31 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXVI


Logo após o almoço, Cindy levou Clara de volta ao hotel e foi para Heathcliff Hall. Ela subiu até a suíte e decidida a relaxar trocou-se de roupa, atirou-se na cama e ligou a TV. Ficou zapeando por algum tempo, não queria pensar em mais nada naquele dia; mesmo assim sua cabeça fervia.

A programação da TV não ajudava, ela que tantas vezes reclamava da TV que se fazia no Brasil, encontrava no ar apenas reprises de seriados, infomerciais, novelas e programas tão ruins que começou a sentir um certo orgulho das coisas que assistia em casa.

Decidiu parar em um documentário interessante sobre os grandes romances através da história, que explicava como a ideia do amor romântico era muito recente na história do ser humano.
Embora o filme tivesse bases científicas com depoimentos de psicólogos e historiadores, Clara sentiu-se um pouco triste em saber que muitas histórias de amor que ela imaginava verdadeiras eram simples literatura, personagens e situações ficcionais que emocionavam, mas que nunca aconteceriam de verdade, porque simplesmente não era daquele jeito que as coisas funcionavam na época, os casamentos eram decididos pelas famílias e amor ou afinidade nunca faziam parte da equação.

Aliás, ficou tão triste que decidiu descer para andar até um dos mercados próximos do hotel e comprar bobagens para comer, chocolate, batatas fritas e um bolo de chocolate.

Ela não sabia o que estava acontecendo com ela, mas conhecia os sintomas, a ansiedade estava ganhando mais uma batalha e agora ela se manifestava em uma de suas faces mais conhecidas: o festival de comida calórica.

Para diminuir sua culpa, comprou também maçãs, morangos e alguns cachos de uva.

Voltou ao hotel e quando abriu a porta da suíte surpreendeu-se. Jack e David já estavam lá, sentados na sala de estar conversando, com copos de uísque nas mãos.

- Oi amor, que bom que você já chegou! Oi David!

- Olá Clara! Tudo bem? - respondeu David em português.

- Tudo! - respondeu Clara em português.

- Pronto! Já começou! Vão falar em português de novo... - disse Jack rindo - só para me irritar.

- Não amor, não se preocupe, vamos voltar ao inglês assim que terminarmos de falar mal de você. - respondeu Clara rindo - Não é David?

Jack não disse nada, apenas ergueu-se do sofá e veio na direção de Clara, tirou a sacola de suas mãos, colocando-a sobre um dos sofás e a beijou. Um beijo apaixonado e completamente inesperado.

- Do que vocês falavam? - perguntou Jack a seguir com um sorriso nos lábios.

- Nada, Jack... desculpa estávamos brincando. - respondeu Clara. - Como você está hoje?

- Bem, eu e o meu amigo David acabamos de ganhar mais alguns milhões assinando um contrato e estávamos aqui pensando em uma comemoração.

- Hum! Parabéns meninos! Por uma daquelas coincidências incríveis, estou voltando do mercado da rua de trás e trouxe algumas guloseimas que podemos dividir, como chocolate, batatas fritas e até um pequeno bolo. Que tal?

- Sério, amor? Deixa eu ver... Uvas? Pringles? Temos nossa festa aqui. – disse Jack.

- Esta é muito boa, mas já liguei para a Cindy e vamos jantar naquele restaurante francês que você e ela gostam tanto. – disse David.

- Sim e depois viremos para cá para ouvir um pouco de música e contar para vocês exatamente como será a volta do Crossroads. – disse Jack.

- Nossa! A comemoração de vocês está me parecendo bem melhor! Acho que as coisinhas que eu comprei servirão de sobremesa para quando voltarmos.

- Claro! Teremos uma noite maravilhosa. Mas vocês terão que me aturar aqui. Pedi para a Cindy trazer minhas roupas e vou me preparar aqui mesmo para irmos ao restaurante. – disse David.

- Sem problemas, não faz mesmo sentido ir até Heathcliff Hall para voltar em seguida. – disse Clara. – Vocês já fizeram reserva no Chez Montagne?

- Já! Pedi para o concierge fazer. – respondeu Jack.

- Ótimo! Então vou só me arrumar. Com licença, rapazes.

Clara guardou suas compras no frigobar e subiu para o quarto em busca de algo apropriado em seu closet para vestir. Encontrou o vestido cinza que tinha usado em Nova York e a echarpe azul; só que desta vez ela colocaria os brincos e o colar de diamantes.

Para Jack, separou o terno preto, a camisa cinza e a gravata também cinza que comprou em Paris.

Também pegou a nécessaire com a maquiagem que usaria e arrumou a bolsa e os sapatos que os dois usariam. Pensou no que fazer com os cabelos e decidiu apenas amarrá-los em um rabo de cavalo alto. Com tudo decidido entrou no banho e começou a preparar-se. Enquanto ainda secava os cabelos, Cindy chegou à suíte e subiu ao quarto para conversar com Clara.

- E aí, amiga? Nos vemos antes do que eu esperava.

- Pois é! Nem tive tempo de conversar com o Jack sobre a casa. E a Jenni? Não vem?

- Não, querida. Foi para Paris por uns dias... Então os rapazes estão no topo do mundo novamente, não?

- Sim, isso é maravilhoso! Estou super feliz, nem sei dizer o quanto.

- Este é o vestido que você vai usar?

- É! Não é o mais sofisticado do mundo, mas é bonito. Eu usei ele em Nova York no show lembra?

- Lembro. É bonito, tem um ar chic.

- Bom, amiga, vou descer e me arrumar também, trouxe uma mala com roupas para mim e para o David e vamos também nos preparar para o jantar.

- Ok. Se você puder, pede para o Jack subir.

- Claro. Vou chamá-lo lá embaixo. Ele está bebendo com o David.

Jack subiu imediatamente. Entrou no quarto e foi direto ao banheiro onde Clara ainda secava os cabelos.

- Precisa de ajuda, amor? – perguntou Jack.

- Não. Está tudo bem. Você não vai tomar banho? – perguntou Clara.

- Sozinho? Ah! Não tem graça! – disse fingindo tristeza.

- Que bonitinho; fazendo birra para tomar banho. – riu Clara.- Vou te ajudar, então. Vem aqui, que te deixo peladinho!

- Hum! Agora gostei da ideia. Me ajuda com essa roupa aqui, vem amor.

Clara ajudou Jack a despir-se e levou-o pela mão até o chuveiro. Depois beijou-o e voltou aos cuidados com seu cabelo.

Quando Jack saiu do banho, ela passou hidratante em todo seu corpo e secou os seus cabelos, amassando os cachos para mantê-los bonitos.

Clara prendeu seus próprios cabelos e os dois vestiram-se rapidamente. Ela ainda fez uma maquiagem discreta e Jack ajudou-a a colocar o colar de diamantes.

Agora os dois estavam prontos para ir ao restaurante, desceram as escadas e ficaram esperando por David e Cindy.

Quando todos estavam prontos, eles desceram, subiram nos carros e foram para o restaurante. Na porta, os paparazzi de plantão ganharam o dia. Nenhum assunto era mais quente do que a volta da Crossroads e dois membros da banda, bem vestidos, chegando a um dos melhores restaurantes de Londres, era o tipo de coisa que interessaria a muitos jornais e revistas.

Em estado de graça, tiveram uma refeição maravilhosa. Agora que estavam novamente sob a mira de toda a imprensa, Michael colocou um segurança para ficar com cada um dos membros da banda e assim, dois seguranças acompanhavam o grupo e evitavam a aproximação de repórteres e fãs; mas um paparazzo encontrou uma posição estratégica e conseguiu fotografá-los dentro do restaurante. A foto, em que brindavam, foi publicada em um tablóide com a manchete: "Crossroads comemora contrato milionário".

- Bem, queridas senhoras, caro Jack Noble brindo agora ao melhor contrato da história da música e à vida boa que teremos nos próximos anos graças a ele!

- E eu, caros amigos, brindo a Clara! A mulher que transformou minha vida em um sonho! Que fez o sol nascer mais uma vez em meu horizonte e me trouxe de volta a inspiração e a vida!

Na saída ainda mais fotógrafos cercavam a frente do restaurante e os seguranças precisaram interferir para que os quatro chegassem aos carros. Clara ficou com medo de que os seguissem e ela tivesse que ver novamente as cenas assustadoras do caminho do ginásio em que tocaram em Paris, mas desta vez eles não tiveram este problema e em poucos minutos estavam de volta ao hotel.

Estavam tranquilos quando subiram para a suíte, David e Cindy passariam a noite em um dos quartos anexos e por isso, continuaram a comemoração noite adentro, com muito champagne e as frutas e chocolates que Clara comprou.

- Então, estou curiosa, como será a turnê? – perguntou Clara.

- Teremos um avião e um ônibus top de linha para viajar. As esposas viajam junto sempre que quiserem e serão só 10 shows em cada continente. E em homenagem a minha pequena princesa faremos dois shows no Brasil.

- Jack! Que lindo!

- E fica melhor... Nosso contrato é o maior da historia da música e o Peters calcula que cada um de nós terá aproximadamente um bilhão de libras no final.

- Mas é muito dinheiro, Jack. Sério?

- Seríssimo. E neste cálculo ainda não entrou a publicidade e a venda de direitos de transmissão para TV e internet.

- Viu só, Clara. – disse Cindy. – Você pode pegar seu cartão platinum e trazer Paris para casa agora.

- Pode sim, amor. Vamos para lá amanhã?

- Não. Cindy, não alimenta a maluquice do Jack, por favor. – disse Clara rindo. - Tem show amanhã à noite em Liverpool.

Enquanto eles falavam sobre os milhões que receberiam, David levantou-se e pegou mais uma garrafa de champagne e a abriu, encheu as taças, as distribuiu e disse que gostaria de fazer mais um brinde.

- Para Clara aquela que tornou tudo isso possível! A maior responsável por tudo o que está acontecendo aqui.

Já sem jeito com tantos brindes e homenagens, Clara decidiu que deveria mudar um pouco o clima e foi buscar um CD player portátil que Jack tinha comprado na semana anterior e propôs que a comemoração se mudasse para o terraço.

Clara pegou uma seleção de standards românticos da música americana em seu iPod e o conectou ao aparelho, assim, os dois casais puderam dançar na varanda, em um cenário que tinha ao mesmo tempo as luzes da noite da cidade, o céu estrelado e a luminosidade prateada da lua cheia do verão.

Clara e Jack moviam-se cada vez mais lentos e seus corpos queimavam. Como se ignorassem a presença do casal de amigos na mesma suíte, Jack beijava o pescoço e os ombros de Clara que o queria mais do que nunca. Precisava dele... ardia por ele.
Por cima dos ombros de Clara, Jack fez um sinal discreto para David, que apenas sorriu. Jack pegou-a pela mão e subiu as escadas até o quarto; onde a represa de sentimentos exacerbados pela beleza da noite se rompeu.
Logo os dois estavam nus e febris em sua crescente excitação. O desejo dominava todos os sentidos e pela primeira vez depois de sentirem-se completamente fora deste mundo, eles se emocionaram tanto com o que tinha acabado de acontecer que choravam abraçados, sentados na cama.

Pegaram no sono e dormiram abraçados e mais uma vez tiveram o mesmo sonho, estavam nus no bosque próximo da casa de campo, deitados em um perfumado campo de alfazemas olhando para o céu completamente azul de onde uma incrível chuva de pétalas de flores multicoloridas começou a cair sobre eles. Não eram mais simplesmente Jack e Clara mas percebiam-se parte de uma imensa rede de amor que viajava pelo universo em rios de luz caudalosos. Viajavam pela luz e haviam se transformado nela.

Quando Clara acordou às quatro da manhã não se lembrava mais do que tinha sonhado, mas carregava uma estranha sensação de ter estado o tempo todo ao lado de Jack e mais do que isso, de que os dois eram uma só pessoa. Levantou-se, vestiu-se, pegou seu material para fazer Yoga e foi para o terraço meditar para tentar se reequilibrar.

Estava estranhamente tranquila e a meditação ajudou a aumentar a sensação de paz e bem estar que alcançava novamente pela primeira vez desde que sua vida havia mudado completamente pelo convite de Jack Noble para ser sua ghost writer. Quando ela finalmente abriu os olhos, Jack estava no terraço também, de roupão, olhos perdidos no horizonte ainda enevoado das primeiras horas da manhã.

Clara ergueu-se do colchão de Yoga e caminhou até ele, que perguntou se ela não estava com frio, abriu seu roupão e fechou-o ao redor dela, beijando-a no topo da cabeça.

- Você não vai acreditar mas tive o sonho mais louco que você pode imaginar - disse Jack. - Você estava nele, comigo o tempo todo, foi lindo.

- Eu sei! Eu estava lá, Jack. - respondeu Clara, após lembrar-se de todos os detalhes do que havia vivido durante o sono.

- Sério? Mas foi uma coisa muito louca menininha, como se... eu não sei nem explicar...

- Como se fossemos pura energia e corrêssemos por rios de luz através do universo? – disse Clara.

- Isso... Foi a sensação mais linda da minha vida e tudo graças a você.

- Bom, foi da minha vida também Jack e, agora, depois de tanta ansiedade estou em paz - disse encostando a cabeça no peito de Jack. - O David e a Cindy já acordaram?

- Já. Estavam trocando de roupa para tomar café e eu vou com o David no escritório do Peters e a Cindy que vai atrás das plantas da nossa casa, e você, meu amor, fica por aqui e arruma as malas porque nós vamos na hora do almoço para Liverpool, lembra? Tenho show lá hoje à noite, o penúltimo da turnê.

- Ah! Sim! Claro, tinha me esquecido dos shows deste fim de semana. Amor, a Cindy te mostrou os planos da reforma da casa?

- Isso vai ficar para a volta, ela me disse que vai fazer todo o planejamento nesse fim de semana e deve apresentar para a gente na semana que vem. Enquanto isso, nós vamos para a estrada namorar um pouco.

- Eu nunca me canso de te ouvir cantar, meu amor. - disse Clara descansando mais uma vez a cabeça no peito de Jack.

- Bom dia, Clara. – disse David em português saindo no terraço.

- Bom dia, David. – respondeu Clara em português. – Vamos tomar café da manhã?

- Sim. E aí velhão? Já está precisando amarrar a moça para ela não fugir de você? – perguntou David ao perceber que Clara estava presa dentro do roupão de Jack.

- Não consigo ficar longe dele, David – respondeu Clara rindo. – já estamos até vestindo a mesma roupa.

- Então é aqui que todo mundo se esconde? Bom dia. – disse Cindy rindo ao chegar no terraço. – Clara, desta vez ele te amarrou mesmo...

- E estou feliz por ele ter feito isso. – riu Clara. – Então, meus queridos, vamos tomar café? Jack, você precisa me soltar, ou não conseguiremos nos mover.

Jack soltou o cinto do roupão, libertando Clara, e todos entraram para a sala de estar. Clara pegou o telefone e pediu café da manhã para quatro pessoas ao serviço de quarto. E enquanto eles esperavam que a refeição fosse servida, Jack subiu para tomar banho e vestir-se.

Todos comeram e partiram em seguida, deixando Clara sozinha na suíte com a missão de arrumar as malas para a viagem na hora do almoço. Não seria nada difícil, tinha arrumado malas tantas vezes nos últimos dias que estava se tornando uma especialista.

Assim que as malas estavam prontas, ela tomou um banho e vestiu as roupas que havia separado para viajar. Apenas deixou de fora o notebook e usou-o para navegar um pouco, ler e responder e-mails e pesquisar o que estavam comentando sobre Jack.

Estava tão em paz agora que nada mais a preocupava, só reconhecia um compromisso, o de ser feliz.

Guardou em seguida o computador, conferiu as duas bolsas de mão, a sua e a de Jack, e deu mais uma passada pelos três andares conferindo se não havia esquecido nada.

Sentou-se na sala de estar, com o celular nas mãos e ficou esperando por Jack. Eram quase onze horas, Jack chegaria a qualquer momento. Estava tão relaxada que acabou pegando no sono e acordou com um beijo dele.

- Princesa, pronta para ir embora?

- Oi amor, estava te esperando e peguei no sono. Vamos embora? – respondeu Clara – Já coloquei tudo nas malas e até preparei um lanchinho com aquelas coisas que sobraram de ontem para levarmos conosco. Vamos de carro?

- Não, amor. Vamos de jatinho particular de novo. O Michael não quer perder muito tempo e por isso teremos um jatinho daqui até Liverpool e depois até Dublin. Vai ser tudo fácil e rápido.

- Ótimo, então vamos descer?

- Vamos, mas antes...- Jack surpreendeu Clara beijando-a com paixão. – Vem aqui para perto de mim.

Os dois se abraçavam quando Jack pegou o telefone pedindo que o staff do hotel viesse ajudar com a bagagem. O segurança também veio até a suíte e viajaria com os dois e com Michael no jatinho.

O restante da banda já estava em Liverpool esperando pela chegada de Jack. Mais uma vez uma limusine os levou até o aeroporto e outra os recebeu no aeroporto de Liverpool.

Era mais um lugar que Clara sempre sonhou conhecer, mas daquela vez, infelizmente, ela só veria pelas janelas do carro.

A limusine chegou rapidamente na porta do hotel e os quatro desceram e foram até o saguão onde encontraram Charles que já estava hospedado.

O check in foi feito rapidamente e Jack e Clara subiram para a King Suite do Crowne Plaza de Liverpool, um hotel com perfil mais discreto e bem mais tranquilo do que o espetacular A Hard Days Night, que por sua decoração baseada nos Beatles, atraia além dos hóspedes uma multidão de turistas que poderiam atrapalhar a circulação da banda.

O quarto não tinha luxos, mas era bastante funcional, sala de jantar, escritório e a suíte propriamente dita com uma grande cama king size e um grande banheiro, com banheira e uma grande raridade, uma pequena cozinha com microondas, cafeteira para fazer expressos e frigobar.

- Bom, amor, tenho que fazer a passagem de som, onde estão aquelas coisas que você comprou ontem? – perguntou Jack.

- Aqui, nesta sacola. Vamos comer então.

- Vou lá na cozinha pegar pratos e talheres. Deve ter alguma coisa no frigobar para nós bebermos.

Clara pegou a sacola, levou até a cozinha e voltou com pratos e taças e depois com frutas e o bolo cortado, pronto para servir. Também pegou refrigerantes no frigobar e estava pronto o almoço.

- Você quer ir comigo ao soundcheck? Não estou com vontade de ficar longe de você...

- Vou sim... Como te disse, não me canso de te ver cantando.

- Ótimo. Então vamos porque já estou atrasado.

Os dois desceram e foram com Charles e um segurança para o teatro em que Jack se apresentaria. Alguns fãs estavam na porta e Jack conversou com eles, assinou autógrafos e posou para fotos, sempre sob os olhares atentos do segurança e de Charles.

O teatro era um local bem tradicional da cidade chamado Olympia. Assim que entraram, Jack e Clara foram direto ao camarim. Não havia muito tempo naquela tarde e logo Jack já estava no palco e Clara desceu dele para a platéia. John Stronghold, o guitarrista da banda queria fazer algumas mudanças na setlist. Jack gostou da ideia e mudou toda parte intermediária do show e pediu que o roadie trouxesse sua guitarra acústica para passar "Unexpectedly", a música nova que já tinha entrado em definitivo na setlist.

Sentado em um banquinho, ele tocava a guitarra acústica sozinho, com os olhos fixos em Clara e ela só queria poder beijá-lo.

Jack terminou de acertar os detalhes da setlist, repassou duas músicas com a banda e avisou a todos que estava voltando para o hotel. Depois fez sinal para Clara que atravessou o palco e seguiu com ele até o camarim, de onde os dois foram direto para o carro.

- Você mudou um pouco o arranjo da "Unexpectedly". Ficou lindo!

- Eu e o David estávamos discutindo isso ontem, acho que quando gravarmos, na semana que vem, ela vai mudar mais ainda.

- Semana que vem?

- Isso, amor... Entramos no Abbey Road no dia 23 de agosto, na terça-feira, no dia do meu aniversário.

- Mas você vai ficar longe de mim no seu aniversário?

- Não... você vai estar lá comigo, já avisei o resto da banda que quero que você esteja na sala do meu lado durante toda a gravação.

- Sério? Você vai me levar ao Abbey Road? Nem sei o que dizer, vai ser uma enorme emoção para mim. – disse Clara beijando Jack no rosto.

Jack puxou Clara para mais perto de seu corpo e os dois ainda estavam agarrados quando o carro chegou na porta do hotel, onde desceram junto com o segurança. Ao passar pelo saguão, algumas pessoas de um grupo de turistas reconheceram Jack e se aproximaram pedindo autógrafos e fotos.

Jack sinalizou ao segurança para não fazer nada, assinou os autógrafos, posou para fotos, algumas tiradas por Clara. E os três seguiram para o elevador e subiram até a suíte.

- Está com fome? - Jack perguntou para Clara.

- Um pouco, acho que tem mais alguma coisa ainda no frigobar.

- Ótimo. Mas também podemos chamar o serviço de quarto. Que tal um pouco de creme, ou sorvete para comer com esses morangos?

- Hum! Boa ideia. Acho que só terei fome mesmo depois do show.

- Depois do show? Acho que vou ter fome de você, Clara! - disse enquanto discava para chamar o serviço de quarto. – Por favor, eu quero uma porção de creme batido, sorvete de chocolate e champagne. Isso mesmo, apartamento 4356, senhor Peters.

- Você é o senhor Peters?

- É... Nós somos o senhor e a senhora Peters, moramos em Londres e estamos em Liverpool a negócios. – disse Jack rindo. – Você está comigo o tempo todo e eu esqueci completamente de te avisar que sempre me hospedo com um nome falso, para não ficar atendendo telefonema de fã maluco no meio da madrugada.

- É mesmo! Sabe que nem tinha lembrado desse detalhe, a gente viaja o tempo todo, fica mais em hotéis do que em casa e eu nem tinha percebido que não estamos usando nossos nomes verdadeiros. Sou muito desligada mesmo. – riu Clara.

- Você não precisa se preocupar com essas bobagens, pensa só na gente, em ficar comigo e esquece o resto.

- Já esqueci, Jack. Sabe no que eu estava pensando? No livro; preciso me concentrar nele e você precisa me ajudar, estou só esperando uma chance para voltar a trabalhar nele.

- Ah! Depois acho que quando estivermos no estúdio gravando vai ser o melhor momento. Vamos passar o dia todo juntos e quando voltarmos para o hotel, e você já estiver casada comigo, eu posso começar a te contar tudo; porque você não vai fugir mais, mesmo sabendo a verdade.

Clara riu e brincou com os cabelos dele na passagem, quando levantou-se para abrir a porta para o serviço de quarto. Depois que o garçom e o mordomo serviram as guloseimas pedidas, eles puderam finalmente relaxar um pouco.

Clara e Jack tiraram as roupas e foram deitar-se um pouco para descansar. Programaram o celular para tocar às seis da tarde, pois o motorista os levaria ao teatro às sete e meia e precisavam estar prontos. O show estava marcado para as nove.

Dormiram tão profundamente que quando o alarme do celular começou a tocar, parecia que tinham acabado de deitar-se. Prepararam-se rapidamente, logo estavam com Michael Peters e um segurança, na limusine, rumo ao Olympia.

Clara e Peters assistiram ao show de uma das laterais do palco e Jack mais uma vez encantou o público e foi aplaudido de pé, especialmente quando cantou “Unexpectedly” que em sua versão ao vivo, gravada no show de Paris, já tocava sem parar em todas as rádios do mundo inteiro.

Jack parecia muito feliz, mas já estava bastante cansado, queria apenas voltar para o hotel e ter uma boa noite de sono porque no dia seguinte faria um show em Dublin, o último da turnê, o último antes do casamento e o último antes de entrar novamente no estúdio com a Crossroads.

Continua

30 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXV


O sol já estava alto quando Clara acordou, ainda de olhos fechados estendeu o braço na cama e percebeu que Jack já estava de pé.

- Jack?

- Bom dia amor. – ele respondeu do banheiro – pronta para voltar para casa?

- Bom dia. A que horas é o vôo para Londres mesmo?

- Às duas, vamos ficar no hotel de Londres até sexta. De lá vamos para Liverpool e depois para Dublin, onde eu farei meus dois últimos shows da turnê.

- Que bom, amor! Mas por que no hotel? Você não vai trabalhar com o David?

- Não nesta semana. Quero que você me ajude numa coisa, mas só vou te contar quando a gente chegar lá.

- Está bom.. eu acho... – Clara respondeu sem ter a mínima ideia sobre o que Jack falava.

Jack riu e voltou para o quarto, onde ela já recolhia as roupas espalhadas para refazer as malas.

- Desculpa amor, mas vou te deixar curiosa por enquanto. Antes de te contar ainda são necessários alguns acertos. – disse ele agarrando-a de repente e fazendo-a derrubar as roupas que havia acabado de recolher de uma cadeira.

- Jack! Preciso arrumar as malas, seu maluco!

- E eu preciso te beijar e beijar e beijar.

Clara tentou empurrá-lo para longe, mas não conseguiu resistir por muito tempo e os dois mais uma vez se entregaram ao que sentiam um pelo outro.

- Jack... Precisamos ir, me ajuda a arrumar as malas, vamos...

- Malas são minha especialidade, amor. Não se preocupe, eu arrumo tudo rapidinho.

- Vou tomar um banho, então. As roupas que vestirei estão aqui separadas, o resto você recolhe tudo.

- Hoje nem precisa se preocupar muito com isso, porque nosso voo é de jato particular.

Clara tomou banho rapidamente e já veio do banheiro com as nécessaires dos dois prontas para irem para as malas e as encontrou praticamente arrumadas. Quem olhava para Jack não imaginava, mas ele tinha uma grande capacidade de organização.

- Nós não vamos almoçar aqui, hoje, vamos? – perguntou Clara.

- Acho que não há tempo para isso, já liguei pedindo para eles fecharem a conta e assim que você estiver pronta, estamos saindo. Você está com fome?

- Não estou. É só para eu saber. – disse Clara terminando de calçar as botas.

- Falta agora só dar uma geral na minha bolsa de mão, parece que está tudo aqui, celular, carteira, notebook, jóias, passaporte.

- Então vamos?

O celular de Jack tocou, era David perguntando se já estavam saindo e dizendo que já estavam na porta do elevador.

Clara então chamou o funcionário do hotel para ajudar a levar as malas até o estacionamento e ela e Jack saíram do quarto juntos e encontraram com David e Cindy ainda esperando o elevador.

- Todo mundo pronto?

- Sim! Nos complicamos um pouco porque a moça aqui comprou Paris inteira. – disse Jack rindo.

- Tadinha Jack, comprou tão pouquinho... – disse Cindy.

- Estou brincando! Minha princesa pode comprar tudo que quiser! Sempre que quiser. – disse Jack, beijando-a na testa. – Cadê o Mike?

- Já foi! Precisava chegar mais cedo porque tinha um compromisso em Londres hoje. A equipe foi com ele. Sobramos só nós, velhão!

O elevador chegou e os quatro desceram para o saguão do hotel. Clara e Cindy foram sentar-se nos sofás do saguão, enquanto Jack e David faziam o check out.

- Não te contei ainda, mas o Jagger veio dar em cima de mim ontem, fugi correndo dele.

- Cuidado com ele, vai pegar no seu pé de agora em diante. Não deixa. – disse Cindy com ar de preocupação.

- Mas ele não ousaria ir ao meu casamento para fazer isso, iria?

- Ele é capaz de qualquer coisa, amiga. Procura ficar longe, você fez bem de correr dele.

- Correr do que? – perguntou Jack que já se aproximava delas.

- De um jornalista brasileiro que ficou atrás de mim no camarote do show ontem. – mentiu rapidamente Clara.

- Você precisa de um novo celular para que estas pessoas não possam te achar mais. Vamos comprar um ainda hoje. – disse Jack.

Os quatro saíram pela porta principal do hotel e entraram nas limusines que os esperavam. Foram direto para a pista do aeroporto, onde embarcaram em um jato particular para Londres.

Normalmente Clara tinha medo daquele tipo de avião, mas naquele dia apreciou a descomplicação que ele significava; sem filas, sem revistas, sem detectores de metal e todas aquelas bobagens.

O avião era particular, mas tinha um serviço de bordo luxuoso e os quatro almoçaram risoto de camarão e salada de lagostas.

Na sobremesa uma deliciosa torta doce com sorvete e claro, muito champagne. Além da ausência de exigências aquele tipo de vôo era ótimo pela privacidade. Estavam tranquilos lá dentro, podiam conversar a vontade, sem ninguém os observando, nem pedindo fotos ou autógrafos.

- Não é esse o tipo de avião que vai ser usado na tournê, é? - Clara perguntou para David.

- Não... Vai ser um boeing grande, tipo o Air Force One. Eu também não gosto destes jatinhos. – respondeu David

- Ufa! Acho que ninguém gosta! – disse Cindy.

- Hoje era o que tinha disponível, mas para a turnê tudo estará no contrato. Avião com camas para a gente dormir e tudo. – sorriu Jack.

Embora pequeno, o avião tinha uma comissária de bordo que agora viajava quieta em uma poltrona no fundo, permitindo que eles tivessem privacidade.

Mas assim que ela recolheu as bandejas do almoço, o comandante já avisou que estava iniciando o pouso no aeroporto de Heathrow. Estavam chegando em casa.

O avião manobrou e seguiu para um dos hangares, onde eles desceram, subiram em seus carros com motoristas e partiram cada um para seu lado, David e Cindy a caminho de Heathcliff Hall e Jack e Clara de volta ao Four Seasons Over the Park.

- Jack, você vai me achar maluca se te disser uma coisa?

- Não sei, você ainda não me disse. – respondeu rindo.

- Sério, Jack! Mas pela primeira vez, quando o avião pousou aqui, hoje. Me senti em casa. Estou muito maluca?

- Não amor! Você está certa, você está em casa aqui e eu fico muito feliz que você sinta isso porque essa é a verdade. Para mim, você é minha casa, aqui, entre esses dois bracinhos magricelas.

- Vem aqui para eles, lindo. – disse ela puxando Jack para mais perto de seu corpo e deitando sua cabeça em seus seios.

- Hoje nós vamos comprar um iPhone para você e mais o que você quiser; fala para mim o que você quer.

- Você, só você! – respondeu Clara acariciando os cabelos de Jack.

- Você já me tem. – disse Jack beijando-a.

O carro encostou na porta do hotel e rapidamente Clara e Jack desceram e entraram no saguão. O gerente logo veio conversar com eles e entregou em suas mãos os cartões-chave.

Os dois subiram para a suíte triplex que na cabeça de Clara já tinha uma cara de lar. Guardaram as roupas no closet e logo estavam livres para fazer o que quisessem.

- Vamos caminhar aqui perto, tem algumas lojas em uma travessa desta rua em que nós estamos aqui para cima; vem, estou louco para te livrar deste celular velho.

- Será que não teremos problemas para andar a pé?

- Não. Conheço muito bem este bairro e nunca tive problema nenhum por aqui.

Os dois desceram de elevador e subiram a rua juntos a pé, de mãos dadas. Atravessaram uma rua e seguiram até o próximo quarteirão, entrando na próxima travessa. Clara estranhou porque não viu nenhum estabelecimento comercial por ali, mas continuou acompanhando Jack e caminhando por aquela bela rua arborizada, com casas que se pareciam muito com as do filho e da irmã de Jack.

Até que ele parou na frente de um portão muito alto, quase no final da rua e o portão se abriu. Clara queria apressar o passo com medo de que um carro saísse de lá, mas Jack parou bem no meio da calçada.

- Jack vem, vamos acabar sendo atropelados aqui.

- Acho que não, Clara. Vem comigo, vamos dar uma olhada no que tem atrás desse portão?

- Está maluco? Vai invadir essa casa?

- Acho que nós vamos, vem. – disse puxando-a pela mão – Acho que não tem ninguém aqui.

- Mas e se tiver? Segurança? Cachorro? Ah Jack, não faz isso não. A gente vai parar na capa de todos os tablóides amanhã.

- Olha só que casa linda... Você gosta? – perguntou Jack enquanto apontava para a casa mais bonita que Clara já havia visto. Era uma típica mansão inglesa e ficava no meio de um belíssimo e perfumado jardim.

Jack continuava puxando-a pela mão e eles seguiram andando ao redor da casa e encontraram uma bela piscina, no meio de um jardim que só podia ser descrito como paradisíaco.

Canteiros de rosas e um incrível caramanchão todo florido deixaram Clara boquiaberta e ao mesmo tempo com muito medo; tudo o que ela esperava ouvir naquele momento era a sirene dos carros da polícia chegando para levá-los.

- Vem Clara, a porta de trás está aberta. Vamos ver como é lá dentro.

- Não. Jack não podemos invadir a casa dos outros, é perigoso.

- Vem, não tem ninguém aqui... vem meu amor...

Eles subiram e entraram pela porta dos fundos que estava aberta, Clara estranhou que a casa estava completamente vazia, mas no meio de uma enorme sala de estar tinha uma pequena caixa de presente.

- Jack! O que é isso?

- Abre querida!

Clara chorava muito agora, tinha começado a entender o interesse de Jack pela casa, ele tinha comprado aquela mansão e dentro da tal caixa havia pétalas de flores e no meio delas uma caixa menor, no formato de coração, que tinha um cartão escrito com a letra de Jack, “Bem vinda a nossa casa, meu amor!” e um molho de chaves.

Ela se levantou do chão onde estava ajoelhada e beijou Jack: - Ai meu amor! Esta casa é linda!

- Comprei para a gente, amor!

- Mas quando isso aconteceu? Você nunca saiu do meu lado.

- Eu mandei o Michael comprar assim que você aceitou se casar comigo. Já estava de olho nela há algum tempo e mandei-o deixar tudo pronto aqui para quando nós chegássemos. Vamos contratar um decorador que vai mobiliá-la de acordo ou se você quiser, podemos reformá-la inteirinha e colocar o teto no chão e o chão no teto!

- Isso parece um sonho! Se for, não quero nunca mais acordar!

- Vem amor... Vamos ver nosso quarto!

- Hum! Claro... Quero ver toda a casa! Que linda, meu amor, nunca imaginei algo assim.

Os dois subiram para o segundo andar e seguiram por um longo corredor até uma porta dupla, a única deste tipo no corredor, que Jack abriu. Atrás da porta, uma enorme suíte com piso de madeira, uma grande lareira em uma das paredes, grandes janelas que se abrem em um terraço e atrás de uma das portas um grande banheiro de mármore com uma moderna banheira de hidromassagem. No meio da banheira, um balde com gelo, uma garrafa de champagne e duas taças.

- Você pensou mesmo em tudo, senhor Noble!

- Precisamos inaugurar esta casa e que lugar melhor para isto do que esta linda banheira?

- Hum! Tudo planejado! Vejo a banheira, o champagne, mas o senhor esqueceu dos sais de banho!

- Não esqueci não! - disse Jack tirando três frascos do bolso, um com óleo essencial, outro com sais de banho e o terceiro com o creme hidratante que Clara costumava usar para massageá-lo. - Nunca esqueço de nada...

- Só as letras de suas músicas, então... - riu Clara.

- Hum... Uma estocada em cheio no meu coração! Doeu! Você vai ter que dar muitos beijinhos agora para passar. - respondeu Jack abrindo sua camisa e apontando para seu peito. Aqui, bem aqui...

E os dois passaram algumas horas de puro prazer na banheira da casa completamente vazia. Ainda maior do que a sensação de prazer e relaxamento, no coração de Clara uma represa de puro amor acabava de se romper e invadia tudo e agora ela sentia que o próprio universo se transformava em uma onda de sentimento intenso, algo muito maior do que simplesmente aquilo que estava acontecendo entre ela e aquele homem que estava ao seu lado.

- Sabe o que eu estou sentindo agora? - Clara disse para Jack.

- Será que é o mesmo que eu? - Jack respondeu - Uma fome de leão?

- Exatamente! Viu? Não somos só corpos que se encaixam perfeitamente... somos também mentes em sintonia. - disse Clara sorrindo.

- Ok! Vamos ao pub do Dan. Quero contar para ele que seremos vizinhos.

- Ótima ideia! Gostei daquele lugar! Mas não posso continuar comendo essas coisas super calóricas que a gente vem comendo senão não vou caber nem no meu vestido de noiva.

- Mas você vai caber aqui e eu não vou te soltar nunca mais.

- Vamos Jack... já estou ficando gelada. Espera... Tem toalhas aqui?

- Naquele armário ali, perto da pia.

- Ufa! Achei que você tivesse esquecido. Vem, vamos passar o hidratante, vestir nossas roupas e descer até o pub do Dan.

- Hum! Massagem! – Ele disse erguendo-se da banheira e pegando a toalha que Clara lhe entregou.

Clara encheu as mãos de creme e massageou todo o corpo de Jack e ele retribuiu fazendo o mesmo por ela. Os dois vestiram suas roupas, amarraram os cabelos, arrumaram tudo em uma mochila que estava guardada em um dos armários e partiram para o pub.

A caminhada a partir da casa era um pouco mais longa e foi feita pela rua detrás do hotel. Com um trânsito menor, algumas lojinhas charmosas, pubs, restaurantes e um pequeno mercado.

Os dois passeavam de mãos dadas tranquilos pela cidade, algumas pessoas os reconheciam, mas estavam com uma aura de felicidade tão grande que ninguém ousava perturbá-los.

A temperatura tinha mudado um pouco e Jack, sentindo a pele de Clara gelada, ficou preocupado porque ela estava usando apenas uma camiseta regata, parou em uma pequena loja de material esportivo e comprou para ela um casaco de moleton.

Os dois continuaram descendo a rua e finalmente chegaram ao pub do Dan, que se chamava “Mad Man on the Mountain”.

- Jack? Posso te perguntar uma coisa?

- O que?

- De onde você conhece o Dan?

- De casa, crescemos na mesma vizinhança, estudamos nas mesmas escolas e depois, ele também tinha uma banda, mas acabou deixando tudo para trás para casar e trabalhou por um tempo como roadie. Depois ganhou na loteria, comprou o pub e um estúdio de ensaios e nós nunca deixamos de nos ver...

- E você não me disse nada... Ele pode ser um ótimo personagem para me ajudar a contar como foi sua infância, sua peste...

- Mas eu não quero que ele te conte.

- Por quê?

- Porque eu vou contar. Nós tínhamos combinado de ir para o Black Country, não tínhamos?

- Ok! Mas você é um biografado muito misterioso, senhor Noble!

- E você é uma ghost writer gostosa demais para ficar perdendo tempo escrevendo... tenho planos muito melhores para nós. – disse beijando-a antes de entrar no pub.

- Hey Dan! Como estão as coisas?

- Altezas! Sejam bem vindos. – disse Dan. – Princesa, você estava linda nas fotos que saíram na revista. Parecia uma estrela de Hollyood!

- É linda, mas tem dono! – respondeu Jack. – Minha mesa está vaga?

- Sim, alteza! Vai indo que eu já vou falar com vocês. Ou aja como uma pessoa normal e pede para a Susy anotar seu pedido.

- Ok! Dessa vez passa... mas sério, velho, vem logo que eu quero te contar uma coisa.

- Beleza! Susy, vem aqui, preciso anotar os pedidos de sua majestade!

Os dois seguiram pelo salão do pub que tinha poucas pessoas e ocuparam a mesma mesa da semana anterior. Susy cumprimentou-os e entregou os menus e Dan veio anotar os pedidos. Um prato de “purê com salsichas” para Jack e um “peixe com salada” para Clara e cerveja para ambos.

- E então velhão? O que você queria me dizer?

- Você lembra da casa do velho John Taylor, na High Gardens?

- Sei, o velho morreu e eles fecharam tudo faz uns dois anos.

- Pois é, dei um lance nela há uns dez dias e eles me venderam na segunda feira. Nós vamos morar lá!

- Sério cara? Poxa! Vamos ser vizinhos de novo! Que ótimo, bro! Vai ser lindo!

- Vai mesmo! Eu estou muito feliz adorei a casa! – disse Clara.

- Princesa! Se você precisar de alguma coisa quando o Jack estiver fora é só ligar que eu vou correndo.

- Olha lá, bro! Ela é minha mulher, não vem com essas conversinhas. – disse Jack rindo. – Mas sério Clara, se tiver algum problema é só ligar para o Dan mesmo, mas cuidado.

- Que ótimo! Porque pelo jeito vou ficar muito tempo sozinha em casa. A tournê do retorno da Crossroads vai ser longa e o Jack estará muito tempo longe.

- Mas você vai viajar comigo, não vai?

- Claro, Jack. Sempre que você me deixar, eu estarei lá na estrada, do seu lado.

- Viu Jack, ela é mesmo uma princesa. Você tirou a sorte grande velhão!

A conversa com Dan foi até bem tarde, o pub encheu, mas desta vez ninguém perturbou a conversa dos três, que seguiu até às duas da manhã, com o pub já fechado. Como já era muito tarde, Dan deu uma carona para os dois até o hotel.

- Jack, eu estava pensando na nossa casa... a Cindy é arquiteta, será que não seria bom que ela desse uma olhada?

- Claro, amor! Quero que a casa tenha tudo o que você quiser; quartos de hóspedes, sala de cinema, biblioteca, salão de baile. Para mim a casa já tem tudo o que eu quero: você e aquela banheira!

Clara riu da sinceridade dele, aninhou-se em seus braços e dormiu. Foi um sono agitado, ela estava vestida de noiva e corria pelos corredores de Heathcliff Hall mas não conseguia chegar ao jardim onde tocavam a marcha nupcial e ela olhava pela janela e via uma tempestade se aproximando, batia nos vidros e gritava, mas ninguém lá fora a ouvia.
Jack chorava, e corria na direção da floresta enquanto ela nada podia fazer, estavam separados para sempre e ela caia de joelhos no chão e chorava. Clara acordou repentinamente chorando, tremia muito, estendeu os braços procurando por Jack e não o encontrou. Então saiu procurando por ele pela suite e o viu lá embaixo, no terraço, com um copo de uísque na mão.

- Jack? O que foi?

- Te acordei? Me desculpa, tive um pesadelo, não estava conseguindo dormir de novo e decidi beber um pouco para relaxar.

- Pesadelo?

- Não é nada... é uma bobagem... Já vou ficar bem...

Clara aproximou-se dele e o abraçou. - Você não está com frio, amor? Vem, vamos entrar...

Os dois sentaram-se no sofá da sala de estar e Jack pousou sua cabeça em seus seios enquanto Clara acariciava seus cabelos. Jack voltou a pegar no sono em seu colo e logo ela o abraçou e os dois dormiram no sofá. Uma chuva começou a bater leve na parede de vidro da suíte. Estavam tranquilos agora e apenas descansavam quando o dia amanheceu, Clara acordou e puxou-o de volta até o quarto.

Levantaram-se cedo, Jack iria fazer uma entrevista em uma rádio em Londres e depois aconteceria uma reunião importante com Michael e a banda no escritório da gravadora.

Jack queria que Clara o acompanhasse, mas ela disse a ele que teria um dia cheio, ligaria para Cindy para ver quando ela poderia vir dar uma olhada na casa e também falaria com a planejadora do casamento para saber como estavam as coisas, já que o casamento aconteceria em apenas uma semana. Mas o pesadelo da noite passada a havia deixado mais preocupada do que nunca e o fato de Jack ter tido um pesadelo ao mesmo tempo que ela não poderia ser um bom sinal.

Cindy disse no telefone que estava a caminho da cidade, que passaria na obra da Victoria Station e chegaria ao hotel por volta do meio dia, para as duas irem de lá até a casa. Depois, almoçariam e iriam ver Anne Clark.

- Jack, você está bem? – perguntou Clara preocupada.

- Estou... Fica tranqüila Clara, o Michael já está negociando com a gravadora há uma semana, vamos lá hoje só para assinar a papelada. Tudo já foi definido antes.

- Não, é outra coisa, estou preocupada, não sei bem o que é, mas eu sonhei com nosso casamento, estava em Heathcliff Hall, vestida de noiva e não conseguia ir até o jardim, foi horrível.

- Isso é bobagem. Você está preocupada porque daqui uma semana, nesta mesma hora, estaremos nos preparando para sair naquele jardim e você vai vir até mim e o David vai nos casar. Ah! Tenho que te mostrar outra coisa que comprei na Tiffany. Está aqui, na minha mala; nossas alianças, amor.

Jack abriu um estojo de veludo preto com um par de alianças de ouro grossas. – Viu? Já está tudo pronto, toda a papelada está providenciada e depois do David fazer o número dele, o juiz fará que tudo seja legalmente válido. E menininha, você não tem mais para onde fugir! – disse agarrando Clara.

- Eu não fugiria nem que você me mandasse embora.

- Vai lá conversar com a Cindy, com a Anne, e descansa. Tudo vai dar certo e quando você aparecer na minha frente vestida de noiva, eu vou chorar.

- Ai, pára Jack. Ou eu vou começar a chorar agora, só de pensar.

- Não chora amor. Não quero chorar também. – disse puxando Clara para seu colo e beijando-a com paixão.

- Está mais calma agora?

- Estou. Parece que eu sou louca, que não consigo me controlar, mas...

- Eu sei que eu pareço tranquilo, mas tudo está sendo louco demais até para mim. Não quero que você me olhe como alguém diferente, estamos no mesmo barco.

O celular de Jack tocou e era Khaled, o motorista avisando que já estava lá para levá-lo aos estúdios da rádio BBC.

- Tchau amor! Te ligo assim que puder.

- Tchau Jack.

Clara estava agora sozinha na suíte, pegou o notebook para dar uma olhada nas novidades e a grande notícia ainda era a do sucesso do show em Paris e da volta da Crossroads.

Depois ela passou a responder os e-mails e mandou mensagens para sua família e para Jonas, pedindo notícias e checando se tudo estava bem encaminhado e preparado para a vinda deles para Londres.

Fechou o computador e foi se vestir. Colocou roupas esportivas porque queria andar um pouco no parque tentar relaxar antes de encontrar Cindy.

Caminhou até um bosque tranqüilo e sentou-se sob uma das árvores, sempre de olho em seu celular, com medo de atrasar-se, mas disposta a descansar de verdade, esforçando-se para abandonar de vez aquela ansiedade que a estava enlouquecendo.

Mas era difícil calar aquele turbilhão que fazia sua cabeça rodar e suas mãos tremerem. Respirou fundo, abriu os olhos e concentrou-se no cenário verde do parque, que naquele dia estava sob um céu muito cinzento.

Queria muito ser novamente aquela pessoa equilibrada que meditava, fazia Yoga, escrevia suas matérias, seus livros e estava muito tranquila, no Brasil, correndo atrás de dinheiro, naquele ambiente sempre caótico, mas onde ela tinha total controle.

Ela não podia recuar, mas era em momentos como aquele que aparecia um estranho arrependimento de ter se envolvido com Jack Noble. Faltava apenas uma semana para o casamento e ela não conseguia abandonar a sensação de que ainda estava conhecendo aquele homem. Ele era fascinante, inteligente, sexy e ela o amava com todas as forças. Ela podia sentir que laços fortes os uniam, mas será que eles seriam suficientes para justificar um casamento?

Jack parecia amá-la muito e não eram somente seus gestos tresloucados, como comprar um conjunto de brincos e colar de diamantes que custava pelo menos meio milhão de libras ou uma mansão em Londres para que ela não se sentisse sozinha na casa de campo enquanto ele trabalhava; mas o jeito como a olhava quando estavam perto. O carinho imenso que ele tinha por ela em cada momento e o fato dele ter repetido tantas e tantas vezes que seria capaz de abandonar até mesmo a música por ela.

Cansada de sua própria ansiedade, Clara lutava contra seus instintos que a mandavam sempre ficar com um pé atrás e aquela sensação de que não iria durar; que daqui algum tempo ela olharia para aquele momento e sentiria pena de si mesma por ter sido tão ingênua e confiado tanto naquele homem.

O alarme do celular soou avisando que era hora de voltar ao hotel, trocar de roupa e descer no saguão para encontrar Cindy.

Foi tudo muito rápido, interrompido apenas por uma mensagem de texto de Jack que dizia: “Te amo, menininha!” que ela respondeu imediatamente com um “estou com saudades”; e Clara já estava pronta para partir quando Cindy ligou do carro, na porta do hotel.

- Oi Cindy. A casa é bem perto daqui, duas ruas para cima do hotel na High Gardens. Você conhece?

- Sim, claro! Vou subir até a terceira e descer pela rua de trás porque a High Gardens é mão para cá.

- Seu namorado estava na BBC agorinha mesmo, você ouviu?

- Não, fui andar no parque e só subi agora para trocar de roupa. O que ele falou?

- Nada de muito útil, uma porção de bobagens sobre o time dele e depois, falou dos últimos shows da turnê e da volta da Crossroads. O locutor disse que tinha visto uma foto na revista dele com a noiva e Jack só respondeu, “sim, ela é gata, mas é minha!” Até que foi engraçado, o Jack pode ser bem divertido quando quer.

- Eu adoro o Jack, mas tem alguma coisa que não está certa. Sabe que estou começando a ficar com medo.

- Do que? Vocês acharam uma coisa que muita gente procura a vida inteira e não encontra e o Jack, bom, vou te dizer uma coisa que talvez ainda demore um pouco para você perceber, mas que depois de conhecê-lo há dez anos eu percebi.

- O que?

- Ele é transparente! É só olhar nos olhos dele e você vai saber exatamente o que ele está pensando.

- Não me fala isso. Estou quase enlouquecendo. Eu acho que sou desconfiada demais, tento entender as coisas do meu jeito e quando não consigo, começo a viajar em explicações malucas e começo a ver coisas que não estão lá de verdade; que só existem quando eu começo a juntar momentos de estranheza, silêncios, olhares e alguns pesadelos horríveis que tenho tido ultimamente.

- Clara, o Jack é aquilo que você vê. Sim, algumas vezes é uma pessoa difícil, teimoso, tem aquelas mudanças de humor e ataques de grossura inexplicáveis, mas nunca o vi fazendo ou dizendo coisas que indicassem algo de ruim, ele é muito autêntico, sincero até demais. Nem ele e nem o David são os homens mais fiéis do mundo, mas acho que isso, junto com a bebida, as horas de trabalho e as viagens, são da profissão deles. As mulheres se atiram aos pés dos dois desde que tinham 15 anos de idade e não é exatamente culpa deles.

- Eu sei disso tudo, mas meus instintos continuam gritando.

- Pode ser só aquele medo normal por estar a uma semana do casamento. O Jack mudou sua vida completamente, até de país você está mudando.

- Espero que seja só isso. Olha, a casa é aquela ali, no próximo quarteirão. Estou com o controle do portão aqui na bolsa, vou abrir para nós.

O carro foi até a porta da casa e as duas desceram.

- Clara! Que linda! Talvez precise de alguma restauração, mas essa fachada é incrível. Vou pegar meu Ipad no carro e a gente vai anotando o que precisa.

As duas foram percorrendo a casa e Clara descrevendo o uso que poderia fazer de cada cômodo e como Jack já havia sugerido pediu uma boa sala de cinema, um escritório ou biblioteca onde pudesse escrever, uma academia que tivesse alguns aparelhos de ginástica e um pequeno espaço para praticar Yoga, uma cozinha bem equipada, um bom closet, pelo menos dois quartos de hóspedes, uma pequena adega e um pequeno espaço para a música de Jack.

Ele não havia pedido por isso, mas ela queria que um dos quartos da casa fosse adaptado com revestimento acústico e que servisse tanto como um pequeno estúdio, onde ele pudesse ensaiar ou gravar alguma coisa, como também, tivesse espaço para armazenar e ouvir sua coleção de discos.

- Esta casa é muito boa, sólida! Que tipo de decoração vocês vão querer? Clássica, né? – perguntou e respondeu Cindy rindo. – Desculpa, mas amo esse período e me empolga muito fazer projetos de decoração deste estilo em particular. Também precisamos dar uma olhada na área de serviço e nas acomodações de empregados. Você aqui vai precisar de uma cozinheira, uma copeira, umas duas arrumadeiras, um jardineiro e um mordomo.

- Tudo isso?

- Lógico. Você viu bem o tamanho dessa casa? Você não vai me dizer que quer dar uma de super mulher e cuidar disso tudo sozinha?

- Não, mas achei que ia ficar sozinha com meu marido.

- Sem chances. Ou a casa ficaria em pouco tempo um lixo, ou você não faria mais nada na vida e mesmo assim não daria conta de tudo. Eu também não estava acostumada com tanta gente em volta quando me casei, mas agora quase nem percebo. É tranquilo, você vai ver.

As duas percorreram também as acomodações dos empregados que eram bem confortáveis, ficavam em cima da garagem e comportavam pelo menos dez pessoas, com uma entrada pela rua dos fundos.

- A área da piscina também é muito boa, a casa da piscina podia se transformar em um pequeno salão de festas, acho que dava para ajeitar um pouquinho e você teria um lugar gostoso para receber as pessoas, um bar com vista para a piscina, que tal?

- Ótimo! Acho que seria uma boa ideia.

- Bom, então acho que percorremos tudo, vai faltar só o jardim, mas estas coisas eu prefiro que um paisagista cuide. Tem um muito bom que trabalha para mim que virá até aqui nos próximos dias. Eu vou preparar um orçamento com tudo o que precisa e um planejamento da reforma e da decoração assim que eu conseguir as plantas e marcaremos uma reunião para discutirmos tudo o que precisa ser feito.

- Você sabe quanto tempo leva, mais ou menos?

- Uns dois meses para fazer tudo, incluindo parte elétrica, encanamento e aquecimento. Tenho uma equipe grande que fará tudo bem rapidamente. Depois vem a parte de decoração e aí você vem comigo; gosto de fazer isso de acordo com o gosto de quem vai morar. Fica tranqüila porque vou trazer essa casa do século XIX para o XXI, fácil. O Jack fez algum pedido?

- Você sabe como ele é: Pode colocar o teto no chão e o chão no teto, mas deixa a banheira na nossa suíte. – riu Clara.

- Ele é mesmo uma figura! – disse rindo. – Meio maluco, mas tem um ótimo coração. O David já me contou algumas histórias sobre ele de deixar qualquer um surpreso. Ele é muito generoso, do tipo que tira a própria roupa para ajudar os outros e, quando se apaixona, é capaz de loucuras, mas isso você já deve ter percebido.

- Ai – suspirou Clara – Ele me surpreende o tempo todo. Eu nunca imaginava que uma coisa como essa podia acontecer na minha vida, mas está acontecendo. Muitas vezes preciso me beliscar para ter certeza de que não estou sonhando.

- Eu já tive essa fase também. Quando comecei a namorar com o David foi assim. Sinceramente, eu não sei qual era sua situação financeira antes, eu sei que eu trabalhava como uma maluca e mal pagava minhas contas.

- Eu já tinha começado a viver dos meus livros, mas nada perto da vida que vocês têm aqui. Aliás, acho que pouca gente no mundo tem o que esses dois têm.

- O que nós quatro temos, querida. O Jack não abriu uma conta conjunta para vocês?

- Abriu, mas não gasto nada dessa conta. Não fala nada para ele, mas estou pagando tudo com meu dinheiro.

- E por quê?

- Porque tenho a impressão de que o dinheiro não é meu, é dele. Não acho certo gastar dinheiro que não é meu.

- Eu até admiro isso, mas sinceramente é bobagem. Guarda seu dinheiro, distribui para sua família, faz alguma coisa boa com ele, mas não faça isso.

- Talvez você esteja certa. Mas é tudo tão estanho para mim. Há um mês eu estava na minha casa, lá no Brasil pensando se deveria aceitar trabalhar como ghost writer para o Jack por medo de desmanchar a imagem que eu tinha dele.

- Mas quando vocês se conheceram, você trocou a imagem pelo homem, não?

- Não imediatamente, mas acho que isso está mudando aos poucos, com a convivência.

- Bom, a situação de vocês é bem diferente da minha história com o David. Eu também estava trabalhando para ele, mas não rolou nem beijo no primeiro encontro, quanto mais sexo e demorou um bom tempo para a gente começar a morar junto.

- Você sabe que eu não tenho explicação para isso. Quando eu o vi no hotel, pela primeira vez eu passei a precisar dele. O Jack tentou me beijar algumas horas depois de me conhecer e eu escapei dele, na verdade foi só uma coincidência, eu queria beijá-lo, mas o alarme do meu celular tocou e eu tomei consciência que estava fazendo uma loucura, queria muito beijá-lo, mas sabia que isso ia complicar tudo.

- Mas vocês ficaram juntos nessa mesma noite, não foi?

- Bom, ele me chamou para o show e depois na festa, no camarim, eu não consegui resistir. Precisava beijá-lo, foi muito intenso, sabe?

Cindy sorriu e terminou as anotações em seu iPad, conferindo com Clara se estava tudo certo.

E depois da confirmação, as duas passaram a trancar as portas da casa, entraram no carro e seguiram até o restaurante onde combinaram de almoçar juntas com Anne Clarke, a planejadora de casamento.

A uma semana do casamento, tudo estava perfeito, as reservas no hotel estavam feitas, o transporte dos convidados de Clara até a casa de David providenciado, as roupas prontas e entregues e sua família chegaria na próxima segunda-feira em Londres para participar de um jantar que aconteceria no restaurante do hotel na quarta-feira e do casamento, no dia seguinte.

Clara respirou aliviada ao receber o relatório de Anne. Aos poucos todas as questões do casamento estavam sendo solucionadas. O casal havia pedido no convite que ninguém enviasse presentes e que fizessem doações para uma instituição que Jack ajudava e a arrecadação das doações também era bastante animadora.

Continua

29 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXIV


Havia pessoas seguindo os carros da banda, em motos e carros durante todo o percurso. Aquela volta da Crossroads parecia ter levado toda a cidade à loucura e Clara procurava nem olhar para fora do carro, para não aumentar ainda mais seu nervosismo.

- Não se preocupe, menininha. Vai dar tudo certo, você vai ver - Jack dizia em seu ouvido.

A distância até o Palais des Sports era longa e mesmo andando em alta velocidade, o trajeto pareceu torturante para Clara. Tinha deixado o celular no hotel e agora sentia falta de trocar mensagens de texto com Cindy.

Mais adiante, uma moto furou o bloqueio dos batedores e seus ocupantes batiam com as mãos no carro, deixando-a em pânico.

- O melhor a fazer é ignorar - disse Jack aos seguranças. - Meu Deus, nunca pensei que veria algo assim novamente! Que loucura!

- Só quero chegar a salvo no show e voltar a salvo para o hotel. – disse Clara escondendo o rosto no peito de Jack depois que uma outra moto que levava um fotógrafo quase caiu.

- Calma baby... estamos quase lá.

O comboio chegou a bem guardada porta do ginásio e entrou direto no estacionamento fechado do subsolo.

Um alívio para Clara que agora tremia muito. Os seguranças desceram do carro, abriram a porta e pediram que descessem também.

Nos demais carros, David, Cindy, Michael e Jennifer também desciam, enquanto Michael Peters, Charles Hutton e os outros membros da equipe vinham a seu encontro.

Michael Peters distribuiu crachás a cada um deles e pediu para que todos colaborassem com a segurança indo direto aos camarins, sem parar pelo caminho.

Jack disse no ouvido de Clara que não largasse da mão dele e se preparasse para andar bastante. O caminho através do subsolo foi bem tranqüilo, sem outros problemas além de um ou outro fã que os fotografava a alguma distância e pessoas do próprio staff do show que haviam descido para vê-los de perto.

E depois de seguirem por extensos corredores, todos chegaram finalmente na área de camarins. Na verdade um dos vestiários do ginásio que estava repartido em salas menores por divisórias. As três bandas, maiores atrações da noite ficariam ali. Enquanto isso o outro vestiário menor, era repartido por todas as demais atrações do show.

Como o camarim era muito pequeno, logo Michael pediu que apenas a banda permanecesse nele e que as esposas fossem imediatamente ao camarote de convidados da organização de onde poderiam acompanhar o show tranqüilas e para onde a banda iria assim que sua apresentação terminasse, para esperar pelo momento de subir novamente ao palco, no gran finale.

Clara deu um beijo em Jack e seguiu junto com as outras esposas e dois seguranças até o camarote que estava lotado de artistas conhecidos.

Lá havia uma mesa com comida e bebida, sofás e telões no fundo do camarote, em uma parte reservada e cadeiras para acompanhar o show na parte da frente.

Clara, Cindy e Jennifer sentaram-se em um dos conjuntos de sofás e pegaram taças de champagne enquanto esperavam pelo final da montagem do palco do U2.

Quieta, ela bebia o champagne com um dos olhos fixos no telão, no fundo do camarote. O ator Tom Hanks subia ao palco e as três abandonaram as suas taças de champagne porque não era permitido levá-las a parte da frente do camarote onde encontraram três cadeiras vagas e sentaram-se.
Hanks leu um longo texto sobre as condições de vida das crianças em áreas atingidas por guerras e depois disse que estava honrado de estar chamando ao palco uma das maiores bandas do mundo: Senhoras e senhores, U2!

O público que já estava agitado passou a gritar de forma ensurdecedora, as luzes se apagaram por um momento e logo, "Magnificent" chegava aos alto-falantes, acompanhada em coro pela público.

A seguir veio "Beautiful Day" e um pequeno discurso de Bono Vox pedindo doações para as crianças. Depois "Vertigo" e em seguida, o cantor chamou David Mersey para subir ao palco e eles tocaram juntos "Helter Skelter".

Mas com o final do set do U2 o barulho dentro do enorme ginásio pareceu dobrar e o coração de Clara começava a acelerar perigosamente. Ela estava inquieta, tremia dos pés a cabeça e sentia a necessidade de mover-se, caminhar de volta à sala detrás, onde bebeu mais champagne e sentou-se em um dos sofás preocupada com Jack. Queria estar com ele, segurando suas mãos e dizendo que tudo daria certo.

Quando a atriz Angelina Jolie subiu ao palco, Clara ficou gelada; mas o som que vinha da platéia era tão ensurdecedor que impedia Angelina de começar a falar.
Assim que as coisas se acalmaram um pouco, Angelina começou seu discurso sobre as crianças vítimas de todo tipo de violência e Clara quase não conseguia mais respirar de tanta ansiedade.

- Esperamos 30 anos para que isso pudesse acontecer, tenho a honra de chamar ao palco a banda que todos queriam ver novamente, com vocês Crossroads.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Clara quando o palco se apagou, Cindy, pegou-a pela mão e Jennifer também aproximou-se e colocou a mão em seu ombro, mas não havia nada que a fizesse parar de chorar.

Os primeiros acordes de "Rockin' Over" explodiam nos alto-falantes, as luzes do palco piscavam e finalmente a Crossroads começava a tocar.

As pessoas pulavam e gritavam ensandecidamente como se uma Copa do Mundo tivesse acabado de terminar. Um telão atrás do palco mostrava o rosto de Jack gigante e Clara podia ver seus olhos agora, brilhando muito, como haviam brilhado inúmeras vezes olhando para ela nos últimos dias. Ele parecia estar muito feliz e ela sentia suas emoções explodindo junto com a música.

A emoção era tanta que Clara nem percebeu que a setlist que tinham combinado estava mudada. Eles iriam fechar com "Rockin' Over", mas estavam abrindo o show com ela. Estranho, mas lindo, pensou.

- Bon Soir Paris! – Jack disse no microfone. – Nós somos a banda Crossroads! Estivemos longe dos palcos nos últimos 30 anos e agora estamos juntos de novo para ver no que vai dar. Faz mais ou menos um mês que alguém entrou no meu caminho e mudou tudo. Ela me devolveu a vida e por isso, eu dedico esta música para ela: "Unexpectedly".

- Meu coração vai explodir hoje! O Jack vai acabar me matando! - disse Clara. Ela cantava junto com todo o ginásio aquelas palavras que tinha ouvido pela primeira vez há poucos dias e que o mundo todo já conhecia, graças a gravações feitas pelos fãs nos últimos shows de Jack.

- E depois de uma nova, nada como uma bem velha para matar as saudades "Love you Forever"!

Bem no meio da música, um blues lento, Jack começou a improvisar a letra. Para ela era algo muito sexy, porque ele usava o mesmo tom de voz com que às vezes sussurrava coisas em seu ouvido.

- Meu Deus, ele está me provocando... vou lá embaixo pegar ele. – disse Clara rindo.

- Bom, sou um homem apaixonado! – Jack começou a dizer depois da música. – Mas estamos aqui pelas crianças que sofrem ao redor do mundo. E para ajudar a gente a te convencer a doar dinheiro para melhorar a vida delas, nós vamos chamar aqui ao palco um ídolo nosso que nos dará a honra de cantar com a gente. Senhoras e senhores, Mick Jagger!

- Boa noite, Crossroads! Estou feliz de estar com vocês hoje! Vamos tocar um blues?

Jack começou a puxar uma melodia blues na gaita e Mick disse no microfone: - Crossroads...

E como a banda não queria mais sair do palco, eles emendaram com "Love In Vain", uma música que Clara nem sabia que estava na setlist.

No final Jack deu boa noite e disse que aquele era apenas o começo e que eles voltariam para a estrada em breve.

Clara foi até o banheiro com Cindy, queria lavar o rosto. - Vamos rápido Cindy, acho que o Jack vai subir para ver os Stones daqui de cima.

Cindy e Clara saíram do banheiro e logo perceberam um clarão de flashes se aproximando. A Crossroads chegava ao camarote e encontrava por lá os músicos do U2, Bono se ajoelhou na frente de Jack para as câmeras de poucos privilegiados que estavam no camarote, mas as imagens rodariam o mundo.

Clara pegou Cindy pela mão e puxou-a para um canto mais discreto, não queria a atenção dos flashes e as duas desceram rapidamente para área onde ficavam as cadeiras.

- Os rapazes já chegaram, mas estão cercados por todo mundo, preferi vir para cá e volto lá quando as coisas se acalmarem.

Enquanto as três amigas conversavam, Jack e o restante da banda vinham em sua direção.

- Então, amor? Gostou do show?

- Muito! – disse Clara beijando Jack – sob os aplausos de quem estava ao redor.

Todos se acomodaram nas cadeiras do camarote, Jack agora estava agarrado em Clara e não a soltava por nada. O show dos Rolling Stones estava prestes a começar e o ator Jack Nicholson subia ao palco.

- As crianças do mundo dependem de gestos simples de solidariedade para crescerem e se transformarem em adultos felizes, doem. Com vocês, os Rolling Stones.

Clara nem conseguia mais prestar atenção ao que acontecia no palco, mas os Stones abriram o show com "Gimme Shelter", uma de suas músicas favoritas.

Agora, ela estava aninhada no ombro de Jack, que estava com os braços ao seu redor.

- Boa Noite Paris! Estamos aqui pela melhor razão do mundo. – disse Mick, a seguir, a banda atacou com a música "It's Only Rock n'Roll" .

Depois Mick chamou Bono e juntos eles cantaram "Angie" e "Satisfaction" encerrando a noite.

Mas antes de Satisfaction começar, Clara, Cindy e Jennifer já tinham saído do camarote junto com a Crossroads que agora voltava ao palco para o final do show.

As três já estavam nos carros apenas aguardando que a banda chegasse a eles e rapidamente o comboio de carros deixava o estádio e seguia de volta para o hotel. Jack e Clara estavam cansados, mas felizes.

A festa pós-show seria ainda mais sofisticada do que Clara imaginava e pedia traje black-tie completo.

Os dois chegaram ao hotel, tomaram banho juntos e logo Clara começou a arrumar-se, enquanto Jack se atirava nu na cama.

- Posso saber o que você está fazendo? – perguntou Clara enquanto vestia sua lingerie.

- Descansando um pouco e vendo a mulher mais gostosa do mundo vestir-se. – respondeu Jack com um sorriso que arrasou com toda a vontade de Clara de brigar com ele; pelo contrário, ela parou de vestir-se para beijá-lo.

- Vamos, amor... estão nos esperando na festa, e depois vão até te deixar cantar...

- Se não fosse por isso, nem ia nessa festa. Ficava aqui mesmo, com você a noite inteira. – disse beijando o corpo de Clara e acariciando seus cabelos.

- Mas teremos que ir, vem Jack, vou secar seus cabelos. Você estava maravilhoso hoje no telão, este hidratante que nós usamos no seu cabelo melhorou muito a aparência dele.

- Eu não ligo para essas coisas, sou um velho hippie – disse acompanhando Clara até o espelho do banheiro.

Clara que estava seminua, pegou o secador de cabelos e foi secando os cabelos longos dele com carinho e com cuidado, amassando os cachos em suas mãos. Para ela também estava difícil controlar-se e concentrar-se no que fazia, olhando para os olhos dele brilhando no espelho.

Depois de secar os cabelos, ela passou hidratante mais uma vez em todo o corpo dele e finalmente conseguiu convencê-lo a vestir-se.

A seguir, pediu que Jack a ajudasse a vestir um novo vestido longo preto que comprou em uma da lojas mais sofisticadas de Paris. Com decote tomara que caia, o vestido não faria feio no tapete vermelho do Oscar.

Colocou sapatos prateados de salto altíssimo e pegou o estojo com as jóias que havia ganho de Jack em Londres, pedindo a Jack, já vestido, que a ajudasse com o colar.

- Mas esse colar não combina com este vestido.

- Esse colar é a única jóia que eu tenho. Tem que combinar.

- Me recuso a colocar essa coisa horrível nesse pescocinho tão lindo... – respondeu Jack, enquanto beijava seu pescoço.

- Ok! Vou por só os brincos então. Me dá a caixa. – disse Clara estendendo as mãos na direção de Jack.

- Não! Os brincos também não combinam. Espera um pouco.- disse ele abrindo a gaveta do armário e tirando um outro estojo de jóias preto.

Clara ficou tão surpresa que não sabia o que dizer. Dentro do estojo um conjunto de gargantilha e brinco de diamantes que mudavam de cor conforme a luminosidade do ambiente como o anel de noivado que Jack havia lhe dado.

- Jack, mas..

- Mas nada! Quero te ver linda da cabeça ao pés. Estou só te mimando como posso.- sussurrou Jack enquanto beijava seu pescoço e seios.

- Obrigada meu amor! É lindo demais.

Os dois colocaram seus perfumes favoritos e Clara deu mais um beijo apaixonado em Jack antes de passar o batom. Saíram da suíte andando pelo corredor, atentos se percebiam algum movimento vindo das outras suítes.

Um tapete vermelho se estendia através do luxuoso saguão do hotel a partir da porta do elevador e muitos fotógrafos agora se acotovelavam por lá, atrás de barreiras de metal.

Jack e Clara tiveram que parar para algumas fotos e além de ficar cega com os flashes, Clara também sentiu-se tonta com os gritos deles por atenção. Já tinha participado de eventos como aquele, mas do lado de lá da barreira e nunca imaginou que se sentiria tão desorientada no meio de toda aquela luz e gritos. Tinha sorte que Jack segurava sua mão, pois se ele não estivesse por lá cairia sentada no chão.

A festa era um jantar dançante e Jack e Clara foram conduzidos por uma hostess até a mesa onde já estavam Michael, Jennifer e Mick Jagger.

- Boa noite, pessoal! Meu Deus! Quase cai no tapete vermelho agora! Como vocês agüentam isso. Fiquei completamente tonta!

- Você se acostuma! É só tentar não olhar muito para os flashes - disse Mick Jagger levantando-se, enquanto Jack puxava a cadeira para Clara sentar-se.

- O David já desceu? - perguntou Jack.

- Não! O Michael Peters estava lá na suite conversando com ele na hora que nós passamos, acho que já estão negociando a nova tour. - respondeu Michael Silver.

- Ótimo! - disse Jack. - Vamos trabalhar agora até virarmos pó!

- Eu não me importo. - respondeu Michael.

- E as damas? Vocês se importam? - perguntou Mick Jagger, de olho em Clara.

- Eu fico feliz quando o Jack está feliz. - respondeu Clara com um sorriso.

- Eu também! Quero dizer, se fazer shows fará o Mike feliz, então eu também estarei feliz.

Embora soubesse da resposta, Jennifer decidiu perguntar: - E a Donietska? Eu não a vi no show hoje.

- Foi para a América, tinha algumas fotos para fazer lá e foi embora hoje mesmo. - respondeu Mick.- Olhem, o David está chegando.

- Ah! Que bom! O Peters não está com ele. - disse Jack.

- Pobre homem, você não gosta mesmo dele. - respondeu Clara.

- Advogados não são boa companhia para festas. - disse Jack rindo.

- Olá pessoas! Todos felizes? Olá velhão! Pronto para decolar?

- Por mim, tudo perfeito! Boa noite Cindy. – disse Jack.

- Boa noite Jack! Boa noite pessoal! Demoramos demais porque o Peters não ia mais embora. - disse Cindy.

- É, mas ao menos eu consegui o que nós queríamos, teremos um avião para toda a turnê.- disse David.

- Perfeito! Eu sabia que você conseguiria dobrá-lo. Não dá para viajar em aviões comerciais, ainda mais agora. – disse Jack.

- Ah! Com os Stones já faz algum tempo que colocamos o avião como cláusula do contrato. Não dá para ficar dependendo de vôos comerciais. – disse Jagger entrando na conversa.

Como Jack estava interessado em discutir negócios musicais com sua banda e com Mick Jagger, Clara, Jennifer e Cindy saíram da mesa dizendo que iam até o toalete.

- Esse colar ficou um escândalo de lindo amiga! O Jack pediu minha ajuda e eu fui com ele na Tiffany para escolher. – disse Cindy.

- Então você sabia?

- Claro, na semana passada ele me ligou no escritório, em Londres, e pediu para ajudá-lo a escolher um presente para você porque ele não sabia comprar essas coisas.

- Lindo! Meu coração quase parou quando ele abriu o estojo. O Jack ainda me mata...

- Vocês estão fazendo muito sucesso juntos. – disse Jennifer. – Dei uma olhada online antes de me preparar para a festa e está cheio de fotos de vocês lá no show e agora só se fala do casamento. É até meio irritante. – riu.

- Mesmo? Não vi nada ainda. O Jack não me deixou. Para ser totalmente sincera, por mim, nem teríamos descido para essa festa hoje. Estava tão bom lá em cima. – disse Clara suspirando.

- Eu imagino. – riu Cindy. - Ah! E cuidado com o Mick Jagger. Ele nem começou a beber e já estava com os olhos no seu decote.

- Nem notei! Mas vou tomar cuidado. – disse Clara preocupada.

As três voltaram à mesa e encontraram Bono e The Edge sentados em seus lugares. Os dois se levantaram imediatamente e Jack apresentou Clara para ambos e eles disseram que haviam lido seus livros e que gostaram.

Ela por sua vez declarou-se fã incondicional do U2 e disse que já havia entrevistado The Edge há alguns anos por telefone e ele disse que se lembrava porque ela tinha perguntado a ele algo sobre uma música muito antiga que fazia parte de uma das demos da banda e que nunca foi gravada depois.

Todos estavam muito animados, podia-se quase pegar com a mão uma enorme euforia naquele ambiente. As pessoas estavam felizes pelo sucesso do show, por ele ter arrecadado mais do que o dobro do esperado e claro, por significar um novo sopro de ar na própria indústria da música, que agora esperava ansiosamente para sentir os
efeitos do retorno da Crossroads ao cenário.

Aos poucos o jantar começou a ser servido e quando todos terminaram; o palco no fundo do salão, na frente de uma pista de dança de cristal, foi iluminado.

A banda da casa tocava standards da música americana e aos poucos a pista começou a lotar. Jack pegou Clara pela mão e levou-a direto até a pista. A banda reconhecendo-os, começou a tocar "Unexpectedly"

Os dois dançavam de rosto colado e Jack sussurrava as palavras da letra no ouvido dela. Ali nos braços dele, Clara pensava que se o mundo terminasse naquele momento, ela morreria como o mais feliz dos seres humanos.

Dançaram mais um pouco e logo David veio chamá-lo porque ele e os outros músicos desejavam subir ao palco para tocar. Jack beijou Clara e seguiu David até o backstage.

Clara foi até o banheiro refrescar-se um pouco e retocar a maquiagem. Iria procurar Cindy em seguida, mas assim que saiu do banheiro Mick Jagger veio casualmente em sua direção, com duas taças de champagne nas mãos: - Um brinde para a rainha da festa! – disse ele entregando uma das taças para Clara.

- Obrigada! Você é muito gentil. – disse Clara. – Você viu a Cindy Mersey por aí?

- Não querida. Estou me aquecendo para cantar um pouco com a banda de seu marido, daqui a pouco e ficarei feliz de vê-la nos assistindo.

- Obrigada Mick, estou muito lisonjeada. – respondeu Clara.

- Aliás, você poderia me ajudar neste aquecimento; podemos dançar um pouco na pista, esquecer o resto do mundo por alguns momentos. – disse estendendo a mão para tocar seu rosto.

- Desculpa Mick, mas me caso com Jack Noble dentro de poucos dias e não acho que ele ficará nada feliz em me ver dançando com você.

- Mas ele não precisa nos ver. Este salão é imenso...

- Desculpa novamente, mas não. E agora com licença, que preciso encontrar a Cindy.

- Ok! Sei perceber quando perdi, minha cara... - Mick fez uma pequena mesura com a cabeça e afastou-se.

Clara saiu andando com a taça de champagne na mão, que deixou na primeira bandeja que encontrou pelo caminho. Pegou seu celular dentro da bolsa e mandou uma mensagem de texto para Cindy perguntando onde estava.

Ela respondeu, que estava no lado direito do salão, perto do bar e Clara seguiu rápido para lá, quase correndo e finalmente achou Cindy conversando com as esposas de Bono e The Edge, que também tinham sumido na área de backstage.

- Nossa Clara, o que houve? Você está gelada.

- Não foi nada. Deve ser o ar condicionado. – disse para não comprometer-se na frente de pessoas que não conhecia.

- Tive uma ideia! Vou pegar um uísque ali no bar. Assim eu esquento! – sorriu.

- Olá senhoras. – disse Bono aproximando-se do grupo. – e colocando os braços ao redor de sua esposa.

- Vocês não vão tocar? – perguntou Clara.

- Sim, mas agora tem homem demais lá dentro, precisei vir para fora tomar um ar. – respondeu Bono. – Seu noivo está lá pronto para subir no palco, mas o David foi buscar a guitarra dele lá na suíte.

- Ah! Então é isso o que está acontecendo. Vou dizer uma coisa, vocês músicos são muito cruéis, nos fazem esperar de pé, nestes saltos altos. Meus pés já estão me matando. – disse Clara para Bono.

- Por isso não, você já foi até o jardim de inverno? – perguntou Bono.

- Não. Nem sei onde é.

- Ali, passando um pouco o palco, está vendo uma luz dourada naquela direção? Vem do jardim de inverno, podemos nos sentar lá até começar a rolar o som. O que vocês acham?

- Ally, me desculpa, mas seu marido merece um beijo! – disse Clara sorrindo.- Meus pés estão me matando.

- Merece mesmo! Eu também estou morrendo de dor nos pés. – sorriu Ally.

E o pequeno grupo mudou-se para as cadeiras no jardim de inverno, onde estava montada uma área para descanso que as pessoas aproveitavam também como espaço para namorar.

Clara sentou-se, tirou os sapatos e massageou um pouco os pés. Ally fez a mesma coisa. Mas mal a dor nos pés havia aliviado um pouco, ela começou a ouvir música vinda do salão, vestiu novamente os sapatos e correu para a pista de dança.

Jack começou o set cantando "Little Sister", uma música gravada por Elvis Presley. Do palco, ele olhava para o público procurando por Clara, que começou a acenar para ele, de uma das laterais. Quando finalmente a viu, acenou, sorriu e mandou um beijo.

E o show continuou com mais músicas da década de 50 e Jack brincando de Elvis. O mais irônico era que ele nunca gostou de imitadores, sempre criticou pesadamente as bandas covers assumidas e mais ainda as que seguiam o estilo do Crossroads por admiração ou esperteza, tentando recriar ao menos na imagem algo que mesmo 30 anos depois do seu final, ainda era popular.

Com estes últimos, Jack chegava a ser impiedoso, algumas histórias dessa enorme implicância dele ficariam famosas e criariam verdadeiras guerras entre os fãs da Crossroads e destas outras bandas.

Mas naquela noite, Jack era Elvis, um Elvis muito mais sexy do que o original, de cabelos louros longos e cacheados e um par de olhos azuis que quando fitavam Clara conseguiam fazê-la esquecer de que existe um mundo lá fora.

- Eu entendo que tem uma fila de músicos aqui nos bastidores esperando a vez para brincar um pouquinho aqui no palco, mas antes disso, quero agradecer a todos pelo apoio que nos deram lá no Palais des Sports e aqui e dizer que nos veremos muito pela estrada. Obrigado! Vou chamar ao palco um dos nossos ídolos de sempre para cantar um pouquinho aqui conosco: Madames et Monsiers Mick Jagger.

Mick cantou dois ou três blues tradicionais, com o acompanhamento da Crossroads, enquanto Jack tocava sua gaita. A seguir, os músicos da Crossroads desceram do palco dando lugar aos Rolling Stones. Jack desceu do palco suado e abraçou Clara. Eles ficaram mais alguns minutos no show, mas estavam muito cansados e acabaram subindo para a suíte.

Normalmente nenhum dos dois perderia aquilo que estava acontecendo naquele pequeno palco, mas o cansaço os estava vencendo. Ao subir para a suíte, Clara carregava seus sapatos nas mãos e Jack, o paletó.

Os dois passaram rapidamente pelo chuveiro e foram dormir. Clara ainda precisou colocar alguns esparadrapos nos dedos machucados, mas Jack mergulhou de cabeça nos travesseiros e dormiu imediatamente.

Clara deitou-se a seguir e lembrou-se só naquele instante que aquela era a última noite deles em Paris e até agora, seu tão sonhado passeio com Jack por aquele cenário maravilhoso, não tinha acontecido.

Continua

28 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXIII


Jack ficou preocupado com Clara, levou-a para dentro e lhe trouxe um copo d'água.

- O que foi, meu amor? Você está bem?

- Ah Jack, me desculpa. É mais forte do que eu... Não estou triste, estou explodindo de felicidade, te amo demais e não agüentei!

- Vem, vamos voltar para a cama, descansar um pouco mais. O Jagger tem razão, não quero subir no palco com cara de batata cozida.

- Vamos dormir mais um pouco, prometo que não vou chorar mais. – disse Clara indo para a cama com ele. – boa noite, meu amor.

- Boa noite. – disse Jack beijando-a na testa.

Os dois acordaram novamente às 10 da manhã, envoltos em uma inexplicável paz. Pediram o café da manhã para o serviço de quarto e foram tomar um banho.

Vestiram-se e logo começaram os telefonemas. O dia seria bem agitado por lá. O show seria longo, com a participação de 12 atrações, tudo estava programado para começar às 3 da tarde. As limusines pegariam a banda no hotel só às 7 da noite e eles entrariam no palco para tocar a partir das 8; logo depois do U2 e antes dos Rolling Stones fecharem a noite.

A finalidade era de criar um fundo em favor das crianças que sofriam ao redor do mundo. As guerras e os grandes desastres naturais eram apenas algumas das faces mais visíveis deste sofrimento.

As primeiras bandas e cantores poderiam apresentar apenas uma música; mas U2, Crossroads e Stones estavam liberados para tocar até cinco músicas cada; eram as bandas que todos queriam ver e era bom deixar público e mídia felizes.

A Crossroads tocaria quatro músicas, sendo que a última teria a participação especial de Mick Jagger. Para aumentar a sensação de evento único, David Mersey dividiria uma música com o U2 e Bono Vox cantaria com os Stones.

Para Clara aquele era mais um dos seus sonhos transformado em realidade. Na mesma noite ela veria não só sua banda favorita fazer a apresentação que marcava seu retorno, mas também bandas que admirou toda sua vida. E se ela não estivesse na confortável situação de futura esposa de um dos músicos que participariam do show, era muito provável que teria passado a última semana indo de redação em redação tentando ser escalada para a cobertura, dizendo que estaria a caminho de Paris de qualquer maneira.

E agora, neste momento em que mal havia acordado, ela estaria com muitos amigos e conhecidos jornalistas na coletiva de imprensa do U2 no hotel em que a banda estava hospedada, próximo do Palais des Sports.

Na verdade, uma parte dos telefonemas que ela atendia ou mensagens de texto que chegavam em seu celular eram destes amigos perguntando onde ela estava e outra parte pedindo ajuda para conseguir acesso ao show.

Jack já estava começando a ficar incomodado com o número de vezes que o aparelho chamava e por isso pegou-o de sua mão, desligou-o e pendurou-o em um dos lustres de cristal da suíte: - Pronto! Assim teremos um pouco de paz! - disse rindo.

- Mas, Jack... Meus colegas querem minha ajuda...

- Eu também quero e se você ficar falando com eles, eu não terei com quem falar... - respondeu beijando sua testa. - Você vai ajudar esse pessoal a entrar no show? Ou fazer a cobertura dele?

- Provavelmente você tem razão... Desculpa, estou tão ansiosa que por mim, já estaria lá no Palais des Sports.

- Eu também! - respondeu com um sorriso nos lábios.

Quando o telefone da suite começou a tocar, Clara e Jack caíram na gargalhada. Deixando de lado o croissant que comia, Clara atendeu ao telefone. Era Cindy chamando os dois para irem até sua suíte porque algumas visitas queriam conhecê-la.

- Visitas? Que visitas? - ela perguntou intrigada.

- Vem para cá que vocês verão. Não conto! - respondeu Cindy rindo.

- A Cindy quer que a gente vá até a suíte dela, parece que tem uma visita lá que quer ver a gente. Vamos?

- Tudo bem... Não adianta querer mesmo ter algum sossego hoje.

Os dois atravessaram o corredor e seguiram até a suite de David que estava com a porta aberta. Lá dentro uma grande agitação de vozes e Clara aproximou-se de mãos dadas com Jack e assim que passou pela porta viu Keith Richards e Ron Wood sentados nos sofás.

- E aí, Jack? Pronto para hoje? - perguntou Richards.

- Mais do que nunca! - disse Jack.

- Minha noiva, Clara Oberhan!

- A escritora, né! Olá Clara, gostei muito do seu livro. Mas você poderia ter arrumado coisa melhor. O Jack é meio caído... - disse Richards rindo.

- Olá princesa! - disse Ron Wood beijando sua mão.

- Olá! - Clara respondeu rindo, enquanto Jack a puxava para longe dos dois guitarristas. - Bom dia, pessoal. - disse, sentindo-se um pouco embaraçada com toda aquela atenção.

- Então, velhão? Senta por aí! Estamos aqui combinando umas coisas para hoje à noite. Vai ter uma festa aqui no salão do hotel e nós conseguimos autorização para tocar. Esses franceses são esquisitos, não querem que a gente faça aquilo que todo mundo pede para a gente fazer. - disse David.

- Claro! Estou dentro; vamos brincar um pouco lá e depois a gente vem para cá e brinca mais um pouco. - respondeu Jack. - Ah! E vocês vão ao nosso casamento não, lá terá também um palco para tocarmos.

Os planos e gargalhadas rodavam pela sala e Clara sentia-se no paraíso. Cindy fez um gesto de longe e ela levantou-se e seguiu-a até o corredor.

- O que foi? - perguntou Clara.

- O Jack está bem?

- Claro! Por que?

- O David me disse que ontem ele teve uma daquelas crises no estúdio depois que o Mick Jagger foi embora.

- Ele estava bem ontem quando chegou aqui, até um pouco eufórico. - disse Clara.

- Então não foi nada! Que bom! Hoje será um dia e tanto! Você já sabe como vai se vestir?

- É um show de rock, Cindy... acho que com roupas bem simples.

- Não sei... aquele lugar vai estar cheio de fotógrafos até o teto.

- E o que você sugere?

- Vem aqui no quarto que eu vou te mostrar.

Cindy mostrou à Clara algumas de suas roupas, mas agora ela já tinha outras preocupações com Jack e o que poderia acontecer ainda naquela noite na frente de alguns milhões de pessoas que assistiriam ao show pelo pay-per-view da TV a cabo e pela internet.

- Acho que vou colocar uma daquelas batas indianas que comprei na loja da namoradinha do Jack... - disse Clara para encerrar aquela discussão sobre roupas. - Vou colocar uns acessórios e acho que vou ficar bem.

- Não esquece de colocar um cinto nessa bata.

- Por quê?

- Bom, vocês vão casar muito rápido e eles podem inventar uma gravidez para você...

- Verdade! Não tinha pensado nisso. Acho que vou acabar indo com uma camiseta do Crossroads, calça skinny e botas.

- Ótimo, a Barbie anti-glamour em ação! - riu Cindy.

- Gostei! Esse podia ser meu novo apelido! - riu Clara. - Teve uma época, quando todo mundo me chamava de "fadinha do rock" em que eu queria gritar que fadinha era a mãe! Mas hoje, acho que sou só uma fã da banda do meu querido futuro marido que quer ver tudo bem de perto e divertir-se sem maiores preocupações.

- Então vamos todas assim... Depois, voltamos para o hotel e nos arrumamos para a festa. Que tal?

- Perfeito! Vai ser lindo!

- Vamos voltar para a sala então, quero ficar perto do Jack hoje. Falando em ficar perto, onde está a Jennifer?

- Está lá no spa. Acordou dolorida e queria outra daquelas massagens.

- Hum... isso é bom! Mas hoje não acho que vá sobrar tempo. Pena...

- E você? Está pronta para enfrentar os leões hoje à noite?

- Estou ansiosa por hoje.

- É! Mas você sabe que hoje você vai ser só um borrão no caminho do palco, no meio de groupies, jornalistas, empresários, agentes, fãs, outros músicos... e coisas que normalmente só se vê em um zoológico. Até atores de Hollywood estarão por lá!

- Sei Cindy! Mas você não consegue se animar nem um pouquinho com o que vai acontecer em cima daquele palco?

- Claro que sim! Não sou esse monstrinho cínico que você está montando aí na sua cabeça. Eu também estou emocionada com tudo o que está acontecendo, só que já vivi mais tempo do lado de cá e sei que ainda hoje você vai se deparar com uma porção de coisas que vão te fazer lembrar de mim.

- Eu sei de tudo isso, Cindy. Já faz um tempo que estou a um passo do lado de cá, lembra? Eu sou jornalista. Trabalho há anos no meio musical e já andei por muitos destes zoológicos.

- Então você não vai se decepcionar.

- Acho que não. Espero, que não...

As duas foram até a sala de estar onde a conversa estava animada, regada a muito uísque e como sempre ia da música ao futebol e de volta à música.

Clara não gostou do que viu, Jack tinha acabado de tomar café da manhã e seguia de perto o ritmo de Keith Richards agarrado ao seu copo de uísque.

- Vocês ficaram com a suíte do piano, não é? – Keith perguntou a Jack.

- É, nós estamos lá! A Clara gosta de pianos! E eu toco para ela quando ela não consegue dormir, não é amor?

- É... – respondeu Clara um pouco sem graça.

O celular de Cindy começou a tocar, era uma mensagem de texto de Jennifer chamando ela e Clara para irem até a suíte dela.

- Rapazes, se vocês prometerem ficar bonzinhos, eu e a Clara vamos nos encontrar com a Jennifer Silver na suíte dela. Emergência de figurino.. Já voltamos!

- Fica tranqüila, querida. Eles irão se comportar! – respondeu David.

As duas seguiram pelo corredor, passaram pela suíte de Mick Jagger e chegaram na de Jennifer e ela já estava na porta esperando.

- Já voltou do spa? - perguntou Clara.

- Sim... quis só uma massagenzinha, acordei com uma dor danada no pescoço... - sorriu. - Vocês não imaginam o que aconteceu nesta madrugada! A Donietska foi embora! O Mick brigou com ela e ainda de madrugada nós ouvimos ela saindo da suíte.

- Meu Deus! O que será que aconteceu? – disse Clara.

- Não faço a menor ideia. – respondeu Jennifer.

- Hum! Eu acho que isso já estava para acontecer. O Mick é assim mesmo, depois do divórcio ele vive trocando de namorada o tempo todo. – disse Cindy. – Cuidado Clara! Se ele já estava se jogando para cima de você ontem, na frente da Donietska. Imagina agora que está solteiro?

- Mas ele não deu em cima de mim, ontem! – disse Clara. – Será que eu estava tão bêbada que não percebi?

- Ah! Clara! Você não notou? O Jack estava a uns dois centímetros de dar um soco nele. Cuidado que ele tem todo um discurso de que não liga para fidelidade, mas é bastante ciumento. – disse Cindy. – Não seja ingênua de achar que ele leva esse tipo de coisa numa boa.

- Mas eu não notei nada... – disse Clara. – Já estou começando a ficar com medo de ir a esse show. Quanto a mim, não quero nada com o Mick. Não consigo nem pensar em ficar com outro cara que não seja o meu Jack.

- Mudando um pouco de assunto, com que roupa você vai ao show, Jennifer? – perguntou Cindy.

- Ainda não pensei, meninas vamos até o closet e vocês me ajudam a pensar. – disse Jennifer.

E elas passaram mais algum tempo pensando no que vestiriam; do closet de Jennifer, foram até a suíte de Clara. Ao se depararem com o celular dela pendurado no lustre, fizeram um enorme discurso, dizendo que ele não tinha direito de fazer isso, e ajudaram Clara a resgatá-lo, segurando a cadeira.

Assim que ligou o celular, ele voltou a tocar. E as ligações e mensagens de texto de colegas jornalistas recomeçaram. Jack tinha razão; ela estava em outra situação e não fazia mesmo sentido ficar com o telefone ligado se ela só podia dizer não para todos os que ligavam.

As horas começavam a passar mais depressa e elas voltaram à suíte de David depois que ele avisou que havia pedido um almoço para todos ao serviço de quarto.

E as três foram para a suíte de David e descobriram que Michael Peters já estava por lá, pronto para cuidar de seus clientes e atender a todos os seus pedidos.

Clara fez um sinal discreto para David, chamou-o para conversar no corredor.

- Não deixa o Jack beber demais. Estou preocupada com ele, você sabe se ele está nervoso sobre o show?

- Ah Clara! Fica tranqüila! Você está com medo dele beber demais e dar vexame no palco? Não, ele não funciona assim. Ele é um velho profissional e beber demais está fora de questão. Você vai perceber que agora no almoço ele vai tomar só um suco, tomar um banho e depois só vai tomar um uísque lá no camarim, um pouco antes do show.

Clara deu um suspiro profundo e sorriu para David. Agora ela estava mais calma. Jack não tinha pirado, ele estava só agindo como sempre. Tudo estava sob controle.

David e Clara voltaram para a sala de estar e Jack puxou-a para sentar-se ao seu lado no sofá. Mas logo, o almoço que David pediu chegou e todos estavam ao redor da mesa, na sala de jantar.

Como David havia previsto, Jack passou para os sucos e também foi moderado na comida. Com o passar das horas, ele parecia estar entrando em um ritmo diferente, ia aos poucos ficando mais quieto, parecia perdido nos próprios pensamentos, mas na verdade apenas se concentrava naquilo que faria mais tarde.

Depois do almoço todos foram para a suíte de Jack, Keith queria mostrar a David uma ideia melódica que estava desenvolvendo no piano a partir de um truque que aprendeu diretamente de um velho pianista de blues de New Orleans.

A sala se encheu de olhos brilhantes, Jack parecia nem respirar observando as mãos encarquilhadas de Keith correndo sobre as teclas do piano em uma irresistível levada de blues.
Era mais uma daquelas coisas que ela sempre sonhou e que agora estava vivendo. Ela levantou-se de onde estava e foi na direção de Jack, que estava parado, de pé, ao lado do piano e pegou-o pela mão. Jack puxou-a, abraçou-a e beijou sua cabeça; ainda com os olhos fixos nas teclas do piano, como se Keith estivesse dividindo com ele um segredo importantíssimo sobre o funcionamento do universo.

David sentou-se ao lado de Keith, no banquinho do piano e os dois passaram a trocar técnicas. Ron Wood e Michael Silver logo foram buscar guitarras acústicas e Jack trouxe sua gaita. A jam estava formada e eles ficariam uma boa parte da tarde tocando velhos blues.

Quando Keith e Ron começaram a cantar, Clara definitivamente estava no céu e apenas sentou-se em um dos sofás observando quietinha, as lágrimas brotavam no canto dos olhos, mas eram discretas e não tiraram a atenção de ninguém da música maravilhosa que estava sendo feita ali.

A tarde seguiu doce, para ela tudo estava tão perfeito que ela desejava que o tempo parasse naquele instante para sempre. Uma onda de carinho a invadia novamente ao perceber que seus dois grandes amores estavam com ela na mesma sala, de um palácio luxuoso de Paris; a música e Jack Noble.

Mas o tempo continuou correndo e logo cada um dos presentes já havia partido para sua própria suíte com a ideia de preparar-se para o grande evento do dia e ela estava mais uma vez sozinha com Jack. Ele, por sua vez, estava muito quieto, sem camisa, no terraço com o olhar perdido no horizonte ensolarado de Paris. Clara aproximou-se e apenas encaixou-se em seus braços, respeitando seu silêncio.

Vendo-a perto, ele aproximou-se ainda mais pressionando seu corpo contra o dela, empurrou-a contra o muro e a beijou com paixão; além do amor, aquele beijo trazia para ela uma sensação estranha, como se fosse a última subida para a superfície de alguém que se afogava em seu desespero por apenas um pouco de ar.

- Jack, acho que precisamos nos preparar para sair. Lembra que eu estou ao seu lado, não importa o que aconteça, estou aqui para você. - disse acariciando o rosto de Jack e olhando em seus olhos.

- Eu vou ficar bem, amor. Pela primeira vez eu sinto que posso subir naquele palco hoje e que isso será bom para mim, não vai doer tanto porque você vai estar lá e depois daquilo tudo a gente volta para cá e tudo estará curado. Você fez isso comigo!

- Então vamos, amor. Está ficando tarde. Não quero que você se atrase. Além disso, meu lado jornalístico quer muito ver o U2 no palco.

- Em que parte do corpo fica esse lado jornalístico? - perguntou Jack tentando tirar a roupa de Clara.

- Vem amor, já para o banheiro, vamos tomar banho que lá eu te mostro...

E Clara puxou-o até o banheiro, onde os dois se despiram e entraram na banheira. Ela queria cuidar especialmente dos cabelos de Jack, lavou-os, passou um creme que os deixaria ainda mais vistosos. Queria que os milhões de pessoas que veriam o show daquela noite o vissem com seus olhos apaixonados.

Depois Clara secou cuidadosamente os seus cabelos, apertando-os entre os dedos para manter o formato dos cachos e passou hidratante por todo o seu corpo, massageando-o. Os dois então caminharam até o quarto, onde ela escolheu suas roupas e ajudou-o a vestí-las. Um black jeans, botas pretas de bico fino e uma camisa preta. Pulseiras, anéis e o japamala de jade no pescoço, para proteção, completou o figurino.

Clara vestiu-se com uma bata branca indiana, sobre uma camiseta regata também branca. Calça jeans skinny, botas de cano alto e salto agulha e um cinto largo fazendo cintura na bata para afastar qualquer possibilidade de comentários maldosos. Colares e pulseiras indianos, brincos de argola, maquiagem e um perfume discreto. Os cabelos presos em um rabo de cavalo, amarrado com um lenço colorido.

Na hora de ir para o show, Michael bateu na porta, desceriam todos juntos e iriam até o Palais em limusines. A equipe foi reforçada por um grande número de seguranças e batedores. Clara sentia-se vivendo um momento histórico, quando entrou na limusine no subsolo do hotel de mãos dadas com Jack. Junto com eles, o carro, o motorista e dois seguranças.

Ela não sabia se era o ar condicionado do carro, mas sentia frio e suas mãos estavam geladas. Jack pegou a garrafa de uisque no bar do carro, serviu um copo para ele e outro para ela.

- Você está tão gelada... Vou te esquentar um pouco.

Continua