5 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXXI


Os dois então tomaram banho juntos e Jack ligou para seu assistente Lambert pedindo que providenciasse a entrega das malas que ficaram sob sua responsabilidade e também para trazer o jipe de volta para a cidade porque precisariam do carro.

A seguir, ligou para David, confirmando as gravações para o final da tarde.

Clara também pegou seu celular, ligou para sua família, para Jonas e por último para Cindy, deitando-se novamente na cama, porque ficariam conversando por horas.

Contou tudo o que aconteceu em Paris e disse que estava preocupada porque Mick Jagger tinha dado um jeito de aparecer até em sua lua-de-mel e começado a rondá-la novamente, com aquela proposta de adaptação de seu livro para o cinema.

- Cuidado... o Jack é ciumento e isso pode ser um problema para você.

- Ele vai vir me procurar nesta semana para combinarmos como eu vou acompanhar a adaptação do roteiro.

- Dá um jeito de fazer isso na frente do Jack. Assim fica tudo bem. – aconselhou Cindy. – Ah! E aquela história de sonho de vocês, que loucura isso! O David me contou e eu fiquei absolutamente espantada!

- Você não sabe como nós dois ficamos. Foi assustador, mas faz todo sentido do mundo. E sabe de uma coisa? Aquele lugar em que eles viviam é exatamente na floresta que fica do lado da casa de campo do Jack.

- De vocês

- Como?

- A casa de campo agora é de vocês dois, lembra? Vocês casaram... - disse Cindy rindo.

- É... Mas eu vi perfeitamente como era aquele lugar onde a casa foi construída. Já existia até aquela clareira grande toda roxa, que dá para ver do terraço do quarto, que é um grande campo de lavandas. E também os lobos. Tinha uma porção de lobos que visitavam sempre a nossa casa e eram nossos amigos. Aqueles animais enormes, lindos, agiam como cãezinhos perto de nós.

- Que loucura! Como eu te disse é assustador que isso tenha mesmo acontecido. Não sou a pessoa mais crédula do mundo, acho que para tudo sempre existe uma explicação lógica, mas acho que no caso de vocês, não tem nada lógico que explique isso a não ser que vocês estavam lá e viveram tudo aquilo.

- Também sou um pouco assim, Cindy. Eu sempre fui mais para cética do que para mística e esta história me intriga de uma forma que está muito além de qualquer compreensão que eu poderia ter. O Jack me disse que nós precisamos vivenciar essa coisa e não necessariamente entendê-la e eu acho que ele está certo.

- Ele tem razão. Foi a mesma coisa que o David me disse quando o Jack contou para ele. Aliás, ele está esperando ansiosamente uma chance de conversar com você. Você vai ao estúdio hoje, não é?

- Vou! O Jack me quer lá. E para dizer a verdade, meu lado fã está ansioso por isso. Aquele lugar para mim é uma lenda e eu tenho a sensação de que estarei presenciando um momento histórico hoje.

- Vou tentar ir com o Dave hoje e a gente vai poder conversar melhor pessoalmente.

- Eu queria que você fosse. É aniversário do Jack e eu queria comemorar, nem que fosse com bolo e uma taça de champagne. O que você acha?

- Perfeito! Acho que assim, o Dave vai aceitar que eu vá...

- E a Jennifer, será que ela não pode ir também?

- Ela está em Paris, foi ao desfile de um estilista amigo dela.

- Ah! Que pena! O que você acha? Vamos tentar trazê-lo para cá, ou comemoramos por lá mesmo?

- Ih, amiga. Acho que se deixarmos para depois do estúdio, o bolo só vai ser servido no café da manhã.

- É, acho que você tem razão. Eles só vão sair do estúdio de madrugada, se saírem, então é melhor mandar entregar bolo e champagne no estúdio. Vamos nos divertir bastante por lá, tenho certeza. Agora vou ver onde anda meu marido, daqui a pouco a gente conversa mais, beijos, querida.

- Beijos, até daqui a pouco.

- Até...

Clara levantou-se e desceu as escadas à procura de Jack. Encontrou-o na piscina interna, havia deixado as roupas na sala de estar e mergulhado nu.

Vendo-o da escada, Clara entendeu que ele já estava começando a concentrar-se para a gravação que faria em poucas horas.

Atendeu o celular, era Lambert chegando com a bagagem e ele o mandou subir. Clara atendeu-o na porta e a bagagem foi trazida por ele e por um mensageiro do hotel, para dentro da suíte.

Jack os despachou rapidamente e Clara pegou seu notebook, ligou-o na parede e passou a checar seus e-mails e tudo o que foi publicado na rede sobre o casamento incluindo os tais boatos de que estavam passando a lua-de-mel na casa da montanha.

Só naquele momento estava vendo direito as fotos do casamento e também aproveitou para descarregar as fotos da lua-de-mel.

Colocou no fundo da tela do notebook uma das fotos do casamento, estavam juntos, no altar, na frente de David. Ficou olhando para ela mesma segurando as mãos de Jack, lembrou que estava tão feliz naquele instante que chegou a ter medo de sair voando.

Pegou seu anel de noivado dentro da bolsa e colocou-o novamente no dedo por cima da aliança. Estava com saudades dele, os olhos de Jack em seu dedo, para lembrá-la daquela paixão avassaladora que tinha por ele.

Jack tinha nadado para a porção externa da piscina e agora, ela o via pela parede de vidro, saindo da água e deitando-se na cadeira.

Achou melhor deixá-lo descansar e preparar-se para o que estava para acontecer ainda naquele dia, então decidiu escrever um texto para seu blog sobre o seu casamento e publicar junto com uma das fotos.

“Estou compartilhando com meus leitores o momento mais feliz da minha vida, quando eu e meu amado Jack juramos na frente de nossas famílias e amigos que estaremos juntos pelo resto de nossas vidas.”

“Estamos de volta à nossa casa e hoje começa uma nova etapa. O Jack começa a gravar seu novo disco com a Crossroads e como fã da música deles sinto uma ansiedade louca de ouvi-los tocando novamente.”

“Ainda mais hoje, que é aniversário dele, quero que ele ganhe de presente essa nova etapa de sua vida, de musicalidade abundante e amor infinito.”

"Aniversários são como placas em uma estrada, marcos que servem apenas como informação sobre onde estamos, mas pelo que sei de Jack, além de toda a milhagem percorrida que o levou até onde está agora, existe uma estrada cheia de luz, com o mais lindo dos horizontes brilhando a sua frente.”

PS: Ainda não conversei com meus editores, mas sinto que pelo menos aqui já posso mudar minha assinatura de Clara Oberhan, para Clara O. Noble. O que vocês acham? Esse nome combina comigo?

Depois de fazer a postagem, Clara passou a pesquisar na rede por boas confeitarias que podiam entregar no estúdio um bom bolo de aniversário, queria que fosse de chocolate, na verdade tinha um bolo floresta negra em mente, mas não sabia se encontraria alguma coisa parecida ali na Inglaterra.

Com o bolo encomendado, faltava agora um bom presente de aniversário para Jack. E depois de pensar muito decidiu arrumar-se e sair para procurar nas lojas das proximidades do hotel por um presente para ele.

Vestiu uma calça jeans, botas de cano alto e uma camiseta, pegou sua bolsa e avisou a Jack que sairia um pouco para dar uma volta e que quando retornasse, ela pediria um almoço ao serviço de quarto.

Colocou os óculos de sol ainda no elevador e saiu rapidamente do hotel. Subiu a rua, entrou na rua de sua casa com Jack e seguiu até a rua de trás. Queria encontrar alguma coisa que fosse bonita e que estivesse sempre com ele.

Em uma grande livraria, encontrou um livro recém lançado, que contava a história do Blues e de seus grandes mestres. Tinhas fotos lindas daqueles homens que Jack amava tanto. Lembrou-se da empolgação com que ele sempre contava suas histórias sobre suas viagens para New Orleans e decidiu comprá-lo. Pediu que embrulhassem o livro para presente e encontrou um cartão lindo com uma foto de um campo de lavandas.

Enquanto estava na fila do caixa viu uma foto de seu casamento na capa de uma revista de fofocas e decidiu comprá-la também, podia usar a revista como desculpa para voltar para o hotel com uma sacola, embora soubesse que Jack ainda estaria no terraço, abandonado na cadeira e que ela poderia esconder a sacola em algum armário antes dele sequer perceber sua chegada.

Quando caminhava pela rua de sua nova casa, seu celular tocou, era Jane, querendo falar com Jack.

- Olá querida, como você está? Já voltaram para Londres?

- Oi Jane, já voltamos sim.

- Fizeram uma boa viagem?

- Maravilhosa! Estamos novamente no Four Seasons. E com você, está tudo bem?

- Sim querida. Estou tentando ligar para meu irmão e não estou conseguindo, o celular dele deve estar desligado. Queria apenas cumprimentá-lo pelo aniversário.

- Ah Jane! O celular deve mesmo estar desligado. Você sabe que ele não gosta de telefones. É que hoje, ele vai gravar no Abbey Road e no momento, ele está estendido na cadeira do terraço pensando na vida.

- Sei. Mas esse meu irmão é terrível. A Mary e a Kate me ligaram também dizendo que estão tentando falar com ele desde cedo e ele desliga o celular... Querida fala para ele ao menos falar com as pessoas que o amam. Você está perto dele?

- Não, eu saí para comprar um presente de aniversário para ele, mas já estou voltando para o hotel. Assim que chegar lá, vou pedir para ele te ligar.

Clara desligou o telefone quando já estava na porta do hotel, entrou e quando o gerente percebeu sua chegada, chamou-a para vir até o balcão.

- Senhora Peters, temos aqui alguns presentes para o senhor Peters, acredito que é seu aniversário hoje, não?

- Sim, é.

- Apresente a ele nossos cumprimentos pela data.

- Obrigada.

- Estão aqui, vou pedir que o mensageiro os leve lá para cima para a senhora.

- Ok. Obrigada. São estas flores?

- Sim, e mais algumas caixas, ali.

- Ok. Eu levaria para cima, mas parece que tem muita coisa. É melhor o mensageiro levar mesmo. Obrigada senhor Reynolds.

Clara subiu, abriu a porta da suíte e pediu que o mensageiro deixasse os presentes na sala de estar.

Quando ele saiu da suíte, Clara subiu com sua bolsa, colocou a sacola no armário do escritório e desceu as escadas, Jack continuava no terraço, imóvel, com uma toalha sobre o corpo.

- Jack...

- Oi amor. Já passeou?

- Sim e tomei uma bronca de sua irmã. Ela tentou te ligar e seu celular está desligado.

- É verdade. Não queria falar com ninguém. Só com você!

- Que lindinho! Mas liga seu celular e fala com as pessoas que te amam. Por favor... – disse Clara rindo. - Ah! E tem outra coisa; o gerente do hotel me entregou uma porção de pacotes de presentes, estão ali na sala de estar.

- Pode olhar para mim?

- São presentes para você, amor. Não acho apropriado...

- Você é um pedaço de mim, amor. Não tem nada mais apropriado.

- Ok! E tem também uma outra coisa...

- O que?

- Vai se vestir que eu vou pedir o almoço para o serviço de quarto. Já são duas da tarde e eu estou ficando zonza de fome.

- Isso eu posso fazer! Pede aquele roast beef que eles serviram na semana passada, com purê de batatas e um vinho. Pode ser?

- Claro. Quer alguma sobremesa?

- Hum... Pede morangos com creme... estou com saudades dos nossos morangos.

- Vou lá pedir. Sério, Jack. Vai se vestir, por favor.

- Não gosta de mim assim?

- Pelo contrário, gosto demais. – disse beijando-o. – Mas você me tira a concentração quando anda assim por aí.

- Ah! E não esquece de ligar para as pessoas que te amam.

Clara pediu o almoço enquanto Jack entrava na sala de estar e vestia suas roupas. Depois, enquanto esperava, Clara passou a examinar os presentes de aniversário. Uma elegante caixa de chocolates que tinha um cartãozinho de Michael Peters e uma outra, também elegante, mas em formato de coração e com bombons também neste formato, com um cartão assinado por Linda Monsoon.

Depois ela olhou os outros pacotes, um trazia uma bonita caneca com uma foto do casamento impressa que veio de John Burke, webmaster de Jack, que ela adorou.

E também um outro pacote, que parecia conter um disco de vinil, com um cartãozinho assinado por David Mersey que ela preferiu entregar para Jack abrir.

- Olha amor, esse aqui é do David, vem abrir, vem...

- Hum... um disco do Dave? Opa! Esse eu abro, traz aqui amor. – Disse ele levantando-se do sofá.

- E estas rosas? Quem me mandou rosas, meu Deus?

- Vou ver o cartão... Ai Jack, é do Mick Jagger. Para mim.

- Esse cara só vai sossegar quando eu quebrar a cara dele, não é?

- Não liga que é pior. Olha o cartão: “Querida Clara, bem vinda de volta a Londres. Os negócios em Nice estão bem mais complicados do que eu imaginava e só poderei encontrar-me com você na próxima semana. Desculpe-me e dê meus parabéns ao seu marido pelo aniversário.”

- Ok.. Mas deixa minha mulher em paz, seu canalha. – respondeu Jack, enquanto desembrulhava o presente mandado por David.

- Olha só isso aqui, amor! Vou ligar para o David agora... aquele tratante.

- O que foi, querido? Que disco é esse?

- É uma raridade, um disco do Howlin’ Wolf que eu procuro há anos. Olha isso aqui, querida.

Na capa, um desenho de um lobo uivando, deixou Clara um pouco aflita.

- Olha amor, o cartão: “Velhão! Depois de ter sido “abatido” pela menor lenhadora do mundo e de agora estar ficando ainda mais velho, você precisa de alguma compensação. Achei esse Howlin’ Wolf na semana passada e sabia que era seu. Parabéns, cara! Te amamos! Dave e Cindy.”

Clara apenas sorriu diante da expressão de alegria que tomava conta do rosto de Jack agora.

- Hum! E aquela orquídea, ali? Quem será que mandou? – apontou Clara para um belo vaso de orquídeas, que tinha um laço dourado ao redor. – Espera, tem um cartãozinho aqui: “Feliz aniversário, meu amor. A.”

- A? – perguntou Clara. – Quem é A?

- Ann Kurtiss. Uma moça com quem gravei um disco há alguns anos e com quem saí por algum tempo.

- Hum... E ela não sabe que você casou?

- Não sei. Ela sempre foi meio maluca. Mora em Nashville e só pensa na carreira... Mas não liga para ela, eu não ligo.

Clara respirou fundo, mas percebeu que tinha sinceridade no que ele dizia e resolveu deixar para lá.

O mordomo, um garçom e uma copeira chegaram à suíte e os dois subiram para a sala de jantar e almoçaram.

Depois do almoço, Clara chamou a copeira e deu a ela o vaso com orquídeas que Jack tinha ganho de aniversário. Jack riu e disse que tinha gostado muito daquela demonstração de ciúmes dela.

Jack ligou o celular e telefonou para todas as pessoas que deixaram recados. E também para David, para agradecer o presente, um disco que Jack procurava desde a década de 80.

- Cara! Não acredito que você conseguiu essa maravilha! Não vejo a hora de chegar em casa para ouvi-lo.

- Aproveita, velhão! Como eu escrevi no cartão, depois que a Clara te fez descer o rio junto com os outros troncos e de ter ficado mais velho, você precisa de um refresco na vida... Falando na Clara, ela está por aí?

- Está. O que você quer com ela?

- Não vou cantar ela, velhão. Mas preciso falar com ela. Passa logo o fone...

- O Dave quer falar com você.

- Oi Dave. O que foi?

- Você vai fazer uma festa surpresa para o Jack hoje no estúdio?

- Sim, a Cindy não te disse?

- Mas já está tudo providenciado?

- Sim.

- Ele está do seu lado, não é?

- Está.

- A Cindy pediu para perguntar se precisamos levar mais alguma coisa.

- Não, já está tudo certo. Diz para a Cindy que vou ligar para ela daqui a pouco. Beijos, Dave. A gente conversa mais tarde.

- O que ele queria?

- Confirmar que eu vou ao estúdio hoje.

- Então estamos falados. Quer chocolate? – perguntou Jack abrindo uma das caixas de bombons, pegando um e oferecendo à Clara.

- Obrigada, amor.

Clara estava aflita para falar com Cindy. Queria pedir para ela que levasse taças de champagne. Havia encomendado bolo e algumas garrafas de champagne, mas não sabia se encontraria no estúdio taças, pratos e talheres para servir. Repentinamente lembrou-se que poderia buscar a revista que havia comprado para mostrar para Jack e foi até o escritório buscá-la.

- Ah! Jack.. tem fotos do nosso casamento em uma revista. Deixei lá em cima, vou buscar para você ver.

Ela subiu correndo, pegou a revista e ligou para Cindy e soube através dela que o estúdio tinha um restaurante completo que poderia arranjar para ela o que faltasse.

Ela desligou rápido o telefone e desceu com a revista nas mãos. – Olha amor. Estamos na capa.

Embaixo da foto dos dois na frente de David, a manchete: Conto de fadas da vida real. Casamento de rockstar e escritora comove o mundo.

- Hum! Bela foto, menininha! Foi a que você liberou para a imprensa?

- Foi amor, esta da capa e mais algumas com alguns convidados. – disse ela abrindo a revista na página indicada no índice.

- Muito bem, princesa. Estão falando aqui que foi o casamento mais bonito e emocionante do ano e superou até mesmo o casmento real. Também diz que os fãs da Crossroads terão toda a atenção do noivo depois da lua-de-mel, quando a banda entrará no estúdio para gravar um novo disco. Essa é para guardar.

- Também acho. Vou comprar mais umas duas caso a gente perca essa. Por sinal, você costuma guardar esse tipo de coisa? Revistas, jornais?

- Só algumas, menininha. Tenho um álbum de recortes em casa, só com o que me chamou mais atenção.

- Opa! Como sua biografa vou querer ver isso e como uma fã apaixonada por você, mais ainda.

- Eu mostro o meu, se você mostrar o seu, baby... – respondeu rindo.

- Mudando um pouco de assunto, você não dormiu nem um pouquinho hoje à tarde, será que não era melhor a gente ir para cama até a hora de sair? – perguntou Clara preocupada com Jack.

- Com você? Vou agora, vem...

- Mas é para descansar, entendeu? Nada dessas outras coisinhas que você está pensando.

- Ah! Mas você precisa me tratar bem, menininha... sou seu marido e hoje é meu aniversário...

- Vem, vamos descansar um pouco... a que horas você tem que estar no estúdio?

- Às 7.

- E o estúdio é longe daqui?

- Não muito... O Lambert trouxe o jipe e a gente pode sair daqui lá pelas seis e trinta.

- Então vou colocar no celular para acordarmos às 5:30. Para o quarto... já!

- Pois não, minha cara. – respondeu curvando-se em um mesura.

Os dois tiraram todas as roupas e deitaram-se. Jack a provocava, mas o momento era para descanso e apenas dormiram abraçados.

Jack caminhava na mata. A montanha cada vez mais próxima. Ele sabia onde encontrá-la, mas tinha medo de que ela pudesse não estar mais lá. Será que ela o aceitaria de volta?

Mas quanto mais se aproximava, mais densa ficava a neblina. Não tinha passado tanto tempo assim, mas não encontrou mais a floresta em que viviam. Aquele lugar que era só deles parecia muito mudado. Tentou chegar à casa, mas não conseguiu, precisava encontrá-la novamente, sua amada...

- Clara! – Jack acordou gritando.

- O que foi? – Clara acordou de um salto, assustada.

- Eu estava te procurando e não conseguia te achar. A neblina cobria tudo e eu não achava nossa casa. – Jack contava e chorava. – Meu amor, não me deixa sozinho, por favor.

- Calma, amor, foi só um sonho. – Ela dizia e o abraçava. - Eu estou aqui e nunca mais vou te deixar.

- Eu tentei voltar por você. Eu vi no meu sonho. Mas eu não consegui te achar.

Clara não queria entristecê-lo, mas sabia exatamente a razão daquele sonho e o momento que ele revivia. Ele partiu para a guerra e nunca mais voltou. Algum tempo depois ela encontrou seu espírito vagando pela mata. Seu corpo já não existia, mas ele ainda achava que estava vivo e tentava voltar para ela, desesperadamente, perdido nas ilusões criadas por sua mente.

Ela então fez de tudo para tentar libertá-lo e durante anos lutou para aprender como fazê-lo, mas seu amor por ele acabava atrapalhando tudo.

Em desespero, revoltou-se contra a Deusa e isso doeu muito para ela. Já que não conseguia deixá-lo livre, tentou então desesperadamente entrar em suas ilusões, precisava que ele a percebesse e tanto buscou esse poder que o conseguiu.

Em um belo dia de inverno, seu corpo dormia na cabana e seu espírito assumiu a forma de um enorme lobo branco e passou a perseguir Jack. Queria expulsá-lo da floresta para que voltasse a encontrar seu caminho. Mas ao invés de sentir medo, Jack ajoelhou-se na frente do lobo, pedindo que o matasse porque não encontrava mais nenhuma razão para viver sem ela.

Ela então em um último esforço para libertá-lo atacou-o. Anos a fio, ela o visitou desacordado naquele campo de lavandas, completamente fora de seu alcance, até que sua própria vida também terminou em muita dor. Mas agora tudo tinha mudado, estavam juntos e felizes como deveriam ter sido antes e não conseguiram.

- Está tudo bem agora... estamos juntos, Jack. É isso o que importa. – disse tentando consolá-lo.

Enquanto conversavam, o alarme do celular de Clara soou avisando que era hora de levantar. Tomaram banho juntos e ela foi ainda mais carinhosa com ele. Depois arrumaram-se, desceram, pegaram o carro e foram até o estúdio.

Clara pegou uma bolsa grande com a câmera e o presente que daria a Jack. No último momento antes de sair, ela escreveu no cartão de aniversário dele: “Este é o seu primeiro aniversário em que estamos juntos e quero estar ao seu lado em cada um dos próximos. Eu te amo!"

Havia muitos carros no estacionamento do estúdio. Clara reconheceu os carros de David e do baterista Paul Clarke assim que os viu. Imaginou que Michael também podia estar lá com algum carro que ela ainda não conhecia e isso fazia de Jack o último a chegar.

O único instrumento que estava levando era sua gaita de boca acomodada em uma caixinha de veludo, dentro de uma sacola.

Para Clara, entrar naquele prédio histórico era como um sonho se realizando. Ela e Jack foram recebidos por um técnico de som que tinha participado da pré-produção e os levou direto ao estúdio 2 onde toda a equipe estava reunida e para surpresa dos dois, ao redor de uma mesa onde estava o bolo de aniversário encomendado por Clara, toda a equipe de produtores e técnicos da banda, David, Cindy, Michael Silver e Michael Peters.

Assim que chegaram, todos gritaram "Surpresa!" e começaram a cantar "Parabéns para Você" enquanto Jack, de mãos dadas com Clara, sussurrou em seu ouvido: - Você sabia disso, não é menininha?

- Parabéns, amor! - Clara disse sorrindo e beijando-o.

- Obrigada Cindy, David. - sussurrou Clara para os amigos, assim que se aproximou.

Ela pegou rapidamente sua câmera de dentro da bolsa e passou a filmá-lo, soprando as velinhas e sorrindo diante dos gritos de todos os presentes pedindo por um discurso.

- Obrigado, meus caros amigos. Meu amor. Estou muito feliz que tenham se lembrado deste velho hippie e providenciado esta bela festa. De fato, este é um dos aniversários mais felizes de toda a minha vida e não tenho palavras para agradecer tudo o que vocês têm feito por mim. Acabo de voltar da lua-de-mel e agora estou aqui pronto para começar tudo de novo com a Crossroads e tenho certeza de que tudo será perfeito desta vez, porque já está sendo.

David pegou uma taça de champagne e fez um brinde: - Ao nosso querido Jack Noble. Ele está mais velho agora, mas continua sendo nosso melhor amigo e um dos melhores caras deste mundo.

E todos começaram a cantar uma outra versão do "Parabéns para Você", com uma letra trocada que provocava risos. Ele cortou o bolo, e um garçom distribuiu-o entre os seus amigos presentes no estúdio.

Algumas pessoas começaram a entregar presentes a Jack e Clara aproveitou para pegar dentro da bolsa o presente e o cartão e já ir recolhendo alguns dos presentes que ele havia recebido.

- Para você, amor! Achei a sua cara! - disse Clara.

Ele rasgou o papel e ficou fascinado com o livro sobre blues. - Lindo amor! Adorei!

Depois abriu o cartão, abraçou Clara e a beijou e sob os aplausos de alguns de seus amigos, sussurrou em seu ouvido: - Eu te amo muito. Obrigado por estar aqui!

Depois da comemoração, David avisou que era hora de começar a trabalhar e a mesa foi recolhida por funcionários do restaurante do estúdio, Clara puxou Cindy para um dos cantos da sala, enquanto roadies e técnicos ligavam instrumentos e preparavam tudo.

- Quero começar com "Unexpectedly", está tudo certo para começar? - David sinalizou para a banda, para os técnicos e para o produtor que já estava na sala de controle.

Clara queria conversar com a amiga, mas também queria registrar o trabalho da banda; ainda mais naquela música que foi feita para ela. Então, ela foi até Jack e perguntou como isso funcionaria e ele respondeu que aquela fase de preparação ainda demoraria um pouco e que ela podia ir com a amiga para o jardim porque quando fossem realmente gravar, mandaria uma mensagem de texto avisando.

Ela beijou-o no rosto e correu na direção da amiga e elas seguiram as indicações de um roadie de como chegar nos fundos do prédio. Aparentemente uma casa adaptada para estúdio. E lá surpreenderam-se ao encontrar as flores e árvores de um jardim muito bem cuidado, com muitos bancos e também algumas mesas e cadeiras.

Sentaram-se ao redor de uma das mesas e pediram que o garçom trouxesse champagne.

- Bom, antes de qualquer coisa, quero agradecer muito por tudo que você fez no meu casamento. Aquela festa linda não teria acontecido sem a sua ajuda e eu amo você!

- Eu também te amo, querida! - disse Cindy. - Você é a maior razão disso tudo estar acontecendo! Você sabe disso, não é?

Sempre que alguém falava dessa forma, Clara sentia-se estranha. A responsabilidade pesava sobre seu coração e ela começava a prestar mais atenção em Jack, buscando nele pistas de que alguma coisa ainda o contrariava naquele retorno da Crossroads.

Mas desde o casamento ela percebia que suas crises de tristeza eram cada vez mais raras e a não ser pela sua percepção recente de outros aspectos perturbadores da relação deles em uma vida anterior, ele parecia mais feliz a cada dia.

- E aí? Como foi?

- Lindo! O Jack e o Peters despistaram os repórteres e os fotógrafos e nós ficamos em paz todo o tempo. Ninguém nos perseguiu, nem sequer pediram autógrafos, nem nos reconheceram. Ah! As fotos ainda estão aqui na câmera.

- Nem eu reconheceria vocês assim, Clara! Vocês foram muito espertos e o Jack está engraçadíssimo. O que vocês fizeram com todo aquele cabelo? – perguntou Cindy.

E Clara explicou como prendia os cabelos do marido em um coque alto e colocava o boné por cima, criando a falsa impressão de que seus cabelos eram curtos. Mas isso também significava que não podiam entrar em igrejas ou qualquer outro lugar que exigisse que tirassem o chapéu.

- Meu Deus! Quem são esses com vocês nas últimas fotos? – perguntou Cindy.

- Mick Jagger e a Gianna Carli, a nova namorada dele. – respondeu Clara.

- Incrível, mas acho que ele ainda não desistiu de você. Perseguir uma mulher em plena lua-de-mel é um pouco demais para mim, mesmo para alguém como ele. – disse Cindy.

- Isso também me preocupa. Você acredita que hoje, no meio dos presentes que o Jack recebeu pelo aniversário, tinha um bouquet de flores dele para mim? Estou começando a ficar assustada. Ele quer que eu trabalhe na adaptação do meu livro para filme. Não posso dizer não para isso, é uma coisa que eu sempre quis fazer.

- É, mas cuidado. – disse Cindy. – Ele é inteligente, não tem escrúpulos e tem certeza que vai te pegar.

- Eu sei. Mas nunca dei, nem darei essa chance a ele. Vou dar um jeito de manter o Jack sempre por perto. Não consigo nem pensar em magoar o Jack.

- Falando em fotos, você foi atrás do fotógrafo para escolher as fotos do álbum?

- Ainda não, mas vou ligar para ele amanhã para combinar isso. – respondeu Clara com uma expressão que misturava ansiedade e emoção. – Não vejo a hora de ter esse álbum nas minhas mãos.

- Foi mesmo lindo. E eu acho que chorei mais no seu casamento do que no meu.

- Nem me fala em chorar. Tem horas que me sinto ridícula, mas não consigo evitar. O pior é que continuo vendo aquelas coisas que vimos no sonho, do nosso passado. Hoje à tarde insisti com o Jack para irmos dormir e ele teve um pesadelo e acordou gritando. Ele me disse que no sonho tentava voltar para mim, mas se perdia na névoa e não conseguia mais me achar.

- Sério? Mas você não disse que ele morreu na guerra?

- Sim! Ele estava morto mas a sua culpa por ter me abandonado na floresta o deixou confuso e preso nesta dimensão.

- Coitado! Deve ter sido terrível!

- E como você sabe, eu era uma bruxa, sabia que ele estava morto, mas continuava vendo-o vagando pela nossa floresta, me procurando, enquanto eu tentava libertá-lo e não conseguia. – continuou Clara com lágrimas nos olhos. – Eu lutei anos e anos e ele continuava do mesmo jeito. Até que resolvi mudar de estratégia, aprendi a entrar na ilusão dele e, para tentar afastá-lo, apareci para ele como um lobo branco. Mas ao invés de correr, ele ajoelhou-se na minha frente e pediu que o matasse, porque sem me encontrar, a vida dele era insuportável.

- Nossa Clara! Quanto sofrimento! E o que você fez?

- Fiz o que ele me pediu. Mas não adiantou. Ele achava que estava morto e passou anos deitado no campo de lavandas e isso me revoltou tanto que rompi com a Deusa. Quando morri, muito velha, ele ainda estava lá.

- Que terrível! – disse Cindy chorando e abraçando Clara. – Está tudo bem agora, vocês estão juntos, felizes. Eu nunca vi nada assim.

- Nem eu! Estou muito confusa com tudo isso. Tem horas que eu acho que é alguma bobagem da minha cabeça, que estou tentando encontrar razões para fugir dele, mas ao mesmo tempo a intensidade das coisas que eu vejo. Eu fico sem reação, estas coisas me invadem de repente e acabam comigo.

- É melhor olhar só para frente, querida. O passado não pode ser mudado, mas vocês têm todo o futuro para serem felizes.

- Você tem razão Cindy, eu nunca deixarei que ele saiba sobre isso. Não quero que ele sofra mais.

O celular de Clara avisou a chegada de uma mensagem de texto, era Jack avisando-a que começariam a gravar. Ela pegou a câmera, a bolsa e correu de volta para o estúdio 2.

Lá, um técnico apontou duas cadeiras no fundo do estúdio, de frente para onde estavam montados os instrumentos. Ao vê-la sentada, Jack mandou-lhe um beijo e piscou.

O técnico ofereceu fones de ouvido e pediu a elas que desligassem seus celulares e não fizessem qualquer tipo de barulho enquanto gravavam pois os microfones eram muito sensíveis.

Clara perguntou se podia gravar tudo em vídeo, dali mesmo, sentada na cadeira e ele autorizou, mas pediu que evitasse levantar-se.

Assim que o técnico saiu da sala, Clara começou a ouvir a voz do produtor, na sala de controle, dizendo que estava tudo pronto. Então, David contou: - Um, dois, um, dois, três...

E todos começaram a tocar. A versão escolhida para gravar foi a de um blues tradicional. A banda gravava como se fosse ao vivo, a diferença era que a bateria estava atrás de uma parede de acrílico para evitar que seu som vazasse nos outros microfones.

Jack também tinha entrado atrás de um biombo e de onde estava, Clara via seu rosto concentrado nas partituras que estavam à sua frente.

Tudo muito profissional, muito contido. A introdução da música agora tinha um riff de guitarra que mais parecia um grito lancinante. Logo entrava a voz de Jack que inicialmente apenas duelava com os gritos da guitarra e depois começava a cantar a letra.

Entre uma estrofe e outra Jack tocava sua gaita e logo o primeiro take daquela música já estava pronto.

Clara agora ouvia o produtor dizendo que queria fazer mais um take, estendendo um pouco mais o solo de guitarra no meio da música. Fizeram mais três takes daquela forma.

Mesmo toda arrepiada pela beleza do que acontecia ali, Clara concentrava-se em captar as expressões dos músicos. As lágrimas encheram seus olhos e ela continuava captando a cena que agora estava toda embaçada.

O produtor tinha razão, com o solo de guitarra mais longo, a música ficou perfeita e agora faltava apenas usar aquela gravação como guia para Jack colocar novamente sua voz e naquele take, em que ele cantava sozinho, apenas ouvindo o acompanhamento da banda em seu fone, sua voz crescia e ele parecia em transe, seus gritos eram desesperados, tinham uma urgência que enternecia e excitava Clara.

E aquele take foi tão perfeito que o produtor nem quis gravar outro. Pronto! A música que Jack fez para ela, que o trouxe de volta a Crossroads já estava “na lata”, como disse o produtor usando o jargão.

Assim que ouviu a confirmação de que o take tinha valido. Jack tirou o fone de ouvido e correu na direção de Clara, abraçou-a, levantou-a do chão e beijou-a apaixonadamente: - Te amo! Te amo! Te amo!

- Jack! Seu maluco! Eu te amo... – sussurrou Clara em seu ouvido. – Vai lá gravar que seus amigos estão esperando.

- Já vou. Precisava te beijar, menininha!

Clara também desejava aquele beijo, mas agora estava um pouco embaraçada com o que ele tinha feito na frente de todos.

Ele voltou para seu biombo e colocou novamente os fones de ouvido.

A segunda música que gravariam naquela noite também era um blues e a maior diferença era a de que David pegou uma outra guitarra, de curvas mais generosas e som mais corpulento.

“Devil Woman” começava a ser construída acorde por acorde, ainda mais linda do que ela se lembrava dela. A levada era sensual e Jack mais uma vez a excitava com seus gemidos. Ela queria que tudo terminasse agora, queria voltar para sua suíte e mostrar para ele tudo o que estava sentindo naquele instante.

Foram cinco takes com David tocando guitarra e mais cinco com ele no piano. O clima ficava mais sexy a cada momento. Jack colocou sua voz por cima e novamente impressionou a todos. Estava especialmente inspirado naquela noite.

Aquela era a última música que iriam gravar naquela noite. Teriam ainda muitos dias de gravação pela frente e ela estaria lá, vendo tudo de perto, ouvindo cada acorde que aquela banda, que havia iluminado sua vida inteira, estava produzindo. Trinta anos depois do fim, um novo começo, que poderia ser a superação de todas as dores ou o último mergulho nelas.

Sem querer chorar, Clara sentia as lágrimas correr por seu rosto e suas mãos tremendo. Jack tirou mais uma vez o fone e foi na direção dela. - Está com frio, amor? Já vamos sair... - Jack disse abraçando-a e secando suas lágrimas com as mãos.

David começou a falar alguma coisa importante sobre as gravações no dia seguinte, mas Jack não o estava escutando, naquele momento queria apenas cuidar de Clara. - Não, Jack. - disse ela segurando suas mãos. - Presta atenção no que o David está falando, parece importante...

- Jack, amanhã vamos fazer aquela música do Michael e uma outra minha, que também é no mesmo clima, mas que vocês ainda não ouviram. E tem mais, quero que você leve esta outra para casa e vê se dá para fazer uma letra. - disse estendendo um CD para Jack. - Ah! pega as partituras para piano também. É uma baladona e vou querer gravar as bases dela depois de amanhã com uma pequena orquestra e quando você tiver uma letra, a gente coloca a voz. Não tem pressa, o Peters disse que o estúdio é nosso pelo tempo que quisermos, cortesia da gravadora que continua esfregando os dedinhos com a nossa volta. Bem senhores, depois desta noite de trabalho perfeita, eu convido todos vocês a comemorar comigo, no pub do Dan. Ele está a nossa espera, como antigamente.

- Você sabia sobre isso, Clara? - perguntou Jack surpreso.

- Não, amor! Vamos? - Clara respondeu.

- Vamos, sim! Estou morrendo de fome. - respondeu sorrindo e abraçando Clara. - Mas vamos passar no hotel antes e pegar um casaco para minha princesa.

- Ok, velhão! Vamos indo então?

Eles saíram todos para o estacionamento, já era duas da manhã, mas alguns fãs estavam no portão do estúdio e a segurança particular já havia chamado a polícia para evitar que invadissem.

Com a polícia no portão do estúdio, todos seguiram, cada um em seu carro, para o pub de Dan Joyce; um velho amigo da banda e dono de um dos estúdios onde ensaiavam e até gravaram alguns discos no passado.

Clara e Jack subiram para a suíte com todos os pacotes de presentes que Jack havia ganho nas mãos. Entraram, subiram até o quarto, colocaram todas as sacolas na cama e saíram em seguida para evitar a tentação de ficarem lá pelo resto da noite. Clara pegou um casaco para ela e uma jaqueta jeans para Jack e logo estavam prontos para ir ao pub.

- Vamos a pé? - perguntou Clara.

- Melhor, assim dá para beber mais a vontade. E Deus sabe que hoje eu preciso de uma bebida. - disse ele com aquele ar triste que derretia o coração de Clara.

- Tem alguma coisa que eu possa fazer para ver um sorriso seu? - Ela disse em voz alta, quase sem pensar. - Você sabe que não gosto de te ver triste.

- Não, amor... Estou tentando muito mudar isso, mas não estou conseguindo. - Jack disse com os olhos cheios de lágrimas. - Vem aqui, menininha, este hippie velho está com o coração em farrapos.

Clara puxou-o para mais perto, abraçou-o na porta da suíte e puxou-o na direção dos sofás. Clara sentou-se em seu colo e colocou a cabeça de Jack em seu ombro. - Chora amor. Chora tudo o que você quer chorar que eu estou aqui por você e para você. - disse acariciando os cabelos dele.

- Ah, meu amor. - Jack empurrou-a contra o encosto do sofá e beijou-a apaixonadamente. - Eu te amo tanto que parece que vou explodir.

Clara também estava chorando e os dois agora limpavam as lágrimas um do outro. Jack pegou as mãos de Clara e as beijou. - Vamos, amor. Temos que ir no Dan, os caras estão esperando pela gente.

- Mas você vai ficar bem? - perguntou preocupada.

- Vou sim, estou morrendo de fome. Preciso do meu "purê com salsichas" agora.

Os dois levantaram-se e caminharam na madrugada gelada e cheia de neblina, em direção do pub, na rua detrás do hotel. Quase não enxergavam nada, andando abraçados. Jack parecia um pouco mais relaxado agora e fez o caminho inteiro mimando Clara. Até roubou flores de um jardim e prendeu-as no cabelo dela.

Bateram na porta, Dan abriu: - Olá velhão! Feliz aniversário, cara! Vamos entrar. Princesa Clara - disse Dan beijando sua mão. - Vamos lá beber e comemorar.

- Me faz um purê com salsichas? - perguntou Jack, beijando o amigo no rosto.

- Claro! Também quer purê, princesa?

- Hum... melhor não... Se você tiver alguma coisinha só para acompanhar o vinho, um queijo, uns frios, eu prefiro. Purê é muito pesado para comer de madrugada. Já sei! Posso ir à sua cozinha?

- Claro, princesa, mas eu posso me virar bem, a Susy e o Clark estão aí para servir todo mundo.

- Não... Tive uma ideia. Vocês servem algum tipo de sopa?

- Só de ervilhas, princesa.

- Você conhece sopa de cebola?

- Não... Nunca comi, mas está soando como uma coisa boa...

- Vamos lá que eu te ensino a fazer. É quentinho e gostoso e muito mais light do que esse purê que o maluquinho do Jack quer comer.

- Boa noite queridos, eu e a Clara vamos para a cozinha com o Dan e já voltamos para conversar com vocês. - disse Jack aos amigos que fizeram festa quando eles chegaram.

Clara ensinou e ajudou a fazer a sopa e depois pegou potes para servi-la aos amigos. Jack foi à frente avisando que sua princesa havia preparado um prato especial e que ela ajudaria Dan a servi-lo.

Todos adoraram a sopa e Jack não cabia em si de tanto orgulho. Sua princesa não só sabia cozinhar muito bem, mas tinha condições de ensinar um velho profissional como Dan a fazer algo tão delicioso como aquela sopa.

- Clara, você vai entrar em nosso menu. Que tal a "Clara's soup", pessoal? - perguntou Dan a seus amigos.

Com a aprovação de todos ao seu prato, Clara finalmente sentou-se ao lado de Jack no balcão e foi comer sua sopa, acompanhada por um copo de vinho e algumas fatias de pão torrado.

Jack agora parecia mais relaxado. Ria com os amigos e aquela sombra que o havia tomado na suíte do hotel, desapareceu completamente de vista.

- Puxa, isso é bom, é francês, não é? – Cindy perguntou para Clara.

- Sinceramente não sei. Aprendi a fazer no Brasil a partir de uma receita que peguei na internet. Lá em São Paulo, onde eu morava, tem um lugar onde vendem legumes e frutas para os comerciantes e as pessoas vão de madrugada, para fazer compras. Tem um restaurante que serve exatamente essa sopa, que as pessoas comem quando está muito frio, no inverno. Meus pais iam lá fazer compras quando eu era criança e eu lembro de ter ido com eles algumas vezes com meu pijama embaixo da roupa e depois de comprar íamos todos ao restaurante.

- Que linda, amor. Nunca vi fotos suas da época de criança. Você tem alguma? – disse Jack aproximando-se dela.

- Tenho no Facebook, amor. Depois te mostro.

- Agora que estamos todos felizes aqui, acabei de decidir que amanhã não gravaremos, quero que o Jack tenha tempo para escrever a letra da balada e para isso ele precisa ficar com sua e nossa também, querida princesa. – disse David.

- Obrigado David! – Jack disse sorrindo – Eu e minha princesa estamos muito gratos por sua atitude e sinceramente usaremos o dia de amanhã para descansarmos, ficarmos juntos e ouvirmos a música nova.

- Obrigada David, obrigada amigos. Estou muito feliz de estar aqui. Vocês foram todos maravilhosos comigo e se hoje me sinto em casa com Jack é também porque fui bem acolhida por vocês. Antes eu admirava a Crossroads de longe, eram os gênios que fizeram a música que eu tanto amava. O Jack então era mais do que isso, um príncipe encantado que estava completamente fora de meu alcance e por isso, me contentava em apenas sonhar com ele.
Mas de repente tudo mudou e eu estou aqui, feliz como nunca, em cenários que não estavam nem em meus sonhos mais ambiciosos. Obrigada a todos e a cada um de vocês por transformarem meus sonhos em realidade.

Jack beijou-a e todos aplaudiram. Clara queria levar com ela para sempre aquela sensação doce de amor, de amizade e realização. Se morresse naquele instante, morreria feliz.

Eles conversavam felizes, aliviados por estarem concretizando aquele sonho de voltar ao trabalho, trazer a Crossroads para as novas gerações. Trinta anos depois do fim, eles voltavam mais maduros como pessoas e como músicos.

A noitada terminou de manhã David, Cindy e Michael voltaram para Heathcliff Hall, depois de tomarem algumas xícaras de café forte.

O pub do Dan não abriria na manhã seguinte, todos descansariam naquele dia. E Jack e Clara voltaram a pé para o hotel, de mãos dadas.

Entraram na suíte, foram direto para o quarto, tiraram as sacolas com presentes de cima da cama, tiraram as roupas e dormiram.

Continua

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