12 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXXVIII


Foram dormir tarde e acordaram cedo. Tomaram café da manhã e logo subiram no jipe para um trajeto de apenas meia hora de viagem até a cidade em que Jack passou sua infância e adolescência.

Clara sentia que estava fazendo um mergulho no passado, as pequenas casas com tijolos vermelhos que serviram de lar para os trabalhadores das fábricas da região no início do século XX ainda estavam lá e conforme iam rodando pela cidade, Jack descrevia como eram as coisas na época em que era criança.

Até ele entrar em uma pequena vila de casas e parar na frente de uma delas. – Meus pais moravam aqui quando eu nasci. A casa era bem diferente, parecia com aquelas da vila de trabalhadores que passamos na entrada da cidade. Era uma casa confortável onde nós quatro vivíamos muito felizes e foi aqui que eu comecei a descobrir a música americana que chegava pelo rádio.

- Será que podemos descer e andar um pouco? – perguntou Clara.

- Acho que sim, tem um parque na rua detrás, podemos andar até lá e ficamos conversando nas mesas da área de picnic. Vamos?

- Vamos lá, Velhão! Acho que a princesa vai querer gravar tudo para poder escrever o livro, não é?

- Vou sim, David. Minha câmera está aqui. Vamos?

- Os quatro desceram do carro e seguiram até o parque, Jack e David usavam bonés e óculos escuros. Naquela hora da manhã, existiam poucas pessoas circulando por lá.

- Perfeito! Este parque é bem bonito. Já existia na sua infância? – perguntou Clara.

- Não. Aqui ficava uma grande fábrica que faliu na década de 60 e ficou alguns anos servindo de abrigo para mendigos. O governo primeiro demoliu o prédio e na década de 90, fez o parque.

- Tem uma atmosfera gostosa aqui, não sinto nenhuma energia negativa. – disse Clara. – A natureza limpa tudo.

- Você consegue perceber esse tipo de coisa, princesa? – disse David.

- Não porque quero, mas consigo. Às vezes isso me atrapalha um pouco. Teve uma época em que tentei abrir um escritório de assessoria de imprensa com uma colega, na casa dela e não conseguia trabalhar lá de jeito nenhum. Era uma casa antiga e depois descobri que tinha acontecido um assassinato lá na década de 20, o marido matou a mulher e em plena década de 90, a atmosfera continuava pesada.

- Que loucura isso, amor. – disse Jack. – Não me considero religioso, mas estas coisas sempre me impressionam.

- Eu já disse para vocês que comecei a estudar essas coisas depois que me envolvi com meu terapeuta. Para mim foi bom, me abriu uma janela enorme para coisas que eu não imaginava.

- Você é boa de Tarot? – perguntou Cindy.

- Já fui melhor. É uma coisa que você precisa estar sempre exercitando. É como um músculo que quanto mais você exercita, melhor fica. Quando você estuda e está sempre com o baralho por perto, as informações aparecem na sua cabeça sem você saber de onde elas vêm.

- Está certíssimo princesa. Eu aprendi muito lá no Brasil sobre isso, é um dos melhores lugares do mundo para estudar estas coisas. No curso me falaram que quanto mais você presta atenção ao que sua intuição fala, mais ela vai falar. - disse David.

- Isso mesmo, David. - sorriu Clara. - Você está sabendo... Não sou a única bruxa por aqui...

- Cindy, vamos embora. Agora que os bruxos se encontraram, estamos de fora... - disse Jack pegando Cindy pela mão e levantando da mesa.

- Vamos trabalhar. O Jack não suporta ficar fora dos refletores... - disse David em português.

- Jack, querido... Estamos aqui para falar sobre você, amor... Vamos começar a gravar? - disse Clara ajeitando a câmera. - Vamos falar da sua infância?

Jack abriu um sorriso largo e todos começaram a rir.

- Você é maluco, velhão! Mas nós te amamos! - disse David.

- Bem, querido. Vamos começar então. Revendo as ruas da sua infância, alguma lembrança que você queira dividir conosco?

- Eu lembrei do caminho que eu fazia para a escola todos os dias, e tinha uma casa no caminho em que tinha um cachorro enorme e ele sempre latia quando eu passava e eu ficava com muito medo. Mas tinha uma outra coisa no caminho também, uma doceira onde eu gastava todas as moedinhas que ganhava dos meus pais...

- Que lindinho! - disse Clara. - O que mais?

- Eu era um moleque muito feliz por aqui. Brincava muito na rua, jogava futebol e rugby em um campinho aqui perto. Sempre fui muito curioso e por isso arrumava problemas com algumas pessoas, entrava em casas que via abertas e deixava meus pais envergonhados porque mexia em tudo nas casas dos outros.

- Você me falou uma vez que na escola, depois de ficar doente por meses, você era pequeno e os garotos da escola te perseguiam e o Donovan te protegia deles. Como foi isso?

- Eu tinha seis anos quando o conheci no pátio da escola. Os outros meninos eram muito maiores do que eu porque tinha ficado doente e ainda estava bem debilitado, muito magrinho e pequeno. Os garotos queriam meu lanche e eu não tinha como me defender, quando o Don apareceu, bateu no líder desses grandões e botou todos eles para correr. Nos tornamos os melhores amigos nesse mesmo dia.

- E a música? Quando ela entrou na sua vida?

- Sempre esteve por lá. Meu avô e meu pai eram músicos e eu estava sempre atrás deles quando tocavam. Aprendi a tocar flauta, piano, violão e depois, eu ouvi Elvis pela primeira vez e fui "mordido" pelo "mosquito musical". Todo o resto desapareceu e só existia uma coisa no mundo que eu queria fazer daí em diante... E vieram os bluesmen e as festas na colina, mas aí eu já era adolescente e as coisas começaram a ficar meio loucas. Alguns bluesmen americanos começaram a fazer shows aqui na região e eu fui até o backstage do show de um deles e vi a gaita dele sobre um case de guitarra, peguei-a e coloquei-a no meu bolso, eu tinha uns 12 ou 13 anos e já estava em uma banda.

- O seu mojo? - perguntou Clara sorrindo.

- Isso mesmo, amor... o meu mojo! A partir disso eu passei a me achar o bluesman. Afinal, eu tinha um mojo, não? -sorriu Jack.

Todos riram muito, imaginando Jack garoto posando de bluesman.

- Você devia ser muito fofo, acho que me apaixonaria por um garotinho assim... - disse Clara.

- Você tem razão, Clara, ele é mesmo fascinante. - disse Cindy sorrindo.

- É... acho que estou me apaixonando também... Vou acabar te pedindo em casamento. - gargalhou David.

- Desculpa amor, mas tenho uma confissão a fazer... sou gay e vou me casar com o David! - disse Jack rindo. - O Michael fará nosso divórcio...

- Sabe, amor... Não ponho a mão no fogo por ninguém nesse mundo e se você me diz que é gay, eu terei que me afastar. Não serei eu a ficar no caminho do amor real de vocês dois...

Jack levantou-se, deu a volta na mesa, tirou a câmera das mãos de Clara e beijou-a tão apaixonadamente que ela por alguns segundos ficou sem ar e deu um longo suspiro que o fez sorrir.

- Estamos bem de novo? - Jack sussurrou em seu ouvido.

- Muito bem... - Clara sussurrou, acariciando seus cabelos.

- Onde estávamos? - disse Clara suspirando novamente, o que fez todos rirem.

- Vamos dar uma voltinha por aí? Tem um pub aqui perto com comidinhas muito boas, que eu costumava ir... Vamos comer, meu estômago está roncando... - disse Jack.

- Vamos sim, princesa, depois de quase perder o velho Shags para mim, você deveria ficar preocupada...

- Shags? Vocês chamam mesmo o Jack de Shags? Pensei que era maldade daquele escritor...

- Não querida, ouvi essa história de Shags a vida inteira. Eu te disse que o pessoal da banda era terrível, estávamos sempre rindo uns dos outros...

- Por que Shags, David?

- O apelido completo era "Serial Shagger" e acho que você consegue imaginar por que... As mulheres não tinham a mínima chance com ele.

Os quatro ergueram-se da mesa de picnic, seguiram pelo parque por alguns quarteirões e atravessaram a rua. Aquela era uma área um pouco mais movimentada da cidade, tinha algumas lojas e o pub ficava na esquina, um estabelecimento bem tradicional, tinha na porta uma escultura de madeira de uma bela mulher com flores na cabeça e chamava-se "May Queen".

O dono do pub era Donald Tryscoll, um colega de escola de Jack que foi convidado, mas não compareceu ao casamento.

- Jack! Velho! Veio visitar os pobres? - perguntou Donald.

- E aí? Como estão as coisas? - disse Jack indo em sua direção, abraçando-o e beijando-o. - Você não foi ao meu casamento, então trouxe minha gata para você conhecer.

- Eu estava na Escócia, um parente da minha mulher morreu e nós tivemos que ir para lá... desculpa querido. - disse Don. - Querida, você é ainda mais bonita pessoalmente do que nas fotos. Poderia ter casado com alguém bem melhor...

- Obrigada, Don. Como vai? - disse Clara estendendo a mão para o amigo de Jack, que a puxou pela mão e a agarrou.

- O velho... essa é a minha princesa, cara... Solta! - disse Jack rindo. - Você conhece o David e a Cindy, não?

- Claro! E aí? Como estão?

- Tudo bem, Don! E a esposa? - perguntou David.

- Descansando um pouco em casa. Está gripada, essas bandas já estão ficando geladas. - respondeu Don. - O verão está ficando mais curto a cada ano.

- Pois é, estou ficando em casa nesta semana e o sol tem terminado antes das quatro. - disse Jack. - Acho que vai nevar em setembro neste ano.

- Depois falam em aquecimento global, se tem alguém fervendo por aí, eu não sei, mas nós estamos congelando! - disse Don. - Vamos lá, tem uma mesa boa para vocês lá no fundo da casa. O meu filho foi fazer uma entrega e assim que ele voltar, a gente pode conversar, enquanto isso, cerveja e purê com salsicha para todos?

- Eu recomendo! Não é porque eu amo esse prato, mas o purê com salsicha daqui é uma delícia! - disse Jack.

- Trás para todo mundo, cara. - respondeu David com a concordância de Clara e Cindy.

Clara puxou Jack para perto e perguntou sussurando em seu ouvido: - Ele pode dar um depoimento para o livro?

- Pode sim, amor... Deixa o filho dele chegar que a gente pergunta. - respondeu Jack.

O restante da tarde foi bastante divertido e Clara gravou um depoimento cheio de histórias engraçadas sobre a adolescência de Jack. Depois, os quatro sairam do pub, um pouco bêbados, para continuar andando pela cidade.

Foram até o centro onde visitaram e fotografaram alguns prédios e depois voltaram para o carro, esperando encontrar alguém na casa onde Jack morou na infância para pedir autorização para fotografá-la também.

A dona atual da casa, uma jovem recém-casada, levou um susto ao ver Jack Noble e David Mersey na porta de sua casa e não só concordou imediatamente com as fotos, como fez questão de ligar para o marido e chamá-lo para voltar antes porque era um fã da banda e adoraria conhecê-los.

Entraram para tomar um chá com o casal, que ficou muito feliz com a visita inesperada. Depois, com o dia já escurecendo, voltaram felizes para a montanha. Combinaram de voltar para a cidade no dia seguinte para visitar as escolas, que por sinal, recebiam até hoje dinheiro de uma fundação que Jack havia criado para incentivar nelas o ensino da música e da arte.

A montanha já estava gelada quando chegaram e os quatro entraram correndo em casa. Jack acendeu a lareira e Clara correu animada para buscar seu notebook para começar a trabalhar no segundo capítulo do livro. Abriu seus e-mails e viu que Jonas tinha escrito para ela mas ao invés da crítica sincera que ela pediu ele mandou apenas algumas palavras: "Fantástico! Espero ansiosamente pelo segundo capítulo!"

Ela já tinha o bastante para falar sobre os primeiros anos da vida de Jack e no dia seguinte ainda visitariam as escolas onde estudou e ela já tinha decidido que o capítulo terminaria com sua fuga de casa, aos 16 anos.

Enquanto ela conectava a câmera no notebook, Jack foi para a cozinha preparar capuccino para todos. Ele também estava começando a empolgar-se mais com a ideia do livro e lembrava-se de histórias divertidas de sua infância, como o susto que deu em seus pais, quando tinha apenas quatro anos, escondendo-se quieto em um armário por algumas horas, enquanto eles procuravam pela vizinhança, já desesperados.

- Que monstrinho, você era Jack! - disse Cindy rindo. - Se fosse meu filho ficaria de castigo até os 16 anos!

- Ele era lindinho Cindy, um fofo. - disse Clara. - Depois tornou-se um homem muito doce, isso significa que os pais dele souberam educá-lo.

- Já o vi fazendo coisas nada fofas, Clara. - riu David. - Mas não quero estragar o encanto que você tem por ele, porque isso sim é algo doce.

Clara sorriu e agradeceu. Sabia que a fama da banda não era nada gratuita e a coisa mais suave que já havia lido era de que eram selvagens. Mas era uma outra época e estranhamente Clara encontrava alguma paz de espírito simplesmente pensando que não podia se preocupar com o que Jack fazia em um tempo em que sequer tinha nascido.

- Querida, um dia falaremos sobre isso... meu passado na escuridão... Sei que é bem possível que você me odeie depois que eu contar tudo, mas vou contar mesmo assim. - disse Jack. - Quero que você saiba tudo sobre mim.

Clara sentiu um enorme carinho por Jack. Levantou-se da poltrona, foi em sua direção e beijou-o como se o mundo estivesse prestes a acabar. - Você não precisa me contar nada, meu amor. Tudo isso já passou e sei que você agora é meu.

- Completa e totalmente! - sorriu Jack. - Você agora é minha vida!

- E você, a minha! - respondeu Clara, agarrando-se novamente a ele.

- Cindy, vem aqui... vamos deixá-los sozinhos... - sussurrou David rindo. - Estes dois...

- Não, vocês são nossos amigos e queremos que continuem com a gente. - disse Clara afastando-se de Jack e voltando para seu notebook. - Amamos muito vocês...

Clara continuou organizando os vídeos que havia feito, depois do chá na antiga casa de Jack, estavam todos sem fome e combinaram fazer um lanche bem mais tarde. Enquanto Clara repassava entrevistas, Jack pegou um dos violões e começou a tocar, uma canção folk que cantava suavemente, parecia querer apenas criar uma "trilha sonora" para a noite.

David logo levantou-se também e pegou o outro violão e com tantos shows acontecendo naquela quinta-feira, ao redor do mundo, Clara e Cindy estavam presenciando um dos melhores. Dois gênios da música na sala de estar, sem um roteiro, iluminados por abajures e aquecidos pela lareira, na noite gelada da montanha.

Clara logo terminou de subir videos e fotos para o computador, fez um pequeno planejamento de como seria o capítulo e fechou o notebook. Era um desperdício que aquela música maravilhosa servisse apenas de trilha sonora para seu trabalho, quando ela merecia sua total atenção.

Assim que percebeu que Clara tinha largado o computador, David parou de tocar e chamou-a até perto do piano, queria que ensaiasse "The Light" mais algumas vezes para que adquirisse mais confiança para a gravação do disco, na próxima semana. E o treinamento estava começando a funcionar, sua voz começava a aparecer mais e mais ao lado da de Jack.

- Menininha, você está ficando perfeita... vai ficar linda no palco, do meu lado.

- Palco? Hum... que vergonha. - disse escondendo o rosto com as mãos. - Vou precisar de muito ensaio e muito uísque para criar coragem.

- Vai dar tudo certo, amor. Você nasceu para isso. - disse Jack. - Está cada vez melhor, não David?

- Sim, a princesa está cantando melhor do que nunca, Velhão... Acho que logo ela terá uma carreira solo...

- Hum... Vou começar a escrever algumas coisas para ela... você me ajuda a produzir o disco?

- Jack, David... vocês são malucos... Vou cantar com vocês, regravar a música, mas é só isso. Não sou uma cantora, lembram? Sou escritora.

- É, minha "ghost writer"! - disse Jack puxando-a para seu colo e beijando-a. - Mas se você quiser, podemos fazer um disco para você que será maravilhoso.

A conversa sobre um disco dela deixou Clara um pouco zonza. Mas agora estava feliz e deixaria para pensar nesse absurdo se algum dos dois recomeçasse a falar sobre aquela maluquice novamente.

- Queridos, vamos lanchar? - perguntou erguendo-se do colo de Jack.

- Hum! Vamos fazer uma pequena excursão na cozinha e ver o que podemos achar por lá.

Os quatro colaboraram e sanduiches deliciosos de roastbeef com queijo acompanhados de taças de vinho logo ficaram prontos e depois compartilharam uma salada de frutas preparada por Clara.

Depois de comer, os quatro sentaram-se na frente da lareira, ficaram apenas namorando, quando começaram a ouvir barulho na área da piscina, atrás da casa. Jack levantou-se e acendeu as luzes do jardim, mas não conseguiam ver nada pelo vidro da porta. Decidiram então subir no quarto e olhar da sacada e viram três ou quatro lobos aproximando-se da casa.

- Olha só amor, eles estão se aproximando da casa novamente. - disse Jack puxando Clara para sua frente e entregando a ela um binóculo. - Ali, perto do carvalho.

Clara viu então quatro lobos adultos, que agora cavavam o jardim. Jack então desceu e disparou o alarme de segurança da casa para espantá-los e eles correram de volta para o mato. A seguir ele pressionou a senha que avisava a empresa de segurança que estava tudo bem e que o disparo foi acidental.

- Eles são tão lindos que dá até pena de assustá-los.

- São bonitos mas perigosos, Clara. É melhor ter cuidado quando forem sair no jardim, um animal destes pode machucar seriamente um de vocês. - disse Cindy preocupada.

- Mas acho que eles tem mais medo da gente do que nós deles. - respondeu Clara sorrindo. - Vamos ficar bem.

- Se eu precisar ir lá fora, a Clara vai comigo. Parece que ela não tem medo nenhum desses bichos - disse David rindo.

- Em várias lembranças da minha vida passada, eu estava no meio deles, por isso acho que não consigo ter mais medo. - respondeu Clara.

- É mesmo, eu vi você uma das vezes cuidando de um filhotinho que estava com a pata machucada. Foi uma imagem linda, amor... - disse Jack abraçando-a.

- Eu me lembro, era inverno tinha muita neve aqui em cima e eu o peguei no colo e levei até nossa casa. - disse Clara.

- Deve ser algo extraordinário ter todas essas lembranças. - disse David. - Eu fiz algumas regressões na época em que estava no Brasil, fazendo o curso, mas não consegui ver quase nada.

- Que pena! Eu gostei muito da experiência e acho que você também gostaria muito, Dave. - disse Clara. - Quem sabe, se você me ensinar como se faz, eu não posso te ajudar e você consegue.

- Isso seria maravilhoso, princesa. Tenho certeza que você consegue. - disse David. - Vamos fazer lá em casa, na semana que vem...

- Se eu estiver junto, todo o tempo, nenhum problema. - respondeu Jack agarrando Clara, demonstrando um ciúme que a fez sorrir.

- Adoro quando você tem ciúmes de mim... - Clara sussurrou no ouvido de Jack.

- Queridos, acho que está na hora de dormirmos, amanhã teremos um dia cheio visitando minhas velhas escolas, vamos Clara?

- Vamos sim, boa noite queridos, fiquem à vontade. - disse Clara pegando a mão de Jack e subindo com ele para o quarto.

- Jack, não fica chato deixar nossos amigos assim? - disse Clara, parando no topo das escadas e olhando para baixo.

Jack puxou-a para mais perto e sussurrou em seu ouvido. - Eles ficam bem, eu preciso estar com você. Vem...

Clara e Jack entraram no quarto, fecharam a porta e começaram a beijar-se. As roupas iam ficando pelo caminho, enquanto andavam até a cama. Estavam mergulhados completamente um no outro. Enlouquecidos de paixão, realizavam cada um dos seus caprichos, o único compromisso era com o prazer que parecia cair dos céus sobre eles, como chuva.

No final, ambos choravam completamente sensibilizados pela beleza daquilo que viveram. Jack tinha razão, era possível que se afogassem em lágrimas naquela montanha russa de emoções que viviam todos os dias desde que se conheceram.

Clara sentia frio e aninhou-se no corpo de Jack, estava em casa finalmente. No meio daqueles braços de que, sem saber sentia saudades há séculos. Estavam juntos novamente, em sua montanha.

- Você vai mesmo ajudar o David a fazer regressão? - perguntou Jack tentando disfarçar os ciúmes.

- Vou... ele nos ajudou tanto nestes últimos dias. Acho justo ajudá-lo. - respondeu Clara.

- É justo... mas por favor, não se envolva muito com ele.

- Como assim? Ele é nosso amigo, não é? - perguntou Clara intrigada.

- Sim, é... mas... Tem tanta coisa que eu queria te contar, mas não posso. Aquela história do meu apelido, que ele te contou; a verdade é que sempre existiu entre nós uma competição e o ponto alto dela era quando conseguíamos seduzir as mulheres um do outro. Não me orgulho disso hoje em dia, mas fazíamos jogos sexuais bem cruéis.

Clara e Jack sentaram-se na cama. Ela não queria ouvir o que ele tinha para contar-lhe, mesmo assim, deixou-o continuar...

- Estávamos sempre fora de nós mesmos, drogados não só pelas substâncias que usávamos, mas também pelo poder e de nós quatro, o David era o mais cruel. Ele nos manipulava facilmente, e hoje, tenho muito medo dele te machucar.

- Mas não existe espaço para isso hoje, Jack. Tenho muito claro dentro de mim um amor e um carinho por você que não admite mais nada, nem ninguém. Quando a gente está aqui, o mundo lá fora não existe. O David é um amigo, temos em comum a curiosidade pelas coisas sobrenaturais, mas só isso. Nem penso nele como um homem, amor. Fica tranquilo.

Jack pegou a mão de Clara e olhou firmemente em seus olhos, parecia tentar digerir aquilo que acabara de ouvir dela. - Por favor, amor... cuidado.

- Jack, estou em paz com você. Fica em paz comigo, por favor... - disse Clara tentando tranquiliza-lo.

- Ah, menininha! Eu te amo tanto. Para mim é muito difícil isso tudo, não quero te ver magoada...

- Vou tomar cuidado sim. Só quero que você veja que o que temos aqui é precioso demais para mim... - disse Clara segurando as mãos de Jack.

- Claro que é, meu amor... - respondeu Jack, beijando-a e agarrando-a. - Meu amor, adorável... - disse enquanto descia a mão pelo seu corpo.

E ficaram trocando carinhos até o amanhecer, quando finalmente pegaram no sono.

O dia seguinte foi corrido, café da manhã e visita a dois colégios, onde Jack e David foram saudados por alunos e professores com alegria e ela pode ver velhas fotos de Jack e sua turma de escola. Na verdade, em uma das escolas, a diretora disse que havia estudado na mesma classe dele e deu um depoimento dizendo que quando ele tinha 12 anos já era um dos rebeldes da escola, sempre arrumando confusão junto com Donovan, de quem nunca se separava.

Jack olhava para Clara concentrada em procurar seu passado naqueles lugares todos, tentando agora enxergar o garotinho que um dia ele foi, naquela cidade onde cresceu e um dia sonhou que era Elvis Presley e tinha o mundo todo a seus pés.

Hoje, Clara e seus amigos pareciam ter o mundo a seus pés, tratados como realeza nas duas escolas, fizeram uma pausa para um almoço bem plebeu no pub do velho amigo de Jack, regado a cerveja e bate-papo divertido.

David se mostrava animado com a ideia de ganhar uma "aprendiz" de magia e Jack ciumento e preocupado, não tirava as mãos de Clara o dia todo e ela percebendo sua ansiedade, decidiu ser ainda mais carinhosa e atenciosa com o marido.

Logo após o almoço, retornaram para casa. Clara tinha planos de deixar tudo pronto para começar a escrever o segundo capítulo do livro pois julgava que já tinha coletado todo o material necessário.

O grupo dividiu-se assim que chegou à casa da montanha, Clara ficou na sala de estar com seu notebook no colo, às voltas com entrevistas em vídeo que precisavam ser transformadas em texto.

Cindy ficou nas cadeiras da piscina aproveitando que a sombra da casa ainda não tinha chegado para colocar a conversa em dia com Jennifer pelo telefone. David foi direto até o piano, sempre perfeccionista, ainda trabalhava em um arranjo que não o tinha satisfeito.

Jack foi até o jardim conversar com Jones, o jardineiro, para ver de perto o estrago que os lobos tinham promovido na noite anterior.

- Droga! A bateria está acabando... Vou lá em cima buscar o carregador. - disse Clara desligando o computador.

- Hum, as desgraças da modernidade. - respondeu David, parando de tocar e aproximando-se dela. - Parece que o Jack não gostou nada da nossa ideia de fazer a regressão.

- O Jack tem ciúmes, como eu também tenho dele.

- O relacionamento de vocês é mesmo uma coisa intrigante. Espero que não mude nunca, esse cuidado que um tem com o outro. Depois de tanto sofrimento acho que vocês dois merecem a felicidade.

Os olhos de Clara encheram-se novamente de água. - É só isso que eu quero agora, fazê-lo feliz. Vou buscar o carregador, obrigada David.

- Obrigada, por que?

- Por entender aquilo que eu quero dar ao Jack.

- Olha, princesa, não só entendo como apoio e me ponho a disposição para ajudá-la naquilo que for preciso. Estou completamente ao seu lado!

Clara sorriu e subiu correndo as escadas. Se David era mesmo um manipulador como Jack o havia descrito, ela já estava em suas mãos, após colocar-se assim à disposição de seus propósitos. Quando desceu as escadas, David já estava no piano novamente e Jack aproximava-se da porta de vidro, percebendo naquele momento que Clara estava sozinha com ele.

- Seus amigos lobos destruiram as nossas roseiras e eu pedi ao Jones para dar um jeito de espantá-los daqui. Ele disse que tem uns sprays no mercado que afastam esses bichos.

- Afastá-los, amor?

- Sim, ele disse que andaram matando ovelhas dos nossos vizinhos e já estão falando por aí até em caçá-los.

- Ah não, amor. Isso não pode... Não deixa isso acontecer, Jack. - disse Clara desesperada.

- Calma, amor. Não vamos permitir isso.

- Já sei, vou procurar aqui, na internet. Tem que existir alguma ONG que cuide disso. Aqui, a Associação de Preservação dos Lobos do Reino Unido; vou escrever para eles já... Melhor ainda, vou ligar, tem um telefone aqui.

Clara pegou o celular e ligou para a ONG que logo se interessou pelo caso e informou que uma equipe viria até ela na segunda-feira para conversar com os fazendeiros da região.

- Infelizmente, não estarei aqui na segunda-feira, mas vocês podem procurar por Lambert, nosso secretário que os receberá e está autorizado a tomar todas as providências necessárias.

Clara colocou-se mais uma vez a disposição da ONG dizendo que os ajudaria em tudo o que fosse necessário para salvar aqueles animais.

Jack apenas a olhava com admiração, aproximou-se dela, acariciou seus cabelos e seguiu até o bar, onde serviu uísque para todos.

- Então, princesa, vamos salvar os lobos agora? - perguntou David sorrindo.

- Com certeza, precisamos fazer algo por eles. Vou deixar o Lambert de sobreaviso para receber a equipe da ONG aqui, na segunda.

- Tudo o que você quiser, meu amor. Você sabe que eu quero te ver sempre feliz. - disse Jack sorrindo e tomando mais um gole de uísque.

- Clara, você não vai acreditar no que a Jennifer me disse... - disse Cindy entrando na sala. - Hum, os lobos fizeram estrago lá fora, não?

- Quer um uísque, Cindy? - perguntou Jack.

- Aceito sim, obrigada Jack.

- Os fazendeiros querem atirar neles. Acabei de ligar para uma ONG de proteção e eles vem aqui na segunda-feira.

- Espero que eles consigam salvar esses pobres animais. - disse Cindy.

- Eu estou preocupada. Será que não era melhor eu ficar aqui na segunda? - perguntou Clara.

- Não precisa, amor. O Lambert fará exatamente o que você pedir. Confio totalmente nele. - disse Jack.

- E vamos voltar para Londres quando? - perguntou Clara.

- Estou pensando em ir amanhã, assim teremos o domingo inteiro para descansar no nosso hotel e ficarmos prontos para a segunda feira no estúdio, o que vocês acham?

- Talvez seja melhor, Jack. Vou para casa, deixo tudo arrumado e refaço as malas. Vamos ficar no hotel em Londres durante as gravações, Cindy?

- É melhor. Não quero que você fique rodando pela estrada de madrugada, é muito perigoso. E assim também posso ir a pé trabalhar na casa de vocês.

- Ótimo! Então ficamos todos no hotel. - disse Clara. - E o Michael?

- O que tem o Michael? - perguntou Jack.

- Ele não vai ficar no hotel conosco?

- Não é assim que ele funciona, amor. Ele aparecerá no estúdio na hora marcada e só... Você não tem ideia de como ele é estranho... - disse Jack.

- Pois é, princesa. Na época da Crossroads até tentávamos colocar um roadie atrás dele, mas ele sempre dava um jeito de sumir. - disse David sorrindo. - E quando aparecia, não estava lá de verdade.

- Sério? Que pena. Pensei que vocês fossem mais unidos.

- Não, amor... Chegou um ponto em que tudo era muito complicado e cada um preferia cuidar de sua própria vida.

- Então, mesmo que, sei lá, o Donovan continuasse vivo até hoje... Vocês estariam separados desde aquela época?

- Tenho certeza que sim. - disse David sorrindo. - Na época em que o Don morreu, as coisas já estavam completamente descontroladas. Além disso, seu marido não é a pessoa mais fácil do mundo de se conviver, mas isso você vai descobrir com o tempo, princesa.

- Nós usávamos muitas drogas. Você não nos suportaria naquela época, amor. Muitas vezes, o David ou o Donovan aprontavam coisas horríveis e o nosso empresário, que também era alguém terrível, pedia que eu, o mais tranquilo de todos ali, fosse resolver.

- Que lindo! Meu embaixador da paz! - disse Clara.

- Paz? Esse cara quebrou cinco das minhas guitarras favoritas, em uma tarde, no estúdio. Só porque ficou nervoso com uma situação que aconteceu dentro da equipe da banda. - riu David.

- Uma situação? Bom, um dia desses vou te contar como era essa nossa equipe e você entenderá tudo. - disse Jack.

- Eu nunca conheci o Brad Johnson, o empresário de vocês, sei que ele já morreu, mas não gosto dele. - disse Clara. - Tenho uma péssima impressão.

- Olha, princesa, para a gente ele era muito bom, um paizão. Mas era complicado mesmo, se fosse em uma época de menos drogas, talvez ele não tivesse ficado tanto tempo perto da gente.

- Eu gostava muito do Brad, mas você tem razão. Uma boa parte das coisas ruins que aconteceram com a banda, aconteceram por causa dele. - disse Jack. - Ele era um paizão, mas acho que não conseguiria trabalhar com alguém como ele agora. O final foi melancólico. Mas ainda falaremos disso para você amor, não quero ficar triste hoje.

- Ok! Mudando então de assunto, a Jennifer quer encontrar eu e a Clara para um chá no domingo à tarde.

- Isso significa que precisamos passar a "The Light" hoje mais algumas vezes com a princesa. Quero gravar essa música na segunda.

- Já? Quer dizer, na segunda? - perguntou Clara tentando disfarçar sua ansiedade.

Jack olhou para ela e sorriu: - Vamos cantar juntos, amor! Não se preocupe, vai dar tudo certo. Antes que você perceba tudo terá terminado. Eu prometo para você que será bem tranquilo.

Clara deu um suspiro e escondeu-se nos braços de Jack. Não tinha mais como fugir, então tentaria dar o seu melhor.

Como partiriam no dia seguinte, logo após o almoço, passaram o resto da tarde ensaiando Clara. Jack ensinava-a a cantar e aos poucos ajudava a dar-lhe a segurança necessária para encarar aquela tarefa.

No final da tarde, Clara foi com Cindy para a cozinha para preparar o jantar, enquanto Jack e David ficaram trabalhando no arranjo que ainda não estava pronto.

Clara preparou batatas recheadas e um filé grelhado, com molho de vinho e uma salada. Jack e David arrumaram a cozinha e depois vieram dela com xícaras de capuccino fumegante.

Cindy e David recolheram-se mais cedo para arrumar as malas, Clara e Jack também. Depois de tanto fazer e desmanchar malas nos últimos tempos, Clara já estava pegando prática e em poucos minutos os dois já estavam com tudo pronto para partir.

- Esta nossa semana por aqui poderia ter sido melhor, não? - disse Clara indo até o banheiro para preparar um banho para eles.

- Acho que foi perfeita. Estou muito feliz de estar com você, claro que fiquei preocupado por você ter ficado doente, mas gostei de te levar para o lugar em que cresci e também por finalmente ver que você nunca me abandonou.

- Nem poderia. Continuo te amando tanto que dói só de pensar em ficar longe de você.

- Linda! Vamos para a banheira, agora. Quero você...

A noite dos dois foi perfeita, uma despedida romântica da montanha que significava tanto para ambos e o dia seguinte começou bem cedo, com ambos na cozinha fazendo panquecas para o café da manhã. Estavam tristes de partir, mas tinham muitas coisas para fazer na próxima semana em Londres e isso não podia esperar.

Clara não disse nada, mas teve um pesadelo terrível naquela noite. Estava em uma casa de shows de São Paulo, assistindo ao show de artistas brasileiros, para depois escrever uma crítica, quando alguém disse a ela que Jack Noble estaria chegando para fazer uma participação. Ela deixou a sala onde acontecia o show e passou a procurá-lo. Quando finalmente o encontrou e aproximou-se dele para conversar, ele a ignorou completamente, seguindo para conversar com outras fãs que pediam seu autógrafo e fotos. Ela acordou com aquele sentimento de rejeição. No sonho ela era apenas uma fã, queria abraçá-lo e dizer o quanto sua música significava para ela, mas não conseguiu.

Mas isso não importava muito agora, aquele homem que a esnobou em seu sonho estava ali, ao seu lado, fazendo panquecas, enquanto ela preparava uma calda de frutas para comer com elas.

- Vou sentir falta da nossa montanha, amor.

- Eu sei... Sempre senti, este lugar era muito importante na minha vida, mesmo antes de te conhecer. Mas pelo menos agora você estará comigo o tempo todo e para mim será como se estivesse levando junto um pouco da nossa montanha.

- Nós temos nós dois... amor...

- Bom dia, queridos amigos. - disse David chegando à cozinha com um sorriso no rosto. - Prontos para ir?

- Desta vez está difícil, David. Queria poder continuar por aqui mais uns dias. - respondeu Clara. - Vai ser uma segunda-feira difícil para mim.

- Princesa, não se preocupe. Estamos lá para te ajudar e tenho certeza que você nem precisa dessa ajuda. Você é afinada e tem uma voz linda e isso é tudo que é necessário.

- Bom dia! - precisando de uma mãozinha aí, Clara? - perguntou Cindy.

- Não querida, obrigada, pode vir servir-se. Eu e o Jack já deixamos tudo pronto. Disso sempre sinto falta no hotel, de poder cozinhar.

- Ah, mas logo nossa casa de Londres fica pronta e aí você poderá cozinhar quanto quiser. - disse Jack. - Não é, Cindy?

- Sim, ia contar isso para vocês agora. recebi um e-mail do meu sócio e ele disse que as obras estão bem adiantadas e ele até já conseguiu um piso lindo para a cozinha que é muito parecido com o original daquela casa, do século XIX.

- Que lindo! Quero ver tudo quando chegarmos, amanhã vamos passar lá antes de ir na Jennifer? - disse Clara, o rosto iluminado repentinamente por aquela notícia boa sobre sua nova casa.

- Claro, querida! Vamos todos! - disse Jack. - Depois eu e o Dave vamos no pub do Dan ver o jogo, que tal bro?

- Perfeito! O Chelsea vai jogar contra o Inter de Milão... Preciso ver esse jogo. E vocês então poderão encontrar com a Jennifer, em algum lugar chic de Londres para falar mal dos seus maridos. - disse David rindo.

- Falar mal? Eu não consigo falar mal do Jack. - respondeu Clara.

- Viu? O Shags ainda é o cara... - disse David provocando a gargalhada de todos na cozinha.

- As malas de todos já estão prontas? - perguntou Jack. - Vou colocar tudo no carro logo depois do café porque assim ficamos livres para passar mais umas vezes a música com a Clara.

- Ela já está cantando bem, Jack. Não acho que precise. - disse David. - Mas se ela quiser, para sentir-se mais segura.

- Acho que preciso, sim, David. - disse Clara. - Estou ficando nervosa, acho que não vou conseguir.

- Vai sim! Você só precisa perceber que pode. - disse Jack.

Logo após o café, Jack e David colocaram toda a bagagem no carro e quando Lambert chegou, Clara deu a ele todas as informações sobre a ONG de proteção aos lobos e pediu que ele a mantivesse informada sobre tudo o que acontecesse por lá na segunda.

Depois, Jack foi buscá-la no escritório para passar a música mais algumas vezes. A ideia era dar-lhe segurança suficiente para entrar no estúdio.

Mas Clara interrompeu o ensaio para ir até a cozinha para conversar com Mona. Pediu que fizesse um almoço leve, peixe grelhado e legumes e servisse suco de frutas ao invés de vinho. Para desequilibrar um pouco a refeição e como uma despedida de sua montanha, Clara preparou um brigadeirão.

- A senhora sabe quando volta para cá? - perguntou Mona.

- Agora acho que vai demorar um pouco. Acho que lá pelo outono, porque o Jack vai gravar, mas antes de ir para a turnê eu quero passar mais uns dias por aqui.

- Que pena! O senhor Noble gosta tanto daqui...

- Verdade, Mona. E não só ele. Essa montanha é nossa, também me apaixonei por este lugar.

- Sei que não deveria dizer isso, mas quando soubemos que o senhor Noble ia se casar, ficamos bastante preocupados; mas agora, conhecendo a senhora, estamos muito felizes.

- Obrigada Mona. Isso significa muito para mim! Posso te dar um beijo? - perguntou Clara abraçando-a.

Clara abraçou a velha cozinheira e as duas choraram.

- Obrigada mesmo Mona. Vou cuidar do Jack enquanto estivermos longe, mas darei um jeito de trazê-lo para cá assim que puder.

Após o almoço, os quatro amigos já estavam na estrada. Muito quieta, Clara tentava disfarçar em vão a tristeza que sentia por estar deixando sua montanha.

- Você está muito quieta, menininha... Não fica triste, estamos indo para nossa outra casa. - disse Jack acariciando seus cabelos.

- Eu vou ficar bem, meu amor. Tenho certeza. - respondeu acariciando a perna de Jack.

Jack passaria pela casa de David e Cindy para deixá-los lá e depois seguiria para o hotel em Londres que era sua segunda casa.

No final da tarde, os dois estacionavam na porta do Four Seasons Over the Park onde o gerente já os aguardava, com sua suíte de cobertura pronta para recebê-los. A pedido de Jack, a suíte havia recebido um grande piano preto de cauda. O belo instrumento tomava agora uma parte da sala de estar, mas seria útil naquela fase de gravação de material novo para a banda.

Continua

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