10 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXXVI


- Você quer mesmo fazer isso? – sussurrou Jack no ouvido de Clara. – Se você não quiser, tudo bem.

- Quero sim, vou reviver a emoção de te ver pela primeira vez. Tem algo melhor do que isso? – ela disse enquanto se levantava do colo de Jack e seguia David até o sofá.

Cindy levantou-se do sofá e sentou-se no tapete, junto com Jack que trouxe para David a vela que havia pedido.

David sentou-se em um banquinho que o deixava na mesma altura de Clara que estava recostada no sofá. Era importante que ela estivesse confortável e relaxada, mas não a ponto de pegar no sono.

- Preciso perguntar, princesa... está confortável? Com frio, fome ou sede? – disse David.

- Estou bem.

- Ok. Fecha os olhos, vamos aumentar seu relaxamento. Vou pedir que o Jack diminua as luzes e você vai respirar com este ritmo: inspira, conta até cinco, prende a respiração, conta até cinco, esvazia os pulmões conta até cinco e com os pulmões vazios, conta até cinco até inspirar de novo. Vamos começar?

Clara seguiu as instruções de David e como estava prestando atenção apenas na contagem de tempo de sua respiração, aos poucos a ansiedade e o medo, naturais naquela situação, foram diminuindo e ela foi relaxando.

- Você está em uma situação de perfeita paz e segurança aqui conosco. Todos te amamos muito e queremos apenas o seu bem. Como você se sente agora?

- Tranquila. – respondeu.

- Ótimo, então continuando com esta respiração profunda, você vai abrir os olhos e olhar apenas para esta vela que estou segurando, você vai concentrar aqui o seu olhar e continuar ouvindo minha voz. Vamos continuar?

- Vamos.

- Ok! Você agora está no último andar de um prédio muito alto. É um prédio muito antigo e você quer descer e chegar até a porta de saída dele, onde está a vida anterior que você visitará.
Conforme você vai descendo os andares, você vai retrocedendo no tempo, mas não precisa correr, pode ir descendo calmamente até chegar à porta. Vamos lá?

- Um, dois, três, pode começar a descer.

Guiada pela voz de David, Clara parecia estar dentro de um sonho e via claramente as escadarias de um prédio muito alto que de lá de cima pareciam criar um poço sem fundo e muito escuro. Os andares não eram marcados e ela continuava descendo até encontrar o andar com uma porta de saída. Estranhamente, não havia portas naqueles andares em que passava e assim, ela entendia que ainda não tinha chegado ao lugar certo.

Jack e Cindy observavam tudo em silêncio absoluto, enquanto David continuava de prontidão apenas aguardando que sua mente chegasse ao ponto desejado.

- Estou vendo a porta.

- Muito bem, Clara. Agora você caminha até ela, abre e me diz o que vê.

- Estou indo para o bosque, com minha mestra e as outras aprendizes. Hoje é o mais importante dos Sabbats, toda a vila estará lá para o Beltane e eu dançarei para a Deusa.

- Quem é você?

- Meu nome é Ceridwen, serei uma sacerdotisa do templo, depois que for consagrada.

- Como é esta festa?

- Toda a vila vem até o bosque e todos dançam e cantam para a Deusa e comemoram com comida e bebida o encontro da Deusa com seu consorte. Minha amiga Jan será a Deusa neste ano, eu só poderei ser depois que sangrar, mas vou dançar para a Deusa.

- Que bom! Mas a festa ainda não começou?

- Os caçadores já entraram no bosque e a Jan ainda não está pronta. Assim não vou conseguir dançar para a Deusa. Vamos logo... Jan... Os caçadores já estão voltando.

- A festa terminou, mas o lago está tão bonito hoje, que vou tomar um banho.

- Olá?

- Quem está aí?

- Aqui na margem. Sou eu, Bertold, filho de Bewolf, senhor destas terras e quem é você, bela ninfa?

- Não sou uma ninfa, sou Ceridwen e vivo no templo. Vire-se, por favor, quero sair do lago.

- Ninguém da ordens a Bertold.

- Ora, Bertold! Sei quem é. É apenas o terceiro filho de Bewolf e não tens sequer direito as terras dele. Não podes dar ordens a uma filha da Deusa.

- Está bem, filha da Deusa. Podes sair da água. Não olharei, tens minha palavra.

Eu então sai da água e vesti novamente minha túnica azul, coloquei meu capuz sobre os cabelos molhados e caminhei na direção de Bertold, um menino que todos na vila conheciam por ser filho do senhor de toda aquela região. Não o via há anos, desde que meus pais me levaram ao Templo para que fosse consagrada ao serviço da Deusa. O menino havia crescido, era alto, forte e tinha longos cabelos louros cacheados que lhe davam uma aparência bela e selvagem.

- Preciso voltar ao Templo, a mestra me castigará se souber que vim nadar aqui, sem permissão. Conhece algum atalho?

- Vou ajudá-la. Posso levá-la em meu cavalo.

- Obrigada Bertold. Tenho certeza que serás recompensado pela Deusa.

Depois de me levar ao Templo em seu cavalo, passei a vê-lo sempre por lá. Até que um dia, quando eu andava na mata, colhendo ervas, ele me prendeu em seus braços fortes e levou a uma caverna, na montanha.

Eu tentei fugir, mas não consegui e quando sai correndo pela mata e voltei ao templo, a mestra me disse que aquele não era mais meu destino e que a Deusa não precisava mais de mim.

Fiquei muito triste e me atirei no lago, queria morrer, mas Bertold me salvou e me levou para o topo da montanha, onde passamos a viver juntos. Ele me disse que seu pai queria mandá-lo para a guerra, mas ele decidiu esconder-se na floresta e levar sua ninfa com ele.

Demorou muito para eu conseguir me recuperar do que aconteceu no Templo. A Deusa não me queria mais e eu estava muito triste, mas Bertold me tratava muito bem e eu me sentia muito bem ao seu lado, na nossa montanha.

- Ele desapareceu, Bertold foi até a vila e desapareceu. Eu não consigo achá-lo, ele me abandonou para sempre. – disse Clara começando a chorar.

- Tranquila, Clara. Você agora é apenas uma observadora, não se envolva, agora descanse e respire fundo. Vou contar de um até cinco e a cada número que eu contar você vai ficando mais acordada e quando acordar você estará muito bem, feliz e tranquila.

- Um, você está começando a acordar, dois, você está voltando, três, cada vez mais presente, quatro, você começa a sentir-se aqui, em casa, cinco, você está acordada! Você está bem?

Clara abriu os olhos e caiu em um choro convulsivo, Jack correu até ela e a abraçou, estava novamente com dificuldades para respirar; Jack pegou seu remédio e a fez inalar; como ela demorava a reagir, levantou-se correndo e abriu a geladeira de onde tirou uma pequena caixa de plástico. Dentro dela, uma seringa estranha, sem agulha aparente.

Jack pegou a seringa e quando levantou a blusa de Clara para aplicar a injeção, ela segurou sua mão, dizendo que não era necessário, que estava conseguindo respirar novamente.

David e Cindy sentaram em uma outra poltrona com os olhos arregalados, apavorados com o que estava acontecendo.

Jack tremia muito e a abraçava. – Menininha! Meu amor, você está bem mesmo? Quer que a leve até o hospital?

- Estou bem, amor. – respondeu com lágrimas nos olhos. – Foi só o susto.

- Princesa, você está bem? Foi alguma coisa que eu disse?

- Não, David. Acho que foi a intensidade da emoção. Ele tinha me abandonado na floresta e eu não sabia o que fazer.

- Foi impressionante. Nunca imaginei que um dia veria algo assim. Estou surpresa! – disse Cindy. – Você foi muito corajosa amiga!

- Nós éramos duas crianças. O Jack e eu éramos muito jovens quando tudo aconteceu e nos amávamos muito. – disse pegando a mão de Jack e segurando-a entre as suas, chorando. – Eu vi tudo, eu senti tudo, foi muito intenso.

- Quero hipnotizar o Jack também, mas vou fazer isso só daqui uns dias, ele precisa de um tempo para esquecer um pouco o que ouviu e derrubar as barreiras que já devem estar na cabeça dele contra o processo todo.

- Desculpa David, mas acho que não conseguiria. – disse Jack. – Menininha, me perdoe, mas preciso de um tempo agora para me acalmar.

- Claro Jack. Não teria como você ser hipnotizado depois disso tudo. – disse Clara preocupada. – Só não esperava essa crise no final. Estou tomando tantos remédios e ainda fico com falta de ar.

- Vamos ao médico novamente amanhã para saber se isto está certo. – disse Jack sentando-se no sofá, ao lado de Clara. – Você não pode ficar assim, sem saber o que está acontecendo.

- David, vamos dormir? Já são quase duas da manhã. Acho que eles vão querer ir ao hospital cedo, amanhã. – disse Cindy. – Você quer que eu vá com você ao hospital, Clara?

- Não é preciso, Cindy, eu vou. Vamos, então, amor? Vamos ao hospital amanhã de manhã? – respondeu Jack.

- Ok. Vamos. Mas amanhã é terça-feira e a Dra Crawford só atende na clinica particular dela.

- Então amanhã ligamos para ver a que horas podemos ir conversar com ela. Estou preocupado!

- Estou bem. Foi só a emoção. Quando eu te vi pela primeira vez, naquele lago, meu coração veio na boca. Eu me apaixonei por você, aquele rapaz todo pomposo, que me olhava nadando.

- Vem menininha, vamos dormir. Vou ficar mais seguro depois que conversarmos com a Doutora Crawford. Eu te ajudo subir. Boa noite, meus caros.

- Boa noite. Já vamos subir em seguida.

Jack ligou logo cedo para o consultório da Dra Crawford e marcou uma consulta para as duas da tarde. Clara ajudou-o a preparar o café da manhã e logo David e Cindy se juntaram a eles.

- E então, princesa? Está se sentindo melhor? - perguntou David.

- Bem melhor. Foram só as emoções que me pegaram de novo. - disse Clara. - Foi muito forte aquilo que vivi ontem.

- Foi mesmo! Você foi muito fácil de hipnotizar porque todas estas memórias estão muito vivas. Por alguma razão vocês precisavam estar juntos de novo e precisam saber tudo o que não sabem ainda para prosseguir. - disse David. - Tenho certeza que depois que souberem de tudo o que aconteceu, serão ainda mais felizes.

- Não preciso saber de mais nada, mas acho que você tem razão, David. Tem alguma coisa nisso tudo que precisamos entender e estamos muito perto disso. - disse Jack.

- Concordo. Jack, foi incrível. Acho que você vai gostar muito da sensação. Entendi uma porção de coisas quando nos vi lá. - disse Clara.

- Vamos entender tudo, querida. Hoje à noite, serei eu a voltar ao passado e ver o que aconteceu. - disse Jack.

- É assim que se fala, Velhão! Vamos fazer como ontem e você vai ver com seus próprios olhos o que aconteceu.

Depois do almoço, Jack levou Clara ao consultório da Dra Crawford e fez questão de pedir uma medicação mais eficiente, que evitasse que Clara tremesse e que a deixasse mais livre, inclusive para beber.

A médica diminuiu a dose de remédios e os dois saíram felizes do consultório que ficava em um bairro muito bonito de Birmingham, próximo a um parque e depois de passar pela farmácia e comprar a nova medicação, mais leve e sem efeitos colaterais, eles decidiram andar um pouco pelo parque.

- Você está bem, então, menininha... e eu estou feliz porque hoje vamos saber de tudo o que aconteceu...

- Sim, meu caro Bertold! - respondeu Clara, chamando-o pelo nome que tinha em sua vida anterior.

- Oh pequena Ceridwen! Vou vê-la nua novamente, nadando no lago; minha ninfa!

- Meu cavaleiro! - disse beijando-o.

Quando estavam andando pelo parque, um grupo de adolescentes aproximou-se dos dois pedindo fotos e autógrafos. Clara bateu as fotos e eles seguiram felizes da vida.

- Seu público está se renovando, Jack. - disse Clara. - São quase crianças...

- Isso é bom, eu acho...

- Muito bom, sabia? É uma outra geração que a Crossroads alcança. Por isso ofereceram tanto dinheiro para vocês voltarem, perceberam que são capazes de atingir um público enorme, de todas as idades.

- Isso me assusta.

- Assusta?

- É menininha, tenho medo de me perder. Você não imagina o que é essa adoração generalizada... as pessoas te tratam como se você fosse alguém de fora desse mundo e todos te elogiam e logo, você não sabe mais o que está fazendo porque tudo o que ouve é aplauso, você começa a achar que pode fazer qualquer coisa... e pronto, você virou um monstro.

- Você não me parece capaz disso, de se perder e virar um monstro.

- Sou sim. Você não imagina as coisas que fui capaz de fazer no auge da banda. Baby, acho que se você me conhecesse naquela época, fugiria de mim, sem olhar para trás.

- Não sei, um dos meus grandes sonhos de sempre era ser uma groupie da Crossroads.

- Ah! Amor... groupie? Você? – Jack riu – Você é uma princesinha, as groupies eram mulheres agressivas, que se atiravam em cima da gente. Elas eram capazes de qualquer coisa. Algumas davam medo.

- Mas eu me atiraria sobre você, na situação delas, apaixonadas por homens casados, só de passagem pela minha cidade, pela minha vida, eu certamente faria a mesma coisa.

- Mas quem disse que elas eram apaixonadas por nós?

- Não eram?

- Não. Queriam estar perto dos rockstars, aqueles que todos conheciam. Acho que tinham uma enorme necessidade de auto-afirmação e nós, precisávamos da companhia.

- Mas eu não negaria Jack, ficar do seu lado, recebendo seu carinho...

- Mas o que a gente tem é diferente. Aquelas mulheres eram uma coisa da estrada, quase como aproveitar uma piscina ou uma sauna no hotel em que ficávamos... Este hotel tem piscina, banheira e groupies...

- Entendo. Mas você nunca se envolveu com nenhuma delas?

- Eu amava muito a Mary. Era difícil sentir alguma coisa por outra pessoa.

- Mas você amava a Linda também, não?

- De onde você tirou isso?

- Do jeito que você a olha. Dá para perceber que tem algo diferente ali.

- Você tem razão. Ela era uma groupie, engravidou e eu ajudei no que pude. Ela casou-se com um namorado da época, mas em todas as minhas crises ela acabava aparecendo, me apoiava, me escutava. E quando me divorciei, ela me ajudou a voltar a viver. Como não a amaria?

Sentimentos contraditórios invadiram Clara, ao mesmo tempo em que os ciúmes se intensificavam, ela passou a ter também carinho e gratidão por ela ter cuidado de Jack por tanto tempo.

- Vamos voltar para casa, amor? Temos convidados, lembra? - disse Clara.

- Vamos! Estou louco para ver minha pequena ninfa nua, saindo do lago. - sussurrou Jack no ouvido de Clara. - Você vai ficar bem agora. Tenho certeza

- Vou sim. E hoje vamos comemorar!

Os dois pegaram o jipe e voltaram para casa. Encontraram David e Cindy na piscina descansando sob o sol.

- Boa tarde meus queridos! - disse Jack. - Como está a piscina hoje?

- Oi Jack, está ótima, a água está quentinha. - disse Cindy de dentro da piscina. - Por que vocês não vêm?

- Velhão! Está com uma cara boa, a princesa então está bem.

- Sim, ela está ótima. Vamos tomar um banho de piscina, amor? - disse Jack.

- Vamos! Vamos colocar a roupa de banho e já voltamos.

Eles subiram até o quarto e vestiram suas roupas de banho rapidamente. Pegaram toalhas e desceram para a piscina. Logo a temperatura na montanha cairia radicalmente, era preciso aproveitar o tempo ao máximo.

- Hum, a água está muito boa hoje. - disse Clara. - Jack, vem para a água, amor.

Ele mergulhou e nadou na direção de Clara. Beijou-a e empurrou-a contra a margem. A excitação dos dois era óbvia.

- Hey velhão, vai para o quarto, já...

Os dois riram e se separaram. Clara nadou até perto de Cindy e disse que tinha um monte de coisas para contar.

E David perguntou ao Jack se estava pronto para a regressão. Ele disse que sim, que estava ansioso para voltar e entender tudo, de uma vez por todas.

A conversa continuou, mas com a sombra da casa agora caindo sobre a área da piscina, os quatro começaram a sentir frio e decidiram entrar, para trocarem de roupa.

- Eu e minha menininha vamos tomar um banho e já voltamos. - disse Jack.

- Nós também. - disse David. - Estou gelado agora, brother...

Os quatro seguiram para seus quartos, Jack abriu a torneira da banheira, enquanto Clara se enrolava em uma toalha, tremendo de frio.

O banho acabou com o frio e os deixou mais relaxados. Foram vestir-se com roupas quentes e depois desceram para tomar capuccino. Clara e Jack passaram em uma casa de chá em Birmingham onde viram um lindo bolo de chocolate com cerejas na vitrine e o compraram.

- Isso está uma delícia, menininha, vou ter que comer mais um pedaço, depois não reclama que estou ficando gordinho... - disse Jack.

- Nunca reclamei você é meu gordinho gostoso. - respondeu Clara rindo.

David caiu na gargalhada e também pediu mais uma fatia de bolo. - Não se preocupe Jack. Não vou te deixar ser gordinho sozinho

- Epa! Não quero ser casada com um gordinho. - disse Cindy rindo.

- Ei, vocês têm que estar lindos quando voltarem para a estrada. Ninguém vai querer olhar para o palco e ver um bando de gordinhos tocando. - disse Clara.

- Acho que vou me internar em um spa antes da tournê. Eu tinha planos de ir para uma lua de mel em algum lugar paradisíaco, mas minhas fãs vão gostar de me ver mais gostosinho, com barriga sequinha.

- Vocês estão vendo como ele me provoca? - disse Clara rindo. - Acho que eu vou mesmo cantar com vocês nesta turnê. Assim vou poder ficar de olho no rapaz de barriga sequinha.

- Perfeito! - disse David. - Você conseguiu a nossa "Rainha da Luz", Jack!

- Agora falando sério, Jack, você quer mesmo ir para um spa? - perguntou Clara.

- Estou brincando, amor. Mas vou fazer uma dietazinha antes da turnê. Estou me sentindo um pouco inchado e acho que era bom perder uns quilinhos.

- Isso faz parte, Clara. Vamos cuidar de cabelo, pele, dentes. Você sabe, tem as fotos de divulgação, as entrevistas. Todo mundo gosta de ficar bem nas fotos. - disse David. - Somos muito visados quando subimos em um palco, as pessoas olham para nossa aparência, nossas roupas. Eu sempre tingia meus cabelos e comecei a me chatear com isso, conversei com um cabeleireiro que conseguiu tirar toda a tinta e foi libertador.

- Mas acho que o Jack precisa continuar com seus cachos louros, eu gosto muito deles. - disse Clara servindo-se de mais uma fatia de bolo.

Jack pegou a mão de Clara e sorriu. - Eu vou ter que me arrumar um pouquinho, menininha.

Clara guardou o bolo na geladeira e lavou as xícaras e pratos que usaram. Jack e David foram para o piano e logo estavam compondo novamente.

- A sua médica pegou de novo no pé do Jack? - perguntou Cindy.

- Não. Hoje fiz uns exames lá no consultório e ela diminuiu meus remédios e me receitou outros mais tranquilos. Posso até voltar a beber.

- Que bom! Você não vai mais ficar tremendo então?

- Acho que não, espero que não... Estou cansada disso. Mas essa não é a maior novidade. Na saída do consultório fomos dar uma volta em um parque ali perto e ficamos conversando sobre groupies e sobre a relação do Jack com elas.

- Sei e o que ele disse?

- Que elas não tinham grande importância, que eram mulheres que se aproximavam só porque eles eram famosos e que gostar mesmo, ele só tinha gostado de uma...

- Linda Monsoon - disse Cindy.

- Você já sabia? - disse Clara.

- Já desconfiava. Ele sempre falou sobre ela com muito carinho e o David também andou dizendo que ela costumava visitá-lo de vez em quando e ele sempre comprava presentes e levava lá na loja quando voltava das turnês.

- Hum... Eu tenho razão para ter ciúmes então.

- Tem e não tem. Acho que depois que você chegou, tudo mudou.

- Espero que sim! Já chega saber que eles vão para a estrada e vai ter uma porção de fãs, groupies, ex-namoradas cantoras, modelos; todas atrás dele novamente porque vai ser o "evento" do ano e todo mundo vai lá para aparecer, para ser visto.

- Mas você estará sempre por perto, Clara. Esqueceu que ele quer você no show? Você pode muito bem criar suas próprias regras para a estrada e afastar toda essa gente.

- Verdade... Não tinha pensado nisso.

- Queridas, estava conversando com o Jack e achamos interessante fazermos o processo de regressão agora. Porque ainda é cedo e, se não der certo, podemos jantar e tentar novamente mais tarde.

- Ok! Vamos lá para a sala então.

Clara e Cindy caminharam até a sala e encontraram Jack já deitado no sofá, sem sapatos.

- Amor, lá vou eu... quero ver minha ninfa...

- Jack, meu amor. Espera. Quero te dar um beijo de boa sorte.

- Moças, por favor, agora fiquem bem quietinhas que vou começar. Vamos diminuir a luz...

Jack levantou-se e começou a gargalhar. - Desculpa, mas é muito engraçado preciso rir agora para evitar rir depois que começar.

- Então, vamos Jack?

- Vamos... - disse deitando-se novamente.

- Fecha os olhos, vamos começar com a respiração. Inspira contando de um a cinco, segura contando de um a cinco, solta o ar contando de um a cinco, segura o pulmão vazio, contando de um a cinco e depois começa novamente.

David o observava e quando sua respiração parecia ter ficado mais uniforme e sua expressão mais tranquila, ele partiu para o próximo passo. Abra os olhos, olhe para esta chama da vela e só para ela. Você vai se concentrar agora em seguir aquilo que minha voz diz.

E veio o prédio, Clara o viu novamente, com suas escadas, espirais para baixo, cada vez mais escuro, descendo, descendo até encontrar a porta.

- Tem uma porta aqui.

- Ok, Jack, caminha até ela e abre. O que você vê?

- O David, nadando, o calção dele cai.... - disse Jack gargalhando. - Desculpa, comecei a ouvir a voz do David, mas minha cabeça ficou indo e voltando e não consegui.

Clara, que estava muito tensa, soltou uma enorme gargalhada.

- Você é terrível, Velhão! Precisa se entregar ao processo, senão não vai acontecer! - disse David. - Vamos tentar de novo mais tarde...

Clara acendeu as luzes e voltou para a cozinha, Jack sinalizou para Cindy e David e foi atrás dela. Aproximou-se por trás e beijou sua nuca. - Me perdoa, menininha! Não consegui...

Clara virou-se, olhou em seus olhos, colocou as mão em seus lábios. - Não se preocupa, vida, a gente vai entender isso um dia. Não tem pressa.

Jack beijou-a e os olhos dos dois encheram d'água. - Vou te ajudar, amor. O que você vai cozinhar hoje?

- A Mona deixou aquela torta maravilhosa de frango pronta. Pensei em fazer só uma salada para acompanhar. Descasca aquelas mangas ali, amor.

- Hum, adoro essas saladas. Mas adoro mais ainda ficar aqui, agarrado em você.

- Lindo! Te adoro tanto! É tão doce estar com você que eu sempre perco o rumo. Mas temos convidados, vamos fazer a salada?

- Vou arrumar a sala de jantar para a gente. Vou pegar um vinho, as taças. Hoje você bebe, não é?

- Sim, amor, a Dra Crawford me liberou. Hoje posso te acompanhar em tudo... - disse Clara aproximando-se dele novamente e sussurrando. - Tudo mesmo.

- Provoca, menininha... - sussurrou Jack em seu ouvido.

Clara terminou a salada e quando ela trouxe o jantar, Jack já havia arrumado a mesa e colocado velas para iluminá-la. Também acendeu a lareira e o clima que ela encontrou na sala era delicioso. Amigos conversando, música suave no som portátil e uma noite romântica se anunciando.

Jantaram e enquanto Jack e David arrumavam a cozinha, Clara e Cindy foram para a sala de estar com suas taças de vinho na mão conversar, nada muito sério.

- Demoramos, senhoras? - perguntou David vindo da cozinha com mais uma garrafa de vinho aberta em uma das mãos e sua taça em outra.

- Não querido, vocês sempre chegam na hora. - respondeu Clara, com os olhos fixos em Jack que também trazia mais uma garrafa e sua própria taça. - Vem amor, estou com muito frio.

- Ah! Vou consertar isso, já. - disse Jack sentando-se ao seu lado no sofá e abraçando-a. - Vou te esquentar, Menininha.

David e Cindy também estavam em um clima romântico e sem muito alarde, deram boa noite e subiram para seu quarto.

- Eles também estão em lua de mel, hoje. - disse Clara sorrindo. - Bom, quanto a você, querido... Acho que já estou bem quentinha, e não vou tremer mais, vamos subir também?

Jack levantou-se foi apagando velas e lâmpadas e fechou o controle da lareira, para que ela apagasse logo. Depois pegou Clara pela mão e os dois subiram as escadas e caminharam até o quarto.

O amor dos dois agora explodia, Jack apertava-a em seus braços, e Clara gemia de prazer enquanto iam tirando as roupas. Ter Jack novamente em seus braços, sem maiores preocupações era a melhor parte daquela noite. Seu homem agora livre e sem medo de expressar tudo o que sentia. E ela, em paz para mergulhar completamente nele.

Jack agora dormia, segurando-a em seus braços fortes e Clara sentia-se perdida de tanto amor, de tanto carinho por aquele homem e chorava de felicidade. Ali, deitado ao seu lado estava um homem real, que tinha saído diretamente de seus sonhos e a fazia mais feliz do que jamais sonhou.

Tentando não acordá-lo, Clara levantou-se e caminhou até o banheiro. Uma onda de amor intenso a envolvia agora e ela chorava descontroladamente, sentada na beirada da banheira.

- Clara? Você está bem? - Aproximou-se Jack preocupado.

- Estou meu amor. Me desculpe. Acho que te acordei.

- Você está chorando por que? Vamos tentar novamente, o David vai conseguir...

- Não estou chorando de tristeza, estou chorando de alegria, meu amor. Foi tão doce e tão intenso que não consegui me controlar. Me perdoa.

- Ah! Clara, então vem aqui... - disse Jack pegando-a no colo e levando-a de volta para a cama. - Menininha, não sei mais o que fazer com você, tem muita água dentro destes olhinhos seus, vou acabar me afogando.

- Lindo! Vem aqui, meu amor. Eu te adoro tanto.

E os dois passaram algumas horas apenas conversando bobagens, brincando como melhores amigos e amantes.

Depois que começaram a sentir sono, Jack agarrou Clara com carinho e os dois dormiram, felizes e tranquilos.

Clara e Jack acordaram juntos. Antes de levantarem-se, Jack sentou-se na cama e pegou a mão de Clara. - Querida, preciso te contar meu sonho.

- Sonho? O que foi amor?

- Eu sonhei que estava com você na nossa casa, no alto da montanha e você tinha acabado de me dizer que tinha tido um sonho ruim e que estava preocupada e me pediu para não ir muito longe.

- Mesmo? E o que você fez?

- Eu fiquei preocupado, mas tinha que descer até a vila comprar algumas coisas antes que o inverno chegasse e eu peguei o cavalo e fui, como sempre fazia.

- Mas você nunca mais voltou. - disse Clara com uma expressão triste, sentindo novamente o abandono.

- Só que agora eu sei o que aconteceu. Na estrada, um dos meus irmãos e alguns soldados do meu pai me dominaram e me levaram com eles para longe, para a guerra.

- Meu Deus! - disse Clara, os olhos lacrimejando. - Você então...

- Não fui para a guerra porque quis, eles me sequestraram. E quando estávamos chegando ao campo de batalha, eu estava com as mãos amarradas, mas consegui fugir e corri de volta para nossa montanha. Mas quando cheguei aqui, a neblina cobria tudo e não consegui mais te encontrar. Você já tinha ido embora...

- Não Jack, nunca saí da nossa montanha. - disse Clara pegando sua mão. - Vou te contar uma coisa que assim que soube me deixou muito triste, mas que você precisa saber para entender todo o resto.

- O que foi, meu amor? Você sabe de alguma coisa que eu ainda não sei?

- Você lembra quando sonhou que estava perdido na neblina, me procurando?

- Sei. Você era uma sacerdotisa, estava se julgando abandonada e tinha poderes para esconder-se de alguém como eu.

- Mas eu nunca me escondi. Quando você chegou à montanha, você já não estava vivo. Eu o via todos os dias andando ao redor da casa, mas você não me via. - disse acariciando os cabelos de Jack.

- Então...

- Eu tinha poderes sim, fiz todos os rituais que podia fazer, mas não conseguia me comunicar com você. Fui várias vezes ao templo pedir ajuda da mestra, mas ela nem me recebia. Por fim, rompi com a Deusa e procurei sozinha um jeito de me comunicar com você. Tentei tudo o que podia, os anos iam passando, eu ia envelhecendo e você continuava lindo, andando pela montanha, me chamando.

- Mas que sofrimento, meu amor.

- Então tive uma ideia, juntei todas as minhas forças, durante um inverno gelado e consegui assumir a aparência de um lobo feroz. Queria espantá-lo e fazê-lo fugir da montanha. Mas para minha surpresa, julgando que havia me perdido para sempre, você se ajoelhou na frente do lobo e pediu que ele o matasse, porque não conseguia mais viver sem mim. - disse Clara chorando.

Jack também chorava muito diante daquela tragédia terrível que viveram.

- Julgando-se morto, você entrou em um longo sono, naquela área do campo de alfazemas, vi por mais alguns anos, seu espírito ali, desacordado, até que triste, amargurada e sentindo-me abandonada até pela Deusa, eu também morri.

Os dois agora entendiam completamente a tragédia que havia destruído suas vidas no passado. Ela achava que Jack a tinha abandonado e ele achava que Clara nunca o tinha perdoado.

- Jack, acho melhor contarmos tudo isso para o David. Ele vai nos ajudar a entender melhor. - disse Clara secando as lágrimas dele com as mãos.

Continua

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