29 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo L


Depois de muito olharem a internet atrás das tendências da estação, as três amigas desceram à sala de música onde encontraram seus maridos tocando velhos blues construídos ao redor da guitarra de David Mersey, da guitarra acústica de Michael Silver e da voz e gaita de Jack Noble.

Uma visão fascinante para Clara, que tinha conhecido aquele estilo musical depois de ouvir as versões dele feitas pelos Rolling Stones e pela Crossroads. Aquela música a atingia sempre em cheio, aquecendo seu coração e fazendo-a sentir uma estranha familiaridade. As três entraram na sala, serviram-se de vinho e sentaram-se ao redor para aproveitar o privilégio de estarem convivendo com aqueles músicos geniais.

Jack sorriu ao vê-las voltando e gesticulou chamando Clara para sentar-se ao seu lado. A música que se fazia naquela sala era suficientemente boa para encantar multidões, mas apenas ela, além dos três gênios musicais ali presentes, pareciam apreciá-la realmente. Suas amigas pareciam sentirem-se muito mais felizes em um lugar onde pudessem continuar discutindo botas e comprimentos das saias na próxima estação.

Sentada ao lado de Jack, Clara apenas fechava seus olhos e viajava nas histórias tristes de escravos do Velho Sul americano, perpetuadas através de canções que para ela, eram irresistíveis.

Os três músicos presentes eram verdadeiras enciclopédias daquele estilo e traziam de seus recheados baús, letras e melodias que nunca tinha ouvido antes e antigas referências suas como "Love in Vain" e "Cross Road Blues"; a música que deu nome à banda.

Aos poucos a sala foi esvaziando e ao amanhecer, apenas Clara permanecia por ali, servindo como testemunha do fervor quase religioso que aqueles músicos britânicos tinham por aquela música.

Quando decidiram parar, Clara e Jack subiram de mãos dadas as escadas até seu quarto, tiraram as roupas e deitaram-se, pegando no sono felizes, ainda com os ecos daquelas lindas melodias soando em seus ouvidos e ajudando o vinho que tinham ingerido a dar a sensação de que o mundo girava.

O dia amanheceu chuvoso e continuaria assim, mas tanto Jack como Clara acordaram sorrindo. Faltava pouco agora e logo estariam sozinhos em um de seus lugares favoritos no mundo, a suíte do piano, no sofisticado hotel George V, em Paris.

- Bom dia, minha amada... - sorriu Jack, com a cabeça ainda apoiada em seu travesseiro.

- Bom dia, querido. - respondeu Clara, levantando-se da cama e pegando seu robe de seda. - Está frio, não?

- Acho que está chovendo... - disse Jack também levantando-se. – Ouve o barulho?

- Não consigo ouvir querido, apenas o som do vento, balançando as folhas lá fora. - sorriu Clara caminhando até a janela. - Ah! Ainda não arrumei suas malas para hoje à noite... Quer que eu faça?

- Pode arrumar, querida... - disse Jack caminhando ao banheiro. – Não pegue muita coisa, é só um final de semana e estaremos nus durante a maior parte dele...

- Claro, meu amor... - riu Clara. - Vamos comprar roupas para você também... quero vê-lo brilhando nos vídeos que faremos na próxima semana...

- Sim, querida... Estarei brilhando, não por causa de roupas, mas porque você estará ao meu lado, não estará?

- Sempre, meu amor... Vou levar seu blaser e aquele seu casaco de couro preto... alguns suéteres de lã, duas ou três calças jeans, uma camisa branca, uma gravata, suas botas, meias e cuecas... esqueci alguma coisa?

- Coloca um boné e um óculos de sol grande também porque é bem possível que desta vez nos persigam... - disse Jack. - Você colocou disfarces em sua mala também?

- Não... - respondeu Clara. - Mas colocarei... não me lembrei dessa possibilidade, apenas pensava em quanto nos divertiríamos caminhando por Paris, comprando roupas novas para nós dois e buscando meu figurino para o clipe. Falando em figurinos, você estará usando o que?

- Não se preocupe, querida. - disse Jack. - A produção arrumará para mim um traje bem embaraçoso, uma fantasia completa de príncipe encantado...

- O mais lindo de todos... - sorriu Clara e beijou-o no rosto. - Vamos tomar nosso café?

- Sim... - sorriu Jack. - estou faminto... Vamos nos vestir que ainda tenho mais algumas horas de ensaio até podermos viajar. O tempo está ruim... é melhor ligar para alguma companhia aérea e fazer reserva para hoje à noite, não gosto de jatinhos com esse tempo.

- Deixe comigo, querido. - sorriu Clara. - Vamos a que horas?

- Entre sete e sete e meia... - respondeu Jack. - Acho que terminamos lá pelas 4, o que nos dá mais três horas até a partida do voo... estamos próximos do aeroporto e mesmo com o trânsito pesado, chegaremos a tempo.

- Ok! Farei nossa reserva pela internet logo após o café. – sorriu Clara. - fica tranquilo, amor. Também tenho medo de usar jatinhos com esse tempo...

Os dois desceram e encontraram seus amigos na sala de vidro, tomando café, enquanto observavam a chuva caindo no jardim.

- Bom dia, Princesa... - sorriu David ao vê-los aproximarem-se. – bom dia, Velhão...

- Olá David. - sorriu Jack. - Pronto para ir ao estúdio?

- Sempre! - riu David.

- Vocês não vão de jatinho com esse tempo, vão? - perguntou Cindy.

- De jeito nenhum... - sorriu Clara. - Podem revistar meu próprio espírito no aeroporto hoje, que irei em um bom e sólido voo de carreira.

- Querida, acho que não teremos maiores problemas hoje. - disse Jack. - O aeroporto estará lotado e não terão muito tempo para torturar-nos com suas bobagens... estaremos bem.

- Assim espero! - sorriu Clara. - Hum... estas panquecas estão muito boas hoje, não amor?

- Muito boas mesmo! – disse Jack. – Estou com uma fome daquelas.

- É, mas não coma muito porque quero tentar aquele lance que comentei com você ontem... – riu David. – Seu marido vai gemer naquele microfone hoje para fazermos uma vinheta que vai rodar no início dos shows, o que você acha disso Princesa?

- Não faça maldades com meu pobre Jack. Sabe que não aprovo essas coisas... – sorriu Clara. – Prefiro ouví-lo gemendo apenas para mim, em nosso quarto.

A sala de vidro irrompeu em gargalhadas diante da observação de Clara.

- Percebem? – riu Jack. – Ela manda em mim, se ela não quiser que eu fique gemendo nos microfones, obedecerei...

- Melhor para você, querido. – sorriu Clara. – Mas falando sério agora, gostaria de acompanhar essa gravação... posso?

- Claro, querida. – disse Jack. – Assim que terminarmos nosso café, descemos para o estúdio. Você fica lá, do meu lado e aí sim gemerei de verdade...

- Preciso apenas fazer a reserva de nossas passagens para Paris e já desço com vocês.

Clara terminou o café da manhã, puxou seu iPad e comprou duas passagens na primeira classe do voo da British Airways das 07:15 da noite, partindo do Aeroporto de Heathrow com destino ao Aeroporto Charles De Gaulle.

Jack já havia pedido que Khaled, o motorista que trabalhava para o escritório de Michael em Londres, os levasse até o aeroporto naquela tarde.

Clara desceu as escadas que levavam ao porão de Heathcliff Hall, passou pela adega e chegou ao estúdio, onde sentou-se em um sofá que ficava em um dos cantos da enorme sala de gravação. E enquanto os músicos se preparavam para gravar, Clara passava os olhos rapidamente pelos e-mails que havia recebido.

Um deles, enviado por Jonas, tinha um anexo que chamou sua atenção: "Clara, como vai? Tudo bem? Acho que você não tem acompanhado a mídia nos últimos dias, por isso te envio este artigo sobre uma nova biografia não autorizada do Crossroads.

Ainda não li o livro, mas pelo que tem saído na mídia, o material é incendiário... talvez seja interessante dar uma olhada nele. Foi escrito por um ex-roadie da banda chamado Joe Churnins. Ah! O livro se chama Burning Down Heart e tem um foco maior sobre o David Mersey, que segundo o artigo deveria ter sido responsabilizado pelo desaparecimento, em 1975, de uma garota americana de 17 anos, chamada Claire Hulster."

Clara ficou perturbada com a mensagem de Jonas e ainda mais com o artigo. Entrou em um site de venda de livros online, comprou o livro e baixou-o para seu iPad. Decidiu que não diria nada sobre ele a seus amigos por enquanto, mas que precisava conhecer seu conteúdo.

A banda já estava posicionada e a gravação estava prestes a começar. Ela então decidiu desligar o iPad e prestar atenção apenas no que estava acontecendo naquele estúdio. Tinha certeza de que aquele livro era só mais uma tentativa de faturar dinheiro fácil, em cima da fama da Crossroads.

Clara ajeitou-se na poltrona e concentrou-se em olhar para Jack. De olhos fechados, mergulhado na música, ele agora gravava uma de suas grandes especialidades, estabelecia um diálogo entre sua voz e a guitarra de David, com resultados, muitas vezes assustadores. Pela amostra, a tal vinheta seria mais uma razão para congelar o sangue dos fãs da banda que fossem aos shows, quanto à Clara, ela sentia um arrepio percorrendo sua coluna. A urgência daqueles gritos de Jack tirava Clara de seu equilíbrio e a levava a um outro lugar, uma realidade alternativa em que ela parecia escutar um grito de socorro de seu espírito.

- Cara! De onde veio isso? - perguntou David no microfone depois de parar a gravação. - Ficou perfeito!

- Não sei... - disse Jack. - Mas acho que ficou bom... é só colocar uns efeitos e temos nossa vinheta, no primeiro take! De nada, rapazes...

Clara ergueu-se do sofá e caminhou até Jack. Só ela notou que Jack chorava muito naquele instante. Parecia repentinamente envolvido por uma de suas ondas de tristeza, algo que não acontecia há algum tempo, mais precisamente desde que haviam descoberto os acontecimentos que os envolveram em uma vida anterior.

Ela o abraçou e sentiu uma pontada forte no meio de seu peito. Ela sabia que aquela dor vinha de Jack e ele chorava apoiado em seu ombro.

- O que houve? - perguntou David caminhando na direção dos dois.

Clara apenas gesticulou com as mãos para ele não se aproximar.

- O que foi, meu amor? - perguntou Clara, também chorando.

- Me perdoa... - disse Jack. - foi só uma impressão muito ruim... Já vou ficar bem...

- Querido, senti uma pontada muito forte no peito. - disse Clara. - Você tem certeza que está bem?

- Sim, meu amor.- respondeu Jack. - Já passou...

- Vem, vamos dar uma volta no jardim. - disse Clara. - Acho que você precisa respirar ar puro...

Clara deu a mão a Jack e subiu com ele as escadas do porão. Depois levou-o através da porta da sala de vidro até o jardim. A chuva tinha diminuido de intensidade e não chegava a incomodá-los naquele momento.

- O que houve, meu amor... - disse Clara. - Você pode dizer para mim...

- Foi algo estranho, uma sensação ruim. - disse Jack. - Já estou melhor, Menininha. Não precisa ficar preocupada. Nossos amigos ficarão preocupados, vamos voltar ao estúdio.

- Só quando sentir que você está realmente bem, querido. - sorriu Clara. - Esqueceu... você não consegue mentir para mim porque sinto exatamente aquilo que sente e meu peito ainda dói...

- Já foi, querida... já passou... mesmo... - disse Jack abraçando-a. - Vem, vamos para dentro ou ficaremos encharcados.

Clara caminhou com ele de volta à sala de vidro e os dois desceram no estúdio, onde tudo estava parado, esperando pelo seu retorno.

- Tudo bem, Velhão? - perguntou David aproximando-se de Jack ao vê-lo entrando. - Você estava chorando como uma garotinha...

- Está tudo bem... - disse Jack. - Sua mãe nunca me disse isso, quando ela me recebia em casa...

- Ah! Já está xingando a mãe... - sorriu Michael. - Suspende o médico, o Jack já está bem...

- Sério, cara... - disse David aproximando-se de Jack. - Está tudo bem mesmo?

- Está sim! - respondeu Jack colocando a mão no ombro de David. - Vamos terminar logo esse negócio... Quer outro take?

- Vamos fazer sim. - disse David.- Quero mais desses gemidos para colocar na vinheta. Quero fazer uns overdubs com esses gritinhos de moça que só você sabe dar...

Clara beijou Jack e foi sentar-se no sofá novamente. Ainda estava preocupada, mas resolveu acreditar no que ele dizia e assim, dar o espaço necessário para que completassem o trabalho. Se antes estava disposta a ler o livro que havia baixado e discutí-lo com Jack, agora havia decidido deixar para ler quando voltasse para Londres, na próxima semana.

Depois de terminar a gravação da vinheta, todos subiram até a sala de vidro para almoçar. Clara não tirava os olhos de Jack, tentando notar se a tal nuvem escura ainda estava em seu olhar.

E estava... Ali, mesmo entre as tantas gargalhadas agora provocadas por uma série de piadas de gosto duvidoso, estava uma enorme nuvem cor de chumbo, no antes límpido azul dos seus olhos.

- Querida, o Michael vai chegar em alguns minutos. - disse Jack, pegando Clara pela mão. - Quero que você participe da reunião porque ela também diz respeito à você.

- Reunião? Que reunião? - perguntou Clara.

- Desculpa, Princesa... - disse David. - mas parece que temos uma crise em desenvolvimento. O Michael me ligou avisando que precisamos conversar sobre um novo problema que temos, um ex-roadie que trabalhava para mim, escreveu um livro sobre a banda que aparentemente nos descreve como drogados assassinos. Pessoalmente, eu não dou a mínima, não é a primeira vez, nem será a última que farão uma biografia não autorizada, mas o Michael está bem incomodado e quer nossa autorização para tomar as medidas legais... Ele está em pânico porque temos aquelas entrevistas todas marcadas para depois da gravação dos videos.

- Que bom que vocês discutirão este assunto. - disse Clara. - Acabei de receber um e-mail do meu editor falando nele. Comprei uma versão eletrônica do livro pela internet e ele está no meu computador. Se vocês precisarem dar uma olhada...

- Você não ia me dizer nada sobre isso? - perguntou Jack.

- Ia sim, querido. - respondeu Clara. - Estava apenas esperando uma oportunidade para discutirmos esse problema. Me preocupei muito com isso, por causa das entrevistas, mas agora, pela postura do David, vejo que tudo ficará bem.

- Você acha que fizemos essas coisas que ele escreveu? - disse Jack.

- Eu não sei, Jack. - respondeu Clara, começando a ficar nervosa. - Eu não li o livro, apenas um artigo publicado no "The Guardian", que o Jonas me mandou. Pelo que o jornal diz, ele fez acusações muito graves...

- Mas o que sua intuição diz? - perguntou Jack. - Foi o David que deu sumiço na tal garota e me pediu para acobertá-lo com aquela história de hospedagem em Malibu?

- Meu amor, eu não sei... - respondeu Clara. - Como eu posso saber? Eu não tinha nem nascido em 1975... Nos conhecemos há quanto tempo? Dois meses? Como eu posso saber?

- A verdade, Princesa, é que o Jack me acobertou. Não sei o que aconteceu com a tal garota, eu estava tão drogado naquele dia que apaguei e não tenho como dizer nada sobre aquela semana inteira. O Johnson pediu para o Jack mentir sobre minha presença na casa da namorada dele, em Malibu e foi isso que ele fez. Eu sinceramente não sei o que aconteceu...

- E você sabe, Jack? - perguntou Clara olhando em seus olhos.

- Não, meu amor. - respondeu ele suavemente. - Estava em Malibu com essa garota há várias semanas. O Johnson pediu que eu e a garota disséssemos na polícia que o David estava conosco e foi o que dissemos. Você está decepcionada comigo?

- Claro que não, minha vida. - disse Clara pegando a mão de Jack. - Não tem nada que você diga que me faça te amar menos. Lembra?

Jack sorriu, pegou as mãos de Clara e beijou-as.

- Pronto! Agora podemos pensar no que faremos com a imprensa. - disse David. - O que você nos sugere, Princesa?

- Esse seu discurso é perfeito, David. - sorriu Clara.- Dizer que o escritor quer ganhar dinheiro às custas do retorno da banda e que os advogados da banda já estão cuidando disso.

- Mas eles irão pressionar, Clara. - disse Michael. - Você sabe como são esses repórteres...

- Sim, mas daí vocês dizem que não podem dizer nada, porque não leram o tal livro e apenas sabem o que viram sobre ele na imprensa... e pelo que viram, não tem nenhuma verdade no relato dele... é uma biografia não autorizada e mentirosa, como esses livros costumam ser e quem gosta da banda não deve comprar esse livro.

- Boa, Clara! - disse David. - Acho que é por aí mesmo... podemos dizer aos fãs para deixar esse idiota falando sozinho.

- Então estamos prontos para o urubu do Michael... - disse Jack. - Estava preocupado com isso, mas a minha Clara agora me tranquilizou.

- E depois tem um pequeno detalhe, quando o livro do Jack sair, todas essas bobagens desaparecem por completo. - disse Clara.

- Claro... - sorriu David. - O livro do Velhão... Princesa, mais uma vez, você vai salvar nossa pele. Quando o seu livro sair, ninguém mais lembrará da existência desse cara.

- Assim eu espero, David. - sorriu Clara.

A reunião com Michael aconteceu e o advogado disse que seu objetivo era não só o de retirar o livro do mercado como o de processar seu autor e sua editora por calúnia e difamação. E pediu a eles para não contar nada sobre os processos para a imprensa e também que adotassem a ideia de Clara, afirmando sempre que o livro era mentiroso e apelando aos fãs para deixar o autor falando sozinho.
Depois da reunião, Clara pegou seu notebook e pequisou um pouco sobre o assunto nas redes sociais e percebeu que já existia uma grande repercussão da história e publicou uma reação indignada em seu blog e seu twitter, pedindo aos fãs para ficarem longe do livro.

Claro que suas palavras provocaram mais uma avalanche de e-mails pedindo entrevistas e ela apenas escreveu uma declaração à imprensa reafirmando sua indignação e dizendo que conversaria com alguns repórteres, na próxima semana, durante as gravações dos videoclipes.

Enquanto ela trabalhava na sala de vidro, aproveitando os intervalos para simplesmente olhar a chuva caindo no jardim lá fora, a banda estava no estúdio, terminando a mixagem e checando seus resultados. O disco estava pronto, o primeiro trabalho da Crossroads, trinta anos após seu final já estava "na lata" e seria entregue à gravadora até o final da tarde.

Com a fortuna que a gravadora estava apostando naquele trabalho, ele não poderia simplesmente ser levado por algum mensageiro, ou enviado pela internet. Uma operação com couriers que normalmente transportam grandes valores foi contratada e no final da tarde, um carro forte com escolta armada chegava a porta de Heathcliff Hall.

O disco que continha a gravação foi entregue seguindo cada um dos protocolos de segurança a um homem vestindo um terno negro, que usava óculos escuros, mesmo sob a chuva. Toda a cena, renderia mais tarde muitas gargalhadas no quarto, quando Clara e Jack se vestiam para ir ao aeroporto.

Ainda seguindo o tal protocolo, uma segunda cópia foi para o cofre de Heathcliff Hall e uma terceira, foi enviada através da mesma equipe de segurança para o escritório de Michael, na City.

Com tudo resolvido, Jack e Clara ligaram para Khaled, desceram as escadas com sua bagagem e já estavam prontos para o final de semana romântico em Paris que tinham planejado.

- Princesa, então nos vemos novamente só lá no Leavesden, na terça-feira, certo? – sorriu David.

- Não.... – respondeu Clara. – Voltamos para cá na segunda, o Michael acha que aqui é mais perto para ir ao estúdio do que o Four Seasons.

- Isso é verdade, o estúdio fica perto do aeroporto. Era um conjunto de hangares antigamente... – disse David.

- Ficaremos por aqui no começo da semana e depois vamos para Londres. – disse Jack. – Parece também que nossa casa está quase pronta.

- A Cindy me disse que na próxima semana a parte de reforma estará concluída, daí é só colocar os móveis. – disse Jack sorrindo.

- Mas estas coisas demoram e precisamos também contratar empregados. – disse Clara. – Acho que não dará tempo de fazermos tudo antes da viagem ao Brasil.

- Dará sim... – disse Jack. – Vou mandar o Michael cuidar disso...

- Michael, amor? – interrompeu Clara. – Acho que nós dois deveríamos saber quem irá conviver conosco naquela casa.

- Não, querida... – disse Jack. – O Michael é o ideal para esse trabalho porque no momento em que os candidatos ao emprego nos reconhecem, as coisas começam a ficar estranhas. Podemos até escolher os currículos mais apropriados e posicionar uma câmera para assistir tudo, mas o Michael deve fazer as entrevistas, para não dar espaço para algum repórter disfarçado entrar na nossa casa.

- Você acha que tem gente capaz disso? – disse Clara. – Tentar empregar-se na casa para bisbilhotar nossa vida?

- Olha amor, já vi muita coisa estranha nesse mundo e te digo que tudo é possível. Não custa nada tomar alguns cuidados. – disse Jack.

- Isso é verdade, eu e a Cindy fizemos a mesma coisa. – disse David. – Os nossos empregados vieram de uma agência de absoluta confiança e mesmo assim, quem os contratou efetivamente foi o Michael, depois de faze-los assinar contratos de sigilo bastante rigorosos, que se quebrados, os colocará em apuros bem sérios.

- Nem me fale desses contratos. – sorriu Clara. – Ainda tenho um na minha pasta que é um calhamaço. Fiquei apavorada quando ele me entregou para assinar, lá em Nova York.

- Então... – disse Jack, rindo. – E já estávamos juntos e eu já estava apaixonado por você... imagina para quem só me conhece da mídia, o quanto o Michael pode funcionar como um bicho-papão.

- Tem razão, querido. – sorriu Clara.

- Amor, o Khaled já chegou, disse Jack olhando para uma mensagem que recebeu no celular. Ele já está entrando pelo portão. Vamos?

- Bem, Cindy, David... – sorriu Clara. – Mais uma vez. Obrigada por sua hospitalidade e por sua generosidade. Estes nossos dias aqui foram muito bons e espero em breve poder retribuir essa estadia tão agradável na nossa casa de Londres.

- Claro, querida! – disse Cindy. – Nós amamos vocês... sua casa está ficando linda. Vamos lá na semana que vem para começar a decoração. Tchau queridos, boa viagem.

- Velhão e Princesa... – sorriu David, beijando os dois no rosto. – Vocês moram no nosso coração... Obrigado por terem feito a minha vida valer a pena de novo.

- Tchau Michael, tchau Jenni... – sorriu Clara. – Nos vemos na segunda. Bom final de semana para vocês... Nós amamos muito todos vocês.

- Tchau Clara. – sorriu Jennifer. – diz para o Jean Paul que estarei em casa na próxima semana e vou ao atelier dele atualizar meu guarda-roupa.

A bagagem foi colocada no porta-malas e os dois entraram na Mercedes de Khaled. Já eram quase cinco e meia da tarde e, como era de se esperar, o trânsito para o aeroporto estava um caos.

Jack parecia mais tranquilo desde a reunião com Michael e agora, estava com a cabeça deitada no ombro de Clara aproveitando o trajeto para descansar um pouco. Ela, por sua vez, estava com seu iPad nas mãos, conferindo a repercussão das postagens que havia feito naquele dia e alegrou-se ao ver entre os fãs muitas mensagens de solidariedade e até mesmo alguns grupos organizando boicotes ao livro.

Como haviam calculado, o aeroporto estava lotado e isso incluia alguns repórteres e paparazzi. Khaled entrou junto com Jack e Clara e atuou como segurança, afastando os repórteres.

Os dois seguiram para uma fila que atendia apenas a primeira classe e para diminuir o tumulto, seu check-in foi feito rapidamente e Jack levou a mala deles como bagagem de mão enquanto Clara carregava uma bolsa grande que continha o restante das coisas que levariam. Deixaram em casa cremes e xampus para facilitar o embarque.

Um funcionário da companhia aérea acompanhou-os até a sala vip, mas antes agilizou a passagem dos dois pelos irritantes procedimentos de segurança. Com a atenção extra, logo Clara e Jack estavam na sala vip, aguardando a chamada de seu voo.

- Sabe, não sou muito a favor desses privilégios, mas acho que estaríamos lá embaixo, naquela fila interminável, se não fossem eles. - disse Clara.

- É, querida... - sorriu Jack. - Também sou contra, mas pelo menos estamos do lado certo deles.

Apesar da chuva também em Paris, o voo chegou rapidamente. e os dois pegaram um taxi até o hotel George V onde o gerente já os aguardava com a suite do piano pronta para o final de semana.

Eles subiram, entraram na suite e assim que o funcionário do hotel os deixou sozinhos, os dois encheram a banheira e tiraram as roupas, iriam descansar naquela noite chuvosa e aproveitariam a cidade no dia seguinte. Tinham marcado de passar no final da tarde no atelier de Jean Paul e antes disso, fariam algumas compras nos endereços indicados por Jennifer.

- Amor, agora que estamos sozinhos, será que você não pode me falar alguma coisa sobre essa história de garota desaparecida? - perguntou Clara, um pouco sem graça.

- Melhor eu te dizer tudo o que eu sei, então. - disse Jack com uma expressão na voz que Clara não conseguiu distinguir mas estava em algum lugar entre a tristeza e a irritação. - Você sabe que quando fomos fazer nossa terceira turnê pelos Estados Unidos, depois daquele episódio da revista geral no aeroporto de Austin, ficamos um pouco mais cuidadosos e decidimos que além de precisarmos de um avião próprio para nos deslocarmos, precisavamos também de um QG, para onde voltarmos após cada show. Assim, o Johnson alugou dois andares inteiros de um hotel de 4 estrelas na Sunset Boulevard que passou a ser a casa da banda durante aquela turnê.

- Engraçado... - disse Clara, massageando os cabelos de Jack com creme hidratante. - Mas na minha cabeça, esse cenário do hotel aconteceu antes, em 70 ou 71.

- Bom, esse cenário faz parte da lenda. - respondeu Jack. - Lá, roadies, fãs, traficantes, groupies, músicos de outras bandas e uma porção de pessoas que nós não sabíamos nem quem eram, circulavam entre nós. Não era muito raro ver gente dormindo nas portas dos nossos quartos, quando voltávamos de madrugada de algum show e ter que pedir para a segurança do hotel para expulsá-los, para termos como abrir a porta. O Michael foi o primeiro a achar que aquilo não estava certo para ele, começou a namorar com uma atriz que fazia pequenos papéis em Hollywood e logo se mudou para a casa dela em Santa Monica. O Don estava numa fase muito ruim e arrumava confusão quase todos os dias e o David, como ele mesmo te disse, tinha mergulhado em drogas pesadíssimas e nos intervalos entre os shows desaparecia de nossa vista, estava em uma viagem de "gênio solitário" e quando descobríamos em que quarto ele estava, ele mudava; fugindo especialmente do Don. Comecei a me cansar daquilo porque como eu era o mais sóbrio e o mais tranquilo de todos, acabava sendo eleito para resolver, dos quebra-quebras que o Don aprontava, aos socos no nariz que o David dava em repórteres bisbilhoteiros e também decidi que precisava de um refúgio.
Lembra daquela modelo chamada Laura Jones, que é mãe da Stephanie. Aquela garota loura que veio me procurar no hotel em Manchester e você achou que era uma groupie? Nós ficávamos juntos sempre que eu ía para os EUA e ela alugou uma casa em Malibu para passar o verão.

- Sei... - disse Clara. - A Cindy me disse que essa garota quase provocou seu divórcio...

- Tem razão... - sorriu Jack. - Quando ela soube que tivemos uma filha, ela ficou enlouquecida... Bom, mas o ponto é que naquele final de semana, eu estava em Malibu, o Michael em Santa Monica e só o Don e o David estavam no hotel com os roadies, o Johnson e todo aquele pessoal estranho. Tinhamos um show para fazer na Flórida, mas o aviso da passagem de um furacão, cancelou nossos planos e ficaríamos por lá a semana inteira, até o próximo show, em Chicago. Foi aí que aconteceu... a polícia invadiu o hotel a pedido dos pais de uma garota que todos disseram ser uma das groupies, mas que eu nunca vi por lá, entre as garotas que estavam sempre no hotel.
O Johnson fez uma operação rápida, colocou o David em um carro e o levou, desacordado mesmo para a casa em que eu estava com a Laura. Chegando lá, ele me disse: - Se alguém perguntar, o David veio para Malibu com vocês e nem ele nem você sabe quem é Claire Hulster...

- E você nunca soube o que aconteceu, de verdade? - disse Clara.

- Meu amor, eu estava com outros problemas para resolver naquele momento, a Laura me disse que estava grávida, eu tinha que ajudá-la sem que minha mulher descobrisse e aquela história toda, acabou me dando um álibi para dizer para a Mary. Eu tinha ido para a casa da tal da Laura a pedido do David, com quem estava trabalhando em uma música.

- E você então nem sabe quem era essa garota... - disse Clara.

- Não... Tinha uma porção delas lá no hotel, mas quando me mostraram fotos, não consegui me lembrar. - disse Jack. - Talvez ela nem tenha chegado em nós, os roadies, seguranças e todos aqueles que apareciam lá no hotel, usavam o nome da banda para conquistar essas menininhas mais ingênuas...

- Sabe o que eu estava aqui pensando? - sorriu Clara. - No quanto você é doce e adorável...

- Sou, é? - riu Jack. - E você é a minha ninfa, minha Rainha da Luz e principalmente, a mulher que me fez mais feliz neste mundo...

- Lindo! - disse Clara, beijando-o.

Os dois levantaram-se da banheira, secaram-se nas toalhas e foram para a cama. Estavam felizes porque estavam juntos e aquele passado estranho não importava mais.

- Estou com fome, meu amor... - disse Jack sorrindo. - Vamos pedir nosso jantar ao serviço de quarto?

- Seria bom, mas quem vai lá na sala de estar buscar aquele menu deles para escolhermos o que comer?

- Hum... está frio aqui para você, não Menininha?

- Sim, acho que precisamos regular um pouco aquele aquecedor. - disse Jack. - Deixa eu olhar aquele controle remoto que controla tudo aqui dentro...

Jack ligou o aquecedor e regulou-o para 20 graus e quando Clara começou a sentir-se mais confortável com a temperatura, ela levantou-se nua e foi até a sala. Jack foi logo atrás dela e sentou-se nu no banco do piano.

- Vem aqui, comigo... - disse ele. - Vamos escolher juntos... Este filé com batatas me parece muito bom, o que você acha?

- Ótimo! - disse Clara. - Vou pedir vinho e uma tábua de queijos e frutas e champagne para a sobremesa.

- Parece bom... - disse Jack. - Agora vem aqui no meu colo ligar para eles... e pede tudo em francês... é tão sexy...

- Jack, você não vale nada... - disse Clara sentando-se no colo dele e beijando-o.

Clara pediu que a comida fosse deixada na porta e dispensou o serviço de mordomo para aquela refeição. Assim ela e Jack poderiam ficar tranquilos, apenas namorando nos braços um do outro e jantar vestindo seus robes.

- Querido, acabei de ter uma ideia... - disse Clara. - Por que não investigamos nós mesmos o desaparecimento da tal garota? Eu quero dizer, pode ser que ela esteja viva por aí, cuidado de filhos e netos e se a acharmos, desmontaremos completamente o livro desse cara...

- Mas como fazer isso? Já faz muito tempo e se a policia não conseguiu achá-la, por que você acha que conseguiremos?

- Eu sou uma repórter ainda... Sei como pesquisar, podemos começar pela cidade de origem dela, procurar onde foi registrado o desaparecimento, os arquivos de jornais da época, buscar pistas, falar com os policiais que fizeram a investigação...

- Bom, se me lembro direito, ela era de Santa Barbara. Mas você acha que seria capaz de achá-la? Meu medo é a imprensa saber que você está pesquisando e resolver fazer mais sensacionalismo em cima disso.

- Podemos contratar um detetive particular... ou melhor, o Michael pode contratar... que tal?

- Genial! Assim não nos expomos e se essa mulher for achada, fazemos o maior barulho...

- E terminamos esta história para sempre. Tem mais uma coisa que precisamos terminar... o nosso livro. Estou preocupada porque o tempo está passando, logo vamos para a estrada e nem terminei o terceiro capítulo ainda.

- Claro, amor... Mas você não trouxe o notebook, como você vai escrever?

- Não vou, posso ao menos adiantar algumas entrevistas e colocar no texto quando chegarmos em Londres...

- Perfeito, amor... vamos fazer isso depois do jantar...

- Não, querido, hoje não! Tenho outros planos para esta noite...

- Hum... - sorriu Jack. - sou todo ouvidos...

- Bem, meu amado, vi na grade de programação da TV que um velho filme, da lista dos meus favoritos será exibido hoje à noite e então gostaria de convidá-lo para me acompanhar em uma noite de champagne, morangos e TV...

- Menininha, eu te acompanharia em uma noite de descascar batatas em um porão de navio...

- Lindo! Então vou ligar novamente para o serviço de quarto, pedir mais champagne e uma boa porção de morangos e chocolate.

- Só uma pergunta...

- Sim?

- Como é o nome desse filme?

- Chama-se Spellbound. É do diretor Alfred Hitchcock. Já assistiu?

- Hum... acho que não...

- Você vai adorar... é um filme fantástico...

- Você é fantástica, Menininha... - disse Jack sorrindo e agarrando-a... - Se você gosta, eu também vou gostar...

Os dois sentaram-se na cama e assistiram ao filme com atenção, um suspense intrincado, onde o romance entre uma psiquiatra e um homem que havia perdido a memória deixa a audiência intrigada até os últimos minutos de exibição.

- Querida, muito bom... - sorriu Jack quando o filme terminou. - Viu? Desta vez não dormi...

- Que bom que você gostou, amor...

- Você namorou com um psicanalista, não?

- Sim... já te disse isso, não te disse? Ele dava aulas na mesma universidade que minha mãe. Era bem mais velho do que eu e quando tive depressão, por causa do Roberto, ele passou a ser meu analista. Aprendi muito com ele...

- Imagino... - sorriu Jack.

- Não, querido... sério... ele é um grande pesquisador, tem vários livros escritos... um intelectual...

- Que não conseguiu resistir ao charme de uma paciente...

- Não, mas a impressão que tenho é que nunca foi uma relação analista-paciente, de verdade. Tivemos a primeira sessão de psicanálise e nos encontramos, por acaso, no lançamento de um livro de um outro professor da universidade. Conversamos e nos tornamos amigos e só depois, viramos amantes.

- Incrível!

- Incrível?

- É... fico imaginando como ele pode ter resistido a você? Como ele não te beijou logo na primeira sessão de análise?

- Nunca fui tudo isso, Jack... - sorriu Clara. - eu era uma repórter novata, chatinha, metida a intelectual, magricela, sem qualquer atrativo e ainda por cima passando por uma grande crise de depressão...

- Hum... e hoje é uma delícia... - disse Jack beijando-a e abrindo seu roupão. - Que me deixa louco...

Jack agora percorria cada centimetro de seu corpo com as mãos, fazendo-a tremer por dentro com cada movimento e o desejo desenfreado tomou conta de ambos até que tudo fosse expressado. Gemidos encheram a noite e quando o dia amanhecia em Paris, os dois ainda estavam agarrados um no outro, como se precisassem daquele contato para continuarem vivos.

A luz do sol batia pálida contra as cortinas, começando a iluminar o quarto, quando Jack levantou-se e caminhou nu até a varanda, esforçando-se para não fazer nenhum som. Levou com ele seu celular que usou para ligar para Michael e, enquanto discava, as lágrimas escorriam grossas de seus olhos.

A conversa não durou muito, logo ele estava um pouco mais calmo, sentado na cadeira do terraço. Depois da chuva do dia anterior, o sol voltava a tingir a paisagem de dourado.

Clara, na cama, ainda de olhos fechados, estendeu o braço e não encontrou Jack. Levantou-se, vestiu seu robe e caminhou até o terraço.

- Oi amor, já acordado? Está tudo bem?

- Tive um pesadelo, estava de novo perdido na névoa, na nossa montanha. - disse Jack puxando-a para sentar-se em seu colo. - Liguei para o Michael para pedir que ele contrate um detetive particular e ele gostou da ideia. Disse que vai para a América na semana que vem tratar disso.

- Ótimo! - sorriu Clara acariciando os cabelos de Jack. - Vamos aproveitar o sol para tomar nosso café com croissants de chocolate?

- Vamos... - sorriu Jack. - Estou com muita fome. Já podemos sair com os endereços na mão e de lá, tomar um taxi para irmos fazer nossas compras...

- Foi o que pensei, querido. Mas acho que não vamos...

- Por que? Viemos até aqui para isso.

- Acho que precisamos andar um pouco primeiro, no sol. Caminhar um pouco de mãos dadas e só depois retomar nossa agenda aqui...

- Não entendi...

- Estamos em Paris, amor... a agenda pode esperar... vamos ficar juntos, sentir o sol batendo no nosso rosto porque merecemos essa alegria. Depois compramos tudo e vamos até o atelier do Jean Paul... Agora, só penso em te fazer feliz...

- Ai, meu amor... - disse Jack abrindo o robe de Clara e beijando seu corpo.

E na manhã de sol parisiense, os dois passaram algumas horas juntos no banco do terraço, dividindo o prazer intenso que sentiam quando estavam juntos.

Tomaram banho, vestiram-se e foram tomar café da manhã em seu lugar favorito. Depois andaram um pouco pelo bairro e pegaram um taxi para irem a algumas lojas sofisticadas, onde Clara comprou roupas e acessórios para o outono que se aproximava.

Não usaram disfarces e foram recebidos com muita festa pelos endereços mais exclusivos da cidade. Clara também fez questão de comprar algumas coisas para Jack e na hora do almoço, eles já estavam desembarcando no George V com um grande número de sacolas de compras nas mãos.

- Será que tudo isso vai caber na nossa mala, Menininha? - riu Jack quando percebeu que elas tomavam uma boa parte da sala de estar.

- Acho que precisamos comprar uma mala maior. - sorriu Clara. - Ai amor... desculpe, mas acho que me empolguei...

- Não peça desculpas, querida! Podemos comprar outra mala de bordo e dividimos tudo entre as duas, quando voltarmos para Londres.

- Não tnha pensado nisso, amor... - sorriu Clara. - Acho que dará certo.

- Vamos almoçar? Peço serviço de quarto? - perguntou Jack. - Ou você quer aproveitar o sol e ir almoçar em Montmartre?

- Hum.. Montmartre! Vamos amor... deixa tudo aí. Vamos almoçar e depois compramos uma nova mala.

Pegaram um taxi e seguiram até a porta de seu restaurante favorito em Paris e pela primeira vez, não se preocuparam em usar disfarces. Foram muito bem recebidos pelo gerente do restaurante, que mesmo com a casa cheia, tratou-os como realeza.

- Meu amor, não sei se é por causa da fome que estou sentindo, mas esta lagosta está incrível... - sorriu Jack. - Eles se superaram desta vez.

- Como eu adoro este lugar... Estar aqui, com você, para mim, é como um sonho. Dá até uma dor no coração de saber que já estamos no outono e logo não poderemos mais vir aqui, porque estará muito frio.

- É mesmo, querida. O outono já começou. Não quero ver minha menininha sentindo frio. Você quer mais casacos?

- Não amor... acho que já comprei tudo o que queria. Para ser sincera, ainda não sei como embalarei tudo para levarmos para casa. - sorriu Clara. - Vamos comprar mais uma mala de bordo e colocamos tudo dentro dela. Estou com medo de termos dificuldade no aeroporto na volta para casa.

- Ah amor, não se preocupe. Se quiser compramos uma mala maior e despachamos. Se você quiser, mando embalar Paris inteira para você levar para casa...

- Ai, meu querido... Não precisa. Acho que já compramos o suficiente para mim. Agora quero comprar algumas coisinhas para você. Quero te ver lindo sempre. Vamos comprar roupas para os shows?

- Nunca me preocupei com isso, menininha... usava qualquer coisa para subir no palco.

- Mesmo, meu amor? Eu sempre gostei muito do jeito que você se veste no palco. Até aquelas calças super apertadas... Aliás, principalmente elas.

Jack piscou para ela e deu uma deliciosa gargalhada. - Menininha, você também? Todos falam das tais calças, mas era só uma coisa que as pessoas usavam naquela época...

- Mas você ficava maravilhoso com elas... - sorriu Clara. - Delicioso, para ser mais exata...

- Menininha... depois você reclama... não provoca, ou essa conversa vai continuar no banheiro do restaurante e vamos acabar expulsos daqui por indecência...

- Não, vida... isso não pode acontecer... eu amo esse lugar... E o monsieur Martouk é um querido, não podemos fazer isso com ele.

- Mas eu vou precisar de uma compensação por isso... Vamos voltar para nossa suíte?

- Precisamos ir ao atelier do Jean Paul, pegar as roupas ainda, querido... Mas vou compensá-lo mais tarde... aliás, eu vou te mimar mesmo que você não queira...

- Hum, não vejo a hora... Você é minha casa... posso te contar um segredo?

- Sempre...

- Nunca fui exatamente louco por esta cidade. Até falo um pouco de francês, mas muito mais porque gostava de conversar com o pessoal de New Orleans, do que por vir até aqui. Aliás nunca vi nada aqui; até que começamos a vir juntos. Quando vi seus olhinhos brilhando por este lugar, de repente, foi como se o visse novamente e agora estou apaixonado... Vamos comprar um apartamento aqui?

- Ai, meu amor. - sorriu Clara. - Você é adorável... Acho que não precisamos ainda de um apartamento aqui. Temos nossa montanha e logo teremos nossa casa em Londres... aqui... temos o George V e a casa do Mike...

- Para ser sincero, você é minha casa. Moro entre essas perninhas finas... Mas já que estamos apaixonados por este lugar, podemos comprar um refúgio nosso aqui...

- Você é lindo, sabia? - sorriu Clara. - Vem, vamos andar um pouco por aí... quero te dar um presente, antes de irmos ao Jean Paul.

Jack pagou a conta e os dois sairam caminhando de mãos dadas pelo bairro. O dia de sol tinha enchido Montmartre de turistas, alguns os reconheciam e pediam fotos e autógrafos, mas eles continuavam passeando tranquilos, entrando em pequenas lojas e barracas de uma feira de antiguidades e artesanato.

Em uma delas, Jack encontrou um grande número de discos de vinil e os dois passariam um bom tempo procurando entre eles a música que gostavam. Clara encontrou um vinil de Barbra Streisand e mostrou-o a Jack.

- Amor, tem uma música nesse disco, que eu gostaria de regravar, se você e o Dave levarem mesmo adiante essa loucura de eu gravar um disco...

- Claro, querida... Não conheço bem a obra dela, mas podemos ir atrás... Vamos comprar esse disco?

- Não precisa, querido. Tenho um em meu apartamento no Brasil. A música é esta aqui "Why Let it Go"; aliás, este disco é tão lindo, tão romântico... Tem muitas coisas aqui que eu queria cantar para você, mas sei que não tenho capacidade vocal para isso...

- Podemos estudar isso... adaptar os arranjos para sua voz, meu amor. Mas acho que você merece uma safra nova de músicas feitas especialmente para você. Você é minha estrela...

- Meu sonho agora é estar a altura do que você pensa de mim... Eu mesma, não sei nem se vou conseguir subir no palco com vocês...

- Vai sim... e vai deixar o mundo boquiaberto quando o fizer...

Os dois continuaram a caminhar na feira e Clara encontrou em uma das barracas, um anel de prata masculino, com uma linda granada retângular, de uma cor vermelho escuro, que vista de uma distância maior aparentava ser preta. Ela colocou na mão esquerda de Jack, no dedo mínimo e comprou-o.

- Que lindo, amor... Obrigado! - disse Jack diante da jóia, que ficou perfeita em sua mão.

Clara pagou pelo anel e comprou, na mesma barraca, um pequeno japamala no formato de uma pulseira, com contas de jade. Deu-o de presente a Jack.

- Querido... vou consagrar esse japamala para a Deusa, na próxima noite de lua cheia, sei fazer isso e ele passará a te dar proteção... quero que você o use o tempo todo em seu pulso, depois que eu consagrá-lo...

- Obrigado, meu amor... - sorriu Jack. - Você não estava brincando quando disse que ia me mimar hoje...

- Nem comecei, querido...

Eles continuaram andando e tiveram uma grata surpresa, mais adiante, no pequeno atelier de um pintor, viram na vitrine um quadro pintado a partir de uma foto de Jack, feita durante um show na década de 70.

- Olha, amor... é você... que lindo!

- Queria ser assim ainda, amor... só para te deixar mais feliz.

- E quem disse que não sou feliz com sua versão atual?

- Eu sei que estou um caco... quer comparar com isso?

- Caco? - Clara aproximou-se mais dele e sussurrou em seu ouvido. - Você está mais sexy do que nunca...

- Menininha... Vem aqui, vem.... - disse Jack, puxando-a para mais perto e beijando-a.

Os dois entraram no atelier, compraram o quadro e pediram ao lojista para despachá-lo para o endereço deles em Londres.

- Hum, queria estar voltando para o hotel agora... Mas temos que ir no Jean Paul. - disse Clara suspirando.

Jack e Clara pegaram um taxi e foram até o atelier de Jean Paul. No caminho a conversa voltou a ser sobre o futuro disco de Clara e ela começava a sentir-se pela primeira vez, mais calma com a ideia que antes simplesmente a apavorava.

- Jean Paul, querido... como vai? - disse Clara ao encontrar o figurinista na porta do atelier, esperando por eles.

- Olá querida... nossa, que chique... o casal mais badalado do mundo, no meu atelier... Viram a capa da People?

- Ainda não... - sorriu Jack. - Como vai, Jean Paul?

- Vamos lá dentro que mostro para vocês. - sorriu o figurinista ao ser beijado no rosto por Jack e por Clara.

Os dois seguiram Jean Paul até seu escritório, onde ele entregou uma revista nas mãos de Clara. Na capa, uma foto dos dois na porta do restaurante Cinq com a manchete: "O poder do amor - Conheça melhor a escritora brasileira que conseguiu a maior vitória da indústria musical nas últimas décadas"

- Querida, olha só como você está linda nesta foto... - disse Jack.

- Meu Deus! Mas... como? Não dei entrevista para ninguém...

- Não é entrevista, querida. - disse Jean Paul. - É uma espécie de perfil seu, com uma porção de fotos e a história da Crossroads e do contrato do novo disco.

- É boa publicidade... o Michael te deve um presente... - sorriu Jack.

- Sim... eu te devo um presente também, querida. - sorriu Jean Paul. - Hoje é o dia da folga da minha secretária e tive que deixar o fone fora do gancho para conseguir falar com vocês. Passei o dia atendendo telefonemas da América... todas querem se parecer com você...

Clara não tinha o que responder, estava confusa, não sabia se ficava empolgada com aquela atenção toda daquela revista tão importante ou se ficava triste por sentir que estava roubando atenção do que era mais importante, a volta da Crossroads.

- Querido, será que isso é mesmo bom para a banda? - perguntou Clara.

- Claro que é, meu amor... - sorriu Jack. - Além disso, é a verdade... se não fosse por você, não existiria mais Crossroads...

Aquela frase de Jack serviu para aumentar o desconforto de Clara com a situação. Afinal, ela já se sentia culpada por ter feito Jack mudar de opinião e aquela matéria amplificava ainda mais o que sentia. Desde o primeiro momento, ela temia estar prejudicando Jack de alguma forma e a revista apenas a lembrou disso.

Jean Paul interrompeu por instantes as aflições de Clara... - Querida, quero te dar mesmo um presente... - disse, entregando a ela uma grande caixa.

- Para mim?

- Sim, querida! Como um agradecimento pela sua gentileza comigo e por ter mudado completamente o rumo de minha vida. Você já é uma estrela e minha cliente mais chique!

Clara abriu a caixa e dentro dela, um deslumbrante vestido de veludo preto, tomara que caia, feito especialmente para ela pelo estilista.

- Que lindo! Jean Paul... obrigada! Este vestido é maravilhoso!!! Olha amor...

- Meu amor... vai lá experimentar... você vai ficar linda nele... Quero te levar a algum lugar lindo e luxuoso, só para você usá-lo...

Clara pegou o vestido e entrou atrás do biombo, para experimentá-lo.

- Você a ama muito, não? - sorriu Jean Paul, visivelmente comovido com o amor dos dois, que naquela tarde transbordava e atingia todos ao redor...

- Muito mais do que ela imagina, Jean Paul... - sorriu Jack, secando os olhos. - Não tenho nem palavras para dizer o que sinto por esta mulher. Ela é a minha vida...

- O amor de vocês é comovente... Quando li essa matéria que saiu na revista, até chorei. Há muito tempo não se vê uma história de amor interessando tanto as pessoas, como a de vocês; o mundo anda muito cínico e é bom que as pessoas percebam que isto não está certo...

- Tem razão, Jean Paul. Além disso, ela é encantadora, não é?

- Muito... Vocês dois têm muito carisma. Quando entram juntos em um lugar, parece que alguém acendeu a luz... Não podia ser diferente.

Quando Clara saiu detrás do biombo usando o vestido, Jack e Jean Paul sorriram...

- Que linda, meu amor... - disse Jack. - Você está parecendo uma rainha com este vestido...

- Sim, Jack! Ela está deslumbrante...

- Gostei muito, Jean Paul! Estou me sentindo maravilhosa nele... Obrigada, querido! Vou me trocar agora para conversarmos sobre os figurinos do show.

Jean Paul trouxe todos os figurinos e Clara experimentou-os um por um. Também provou os sapatos e depois de prová-los, todos foram embalados em caixas luxuosas; que também precisavam ser levadas com eles para Londres.

- Querido, acho que apenas mais uma mala de bordo, não será suficiente... - sorriu Clara após vestir novamente suas roupas.

- Vamos comprar então uma mala grande e uma mala de bordo. Despachamos a grande e levamos conosco as duas de bordo...

- Mas se posso aconselhar uma coisa a vocês é procurar dividir o máximo que puderem entre estas malas de mão, porque as companhias aéreas vivem perdendo malas... não despachem nada de importante... Será que não preferem que eu mande o figurino por courier?

- Querido, você faria isso? Acabamos de comprar um quadro, em um atelier em Montmartre e pedimos que ele fosse entregue em nossa casa. - disse Clara. - Tenho também uma aflição danada de despachar malas no aeroporto.

- Não amor... não precisa... quer saber? Vamos de jatinho particular e levamos tudo conosco sem maiores problemas... Não precisamos quebrar a cabeça...

- Ótimo! Mas acho que precisamos comprar malas de qualquer jeito, não? Querido... me desculpa, não achei que o volume de coisas fosse ser tão grande...

- Não precisa pedir desculpas, amor. Você é uma estrela e merece cada mimo que eu puder te dar...

- Lindo! - sorriu Clara.

Jean Paul ajudou Jack e Clara a levar as caixas até o taxi e os dois precisaram da ajuda de um dos carregadores do hotel para levar tudo à sua suite.

Já estava anoitecendo quando voltaram ao hotel, mesmo assim, eles arriscaram caminhar até uma área próxima do hotel que tinha algumas lojas luxuosas para tentar comprar as malas que necessitavam.

E conseguiram. Compraram duas malas, uma pequena, dentro do padrão que era permitido levar a bordo nos aviões de carreira e outra grande, do tipo que as companhias aéreas só costumam aceitar se for no porão.

Chegando no hotel, Clara conseguiu dividir todas as suas compras entre as duas malas e deixou tudo embalado e pronto para a partida dos dois no dia seguinte, à tarde.

- Bom, agora que está tudo embaladinho... vamos sair para jantar? Quer ir ao Cinq? - perguntou Jack.

- Estava pensando em jantar aqui mesmo... acho que me cansei, amor... queria comer alguma coisa, sem necessariamente estar vestida...

- Hum... acho que você tem planos bem melhores que os meus... vou ligar para o serviço de quarto, então...

- É assim, que se fala, amor... pede champagne e morangos para mais tarde?

- Claro, amor... Vamos escolher um jantar para nós... cadê aquele menu?

- Está aqui! - disse Clara trazendo o menu para Jack e sentando-se no colo dele para olharem juntos.

Escolheram salmão grelhado com legumes e salada verde de acompanhamento e pediram também vinho e uma porção de pães, queijos e frutas.

Mais uma vez, pediram que a refeição fosse deixada na porta do quarto e enquanto esperavam por ela, tomaram um banho e vestiram seus robes.

Jantaram e foram deitar-se, assistiram um pouco de TV e pegaram no sono, cansados do ritmo intenso de suas vidas nos últimos dias.

Clara levantou-se, estava em seu apartamento no Brasil passando uns dias, enquanto Jack estava na estrada com a Crossroads. O dia de verão que fazia lá fora deixou-a com vontade de dar um passeio e antes mesmo de comer, ela pegou a bicicleta e desceu com ela e sua câmera. Estava feliz, tinha passado a noite conversando com Jack pelo telefone e embarcaria naquela mesma noite para encontrá-lo em Nova York.

O sol deixava o parque brilhando e naquela manhã, Clara sentia-se nas nuvens. Encostou a bicicleta sob um árvore centenária e passou a fotografar um bando de periquitos que fazia um enorme estardalhaço em seus galhos.

- Bom dia, Clara - disse Roberto aproximando-se dela.

- Bom dia. - sorriu Clara. - Não sabia que você estava aqui no Brasil.

- Vim aqui para falar com você...

- Mesmo? O que você quer?

- Acabar com minha dor. - respondeu Roberto puxando uma faca e cravando-a no peito de Clara.

Neste instante, Clara acordou de um salto, chorando e acordou Jack quando o fez.

- Amor, o que foi? - disse Jack ao vê-la perturbada.

- Nada, amor... - disse tentando controlar-se. - Foi só um pesadelo, me desculpa ter te acordado.

- Não querida... você está tremendo... vem aqui... - disse Jack abraçando-a. - Quer água?

- Estou bem, amor... - disse Clara, levantando-se e caminhando até o banheiro. - Foi só um pesadelo.

Clara não conseguia controlar-se, estava em pânico. Chorava e tentava lavar as lágrimas do rosto na pia, suas mãos tremiam e ela não parava de ver os olhos de Roberto e o brilho do metal da faca em suas mãos.

- Amor, você está bem? - perguntou Jack preocupado ao chegar no banheiro. - O que foi?

- Jack, me abraça... - disse ela tremendo. - Sonhei que estava no parque perto do meu apartamento, no Brasil e o Roberto me chamou e me esfaqueou...

- Meu amor! - Jack abraçou-a. - Agora estou com medo... Não quero mais vê-la sozinha, vou pedir ao Michael para providenciar segurança para você. Ele não chegará nunca mais perto de você...

Continua

28 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XLIX


No final da tarde as três amigas estavam presas no caminho de trânsito pesado até Heathcliff Hall. Clara ainda estava nervosa com a atitude de Jack e embora não dissesse nada às amigas, era a mais ansiosa para chegar.

Quando o carro finalmente parou na frente da casa, uma das empregadas ajudou as três com suas sacolas e Clara apenas pegou suas compras e subiu para seu quarto.

Como calcularam, todos estavam no estúdio e isso significava que as três jantariam sozinhas.

Clara alegou que estava com dor de cabeça e não desceu para jantar com elas e nem as acompanhou quando elas desceram ao estúdio para ver como estavam as coisas.

Quando ela não apareceu no estúdio, Jack ficou preocupado e para espanto de todos, saiu sem dizer nada e subiu até o quarto, que encontrou com a porta trancada por dentro.

- Clara? – Jack bateu na porta. – Por que esta porta está trancada? Abre, quero conversar com você.

- Não temos nada para falar... – respondeu Clara áspera. - Volta para o estúdio, que eu preciso de descanso, estou com dor de cabeça.

- Não, não está! – disse Jack. – Está bancando a boba... abre, por favor...

- Boba? – disse Clara, abrindo a porta. – Até agora eu era a mais dissimulada das mulheres, combinando encontrar com meu amante Mick Jagger em Londres, depois que não pudemos conversar em Paris. Agora eu sou boba?

- É boba, sim! – disse Jack, empurrando-a para dentro do quarto e fechando a porta. – Me perdoa... eu enlouqueci de ciúmes quando vi aquelas flores...

- Eu não tenho culpa... – disse Clara, seus olhos já inchados de tanto chorar. – A Jennifer me disse que ele faria isso e eu...

- Vem aqui, meu amor. – disse Jack abraçando-a. – Não vamos brigar por causa desse cara de novo. Não tem nada que ele possa fazer para nos separar, minha vida. Me perdoa...

Clara beijou-o e ele a agarrou, empurrando-a até a cama, onde os dois deitaram. Jack tirou sua blusa e começou a beijar seus seios. Clara, também ajudou-o a despir-se e logo as lágrimas de tristeza causadas pelos ciúmes estavam esquecidas, em meio a gemidos de prazer e declarações de amor.

- Me perdoa, querida... – disse Jack. – Quando você ligou, a empregada estava me entregando o bouquet de flores. Quando vi aquele cartão, fiquei cego de ciúmes...

- Deixa isso para lá, querido. – disse Clara. – Só fiquei chocada com a injustiça disso tudo. Não podemos entrar em guerra cada vez que ele resolve aparecer nas nossas vidas...

- Melhor deixarmos isso para lá... – respondeu Jack. – desculpa querida, joguei as flores que ele mandou no lixo.

- Não me importa. – sorriu Clara, sentando-se na cama e começando a vestir-se. – Precisamos descer, nossos amigos devem estar preocupados...

- Eu saí do estúdio sem dizer nada a ninguém... – riu Jack. – espero que eles também não fiquem nervosos comigo!

- Eles te amam como eu te amo, Jack. Tudo vai ficar bem. Vem...

Os dois desceram e encontraram todos sentados, bebendo e conversando na sala de música, onde ouviam as faixas já mixadas do novo disco.

- E aí, Velhão? – disse David. – Da próxima vez conta para a gente o que vai fazer. Ficamos sem entender nada.

- Desculpa pessoal... – disse Jack. – Meu anjo tem prioridade sobre tudo nesta minha vida... eu precisava conversar com ela... Não está certo fazer chorar alguém que me faz tão feliz...

- Não está mesmo! – disse David. – Princesa, você quer que eu dê uma surra nesse canalha?

- Não, David. – sorriu Clara. – Está tudo bem agora. Eu amo desesperadamente esse canalha...

- Vocês querem jantar? – perguntou Cindy.

- Não, obrigada, querida. – disse Clara. – Não estamos com fome.

- Então vamos tomar um vinho. – disse David servindo uma taça de vinho para cada um. – E já que estamos aqui, vamos ouvir as faixas do novo disco que já estão prontas, quero saber o que vocês acham...

David colocou o disco para rodar e aos poucos a tensão tinha deixado completamente aquele ambiente e os seis amigos discutiam suas impressões sobre as novas músicas e os planos de divulgação dele que Michael havia enviado a eles por e-mail.

O principal deles, que mais tinha preocupado Clara, era a gravação ainda na próxima semana de dois videoclipes, um para a música "Unexpectedly" e outro para "The Light". Tudo seria feito nos estúdios Leavesden, a partir da próxima segunda-feira.

- Ele já mandou até os roteiros dos clipes. Quer ver? – disse Jack.

Clara passou rapidamente os olhos sobre a história que teria cenas gravadas em um cenário de castelo medieval e em uma floresta, ambos montados no estúdio e tinha uma história que teria lutas de espadas e onde Clara apareceria como a Rainha da Luz, usando o figurino dos shows, caminhando por uma floresta encantada.

- Bem, acho que é isso... – suspirou Clara. – espero me sair bem...

- Não se preocupe, querida. – disse Jack. – Nós também não gostamos destas coisas, mas pelo que eu li aqui, ao menos será divertido...

- O que o Jack quer dizer, princesa, é que dói menos se você não levar a sério. – sorriu David. – Esses caras sempre inventam... e somos nós que pagamos os micos...

- E o "Unexpectedly"? – perguntou Clara.

- Esse vai ser mais tranquilo... quer dizer, vamos tocar a música ao vivo em um palco, com uma plateia e eles vão filmar em preto e branco. Nada de espadas, nem castelos... – disse David.

- Ufa! – sorriu Clara. – E o resto do figurino? A capa? Os sapatos?

- Vamos buscar amanhã, em Paris... – sorriu Jack. – Eu e você... Passamos o final de semana lá, no George V.

- Sério? – sorriu Clara. – Vocês não vão?

- Não princesa. – sorriu David. – Estamos terminando a mixagem... ficaremos por aqui mesmo... alguém tem que trabalhar nessa banda...

- É isso mesmo, David... – riu Jack. – Não gostou? Vem me pegar...

- Viu só, Princesa? – disse David rindo. – Já começou de novo, você só é príncipe no videoclipe, cara... Olha que está cheio de vocalistas nesse mundo, te substituo em dois minutos... deixa ver, acho que ainda tenho o telefone daquele cara de Yorkshire...

- Não consigo mais ligar para nada. Vou passar o final de semana em Paris com meu marido! – sorriu Clara. – Nada mais me importa... Já vou fazer as malas... A que horas nós vamos?

- Estava conversando com o David e ele me quer aqui até a hora em que o Paul volta para Londres, lá pelas 5. - disse Jack. - Temos reserva no George V até domingo. Voltamos para cá, à tarde, porque nos esperam no Leavesden na segunda de manhã.

- Que surpresa linda, meu amor! - sorriu Clara. - Você não me disse nada...

- Quando o e-mail chegou, liguei para o Jean Paul e ele me disse que mandaria tudo, mas depois pensei melhor e liguei em seguida, avisando que pegaríamos as roupas no final da semana com ele. Acho que você não me perdoaria deixar passar esta oportunidade de um final de semana em Paris...

- Só trocaria Paris por nossa montanha, amor... - sorriu Clara.

- Precisamos desse tempo juntos... - disse Jack. - O Michael abriu a gravação dos vídeos para a imprensa. Daremos entrevistas na terça, no set de gravações e daí em diante tudo começa, lógico que viajaremos antes para nossa lua-de-mel, mas quando voltarmos, começa a estrada e tudo o que vem com ela. Teremos seguranças nos acompanhando todo o tempo e isso significa nenhuma liberdade...

- Ah querido... Não consigo me preocupar com isso... desde que estejamos juntos, tudo estará bem... Vocês também, sei que às vezes é bem difícil, mas se vocês ficarem unidos, a estrada será mais fácil de enfrentar. Vocês são amigos, só precisam não deixar as chatices da estrada criarem muros entre vocês...

- A Princesa tem toda razão! - sorriu David. - E até que enfim temos entre nós alguém com equilíbrio e disposição para aturar esse bando de malucos... Somos bons músicos, mas conta a lenda que temos as piores personalidades...

- Nunca vi nada que me fizesse concordar com isso... - sorriu Clara. - Me parecem três homens bons, inteligentes e afáveis...

- Jack, obrigado por achá-la... - sorriu David, abraçando Clara. - Você é muito especial, querida.

- Obrigada... - sorriu Clara. - Considero vocês todos minha família agora, meus irmãos e irmãs no exílio... quanto ao Jack, ele é o meu "outro eu"... somos a mesma pessoa ocupando corpos diferentes. – disse abraçando Jack.

- Ah, Menininha... - disse Jack beijando-a na testa. - Eu te amo! Espero nunca te decepcionar...

Clara chamou Jennifer e Cindy para ajudá-la a preparar as malas que levaria a Paris. Separou roupas quentes, já que o tempo começava a esfriar por lá também e decidiu que não levaria suas jóias, para não ter que preocupar-se com cofres e pegou roupas em sua maioria simples, com que pudesse passear pela cidade, mas também embalou a lingerie sexy que tinha acabado de comprar para fazer uma surpresa especial para seu marido.

A ideia era também a de aproveitar o passeio para mais algumas compras, Clara que nunca ligou muito para o que vestia, agora parecia bastante preocupada. Com o lançamento do disco, ela passaria a estar constantemente sob os olhos do público e isso praticamente a obrigava a buscar roupas apropriadas. A meta era não dar margem a comentários maldosos que poderiam roubar atenção da mídia do que realmente importava: a música da Crossroads.

Jennifer, a mais bem relacionada delas com o mundo da moda, deu a Clara uma lista de lojas e ateliers de estilistas, onde ela certamente encontraria o que procurava. Além disso, entregou-lhe as encomendas de roupas da nova coleção de Mille Jones que haviam chegado para que ela experimentasse, em Paris e que Jennifer, como sua personal stylist, tinha trazido para Londres.

Em sua lista de compras, desta vez, estavam casacos leves e mais pesados, botas, sapatos, bolsas e acessórios para complementar o visual. Se já vinha recebendo uma atenção extraordinária da imprensa antes de subir ao palco, tudo tendia a ficar pior depois da estreia do videoclipe e do show.

- O Jack é mesmo imprevisível... - disse Clara. - Quando achava que íamos continuar brigando por causa daquela bobagem de hoje, ele me convida para um final de semana romântico em Paris...

- Deve ser consciência pesada, querida. - sorriu Jennifer. - Ele não tinha nenhum direito de falar daquele jeito com você.

- Ele tem ciúmes do Mick e não acho justo torturá-lo ainda mais. - disse Clara. - De agora em diante, meu contato com o senhor Jagger deve ser o mínimo possível...

- E vai se privar da companhia de alguém que lhe agrada apenas para não deixar os instintos pré-históricos de seu marido manifestarem-se? - perguntou Cindy inconformada.

- Posso viver sem a companhia de um amigo interessante, mas não consigo continuar vivendo se para ter essa companhia for necessário ferir meu marido, Cindy. - sorriu Clara. - é como se ferisse a mim mesma...

- Estamos em 2011, querida. - sorriu Jennifer. - você deveria ser livre para conviver com quem bem entendesse.

- Eu sou livre... - respondeu Clara. - Por isso me afasto, antes que algum mal aconteça. Então Jenni... e aquele estilista que você me disse na semana passada que tem o catálogo todo na internet? - disse Clara mudando de assunto. – Vamos dar uma olhada no site dele e você me diz o que acha que ficaria melhor em mim...

A conversa no quarto voltou às roupas e acessórios, enquanto o coração de Clara sentia-se fazendo o primeiro sacrifício de seu relacionamento com Jack, o de abrir mão de uma amizade com que tinha sonhado durante toda a sua vida.

Continua

27 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XLVIII


David surpreendeu-os indo pegá-los no aeroporto para levá-los até Heathcliff Hall. E depois das nove horas de voo, um jantar caprichado os aguardava em casa e a primeira audição do material do novo disco já mixado e eles puderam ouvir pela primeira vez a nova versão para "The Light".

- Vai ser um sucesso, meu amigo. – disse David. – Quem pode resistir a essa voz, Princesa? Se ainda não te agradeci, deixa agradecer, porque o mundo vai se apaixonar pela Crossroads de novo, graças a você.

- Eu que agradeço a vocês por serem tão doces comigo. – disse Clara com os olhos marejados. – Estou me sentindo no meio de um sonho. Nunca imaginei que pudesse cantar.

- Você tem talento, amor. – disse Jack. – sua voz parece de uma fada e com um pouco mais de treino, você poderá fazer o que quiser com ela. Acho que encontrei uma estrela.

- Está muito bom mesmo, Clara. – disse Cindy. – Parabéns!

- Obrigada meus queridos! – disse Clara. – Espero não decepcioná-los.

A conversa continuou madrugada adentro e só quando já estava prestes a amanhecer, Jack e Clara foram para o quarto de hóspedes que sempre ocupavam em Heathcliff Hall para dormir. Estavam felizes, mas muito cansados. Tiraram as roupas, tomaram um banho rápido de chuveiro e pegaram no sono.

Com a aproximação do outono, os dias começavam a ficar cada vez mais gelados na Inglaterra e Clara começava a se preocupar mais e mais, se conseguiria enfrentar o inverno, quando já estava tendo dificuldades no final do verão.

No dia seguinte, enquanto todos tomavam café da manhã, Cindy convidou Clara e Jennifer para irem até Londres com ela, fazer compras e visitar as obras da casa, que deveria ficar pronta na próxima semana.

Jack passaria o dia no estúdio, ensaiando para a turnê e ajudando na mixagem das músicas do disco, enquanto isso.

- E aí? Como foi em Chicago? – perguntou Cindy.

- Foi muito bom. – disse Clara. – O Jack conseguiu convencer a Kate a vir morar aqui, no apartamento de Kensington.

- Nossa! – disse Cindy. – Tinha até me esquecido daquele lugar. É um belo apartamento, Clara. Espaçoso, bem localizado. Mas o Jack quase mandou colocar fogo nele depois que brigou com a tal da cantora americana. Como não podia por fogo, ele mandou fazer uma reforma enorme e passou a morar entre o hotel e a casa da montanha.

- O que essa mulher fez para ele afinal? – perguntou Jennifer.

- Ela enlouquecia ele com ciúmes. – disse Cindy. – Eles brigavam dia e noite, foi mesmo um horror.

- Pobrezinho do meu Jack. – sorriu Clara. – Ainda bem que eu apareci na vida dele...

- Ainda bem mesmo! – sorriu Jennifer. – Eu lembro de uma festa, acho que foi uma premiação, viemos de Los Angeles só para isso e os dois passaram a noite toda discutindo... Era impossível de ficar perto.

- O Jack quer ter um filho comigo. – sorriu Clara. – O que vocês acham?

- Nossa! – disse Cindy. – Isso sim é que é mudança! Ele fez vasectomia, você sabe, não?

- Sim. – respondeu Clara. – Ele disse que vai ao médico dele em Londres, para reverter a cirurgia.

- Pois é... – disse Cindy. – A louca da americana era obcecada por ele e queria porque queria ter um filho. Quando eles começaram a brigar ele fez a cirurgia e não contou nada para ela e ela ficava me dizendo que queria um filho dele. Quando ela descobriu sobre a vasectomia, o mundo acabou!

- Eu quero um filho sim, mas não agora. – disse Clara. – Temos muita coisa para fazer ainda...

- É... – disse Jennifer. – O Mick Jagger ficou muito preocupado com vocês. Me ligou várias vezes para saber se estava tudo bem.

- Ele é uma boa pessoa. – disse Clara. – Acho que quando as coisas acalmarem e ele perceber que não vamos mesmo ficar juntos, eu terei nele um bom amigo.

- Difícil dizer, querida. – disse Cindy. – Ele não é o tipo de homem que desiste fácil. Acho que está só esperando o momento certo para dar o bote.

- Espero que não. – disse Clara. – Estou começando a considerá-lo um amigo. Não gostaria de ter que me afastar dele.

- Dá para dizer que ele mudou de estratégia. - disse Jennifer. - desde que saímos com ele, em Paris, ele está tentando mostrar-se o amigo desinteressado, que já entendeu que nunca conseguirá o que queria e por isso, já trocou suas pretensões pela chance de estar por perto e ajudar. Não sei, não... mas acho que funcionou com você, Clara...

- Ah, Jennifer... - riu Clara. - Eu posso até parecer ingênua, mas não sou. Estou alerta, na primeira atitude estranha, me afasto... Por enquanto, ele está sendo bom comigo e com o Jack...

O trânsito estava pesado até Londres naquela manhã e as três amigas tiveram a chance de usar o caminho inteiro para colocarem a conversa em dia.

- Ah! Falando em Paris, o Jean Paul já me ligou umas três vezes e como imaginamos, ele está muito curioso sobre a história do vestido azul. - disse Jennifer. - E eu disse para ele que também fiquei surpresa com a reação de vocês e que não tenho a menor ideia do porquê. Também disse que vocês, às vezes, eram muito misteriosos.

- Obrigada, Jenni! - disse Clara. - Perfeito! Nós contamos a história toda para Kate, Mark e Mary, mas sabemos que os três não sairão por aí espalhando.

- Isso tem poder até para apagar a volta da Crossroads. - disse Cindy. - Vocês nunca mais teriam sossego.

- Eu tenho muito medo do Jack falar alguma coisa em uma entrevista. - disse Clara. - Ele é imprevisível, muito emocional, e pode colocar tudo a perder de um minuto para outro.

- Vocês não vão colocar nada sobre isso no livro, vão? - disse Cindy.

- Não. - respondeu Clara. - Não entramos em detalhes muito íntimos no livro. Não acho que seja relevante para o leitor conhecer a intimidade do Jack em detalhes. Quando escrevo, procuro protegê-lo.

- Melhor assim. - disse Cindy. - Eba! Abriu um pouco o trânsito, estamos chegando!

Logo o jipe que Cindy dirigia passava pelo portão da casa em reforma de Jack e Clara. As três desceram e Clara conferiu feliz cada detalhe da obra que já estava bem adiantada, na fase de acabamento. O paisagista já trabalhava nos jardins e começava a instalação de uma pequena estufa, nos mesmos moldes daquela instalada no jardim do apartamento de Cindy em Paris, para que Clara pudesse agora começar sua coleção de orquídeas.

A casa estava quase pronta, alguns ambientes ainda estavam sendo pintados e logo seriam liberados para receberem o trabalho do decorador. O closet, dentro da suite master havia sido completamente renovado por um carpinteiro e já estava pronto.

- Nem acredito, Cindy. - disse Clara. - tudo está tão lindo! Nossa! Estou muito feliz, amiga! Quando vamos começar a decorar?

- Até o final da semana. Já estou com o projeto desenhado. Quer ver? - disse Cindy, puxando seu iPad de uma pasta de couro.

- Claro que quero! Não acredito! - disse Clara.

As três se juntaram ao redor da bancada da cozinha e olharam um por um cada um dos projetos de decoração dos ambientes da casa.

- Que lindo! E o estúdio? - perguntou Clara.

- O David me indicou um técnico do Abbey Road que fará o projeto. - disse Cindy. - Ele deve vir aqui na próxima semana para dar uma olhada.

- Ótimo! Quero uma coisa bem feita para que o Jack possa trabalhar em casa tranquilo. Aliás, adoro a ideia de que teremos enfim a nossa casa aqui em Londres. Ando tão cansada dessa vida de fazer e desfazer malas, que vocês nem imaginam.

- É, querida. - disse Jennifer. - Mas vocês vão ainda fazer a turnê. O Michael já marcou uma porção de shows.

- Eu sei. - respondeu Clara. - Mesmo assim é diferente saber que quando voltar para Londres, nossa casa estará esperando. Não diga nada para o Jack, mas estou cansada da ginástica de ter que pensar em como embalar cada coisa para dar tudo certo quando chegarmos ao próximo hotel. Só de saber que terei um endereço para ao menos, mandar as malas excedentes já ajuda muito. Além disso, quando estivermos aqui, tudo será lindo e terei meu jardim, minhas plantinhas, minha sala de
ginástica, meu cantinho para meditar, um lugar onde possa sentar e escrever e uma cozinha quando quiser cozinhar.

- Eu sei, Clara. - disse Cindy. - Quanto aos projetos de decoração, são sugestões. É aqui que vai entrar seu toque pessoal, quando formos comprar os móveis, quero que você venha comigo e sempre vai aparecer algum móvel ou objeto que você vai gostar na loja e que não está necessariamente no projeto e eu prefiro assim, que meus clientes ajudem a escolher as coisas que farão parte do dia-a-dia deles.

- Vocês serão muito felizes aqui, amiga! - disse Jennifer. - É muito bom que a Cindy conhece vocês tão bem, assim no projeto, as coisas já estão a cara de vocês.

- Sabe que foi uma coisa que gostei muito na casa da montanha, na primeira vez em que estive lá. - disse Clara. - Tudo é a cara do Jack, mais uma razão para eu amar aquele lugar e me sentir em casa quando estou nele.

- Se você for ver, apliquei algumas coisas de lá no projeto desta casa... - disse Cindy. - O quarto de vocês, por exemplo, é muito parecido. Aquele anexo do estúdio, que também será um território do Jack, imagino, também...

- Reparei. - sorriu Clara. - Quero que ele se enxergue nesta casa tanto quanto eu. Ele me disse que não se importava, mas quero que ele veja este lugar como o nosso refúgio, enquanto não estamos lá na montanha, nem na estrada. Eu quero ver o Jack feliz...

- É muito bonito o modo como você o coloca sempre em primeiro lugar em sua vida. - disse Jennifer.

- É só uma expressão da verdade. - disse Clara. - Não consigo nem respirar sem ele...

- Nós sabemos! - sorriu Cindy. - Falando nisso, você gostou da restauração que fizemos no banheiro da suíte master?

- Muito! Aquele piso de mármore está fantástico. - suspirou Clara. - Seremos muito felizes naquela banheira...

As três riram muito do suspiro apaixonado de Clara e depois de dar todas as ordens necessárias à equipe que realizava a reforma da casa, estavam livres para seguirem para as compras.

- Já está esfriando, querida. - disse Jennifer. - É melhor você comprar algumas peças por aqui também. Comprou tão pouquinho em Paris...

- Quero mais alguns pares de botas e uns bons casacos. - disse Clara. - Vocês sabem onde posso encontrar?

- King's Road, querida... - disse Jennifer. - E imediações... e já que estamos por lá, podemos almoçar no francês...

- Ótimo! Sabe que estou mesmo preocupada. Vocês me ajudam porque já percebi que não tenho nenhuma resistência ao frio que faz por aqui. Em Chicago, quase congelei com aquele vento gelado e estava usando um casaco de couro.

- Mas é uma questão de costume. - disse Cindy. - Com o tempo você não vai mais sentir tanto...

- Espero que sim! - sorriu Clara, olhando para um belo par de botas de cano alto e salto altíssimo que Jennifer apontava na vitrine.

As três compraram algumas peças para a nova estação que se aproximava, levaram as sacolas até o carro e foram a pé até o Chez Montagne, seu restaurante favorito de Londres. Estranharam um pouco a movimentação de fotógrafos na porta, naquele horário, no meio da semana e como sempre acontecia, foram mais uma vez fotografadas. Com Clara na lista das mais elegantes da revista Vogue, o assédio dos fotógrafos estava maior do que nunca.

Entraram no restaurante e seguiram o maitre que as guiou até sua mesa favorita, mas enquanto ainda se acomodavam nas cadeiras, perceberam com surpresa que em uma outra mesa vizinha, Mick Jagger e Gianna Carli, que por coincidência também tinham acabado de chegar ao restaurante, agora chamavam as três para sua mesa.

- Clara, olha só quem está aqui... - disse Jennifer. - vamos nos juntar a nossos amigos?

- Vamos... - disse Clara. - Acho que não temos muita escolha. Pelo menos ele não está sozinho hoje...

- Olá. - disse Jagger aproximando-se da mesa. - Que bom encontrá-las aqui! Vamos almoçar juntos? Pedi ao maitre para levá-las à minha mesa, queridas... Vamos?

- Cara senhora Noble, já de volta à cidade... Como foram de viagem?

- Muito bem, Mick. - sorriu Clara. - E você, como tem passado?

- Estou preparando um novo disco solo e tenho uma nova canção que gostaria de mostrar a você, mais tarde. Você está no Four Seasons?

- Não, depois que voltamos de Chicago, estamos em Heathcliff Hall. O Jack está ensaiando para a turnê e o David está mixando o novo disco.

- Que pena... tinha pensado em mostrar-lhe uma música que fiz e que achei a sua cara. Mas acho que não faltarão oportunidades, eu suponho, vocês estão com todas as "bolas no ar", agora.

- Um pouco... Mas acredito que logo tudo se acalma. - sorriu Clara. - Logo eu e Jack vamos viajar para o Brasil.

- Vocês vão para o Brasil? – riu Mick. – Mas a turnê não começa em novembro?

- Sim, vamos lá descansar um pouco antes que ela comece. – disse Clara. – Será uma lua-de-mel, porque a nossa foi interrompida pelas gravações em Abbey Road.

- Hum, inteligente... – disse Mick. – Gianna querida, elas aceitaram nos acompanhar...

- Olá Gianna, como está? – disse Clara em italiano.

- Olá queridas! – disse Gianna. – Olá Clara... então como está a filha do Jack?

- Está tudo bem, agora! – disse Clara. – O bebê é prematuro, mas deve também ter alta nos próximos dias. Ele é tão lindo... parece uma versão miniatura do Jack... Aliás esse é o nome dele Jack James Noble Benning... mas já o estamos chamando de pequeno Jack. Tem uma foto dele aqui no meu celular, olha só que lindo...

- Ai que fofo! Que bom que está tudo bem... – sorriu Gianna enquanto via as fotos do pequeno Jack no celular de Clara. – Tão pequenino... fiquei aflita quando vocês saíram correndo para ir para a América.

- Nós também estávamos... – disse Clara. – O Jack só voltou ao seu normal depois que conversou com a Kate no hospital. E como o bebê ainda não teve alta, vamos passar por Chicago novamente na ida para o Brasil.

Passaram algumas horas conversando no ambiente sofisticado do restaurante mais badalado da cidade. Mas as três amigas despediram-se de Jagger e da namorada para voltarem a percorrer as lojas das vizinhanças a procura de roupas para a nova estação que se aproximava.

- Você adora esse cara, não? – disse Cindy repentinamente para Clara.

- Que cara? – perguntou Clara.

- O Jagger... – sorriu Cindy. – Seu olhos brilham tanto quando vocês conversam, que se eu fosse a Gianna, ficaria com ciúmes...

- Imagina... – riu Clara. – Eu o admiro muito. É um ídolo meu desde sempre e um homem inteligente, com quem gosto de conversar... só isso.

- Só vou te dizer uma coisa... – respondeu Cindy. – Você está em um caminho bem perigoso. O Jack é muito ciumento e o Jagger é muito esperto... essa nova postura dele de amigo que aparece aqui e ali é pura estratégia. Você não acha, Jenni?

- Acho sim, Clara. – riu Jennifer. – Você é muito ingênua, mas verá que quando chegarmos mais tarde em Heathcliff Hall, ele já terá te mandado flores, só para deixar o Jack cismado... Nunca o vi deixar escapar nada que ele quisesse.

- E o que vocês acham que eu devo fazer? - sorriu Clara.

- Liga para o Jack e conta tudo o que aconteceu antes que as flores cheguem lá... – disse Jennifer. – diga que fomos ao Chez Montagne para almoçar e ele estava lá com a Gianna. Almoçamos juntos e agora continuaremos nossas compras.

- Ok! – disse Clara pegando o celular e ligando para Jack. – Oi amor, você pode falar?

- Sim, querida. – Paramos um pouquinho para almoçar.

- Nós também... – sorriu Clara. – Fomos ao Chez Montagne e encontramos o Mick Jagger lá.

- Eu sei! – disse Jack. – Estou neste momento segurando um bouquet de rosas cor de lavanda que ele enviou para cá agradecendo pelas horas agradáveis que teve ao seu lado...

- Sério, Jack?

- Eu nunca brinco sobre flores enviadas por canalhas para a minha esposa... – disse Jack irritado.

- Querido... – disse Clara preocupada. – Não faça o jogo dele. Ele só queria te irritar e, pelo jeito, conseguiu.

- Bom... – Jack suspirou. – Vou voltar para o estúdio agora. Você pega suas flores quando chegar em casa...

- Meu Deus! Ele desligou! – disse Clara tremendo. – O Jack está muito bravo... Eu não tenho culpa...

- Não se preocupe, querida. – disse Cindy. – Quando voltarmos para casa, tudo estará esquecido. Ele só está nervoso por ter caído na armadilha do cara...

- É! – disse Jennifer. – Não fale mais nada sobre isso. Quando chegarmos eles ainda estarão naquele bendito estúdio. Dá um trato nele nesta noite e fica tudo resolvido... Vem... vamos comprar umas lingeries novas...

- Não posso! – disse Clara indignada. – Isso é muito injusto! Ele acha que eu combinei com o Mick esse encontro? Não posso aceitar isso... O Jack está reclamando sem razão agora, mas se ele continuar com estas bobagens darei a ele uma razão para reclamar e ser rude comigo. E ele não vai gostar...

Continua

26 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XLVII


Os dois procuraram pelo próximo voo entre as duas cidades, compraram os bilhetes de classe executiva e logo estavam na sala VIP esperando para embarcar.

- Chegamos até aqui, querida. – disse Jack. – Estou feliz que você está ao meu lado.

- Você sabe que estarei sempre por perto, não importa o que aconteça. - sorriu Clara acariciando os cabelos de Jack.

- Linda! – disse Jack, beijando-a.

Jane ligou para Jack dizendo que o bebê ainda não tinha nascido, que por ser o primeiro filho de Kate, aquele parto podia demorar ainda um pouco mais e que o médico disse ao genro que estava monitorando a situação e se houvesse algum risco maior, faria uma cirurgia.

Mary já estava em Heathrow pronta para embarcar no voo das cinco da tarde direto para Chicago e logo os dois também estariam por lá.

- Já que vamos de jato particular, por que a Mary não vai conosco, Jack? – perguntou Clara.

- Porque ainda não sabemos a que horas poderemos ir. – disse Jack. – O Michael está em Heathrow providenciando o avião para nós, mas o Lambert vai demorar umas duas horas para chegar lá com meu passaporte e ela não quer perder esse voo direto.

- Você sabe quanto tempo de voo de Londres até lá? – disse Clara.

- Umas 9 horas, acho. – disse Jack. – Menininha, logo estaremos chegando.

- Ah! Lembrei de uma coisa. – disse Clara. – Está aqui, na minha bolsa. Ela abriu a bolsa, pegou seu japamala de jade e pendurou-o no pescoço de Jack. – para que você tenha a luz necessária para enfrentar isso tudo da melhor maneira possível, querido.

- Obrigado Menininha, você não sabe o que isso significa para mim. - disse Jack.

O voo até Londres foi rápido. Em menos de uma hora, os dois desembarcavam em Heathrow e encontravam-se com Michael no saguão.

Ele entregou para Clara uma pasta com seus documentos provisórios, uma cópia de sua certidão de casamento e uma carta de um órgão público britânico que afirmava que seu processo de solicitação de cidadania européia já havia sido iniciado a partir da data da certidão de casamento.

O avião particular até Chicago já havia sido contratado, agora os três aguardavam pacientemente pela chegada de Lambert no saguão com o passaporte de Jack.

- Está tudo pronto! – disse Michael. – Assim que o Lambert chegar pegamos o meu carro e seguimos até a pista para que vocês embarquem, já consegui autorização para isso também.

- Que bom, Michael. – disse Clara. – o Jack está muito aflito. Precisamos sair daqui o quanto antes.

Sentados no saguão, as horas se arrastavam.

- Já são quatro da tarde. – disse Clara. – eu também estou aflita, Michael. A que horas o Lambert chega aqui?

- Já deve estar chegando. – disse Michael olhando no relógio. – Tem umas duas horas de caminho da casa da montanha ao aeroporto.

Michael atendeu o celular, era Lambert dizendo que já tinha chegado no aeroporto e que estava estacionando o carro.

- Ele já chegou! – disse Michael. – Vamos ao encontro dele no estacionamento.

- Meu carro está parado na área L e o dele, na área J. São próximas daqui, vem, vamos pegar o elevador. – disse Michael.

Os dois seguiram Michael até o carro e encontraram com Lambert próximo a ele. Pegaram o passaporte de Jack e foram de carro até a pista, onde um agente de imigração britânico carimbou os passaportes de ambos e checou o visto americano de Clara.

Com tudo autorizado, entraram em um jato particular e rapidamente estavam decolando rumo a Chicago; com chegada prevista após 9 horas de voo, para as 10 da noite, no horário local.

- Vamos lá, querido... Agora descansamos um pouco e logo estaremos lá, do lado da Kate e do seu netinho...

- Estou muito nervoso, amor... - disse Jack. - É tão longe... porque ela está vivendo tão longe de mim?

- Porque ela tem a vida dela, o trabalho dela... Eu entendo que você a queira mais perto, mas fico aflita porque perdi várias oportunidades na minha carreira graças ao meu pai sempre querendo me manter por perto.

- Mas se você tivesse aproveitado estas tais oportunidades, talvez agora você estaria longe de mim... Acho que as coisas acontecem porque têm que acontecer.

- Eu também acho, querido. Mas do ponto de vista do filho, isso sempre é muito injusto. Imagina se você nunca tivesse aparecido em minha vida, nem o Jonas. A esta hora, eu estaria lá no Brasil, trabalhando em um lugar que eu detestava, triste, frustrada...

- Mas você voltou para mim, Menininha... - interrompeu Jack. - E não sabe o quanto isso me fez feliz...

- Lindo! - sorriu Clara, pegando a mão de Jack e beijando-a. - O que eu mais quero é te fazer feliz, como você me faz...

- Será que podemos usar nossos telefones aqui? Internet? Essas coisas... - perguntou Jack.

- Espera, querido. Vou descobrir. - disse Clara apertando um botão do intercomunicador que falava com a cabine. - Alô... senhor comandante?

- Sim, co-piloto Rupert, senhora. Como posso ajudá-la.

- Podemos utilizar telefone celular e internet nesta aeronave?

- Sim senhora. - disse o co-piloto. - Temos o fornecimento deste serviço ativado e funcionando, basta ligar seus telefones, tablets ou computadores.

- Obrigada senhor Rupert.

- É uma honra tê-los a bordo, senhora.

- Podemos telefonar então, querido. - disse Clara pegando o celular desligado em sua bolsa e ligando-o. - Vou ligar para a Jane.

- Jane, querida. É Clara. Já estamos a caminho de Chicago e nos liberaram o uso do celular a bordo. Por isso você pode continuar nos mantendo informados sobre como estão as coisas.

- Manterei, querida. - disse Jane. - Como está o Jack?

- Ainda muito aflito... Mas tenho certeza de que tudo dará certo...

- O Mark continua esperando ao lado dela, no quarto para seguir para a sala de parto. Parece que os dois estão bem, tanto ela quanto o bebê.

- Que ótimo, Jane. - sorriu Clara. - fico feliz! Vou avisar o Jack.

- Querido, o Mark ligou para a Jane e ainda estão aguardando para levar a Kate até a sala de parto e tanto ela como o bebê estão bem...

- Que bom! Isso é muito bom... Estou até achando melhor ajeitar estas cadeiras para dormirmos um pouco, porque assim chegamos mais rápido.

- Tem razão... - sorriu Clara soltando-se do cinto de segurança e pegando cobertores e travesseiros no compartimento de bagagem. - Vamos descansar...

Clara tirou as botas dos pés de Jack, ajeitou sua cadeira, colocou um travesseiro sob sua cabeça e cobriu-o com o cobertor. Diminuiu a luz na cabine dos passageiros e, a seguir, sentou-se e fez a mesma coisa para si mesma, tirando as botas e ajeitando-se na cadeira, para dormir.

- Boa noite, amor. - disse Clara, programando o celular para tocar dentro de seis horas.

- Boa noite, meu anjo. - respondeu Jack.

Os dois dormiram apenas uma parte das seis horas programadas por Clara e logo já estavam acordados novamente. O voo não tinha serviço de bordo, mas o avião tinha toda a estrutura para que eles mesmos se servissem de comida e bebida.

Seguindo as intruções de um folheto, Clara aqueceu a comida para ela e para Jack e colocou-a em bandejas apropriadas, junto com vinho, que Jack abriu e serviu para ambos em uma pequena mesa que dividiram.

- Querida, acho que se decidíssemos dançar aqui dentro deste avião, conseguiríamos. Aliás, nunca tive uma comissária mais deliciosa me servindo.

- Jack, meu amor. - sorriu Clara. - Não fala essas coisas... Você sabe que fico sem graça...

- Não fique, amor. Eu não fico sem graça em dizer que você é a mulher mais gostosa que conheci em toda a minha vida.

- Maluquinho! Meu doce, maluquinho... Sinto tanto carinho por você, que nem consigo ficar realmente chocada com seus modos, como deveria.

- Estamos a sós, minha querida. - riu Jack. - Por isso posso dizer-lhe aquilo que bem entender e você também tem aqui a liberdade de dizer aquilo que passar por sua mente.

- Então direi! - sorriu Clara. - Adoraria tê-lo dentro de mim, neste momento... Mas infelizmente isso não será possível, pois estamos dentro de um avião e não seria nada agradável se o piloto ou co-piloto caminhassem até aqui e nos vissem fazendo aquilo que costumamos fazer quando estamos sozinhos.

- Eu não me importaria, minha querida. - respondeu Jack rindo. - Como sabe, já vivi situações muito mais embaraçosas em minha vida e estar dentro de você, não seria motivo para embaraço, mas para orgulho.

- Ai, querido... - suspirou Clara. - Melhor pararmos por aqui, antes que as coisas se compliquem ainda mais...

A seguir, Clara levantou-se, colocou as bandejas no compartimento indicado e travou-as. Caminhou até o banheiro do avião para escovar os dentes, mas Jack foi atrás dela e entrou com ela no apertado compartimento.

- Jack! – riu Clara. – Ficou maluco?

- Maluco por você... – disse agarrando-a por trás; ela reagiu imediatamente, virando-se para ele, que já tirava suas roupas íntimas e em um movimento rápido, pegou-a no colo e mesmo naquele pequeno cubículo, os dois encontraram um jeito de entregarem-se a seus desejos e sentir muito prazer juntos. A sensação de estar fazendo algo errado e perigoso deixou Clara ainda mais excitada e ela saiu do banheiro ainda com os joelhos falhando, enquanto Jack não conseguia disfarçar seu largo sorriso de satisfação.

- Que loucura, Jack! – disse Clara retornando para seu assento e sussurrando no ouvido do marido que caminhava ao seu lado. - Vou precisar pegar outra calcinha na mala.

- Não é minha primeira vez em um banheiro de avião, querida. – disse Jack rindo muito.

- Mas é a minha. – riu Clara enquanto pegava a mala no compartimento de bagagem - Isso é uma loucura. Nunca pensei...

- Você é adorável, Menininha... - riu Jack.

- Vou me vestir, querido. – disse Clara colocando a mala de volta no compartimento e caminhando até o banheiro.

- Quer que eu te ajude? – perguntou Jack.

- Você já ajudou! – riu Clara.

Clara arrumou-se novamente, escovou os dentes, ajeitou os cabelos e ficou preparada para a hora do desembarque que se aproximava.

Quando saiu do banheiro, Jack falava ao telefone e chorava.

- O que foi meu amor? – disse Clara caminhando até ele e abraçando-o.

- O meu neto nasceu... é um menino e ele e a Kate estão bem... o médico disse que é uma criança forte e saudável, apesar de prematuro e por isso ele tem uma boa chance.

- Que bom amor! – sorriu Clara. – quem te ligou?

- O Mark, meu genro. Preciso ver minha filha...

- Estamos chegando, amor. – disse Clara. – arrumei meu relógio para o fuso horário de Chicago e já são quase 9:30... mais meia hora e iremos pousar.

Alguns minutos depois o comandante anunciava que estava iniciando o pouso no Aeroporto O'Hare, em Chicago e também disse que o horário local era 9:55 da noite e que a temperatura era de 15 graus centígrados.

Por causa das leis americanas mais rígidas do que as européias, Jack e Clara tiveram que pegar um carro na pista para levá-los ao terminal de passageiros para passarem pela imigração.

E assim que tiveram seus passaportes carimbados, os dois pegaram um taxi e seguiram para o Hospital onde Kate estava internada.

Enquanto Jack encontrava-se com Mark, Clara foi a uma floricultura ao lado do hospital e comprou um grande bouquet de rosas.

- Parabéns, Mark! – sorriu Clara, abraçando o genro de Jack. – Comprei estas flores para a Kate. Podemos vê-la?

- O médico quer que ela descanse. Mas acho que ela vai ficar feliz em vê-los. – disse Mark. – Obrigado por virem. Ah! Aquele ali é o médico da Kate, vou pedir para que ele autorize a visita de vocês.

- Dr Summers, o pai da minha esposa e a esposa dele chegaram agora de Londres e gostariam de ver a Kate. – disse Mark. – Eles estão ali no corredor, mas a enfermeira não os autorizou a entrar.

- Sua esposa precisa de repouso senhor Benning. – disse o médico. – Mas posso conversar com eles, se isso for necessário.

- Senhor...

- Jack Noble, esta é minha esposa, Clara. Dr Summers, certo?

- Desculpa Dr Summers, viajamos muitas horas, estamos cansados. O Jack só vai levar estas flores para a filha dele e já vamos embora em seguida.

- Ok... Acho que não será problema. – disse o médico. – Então entra só o senhor. Ela se cansou muito e precisa do descanso. Estou abrindo uma exceção aqui, porque o senhor Benning me disse que vieram direto do aeroporto. Cinco minutos, ok?

- Obrigada, Doutor! – sorriu Clara entregando o bouquet de flores para Jack – Vai amor, eu fico aqui te esperando, com o Mark.

- Engraçado, senhor Benning... – disse o médico. – Seu sogro faz o que?

- Ele é cantor, por que? – disse Mark segurando o riso.

- Tenho a impressão que já o vi antes. – disse o médico. – A senhora também... a senhora trabalha na TV?

- Não... – disse Clara. – Sou escritora.

- Amanhã, a senhora e seu marido podem vir até aqui no horário de visita, que é a partir das duas da tarde e aí sim podem conversar, ver o seu neto e ficar mais tranquilos.

- Sobre o bebê... – disse Clara. – Como ele está, doutor?

- Bem... – disse o médico. – Ele nasceu bem pequeno, mas é saudável e deve ficar sob cuidados especiais por uns dias, até ganhar um pouco de peso.

- Fico feliz. – disse Clara.

- A senhora não é muito jovem para já ter um neto? – disse o médico.

- Não é meu neto. – sorriu Clara. – É neto do meu marido e da ex-esposa dele.

- Já passaram os cinco minutos. – disse o médico. – desculpem ser rígido, mas preciso que ela descanse para poder dar-lhe alta.

Jack abriu a porta e saiu do quarto limpando as lágrimas dos olhos. Caminhou até Clara e abraçou-a.

- Mark, nós vamos embora agora. Viemos tão rápido para cá que nos esquecemos de reservar um hotel. Vamos procurar por um agora.

- Tem um Holiday Inn ótimo, aqui nesta avenida mesmo, senhor Noble. O senhor conhece? – disse o médico. – Tem umas tarifas ótimas lá, principalmente para nós, senior citizens.

- Obrigado, doutor! – disse Jack sorrindo. – Boa noite para o senhor.

- Meu Deus! – disse Clara rindo. – Ele não tem a mínima noção de quem você é, Jack! Como pode existir gente assim ainda no mundo?

- Pois é... – disse Mark. – nunca senti tanta vontade de rir de alguém na vida. Acho que amanhã venho para cá usando aquela camisa da Crossroads que tem uma foto enorme do Jack.

- Vem sim... – riu Clara. – Isso promete ser engraçado.

- Para onde vocês vão? - perguntou Mark. - Vocês querem ficar no nosso apartamento?

- Não precisa, Mark. - disse Jack. - Vamos para um hotel. Esquecemos de fazer uma reserva antes, mas não acho que seja difícil conseguir, a Clara já está trabalhando isso no celular. Não está querida?

- Estou sim, Jack. - respondeu Clara, enquanto procurava pelo número do telefone do hotel na internet.

- Precisamos de uma suite para esta noite e... um momento por favor... - disse Clara. - Jack, vamos ficar até quando?

- Até quarta, amor. - disse Jack.

- Desculpe, precisamos de uma suite para esta noite e temos planos de ficar até quarta feira. Somos clientes preferenciais da rede, cartão número 2397892 categoria diamante. Correto. Suíte Royal... Perfeito... estamos a caminho daí... Obrigada.

- Pronto! Mark, estamos no Four Seasons, na Suite Royal e se precisar falar conosco só precisa ligar nos nossos celulares. Agora, querido, volta lá para o quarto, a Kate já deve estar aflita por estar sozinha. Amanhã voltamos aqui às duas da tarde para visitá-la. Parabéns Mark!

- Obrigado Clara. Obrigado Jack. - disse Mark. - Eu e a Kate estamos muito felizes por tê-los aqui.

- Obrigado Mark! - disse Jack. - Nós também estamos felizes por estarmos aqui.

- Ah! Mark... desculpa, mas você sabe onde tem um caixa de banco por aqui? - perguntou Clara.

- Não sei... - disse Mark. - Por que?

- Temos Euros, Libras, mas não temos dólares. - respondeu Clara. - Devíamos ter trocado no aeroporto, mas esquecemos. Para nossa sorte, o taxista aceitou cartão de crédito.

- Tenho uma nota de 50 aqui no bolso.- disse Mark sorrindo.

- Obrigada, Mark. - disse Clara. - Vamos trocar nossos euros no hotel e trazemos de volta para você amanhã.

- Querida, não precisava pegar dinheiro. Muitos taxistas aceitam cartão por aqui. - disse Jack.

- Jack, é tarde. - respondeu Clara. - E se não acharmos? Melhor garantir, não?

- Está tudo certo, Jack. - sorriu Mark. - Ela está certa, melhor garantir mesmo.

Os dois saíram, pegaram um taxi e Jack perguntou se aceitava cartão e ele respondeu que não.

- Viu só? - disse Clara. - Para o Hotel Four Seasons, por favor.

O percurso foi longo, mas já era quase meia-noite e o trânsito estava tranquilo. O hotel ficava em uma área nobre da cidade, a beira do Lago Michigan e o frio tinha aumentado consideravelmente naquele horário e mais ainda naquela região tão aberta à ventania constante da cidade.

O dois desceram do taxi e entraram correndo no hotel, com Jack puxando a propria mala.

O gerente atendeu-os com grande cortesia e logo eles já estavam na suíte Royal, no 46º andar de uma enorme torre. Depois de instalarem-se, os dois tomaram um banho rápido e foram deitar-se. Estavam muito cansados e deixaram o celular programado para tocar às 10 da manhã, para descansar um pouco mais, antes de irem até o hospital.

Dormiram abraçados, mas acordaram antes do previsto com um telefonema de Jane.

- Bom dia, Jane. - disse Jack ainda tentando acordar. - Sim, chegamos ontem, mas era muito tarde para ligar para aí avisando. Falei com a Kate ontem e está tudo bem. A Mary? Vamos ao hospital daqui a pouco, acho que a encontraremos por lá. Ok, nos falamos mais tarde, então Jane. Beijos.

Ainda deitada, Clara o olhava conversando com a irmã ao telefone. Sentado na cama, nu, com seus cabelos louros e cacheados agora bastante despenteados, ele tinha a aparencia de um homem selvagem, porem falava mansa e carinhosamente.

- Vamos levantar, querido? - perguntou Clara. - estou morrendo de fome!

- Também estou com fome, amor. - disse Jack levantando-se da cama. - Mais tarde, me lembra que preciso ligar para o David.

- Não é melhor ligar depois de passar no hospital? - disse Clara. - Conversamos com a Kate e com o médico e daí sabemos exatamente quando voltaremos para Londres.

- É verdade, querida. - disse Jack. - Já são três da tarde por lá e acho que todos estão a caminho de Heathcliff Hall.

- Assim que pudermos, estaremos com eles, querido. - disse Clara levantando-se da cama, vestindo seu robe de seda e caminhando até a janela. - Nossa, olha só essa vista... está escuro lá fora e acho que está chovendo.

- É melhor você se agasalhar bem. - sorriu Jack. - até eu costumo sentir frio por aqui.

- Precisamos comprar um presentinho para o bebê... - disse Clara. - Uma roupinha ou um acessório de bebê bem bonitinho para dar de presente à Kate hoje.

- Tem lojas muito boas aqui no prédio do hotel mesmo, querida. - disse Jack. - Vamos tomar nosso café e damos uma passada lá.

Clara pegou o menu do serviço de quarto e pediu um café da manhã com panquecas, frutas, chá, torradas e queijo.

Quando a refeição foi servida, ela e Jack já estavam prontos para sair. Por sorte, Clara tinha comprado um casaco de couro em Paris e agora ela o estava vestindo, com suas botas de cano alto, calças jeans e uma camiseta preta simples.

Jack estava com uma camiseta branca sob o blaser preto, com calças jeans e bota de cowboy. Os dois estavam com os cabelos amarrados, para não ter muitos problemas com o vento.

Clara guardou o colar e os brincos de pérolas no cofre e os dois saíram logo após o café da manhã. Só quando chegaram ao térreo puderam perceber que não chovia, mas o tempo estava bem escuro. Trocaram os 300 euros que Jack tinha no bolso por dólares, com o gerente do hotel e seguiram para suas compras.

Nos primeiros andares da torre do hotel existia um shopping center com uma grande loja de departamentos e os dois se empolgaram com os artigos que encontraram para bebês e compraram brinquedos, roupas e acessórios para o neto de Jack.

Com as mãos cheias de sacolas com presentes, os dois subiram de volta para o quarto de hotel e ligaram para Mark avisando que estavam a caminho do hospital.

- Querido, acho que exageramos um pouco. - disse Clara olhando para o número de sacolas dentro do taxi.

- Quero mimar um pouco meu neto, amor. - disse Jack sorrindo. - Seu neto também, de acordo com aquele médico que encontramos ontem.

- Pois é... - sorriu Clara. - Que figura, aquele médico, não? Não sei como não ri quando ele começou a falar sobre desconto para seniors...

- É, amor... mas ele tem razão... eu tenho direito a esse desconto... - riu Jack.

- Não se dependesse de mim... ninguém com esse corpinho deveria ter esse desconto. - disse Clara acariciando o peito de Jack, que imediatamente a agarrou e beijou seu pescoço.

- Gostosa! Você me enlouquece... Se ao menos tivéssemos tempo hoje... - disse Jack abraçando-a. - Queria passar o dia todo te mimando...

- Ai, minha vida... - sorriu Clara, acariciando o rosto de Jack. - Vamos mimar a Kate e o bebê hoje... Estou louca para vê-los.

- Estava aqui pensando... não foi a primeira vez que um médico não me reconheceu... e acho que não será a última... - disse Jack. - Me lembre de te contar sobre quando fui renovar minha carteira de motorista, na década de 80, em Londres. O médico que fez o meu exame de vista tinha uns cem anos e não tinha a mínima ideia de quem eu era. Foi muito engraçado, achei até que estivesse na TV.

- Tadinho, do meu amor... - sorriu Clara e beijou-o no rosto. - Será que o Mark foi lá com aquela camiseta?

- Acho que ele passou a noite lá, amor, com a Kate. O médico vai dar alta para ela hoje, mas o bebê ainda não vai para casa.

- Dá muita pena, Jack. Eu me coloco na situação dela e fico pensando o quanto deve ser difícil deixar o filho no hospital.

- É, amor... Nunca passei por isso, mas quando a Mary sofreu aquele acidente na estrada, ela estava grávida e perdeu o bebê. Foi horrível, nunca me perdoei por estar longe, nem ela me perdoou.

- Que triste, querido. - disse Clara pegando a mão de Jack. - Quando você fala disso, sinto sua dor, aqui, dentro do meu peito.

- Eu te amo, Menininha! - disse Jack beijando-a na testa.

O taxi chegou ao hospital e os dois desceram. Um garoto que estava na porta e tinha acabado de ter seu braço engessado, reconheceu Jack e aproximou-se, pedindo para tirar uma foto.

Jack sorriu, abraçou o garoto e pediu que Clara batesse a foto com seu celular.

- Obrigado cara! - disse o garoto. - Cai do skate, quebrei meu braço, mas estou muito feliz de te encontrar!

- Cuidado com esse skate, garoto! - disse Jack sorrindo.

- Vamos, querida. - disse Jack.

Os dois seguiram até o quarto onde Kate estava e encontraram com Mark no corredor.

- Oi Jack, oi Clara! Vamos entrar? - disse Mark. - Hoje o médico liberou a entrada de vocês.

Os dois entraram no quarto e Kate estava sentada na cama, conversando com Mary.

- Podemos entrar, querida? - disse Jack abrindo a porta.

- Oi pai! - sorriu Kate.

- Olá Mary, tudo bem? - disse Jack.

- Olá Mary, olá Kate. - sorriu Clara. - Trouxemos uns presentinhos para o bebê. Parabéns!

- Obrigada, Clara! - sorriu Kate. - Quantas sacolas! Meu pai, o exagerado!!!!!!

- Achamos tantas coisas lindas que não resistimos, querida. - sorriu Clara.

Jack abraçou Mary e os dois choraram por alguns minutos, nos braços um do outro. Enquanto Kate abria os pacotes com roupinhas de griffe e brinquedos.

- Que bonitinho! Clara, vocês não deviam... - disse Clara. - Estas coisas são muito caras...

- Mas são muito lindas, querida e queremos mimar o pequenino, enquanto podemos. - disse Clara. - Vocês já escolheram o nome dele?

- Eu e o Mark discutimos isso. - disse Kate. - E o nome do bebê será Jack James Noble Benning, em homenagem ao papai.

- Que lindo! - disse Clara, com os olhos já lacrimejando.

- Obrigado querida! - disse Jack, os olhos cheios de lágrimas, abraçando a filha. - Estou muito feliz com a homenagem. Muito feliz, mesmo!

- Vamos lá conhecê-lo? - disse Mark. - Conversei com o médico e ele autorizou que vocês o visitem. Disse que ele está bem, mais alguns dias e vai para casa.

Clara e Jack caminharam pelo hospital com Mark e foram até o berçário onde a enfermeira mostrou a eles o bebê. Era bem menor que os outros, como era de se esperar, tinha a pele muito clara e estava com os olhinhos fechados.

- Jack, ele parece com você, meu amor... - disse Clara. - Que lindo!

- Parece mesmo, Jack! - disse Mark sorrindo. - pena que não podemos pegá-lo no colo ainda.

- Mas logo ele receberá alta e irá para casa com vocês. - disse Clara.

- Assim esperamos, Clara. - disse Mark. - Ficamos muito preocupados ontem, ainda não estava na hora dele nascer.

- Vocês acham que ele terá alta quando? – perguntou Clara. – O médico disse alguma coisa?

- Aqui eles não fazem esse tipo de previsão, querida. – disse Jack. – As pessoas aqui processam por qualquer coisa, então eles são muito cuidadosos com previsões. Mesmo que a pessoa vá sair amanhã, eles dizem que não sabem.

- Também acho isso excessivo, Jack. – disse Mark. – Mas você tem razão. Oficialmente eles me disseram que farão um exame na Kate hoje, mas não disseram absolutamente nada sobre a alta; eu sei porque é o que se espera, depois de um parto sem grandes complicações como o dela.

- Que horror! – disse Clara. – Nestas horas eu dou valor ao Brasil. Lá é uma bagunça, mas os médicos pelo menos não são assim, escorregadios.

- É mesmo! – riu Mark. – Você é brasileira... sempre me esqueço disso, você não tem sotaque algum... Aliás, tem horas que dá a impressão de que estou falando com alguém de Nova York, que já mora há algum tempo na Inglaterra e está começando a pegar o sotaque de lá.

- Obrigada! – sorriu Clara.- Aprendi inglês porque gostava de música e queria saber cantar as músicas que ouvia e mais tarde, quando já era adolescente, me apaixonei pela Crossroads e pelos Stones e passei a comprar tudo o que achava sobre as duas bandas. Sempre brinco que meus professores de inglês foram Jack Noble e Mick Jagger.

- Essa é boa! – sorriu Jack. – Quer dizer que até nisso aquele sujeito está metido? Mick Jagger... humpf!

- Não liga, Mark... – riu Clara. – Seu sogro é muito ciumento e ultimamente acha que o Mick Jagger quer me roubar dele.

- E quer? – perguntou Mark rindo.

- Claro que quer. – riu Jack. – Mas não vai conseguir nunca, não é querida?

- Não sei querido. – riu Clara. – Absorvo muito rapidamente a cultura do meio em que estou e a ideia dos médicos americanos, afinal não é de todo ruim.

Os três gargalharam da piada, mas ela percebeu um brilho diferente no olhar de Jack no mesmo instante e ficou com medo de que ele pudesse levar a sério o que disse.

- Eu li seu livro sobre as músicas dos Stones e achei muito bom. – disse Mark. – Coisa de quem conhece bem o contexto da banda. Li também o livro sobre a Crossroads e ele não é só bom, é uma obra-prima! E não digo isso porque estou aqui na frente do Jack, mas porque é incrível mesmo. Já reli muitas vezes.

- E qual sua história favorita? – perguntou Clara.

- A "Song of the Woods". – sorriu Mark. – Lindo trabalho! E sei do que estou falando. Sou formado em Literatura Inglesa e minha especialidade é exatamente a cultura celta. Foi a primeira faculdade que fiz, antes de resolver ser psicólogo. Quais foram as suas fontes sobre a cultura celta? Eu sou fascinado por eles, o povo da floresta, mas seu livro descreve algumas coisas que me surpreenderam de verdade.

- Se eu te disser que quase não pesquisei, você ficaria muito chocado? – perguntou Clara. – Bem é uma longa história, espero poder te contar...

Os três voltaram para o corredor onde Mary agora aguardava o final do tal exame que liberaria ou manteria Kate no hospital por mais um dia.

- Então? – perguntou Jack. – O médico vai liberá-la?

- Ele acabou de entrar para fazer o exame, Jack. – disse Mary. – Espero que sim. Assim podemos ir para a casa dela.

- Você está hospedada lá, Mary? – perguntou Clara.

- Sim, querida. – disse Mary. – Foi tudo uma confusão enorme, quando a Kate me ligou dizendo que a bolsa tinha rompido, sai correndo e vim para cá. O Frank, meu marido, está em Roma fechando um contrato e eu peguei o primeiro voo para cá.

- Nós também. – disse Clara. – Estávamos em Paris, comemorando nosso aniversário de um mês de casamento, quando a Jane ligou. Viemos correndo para cá, nem lembramos de pegar dólares, quase não conseguimos pagar o taxi para vir ao hospital porque só tínhamos euros no bolso. Aliás, Jack, você já devolveu os 50 dólares que pegou com o Mark ontem?

- Ainda não! – disse Jack estendendo uma nota de 50 para Mark – Desculpe, estão aqui. Obrigado! Ainda bem que pegamos, porque o taxi não aceitava cartão, nem euros.

- E como está a banda? – perguntou Mary. – O disco já está pronto?

- O David já está trabalhando na mixagem, no estúdio de Heathcliff Hall. Nós íamos ensaiar um pouco esta semana porque eu e a Clara vamos para o Brasil daqui uns dias.

- Brasil? – riu Mary.

- Vamos descansar um pouco antes da turnê e ter uma lua-de-mel um pouco mais longa. - sorriu Clara.

- Você vai levar sua nova esposa para a terra dela na lua-de-mel, Jack? Não tinha outro lugar? – riu Mary.

- Não é bem minha terra, Mary. – disse Clara. – Sou de São Paulo, que é uma cidade grande, tipo Nova York. Esse lugar para onde vamos, é uma praia distante, onde existe apenas uma aldeia de pescadores. Mas também passaremos uns dias em São Paulo, no apartamento em que eu morava antes de vir para cá.

- Hum, parece muito bom... - disse Mark. - O Jack merece, vai trabalhar muito nessa turnê.

- Não só ele... - sorriu Clara. - Eles me convenceram e fiz a loucura de regravar "The Light" com a banda. Também vou participar da turnê...

- Que lindo! - disse Mary. - Vocês não conheceram o Jack quando o conheci. Estávamos lá no Black Country e ele ficou obcecado com aquela fazenda que comprou. Ele ía todos os dias atrás de um historiador que deu para ele uma porção de livros sobre a cultura das pessoas que viviam lá antes do cristianismo chegar às ilhas. Entre os livros estava "O Senhor dos Anéis". Ele ficou tão fascinado que escreveu várias músicas. "The Light", "Song of the Woods", "Love You Forever" e mais algumas.

Clara tinha uma boa ideia das causas mais profundas daquela obsessão de Jack, mas preferiu manter em segredo. Pelo menos, por enquanto.

- Pois é, Menininha... - disse Jack. - Na época eu não sabia por que, achei que era por causa das histórias que meu avô contava, sobre o "povo da floresta"; mas agora já sei, aliás, nós já sabemos, não é?

- Não entendi... - disse Mary intrigada. - Você descobriu mais alguma razão para aquele seu interesse?

- Nós descobrimos... - disse Jack, abraçando Clara. - Contarei para vocês quando chegarmos em casa.

Naquele momento, a porta do quarto se abriu e o Dr Summers saiu para conversar com os três.

- Boa tarde. - disse o médico. - A Kate está bem. Falta só o resultado de alguns exames de laboratório e se eles estiverem de acordo, darei alta a ela. Conversei com o pediatra e o bebê deve ficar conosco mais alguns dias. Por sinal, ele me disse que o bebê está muito bem, sem maiores dificuldades respiratórias, agora é só uma questão de ganhar peso.

- Que ótimo! - disse Jack. - podemos então ficar com ela agora?

- Sim, claro... - respondeu o médico. - Senhor Noble, não?

- Isso mesmo, doutor. - sorriu Jack.

- O senhor é músico, não? - disse Sanders. - Engraçado, mas não consigo localizar de onde o conheço. O senhor tem algum disco gravado?

- Alguns. - respondeu Jack. - Eu fazia parte de uma banda na década de 70, na verdade estamos voltando... o nome da banda é Crossroads, o senhor conhece?

- Crossroads? - riu o médico. - Desculpa! Sou mesmo desligado... Claro, a banda que voltou, só falam disso na mídia... estou muito envergonhado...

- Imagina, doutor. - sorriu Jack. - Isso acontece muito. Eu era bem diferente naquela época.

- Todos éramos, senhor Noble... - riu novamente o médico. - O senhor era um ícone do rock, quase um Mick Jagger.

- Obrigado doutor! - sorriu Jack, tentando evitar olhar para Clara que agora gargalhava. - Então podemos dizer para a Kate que ela vai para casa hoje?

- Sim... - disse o médico. - Já disse para ela também... O senhor me dará um autógrafo, não?

- Claro doutor! - sorriu Jack. - Estamos todos muito felizes porque a Kate e o pequeno Jack estão muito bem.

Os três se despediram do médico e entraram no quarto de Kate gargalhando.

- Seu médico é muito engraçado, Kate. - disse Clara. - Primeiro ele não reconheceu seu pai e agora quer um autógrafo dele.

- O Dr Summers é mesmo uma figura. - riu Kate. - meio maluco, muito desligado, mas um ótimo médico. Salvou eu e o meu filho.

- Sim querida! - disse Jack beijando a testa de sua filha. - Pronta para ir para casa?

- Quase papai. - sorriu Kate. - Queria tanto levar o pequeno Jack comigo. Mas o doutor Hawkins disse que ele ainda precisa ganhar peso.

- Vai dar tudo certo, querida! - disse Clara. - Nós vimos o pequeno Jack e ele é tão lindo... estamos loucos para mimá-lo, não Jack?

- Pode ter certeza, Kate! - sorriu Jack. - Ele é mesmo lindo... parece comigo...

Todos riram muito da piada de Jack e Clara aproximou-se dele e abraçou-o.

- Bom, acho que daqui a algumas horas vamos mudar esta nossa conversa para nossa casa. - disse Mark, beijando Kate. - Não vejo a hora de isso acontecer e logo o pequeno Jack vai estar lá conosco.

- E nós estaremos todos ao redor dele. - sorriu Jack. - Quer saber, querida, podemos passar por aqui no caminho de volta para Londres, depois da nossa viagem ao Brasil, para mimar o pequeno Jack por uns dias, não?

- Sim amor. - disse Clara. - Podemos passar por aqui na volta.

- Obrigada, queridos! - disse Kate. - Vocês são mesmo maravilhosos, assim, tentando me ajudar a não ficar mal por deixar meu filho no hospital.

Clara e Jack aproximaram-se de Kate e a abraçaram.

Enquanto conversavam, a enfermeira entrou no quarto e pediu que todos saíssem. O Dr Summers tinha decidido pela alta de Kate e ela a ajudaria a vestir-se para partir. Mary ficou no quarto, enquanto Jack, Mark e Clara saíram novamente para o corredor.

- Obrigado por me ajudarem. - disse Mark. - Agora vai ser um momento crítico, é muito triste deixar o bebê aqui, mas acho que vamos conseguir mantê-la bem com isso.

- Faremos o que pudermos, Mark. - disse Clara. - Vamos lá para seu apartamento e ajudaremos no que pudermos, não, Jack?

- Sim... - disse Jack. - Estamos por aqui a princípio até quarta-feira, mas podemos ficar mais, se for necessário. Queremos ver vocês três bem!

- Obrigado Jack! - disse Mark. - A Kate passou muito tempo ressentida por causa da história do nosso casamento, mas desde o casamento de vocês, ela está mais feliz, fazendo planos de ir para Londres vê-los, parece que ela sente que voltou a ter uma família.

- Que bom, Mark. - disse Clara. - E você? E sua família, o que pensa disso?

- Minha família é a Kate e o pequeno Jack. - disse Mark. - Sou filho único e meus pais morreram em um acidente de avião há sete anos.

- Ah! Que pena! - disse Clara. - Isso é triste.

- Quando conheci a Kate, estava me sentindo muito perdido. - disse Mark. - Ela também sentia-se meio órfã e por isso me ajudou a superar. Agora sei que tudo será diferente.

- Me sinto em família quando estou com vocês. Estou muito feliz de estar aqui...

Jack abraçou Clara e beijou-a na testa.

Quando a enfermeira saiu do quarto, os três entraram novamente para pegar todas as sacolas e malas de Kate e ela estava, já pronta, sentada em uma cadeira de rodas, por exigência do hospital.

Jack pediu um pedaço de papel para uma funcionária do hospital, escreveu um bilhete de agradecimento com seu autógrafo e pediu que ele fosse entregue ao doutor Summers.

Logo todos estavam no apartamento de Kate, um lugar agradável, em uma boa vizinhança. Muito longe do luxo da casa de Jack Junior em Londres, aquele era o lar despretenciosamente bem decorado de dois jovens profissionais ainda lutando para alcançar o sucesso.

Todos sentaram-se na sala de estar e passaram o resto da tarde conversando e fazendo planos para quando o pequeno Jack estivesse entre eles. Jack queria os três morando na Inglaterra, perto dele, mas tanto Kate, como Mark, diziam que estavam fazendo o próprio caminho lá em Chicago e não tinham qualquer intenção de mudarem-se para a Europa.

Por enquanto, Jack parecia aceitar seus argumentos, mas Clara sabia que aquele assunto não se esgotava ali.

- E vocês? - Mary perguntou para Clara. - Quando vocês terão um filho?

- Ainda não pensamos sobre isso, Mary. - disse Clara. - Para dizer a verdade, apesar de já estarmos casados, ainda estamos nos conhecendo. E neste momento, temos compromissos demais para sequer pensarmos nisso.

- Isso é verdade. Tem o disco da Crossroads, tem o livro, a turnê e o David quer fazer um disco com a Clara. Ah! E o filme. A Clara vai adaptar uma das histórias do livro dela sobre os Stones para o cinema e até já assinou o contrato para a adaptação. - disse Jack. - Por algum tempo, nossas vidas estarão loucas demais para pensarmos em um filho nosso.

- Uau! Não fazia ideia... - disse Mark. - Acho que nossa família terá mais uma estrela em breve.

- Não sei sobre isso, Mark. - sorriu Clara. - O David e o Jack estão compondo algumas músicas e querem que eu grave, mas eu ainda estou bem longe de me sentir segura sobre isso.

- Para mim, querida, você já é uma estrela. - disse Jack. - Logo você será muito maior do que eu e até do que a Crossroads. Tenho certeza disso.

- Poxa! - disse Mark. - Estou começando a ficar com vontade de ouví-la cantar, Clara. Sabe que sou fã da Crossroads desde sempre e ouvir o Jack falando assim de você, já me deixa muito curioso e ansioso.

- Espero estar a altura da confiança que ele tem em mim. - disse Clara. - Posso até ter um dia sonhado em subir no palco, mas sempre foi uma coisa muito distante, completamente fora da realidade. Acho que no fundo, bem lá no fundo, todo mundo sonha com uma coisa assim, a fama, os holofotes... mas nem todos encontram um Jack Noble disposto a transformar esse sonho em realidade.

- Querida, onde existe talento de verdade, o caminho acaba aparecendo. - disse Jack. - Só te disse o que seus vizinhos deviam saber quando você cantava no banho... Nossa! Essa garota sabe cantar!

- Jack, você é lindo! - sorriu Clara, beijando-o no rosto.

- Vocês são lindos juntos. - disse Kate. - Só vou dizer uma coisa para você, Clara; não perde tempo com essas coisas não. Vai lá ter logo um filho, vocês fazem sentido demais juntos.

- Ah! Você ficou de me contar suas fontes sobre cultura celta, Clara. - disse Mark. - De onde mesmo você tirou aquelas histórias tão fantásticas?

- Bem, Mark. - sorriu Clara. - Nunca pesquisei nada sobre a cultura celta. A "Song of the Woods" sempre foi minha música favorita, a que mais emocionava de todo o repertório da Crossroads e por isso, quando chegou o momento em que eu devia escrever uma história relacionada à música, tive um tremendo bloqueio criativo. Comecei a escrever várias coisas diferentes, mas nada me convencia. Já estava cansada de lutar e deixei o disco para repetir seguidamente a música e me deitei, estava ansiosa, comecei a achar que não conseguiria escrever... peguei no sono e sonhei com um mago, que me contou exatamente aquela história sobre um cavaleiro que se apaixonava por uma visão que teve no bosque. Acordei e digitei tudo de um fôlego só.

- Estou impressionada! - disse Mary. - Você sabe que aquela é a história do Jack, do momento em que ele fugiu de casa e começou a andar no bosque próximo daquelas montanhas em que nós subíamos quando éramos adolescentes. Como você sabia disso? Não lembro de ter visto o Jack falando sobre isso em nenhuma entrevista.

- Aí é que está! - disse Jack, segurando a mão de Clara. - Ela não sabia e sonhou com coisas que aconteceram comigo. Por isso a chamei para me ajudar com o livro e por isso estamos juntos hoje. Aliás, por isso e por mais algumas outras coisas, que descobrimos depois...

- Estou ficando ainda mais curiosa, pai. - disse Kate. - Então aquilo que vocês disseram na entrevista na TV...

- Era só um jeito que arrumamos para não revelar que a autobiografia do Jack não será escrita por ele, mas por mim. Sou a ghost writer dele. - sorriu Clara. - Melhor contar a vocês toda a história; recebi um convite da editora de Nova York para ajudar o grande Jack Noble a escrever sua autobiografia, deveria encontrá-lo em Nova York, gravar algumas entrevistas, passar alguns dias na casa da montanha, escondida e escrever o livro, mantendo ao máximo a impressão de que ele era o autor.
Bom, isso não aconteceu. Me apaixonei perdidamente por ele, no dia em que o conheci e acabamos ficando juntos, mas estávamos só namorando, nos conhecendo, quando ele resolveu me pedir em casamento e me contou que tinha pensado em mim para o trabalho do livro, porque tinha visto a si mesmo, no cavaleiro do meu livro.

- Nós achamos que o tal sonho era um sinal de que deveriamos ficar juntos. - disse Jack. - e então, consegui dobrar a Clara que não queria se casar comigo de jeito nenhum.

- Eu achei que era cedo demais para casarmos, mal nos conhecíamos. - disse Clara.

- Mas depois, começamos a sonhar um com o outro. - disse Jack. - Éramos nós dois, mas em outra época e descobrimos, depois que o David hipnotizou a Clara, que nossos sonhos não eram só sonhos, eram memórias de uma vida passada em comum.

- Sério? - perguntou Kate. - Mas vocês dois sonharam?

- Sim, querida. - disse Clara. - Parece uma conversa de malucos, mas vimos cada detalhe do que nos aconteceu. Uma história de amor muito bonita, mas muito triste porque só pudemos ficar juntos por pouco tempo; mas sim, estávamos juntos, éramos da religião da Deusa e construímos nossa casa no topo daquela montanha onde fica a casa de campo do seu pai.

- É incrível! - disse Mary. - Vocês sabem que sou descendente de indianos e embora minha família não seja exatamente religiosa, para nós, essas coisas de carma e reencarnação são verdades absolutas. É como uma coisa que você sabe que funciona assim e pronto. Bom, o que eu quero dizer é que sempre convivi com essa ideia de que as pessoas vivem muitas vidas. Ouvi muitas histórias sobre pessoas que lembram de suas vidas passadas, e mesmo para mim, a história de vocês é surpreendente e assustadora.

- Para mim é muito mais. – disse Clara. – Eu não acreditava em nada. Meus pais tentaram me levar para a igreja católica, mas nunca conseguiram. Sempre fazia perguntas que os embaraçava e eles acabaram desistindo de mim. Bem, quando tinha 22 anos, estava muito deprimida com o final de um relacionamento e minha mãe me obrigou a fazer terapia. Mas comecei a namorar com meu terapeuta e ele era um estudante dos ditos assuntos esotéricos. Aprendi uma porção de coisas com ele, mas nunca deixei de questionar. Vocês não imaginam como fiquei quando estes sonhos começaram a acontecer...

- Aqui nos EUA isso não é muito comum, mas já trabalhei com colegas que faziam essas sessões de hipnose e as pessoas descreviam coisas e situações que só podiam indicar a possibilidade de outras vidas. – disse Kate. – É impressionante e se isso não fosse criar imediatamente um circo gigantesco na mídia, eu iria pedir para vocês me contarem essa história em detalhes para um estudo, ou quem sabe um livro.

- É verdade. – disse Clara. – a mídia. Esse é nosso maior medo! Nunca mais teríamos paz se eles descobrissem isso. Acabamos de correr um risco muito grande de isso acontecer na semana passada. O Jean Paul, o estilista que tem feito algumas roupas para mim, fez um vestido para eu usar no palco que era idêntico ao vestido que eu e o Jack tínhamos visto em nossos sonhos. Quando ele chegou com o vestido pronto, para vermos, nós dois começamos a chorar. Ele não entendeu nada e ficou sentido de não contarmos a razão daquilo para ele.

- É melhor terem mesmo cuidado. – disse Mark. – Vocês não podem deixar isso vazar para a mídia de jeito nenhum. Nossa! Posso imaginar a repercussão...

- Engoliria nossas carreiras para sempre. – disse Clara. – Acho que nem a fama da Crossroads conseguiria fazer frente a algo assim.

- E vocês tiveram filhos nessa vida passada? – perguntou Mary.

- Não. – disse Clara.

- Então deve ser por isso que estão juntos novamente. – disse Mary. – Para ter filhos.

- Não sei. – disse Clara. – Nós éramos muito jovens, eu era uma aprendiz do Templo, uma futura sacerdotisa da Deusa e o Jack era o terceiro filho do senhor de toda a região. Ele me viu em uma festa da vila e me sequestrou. Me levou para uma caverna perto do topo da montanha. Eu fugi dele, mas quando voltei para o Templo, minha mestra disse que aquele não era mais o meu destino e me expulsou de lá. Então, decidi me matar. Me atirei em um lago que ficava próximo ao povoado, mas o Jack me salvou e me levou novamente para a montanha. Me apaixonei por ele e começamos a construir uma casa lá no alto. Por alguma razão que não sei, fizemos amizade com uma matilha de lobos que viviam por ali e as pessoas da vila passaram a nos temer. Mas um dia o Jack foi para a vila comprar mantimentos para o inverno que se aproximava, os irmão dele o sequestraram na estrada e o levaram para a guerra. Ele morreu no caminho para sua primeira batalha e mesmo morto, voltou para a montanha. Não me perguntem como ou porque, mas eu o via perdido na ilusão de que estava voltando para mim, só que não conseguia que ele me visse e ele achava que eu o tinha abandonado. Tentei ajudá-lo, mas não conseguia, então busquei conhecimentos até conseguir assumir para ele a aparência de um lobo. Queria assustá-lo para tentar expulsá-lo da montanha, ou quem sabe faze-lo tomar consciência de sua condição, mas ao invés disso, ele se ajoelhou na minha frente e me pediu para matá-lo e eu o matei. Ele perdeu a consciência e até o final dos meus dias eu o via dormindo serenamente naquele campo de alfazemas que existe até hoje próximo à casa da montanha.

- Que história mais comovente. – disse Kate chorando. – Vocês precisam ser felizes juntos. Por favor. Esqueçam tudo! Esqueçam o trabalho, a música e vão ser felizes!

- E vocês sonharam com tudo isso? – perguntou Mark. – É impressionante... nunca tinha ouvido nada igual. Você vai escrever essa história, Clara. Não vai?

- Não sei se consigo. – disse Clara. – estou muito envolvida emocionalmente, acho que seria muito doloroso colocar isso no papel.

- Por que vocês acham que lembram disso tudo? – disse Mary.

- O David, que também estudou esses assuntos, acha que eu estudei magia com o povo da floresta e que isso me fez desenvolver alguns poderes que me permitem ver o passado. E ele acha que uma parte de mim reconheceu o Jack e por isso essas memórias vieram à tona.

- Talvez... – disse Mark. – De qualquer forma, são experiências importantes para ambos. É interessante ver que por causa disso os dois morreram sentindo-se abandonados.

- Sim... – disse Clara. – E depois que soube de tudo, percebi que duas coisas sempre foram muito fortes em mim, o desprezo pela religião instituída e a sensação de abandono e agora entendi o porquê e tudo passou a fazer mais sentido, meu terapeuta ficaria orgulhoso de mim.

- O Jack também tinha isso. – disse Mary. – Quando nos separamos, ele quase morreu. Ele não aceitava ser abandonado de jeito nenhum. Tive que bater nele para entender que nosso casamento tinha terminado.

- Aquele momento foi um pesadelo na minha vida. Eu estava tão deprimido que fiquei doente e quando a Mary me disse que queria o divórcio, eu desmoronei... Quase morri.

- Isso é muito louco. - disse Mark. - Nunca pensei que fosse ouvir uma história como essa.

O celular de Jack tocou, era David avisando que já estava em Heathcliff Hall e querendo saber como estavam as coisas e Jack contou que se tudo continuasse correndo bem, eles embarcariam na quarta-feira de volta para Londres.

- Kate... – disse Jack. – Mudando um pouco de assunto, você sabe que o seu pai agora está ganhando uma quantia irracional de dinheiro. Será mesmo que você e o Mark não podem levar o trabalho de vocês para Londres? Sabe, lá também tem muitas crianças pobres que precisam de ajuda; só que estaremos mais perto, eu comprei uma nova casa, perto da casa do Jack Jr e da Jane e você sabe que tenho aquele apartamento em Kensington, onde morava com a cantora americana... Eu mandei reformar, não queria nada nele que me lembrasse daquela criatura e já está quase pronto. Vocês podem mudar para lá, posso ligar para o Michael e passar ele para o seu nome. O que você acha?

Clara ficou um pouco chocada com a atitude de Jack, que apesar de carinhosa e aparentemente desprendida era tão egoísta quanto a que seu pai teve quando acabou com suas chances de conseguir uma vaga como correspondente de uma emissora de TV em Nova York.

- Ai pai... – disse Kate. – Isso de novo?

- Querida, vocês podem ter mais apoio lá. – disse Jack. – Você quer fundar uma ONG? Montar um abrigo? Uma escola? – continuou. – Eu tenho os recursos, vocês entram com o trabalho. Se precisarem de mais mão-de-obra, eu e a Clara trabalhamos também, e de graça!

Clara sorriu e confirmou que estava disposta a ajudar.

- Jack. – interrompeu Clara. – Eu entendo a Kate. Passei por uma situação parecida, tinha muitos amigos na redação de um telejornal em uma emissora de TV brasileira e eles conheciam meu trabalho e estavam dispostos a me mandar para Nova York, como correspondente. Eu estava com 26 anos e aquele era um dos meus maiores sonhos. Mas quando meu pai soube, ele ligou pessoalmente para o diretor da emissora, que tinha trabalhado com ele em um jornal, e o fez barrar minha contratação.
Hoje eu sei que ele não fez isso por mal, teve medo de que eu não conseguisse me virar bem sozinha, mas esse passo praticamente destruiu minha carreira no "jornalismo sério". Depois, ele conseguiu que me indicassem para trabalhar no caderno de cultura de um jornal e aí, contra a minha vontade, me tornei uma crítica de cinema e de música... Mais tarde passei até a gostar da nova função, mas não tinha um dia em que não ficava imaginando como seria minha vida se tivesse ido para Nova York. Por isso, querido. Quero que agora você se lembre do que seu pai tentou te fazer aceitar e se imagine como o gerente de banco ou contador que ele tanto queria que você fosse...

- Você tem razão, meu amor. Mas a situação é diferente. O que ofereço aqui para vocês é aquilo que vocês quiserem fazer, só que do outro lado do mar... Falei na ONG, mas se quiserem consultórios chiques ou clínicas, ou o que vocês quiserem. Me explorem... Tenho muito mais dinheiro do que preciso... Peçam o que quiserem, só não me façam dar dinheiro à Clara, porque se fizer, ela me abandona...

- Como assim, pai? – riu Kate.

- Quando ela gravou comigo no estúdio, o Michael chamou-a no escritório para pagar pelo trabalho e ela quase me fez engolir o cheque. – riu Jack. – achou que era um truque meu para dar-lhe dinheiro depois do contrato pré-nupcial que ela me obrigou assinar.

- Como assim? – sorriu Kate. – Você fez ele assinar o contrato pré-nupcial?

- O Michael quis proteger os interesses dos herdeiros legítimos de seu pai e preparou um contrato muito justo com cláusulas que não me permitem levar nem um centavo, se nos divorciarmos ou se ele morrer... separação total de bens e tive que brigar com ele para que assinasse e quando vi o cheque que eles queriam me dar por gravar apenas uma música, achei que era uma manobra para passar o dinheiro que é de vocês por justiça para mim e fiquei um pouco irritada.

- Não sabia disso. – disse Mary rindo. – Parabéns! Você é uma das nossas!

- Obrigada! – sorriu Clara. – Não canso de repetir para seu pai que não me casei por dinheiro.

- Olha, pai. – disse Kate. – Sua proposta não é ruim, mas como a Clara, não estamos nisso por dinheiro, estamos porque é uma coisa que nos realiza. Quando o pequeno Jack começou a nascer antes da hora, eu e o Mark ficamos apavorados, mas percebemos que éramos capazes de segurar essa também e por isso ficamos felizes. Hoje estamos aprendendo mais uma lição. Desculpa Clara, mas quando soubemos que vocês iam casar, achamos que você estava tentando dar um golpe no
velho... Mas depois, quando a conhecemos em Heathcliff Hall e mais tarde, quando o Michael nos contou sobre o contrato pré-nupcial, que você praticamente forçou meu pai a assinar...

- Daí em diante, - interrompeu Mary. - percebemos que não só ele tinha escolhido muito bem, como entendemos que também o amava, como nós o amávamos...

- Mas o que quero dizer aqui, mamãe... – disse Kate. – É que não estamos aqui por rebeldia, nem por ser alguma coisa estratégica para nossas carreiras, mas porque acreditamos que podemos conseguir por nós mesmos. Mas se é tão importante assim que estejamos perto de você, sim, podemos nos mudar para Londres, mas não precisamos do apartamento de Kensington, podemos alugar consultórios ou conseguir trabalho em instituições de lá. Mas a minha pergunta é por que você nos quer por perto?

- Porque sinto que passei muito tempo negligenciando você e o Jack Jr. – respondeu Jack. – Queria que o tempo voltasse e eu pudesse te dar aquilo que não dei quando estava na estrada trabalhando. Eu deveria ter mimado vocês dois quando podia, mas já que isso não aconteceu, pelo menos me dá a chance de mimar meu neto... Por favor querida... pensa nisso com carinho.

Kate sorriu, levantou-se do sofá e abraçou Jack. Tinha decidido mudar-se para Londres assim que fosse possível e isso fez Jack muito feliz.

- Vamos jantar? – perguntou Mark. – O que vocês preferem? Comida chinesa, pizza, japonesa?

- Comemos aquilo que vocês preferirem. – disse Jack. – O que você acha querida?

- Do que vocês gostam mais? - perguntou Clara.

- Da pizza... – disse Kate. – É muito boa...

- Perfeito, então pizza! – disse Jack. – Quer que vamos buscar?

- Não precisa... – disse Mark. – tem uma pizzaria ótima que sempre nos trás pizza aqui, vou ligar.

E a noite seguiu com todos fazendo planos felizes e tranquilos, para o futuro do pequeno Jack, que permanecia no hospital, totalmente alheio ao que acontecia por lá. Em breve, ele se mudaria para Londres, para mais perto dos olhos de Jack e de Clara, seus futuros "mimadores" oficiais.

Mais tarde, Jack e Clara pegaram um taxi de volta ao hotel. Estavam cansados, um pouco tontos com o fuso horário, mas felizes porque Jack tinha conseguido o que queria, convencer Kate a ir morar mais perto dele; depois de vê-la afastar-se por anos.

Jack estava mais cansado do que Clara e por isso, deitou a cabeça em seu ombro no caminho e apenas descansou enquanto o taxi seguia de volta. O frio da noite de Chicago era torturante, mas ela estava tão enlevada pela alegria de Jack, que nem o sentia mais.

- Minha vida, acho que terei que correr quando o carro parar... estou congelando...

- Amor... - disse Jack. - que mão gelada! O frio daqui é cruel até para mim...

Jack pagou o taxi e os dois correram para dentro do hotel. Subiram para sua suite e resolveram aproveitar a banheira gigante de mármore para aquecerem-se e relaxarem um pouco, antes de irem dormir.

- Amor... acho que hoje estamos bem... - sorriu Clara. - Quando te disse que me senti em família hoje à tarde não estava brincando. Meu coração sentiu-se aquecido lá na casa da sua filha. Sempre achei que essa seria uma situação muito estranha para mim, mas não foi...

- Eu percebi... - disse Jack. - e fiquei muito feliz em sentir o que senti lá. Você é uma parte de mim, Clara... A melhor, por sinal...

- Te amo tanto, Jack... - sorriu Clara. - Às vezes sinto que somos a mesma pessoa...

- Linda! - disse Jack, beijando-a.

E a doce rotina de amor, recomeçou na banheira e seguiu no quarto. Estavam juntos, felizes e voltariam em dois dias para casa, sentindo-se parte um do outro como nunca haviam sentido antes.

Quando a terça-feira amanheceu, ainda estavam abraçados. Clara levantou-se, vestiu seu robe de seda e caminhou até a janela. O lago Michigan brilhava a seus pés, parecia uma jóia refletindo a luz alaranjada do céu dos primeiros momentos da manhã. Um espetáculo tão lindo que ela decidiu registrá-lo em uma foto.

Jack também acordou e caminhou até ela. Não disse nada, apenas aproximou-se por trás, abraçou-a e beijou-a no topo da cabeça. Ela então, completamente envolvida por seus sentimentos, virou-se e beijou-o. Os olhos de ambos cheios de lágrimas pela beleza daquele momento. Duas pessoas totalmente entregues ao amor, enquanto Chicago lentamente acordava lá embaixo.

- Querida, a que horas mesmo vamos ao hospital ver o pequeno Jack?

- Às duas, amor. - respondeu Clara, aninhada nos braços do marido. - A Kate e a Mary vão para lá às 10. Estava pensando... conhece algum restaurante bom aqui em Chicago, onde possamos jantar todos juntos, amanhã vamos embora, não? Seria bom termos um dia bem gostoso com eles por aqui, antes de voltarmos para casa.

- Você tem razão, querida. - respondeu Jack. - Vamos passar o dia juntos, seremos uma família de agora em diante. Não vejo a hora de pegar o pequeno Jack no colo e levá-lo no estádio para ver uma partida do Wolves.

- Aposto que sim... meu amor! - disse Clara, acariciando os braços de Jack. - Você é adorável, sabia?

- E o nosso? - perguntou Jack.

- Não entendi. - disse Clara.

- Nosso filho... - respondeu Jack. - Vamos fazer um pelo menos, não vamos?

- Querido... - disse Clara surpresa. - Claro que sim, meu amor. Quando tudo estiver mais calmo, faremos sim o nosso pequeno Jack ou nossa pequena Clara...

- Assim que chegar em casa, vou ligar para o médico que me operou. Ele disse que se eu quisesse, podia reverter a cirurgia, ou fazer uma inseminação artificial. - Jack sorriu. - Vamos lá costurar tudo de volta, para que eu possa te engravidar, meu amor.

- Você é incrível, Jack. - disse Clara. - Quero muito ter um filho seu e espero que ele seja exatamente como você, o Amor transformado em gente.

- Ai, Menininha... - disse Jack abraçando-a ternamente e beijando-a. - Vamos tomar café da manhã?

- Vamos sim, querido. - sorriu Clara. - também estou com fome. Ligo para o serviço de quarto?

- Pode ligar, amor. Já vou me vestir. - disse Jack. - Estou com vontade de comer panquecas hoje.

- Vou pedir, então.

Clara ligou para o serviço de quarto, enquanto Jack procurava por suas roupas na mala. Assim que desligou o telefone, ela foi até ele e separou algumas roupas para ela mesma.

Mais uma vez o balé de cuidados e carinhos era encenado no quarto. Jack penteou cuidadosamente os cabelos longos de Clara e ajeitou-os em uma trança. Ela, por sua vez, ajudou-o a vestir um suéter de gola alta e depois acertou os cachos louros de seu cabelo, com o cabo do pente.

- Menininha... não tenho palavras para dizer o quanto está sendo maravilhoso viver com você. - disse Jack pegando a mão de Clara e beijando-a. - Desde que você apareceu na minha vida, até as coisas que eu achava impossíveis, estão acontecendo. Minha filha nem falava mais comigo, agora eu consegui convencê-la a voltar para casa...

- Querido... Você não imagina o quanto isso tudo me faz feliz. Quando você está assim, perto de mim, o mundo lá fora fica todo cor de rosa. Vai parecer incrivelmente tolo isso, mas quando estou com você, me sinto no paraíso.

- Não é tolo, amor... - respondeu Jack, ajeitando a gola do casaco de couro de Clara. - porque também me sinto assim. Desde a primeira vez que te vi, nada mais importa, a não ser ficar perto de você e te ver feliz.

Os dois tomaram o café da manhã e desceram para uma caminhada nas movimentadas ruas próximas do hotel. Compraram mais presentes para Kate e para o pequeno Jack e mais algumas roupas quentes para ambos, porque tinham sentido muito frio na noite anterior.

Algumas pessoas reconheceram Jack em um dos shoppings em que entraram e começaram a cercá-lo, pedindo autógrafos e batendo fotos, aos poucos formou-se um verdadeiro tumulto e os dois acabaram presos dentro de uma loja, cercada por fãs e precisaram da ajuda da segurança do shopping para conseguir chegar à rua e pegarem um taxi de volta ao hotel.

- Jack... - disse Clara já dentro do taxi. - fiquei apavorada, amor...

- Eu também. - respondeu Jack. – Há muito tempo não tinha esse problema. Mas acho que com a volta da Crossroads é melhor nos acostumarmos.

- Parece um sonho... – disse Clara. – Cada vez que lembro que vocês vão fazer shows novamente juntos... fico tão feliz.

- Logo, querida... logo mesmo...

Os dois desceram do taxi e entraram rapidamente no hotel, estavam com a impressão de que se demorassem muito tempo naquela área movimentada da cidade, logo seriam cercados novamente.

Jack e Clara subiram para o quarto, deixaram as sacolas e desceram para almoçar em um restaurante japonês que viram no caminho de ida a poucos quarteirões do hotel. Mas desta vez, Clara prendeu os cabelos de Jack e colocou um boné para que fosse mais difícil reconhecê-lo.

Almoçaram e pegaram um taxi na porta do restaurante até o hospital, onde se encontrariam com Kate, Mark e Mary.

- Nossa pai... – riu Kate ao vê-lo de boné. – O que aconteceu?

- Tomamos um susto em um shopping hoje de manhã, eu e a Clara ficamos presos dentro de uma loja cercada de fãs e só conseguimos sair de lá com a ajuda da segurança. Então decidimos não facilitar... – riu Jack.

- Foi complicado... – disse Clara. – em questão de minutos, toda a frente da loja estava tomada de pessoas e elas filmavam, fotografavam... foi bem assustador.

- Ah querida... – sorriu Mary. – Precisa se acostumar com isso. O Jack chama atenção de longe e isso acontecia muito na época em que éramos casados. Acho que passamos alguns anos sem poder sairmos sozinhos, tinha sempre que levar um ou dois seguranças para simplesmente andarmos por aí.

- Quando eu era pequena, ficava apavorada. – disse Kate. – tinha muito medo daquele pessoal maluco que cercava meu pai, de repente.

- Ah! Trouxemos mais uns presentinhos para você e para o pequeno Jack. – disse Jack, entregando as sacolas que tinha nas mãos para Kate. – Dissemos que vamos mimá-lo.

- Obrigada papai. – disse Kate sorrindo. – Já vi que terei dificuldades para criá-lo como uma criança normal.

- Ah! Querida... – sorriu Jack. – Quem quer ser normal? Ele é meu neto, não é?

- Você já o viu hoje? – perguntou Clara. – Como ele está?

- O pediatra disse que ele está reagindo muito bem e que já ganhou algum peso. – disse Kate. – Disse que se continuar nesse ritmo, pode ser que ele seja liberado logo para vir para casa.

- Que ótimo! – disse Jack. – Daqui uns 15 dias vamos para o Brasil e passamos aqui na ida, ficamos uns dias com vocês e depois, na volta, passamos novamente e podemos até ajudar com a mudança para Londres. Que tal amor?

- Claro, querido! – sorriu Clara. – O que você quiser...

- Mas papai, não posso mudar assim, de um minuto para o outro. – disse Kate. – Preciso me organizar, encontrar pessoas para cuidar da ONG aqui, vender nosso apartamento... Não acho que vá conseguir fazer tudo isso antes da turnê.

- Mas vocês vão conosco para Londres para a estreia, não vão? – perguntou Jack. – Até lá, a casa que nós compramos estará pronta e vocês podem se hospedar lá pelo tempo que for necessário. Tem 9 quartos, pelos planos que a Clara fez, são 2 só para hóspedes. Vocês vão, ficam conosco e arrumamos uma boa babá para deixar o pequeno Jack, enquanto vocês vão assistir ao show. É isso, não é amor?

- Sim, querido. – sorriu Clara. – Vai ser muito bom hospedá-los na nossa casa. Vou mandar colocar um berço para o pequeno Jack no quarto e deixar tudo lindo para vocês.

- E nós temos outra novidade. – disse Jack. – Vocês nos animaram tanto, que assim que chegarmos em Londres, vou procurar o médico que fez minha vasectomia para revertê-la. Queremos ter um filho, assim teremos muito trabalho para mimar duas crianças...

- Que bom que decidiram isso. – sorriu Kate. – esse bebê de vocês será alguém muito especial.

- Estou muito feliz por vocês! - sorriu Mary.

O grupo seguiu pelos corredores do hospital até o berçário, onde Kate entrou e vestindo roupas apropriadas e uma máscara, pode pegar o pequeno Jack em seus braços. Clara desligou o flash de sua câmera e bateu uma foto dos dois juntos através do vidro.

Todos ficaram lá no berçário até serem expulsos pelas enfermeiras no horário em que terminavam as visitas. Daí seguiram a pé, pela rua do hospital até um café, onde passaram o resto da tarde conversando.

Não foram incomodados desta vez e passaram algumas horas alegres, animados pelos prognósticos do médico que estava cuidando do pequeno Jack.

Jack tinha muita vontade de ajudar a filha e o genro e tinha feito um pequeno plano com Clara para que isso desse certo. Primeiro, Clara chamaria Kate para uma conversa e ofereceria a ela um dinheiro, pedindo que ela não contasse a Jack, nem a Mark, porque talvez eles se opusessem àquela ajuda.

Ao mesmo tempo, Jack faria o mesmo com Mark, pedindo que ele não dissesse nada a Kate. E por último, ele entregaria a Mary uma boa quantia para que ela entregasse aos dois.

Kate não gostou muito daquilo, mas acabou concordando porque entendeu que Jack fazia aquilo por amor a eles.

Depois de um bom jantar em um dos melhores restaurantes na cidade, Jack e Clara se despediram, porque embarcariam logo cedo, na manhã seguinte, de volta a Londres e voltaram felizes ao hotel, porque sua estratégia havia dado certo e Jack conseguiu dar 200 mil dólares à filha, de modo indireto, 50 mil para cada um e mais 100 mil para Mary entregar-lhes depois.

Na viagem de volta a Londres, os dois estavam cansados, mas muito felizes. O jato particular partiu às 9 da manhã do aeroporto O'Hare e após 9 horas de voo, chegou em Londres à meia-noite.

Continua