7 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXXIII


Jack e Clara caminharam até o hall de entrada do hotel e foram conversar com o gerente, enquanto esperavam pela saída de Charles. O assessor veio diretamente até ela para perguntar o que havia acontecido.

- Tudo bem, Charles. O Roberto é um ex-namorado meu e apenas fiquei surpresa do Jonas ter aceitado um pedido de entrevista dele, mas pelo que entendi, ele usou um truque e aproveitou-se da mudança de horário para aparecer aqui. Não se preocupe, eu falei poucas e boas para ele e acredito que não irá mais nos perturbar.

- Minha experiência diz que é muito provável que ele publique um artigo bastante negativo sobre você e seu trabalho. Quer que eu reclame dele para o jornal?

- Acho que reclamar seria dar a ele exatamente o que quer. Se ele escrever algo ofensivo posso detoná-lo no meu blog, como sempre fiz.

Jack percebendo a expressão de preocupação de Charles aproximou-se dele e de Clara querendo saber se estava tudo bem e se o tal repórter tinha feito ou dito algo que a tenha irritado.

- Não amor. Está tudo certo. Dele nunca vem nada que preste mesmo, mas desta vez eu disse algumas verdades que devem resolver o problema. - respondeu Clara para acalmá-lo, mesmo sabendo que aquilo não tinha terminado.

Ela não queria que Jack soubesse, mas agora estava muito nervosa. Tinha se defendido bravamente dos ataques de alguém que em um dia distante, havia significado muito para ela e agora fazia questão de tratá-la como sua pior inimiga. Ao menos estava agora de mãos dadas com seu melhor amigo.

Com tudo pronto para partirem, Jack e Clara despediram-se de Charles e desceram para o estacionamento onde o jipe já carregado com suas malas os esperava. Clara pegou seu iPod na bolsa, conectou-o ao som do carro e programou-o para tocar a seqüência de músicas que ela usava para fazer Yoga. Ainda tentava acalmar-se e apagar aquele reencontro desastroso com seu ex-grande amor e atual inimigo número 1.

Embora ela estivesse disfarçando bem, Jack parecia preocupado e a olhava de tempos em tempos, pelo caminho, que por algum milagre estava tranqüilo naquele final de tarde de quinta-feira. Mas conforme avançavam na estrada, o verde e a beleza do por do sol começavam a tirar Roberto de sua cabeça e ela voltava a enxergar tudo a sua volta.

- Jack, é tão bom estar aqui com você! - disse enfim Clara depois de passar muitos quilômetros em silêncio.

- Hum! Que bom! Finalmente você conseguiu esquecer aquele idiota.

- Você tem razão. Você já me conhece tão bem assim, amor? - disse Clara rindo.

- Muito bem. Você vai jurar que não, mas para mim, você é transparente.

- Acho que eu sou. Não consigo esconder aquilo que sinto de você, não é amor?

- Não mesmo! Mas hoje à noite, na frente da nossa lareira, vamos deixar tudo isso para trás. E amanhã, vamos passar o dia na floresta. Quero aproveitar cada minuto que puder ao seu lado.

- Ai meu amor! Você não existe! - disse Clara sorrindo e acariciando a coxa de Jack suavemente. - Você sabe que eu preciso trabalhar no livro, não é?

- Mas também vamos conversar, beber vinho, comer coisas gostosas, rolar naquele campo de lavanda, aquecermos-nos nus na frente da nossa lareira. - disse pegando a mão de Clara e beijando-a. - Eu te amo e não consigo fazer diferente.

- Não quero que seja diferente. - respondeu. - Nunca!

Jack apenas sorriu e apontou uma placa do caminho, dizendo que se estivessem indo para a cidade onde nasceu, teria que pegar aquele desvio.

- Quero ir lá um dia desses, Jack. Ver com meus próprios olhos o lugar onde você nasceu. Sentir os perfumes, ver as paisagens...

- Eu quero ver as suas paisagens. Cada uma delas! - disse dando um sorriso malicioso. - Ah! Se eu não tivesse que dirigir...

- Já estamos chegando, amor. Já estamos perto da entrada daquela cidadezinha onde tem o parque.

O celular de Clara começou a tocar, era Jonas: - Me desculpa Clara. O assessor de imprensa do Jack me ligou contando o que aconteceu. O jornal tinha me dado outro nome, era Tânia Santos quem ia fazer a entrevista com você.

- Tudo bem, Jonas, o Roberto é um mau caráter, não custava para ele pedir a entrevista com outro nome, só para te enganar.

- Mas você acha que teremos problemas por isso?

- Não. E se tivermos, pode deixar que dou um jeito nele.

- Onde você está agora? No estúdio?

- Não, estou na estrada a caminho da casa de campo. Vou passar uma semana lá. Minha intenção é retomar o trabalho no livro.

- Ótimo! Estou começando a ficar tenso de não ter nada desse livro em mãos ainda.

- Eu também! Mas confio que tudo vai dar certo no final.

- Me perdoa, não imaginava que alguém pudesse fazer uma coisa dessas. Esse teu ex...

- Já tive muito mau gosto para homens, amigo. Ainda bem que o Jack é para sempre. – sorriu.

- Beijos querida, aproveita por mim... e se você quiser que eu detone esse jornal...

- Não faz nada porque é pior! Sinto que amanhã essa droga de jornal tentará arrastar meu nome para a lama, mas espera eu te ligar para agir, ok?

- Ok! Beijos.

- Beijos, Jonas.

- Hum, o agente infiel! Tinha algumas coisas para dizer para ele hoje. Como ele aceita um pedido de entrevista daquele traste?

- Não foi culpa dele, amor. O Roberto é assim, não tem escrúpulos quando quer atingir alguém. Aliás, não sei onde eu estava com a cabeça de namorar alguém como ele. E pensar que nós moramos juntos três anos.

- Eu não consigo imaginar isso, Clara. Uma mulher linda e sensível como você vivendo com alguém como ele.

- Nós dois estávamos na faculdade ainda. Era a primeira vez que eu ia morar fora da casa da minha mãe, tinha só 18 anos, era uma criança ainda. Não quero ficar falando mais do Roberto hoje, mas qualquer dia desses, eu te conto tudo sobre ele e o que aconteceu depois que nós terminamos.

- Bom! Vou querer saber tudo o que puder sobre você. Engraçado como a cabeça da gente muda. Até te conhecer, meu assunto favorito era música, agora é você....

- Que lindinho! Você me emociona quando fala essas coisas. – disse Clara suspirando. Queria beijá-lo, mas ainda estavam na estrada.

A noite já estava caindo e o céu estava transparente, e as estrelas começavam a surgir no momento em que chegaram à porta da casa de campo. A beleza do céu noturno era tamanha que Clara desceu do carro e ficou vários minutos olhando para ele, de boca aberta. Jack colocou um CD com a música "Unexpectedly" no som do carro, aumentou o volume, pegou Clara pela mão e os dois começaram a dançar.

Enquanto dançavam, Jack beijava-a e sussurrava a letra da música em seu ouvido. Uma leve brisa soprava os cabelos e trazia o delicioso perfume da mata próxima. De todos os momentos românticos que os dois tiveram, aquele era o mais perfeito. Os corações de ambos derretiam de amor e seus olhos choravam novamente pela beleza da noite, como já haviam feito há séculos atrás.

Depois de dançar, Jack abriu a porta, pegou-a no colo e levou-a para dentro.

- Pronto! Mais uma de nossas casas está inaugurada minha noivinha! Vamos trazer nossa bagagem para dentro, vem...

Os dois recolheram rápido, malas e pacotes do carro. Arrumaram tudo e como estavam com fome foram juntos até a cozinha preparar um jantar. O freezer estava abarrotado de comida, mas Jack fazia questão do seu purê com salsichas e por isso, ele mesmo foi prepará-lo, enquanto conversavam e divertiam-se na cozinha.

Abriram uma garrafa de vinho, pegaram frutas secas na geladeira e beliscavam enquanto preparavam o jantar. Jack trouxe para a cozinha seu CD player portátil e colocou uma coletânea de músicas de Chet Baker para tocar.

- É um dos meus favoritos, sabia? - Clara disse pegando a capa do disco. - Tem "Every Time We Say Goodbye"? Que lindo, coloca para tocar é a terceira faixa. Amo essa música! - E passou a cantar a música acompanhando a versão do disco.

- Já te falei que você canta direitinho, é afinada, tem uma voz agradável... Queria cantar com você um dia, no palco.

- Nem pensar, amor... acho que ficaria com tanta vergonha de subir num palco que não conseguiria nem respirar, quanto mais cantar... - respondeu rindo.

- Desperdício, puro desperdício... - disse beijando sua nuca. - Eu estaria lá, segurando sua mão.

- Minha mãe sempre me diz que sou um "bicho do mato", morro de vergonha quando tem muita gente me olhando.

- Mas não deveria. Você é linda e sua voz também. Acho que faria muito sucesso no palco e sou do ramo, entendo um pouco de música para dizer isso.

- Fico feliz, mas sei meus limites. Fico paralisada quando tenho que falar em público. Por isso nunca me animei a dar aulas e não fiz nenhuma questão de trabalhar na televisão, quando me convidaram.

- Televisão?

- É... Tinha acabado de me formar e uns amigos da faculdade tinham entrado na equipe de uma emissora de TV, tinha uma vaga para mim, fiz o teste, passei, mas não quis trabalhar lá. Eles me queriam para ser a “moça do tempo”.

- Hum... Não perderia uma previsão... Uma mulher linda como você falando que vai chover...

- Tempestade tropical, com raios e trovões ao sul. Descontrolada... – disse Clara beijando-o.

- Vou me afogar na enchente. – disse ele apertando as batatas já cozidas para o purê.

Clara mexia um refogado com cebolas, lingüiças e ervilhas, acrescentou sal e deu para Jack experimentar.

- Perfeito amor. Já está bom. Vamos jantar?

Quando finalmente sentaram-se para comer o celular de Clara tocou novamente. Era uma mensagem de texto de Cindy perguntando como estavam as coisas.

Clara olhou para Jack, do outro lado da mesa e apenas digitou. “Estamos em casa e está tudo bem!”

Jantaram, arrumaram a cozinha. Clara estava começando a ficar com frio e Jack acendeu a lareira para ela, embora aquela fosse uma atitude um pouco exagerada inspirada muito mais no romantismo que aquela noite sem nuvens trazia do que na temperatura que estava lá fora.

Jack levou o CD player para a sala de estar e colocou novamente para tocar o CD de Chet Baker. Sentou-se no tapete ao lado de Clara. Ofereceu para ela mais vinho, depois tirou a camisa, enquanto Clara ainda tentava aquecer-se esfregando as mãos na frente do fogo da lareira.

Depois de um dia corrido, aquele era um momento de merecido descanso.

- Está mais quentinha, menininha? – perguntou Jack pegando suas mãos.

- Estou amor! – respondeu tirando a camiseta que estava usando. – Vem aqui, vem...

Jack aproximou-se e continuou a despi-la. Clara ajudou-o a livrar-se das roupas que usava, abraçaram-se e logo mergulhavam mais uma vez em um rio caudaloso de prazer infinito, onde não havia espaço para mais nada além do que sentiam.

Jack depois pegou almofadas e um edredon no armário do quarto e os dois passaram a noite toda na frente da lareira, nos braços um do outro, a perfeita expressão do amor.

Jack acordou bem antes das quatro da manhã. Foi até o quarto, vestiu-se e pegou roupas quentes para Clara. Um pouquinho antes das quatro, acordou-a.

- Amor... Vem aqui, quero dividir uma coisa maravilhosa com você, vem.

- O que houve Jack? Algum problema?

- Não, quero te levar ao topo da montanha, para ver o amanhecer. Quero dividir isso com você...

Clara vestiu as roupas que Jack havia trazido para ela e Jack escovou seus cabelos e prendeu-os em um rabo de cavalo. Colocou botas nos pés, pegou a câmera fotográfica e os dois saíram.

O caminho foi ainda na escuridão da noite, Jack tinha uma lanterna grande nas mãos que iluminava apenas o chão de terra para pisarem. Subiram pela estradinha estreita, no meio das árvores, atravessando uma densa camada de neblina, que estava prestes a ser rompida pela luz do sol.

Clara sentia muito frio e um pouco de medo também, por caminharem pela floresta naquela escuridão.

Subiu com a ajuda de Jack e os dois sentaram-se em uma grande pedra. Aos poucos ela começava a ouvir pássaros cantando e a floresta voltava à vida.

Jack abraçou-a e ela posou a cabeça no ombro dele. A luz começava a surgir no horizonte em tons multicoloridos e rompia a neblina e assim, o vale todo verde, com seus inúmeros pinheiros, começava a surgir em toda sua glória, do topo da montanha até um rio que de lá de cima, parecia pequeno, diante da majestosa visão do topo da colina.

Clara não conseguia nem falar, ela estava tremendamente emocionada por sentir que seu espírito reconhecia a beleza daquele lugar e lembrou-se de muitos amanheceres e pores-do-sol assistidos de lá de cima, quando ainda estavam juntos.

Pegou a câmera, mas ela não parecia capaz de fazer justiça a toda aquela beleza. Jack pegou a câmera das mãos dela e passou a filmá-la olhando embasbacada para o vale.

- Este lugar é lindo. Obrigada amor por dividi-lo comigo. Acho que nunca senti tanta emoção em minha vida.

- Foi aqui em cima que escrevi a “Song of the Woods”; naquela época, a nossa casa não existia e eu vinha para uma pequena fazenda aqui perto, comprei a fazenda primeiro e depois estas terras aqui de cima da montanha, que como você, me conquistaram à primeira vista. Bom, hoje já sabemos que nada aqui era exatamente a primeira vista. – sorriu.

- Não consigo transformar em palavras o que estou sentindo agora. Este lugar... É como se de repente eu tomasse consciência de tudo o que aconteceu antes por aqui com a gente. Nossa casa era bem ali e quando eu abria a janela via o vale e tinha uma pequena horta e ficávamos sentados perto de uma fonte ali embaixo, no meio daquele bosque.

- Tem uma fonte descendo aqui à esquerda. É um lugar delicioso que tem umas pedras em que eu costumo ficar sentado, relaxando. Vou te contar uma coisa engraçada. Eu nunca fui uma pessoa de ficar pescando ou caçando por aí, mas quando conheci este lugar, eu sempre sonhava que estava caçando e pescando. E só agora eu entendi que os sonhos deviam ser lembranças.

- Que lindo, amor... E eu acho que sentia falta disso aqui, precisava andar no parque todos os dias e enchi meu apartamento de plantas. Não conseguia viver sem estar perto da natureza de algum jeito. Tive que distribuir minhas plantinhas queridas entre minha mãe e irmãos antes de viajar.

- Plantinhas? - sorriu. - Vamos voltar para casa agora, pegar algo para comer e trazer para cá?

- Um picnic, amor? Vamos sim! Vem, que agora vai dar para enxergar bem o caminho de volta para casa. - disse Clara levantando-se e estendendo a mão para Jack levantar-se também.

- Tem uma coisa que ainda não te falei, mas os empregados da casa hoje estarão lá, fiz um acerto com eles que enquanto estamos nos adaptando ao nosso casamento, eles trabalham até às 5 da tarde e voltam a partir das 9 da manhã; assim temos a casa só para nós durante a noite e de manhã cedinho...

- Ótimo. Assim vou me acostumando aos poucos com eles e eles comigo e ficamos bastante tempo sozinhos. É adorável tudo o que você está fazendo por mim...

- Eu quero te fazer feliz!

Os dois desceram até a casa, os empregados ainda não tinham chegado, por isso pegaram a cesta de picnics e encheram-na com coisas que gostavam; frutas, pães, queijos e vinho. Jack quis levar seu CD player, mas Clara não deixou, não queria fazer barulho e perturbar a natureza naquele dia.

Logo voltavam para a montanha com sua cesta, mas ao invés de irem até o topo, seguiram para a área que ficava próxima à fonte. Árvores e pedras de onde brotava um pequeno veio de água muito fria que corria rápida morro abaixo e era suficiente para deixar aquela área da floresta um pouco mais fria e úmida do que todo o resto.

Pequenas flores do campo brotavam por entre as pedras. Elas e as colunas de luz do sol que penetravam através dos galhos mais altos das árvores emprestavam um ar quase mágico àquela parte do bosque. Clara tirou várias fotos e também filmou Jack andando ao seu redor. Os sons também faziam parte da magia, Clara estava certa em não permitir que Jack levasse o CD player até lá. O bosque tinha a sua própria música na voz dos pássaros e no rumorejar suave da fonte.

- Agora que estamos aqui, já comemos e estamos felizes, vamos trabalhar? – perguntou Clara pegando a câmera.

- O que você tem em mente? – respondeu Jack

- Quero que você me conte tudo sobre essa casa e esse bosque. Quando você veio aqui pela primeira vez?

- Do lado de lá fica o País de Gales. E ali tem um parque, tipo reserva natural em que eu costumava vir nas férias da escola, com meus pais. Era um lugar com chalés, onde passávamos alguns dias todo ano.
Daí quando fugi de casa, eu fazia muitos shows com minha banda nessa região e um amigo meu tinha uma fazenda aqui perto. Depois, quando a Crossroads começou e eu passei a ter muito dinheiro, eu encontrei com esse amigo e falei que precisava de um lugar onde pudesse ficar com a banda para fazer o próximo disco porque estávamos meio dispersos, cada um para o seu lado, e ele ofereceu alugar a fazenda dele para nós.
Eu aluguei a fazenda e o David trouxe para cá um estúdio móvel que ele alugou dos Rolling Stones e todos vieram para cá. Passamos três meses aqui, mulheres, filhos, roadies, produtores, uma enorme comunidade hippie em uma casa de fazenda um pouco menor do que a nossa casa.

- Deve ter sido muito agitado.

- Era um caos, mas eu me sentia muito bem lá. Tão bem que fiz uma oferta pela fazenda que meu amigo aceitou. E eu acabei comprando ela e como te disse, aqui em cima escrevi “Song of the Woods” e “Over the Mountain”. E gravamos o disco inteiro naquela fazenda.

- É o meu disco favorito da Crossroads.

- O meu também! E foi também o meu último instante de ingenuidade. Começaram a acontecer muitas coisas. Depois da gravação, minha família começou a morar na fazenda e foi o começo do nosso afastamento. Meu casamento nunca mais foi o mesmo depois da turnê desse disco.

- Você e a Mary faziam sentido juntos. Os seus filhos eram crianças lindas, vi naquele documentário sobre a banda...

- Acho que para fazer filhos nós nunca tivemos problemas, mas eu era muito inquieto, não conseguia ficar aqui na fazenda muito tempo e quando não estava fazendo shows, alugava um carro e viajava pelo mundo.
Precisava estar sempre em movimento, tinha uma sede por música que me impulsionava a ir cada vez mais longe, pesquisando, gravando grupos musicais em New Orleans, na Índia, no deserto do Saara. E eu queria dividir minhas descobertas com a Mary, mas a estrada, ainda mais naquela época, não era lugar para crianças.

- E começou o distanciamento...

- E quando eu voltei para casa, porque minha banda tinha terminado, a Mary não me conhecia mais e eu também não a conhecia mais.

- Triste isso!

- Mas teve muito mais dor aí. A Mary sofreu um acidente feio de carro, quase morreu e eu estava nos Estados Unidos. Ela nunca me perdoou por estar sozinha quando isso aconteceu e se você quer saber, nem eu me perdoei. – disse com lágrimas nos olhos.

Vendo que Jack estava chorando, Clara parou a câmera, aproximou-se dele e abraçou-o. E ficaram lá abraçados no meio do bosque por alguns minutos.

- Menininha, você aquece esse meu velho coração como ninguém. Obrigado por estar aqui comigo!

- Estou aqui por você e para você e sempre estarei!

- Se você quiser continuar a gravação... - disse pegando a câmera e entregando-a a Clara. - Posso continuar contando minha história com este lugar...

- Tudo bem.- disse Clara acionando novamente a câmera. - Então você vendeu a fazenda e o que aconteceu?

- Vendi para um velho amigo e quando a Mary se recuperou tivemos mais um filho, o Jack Jr, as coisas estavam mais ou menos calmas na época em que ele nasceu, mas acho que foi só o último respiro antes de mergulhar na escuridão: meu melhor amigo morreu, minha banda acabou e me divorciei. Cai doente e quando sai do hospital, o amigo para quem tinha vendido a fazenda, me encontrou lá no pub do Dan, deve ter ficado com pena do meu estado ainda deplorável e me convidou para vir para cá por uns dias.

- E numa noite, nós subimos na montanha para uma festinha ao redor de uma fogueira e o vizinho dele, que era dono de uma cabana de caça que existia aqui nestas terras disse que tinha tido uma boa oferta por elas e como precisava do dinheiro, estava pensando em vendê-las. Quando ele disse isso, me bateu uma sensação de desespero e eu ofereci para ele um valor astronômico, mais do que o dobro do que as terras valiam e ele me vendeu. Foi como voltar à vida para mim, tinha um projeto, construir minha nova casa aqui, em um lugar que eu amava desde a adolescência.

- E depois que ela ficou pronta, passou a viver nela...

- Ficava cada vez menos tempo em Londres e mais aqui. Vinha sempre enquanto a casa estava sendo construída e quando ela ficou pronta decidi que só traria para cá as pessoas que eram para sempre em minha vida. Meus amigos mais próximos, o David, a Mary, meus filhos...

- Namoradas...

- Não, menininha... Você é a primeira namorada que veio até aqui...

- Sério Jack?

- Você sabe que tinha jurado nunca mais casar na vida e você foi a única pessoa no mundo a me fazer desistir dessa ideia.

Clara sentiu-se mais uma vez massacrada por ser a responsável pela felicidade dele. E deu um longo suspiro que fez Jack sorrir.

Clara parou novamente a câmera e beijou-o. Serviu uma taça de vinho para cada um e puxou Jack até mais perto da fonte, para ver um esquilo que descia de uma árvore.

- Este lugar é inacreditável, Jack!

- Você é inacreditável! - Jack respondeu acariciando seu rosto.

Ficaram em silêncio apenas observando o que acontecia na floresta a seu redor. Pássaros, borboletas, esquilos; a vida fervilhava naquele pequeno pedaço de chão promovendo um espetáculo que agora assistiam.

Conversavam, riam, fotografavam flores e pequenos animais para levá-los com eles para sempre. Jack contou mais histórias das férias de sua infância no País de Gales que provavelmente iriam para o livro porque ajudavam a reforçar o "lado humano" daquele que a opinião pública tinha apenas como um "Deus do Rock".

- Sabe, você estava aqui me contando estes detalhes sobre sua infância. Me ocorreu que para muita gente, você quase não é uma pessoa de verdade, mas um ícone, um "Deus do Rock". Para mim também era, quase não aceito vir trabalhar com você porque era apaixonada por essa imagem e tinha medo de me decepcionar com o homem real que existia atrás da lenda.

- E se decepcionou?

- Não! Pelo contrário, me apaixonei por este homem também. - disse sorrindo. - Mas o que eu quero dizer é que as pessoas lá fora ainda te vêem como o ícone. Isso te incomoda?

- Acho que não. Nunca parei para pensar muito sobre isso. Não me considero um “Deus do Rock”; essa é uma daquelas coisas que aparecem sem a gente saber direito de onde veio. Sempre me senti mais como um amante da música, pesquisei e fui fundo atrás daquilo que me atraia, viajei e viajo pelo mundo ainda movido por esse amor.

Clara sorriu ao sentir-lo empolgado por sua arte. Sempre que falava sobre música seus olhos brilhavam ainda mais, era um eterno apaixonado pela única amante que tinha poder suficiente para afastá-lo de todas as outras.

- Queria passar o resto do dia aqui com você, mas quero que você conheça os empregados da casa e também preciso ligar para o David para saber como estão as coisas, por isso, vamos descer?

- Vamos, amor. Também preciso saber o que o idiota do Roberto fez daquela entrevista. O Jonas deve estar tentando me ligar que nem maluco a esta hora. – sorriu.

- Vamos recolher tudo aqui na cesta e descemos... – disse Jack, quando ao levantar novamente a cabeça percebeu que outros animais aproximavam-se da fonte.

Jack aproximou-se de Clara sem fazer barulho e apontou na direção da fonte... Clara surpreendeu-se ao ver uma loba toda branca com dois filhotes, bebendo água. Animais lindos mas normalmente muito arredios.

Sem fazer movimentos bruscos, Clara levantou a câmera e passou a filmá-los. Os filhotes agora perseguiam um pequeno sapo que haviam encontrado perto da água e depois rolavam pelo chão rosnando, brincando de brigar.

De repente, sem maiores explicações ou despedidas, mãe e filhotes entraram correndo de volta no mato e desapareceram de vista.

Clara olhava para Jack e os dois se perceberam completamente emocionados. Aqueles animais lindos pareciam ter vindo até eles como um presente, para saudá-los por seu respeito e também por seu amor àquele lugar e sua natureza exuberante.

- Que lindo amor! – disse Clara assim que eles se foram.

- Para mim, esse foi um jeito da floresta nos dizer que nos reconhece e nos saúda nestas nossas novas vidas. Lindo mesmo! – respondeu Jack colocando em palavras aquilo que os dois pensaram.

Caminharam felizes de volta à casa e Jack no caminho contou a ela sobre os outros encontros que já tinha tido antes com aqueles animais. Mas eles nunca tinham se aproximado tanto e também era a primeira vez que via filhotes.

- Eu filmei tudo.. Que vontade de pegar aquele bebês no colo.

- Você sabe que isso é perigoso, não maluquinha? Aquela loba te atacaria se você fizesse isso.

- Eu sei! São animais selvagens. É que são tão lindos.

Os dois chegaram em casa e Jack reuniu todos os empregados na sala de estar para apresentar à Clara.

- Meus queridos, esta é a minha esposa Clara e os reuni aqui para apresentá-la a vocês. Este é o Lambert, meu secretário, faz-tudo e líder da equipe, esta é a Meggie, camareira, estas duas são Anne e Judy, arrumadeiras, esta é a Mona, cozinheira e este é o Jones, jardineiro.

- Olá a todos! - disse Clara. - Espero poder conviver bem com todos vocês e peço que não alterem sua rotina de trabalho pela nossa presença aqui. Obrigada a todos por cuidarem tão bem do meu marido e desta casa. Este lugar me encantou desde a primeira vez que o vi e sei que vocês são os responsáveis por este encanto. Muito obrigada e parabéns pelo bom trabalho.

- Obrigado queridos. Agora queremos um pouco de privacidade. Por favor, voltem aos seus afazeres. – disse Jack para os empregados que seguiram cada um para um canto da casa.

Clara então pegou a cesta de picnic e já a estava levando para a cozinha, quando Lambert a interrompeu:

- Deixe que eu leve, senhora.

- Obrigada, Lambert.

Jack sentou-se no sofá e apenas ficou observando.

- E aí? Foi difícil? – perguntou sorrindo.

- Não, amor. Até que foi tranqüilo.

- Todos trabalham aqui há mais de 20 anos, desde que me mudei para cá, são de muita confiança e sempre trataram a mim e meus convidados muito bem.

- Que bom, amor! Nunca tive empregados a não ser uma faxineira que passava uma vez por semana na minha casa. Não sabia o que dizer para eles.

- O que você disse foi perfeito. Vão te tratar como uma rainha aqui, menininha! – sorriu Jack. – Agora vem aqui, que eu quero te mimar um pouco.

- A cozinheira sabe que não vamos almoçar certo?

- Sabe! Deixei um bilhete de manhã para ela dizendo que faríamos um picnic na floresta, agora ela deve estar preparando nosso chá da tarde e o jantar.

- Ok! Então vou tomar um banho, ligar o computador e telefonar para a Cindy e para o Jonas.

- E eu vou falar com o David para saber se tem notícias sobre o Mike.

Clara subiu para o quarto que estava muito bem arrumado e com um lindo bouquet de lavandas recém colhidas em um vaso. Foi escolhendo as roupas que vestiria e organizando suas coisas para mais tarde, carregando a bateria do celular e do notebook.

Quando ia começar a despir-se, Jack entrou no quarto atrás dela. – Não perderia isso por nada.

- O que foi Jack? - perguntou surpresa.

- Você não vai tomar banho?

- Vou, acabei de te dizer isso lá embaixo, lembra? – riu Clara.

- Então. Se você vai tomar banho, eu vou junto... É uma regra nova desta casa que passa a vigorar a partir de hoje!

- Ai que lindinho! Vem aqui, amor. Me ajuda com estas botas...

Os dois despiram-se, enquanto enchiam a banheira e pegaram suas nécessaires com cremes e perfumes.

Relaxaram na banheira e cuidaram um do outro.

- Sabe o que eu estava aqui pensando Jack? Que nosso casamento é tão perfeito que acabamos ganhando uma segunda lua-de-mel.

- Tem razão! Que o David e o Mike não saibam disso, mas essa semana para nós será ótima. Você vai poder escrever e eu vou poder te mimar bastante, como eu queria. Esperamos 30 anos para voltar a gravar, podemos esperar mais uma semana.

- Espero que tudo se resolva logo, estou com pena da Jennifer e do Michael.

- Mas vai se resolver, sim. Tenho certeza que tudo vai dar certo.

- Eu também amor! Pensei até em ligar para ela oferecendo ajuda. O que você acha?

- Melhor não, amor. Acho que vocês ainda não se conhecem bem o suficiente para isso.

- Tem razão. Vou ligar para a Cindy e pedir para ela mandar um recado meu.

Depois do banho e dos cuidados de um com o outro, Clara vestiu-se, pegou o notebook e o celular e levou-os até a sala de estar, onde sentou-se no sofá preocupada com o que encontraria.

Abriu seu e-mail e logo encontrou uma mensagem de Jonas. "Clara, o texto está aí em anexo. Dá uma olhada e me diz o que você quer fazer... Tentei te ligar, mas não consegui e como prometi, estou esperando por suas instruções."

Com as mãos tremendo, Clara abriu o anexo e deparou-se com o título: " Cinderela moderna, um olho no príncipe, outro no lucro"

Cada época tem a Cinderela que merece; no Brasil, a história mais recente a emular o famoso conto de fadas da garota pobre que encontra seu príncipe encantado é a da escritora e jornalista musical Clara Oberhan, que em questão de apenas poucos dias não só fisgou Jack Noble, o milionário dinossauro do rock, como o convenceu a voltar para a estrada, fazendo-o assinar o maior contrato que o mundo da música já viu, com cifras que, segundo relatos de pessoas ligadas ao meio musical ultrapassam fácil a marca de um bilhão de dólares.

Nada mal para uma escritora de 32 anos que depois de um trabalho bastante irregular como repórter e crítica musical em jornais e revistas, fez sua fama publicando uma série de cinco livros, os Songbooks, que bem longe de serem relevantes, trazem histórias de ficção baseadas nas músicas de bandas clássicas do rock como Rolling Stones e Crossroads.

Portanto é bastante sintomático que no conto desta Cinderela moderna, ela tenha encontrado seu "principe encantado", em um saguão de hotel em Nova York durante uma viagem para tratar de contratos de publicação com uma das editoras escolhidas para cuidar de sua obra.

Escorregadia, como convém a alguém com pouco talento, mas muita disposição para o lucro, Clara nos concedeu uma entrevista com respostas dignas de um político às vésperas das eleições:

Por que esse casamento tão apressado?
E porque não? Nos encontramos por acaso em Nova York. Nos apaixonamos assim que nos vimos e estamos juntos desde então.

Mas você sempre foi fã da banda.
E isso quer dizer?

Não seria o sonho dourado da fã que o ídolo se apaixone por ela?
Talvez seja, mas não era o meu sonho.

Mas você agora está vivendo o sonho de toda fã e toda groupie.
Eu estou vivendo um sonho. O meu sonho! Estou convivendo com o homem que eu amo e isso é maravilhoso.

Mas já existem comentários de que o relacionamento de vocês foi uma boa desculpa para seu marido voltar para uma banda que ele negava há 30 anos.
O Jack tem mais de 40 anos de carreira e não precisa da aprovação, nem da autorização de ninguém para fazer o que bem entender.

Mas a oferta de um bilhão de dólares por um disco e uma turnê não poderia ser a melhor razão de todas?
Quem conhece o Jack sabe que ele não liga para dinheiro. Então isso também é uma bobagem. E sim, um bilhão de dólares é dinheiro demais para qualquer coisa.

E já que falamos em dinheiro, é verdade que você foi obrigada a assinar um contrato pré-nupcial?
Obrigada? Não, ninguém me obriga a nada. Assinei porque achei justo. Não me casei por dinheiro, então não me importei de colocar isso no papel.

Mas você já está lucrando muito com esse casamento. Não está?
Soube que meus livros estão vendendo muito mais, mas não sei se isto é lucrar.

Não só os atuais como os futuros. Você já sinalizou no seu blog que passará a assinar o sobrenome dele.
O que escrevi no blog foi motivado por ter visto online, pela primeira vez, uma foto do nosso casamento e naquele momento, tomar consciência que tudo estava mudando, até meu nome. Que mudou mesmo, legalmente.

Mas um sobrenome conhecido como Noble vai ajudar muito a vender livros...
Discos talvez, Para vender mais livros eu acho que o correto seria mudar meu sobrenome para Coelho.

Como os filhos de Jack Noble a receberam na família, você sabe que é mais jovem do que alguns deles?
Muito bem. Na verdade só me pediram que eu cuidasse bem do pai deles e é isso que estou fazendo.

Clara olhava ainda incrédula para tudo o que Roberto escreveu sobre ela e embora já estivesse preparada para algo parecido, ela não esperava que suas palavras rudes a atingissem tanto. Suas mãos agora tremiam ainda mais e ela tentava acalmar-se respirando fundo, mas sentia-se zonza e temia cair no chão se levantasse da poltrona.

Finalmente ela caiu em um choro convulsivo, que provocou nela uma repentina crise de asma. Ela estava com os lábios roxos quando Jack desceu as escadas e assustou-se ao encontrá-la passando mal. Olhou para ele desesperada e caiu no chão.

Continua

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