6 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXXII


Clara sonhou com Jack, mas quando finalmente acordou, no final da manhã, não se lembrava de nada. Apenas havia permanecido nela uma sensação de paz e felicidade.

Jack não estava mais deitado, mas havia fechado as cortinas do quarto para que ela pudesse dormir. Ela levantou-se, abriu as cortinas, viu que aquele era mais um dia de sol naquele verão especialmente abençoado de Londres.

E viu Jack sentado no terraço, com o CD player e um caderno nas mãos, fazendo anotações. Estava nu, como ela. Clara então vestiu uma de suas camisetas e foi até ele.

- Bom dia, meu amor. Já trabalhando? – perguntou Clara.

- Amor, bom dia! Sonhei com você a noite toda. – Jack disse erguendo-se e agarrando Clara. – Eu estava andando na montanha e tinha um montão de neve e te achei lá no meio das árvores, cuidando de um filhote de lobo que estava com a pata machucada. Depois você veio na minha direção, com aquele animal lindo no colo e nós voltamos para a nossa casa e passamos o resto do dia nos amando. Foi um dos melhores sonhos de toda a minha vida.

Os olhos de Clara se encheram de lágrimas, tinha sonhado a mesma coisa e o relato de Jack a fez lembrar-se.

- O que foi amor? Por que você está chorando? Foi alguma coisa que eu falei?

- Não, amor. Eu sou uma chorona boba. – disfarçou – Até eu estou cansada dessa choradeira.

- Ah, querida. Não se preocupe com isso. Eu também choro o tempo todo. – Jack disse acariciando os cabelos de Clara. – Estávamos lá, juntos, e estamos aqui e não tem nada no mundo que me afaste de você. Nada!

- Eu sei, amor. Só queria controlar mais isso. Voltar a ser uma pessoa normal, que às vezes chora vendo um filme, mas que passa dias e até meses sem chorar. Agora eu choro todos os dias.

- Não tem importância. Nós vamos ficar bem, estamos juntos de novo, você me aceitou de volta e agora é para sempre.

Clara apenas sorriu e beijou-o. Não queria que ele soubesse que novamente tiveram o mesmo sonho.

Jack pegou-a pela mão e subiu de volta para o quarto. Lá, ele tirou a camiseta que ela estava usando e começou a beijar todo o seu corpo. Aquela era uma doce rotina que a tirava do ar pelo tempo que durava. De novo ela estava nos braços do melhor amante que conheceu e neles sentia tanto prazer que achava que poderia enlouquecer.

Fizeram planos de passar o dia todo por lá, mas antes, pediram café da manhã para o serviço de quarto, comeram e voltaram para a cama. Jack pegou o CD player e tentou concentrar-se na letra da música, uma balada clássica com piano, de melodia delicada, arrepiante mesmo sem ainda ter uma letra.

Clara aproveitou que Jack estava trabalhando e pegou seu notebook. Era incrível o número de reações ao seu último post no blog. Parecia que o mundo inteiro queria comentar, cumprimentá-los e comemorar aquele capítulo tão importante na vida do "rei do rock e de sua princesa escritora", como alguns os chamavam.

- Hoje está difícil, já comecei a escrever essa letra umas dez vezes, mas nada está soando bem. Queria conseguir expressar o que estou sentindo agora, mas estou sem ideias.

- Espera, Jack. Solta esse caderninho e vem aqui. - Clara disse enquanto colocava o notebook no chão. - Roda a música de novo e vem mais pertinho, vamos ver o que a música diz para a gente... Isso... agora fecha os olhos, esvazia a mente e deixa as palavras fluírem.

A melodia era linda, mas as palavras não vinham. Seguiam o princípio da ansiedade, Clara já o tinha experimentado com alguns prazos para terminar seus livros. Quanto mais pressa ela tinha para entregar o manuscrito para a editora, mais as palavras necessárias para terminá-lo desapareciam de sua mente e maior era o esforço para encontrá-las.

Muitas vezes ela usava aquele exercício que havia proposto ao Jack. Deitava-se confortavelmente, fechava os olhos, colocava uma música para tocar e as palavras começavam a fluir vindas de algum lugar que ela desconhecia completamente.

E depois da música terminar e recomeçar mais algumas vezes, ainda de olhos fechados, Jack começou a tentar acompanhar a melodia com sua voz.

- Ela está aí, a letra, preciso achá-la.

- Não amor, você precisa sentir a melodia e ela vai te contar sobre o que a música quer falar. Fica bem quietinho agora, para ela vir até você.

"It was morning in the hills when I got there
And my love was hiding in the mist
I have wandered through the woods
but I couldn't find her anymore"

Clara não disse nada, mas sabia exatamente sobre o que ele falava.

- Opa, acho que já tenho alguma coisa aqui...

- Eu disse, amor. Você vai conseguir, relaxa e as palavras virão até você.

- Eu queria que outra coisa viesse até mim. Você...

- Ah Jack! Assim, você não vai conseguir escrever essa letra. - respondeu Clara enquanto Jack beijava seu pescoço e acariciava seus cabelos.

- Vou sim. Eu já sei sobre o que escrever, agora é fácil... Vamos comemorar! – disse Jack jogando caderno e caneta para cima e agarrando Clara.

Os dois já estavam na cama e apenas mergulharam um no outro, curtindo o momento, acariciando-se como se aquela fosse a única coisa que precisavam fazer naquele dia.

Foram tomar banho juntos e depois, com fome, pediram um almoço para o serviço de quarto. O celular tocou, era David perguntando se estava tudo bem e dizendo que estava indo para Londres e passaria no hotel para conversarem.

- O David vem aqui, amor. – disse Jack para Clara.

- Pergunta se a Cindy também vem. A gente podia ir jantar no francês da King’s Road.

- A Cindy vem com ele sim, o David marcou com o maestro da orquestra que vai gravar com a gente amanhã e vamos jantar no francês que vocês tanto amam.

- Ele já fez reserva? – perguntou Clara.

- A Cindy fez para as nove. – disse Jack. – Mas eles vêm para cá às sete para a gente poder conversar. Ok, Dave. Estaremos esperando.

- O que será que está havendo? – perguntou Jack para Clara com ar preocupado assim que desligou o telefone.

- Por que? Precisa estar havendo alguma coisa para nos reunirmos com nossos amigos? – perguntou Clara estranhando a preocupação de Jack.

- Olha, querida. Eu conheço muito bem o David e não gostei nada do tom desse “precisamos conversar” que ele usou no telefone. Aí tem alguma coisa bem estranha.

- Bom, só saberemos disso mais tarde. Por enquanto, vamos dar uma volta no parque? Respirar um pouco...

- Hum! Boa ideia, vamos lá, eu levo meu livro, você leva seu notebook e vamos nos recarregar no verde. Não é nossa montanha, mas estaremos juntos.

Os dois saíram, atravessaram a rua e foram para uma área do parque mais afastada, com muitas árvores. Sentaram-se sob uma árvore grande e apenas ficaram relaxando, Jack estava tenso e não conseguia concentrar-se no livro que tentava ler.

Clara o fez deitar-se com a cabeça em seu colo e apenas acariciava seus cabelos. Estava preocupada com o que David tinha para anunciar para eles à noite.

Jack acabou pegando no sono em seu colo e ela pegou o livro que estava em suas mãos e passou a lê-lo.

Histórias tristes, pessoas que passaram por coisas terríveis vivendo quase sempre a margem da sociedade e no entanto eram os mestres daquele estilo musical. Obras fantásticas nascendo de vidas turbulentas.

E aqueles eram os que ficaram registrados na história, quantos ainda teriam existido com obras geniais que se perderam para sempre no tempo? Quanto sofrimento para depois ver a vida terminando em ainda mais dor e abandono.

Ela se identificava com aquelas histórias trágicas e passava por sua cabeça o que ela faria na mesma situação que aquelas pessoas. Onde Jack estaria agora se David, um astro já consagrado da música não o tivesse chamado para integrar a Crossroads?

E ela? Onde ela estaria agora se Jonas nunca tivesse aparecido em sua vida? Provavelmente batendo de porta em porta, ainda colecionando aquelas horríveis cartas de recusa.

Tudo dependia também de sorte, aquele sopro de vento benéfico que repentinamente arrasta nossas vidas para onde elas deveriam estar. E daquele ponto em diante tudo passa a valer a pena. A luta para encontrar palavras, a incompreensão dos parentes e amigos com seu modo de vida, as noites sem dormir esperando por respostas e até mesmo as tais cartas e caras de desprezo recebidas ao longo da jornada.

Jack Noble, um dos maiores nomes da música, um rockstar adorado por milhões de pessoas no mundo inteiro estava ali, seu marido adormecido em seu colo. Será que seria assim se ela tivesse feito aquilo que seu pai a aconselhara fazer há alguns anos, quando decidiu deixar o seu emprego fixo para ter tempo para escrever seu primeiro livro?
Provavelmente continuaria naquela redação trabalhando como uma louca e de vez em quando sentiria falta de alguma coisa, mas não saberia exatamente do que. Certamente não iria nem conhecer Jack, quanto mais viver seu próprio conto de fadas.

Sua imaginação sempre ía longe e ela começou a sentir a horrível sensação da frustração que sentiria se cada uma das peças que mudaram seu destino não tivesse caído no lugar e na hora certa. Pegou um caderninho na bolsa e anotou aquelas ideias. As passaria para o notebook, talvez aquela fosse a semente para uma nova história que ainda escreveria.

Aliás, tinha muitas destas ideias anotadas. O processo criativo dela funcionava de uma forma peculiar: primeiro surgia uma ideia qualquer, uma cena, um personagem que ela guardava em um arquivo do notebook.

Quando a tal semente eclodia, ela começava a enxergar o resto da história, ou algum personagem passava a narrá-la. E normalmente ela não tinha a menor ideia do que aconteceria a seguir, todas as decisões dos rumos daquela história vinham dos personagens.

Fez o mesmo exercício de imaginação sobre a vida de Jack. Agora ela o via morando na América, em um trailer, apresentando-se como um artista itinerante em feiras e parques e vendendo camisetas e bijouterias feitas artesanalmente por ele mesmo. Um "velho hippie" frustrado, sentindo falta de algo que nunca existiu.

Que bom que os ventos da sorte ainda sopravam!

Jack acordou, pegou o caderninho das mãos de Clara e começou a anotar rapidamente, tinha sonhado com a letra para a balada e achava que agora estava completa.

- Viu? É só relaxar um pouco que as palavras aparecem.

- Estou no melhor lugar do mundo. No teu colo, por isso elas vieram.

- Quero te mimar e mimar e mimar...

- Eu não sei o que você viu em mim, menininha. Mas estou feliz porque você está aqui comigo.

- Eu também. Estava aqui pensando no que eu estaria fazendo agora se não tivesse batido o pé com minha família e insistido em escrever. Meu pai vivia me dizendo que eu morreria de fome.

- Pois é... eu também ouvi muito isso até fugir de casa com 16 anos. Será que os pais nunca entendem seus filhos?

- Você entende os seus?

- Eu sempre tentei fazer o meu melhor para eles. Dei a melhor educação que o dinheiro podia pagar, mas não sei, todos eles já me disseram que preferiam ter um pai normal. O que é um pai normal?

- Não sei. - respondeu Clara rindo. - Se for como o meu, quando eu estava crescendo, era alguém que nunca estava lá. Ele cobria futebol para um jornal e sempre tinha jogo, muitos fora da cidade e ele nunca estava por perto. Minha mãe tinha que fazer tudo e levar eu e meus irmãos junto com ela. Eu ia tanto à faculdade em que ela dava aula, quando pequena, que virei uma espécie de mascote do departamento de literatura.

- Não me admira que virou escritora.

- É, mas pelo meu pai eu seria mesmo uma bancária; ele sempre me dizia que escrever era perda de tempo. Quando entrei na faculdade de jornalismo, ele ficou um mês sem falar comigo.

- Eu passei três anos sem falar com meu pai. Só tive coragem de voltar à casa dele depois que a banda explodiu.

- Isso é tão triste. Por que será que eles não conseguem entender que somos pessoas diferentes, que podem e devem fazer escolhas diferentes e que são essas escolhas que fazem as nossas vidas.

- Eu sofri muito, mas acho que nunca tive uma sensação de vitória maior na vida do que no dia em que eu reencontrei meu pai. Comprei um carro esporte absurdamente caro e fui para casa, apresentar a Mary para ele.

- E a sua mãe e a Jane? Você não as via também?

- Não... As duas sempre davam um jeito de me encontrar e me ajudar. Sempre me apoiaram e foram até no meu casamento com a Mary. Estava tão feliz naquele dia.

- Você é um homem muito doce.

- A Mary não gostava disso. Acho que a imagem masculina que ela tinha era a dos irmãos e do pai dela e sempre ficava me cobrando uma postura de macho Neandertal.

- Mas eu adoro! Foi uma das coisas que mais me atraiu. Você não tem medo de demonstrar suas emoções, sempre tão transparente, tão lindo isso... - disse ela, sentindo as lágrimas acumulando-se em seus olhos.

- Você é adorável, menininha! - disse Jack levantando-se e beijando-a e deitando-se novamente em seu colo. - Mas já tive minha fase de Neandertal também.

- Isso é difícil de imaginar. Você parece estar sempre em contato com suas emoções. Quando isso aconteceu?

- Na estrada, no auge da banda. Eu estava rodeado por neandertais e fica difícil conviver neste tipo de ambiente sem criar uma "casca" também. Acho que nem preciso te dizer que foi desastroso, a "casca" não crescia e eu me defendia me anestesiando com as drogas. É claro que não tinha toda essa consciência na época e poderia ter me matado, mas sobrevivi e acabei voltando a poder ser eu mesmo.

- Você fez terapia?

- Fiz e ainda faço. Não te disse isso ainda, não é, menininha...

- Que bom! Fico feliz por você. Eu entrei em uma crise gigantesca quando meu relacionamento com meu ex-namorado terminou e minha mãe me levou a um terapeuta. Mas acabei me envolvendo com o terapeuta. Foi ele que me apresentou à Yoga e também a uma porção de estudos esotéricos.

- Sabia! Bruxinha!

- Não me considero bruxa, mas me interesso por esses assuntos, Tarô, viagem astral, estudei um pouco de tudo.

- Você sabe ler o Tarô?

- Sei... Você quer que eu leia para você?

- Quero! Queria aprender a ler também.

- Ok! Mas meu baralho ficou no Brasil. Vou comprar um aqui e lerei para você.

- Quanto mais eu te conheço, mais eu fico fascinado por você, menininha...

- Ai Jack! Tenho tanto medo disso...

- Do que, menininha?

- O meu terapeuta falava isso... de como eu sempre tento agradar todo mundo e às vezes entro em crise porque não consigo. Eu tenho medo de não ser tudo aquilo que você acha que eu sou.

- E quem é? Você acha que sou tudo isso que você pensa de mim?

- Não, Jack. Até agora, você tem se mostrado muito melhor do que eu achava que era. Você é um homem gentil, inteligente, acessível; acredito que se seus fãs soubessem como você é de verdade, eles iriam te amar ainda mais.

- Não sei. Tive tantos relacionamentos, mas a maioria das mulheres nunca mais quis me ver. Se eu fosse tão bom assim, você não acha que elas continuariam sendo minhas amigas?

- Não as conheço, mas imagino que elas tenham algum problema. – Clara sorriu e acariciou os cabelos de Jack. – Como alguém que te conhece pode não te adorar?

- Ai, meu amor... Você é muito generosa comigo. Não sou nem a metade disso tudo que você acha de mim. Mas você vai descobrir sozinha, como eu estou descobrindo quem você é. Vou lutar muito comigo mesmo para não te decepcionar.

- Eu também, meu amor. Você é meu melhor amigo e espero sempre poder conversar com você desse jeito, sem qualquer censura.

- Que horas são?

- São vinte para as cinco. Vamos ficar mais um pouquinho por aqui ou voltamos para casa para prepararmos-nos para a visita do David?

- Ah! Vamos descansar mais um pouquinho, depois vamos tomar um banho e nos vestimos para sair com o David.

- Ótimo! Então temos mais um tempo para ficarmos aqui, só curtindo a gente. Isso é tão bom...

- Bom demais, meu amor. Eu estou aqui no seu colo e só tem um outro lugar no mundo melhor do que seu colo. Dentro de você, meu amor.

- Você me faz queimar quando fala assim, sabia?

- Você me enlouquece, menininha. - disse Jack levantando-se e empurrando seu corpo contra o de Clara, pressionando-a contra a árvore.

Jack começou a fazer carinhos mais ousados e ela preocupada por estarem em um lugar público, podia ter algum paparazzi escondido entre as árvores e ela sussurrou em seu ouvido que aquilo era perigoso, alguém podia ver e seria mais seguro se voltassem para a suíte deles, onde estariam livres para fazerem o que quisessem.

Ele concordou e os dois voltaram para o hotel, entraram, subiram as escadas e foram direto para o banheiro. Tomaram um longo banho juntos, entregando-se aos seus desejos. Tudo indicava que a lua-de-mel continuaria ainda por muito tempo.

Secaram os cabelos um do outro e Jack ajudou-a a arrumá-los, amassando os cachos com as mãos, passaram hidratantes pelo corpo, um ritual de beleza completo. Estavam tão mergulhados um no outro que nem se preocupavam mais com a visita de David, ou com todo o trabalho que teriam pela frente.

Como de hábito, Clara escolheu as roupas dos dois. Mas Jack, desta vez, fez questão que ela usasse um vestido preto decotado que ele havia comprado para ela em Paris. Disse que queria mostrar aos fotógrafos que viviam na porta daquele restaurante o quanto sua princesa era linda.

Ela apenas sorriu e foi buscar o vestido na mala. Colocou os brincos e o bracelete de diamantes.

Jack colocou um novo terno todo preto, uma camisa preta e uma gravata roxa, que Clara havia escolhido para ele em Paris.

E os dois sentiam-se especialmente atraentes naquela noite. Perfumaram-se e ficaram esperando a chegada de seus amigos.

- Velhão! Quanta elegância! A princesa te colocou mesmo nos trilhos! Princesa Clara, bom trabalho!

- Olá David. – respondeu Clara rindo. – Como vai?

- Estou ótimo, e você? – respondeu em português para ela, beijando sua mão.

- Estou bem também. Mas vamos falar em inglês para que meu querido marido não se irrite à toa. – disse Clara rapidamente quando percebeu Jack aproximando-se de David.

- Oi noivinha! – disse Cindy. – Já está com saudades do casamento, aposto.

- Sim, querida. Liguei para o fotógrafo e ele me disse para ir amanhã ao estúdio para escolher as fotos, você vai comigo não?

- Claro! Mas não seria mais apropriado o Jack ir?

- Ele não quer. Disse que o que eu escolher está escolhido. Mas tenho outra ideia. Vou mandar montar o álbum com as mais bonitas e vou querer que ele copie mais algumas nem tão bonitas assim e também vou querer algumas para espalhar em porta-retratos em nossa casa.

- Não quero ficar vendo minha cara velha em todos os lugares em que eu olhar, menininha. - disse Jack rindo.

- Desconfio que você não terá muita escolha nesse caso, velhão. - riu David. - A princesa sabe o que quer...

- Alguém quer uísque? - disse Jack, pegando a garrafa e os copos para servir.

- Velhão, vem aqui, tem uma coisa que eu preciso falar com você. É sobre o Michael...

- O Peters? O que aquele advogado de porta de cadeia aprontou desta vez?

- Não, velhão. É sobre o Silver. Ele foi para Paris, atrás da mulher dele hoje e me pediu um tempo para voltar a gravar o disco. - respondeu David. - O casamento dele está em crise e bom, você sabe como são essas coisas, não?

- Sei... putz! Isso vai explodir nossa agenda. Você falou com o Michael Peters?

- Ele já sabe. Liguei para ele assim que o Mike me contou o que estava acontecendo hoje de manhã e em seguida foi para o aeroporto embarcar para Paris atrás da Jennifer.

- E o que ele disse? - perguntou Jack.

- Disse que acha melhor esperar por ele e voltar para o estúdio só na semana que vem e também disse que a gente pode ficar em Heathcliff Hall fazendo mais pré-produção, o que eu acho uma bobagem, ou tirar esta semana para fazer outras coisas. Ele sugeriu que vocês aproveitem para trabalhar no livro ou na reforma da casa de vocês. Enfim... pode ser providencial essa uma semana.

Jack olhou para Clara e de volta para David. - Se é assim... que tal princesa? Vamos resolver nossas coisas?

- Por mim, perfeito. Amanhã vou ao fotógrafo com a Cindy e se ela estiver livre vamos ao escritório dela assinar os papéis para liberar a reforma e depois vou fazer algumas entrevistas para a imprensa brasileira e daí, estamos livres para irmos para casa.

- O orçamento da reforma já está pronto. Preciso mostrar os projetos para vocês e já tinha planejado de fazer isso amanhã. Da minha parte está tudo ok. Com os projetos aprovados, posso colocar a equipe lá amanhã mesmo.

- Ótimo. - disse Clara. - Então fazemos isso. Deixamos as malas prontas e viajamos amanhã mesmo para casa.

- Tudo decidido então! Estou estranhando o Michael. Por que ele não me disse nada no estúdio? Nem no pub...

- Ele sempre foi meio estranho, velhão... Vai ver achou que ia resolver tudo com a mulher por telefone. - respondeu David. - Mas as coisas estão complicadas há um tempo entre eles e agora ela simplesmente voltou para o apartamento de Paris e mandou o advogado falar com ele.

Clara percebeu que Jack estava um pouco agitado agora e fez por ele a pergunta que ele parecia temer, mas que precisava ser feita: - E se o Michael não voltar mais? Quero dizer, se ele desistir do projeto?

- Não, conversei bastante com ele sobre isso e ele só precisa mesmo de um tempo para trazer a "patroa" de volta para casa. Isso não passa pela cabeça dele, princesa. Fica tranquila. - disse sorrindo.

Clara apertou a mão de Jack e os dois se entenderam apenas no olhar. Jack beijou-a no rosto e sussurrou um agradecimento em seu ouvido.

Com as maiores preocupações vencidas, a noite agora passava a ser de prazer e os quatro decidiram continuar a conversa no terraço para aproveitar a brisa leve que soprava avisando que dentro de algumas horas choveria em Londres.

Jack mostrou a letra que escreveu para a balada e também o livro sobre blues que ganhou de aniversário de Clara e logo chegou a hora de irem ao restaurante jantar com o maestro Jan Godran, regente da London Orchestra, que gravaria com a banda assim que retornassem ao estúdio.

Como sempre, a chegada ao "Chez Montagne" foi tumultuada pelos fotógrafos, mas todos estavam suficientemente calmos para enfrentar aquilo com elegância.

A noite foi muito agradável e Jack, se não estava exatamente relaxado como à tarde, ao menos parecia estar tentando reorganizar-se para reagir sem maiores dramas ao que estava acontecendo.

Ela, por sua vez, pensava nos próximos passos para retomar o trabalho com Jack no livro. Afinal era esse o objetivo original de sua viagem e certamente o que menos havia tomado seu tempo até agora, mas sozinhos, na casa de campo, os dois poderiam concentrar-se na tarefa e fazê-la avançar.

No final da noite, eles se despediram no restaurante e já no hotel, Jack e Clara prepararam as malas para ir para casa. Clara ainda ligou para Jonas, era preciso adiantar para o mais cedo possível as quatro entrevistas marcadas e recebeu dele um ok. Seriam feitas em uma das salas de reunião do hotel, a partir das duas da tarde.
Duas emissoras de TV, uma revista semanal e um jornal. Charles Hutton a acompanharia, como assessor se imprensa, uma cortesia de Michael Peters que andava cheio de gentilezas com ela desde o casamento.

O dia seguinte começou cedo; Clara e Jack reuniram-se com Cindy em seu escritório de Londres onde foram apresentados a todos os detalhes dos planos da reforma de sua casa. Se tudo corresse dentro do planejamento, a obra terminaria em no máximo um mês quando a casa passaria para as mãos do paisagista, que cuidaria dos jardins e do decorador que teria seu trabalho acompanhado de perto por Clara e Cindy.

Jack disse que não ia, mas acabou acompanhando as duas no estúdio do fotógrafo. Lá escolheram as fotos para o álbum que seria entregue em três semanas, no hotel. Conforme havia planejado, Clara pediu mais algumas fotos para colocar em porta-retratos pela casa.

Sua favorita era uma em que dançava com Jack, na pista. Mandou colocá-la no álbum e pediu mais duas cópias, queria mandar algumas daquelas fotos para seus pais, no Brasil.

Logo, o segundo compromisso do dia já estava cumprido e eles convidaram Cindy para almoçar com eles no hotel. Tudo dentro dos horários planejados, o dia estava correndo perfeitamente bem e enquanto Jack fazia o check-out e cuidava do embarque da bagagem, Clara se despedia de Cindy e esperava pela chegada de Charles Hutton que cuidaria dos profissionais de imprensa brasileiros que a entrevistariam.

Quando Hutton chegou, ela desceu com ele até a sala de reunião do hotel e ficou aguardando em uma sala anexa pela montagem dos equipamentos da TV.

O primeiro dos jornalistas trabalhava na principal emissora de TV do país e foi bastante antipático com Hutton reclamando do trânsito e das mudanças de última hora na agenda de entrevistas.

Clara entrou na sala pedindo desculpas, dizendo que tinha surgido uma viagem marcada para aquele dia e teve que ajustar tudo no último instante e acabou ganhando a simpatia do repórter.

A entrevista foi rápida. Ela contou novamente a mesma mentira sobre o momento em que conheceu Jack Noble, no saguão de um hotel em Nova York e poucos dias depois já estava de casamento marcado com ele.

Depois ele perguntou sobre o show em Paris e o quanto ela se sentia responsável pela volta da banda Crossroads para o cenário musical e ela respondeu apenas que Jack exagerava essa responsabilidade. Que aquele retorno talvez tivesse acontecido de qualquer forma.

Mas o repórter disse que em todos os shows Jack sempre dizia que fez a nova música “Unexpectedly” para ela, então ficava muito difícil imaginar aquela volta sem ela. Ela apenas sorriu e disse que foi uma coincidência feliz e que uma noite estavam jantando juntos e caiu uma grande tempestade e o hotel ficou sem luz. Então Jack e David pegaram violões e começaram a brincar para passar o tempo, sob a luz de velas e de repente, eles já tinham a música pronta.

- Então, se não tivesse faltado luz, a Crossroads não estaria gravando um disco agora? – perguntou espantado o repórter.

- Acho que não. Os fãs têm muito a agradecer a um raio, durante uma tempestade londrina. – riu Clara.

- E os seus planos profissionais? Você continua trabalhando como escritora?

- Sim, estou esperando as coisas entrarem um pouco na rotina para sentar com o computador e escrever um novo livro da minha série sobre as minhas músicas favoritas.

- E o Brasil? Está nos planos do casal?

- Ainda vai demorar um pouco, mas a Crossroads incluirá o Brasil na turnê mundial. Já estou avisando aos fãs que se preparem porque os shows serão arrasadores.

As luzes se apagaram, o repórter agradeceu a entrevista e pediu que ela autografasse um de seus livros. Ela então voltou para a sala anexa para esperar pela próxima equipe de TV. Já estava estressada, teve que falar da Crossroads o tempo todo e isso a desgastava. Jack deixou-a livre para dizer o que quisesse sobre a banda, mesmo assim ela não se sentia a vontade.

Enquanto a equipe montava seu equipamento para a gravação, Jack entrou na sala, cumprimentou todos e foi até a sala de apoio onde Clara esperava Hutton chamá-la para a segunda entrevista.

- Amor! Que bom que você veio me ver... – disse Clara. – Você sabe que eu detesto fazer essas coisas...

- Eu sei, amor. Não se preocupa que vai dar tudo certo. Pensa que vai acabar logo.

Charles entrou na sala e chamou-a para cumprimentar o repórter da segunda emissora, outro programa dominical havia mandado um repórter para falar com ela.

- Eu já volto amor...

- Posso assistir? – perguntou Jack. – O que você acha Charles?

- Por mim tudo bem, se a Clara não se importar... – disse Charles.

- Vem amor, eles estão esperando... – disse Clara puxando Jack pela mão.

Ela cumprimentou a equipe e sentou-se na cadeira para colocar o microfone. Jack ficou no canto, ao lado da produtora do programa.

Depois de uma breve descrição sobre a escritora, vieram quase as mesmas perguntas com poucas variações.

- Como é ter se casado de um minuto para outro com um dos maiores rockstars da história?

- Eu não me casei com um rockstar. Me casei com um homem inteligente, bonito e carinhoso que por acaso é um músico famoso.

- Mas ele é um rockstar, não?

- É! Mas se ele fosse só isso, nunca estaríamos juntos.

- Uma coisa muito comentada de seu casamento, além da beleza e do bom gosto da cerimônia, foi o fato de que vocês terminaram os votos com as mesmas palavras. É verdade que isso não foi combinado?

- É! A tradição do casamento aqui é diferente, o noivo e a noiva escrevem um texto, que podia dizer como nos conhecemos, ou ser uma declaração de amor ou ainda alguma coisa que nós gostaríamos de dizer um para o outro. O mais importante era que um não soubesse o que o outro diria e por outra destas coincidências que acontecem com a gente o tempo todo, os dois terminaram o texto com as mesmas palavras: “Infinitamente e para sempre.”

- Você está trabalhando em um novo livro, agora?

- No momento não porque as coisas estão ainda agitadas demais, mas assim que se acalmarem, volto a escrever.

Novamente o apagar das luzes, uma conversa rápida, pedidos de autógrafos e a saída dos dois para a sala anexa. As próximas entrevistas não seriam para a TV e por isso, eram mais fáceis.

Jack perguntou sobre o que os repórteres estavam falando e ela disse que era sobre o casamento, os planos dela, da banda, de shows no Brasil.

- Tranquilo, Menininha, só mais um pouquinho e estamos fora... Vamos para casa! – disse beijando Clara.

- Vai ser ótimo! Vamos ter um pouquinho de paz nesta semana.

- Clara – chamou Charles. – a próxima entrevista é com Ana Meireles da revista... hum, não sei pronunciar isso aqui...

- Não tem problema, Charles... - sorriu Clara. - Eu sei quem é... Você vem Jack?

- Vou sim, amor...

A entrevista foi um pouco mais longa, mas a repórter parecia perder a concentração pela simples presença de Jack na sala.

Sem uma câmera por perto, Clara estava bem mais relaxada e sorria muito mais. Além disso, respondia as perguntas e ainda tinha tempo para olhar para Jack, sentado no canto da sala, olhando para ela atento, talvez tentando compreender algo do que ela dizia.

No final, a repórter pediu a Charles que batesse uma foto dela entre os dois e foi embora feliz da vida depois de ganhar um beijo no rosto de Jack.

- Acabou Charles?

- Não, tem mais este repórter aqui... não sei dizer os nomes dos jornais do seu país. Mas o nome do repórter é Roberto Junqueira.

- O que? Tem certeza? Deixa eu ver esse papel...

- O que foi? Alguma coisa errada?

- Nada Charles, vou voltar para a sala de apoio então, vai chamar ele que eu quero acabar logo com tudo isso.

Clara começou a tremer e Jack percebeu que ela agora estava nervosa. – O que houve amor?

- Bom, Jack, o próximo repórter é aquele meu ex-namorado, com quem morei por três anos, esse é o problema. O Jonas me paga! Ele sabia que esse cara me odeia e provavelmente veio até aqui só para me provocar...

- Calma, amor, respira, relaxa e não se preocupa porque vou estar lá segurando sua mão e se ele fizer alguma grosseria para você, eu quebro ele.

- Não Jack! Por favor, tenta ficar tranquilo, que eu vou ficar bem.

- Vem aqui, menininha! A gente vai acabar com esse cara.

- Pronta Clara? – perguntou Charles.

- Só uma coisa Charles, vem aqui, quem marcou essa entrevista foi o Jonas?

- Foi. Mas mudou o nome do repórter quando ligamos remarcando o horário, por que?

- Nada, Charles. Então está explicado. Tudo bem. Vamos amor?

Os dois entraram abraçados na sala. Clara estendeu a mão para Roberto como se não o conhecesse e Jack também o cumprimentou, sentando-se novamente no canto da sala, mas ainda mais atento com o que acontecia na entrevista.

- Hum, fingindo que não me conhece. – disse Roberto cínico. – Muito bem, senhora Noble. Parabéns pela interpretação!

- Pelo contrário, Roberto. Meu marido sabe tudo sobre você e acabou de me dizer dentro daquela sala em que nós estávamos que vai te encher de porrada na primeira grosseria. – disse Clara sorrindo para dar a impressão a Jack de que estava tudo bem. - E se você tem perguntas, sugiro que faça logo porque não tenho tempo para suas bobagens, ok?

- Então vamos lá! Por que esse casamento tão apressado?

- E porque não? Nos encontramos por acaso em Nova York. Nos apaixonamos assim que nos vimos e estamos juntos desde então.

- Mas você sempre foi fã da banda.

- E isso quer dizer?

- Não seria o sonho dourado da fã que o ídolo se apaixone por ela?

- Talvez seja, mas não era o meu sonho.

- Mas você agora está vivendo o sonho de toda fã e toda groupie.

- Eu estou vivendo um sonho. O meu sonho! Estou convivendo com o homem que eu amo e isso é maravilhoso.

- Mas já existem comentários de que o relacionamento de vocês foi uma boa desculpa para seu marido voltar para uma banda que ele negava há 30 anos.

- Bobagem. Sabe, depois de algum tempo você percebe que não importa o que você diga ou faça não é possível agradar todos e sempre vem pedrada quando somos vidraça. O Jack tem mais de 40 anos de carreira e não precisa da aprovação, nem da autorização de ninguém para fazer o que bem entender.

- Mas a oferta de um bilhão de libras por um disco e uma turnê não poderia ser a melhor razão de todas?

- Quem conhece o Jack sabe que ele não liga para dinheiro. Então isso também é uma bobagem. E sim, um bilhão de libras é dinheiro demais para qualquer coisa e é certamente um valor inventado para fazer sensacionalismo.

- E já que falamos em dinheiro, é verdade que você foi obrigada a assinar um contrato pré-nupcial?

- Obrigada? Não, ninguém me obriga a nada. Assinei porque achei justo. Não me casei por dinheiro, então não me importei de colocar isso no papel.

- Mas você já está lucrando muito com esse casamento. Não está?

- Soube que meus livros estão vendendo muito mais, mas não sei se isto é lucrar

- Não só os atuais como os futuros. Você já sinalizou no seu blog que passará a assinar o sobrenome dele para aproveitar-se....

- Isso é ridículo, mas não me importo de explicar. O que escrevi no blog foi motivado por ter visto online pela primeira vez uma foto do nosso casamento e naquele momento, tomar consciência que tudo estava mudando, até meu nome. Que mudou mesmo, legalmente falando. Neste momento meus novos documentos estão sendo emitidos, vou retirá-los na próxima semana.

- Mas um sobrenome conhecido como Noble vai ajudar muito a vender livros...

- Discos talvez, Para vender mais livros eu acho que o correto seria mudar meu sobrenome para Coelho.

Charles fez um sinal discreto para Roberto indicando que seu tempo estava terminando e que só poderia fazer mais uma pergunta.

- Como os filhos de Jack Noble a receberam na família, você sabe que é mais jovem do que eles?

- Muito bem. Na verdade só me pediram que eu cuidasse bem do pai deles e é isso que estou fazendo. – disse Clara erguendo-se e sinalizando para Jack. – Tchau Roberto, meu assessor vai te guiar até a saída do hotel.

- Ok, então tchau! Nada como o poder do dinheiro, não é?

- Não, Roberto. Nada como amar e ser amado! – disse ela quando Jack aproximou-se, abraçou-a e beijou-a. – Você deveria tentar só uma vez. Eu recomendo!

Continua

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