou Clara no ouvido de Jack. - Você foi tão doce comigo....

Jack beijou-a, acenou para David e puxou Clara pela mão de volta ao quarto.

- Querido, preciso antes programar o celular para despertar amanhã cedo. Vou sair daqui às 9... - disse Clara com medo de estragar o clima romântico entre eles.

- Eu te adoro tanto, Menininha. - disse Jack sentando-se na cama ao seu lado. - Vem aqui, mais perto de mim, vem...

- Lindo... - sorriu Clara. - Pronto! Vou acordar às 8, tomar um banho, me vestir e sair...

- Vou acordar com você, meu amor... Te mimar e te cuidar antes de você sair, porque eu gosto de cuidar de você...

Clara sorriu e beijou Jack. Os dois então se despiram e tiveram horas maravilhosas desfrutando do amor que sentiam e depois, simplesmente descansaram nos braços um do outro até o dia amanhecer. E quando o celular tocou, às 8, Clara e Jack acordaram sorrindo, tomaram banho juntos e ele massageou o corpo de Clara com óleos essenciais, arrumou seus cabelos em uma trança e ajudou-a a vestir-se.

- Você está linda, meu amor. - sorriu Jack. - Quer que eu te leve até o Ritz?

- Ai amor, podíamos ter combinado assim... - suspirou Clara. - Ficaríamos mais tempo juntos... Mas não se preocupe, vida. Compensarei cada minuto de distância te mimando em dobro mais tarde. Vem... Veste alguma coisa que quero que o Mick me veja te beijando lá na porta...

- Você é maravilhosa, querida. - sorriu Jack. - Vamos, está quase na hora...

- Vou levar meu caderninho e minha caneta... - sorriu Clara. - Não consigo me adaptar com aquele Ipad...

- Estou bem com esse robe? - sorriu Jack.

- Lindo! - sorriu Clara. - O homem que eu amo!

Os dois desceram as escadarias de Heathcliff Hall até a sala de estar. Ninguém, além dos empregados estava acordado na casa ainda. Eles sentaram-se na sala de estar e ficaram esperando, até que uma das empregadas veio até a sala avisar da chegada de um carro no portão e o celular de Clara avisava que estava recebendo uma nova mensagem: "Querida, estou na porta."

Ela saiu pela porta da frente da casa, agarrada em Jack e enquanto Mick caminhava na direção dos dois, Clara dava um longo beijo apaixonado no marido.

- Bom dia, meus queridos. - disse ele aproximando-se do casal e beijando a ambos no rosto. - Você não está com frio, Jack?

- Não... Sou um homem das montanhas, Mick. É preciso muito mais do que isso para me impressionar. Além disso, tenho meu amor para me aquecer... - sorriu Jack.

- Pronta, Senhora Noble? - sorriu Mick

- Vamos sim, Mick. - disse Clara. - Tchau, meu amor. Assim que a reunião terminar, te ligo... - e beijou-o novamente.

Mick abriu a porta da bela Ferrari que estava dirigindo para ela entrar e logo eles seguiam pela estradinha estreita que cortava o bosque, rumo à Londres.

- Fiquei com medo de dizer na frente de seu marido, mas você está linda hoje, querida.

- Obrigada Mick. - sorriu Clara.

- Mas o trânsito está horrível, querida... - disse Mick quando parou na entrada da estrada principal. - Espero chegar na reunião, no horário...

- O trânsito é sempre horrível nesta estrada, Mick. - sorriu Clara. - Não tem jeito...

- Vamos compensar essa chatice com um pouco de música. - disse Mick ligando o som do carro. - Você sabe o que é isso?

- A demo que gravamos em Nice? - sorriu Clara.

- Exatamente! E mais algumas coisas que gravamos dos nossos bailes por lá... - sorriu Mick. - Sua voz é linda, não me canso de ouvir... Aliás... aqui, neste pendrive, tem estas gravações todas e mais duas músicas que eu e o Keith fizemos para você. Ele está mais empolgado do que eu com sua voz, disse que se o David não produzir seu disco, ele produzirá...

- Que lindo! - sorriu Clara. - Não acho que mereça tudo isso de vocês... para mim, sou só uma escritora do terceiro mundo sem qualquer atrativo especial...

- Querida, não faça isso... Não renegue seus talentos... Agora você não está falando com seu amigo Mick, mas com o velho profissional da música e ele sabe quando está diante de uma estrela. Alguém que nasceu para as luzes e para a glória, minha querida. Essa sua modéstia é algo lindo, mas não deveria mais existir... eu poderia passar o resto dos meus dias e noites te ouvindo cantar...

Clara sorriu, mas seus olhos já estavam novamente enchendo-se de água. O belo carro em que estavam andava lentamente e chegava a parar, o que deu a ela a chance que queria para mudar de assunto.

- Este trânsito... - sorriu Clara. - E meu marido ainda quer que eu dirija aqui... Estou com saudades da minha bicicleta...

- É, querida. - riu Mick. - Acho que um par de bicicletas nos seriam muito mais úteis hoje do que esse carro... Você sabe dirigir?

- Sei... só tenho medo de dirigir aqui, porque é tudo ao contrário... - sorriu Clara. - Quando estiver mais tranquila, quero fazer umas aulas de direção para me adaptar...

- Não conta para ninguém, mas como fico muito na América, também fico confuso, às vezes, e prefiro usar um motorista por aqui... - riu Jagger. - É mais seguro... Olha só... conseguimos rodar mais duas milhas e paramos de novo...

- São Paulo também é assim... - sorriu Clara.

- Eu sei... Tenho ido constantemente para sua cidade nos últimos dois ou três anos.

- Mesmo?

- Estou até aprendendo português. - disse em português para Clara. - Fiz alguns investimentos por lá e tem meu filho...

- Fico feliz de saber, Mick. - sorriu Clara. - Meu país ainda será o melhor lugar do mundo...

- Já é, querida... Gosto muito de lá e não digo isso só porque estou apaixonado por uma brasileira...

- Mick, por favor... eu te peço para não falar mais isso...

- É a verdade, querida... mas como te disse, não farei nada sobre isso... Na verdade, ontem à noite, conversei com a Gianna e a convidei para morar comigo. Gosto dela, é uma boa amiga e talvez consiga me ajudar a te esquecer... já que você não me dá esperanças...

- Ah, Mick... não posso te dar esperanças... amo o Jack, sei que o nosso casamento foi repentino, nosso relacionamento surgiu do nada, mas estamos dispostos a fazê-lo dar certo. Todos os meus planos passam por ele, todos os dele passam por mim...

- Querida, você não precisa se justificar. Eu sei que vocês se amam... por isso, hoje, me considero seu amigo e decidi viver com a Gianna. Não será exatamente um casamento, mas espero que funcione...

- Eu fico feliz que vocês tenham decidido isso, Mick. - sorriu Clara. - Gosto muito de vocês dois... Vocês não farão uma festa para marcar a ocasião? Você não vai comprar um anel para ela?

- Não querida... E ela também não acha isso importante... A Gianna é uma mulher moderna...

- Mick querido... ela pode ter até dito a você que não acha isso importante, que é moderna... mas somos todas iguais... disse a mesma coisa para o Jack quando ele me pediu em casamento, mas toda vez que olho para este anel, não consigo deixar de ficar mais feliz...

- Você tem razão, querida... Acho que se fosse para me casar com você compraria o maior diamante do mundo... mas...

- Querido... por favor...

- Ok! Você me ajuda a escolher um diamante para ela, depois da reunião? - sorriu Mick.

- Ajudo! - riu Clara. - Olha só, o trânsito está melhorando... estamos quase em Londres...

- Finalmente vou poder mostrar a você o que este pequeno carro pode fazer! - riu Mick, acelerando sua Ferrari.

- Querido, não faça isso... não vejo como ser parado pela policia nos ajudará a chegar no horário em nossa reunião... - riu Clara.

- Você tem razão... - disse, diminuindo a velocidade. - Imagina o que a mídia não faria com essa informação... Aliás, gostei muito do que você disse para aqueles repórteres no aeroporto, no outro dia...

- É mesmo... estava tão irritada de encontrá-los por lá... acho que acabei falando demais...

- Gosto da sua sinceridade... aliás, gosto de tudo em você... Olha, querida, queria te fazer uma proposta, não é uma coisa para agora, não tem pressa e quero deixar claro que não tem qualquer pressão, ou obrigação... e você pode pedir o quanto quiser por isso... mas gostaria de saber se você não pode ser a ghost writer das minhas memórias também, como está sendo para o Jack...

- Seria uma honra, Mick! - sorriu Clara. - Não sei o que o Jack pensará disso, mas podemos conversar com ele e achar um jeito disso acontecer, nós três juntos...

- Ótimo! Vamos nos falar muito sobre isso... e convide o senhor Noble para as conversas... eu não estou aqui para roubar a esposa dele, só quero sua ghost writer trabalhando para mim também...

Continua

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