14 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXXIX


Desfizeram as malas no quarto, arrumaram tudo e ficaram esperando que David e Cindy chegassem. Eles também passariam as próximas três semanas no hotel, mas desta vez, ficariam em sua própria suíte. Queriam ter liberdade e dar liberdade para seus amigos, que assim poderiam aproveitar melhor as poucas horas em que passariam juntos fora do estúdio.

Desta vez, Clara tinha planos de utilizar melhor o escritório que existia na suíte para trabalhar em seu livro, enquanto Jack e David trabalhassem em seus arranjos. Mas antes disso, aconteceria a segunda-feira, quando ela, uma fã desde sempre da banda Crossroads, faria um dueto com Jack Noble, seu cantor favorito e seu marido, nos históricos estúdios Abbey Road.

Jack e David fizeram tudo o que podiam para deixá-la mais segura, mas ela sentia um peso enorme em suas costas. E se sua voz falhasse na hora? E se ela desafinasse? O estúdio estaria cheio de roadies, produtores e sabe-se lá mais quem vendo-a falhar. Como ela tinha se deixado convencer a fazer algo tão estúpido?

Aquela ansiedade a convenceu de que precisava de uma dose extra de chocolate naquele sábado à noite. Jack estava sentado no piano, aproveitando o tempo para trabalhar em uma das novas músicas que ainda não estava completa.

- Jack, amor... vou dar uma volta. Comprar alguma coisa para a gente comer depois do jantar. O que você acha?

- O que foi, querida? Está nervosa de novo? É a gravação, não é? - disse Jack puxando-a pela mão para sentar-se em seu colo. - O que posso fazer para te acalmar?

- Ah, meu amor... - suspirou. - Me perdoa, não deveria ser assim, mas estou mesmo morrendo de ansiedade. Sou patética, mesmo...

- Patética? Amor, não... Você é uma mulher doce que eu amo tanto. A minha mulher, o amor da minha vida. Você acha que eu te colocaria em uma enrascada dessas se você não fosse capaz?

Clara começou a acariciar seus cabelos e beijou-o. Sentia agora o calor reconfortante da confiança que ele colocava nela.

- Eu vou conseguir... preciso conseguir... - disse beijando o pescoço e o peito de Jack, que começou a despí-la e logo os sentimentos estavam a flor da pele, naquele início de noite.

Depois do amor, os dois tomaram banhos juntos e arrumaram-se para sair. David já tinha chegado em Londres e os quatro jantariam juntos no Chez Montagne, seu restaurante favorito.

O jantar foi romântico e os quatro voltaram juntos para a suite de Jack, onde David passou algumas horas tocando piano, enquanto todos assistiam, bebendo champagne.

Jack puxou Clara para seu colo e começou a beijá-la novamente. Os dois estavam um pouco bêbados e tão mergulhados um no outro que pareciam nem notar que seus amigos estavam na mesma sala.

Cindy chamou David e os dois se despediram rápido e voltaram para a própria suíte. Jack e Clara subiram para o quarto e continuaram no mesmo clima romântico, estavam felizes por estarem juntos e nada mais importava.

Clara adormeceu envolvida pelos braços de Jack. Estava tão feliz que sonhou com ele a noite inteira. Em seu sonho, os dois estavam na montanha, assistindo o dia amanhecer e clarear o vale lá embaixo, tingindo o horizonte de vermelho e laranja.

Jack por sua vez teve um sono agitado. Repassava em sua cabeça o sonho que o acordara, nele discutia com David no estúdio e os dois começavam a brigar e quebravam tudo. Clara entrava na sala, começava a chorar e ia embora, abandonando-o para sempre.

Uma trovoada levou embora o sonho bom de Clara e o pesadelo de Jack e os dois abriram os olhos ao mesmo tempo.

- O que foi isso? - perguntou Clara sentando-se na cama. - Meu Deus, que susto...

- Não foi nada, amor... É só a chuva. Estamos em Londres, esqueceu? - disse Jack sorrindo. - Vamos levantar?

- Vamos! Nossa, estou gelada... - disse Clara. - Vou pegar uma roupa no armário...

- Ah! Não... Vem aqui que eu te esquento, amor.

- Lindo... Olha só que mãos geladas... - disse Clara colocando as mãos sobre as dele. - muito frio...

- Nossa! Vem aqui... - disse agarrando-a e puxando para dentro das cobertas. - Está quentinha agora?

- Estou, amor... Não quero sair daqui nunca mais. - sorriu Clara.

- Não vamos! É tão bom estar aqui depois do horror que eu sonhei.

- O que você sonhou?

- Eu estava brigando com o David e você entrava de repente e me abandonava. Doeu, viu...

- Isso nunca pode acontecer... Você não vai se livrar de mim assim tão fácil, gordinho delícia... - disse Clara sorrindo e beijando-o.

Jack agarrou-a e o amor iluminou aquela manhã de tempestade.

- Agora, vamos levantar. Já são onze horas e precisamos levantar. Você não está com fome, menininha?

- Morrendo... - disse levantando-se. - Preciso vestir alguma coisa. Liga para o serviço de quarto.

- Algum pedido especial?

- O de sempre, amor.

- Acho que vou pedir umas panquecas, estou com saudades das nossas, lá na montanha.

- Nem fala, amor... Nunca imaginei que ficaria tão apaixonada por aquele lugar.

Os dois tomaram banho juntos e quando estavam prontos, tomaram o café da manhã e telefonaram para seus amigos. Com a chuva, desistiram de ir visitar a casa e Clara combinou que sairia do hotel com Cindy às 4 da tarde e Jack iria para o pub do Dan às 3.

O tempo tinha melhorado um pouco e a chuva parecia ter diminuido de intensidade. Agora caia fraca e chegava a parar em alguns momentos e mesmo com o cobertor de nuvens cinza sobre a cidade, anunciava-se uma tarde agradável.

- Acho melhor nem almoçarmos hoje... - disse Clara. - Você vai lá no Dan e eu vou tomar chá com a Cindy e com a Jennifer e depois daquelas panquecas todas, eu não tenho a menor fome.

- Nem eu... será que vai dar para ir a pé lá no Dan? - perguntou Jack, olhando pela janela. - Vamos lá fora um pouco ver se ainda está chovendo? Vem, preciso te apertar um pouquinho porque ficaremos muito tempo separados hoje.

- Acho que não está chovendo... Gosto muito daqui, mas preferia estar na nossa casa agora, me aquecendo na frente da lareira. Mas você, me agarrando assim, também é tão bom, que tal se esquecermos o mundo lá fora e ficarmos aqui sozinhos todo o domingo?

- Hum, menininha... e você não vai lá fofocar na tal casa de chá?

- Se você ficar aqui, me mimando deste jeito... não... - riu Clara.

- Maluquinha! Sabe que as suas amigas viriam aqui em segundos, com a Scotland Yard e a CIA para te libertar de mim... elas são bem do tipo.

- Que maldade, amor... Elas são minhas amigas e se preocupam comigo...

- É... e eu sou sempre o homem das cavernas na cabeça delas, certo?

- Você sabe, os homens são sempre a maior fonte dos nossos problemas...

- Eu sou a fonte dos seus problemas, menininha?

- E das minhas alegrias também! - disse Clara, beijando-o no rosto. Jack então puxou-a e agarrou-a mais uma vez.

- Hum, estava aqui pensando... está frio, chovendo... e se mudarmos nossos planos, você e o David assistem ao jogo aqui mesmo e eu e as meninas nos reunimos no meu escritório... Que tal?

- Não vou ficar no nosso quarto, sentado na cama com o David...

- É verdade... Eu só estava tentando encontrar um jeito de ter você para mim, pelo menos na hora do intervalo... Eu poderia te agarrar e te mimar...

- Ai menininha... - disse Jack beijando-a e deixando-a sem rumo.

- Melhor pararmos por aqui, senão vamos parar na cama e nossos amigos vão achar que somos mal educados.

- Verdade, mas você está me devendo essa...

- Não gordinho, você está me devendo... - sussurou Clara no ouvido de Jack. - hum, que delícia...

- Pronto! Você conseguiu, vem aqui menininha! - Jack puxou Clara pela mão pelas escadas até o quarto.

Os dois tiraram as roupas e logo saciavam saciavam seus desejos e Clara estava muito próxima de enlouquecer de prazer. Mas já era quase 3 da tarde e Jack levantou-se, vestiu-se e seguiu para seu encontro com David, deixando Clara na cama.
Só depois de vê-lo deixar a suíte Clara encontrou forças para levantar-se e preparar-se para encontrar suas amigas. Vestiu uma saia longa preta, botas de salto alto e uma blusa de tricô com detalhes românticos em renda.

Completou o visual com colar e brincos de pérolas e colocou também uma paximina cinza, porque ainda sentia muito frio.

Fez uma maquiagem leve, prendeu os cabelos e já estava pronta. Pegou o celular e ligou para Cindy que disse que já estava saindo de sua suíte no décimo andar e esperaria na porta do elevador por ela. Jack pegou o jipe para ir com David e elas usariam a Mercedes.

- Oi amiga! - disse Clara cumprimentando Cindy quando ela entrou no elevador.

- Uau! Essa bota é um escândalo!

- É de Paris, comprei na lua-de-mel. Desculpa Cindy. Me atrasei um pouco porque meu marido, bom, você sabe... - disse Clara com um largo sorriso.

- Vocês não se largam mesmo!

- Sabe o que é pior? Minhas pernas ainda estão tremendo e eu já estou sentindo falta dele...

Cindy apenas sorriu e balançou a cabeça.

Logo as duas chegaram ao estacionamento do hotel, no subsolo para pegar o carro e com ele seguiram até Kensington onde um elegante prédio da era vitoriana havia sido detalhadamente restaurado e adaptado em um conjunto de restaurantes sofisticados que incluia uma casa de chá frequentada apenas pela alta sociedade, que colocou a "Victorian Tea Room" na lista dos lugares para ver e ser visto em Londres; o que significava a presença constante de muitos paparazzi na porta.

- Você vai mesmo gravar com eles na próxima semana, não vai?

- Vou sim. Por que a pergunta?

- Você já está com aquele ar de cantora. Estranho isso...

- Ar? - riu Clara. - No momento estou incrivelmente feliz, na verdade sinto que posso explodir de felicidade a qualquer minuto...

- Dá para ver, amiga! - sorriu Cindy. - Mas cuidado... Tenho muito medo de você se decepcionar naquele estúdio.

- Acho que isso não vai acontecer. Tenho certeza, aliás. Vou estar lá para gravar a música e depois, enquanto ele fica por lá ocupado, posso trabalhar no livro, dar uma olhada na reforma da nossa casa, escrever no meu blog, arrumar um médico para tratar das minhas alergias antes que o inverno chegue... enfim... dias bastante ocupados nas próximas três semanas.

- Mas você sabe que assim que sua faixa estiver pronta, eles não vão querer você por lá, certo?

- Claro que sei. Mas acho que isso não me afetará. Desculpa querida, mas estou tentando me adaptar à realidade da vida ao lado dele, da melhor forma possível. E isso significa ter a esperança de no meio de tudo isto, ainda conseguir vê-lo.

- Desculpa Clara, não queria te deixar triste.

- Não estou! Estou feliz demais hoje para me entristecer. Sabe do que eu preciso? Atenção extra com os saltos desta bota porque o chão está molhado e para ser sincera, meus joelhos ainda estão longe de estar firmes... - disse sorrindo.

- Grande Shags! - gargalhou Cindy.

- Chegamos! Bom, o valet service é ali e sim, os paparazzi já estão na porta... - disse Cindy. - a Jennifer podia ao menos uma vez escolher uma Starbucks qualquer para nos poupar disso...

- Ah! Não reclama, amiga! Minhas botas vão aparecer em todas as revistas. - riu Clara enquanto seguia pelo tapete vermelho que levava até a entrada da casa de chá.

Se por fora o luxo resgatado de outras eras já impressionava, por dentro a beleza da decoração transportava imediatamente para tempos mais românticos. Apesar da tarde cinzenta, a luz dentro da casa de chá era dourada e ressaltava ainda mais os detalhes das paredes e as molduras dos grandes espelhos pendurados nelas.

Grandes portas de vidro no fundo do salão deixavam ver um belíssimo pátio de mármore italiano com escadas que desciam até um lindo jardim de rosas. Mas infelizmente, naquela tarde, as portas estavam fechadas devido às chuvas.

Jennifer já estava esperando por elas, em uma mesa próxima a estas portas.

- Jennifer, querida! Quanto tempo...

- Olá Clara. Como foi sua semana no campo?

- Maravilhosa! E sua lua de mel em Paris?

- Linda! Estava com saudades de vocês!

- Nós também! - disse Cindy.

- Clara, que botas, hein amiga! O Nicoló de Paris mandou lembranças...

- Como você sabe que comprei lá essas botas?

- Ai amiga, elas são o top da coleção dele. Reconheci na hora que vi em seus pés!

- Então... como você colocou o Mike na linha? - perguntou Cindy. - Ele não viu mais aquela biscate italiana, viu?

- Não entendi. O que aconteceu? - perguntou Clara.

- O Mike estava me traindo, Clara. Com a Anna Dantini, uma modelo italiana que por sinal, chegou a desfilar comigo mais de uma vez em Paris.

- Meu Deus! Como você descobriu? - disse Clara preocupada.

- O burro esqueceu o celular em casa e chegaram mensagens de texto dela marcando um encontro no Ritz. Apareci por lá e a encontrei no saguão, esperando por ele. Fingi que uma amiga minha francesa estava hospedada por lá e dei um jeito de dizer que meu marido tinha voado para Los Angeles naquele dia de manhã, para uma reunião de emergência sobre uma trilha sonora.

- Nossa! Que frieza! - disse Clara. - E o que ela fez?

- Lembrou que precisava encontrar alguém e foi embora rapidinho. - disse Jennifer. - Assim que ela saiu, liguei para o aeroporto e pedi para me reservarem um lugar na primeira classe no próximo voo. Depois liguei para meu advogado e pedi que ele começasse a preparar os papéis do divórcio e que eu ficaria com o apartamento de Paris, metade da casa de Los Angeles e a Ferrari. Bom, ele embarcou atrás de mim e acabamos voltando, mas se ele pensa que vou aguentar esse tipo de coisa, está muito enganado.

- Muito bem, garota! - disse Cindy. - Aposto que ele ficou desesperado!

- Principalmente pela Ferrari. - riu Jennifer. - Correu atrás de mim pedindo desculpas e tentando se explicar, dizendo que a biscate perseguia ele, que nunca tinha acontecido nada... enfim, com tudo isso e mais essa incrível pulseira de diamantes Cartier, aceitei dar a ele uma nova chance.

- Que linda! - riu Cindy. - Essa é aquela?

- Sim querida, um milhão e meio de dólares na Sotheby's... - gargalhou Jennifer. - Até que ficou barato para ele, não?

Clara ficou boquiaberta com a frieza que Jennifer contava tudo aquilo às amigas. Tentava colocar-se em seu lugar, mas tinha certeza que não conseguiria fazer o que ela fez.

- A pulseira é linda, mas tenho certeza que não conseguiria passar por isso que você passou... - disse Clara. - Quero dizer, acho que bateria tanto no Jack...

- Ah querida! Já passei por isso também e reagi como você reagiria. - disse Cindy. - Peguei uma das guitarras favoritas do David e bati com ela, onde dói mais, nos vidros da Lamborghini dele... Foram duas coisas pelo preço de uma...

- Eu amo o Jack muito. Acho que isso tudo machucaria muito mais a mim, do que a ele.

- Ai amiga... você ainda está na fase da paixão... espera as "vagabundas da estrada" começarem a aparecer e seu marido sumir por aí com elas. - disse Jennifer.

A ideia era tão horrível na cabeça de Clara que ela tentava não ouvir mais o que elas falavam. Jack era o seu grande amor e ela era o dele. Não cabiam outras pessoas naquele cenário e ela nem conseguia imaginar o que faria quando as tais "vagabundas da estrada" aparecessem.

- Ah! Querida, mas tenho mais coisas para te contar, Clara... - disse Jennifer. - O Mick Jagger já voltou para Londres e disse que vai encontrá-la na próxima semana.

- O que? - perguntou Clara. - De novo esse homem?

- Encontrei com ele na sala vip do aeroporto em Paris e ele fez algumas perguntas ao Mike e o bobão do meu marido contou tudo para ele. Então, não se espante se ele aparecer no seu hotel bem na hora em que o Jack estiver no estúdio.

- Pelo menos eu já sei. Mas se o Jack souber, acho que ele não escapa de levar um soco. Tenho muito medo disso, imagina o escândalo, os tablóides... isso não pode acontecer.

Jennifer e Cindy riram da situação e apenas aconselharam que ela tomasse cuidado para que Jack não descobrisse.

- Não! De jeito nenhum! Não vou ficar com o Mick, não conseguiria trair assim o Jack. Não! - disse Clara, indignada.

- Ok! - respondeu Cindy rindo. - Você não trairia ele agora, mas deixa passar essa fase e você vai rir de si mesma...

- Bom, vamos mudar de assunto então... como foi a lua-de-mel na casa de campo? - perguntou Jennifer.

- Ah! Estou apaixonada por aquela montanha. - disse Clara. - Foi a melhor semana da minha vida e olha que quase morri por lá.

- Morreu? Como assim morreu? - disse Jennifer assustada.

- Tive uma crise de asma horrível e fui parar no hospital. O Jack ficou muito preocupado.

- Meu Deus? Por que? Alergia? - perguntou Jennifer.

- Não, foi um choque emocional. Meu editor me pediu para atender alguns jornalistas brasileiros e meu ex apareceu para me entrevistar.

- E aí você passou mal? Na frente dele? - perguntou Jennifer.

- Não! Eu fiz as entrevistas, ele ludibriou o Charles, assessor de imprensa do Jack e me entrevistou também. Depois fui viajar com o Jack e no dia seguinte, quando fui abrir minhas mensagens, meu editor me mandou a matéria que o idiota escreveu acabando comigo e com o Jack. Foi aí que passei mal.

- E o Jack? Foi quebrar a cara dele, aposto... - disse Jennifer.

- Não, mandou o Michael Peters atrás dele e conseguiu que ele fosse demitido do jornal.

- Uau! O Peters não é fácil... Acho que vou contratá-lo se o Mike aprontar mais uma! - disse Jennifer.

- Depois, quando já estava recuperada, teve uma festa do Wolves e a Cindy e o David foram passar uns dias conosco por lá... Foi muito bom...

- Aquela montanha é um gelo, mas é linda... foi muito bom mesmo... - disse Cindy. - E Paris?

- Bom, vocês me conhecem, curtimos juntos, fiz algumas compras e foi uma boa semana também.

- Ah! Já estava me esquecendo, o Jack e o David cismaram que minha voz é boa e amanhã vou gravar uma versão nova para "The Light" com eles, no estúdio.

- E você vai para a estrada com eles? - perguntou Jennifer de olhos arregalados.

- Eles querem que eu vá! Fiquei muito feliz, mas não sei se conseguirei cantar na frente de toda aquela gente. Sou tímida, sabe?

- Você vai ficar linda no palco, mulher! Vou te ajudar nos figurinos, temos que ir para Paris antes da turnê fazer umas comprinhas e você vai arrasar! - disse Jennifer.

- Preciso mesmo de ajuda. Nem pensei nisso ainda. - riu Clara. - Quero dizer, o Jack e o David me falaram que vou para a estrada com eles, mas nem tinha lembrado que precisarei de roupas de palco.

- E aí? Vamos mover nossa conversa para a suíte da Clara? - disse Cindy. - Os rapazes foram para o pub do Dan ver o jogo e não devem chegar em casa tão cedo, por isso podemos aproveitar todo aquele espaço para conversarmos.

- E tomar champagne! - disse Clara - Ou vinho, se vocês preferirem... Hum! Podemos passar naquele mercado da rua detrás do hotel e comprar umas frutas e chocolate para acompanhar. E posso te mostrar as fotos e os videos que fizemos lá na montanha. Vamos?

As três pediram a conta e partiram para o mercado. Uma visão e tanto, aquelas três mulheres elegantes, em seus saltos altos, entrando naquele pequeno mercado de bairro, escolhendo bobagens para comer.

- Hum, olha só o que eu achei... Um conjunto para fondue... podemos fazer um quando nossos maridos chegarem... frutas, chocolate, champagne... - disse Cindy.

- Vou levar... põe no carrinho. - disse Clara. - Um desses fez muita falta lá na montanha, na semana passada.

- Nossa! Isso tudo está soando muito sexy. Vou comprar um para mim também... - disse Jennifer. - Você me explica como se faz?

- Você não conhece? Que estranho, no Brasil, durante o inverno, é um programa costumeiro para casais e amigos, reunir-se ao redor de um fondue, na frente da lareira. E olha que nem faz tanto frio assim por lá. É uma coisa suiça...

- Então podemos fazer a versão "amigos" dela hoje e você me ensina, para depois testarmos a outra versão em particular, com nossos maridos. - disse Jennifer.

- Claro! Vai ser genial! Liga para o Mike. Eu vou comprar duas panelas, uma para o chocolate e outra para o queijo... e jantamos os seis juntos! Com este friozinho será maravilhoso.

- Ótimo! Acho que será muito bom... Já que você sabe fazer essa coisa, vamos aproveitar... - disse Jennifer. - Vou ligar para o Mike.

As três compraram todo o material para o fondue e seguiram para o hotel onde Clara e Cindy estavam hospedadas. A noite prometia ser fria, mas romântica.

Chegando no hotel, Clara encontrou Jack e David mais uma vez ao redor do piano, ainda trabalhando no arranjo das novas músicas.

- Oi amor, já voltou? - disse Clara entrando pela porta com suas sacolas. - Como foi lá no Dan?

- Assistimos ao jogo, mas não pudemos ficar muito tempo, estava lotado e toda hora vinha alguém para bater foto, pedir autógrafo. Então viemos embora. Oi Jennifer, tudo bem? Como está o Mike? - perguntou Jack.

- Tudo bem e vocês. - disse Jennifer cumprimentando Jack e David. - A Clara nos convidou para um fondue aqui no hotel e daqui a pouco ele está chegando aqui.

- Fondue? Hum... aquele negócio francês que você falou lá na montanha... - disse Jack.

- Suiço! - sorriu Clara.

- Oba! Hoje vamos nos dar bem! - disse David em português.

- Vão sim! - respondeu Clara em português para ele. - Compramos todos os ingredientes! Mas é melhor falar em inglês para não deixar o Jack nervoso...

- Vamos nos acabar, Velhão! Depois a princesa ainda te chama de gordinho. - disse David levantando-se do piano e dando um tapinha nas costas de Jack.

- É, mas ela gosta do gordinho, não é? - disse Jack levantando-se também e caminhando na direção de Clara, que organizava as sacolas para levar até a sala de jantar, no segundo andar.

- Claro que gosto! Vou guardar estas coisas lá em cima, na sala de jantar. - disse Clara. - Já volto!

- E então? Fizeram progressos? - perguntou Cindy. - Com o arranjo?

- Sim, está quase pronto. Vamos terminar amanhã. O Jack me deu uma ideia muito boa e estávamos trabalhando nela agora. - disse David. - Essa parada de uma semana ajudou a amadurecer as coisas.

- E deu também a chance de encontrar uma cantora nova que vai gravar com a gente... a minha nova Rainha da Luz! - disse Jack agarrando Clara e beijando-a.

- Hum, princesa! Isso me lembra, queria mudar um pouco o andamento do arranjo, mais tarde a gente pode passar a música com o Mike e você vai entender rápido o que eu fiz... - disse David diante do olhar de pânico de Clara. - É tranquilo, mas vai ficar muito mais bonito.

- Não se preocupa com isso amor. Ficou até mais fácil... - disse Jack. - Depois do fondue, a gente te mostra.

- Já vou começar a preparar o fondue para a gente. Comprei todo o material, mas vamos precisar também de taças, alguns pratos e arrumar nossa mesa, deixa eu ligar para o serviço de quarto que me ajeito com eles. - disse Clara pegando o telefone.

Logo Clara passou a ser auxiliada pelas copeiras do serviço de quarto e pelo mordomo da suíte que deixaram a sala de jantar do segundo andar pronta para que os convidados pudessem apreciar o fondue e também providenciaram entradas, molhos e acompanhamentos para o prato. E ajudaram também iluminando o ambiente com velas.

- Vamos chamá-los para subir? Está tudo pronto? - disse Clara ao mordomo.

- Sim, senhora. Tudo preparado. - respondeu Jarvis, o mordomo. - Parece tudo perfeito, senhora.

- Então pode chamá-los, Jarvis.

O mordomo desceu as escadas e avisou que o jantar estava pronto. Todos subiram para encontrar uma sala de jantar iluminada por velas e com o serviço de fondue tomando conta de toda a mesa, os seis amigos aproximaram-se para jantar.

- Adoro fondue! - disse Cindy. - Quando eu era criança ía muito para a Suiça esquiar com meus pais e esperava ansiosamente pelo fondue de chocolate.

- Eu não chegava nem perto destas coisas. - disse Jennifer. - Aliás, eu quase não comia quando era modelo. Mas agora eu me permito alguns exageros, isso é muito bom!

- Eu sou muito suspeita, mas sabe como as pessoas costumam ser loucas por chocolate? - disse Clara. - Bem, sou louca por queijos, eles são o meu chocolate. Se alguém chegar para mim e disser, de agora em diante você só pode comer queijo, estarei feliz da vida.

- Eu também amo queijo, fico louca em Paris, o Mike sempre reclama. - disse Jennifer.

- Hum, a Jennifer falou de Paris e eu lembrei de uma coisa, sabe quem encontramos por lá? O Mick Jagger e ele perguntou por vocês, ele me disse que quer adaptar um livro da Clara para o cinema... - disse Michael.

- De novo esse cara? - perguntou Jack. - E você disse o que para ele?

- Que todos estaremos em Londres a partir da próxima semana, gravando. Por que?

- Porque ele persegue a minha mulher sempre. - disse Jack.

- Bom, pelo que eu sei dele, é porque a Clara o despreza. - disse Jennifer. - Algumas meninas que conheço, que saíram com ele, me contaram que ele gosta de caçar e perde o interesse depois que consegue o que quer.

- Então estou frita... ele vai me perseguir para sempre, porque, de mim, não vai conseguir nada. - riu Clara.

- É! Minha Clara! Não, desse palhaço! - disse Jack.

- Talvez eu faça mesmo o tal roteiro, mas é um trabalho e não envolve nada além disso.

Jack não respondeu, mas fez uma careta que dizia tudo. Teria ciúmes, mesmo que o envolvimento fosse estritamente profissional e provavelmente ainda discutiriam muito sobre isso.

- Eu sei, querido, como se sente. Mas é um passo importante para minha carreira de escritora. Você vai precisar confiar mais em mim...

- Em você eu confio, mas não confio nele.

- Mas se eu não colaborar com os planos dele, nada vai acontecer, certo? Precisa dos dois...

- Eu sei, meu amor... Me perdoa! - disse Jack pegando a mão de Clara e beijando.

- Lindo! - suspirou Clara, fazendo com que toda a mesa caísse na gargalhada. - O que foi? - perguntou Clara rindo. - Não consigo evitar, amo o amigo de vocês mais do que tudo nesse mundo!

- Isso é lindo, princesa! De verdade, como disse no casamento de vocês, nunca vi duas pessoas mais feitas um para o outro do que vocês dois. - disse David. - É assustador! Ainda mais depois de tudo o que a gente descobriu lá na montanha.

- Hum! E o que vocês descobriram na montanha? - perguntou Jennifer.

- Ah! Esquecemos de te contar, Jennifer. O Jack e a Clara se conhecem desde uma vida passada, quando ela era uma sacerdotisa e ele era o filho de um Lord e os dois moravam juntos lá na montanha. - disse Cindy.

- Sério? Quero dizer, como vocês sabem? - perguntou Jennifer.

- O David fez uma hipnose nos dois e eles lembraram. Foi impressionante. - disse Cindy.

- Na verdade, nós já tinhamos esses sonhos, um com o outro e com a montanha. - disse Clara. - E quando o David fez essa hipnose, tudo ficou explicado.

- Vocês viram mesmo essas coisas? - disse Michael. - Sonharam com isso?

- Foi, Michael. Acordamos um dia e tinhamos sonhado que eramos outras pessoas que tinham se apaixonado e ido morar no topo da montanha... Sabemos até nossos nomes, o Jack chamava-se Bertold e eu Ceridwen.

- Incrível! - disse Michael. - Será que nós também nos conhecíamos, Jenni?

- Não sei! Uau! E vocês viram tudo? Vocês tiveram filhos juntos? - perguntou Jennifer.

- Não tivemos. Na verdade foi uma história de amor trágica. Eu vivia no templo, com minha mestra e aconteceu uma festa, na floresta, próxima da vila e foi aí que o Bertold me viu, eu estava tomando um banho no lago e ele se apaixonou por mim, me sequestrou e levou para uma caverna. Eu fugi dele, mas quando voltei para o templo minha mestra disse que eu não podia mais ser sacerdotisa e eu fiquei triste, tentei me matar, mas ele me salvou e eu fui morar com ele na montanha.
Daí, construímos nossa casa lá e um dia, quando o Bertold estava indo para a vila, ele foi sequestrado pelos irmãos e pelos soldados do pai dele e levado para a Guerra, onde morreu.

- Nossa, que triste! - disse Jennifer. - Pobrezinhos.

- O pior é que eu, quer dizer, a Ceridwen, achava que ele a tinha abandonado e ele, sem saber que estava morto, voltou para a montanha e não conseguia me ver e por isso achava que eu tinha feito um feitiço para me esconder dele.

- Nossa! Isso daria um livro e tanto! - disse Michael. - Por que você não escreve, Clara?

- Talvez eu escreva. Preciso de tempo para amadurecer a ideia e terminar o livro do Jack primeiro. - disse Clara.

- Engraçado, agora que você está falando, as histórias do seu livro sobre as músicas da Crossroads, tem algumas ali que tem muito em comum com essa história.

- Acho que estas coisas já estavam no nosso inconsciente e apareciam de algum jeito. - disse Jack. - Não sei se você lembra, mas quando gravamos lá na fazenda, teve um dia em que eu fui fumar um lá na montanha e desci dizendo que tinha visto uma ninfa na fonte... Lembra disso?

- Poxa! É mesmo! A ninfa da fonte, você não falava de outra coisa... O que tem? - disse Michael.

- Era a Clara! Talvez uma memória dessa outra vida ou o espírito dela ainda vagando lá pela montanha onde nós vivemos.

- Que lindo! - disse Jennifer. - É uma história de amor e tanto essa de vocês. Nossa, não puderam ficar juntos antes e agora podem consertar isso.

Os olhos de Clara já começavam a encherem-se de água, Jack pegou novamente sua mão e ficou segurando-a, olhando fixo para eles.

- Você sabe que agora é para sempre. - disse Jack com os olhos cheios d'água também. - Eu te amo tanto, menininha... Mas tanto...

Clara beijou-o e sussurou em seu ouvido. - Te amo muito, Jack.

Depois do jantar, o grupo desceu para a sala e Michael sentou-se no piano. David pegou um violão e de repente, a Crossroads estava em sua sala de visitas. Clara estava se emocionando com a ideia mas aceitou acompanhar Jack no novo arranjo de "The Light".

Repentinamente as emoções tomaram Clara e enquanto Jack segurava sua mão, ela começou a chorar.

- Desculpa pessoal. Me emocionei demais agora, vocês começaram a tocar e eu comecei a pensar: é a Crossroads! Você está cantando com a Crossroads! - disse limpando as lágrimas e respirando fundo. - Me desculpem, pode começar de novo?

Clara agora concentrava-se, beijou Jack e começou a sentir-se mais e mais segura. A mudança de andamento que tinham feito na música, veio a calhar, deixando-a mais fácil para ela.

Eles passaram a música mais duas vezes e todos sentiram-se prontos para ir ao estúdio no dia seguinte, gravá-la.

- Perfeito! - disse Jack, abraçando Clara. - agora senta ali, que vamos trabalhar um pouco naquela balada.

- Alguém quer vinho ou champagne? - disse Clara.

- Hum! Boa ideia, amor. Vou te ajudar...

Clara e Jack subiram para pegar mais garrafas para servir aos amigos.

- Jack.- disse Clara, segurando sua mão. - Espera, vem aqui. Eu quero te agradecer por tudo o que está acontecendo aqui. Eu nunca senti tanta emoção na minha vida quanto naquele momento em que cantei com vocês lá embaixo.

- Ai amor! - disse Jack abraçando-a e beijando-a. - Vamos descer?

- Vamos sim, vida. - sorriu Clara.

Clara serviu vinho e champagne para todos com a ajuda de Jack e foi sentar-se com suas amigas nas poltronas da sala de estar enquanto a banda continuou repassando algumas das músicas novas.

Ela continuava emocionando-se e chorava quieta no canto.

Para os padrões daqueles seis amigos, a noite terminou bem cedo. A ideia era preservar vozes e energias para o estúdio, no dia seguinte e logo Clara e Jack estavam sozinhos em sua suíte.

- Vamos deitar, menininha? - disse Jack abraçando-a. - Nossa! Está com os olhinhos inchados de tanto chorar! Vem aqui, chorona...

Os dois ficaram abraçados por alguns minutos, no meio da sala de estar. Apenas agarrados um ao outro, em silêncio.

Subiram as escadas agarrados, despiram-se e subiram na cama. Jack beijava todo o corpo de Clara e ela tremia de tanto prazer; cada movimento que ele fazia era para satisfazê-la e os dois tiveram uma noite iluminada por um amor que continuava crescendo.

Depois dormiram e sonharam com um lindo amanhecer em sua montanha, prenúncio certo de que a segunda-feira que amanhecia em Londres, seria um dia muito especial para ambos.

As primeiras luzes do dia batendo na janela acordaram Clara, que pegou o controle remoto e fechou as cortinas para evitar que Jack acordasse. Vestiu um roupão e foi até o terraço para ver o dia chegando, pela primeira vez em sua vida entraria em um estúdio para gravar uma canção, o lendário Abbey Road, ao lado da maior banda de rock de todos os tempos. E isso a apavorava...

- Oi amor? Já acordou? - disse Jack chegando ao terraço nu. - Preparada para hoje?

- Hum... - respirou fundo e olhou para ele aproximando-se dela e a abraçando. - Não posso negar que estou nervosa...

- Então vamos corrigir isso... vem comigo... - disse Jack puxando-a para dentro. - Vou te fazer uma massagem.

Jack tirou o roupão de Clara e pediu que ela se deitasse na cama, depois foi até o banheiro para pegar um frasco de óleo essencial que espalhou em suas mãos e usou para massageá-la, lenta e carinhosamente, Jack cuidava do corpo de Clara e procurava acalmá-la sussurando palavras carinhosas.

O clima de carinho e envolvimento entre eles crescia, duas pessoas que agora sentiam-se como apenas uma. Clara sentia-se mergulhada em um oceano de amor e Jack apenas preocupava-se em fazê-la feliz, deixá-la tranquila, envolvida por seu amor.

- Está mais calma, meu amor? - disse Jack.

- Estou! - suspirou Clara. - Quando você está comigo, me sinto capaz de fazer qualquer coisa. Acho que posso até consertar o mundo quando esses seus braços estão ao meu redor.

- Você vai ver... é mais fácil do que você imagina é só cantar exatamente como você cantou comigo. E depois, você estará livre para fazer o que quiser, se preferir vai comigo para o estúdio e fica lá, se não, vem para cá ou vai para a montanha, ou Paris, o mundo está aqui nas tuas mãos, junto com o meu coração.

Clara levantou-se e abraçou-o. Os dois ficaram sobre a cama abraçados por alguns minutos, apenas mergulhados em carinho.

- Você está ouvindo uns barulhinhos? - disse Jack, quebrando o silêncio.

- Barulhinhos? Não, o que é? - disse Clara tentando escutar.

- Vem daqui... - disse Jack apontando para sua barriga e rindo. - Estou com fome. Vamos comer?

- Claro, vida! Vem, vamos nos vestir...

- Vou ligar para o serviço de quarto. Algum pedido especial? Panquecas? Chocolate?

- Panquecas e frutas... - disse Clara.

- Boa ideia! - disse Jack. - Chá?

- Suco de maçã... - respondeu.

- Eu estava pensando em champagne...

- Hum, grandão! Você tem razão, mas quero estar completamente sóbria hoje. Viver a experiência completamente dentro de mim.

- Dentro de você? - sorriu Jack com uma expressão maliciosa no olhar. - Acho que também vou querer assim...

- Sério... - disse Clara. - Hoje eu quero guardar dentro de mim todas as lembranças, de cada detalhe, cada sentimento... acho que a bebida pode estragar isso.

- Certo menininha, mas se quiser algo mais forte, é só me dizer! - disse Jack sorrindo e pegando o telefone, enquanto Clara se levantava e caminhava até o closet.

Jack se juntou a ela e os dois separaram roupas esportivas, iriam aproveitar o dia de sol para uma caminhada pelo parque e talvez namorar um pouco sob as árvores.

- Hum, sabe o que eu estava pensando? Podíamos ir hoje lá ver como está a reforma da nossa casa. - disse Clara enquanto escolhia as roupas que queria vestir.

- Melhor não, amor... - disse Jack. - Se nós formos lá e as coisas não estiverem exatamente como esperamos, ficaremos nervosos e preocupados e ainda mais tensos na hora de gravar. Prefiro deixar para amanhã, se você não se importa.

- Não tinha pensado nisso, você tem razão. Nada como estar perto de um profissional do primeiro escalão... - sorriu Clara. - Tenho muito o que aprender ainda.

- Você tem talento. É só isso o que importa. Nossa! Você está com todo esse frio? - disse Jack ao vê-la pegando um moleton grosso para vestir.

- Estou! Jack, você já esteve no Brasil e já sabe como lá é quente. Ainda não me acostumei com esse frio daqui. Vou fazer uma coisa, colocar esta camiseta sob o moleton, assim, se sentir calor, tiro o moleton.

- Hum, melhorou... - disse Jack enquanto vestia uma de suas camisetas lisas e uma bermuda. - Que tal?

- Lindo, como sempre! - disse Clara. - E eu?

- Linda! Já te faço sentir calor, menininha...

- Não, Jack... vamos tomar nosso café e sair para andar. Por favor... preciso de um pouco de ar hoje e se começarmos, passaremos o dia neste quarto.

- E tem alguma coisa de errado nisso?

- Não vida! Eu quero relaxar, mas se a gente voltar para a cama, não sairemos dela hoje e eu tenho medo de me perder e ficar fora de mim, como eu sempre fico quando a gente transa.

- Hum! Então eu te tiro do rumo? - sorriu Jack.

- Completamente, Grandão!

- Linda! Então, vamos comer nossas panquecas? - disse ele beijando sua testa.

Os dois desceram para a sala de jantar, tomaram o café da manhã e sairam do hotel para caminhar, de mãos dadas até o parque, do outro lado da rua.

- E o David? Você combinou alguma coisa com ele?

- A esta hora, ele já está no estúdio. Foi gravar com a orquestra. Você combinou alguma coisa com a Cindy ou com a Jennifer?

- Não. Eu disse para elas que queria passar o dia com você antes de ir para o estúdio e combinei de almoçar com elas amanhã, no Chez Montagne.

- Então você não tem a intenção de ficar comigo no estúdio? - disse Jack.

- E você estará no estúdio, amanhã na hora do almoço? - perguntou Clara.

- Não... quero dizer, acho que não... Não sei se você já teve tempo de perceber, mas nosso trabalho é um pouco imprevisível, especialmente quando o David está envolvido.

- Eu sei, querido. Eu e as meninas conversamos e elas me fizeram ver que se eu ficar lá no estúdio, só vou atrapalhar. Lá é seu espaço, seu momento e não quero invadir.

- Meu amor, não! E se eu disser que eu quero que você esteja lá, do meu lado? Suas amigas são malucas de achar que você está invadindo, você é a razão porque estou fazendo isso, a única coisa que me fez voltar a Crossroads e se você quiser estar naquele estúdio, você tem esse direito, ok?

- Ok! Vamos fazer o seguinte, então? Vocês estarão lá por três semanas, certo? Hoje eu vou para gravar, amanhã saio com minhas amigas e depois, se você for mesmo mais tarde para o estúdio, eu vou com você e todo mundo fica feliz.

- Mas você vai só para me fazer feliz?

- Não! Eu queria ir, mas minhas amigas me disseram que eu não devia. Elas me disseram que para vocês pareceria que eu fui para vigiar, que os maridos delas iam rir de você, ou reclamar por causa das tais "regras da estrada"...

- Regras da estrada? Ah, amor! Isso é bobagem... Você acha que se isso tudo o que está em sua imaginação acontecesse no estúdio, nós gravaríamos alguma coisa? É bobagem! Pelo contrário, o estúdio sempre foi um santuário para nós. Nunca levávamos mulheres para lá... Elas ficavam no hotel nos esperando...

- Hum... no hotel, é?

- Pois é! Diga para suas amigas que elas são loucas e que se os maridos delas disseram para elas não irem ao estúdio é porque elas são chatas e só por isso.

- Ai Jack, não posso dizer isso para elas. Mas se você me quer mesmo por lá, estarei lá...

- Muito bem, querida! - sorriu Jack e beijou sua testa.

- Sua mão ainda está gelada? Vem aqui, que eu vou te esquentar menininha... - disse Jack puxando-a e agarrando-a. - Você vai ficar bem quentinha agora, amor... Vem, vamos andar um pouco no sol.

Os dois caminharam até uma área mais ensolarada do parque. Naquele dia tanto Clara quanto Jack recusaram-se sair disfarçados e conforme andavam eram reconhecidos por algumas pessoas, que para sua estranheza não os interrompiam, apenas os olhavam, alguns curiosos, outros maravilhados.

- Ou nos julgam malucos e por isso têm medo de aproximarem-se, ou melhor, estamos tão envolvidos um com o outro que acham que estarão sendo inconvenientes se o fizerem. - disse Jack rindo.

- Mas sempre fomos malucos, meu amado... por que nos importarmos agora? Se estivessemos no Brasil, teríamos que chamar a polícia para conseguirmos fugir dos fãs.

- Deus abençoe então os meus compatriotas e sua frieza... - respondeu Jack transbordando de felicidade por aquela liberdade inesperada.

- Mas eles virão, querido. Logo algum toma coragem e nos aborda e pelo que sei, assim que o primeiro chegar, chegarão também todos os outros. - disse Clara finalmente tirando seu agasalho.

- Então é melhor andarmos. Vamos a um café tomar alguma coisa? - perguntou Jack.

- Vamos. Tem uma Starbucks naquela direção...

- Hum, a minha londrina favorita já conhece a sua nova cidade assim tão bem?

- Sim, meu querido já vinha para cá todo ano, nas férias há algum tempo. Me apaixonei por Londres na primeira vez em que estive aqui há uns 20 anos, com meus pais. Sonhava em viver aqui um dia e olha só, eu moro aqui agora!

- Viu... cuidado com o que deseja. - disse Jack.

- Eu consegui que todos os meus desejos se concretizassem e estou muito feliz. Acho que devo desejar mais e mais.

- E o que você deseja agora?

- O que desejo desde a primeira vez em que te vi, em algum programa de clipes da TV: Você, meu caro "Príncipe Encantado".

- Mas você já me tem, cara "Rainha da Luz". O que mais você quer? O mundo? A lua? O sol?

- Seus braços, meu amado, para me envolver e seu corpo para me aquecer. Nada mais necessito do que isso.

Jack sorriu e beijou-a. Já estavam próximos à rua novamente e a atravessaram rumo à cafeteria.

- Muito bem, minha pequena londrina. Onde é a Starbucks?

- Ali, no próximo quarteirão, amor.

- Vamos indo então. Mais depressa porque aqui tem mais gente circulando.

Os dois seguiram adiante sem parar, ou diminuir o passo e chegaram à cafeteria. Jack foi direto para uma mesa mais discreta, no fundo da loja, enquanto Clara entrava na fila para fazer o pedido. Embora Jack fosse um cavalheiro, os dois sabiam que as chances dele ser reconhecido e cercado por uma multidão eram maiores se ele ficasse na tal fila. Clara pediu capuccinos e muffins de chocolate, os favoritos dos dois e seguiu até a mesa para esperar que fossem servidos.

- Pedidos feitos, amor. E agora? - disse ela sentando-se ao lado de Jack.

- Vem mais perto menininha! - disse Jack puxando-a de encontro ao seu corpo. - Enquanto esperamos podemos namorar um pouquinho.

- Não estou mais com frio! - riu Clara.

- Que bom, amor...

- Desculpa, mas você é o Jack Noble, não é? - disse um garoto aproximando-se timidamente da mesa, sob o olhar de mais duas garotas na mesa vizinha.

- Sou sim, mas não espalha... - disse Jack pedindo que o garoto não chamasse atenção para sua presença ali.

- Eu e minhas amigas queriamos tirar uma foto com você... - disse o garoto. - somos fãs da Crossroads e vimos o show de vocês em Paris. Foi animal, cara!

- Obrigado! - respondeu Jack.

Clara já havia se erguido para bater a foto e sinalizou para as garotas se aproximarem da mesa deles também. Jack assinou a camiseta de uma delas e Clara tirou fotos do grupo com os celulares deles. Como de hábito, pediram que os garotos não colocassem aquilo na internet naquele instante, para que pudessem fazer sua refeição e os garotos voltaram para sua mesa, sem chamar atenção do resto da loja.

- Estamos ficando bons nisso, menininha! - sorriu Jack. - Onde nós estávamos mesmo?

- Hum, meu número... vou buscar a bandeja... não sai daí... - disse Clara mandando um beijo para Jack.

- Aqui está capuccino e muffin de chocolate, senhor Noble! - disse Clara colocando a bandeja na frente de Jack e sentando-se novamente.

- Onde estávamos? - disse Clara beijando-o para responder a pergunta.

- Hum... acho que os garotos estão dando uma de paparazzi agora. Você percebeu um flash?

- Deixa eles para lá... vamos comer e voltamos para o hotel em seguida. Que tal?

- Tudo bem! Estou beijando a mulher mais linda do mundo mesmo... Deixa o resto do mundo ficar com inveja!

- Hum... Esse capuccino é muito bom... Acho que estava precisando mesmo de uma boa dose de chocolate.

- Depois de tudo o que fizemos hoje, você ainda precisa de chocolate? Pensei que vocês mulheres usavam o chocolate como substituto para o sexo.

- Não necessariamente. Eu prefiro você, sempre! Mas chocolate continua sendo algo bom, não chega a ser tão bom quanto nós dois juntos, mas é bom também...

- Esse capuccino é mesmo muito bom... Vamos comprar uma máquina para colocar lá na suite do hotel?

- Vamos! Enquanto não estamos em casa, podemos pelo menos fazer aquele lugar parecer com nossa casa.

- Falando em casa. - sussurrou Jack. - Agora eu queria estar dentro de você. Lá é minha casa.

- Jack, não faz isso em público... Mas eu também te desejo muito. Vamos pegar um taxi e estaremos no hotel ainda mais rápido.

Os dois sairam da Starbucks e foram fotografados mais algumas vezes pelos garotos, de mãos dadas, enquanto caminhavam até a calçada e pegavam um taxi.

No caminho o celular de Clara tocou; era Lambert dizendo que a reunião com os membros da ONG de preservação dos lobos havia sido adiada para a próxima semana, mas que os fazendeiros da região haviam recebido uma notificação da prefeitura avisando que era ilegal caçar lobos e que se esta ordem fosse descumprida as punições legais seriam severas.

- Amor! Acho que conseguimos salvar nossos lobos! Não é maravilhoso? - disse Clara abraçando Jack no momento em que desciam do taxi, na porta do hotel.

- Que bom! Vamos subir, menininha?

- Vamos, amor. - disse Clara acertando o seu celular para despertar às 5 da tarde. Não tinha outros planos para aquele dia, por isso bloqueou a entrada de novas ligações e agora queria apenas dividir a cama com seu melhor amigo.

Agarrados, seguiram até a porta do elevador e subiram para sua suite. Sem dizer mais nenhuma palavra, tiraram todas as roupas e foram para a cama onde a intensidade de seus sentimentos e desejos sempre falava mais alto e aquela tarde ensolarada de Londres ganhava novos matizes.

Depois adormeceram; um sono doce tomado por sonhos com sua montanha e pelas alegrias que sentiam quando estavam lá. No sonho não faziam muito além de encaixarem-se nos braços um do outro e contemplarem a beleza do vale que se estendia como um tapete verde para além de sua montanha.

Quando o alarme do celular finalmente tocou às cinco da tarde, os dois acordaram felizes, nem precisavam checar um com o outro, sonharam com uma tarde que tinha acontecido há séculos em suas vidas em uma montanha ainda selvagem, mas que reviviam, ao menos em espírito, naquela metrópole do século XXI.

- Pronta? - perguntou Jack sorrindo.

- Prontíssima amor! Não tem como ser diferente, agora me sinto envolvida por seu amor e ainda consigo ver nossa doce montanha.

- Isso é tão incrível. Sinto o calor do sol na minha pele! Como pode ser isso, menininha?

- Como pode, não sei. Só sei que é... Você estava nos meus braços lá e agora está aqui... - disse Clara acariciando os cabelos de Jack. - E eu te amo ainda mais. Vamos?

- Sim, mas antes preciso te dizer uma coisa. Hoje à noite, quando estivermos cantando juntos, quem estará emocionado serei eu, por estar cantando junto com a mulher da minha vida, este presente dos céus você é. Uma mulher linda e talentosa. E se alguém neste mundo disser ao contrário, não acredite nunca. Ok?

As lágrimas agora corriam pelo rosto de Clara. Jack beijou-a com carinho e enxugou seu rosto com as mãos. Depois, levantou-se da cama, deu a volta e estendeu a mão para Clara.

- Vem amor, vamos para o banho?

Eles seguiram para a banheira, cuidando um do outro, Jack especialmente atento a ela. Massageando-a e acariciando-a. O amor agora traduzido em carinho e cuidado.

Depois do banho, Jack levou-a ao closet e escolheu suas roupas. Uma calça jeans skinny, um par de botas de cano alto e uma bata indiana laranja, de mangas compridas.

- Falta só um detalhe... isso aqui, para proteger sua garganta...- disse estendendo a ela um cachecol, que Clara trocou por uma paximina quase da mesma cor da bata. - agora você é uma cantora e o frio pode levar sua voz embora a qualquer momento.

- Ai, amor... - suspirou Clara. - você é o homem mais doce do mundo. Vou te ajudar a vestir-se também... vem aqui.

E Clara escolheu as roupas para ele no closet, uma camisa preta de mangas longas, calças jeans desbotadas, um par de botas de couro, seus anéis e o bracelete de prata que ela tinha dado de presente a ele. Também fez questão de colocar seu japamala de jade ao redor do pescoço dele.

Depois um cuidou dos cabelos do outro, prendendo em rabo de cavalo, Jack escolheu para ele algumas bijouterias e para completar, o bracelete de diamantes. Os dois saíram do quarto, carregando as bolsas com os instrumentos que usariam no estúdio, uma guitarra acústica, uma caixinha com as gaitas de Jack e uma outra com sua flauta, que Clara nunca o havia visto tocar.

Desceram para o subsolo, pegaram o jeep e logo estavam chegando ao estacionamento na frente dos Estúdios Abbey Road. Clara ajudou-o a levar as bolsas com instrumentos para dentro e ele parou na porta e disse: - Vamos arrasar hoje, menininha!

- Vamos! - Ela respondeu com a certeza de quem começava a sentir a fé que ele tinha nela aquecendo todo seu corpo.

- Princesa! Velhão! Bem vindos! Vamos trabalhar? - disse David que saía pela porta do estúdio 2, no momento em que eles chegavam.

- Olá David, tudo bem? - disse Clara.

- Tudo maravilhoso! Tivemos uma sessão de gravação perfeita com a orquestra. A Crossroads está voando, Velhão! Depois que gravarmos, coloco para vocês ouvirem.

- Vão entrando, o Michael ainda não chegou, mas o Paul já está ai... e a Cindy também. Não me deixou vir sozinho de jeito nenhum... - riu David. - Você é má influência, bruxinha!

Clara riu e entrou correndo para encontrar a amiga! Deixando as bolsas nas mãos de Jack e de um dos roadies que se aproximou deles para ajudar.

- Oi Cindy! Que bom que você veio!

- Não perderia isso por nada, amiga! Preparada? - sorriu Cindy, enquanto a abraçava.

- Pronta e feliz! - disse Clara suspirando.

- Oi Jack! Nossa! Você conseguiu! A Clara está com uma outra expressão hoje. Parece capaz de brilhar no escuro!

- Chama-se auto-confiança! E é completamente justificada... Não amor?

- Não, querido. Acho que se chama felicidade. - disse beijando o rosto do marido. - Obrigada por tudo.

Jack puxou-a e beijou-a.

David, que voltava ao estúdio neste momento, gritou das escadas:

- Arruma um quarto, Velhão...

Jack e Clara se afastaram um do outro, rindo.

- O Michael já chegou, com a Jenni... logo vamos começar, princesa. É só o tempo de ligar as coisas por aqui e todo mundo estar posicionado. Pronta?

Clara sorriu e balançou a cabeça afirmativamente e foi na direção de Cindy, esperar que Jennifer entrasse para poderem conversar.

- Oi amiga! Que demais. Você está com a bota de novo! - disse Jennifer.

- O Jack escolheu minhas roupas hoje! E eu escolhi as dele. - disse Clara - Ah! O dia de hoje foi lindo para a gente e eu estou cada vez mais apaixonada.

- Vi umas fotos de vocês na internet hoje. Olha aqui no meu telefone, publicaram no Twitter e um tablóide pegou as fotos para falar da Crossroads e de como vocês dois tinham interrompido a lua-de-mel para gravar o disco.

- Sabia! Uns moleques estavam lá na Starbucks e quando nos beijamos, o Jack disse que achou que tinha visto o flash. Tudo bem, não ligo, estávamos muito felizes neste momento... vou colocar todas estas fotos no meu Facebook! Posso mostrar para o Jack?

- Claro!

- Jack, amor... olha só isso aqui...

- Sabia! Eu te disse que tinha visto um flash. - disse Jack. - Vou querer essa foto, menininha! Você está linda!

- Eu também, amor. Vou baixar no note e depois a gente manda fazer de papel.

- Hum, cuidado porque agora os fãs vão ficar cercando a Starbucks atrás de vocês. - disse David.

- Essa foi a primeira vez em que fomos juntos lá e a primeira em que o Jack saiu sem nenhum disfarce.

- Mas acho que não precisaremos ir lá para tomar capuccino mais, amanhã vamos comprar uma máquina de café para fazermos nossos capuccinos no hotel. - disse Jack sorrindo.

- Boa! Vamos lá ajudar a tomar, Velhão! - disse David.

- Falando em fotos, quero bater umas hoje. Vocês me ajudam, meninas? - disse Clara. - Na hora em que eu for cantar com o Jack vocês me fotografam?

- Pode deixar conosco. - disse Cindy. - Quer só que fotografe, ou prefere que filme?

Clara olhou para Jack e pensando melhor disse. - Você tem razão, filmar é melhor.

- Não pode fazer barulho, Cindy. - disse David. - Mas vai ser bom se você filmar. Esta sessão será a mais bonita do disco porque terá a princesa cantando!

- Atenção Crossroads! Hora de trabalhar! Senhores, aos seus intrumentos! E princesa, aproxime-se também.

- Olá Jack, olá Clara. - disse Michael. - Prontos?

- Sim. - disse Jack aproximando-se de Michael de mãos dadas com Clara que agora começava a tremer discretamente.

- Está ficando nervosa? - sussurrou Jack no ouvido de Clara. - Não fica, não tem por que.

- Estou tentando me acalmar. Vou ficar bem! - Ela sussurrou no ouvido de Jack.

Paul, o baterista americano já estava sentado na bateria, pronto para começar a trabalhar. David aproximou-se dele e disse que começariam a gravação pela música "The Light" no andamento que já tinham combinado antes. Dos músicos da banda Crossroads, ele era o único que não tinha participado de nenhum dos ensaios que tinham feito nas duas últimas semanas e apenas tinha passado uma vez a música com David alguns minutos atrás, antes da chegada de Jack e de Michael.

Jack puxou Clara para atrás do biombo, onde um segundo microfone e um segundo banco alto estavam prontos para ela. Jack sentou-a no banco e colocou os fones em seu ouvido. Depois sentou-se em seu banco e os dois ficaram de mãos dadas esperando que a banda começasse a tocar para começarem a cantar.

Sentindo sua ansiedade aumentar, Clara apenas fechou os olhos e respirou profundamente e enquanto os músicos conversavam entre si, ela buscava esquecer que sua mão segurava agora a mão de Jack Noble, o icônico cantor da lendária Crossroads. E se nos últimos dias de sua vida tudo que acontecia ao seu redor parecia um sonho, aquele momento era a parte mais inesperada e surreal de seus delírios.

- Tudo pronto? - A voz de David chegava através dos fones de ouvido. - Princesa? Tudo ok?

- Ok! - ela respondeu com a voz ainda falha.

- David, ela está bem... mas ainda está um pouco nervosa. - disse Jack. - Me dá um minuto?

- Claro velhão!

Clara abriu os olhos e viu Jack tirando seus fones, descendo de seu banquinho e aproximando-se dela. Para sua surpresa, ele a agarrou e beijou-a com tanta paixão que fez todos os presentes na sala gritarem.

Clara ficou completamente sem graça, depois deu um longo suspiro e sorriu. E percebendo que Jack estava posicionado novamente em seu banquinho e com o fone na cabeça, ela disse: - Está tudo Ok David! Mas o Jack é maluco!

- Isso todos nós aqui já sabíamos, princesa! - riu David. - Vamos fazer um primeiro take para termos uma base das coisas. Essa gravação vai servir para fazermos uma voz guia se for necessário para os outros takes.

- Então vamos lá? 1, 2, 3 ... 1, 2, 3, 4 - disse David começando a tocar a melodia em uma guitarra acústica. Michael tinha em suas mãos um bandolim e o baterista Paul Clarke apenas um pandeiro para marcar o ritmo.

Clara agora estava concentrada, os olhos fixos em Jack que começou a cantar e os dois fizeram exatamente como já tinham ensaiado nos últimos dias, de mãos dadas.

Logo, depois das suas primeiras frases, Jack começou a sorrir para ela e ela sorri de volta. E após os últimos acordes da música, ele desceu novamente de seu banquinho e foi até ela, beijá-la, com os olhos cheios de lágrimas.

- Parabéns princesa! Fala para o velhão voltar para o lugar dele porque eu quero fazer o segundo take ainda hoje. - disse David rindo através dos fones de Clara.

- Jack, o David quer que você volte para seu lugar. - disse Clara.

- Ele quer? Deixa ele querer! - riu Jack, voltando ao seu banquinho e colocando os fones.- Que tal, cara? Foi muito bom, não?

- Ótimo! Princesa, vamos fazer mais um take porque este primeiro foi arrasador! É só cantar igualzinho você cantou neste primeiro que estamos bem!

Clara cantou novamente e conseguiu controlar suas emoções de uma forma tão inesperada para todos naquela sala que em apenas cinco takes, a nova versão para "The Light" já estava pronta para a mixagem.

David ainda gravou piano e Jack tocou flauta para o delírio de Clara que agora tinha pego a câmera de Cindy e o filmava. Tudo deu tão certo, que antes da meia-noite, eles já haviam terminado a gravação que estava prevista para demorar até pelo menos às 3 da manhã.

- Vamos fazer outra, David?

- Melhor não, Velhão... Senhoras e senhores, agora que nosso trabalho por hoje está terminado, convido a todos para uma doce noite de festa no Pub do Dan, que nos espera. Parabéns para todos! Este estúdio teve hoje uma noite especial iluminada pela beleza e pelo talento deste pequeno tesouro que desde o momento em que surgiu em nossas vidas transformou tudo em luz! Nós te amamos, Princesa Clara!

Clara que já estava chorando desde que assistira Jack tocando sua flauta, agora escondia o rosto no ombro de Jack, que a abraçava e beijava sem parar.

Cindy, novamente com a câmera nas mãos filmava os dois naquele momento de pura emoção.

- Parabéns amor! Ficou lindo! - disse Jack. - Vamos para o Dan?

- Sim, vamos! Precisamos comemorar! - disse Clara limpando as lágrimas que agora escorriam pelo rosto de Jack.

- Clara, você arrasou! - disse Cindy, entregando a ela a câmera. - Eu estou passada! Que voz era essa, amiga?

- Nem eu sei! - respondeu Clara.

Tudo já estava sendo arrumado no estúdio pelos roadies e os músicos e suas esposas seguiram para o estacionamento para pegarem seus carros.

- Lembrei de uma coisa, Clara. Amanhã, o Michael Peters quer nós dois no escritório dele. Tem uns papéis lá que ele quer que você assine.

- Papéis? Que papéis? - perguntou Clara curiosa.

- Ah! Deve ser para receber o cachê da gravação e assinar o contrato para a turnê.

- Cachê? Contrato? - riu Clara. - Mas estou fazendo isso só pela festa e pela alegria, não precisa me pagar. Meu marido é rico, sabia?

- Mas você conhece o Michael, ele não gosta de deixar chances para ninguém processá-lo depois por ter feito alguma coisa sem pagamento. Não se preocupe, vou com você.

- Mas vai mesmo! Eu ainda tenho medo dele! - respondeu Clara.

Jack sorriu e acariciou seu rosto. Na madrugada londrina, sem trânsito, em poucos minutos todos já estavam na porta do pub, um lugar de comemoração para a banda desde a época em que gravavam em um estúdio naquela vizinhança.

- Dan! Chegamos! - David bateu na porta e logo foi atendido pelo amigo. - Acabamos cedo porque nossa princesa deu um show hoje!

- Ah! Vamos lá comemorar, pessoal! Princesa, parabéns! O David gostou de seu trabalho, isso significa que você já é uma estrela! - disse Dan beijando a mão de Clara.

- Oh Velho, sai pra lá... - disse Jack com ciúmes. - É a minha mulher, cara!

- Vamos lá pessoal, vamos entrando....

Desta vez até o baterista Paul Clarke e vários roadies, técnicos e produtores do estúdio estavam na festa. Alguns ligavam de lá para suas mulheres acompanhá-los e um grupo grande lotava o pub.

Os três músicos da Crossroads e suas esposas dividiam uma das mesas do lugar e o clima era de euforia. Passaram a noite bebendo cerveja e comendo a deliciosa comida do pub e David e Jack puxaram um brinde para Clara.

Com a câmera na mão, ela registrava a festa em fotografias. Queria guardar com ela para sempre aquela noite em que sua voz havia sido gravada cantando junto com uma das maiores bandas de rock do mundo.

Quando o dia amanhecia, restavam apenas poucas pessoas ainda no pub. Jack, Clara, David e Cindy resolveram voltar para o hotel só na hora em que Dan, fechava o pub, que como de hábito quando aconteciam aquelas festas, permaneceria fechado no dia seguinte, para descanso seu e dos funcionários.

Rapidamente os quatro já estavam no subsolo do hotel estacionando os carros e subiriam juntos no mesmo elevador até suas suites. David e Cindy despediram-se deles e Jack e Clara continuaram até sua cobertura, estavam cansados, mas em estado de graça de tão felizes, subiram as escadas até seu quarto, tiraram as roupas, fecharam as cortinas para a luz do sol que já clareava o céu de Londres e dormiram até o meio-dia.

- Bom dia, amor! - disse Jack. - Vamos nos preparar porque o Michael quer nos ver hoje à uma hora, em seu escritório.

- Bom dia, Jack! Humpf! Michael... Acho que temos que ir, não? - disse Clara.

- Ah! Vamos! De lá podemos ir almoçar em algum lugar, o que você acha? Você não tinha combinado de almoçar com a Cindy hoje?

- Desistimos quando você disse que precisavamos ir no Michael. Vou tomar um banho, você quer vir?

- Sempre! - disse Jack sorrindo.

Os dois tomaram banho juntos e saíram apressados, estavam atrasados para o encontro e o trânsito até a City, não ajudaria em nada naquela tarde.

Continua

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