4 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXX


Clara dormiu muito pouco naquela noite, seu sono foi agitado e mesmo com Jack ao seu lado, abraçando-a e garantindo que tudo sairia perfeito, ela acordou várias vezes e chegou até a descer no terraço. Quando Jack percebeu, foi até ela e a abraçou, sussurrando em seu ouvido que ela precisava descansar.

Ela foi deitar-se com ele e pegou no sono envolta por seus braços e com sua cabeça aninhada em seu ombro. Jack estava preocupado, queria vê-la feliz e por isso tentava acalmá-la.

Clara acordou às cinco da manhã, olhou para o céu e ficou ainda mais nervosa; as nuvens pareciam escurecer a cidade naquela manhã e uma densa neblina encobria o parque, agora ela temia que pudesse chover, ligou o computador e encontrou um relatório detalhado da equipe metereológica que trabalhava para Anne garantindo um dia de sol.

Então respirou fundo e percebeu que Jack já estava de pé e com um sorriso enorme no rosto. Usava só uma toalha e já estava com o cabelo molhado.

- Bom dia, meu amor! - ele disse aproximando-se da cama e beijando-a. - Pronta para casar-se comigo?

- Claro, meu amor e você? Está pronto para casar-se comigo? - perguntou Clara levantando-se e abraçando-o.

- Mais do que nunca! A Jane te entregou aquelas coisas todas que ela me disse que te entregaria ontem?

- Sim, estão numa caixa, ali em cima da cadeira. Eu fiquei sem palavras, foi uma atitude tão carinhosa dela. Sua irmã é uma pessoa maravilhosa.

- Ela me disse que te daria estas coisas para dar sorte no nosso casamento e eu não vejo a hora de te ver usando todas elas. E mais uma coisa. - disse Jack pegando uma outra caixa em sua mala. - Fui eu mesmo que escolhi, por isso, talvez você não goste, mas eu achei tão bonita que não resisti.

- Jack! que coisa linda! Coloca no meu braço.

Dentro da caixa um bracelete de diamantes. Ela abraçou Jack e o beijou, depois disse que tinha comprado um presente de casamento para ele em Paris e que, isso era incrível, mas também era um bracelete, masculino, em ouro branco, apenas com dois ou três diamantes bem discretos, mas um bracelete.

- Olha, Jack. Dentro eu mandei fazer uma gravação.

- É o símbolo do Infinito! Ah meu amor é lindo! Obrigado! – disse Jack colocando o bracelete. – Perfeito, vou usá-lo sempre.

Os dois saíram do quarto, encontraram os pais de Clara na sala de estar e ligaram para o serviço de quarto para pedir o café da manhã. Logo os empregados do hotel começaram a subir com presentes variados, flores, cartões e coisas bonitas e sofisticadas enviadas aos noivos.

Jack logo começou a se irritar com o telefone e com a agitação da suíte, por isso subiu para o quarto e desceu de short pronto para mergulhar na piscina.

- Vou nadar um pouco, amor, para relaxar. Vocês querem vir? – perguntou Jack para Clara e seus pais.

- Não amor, eles nem trouxeram roupas de banho e é mesmo muito cedo para isso. E eu não posso, as pessoas querem falar conosco, dar parabéns, essas coisas e alguém precisa atendê-las, não é?

- Você me conhece, sabe que não gosto nada de telefones, especialmente quando eles tocam... - disse rindo antes de mergulhar na sala de estar e nadar até o terraço.

- Nervosinho, não? - disse o pai de Clara depois de ouvir a tradução do que Jack disse. - Olho aberto com esse cara... é tão estrela que não pode nem atender o telefone?

- Não é isso, pai. Ele e eu estamos nervosos e esse telefone está mesmo enchendo o saco... Já vamos descer para o SPA e aí descansaremos um pouco.

- E quem fica aqui atendendo o telefone? - perguntou o pai de Clara. - Eu vou ficar sozinho aqui e nem falo inglês...

- Já pensei nisso, vou pedir para o Jonas ficar aqui com você e o Fernando. Todas as mulheres vão para o salão mesmo...

- As mulheres e o rapaz de cabelo comprido ali. - disse o pai de Clara em um tom sarcástico.

- Ah pai! Não começa, por favor. - disse Clara rindo. - Eu adoro aquele cabelo. Vou ligar agora para os rapazes.

Clara acertou tudo com seu irmão e com Jonas e os dois subiram para fazer companhia ao seu pai. Com todos prontos, ela desceu com Jack até o SPA no andar térreo do hotel e a partir daquele momento os dois só voltariam a encontrar-se na hora do casamento, nos jardins de Heathcliff Hall, por isso desceram agarrados no elevador e beijaram-se na porta de entrada, na frente do staff que os prepararia dali em diante.

Para não ficar ainda mais nervosa, Clara decidiu concentrar-se no momento, era uma lição que tinha aprendido na Yoga, viveria aquele ritual de beleza completamente concentrada nele, máscaras, massagens, depilação, tratamentos, não se permitia pensar em nada além disso e assim criava para si mesma um momento de descontração antes das emoções explodirem em Heathcliff Hall.

Heathcliff Hall e seus incríveis jardins, um casamento digno da cena final de qualquer conto de fadas e ela era a noiva. Estava prestes a casar-se com o "homem dos seus sonhos" e que era ainda melhor na vida real. O homem da sua vida. Era melhor não pensar nele e em tudo que diria no altar, na frente de seus amigos e familiares dali a poucas horas.

E finalmente tinha chegado o momento, ela já estava maquiada e penteada, restava agora colocar o vestido, as jóias e prender o véu de renda nos cabelos já arrumados, copiando o estilo das heroínas de Jane Austen, estavam presos em um coque alto que a fazia sentir-se um poodle, mas que dentro do conjunto, dava a ela exatamente o ar romântico que buscava.

A parte final da preparação foi feita com a ajuda da mãe de Clara e envolvia colocar todas as jóias e a tal moeda dentro do sapato. Sua mãe também já estava pronta para o casamento e as duas saíram por uma porta lateral que dava na garagem do hotel.

Ali ela ficou sabendo que a van com seus amigos já tinha partido e também a limusine de Jack. Sua mãe entregou-lhe também o bouquet e seu pai um pequeno terço de contas de cristal que havia pertencido à sua avó.

- Filha, apesar de você estar se casando com aquele roqueiro cabeludo, na frente de outro roqueiro cabeludo, e não um padre, estou muito feliz. E acho que sua avó gostaria que você tivesse isso.

- Ai pai, que lindo! Obrigada! Eu sei que ele é cabeludo, muito mais velho, mas estou muito feliz. - disse tentando segurar as lágrimas.

O carro partiu para a estrada, as nuvens e a neblina da manhã tinham dado lugar a um lindo dia de sol. Clara não se sentia nem um pouco confortável. O ar condicionado do carro gelava suas mãos, o corset branco que havia comprado em Paris apertava muito sua cintura e o soutien, sob o vestido, apertava seus seios e ela mal conseguia respirar.

Conforme o carro ia avançando na estrada, ela ia ficando mais e mais nervosa. Um segurança ia com eles no carro e mais dois em um carro de apoio atrás do rolls royce alugado especialmente para a festa. Uma preocupação de Michael com perseguições de paparazzi, já que a cerimônia em Heathcliff Hall seria reservada apenas para os convidados.

Michael chegou a sugerir que se proibissem celulares e câmeras entre os convidados, mas Jack e Clara acharam que aquilo seria muito antipático, estavam felizes e não queriam seguranças revistando as pessoas no portão de Heathcliff Hall.

Mesmo assim, a segurança era um fator importante e a casa estava completamente cercada para garantir a tranquilidade de todos os convidados.

Também foi necessária uma operação especial para impedir que paparazzi invadissem a casa. Como foram impedidos de entrar, concentraram-se na porta e fotografaram o carro de Clara quando se aproximou do portão.

Clara desceu na porta da casa e foi na direção de Cindy e Jennifer que a esperavam.

- Vamos entrar. Que linda! Estou passada amiga! – disse Cindy. – Pronta?

- Estou quase morrendo com esse corset, mas vamos em frente. – respondeu rindo. – Todo mundo aí?

- Claro, querida! Todo o pessoal do altar está se reunindo na sala e daqui a 10 minutos montamos o cortejo para sair.

- Querida! Você está linda! Meu irmão vai ter um infarto hoje. Parece mesmo uma princesa. – disse Jane aproximando-se de Clara. – Tenho mais uma coisinha aqui para dar sorte. É uma tradição nossa, coloca essa ferradurinha de prata dentro do vestido.

- Ah! O Jean Paul fez um bolsinho na barra do meu vestido e me falou alguma coisa, então era para isso?

- Era, querida! É para dar sorte no casamento!

- Olá Clara! – disse Kate, a filha de Jack, também entrando na sala.

- Olá Kate! Tudo bem? – respondeu Clara simpaticamente.

- Tudo! Nunca vi meu pai tão emocionado na vida dele. Cuidado com o velho... – disse Kate sorrindo.

- Eu estou tremendo da cabeça aos pés, querida. Só espero não desmaiar. Meu corset está super apertado, quase não consigo respirar.

- Clara! Você chegou! – disse Ciça, sua irmã, que entrava na casa junto com suas amigas Sara, Renata e Ana.

- Meninas! Que bom que vocês estão aqui! Querem escrever seus nomes na barra do meu vestido? – perguntou Clara para as amigas solteiras.

- Opa! Eu quero! – disse Ana. – Como faz?

- Cindy, me traz uma caneta, por favor!

- Ah! Vamos lá. Alguém escreve para mim, está difícil me abaixar com esse corset. O Jean Paul colocou uma barra própria para escrever, vou sentar aqui e vocês escrevem porque eu não alcanço. Mas vamos rápido porque a Cindy me disse que o casamento é daqui a 10 minutos.

- Querida! Você está lindaaaaaaaa! – disse Jean Paul entrando na sala de estar ao lado de Jennifer.

- Jean Paul! Estou me sentindo nas nuvens hoje, graças a seu talento sinto-me uma princesa! – disse Clara dando um beijo no rosto do estilista.

- Então? Estamos prontos? – perguntou Cindy. – Vamos lá fora?

- Vamos Clara? Todo o cortejo já está posicionado. – disse Anne.

- Vamos!

- O Jack já está no altar. – disse Cindy. – Pronta?

- Pronta! Amigas, para seus lugares que eu estou a caminho. – disse Clara. – Vem pai, vai começar.

O cortejo organizado seguiu pelo jardim, enquanto Clara esperava atrás de um par de portas montado no início do tapete, pelo momento em que deveria entrar. Os músicos do quarteto de cordas começaram a tocar “Unexpectedly” em um arranjo especial que deixou o blues feito para ela parecendo uma peça clássica.

Anne sinalizou e as portas foram abertas por dois rapazes vestidos de pagens. Clara e seu pai começaram a caminhar pelo tapete, logo atrás da neta de Jack, que espalhava pétalas de flores pelo tapete.

Clara sabia que tinha pessoas dos dois lados daquele corredor, mas não conseguia distingui-las, estava muito nervosa e tentava apenas olhar para a frente. Também não conseguia focar em Jack, respirava fundo e andava mantendo o passo que tinha ensaiado na véspera, tentando fixar seu olhar no horizonte.

Jack por sua vez, a olhava e secava suas lágrimas. O pai de Clara deu um beijo em seu rosto e seguiu para a cadeira reservada para ele e Clara deu a mão a Jack.

- Queridos amigos, estamos aqui reunidos hoje, nesta linda festa para unir estes nossos dois amigos queridos e abençoar esta união com nosso amor e carinho por eles.
O convite que eles me fizeram para oficiar esta cerimônia muito me honra. Como todos sabem eu e Jack somos amigos há mais de quarenta anos e neste tempo tivemos nossos altos e baixos, mas sempre estivemos próximos e posso dizer que nunca havia visto Jack mais feliz do que ele ficou ao conhecer a sua pequena Clara.
Esta pequena garota brasileira que o conquistou na primeira troca de olhares mostrou-se a pessoa compreensiva e sensível que meu grande amigo necessitava.
E os dois estão tão gloriosamente felizes que agora quero que eles declarem seu amor um pelo outro dizendo seus votos. Clara, por favor:

Clara entregou o bouquet a Cindy e pegou o pequeno livro das mãos de Jennifer e começou a ler: "Jack, meu querido, em um dia não muito distante peguei um avião no Brasil e fui aos Estados Unidos para uma reunião de trabalho, poderia ter voltado para casa em seguida, mas nunca mais consegui fazer isso porque encontrei alguém que era muito mais do que um príncipe encantado.
Cresci considerando Jack Noble um ícone, uma figura de homem ideal, um sonho irrealizável, que repentinamente surgiu na minha frente.
E confrontando meu sonho com a vida real, o Jack Noble real provou ser ainda melhor do que o do meu sonho.
Um homem que quando me conheceu pediu apenas que eu o ouvisse e fosse paciente para tentar entendê-lo.
Eu agora digo para ele, na frente de nossos parentes e amigos, que não só me comprometo a ouvi-lo e entendê-lo neste momento e para sempre, como também prometo a ele que o amarei e tomarei conta dele e me dedicarei a ser dele e por ele viver enquanto este amor que existe em mim existir. Infinitamente e para sempre."

- Jack, agora é sua vez. – disse David.

"Clara, minha vida, minha princesa. Quando te vi pela primeira vez, naquele saguão de hotel em Nova York meu coração disparou e foi como se repentinamente os Deuses estivessem me dando de presente, uma visão do paraíso.
Desejei beijá-la assim que a vi e ficar com você para sempre, assim que a beijei pela primeira vez. Passamos a viver juntos desde então e a pouca vida que tive até aquele instante tornou-se um oceano de amor no qual hoje me afogo pleno de alegria.
E aqui, na frente de minha família e de meus amigos digo a você minha amada que eu transformo agora a sua felicidade em minha missão de vida.
Obrigado meu amor por ter aceitado dividir sua luz comigo. Eu te amo infinitamente e para sempre."

Clara e Jack agora choravam abertamente, segurando as mãos um do outro. Devolveram os livros aos seus padrinhos e David seguiu com a cerimônia.

- Meus queridos, vocês fizeram suas declarações e agora, Clara, você repita comigo: Com esta aliança, eu, Clara Oberhan Giacome faço de você Jack James Noble meu marido deste momento em diante e para sempre.

- E Jack; Com esta aliança, eu, Jack James Noble faço de você Clara Oberhan Giacome minha esposa deste momento em diante e para sempre.

- Com esta lição de amor eu declaro que meus doces e queridos amigos Clara e Jack agora são casados! Pode beijar a noiva!

Os dois se beijaram no altar e neste instante um mecanismo foi acionado criando sobre eles uma chuva de pétalas de rosas que foi aplaudida por todos os convidados.

Conforme havia sido ensaiado, Jack e Clara seguiram pelo tapete e entraram na casa para assinar os papéis do casamento, agora diante de um funcionario do Registro Civil daquela região da cidade.

Assim que se viram dentro de casa, um na frente do outro, beijaram-se novamente e esperaram por Cindy e David que serviriam de testemunhas no casamento.

O casamento foi rápido, o juiz apenas leu o documento que todos assinaram e deu os parabéns aos noivos que o convidaram para a festa que acontecia lá embaixo, no jardim.

Desceram e foram participar da festa, foram fotografados, cumprimentaram todos os seus convidados e ainda tiveram que decidir sobre a liberação de algumas fotos da cerimônia para a imprensa, além de alguns exemplares dos livrinhos que foram editados com seus votos.

Antes que o casal seguisse até a mesa de doces para cortar o bolo, Jonas chamou Clara para uma conversa.

- Que festa linda, Clara!

- Obrigada Jonas. Estou feliz porque tudo deu certo.

- Eu queria te pedir um favor.

- O que foi? Algum problema?

- Não... quero dizer, sim... A imprensa toda no Brasil está no meu pé. Todos os veículos que você pode imaginar já me pediram entrevistas com você. Será que não dá mesmo para atender uns dois ou três repórteres?

- Ok Jonas! Mas tem que ser em meados da semana que vem, porque meu marido quer que eu acompanhe as gravações do disco no Abbey Road, mas posso dar uma escapada para fazer essas entrevistas.

- Ótimo! Era só isso que eu queria ouvir. Qual dia na semana que vem?

- Jack. – chamou Clara. – Vem aqui um pouquinho.

- Sim senhora! – respondeu Jack com uma mesura. – O que foi?

- O Jonas quer que eu dê entrevistas para alguns veículos brasileiros na semana que vem. Qual dia você acha que será o mais tranquilo para isso?

- Você estará comigo no Abbey Road a semana toda, não sei amor, acho que lá pela quinta ou sexta-feira, talvez as coisas fiquem mais calmas lá no estúdio.

- Então é isso, Jonas, marca na quinta. Mas vê lá quantas entrevistas você vai marcar. Você sabe que não gosto de dar entrevista, não é?

- Sei sim. Parabéns! Agora vai lá cortar seu bolo...

Alguns segundos depois a conversa com o editor foi interrompida por Mary, a ex-mulher de Jack, que se aproximou de Clara e puxou-a para longe da agitação, no banco próximo ao jardim das rosas.

- O casamento de vocês foi lindo. Quando ouvi os votos tive certeza de que você o ama muito, como eu o amei um dia. – disse Mary, segurando as mãos de Clara.

- Você está certa. Acho que não conseguiria amá-lo mais do que já amo. – respondeu Clara.

- O que eu quero te pedir é que cuide dele porque ele não é muito bom nisso. Ele precisa de alguém para pegá-lo pela mão e tirá-lo daquelas crises que sempre o rondam. – disse Mary. – Mas acho que você já percebeu isso, não?

- Sim, Mary, eu já percebi. E pode ter certeza que eu estarei sempre perto quando ele precisar. Por mim, de agora em diante, ele estará sempre sob a luz do sol, mesmo quando não existe sol.

- Era só isso que eu queria ouvir! Se precisar de mim, estou a sua disposição. – disse Mary abraçando Clara e beijando-a no rosto.

- Obrigada! Seremos grandes amigas então. – respondeu Clara. – Agora vamos voltar para a festa?

As duas voltaram a aproximar-se das mesas onde estavam os convidados da festa. Kate veio na direção delas e abraçou Mary e Clara.

- Você vai cuidar do meu pai, não vai, Clara? – perguntou Kate.

- Não se preocupe, Kate. Eu tomo conta dele. - disse Clara.

Anne aproximou-se do grupo e chamou Clara para ir até a mesa de doces cortar o bolo. Ela pegou Kate e Mary pelas mãos e seguiu Anne, enquanto Jack caminhava na direção delas. Ele deu a mão para Kate e todos seguiram até a mesa.

Depois de cortar o bolo, Jack e Clara ouviram brindes dos padrinhos, beberam champagne e seguiram para a pista de dança.

A banda do filho de Jack começou a tocar e depois de toda a parte tradicional da última valsa com seu pai, veio a primeira dança dos noivos, “Unexpectedly” foi tocada mais uma vez e Jack e Clara dançaram inaugurando a pista de dança e também o rodízio de músicos no palco.

Alguns convidados da festa, como o cantor Bono Vox e o guitarrista Keith Richards começaram a tomar conta do palco e a fazer uma Jam que deixaria qualquer fã de rock enlouquecido.

Jack também subiu ao palco e cantou músicas de Elvis Presley, enquanto Clara dançava com seu neto.

E depois de dançar muito, Clara subiu ao palco e jogou o bouquet que foi pego por Ciça, sua irmã.

E com todo o ritual do casamento devidamente cumprido, o casal subiu até a casa, trocou-se de roupa e Clara chamou Jane até o quarto de hóspedes para devolver-lhe a pulseira de pérolas.

- Obrigada querida! Não estou cabendo em mim mesma de tanta felicidade!

- Vá em frente garotinha e faça meu irmão feliz! Vocês combinaram seus votos, não? – perguntou Jane sorrindo.

- Não! Cada um escreveu o seu e só soube o que ele tinha escrito hoje, lá no altar. Estranho não é?

- Querida, vocês dois foram feitos um para o outro. Poderiam ter dito qualquer coisa e até na hora dos votos acabaram dizendo as mesmas palavras. Estou arrepiada porque sei que é verdade. Coisa de destino... – disse Jane abraçando Clara e Jack.

- Pois é. Quando ela terminou de dizer os votos eu fiquei chocado ao perceber o quanto eles tinham em comum com aquilo que eu escrevi. – disse Jack tirando uma pétala de rosa presa nos cabelos do Clara.

Com os dois prontos para partir, eles despediram-se dos pais e irmãos de Clara e de David e Cindy e correram até o Rolls Royce sob uma nova chuva de pétalas e de arroz, agora produzida pelos convidados da festa que receberam pequenos pacotes para jogar nos noivos.

- Jack, estou morta! – disse Clara atirando-se no banco detrás do carro. – Nunca pensei que casar cansava tanto.

- Eu também, meu amor! – disse Jack, abraçando-a. – Vamos agora para nossa lua de mel?

- Vamos! Toda a bagagem já está no carro, só precisamos seguir para o aeroporto. Pegamos nosso vôo para Birmingham e estaremos em casa...

- Birmingham? Casa? – disse Jack sorrindo. – Não, amor, vamos para Paris. Um passarinho me contou que você queria passear comigo e eu achei que seria muito mais romântico levar minha pequena Clara para lá!

- Sério? Ah! Meu amor! Nem sei o que dizer! Eu te amo, te amo, te amo. – repetia beijando Jack no rosto e no pescoço.

A brincadeira dos dois repentinamente foi ficando mais séria. Jack e Clara, no banco de trás do carro enorme e luxuoso reviviam sua primeira vez em Nova York, dentro da limusine que os levava para o hotel. Acionaram o mecanismo que isolava a parte detrás do carro do motorista para terem privacidade e se entregaram aos seus sentimentos.

O trajeto até o aeroporto não era muito longo, mas como eles viajariam novamente de jato particular, os dois logo se arrumaram novamente para entrar na pista do aeroporto e seguir até o avião.

O carro parou na pista, eles desceram, pegaram suas bolsas de mão e subiram no avião, onde o piloto e o co-piloto os cumprimentaram pelo casamento.

A comissária de bordo serviu bolo e champagne assim que o avião decolou. O voo foi tranquilo e em apenas uma hora o avião já pousava no aeroporto Charles De Gaulle.

Uma limusine os esperava na pista e em poucos minutos já chegavam ao hotel George V, o mesmo em que tinham ficado na semana do show da UNICEF; por sinal, a suíte reservada era a 1020, a mesma da primeira vez.

O staff do hotel deu um bouquet de rosas para Clara e o gerente do hotel fez questão de cumprimentá-los pelo casamento. Os dois subiram e Jack carregou Clara no colo para dentro da suíte onde encontraram muitas flores, uma grande cesta de frutas e uma garrafa de champagne.

Estavam tão cansados que mal entraram na suíte, deixaram a bagagem em um canto do quarto, guardaram o champagne no frigobar, tiraram as roupas, desligaram os celulares e foram dormir na cama coberta de pétalas de rosas.

Mas antes de deitarem-se, Clara ainda precisava soltar os cabelos, Jack ajudou-a retirando os grampos e depois escovando seus cabelos.

- Boa noite, senhora Noble. – disse Jack rindo. – obrigado por estar aqui comigo.

- Eu te amo, senhor Noble... Eu que agradeço por você ter me aturado todo esse tempo, meus ataques, minhas choradeiras...

- Querida, eu não mudaria nada em você, nadinha... Agora vem aqui, preciso te agarrar para conseguir dormir, você é meu novo ursinho de pelúcia tamanho gigante.

Clara sorriu, beijou-o e aninhou-se em seus braços, usando seu ombro como travesseiro, ficou enrolando os dedos nos cachos de seu cabelo até dormir.

Quando Jack acordou, já tinha anoitecido em Paris. Ele se levantou, foi até o banheiro e abriu as torneiras da banheira. Depois pegou em sua mala óleos essenciais e sais de banho que havia comprado especialmente para a ocasião.

De olhos ainda fechados, Clara estendeu os braços procurando Jack e percebeu que ele já estava de pé.

- Jack?

- Boa noite, meu amor. Estou aqui no banheiro, preparando a banheira para nós.

- Hum! Boa ideia... - disse Clara enquanto caminhava em sua direção. - Boa noite, marido!

E os dois passaram a cuidar um do outro, o clima de sensualidade era apenas um reflexo do carinho infinito que existia entre eles. Estavam em paz e davam os primeiros passos em um caminho que se abria infinito.

- Vamos sair para jantar? No Cinq? - perguntou Jack.

- Você quer ir jantar? Tem certeza?

- Sim, amor... Você não disse que queria passear em Paris?

- Quero sim. Vamos jantar e depois andar um pouco por aí?

- Perfeito! Não acredito ainda que estamos aqui. Que nos casamos hoje. Para mim, tudo parece um sonho.

- Para mim também, amor. Você sabe que o Cinq tem uma pista de dança e a gente pode também passar a noite dançando, depois de jantar.

- Lindo... - disse sorrindo. - você é tão romântico quanto eu.

- Sou muito mais e completamente louco por você. Te amei assim que vi a sua foto na capa detrás do seu livro.

- E eu te amei quando te vi pela primeira vez naqueles videos da Crossroads que passavam na MTV. Você era a perfeição. Você não sabe o quanto desejei uma máquina do tempo para ir até você e vê-lo no palco, com a banda.

- E eu comprei passagens para ir até o Brasil. Eu tinha um plano, se você não aceitasse a minha proposta, iria até sua casa, bateria em sua porta e te agarraria assim que você atendesse.

- Meu Deus! Acho que se você fizesse isso, eu morreria do coração. Você não sabe o efeito que tem sobre mim. - respondeu Clara suspirando.

- Vamos então para o Cinq? Vou ligar para o concierge, pedir que faça reserva. - disse Jack puxando o telefone para mais perto da banheira.

Clara apenas aninhou novamente sua cabeça no ombro de Jack e esperou que ele terminasse de pedir a reserva. Depois os dois se levantaram da banheira e seguiram com seu ritual de beleza, cremes hidratantes, secador de cabelo, perfumes, logo estavam prontos para vestirem-se e descerem até o restaurante.

Jantaram, dançaram agarrados na pista de dança e saíram para uma caminhada de mãos dadas nas vizinhanças do hotel. Jack pediu que um segurança do hotel os acompanhasse e assim ficaram tranquilos apenas desfrutando das paisagens lindas e românticas da cidade à noite.

- Me fala que não estou sonhando, Jack. Me diz que isso tudo aqui ao nosso redor é de verdade, que não vou acordar daqui a pouco sozinha, no meu quarto lá no Brasil.

- Você não está sonhando, Clara, casamos, estamos em Paris e logo estaremos em Londres, na nossa casa.

Os olhos de Clara já estavam de novo cheios d' água e Jack a beijou. Decidiram voltar para o hotel, estavam cansados de toda a correria do casamento e tinham intenção de sair cedo no dia seguinte, para curtir um pouco mais a cidade juntos.

Voltaram para a suíte, trocaram de roupa e Clara vestiu a camisola que havia comprado em Paris. Os dois sentaram-se no piano onde Jack passou a tocar uma melodia suave que Clara logo reconheceu como “Love You Forever”.

Ela queria poder guardar aquele momento para sempre, aproximou-se dele ainda mais e começou a cantar suavemente os versos da música, enquanto ele fazia a segunda voz. Os olhos dos dois começaram a lacrimejar, estavam revivendo a emoção de um quase primeiro beijo que aconteceu há pouco mais de um mês, em Nova York. Mas naquela noite nada, nem ninguém, impediria aquele beijo.

Veio o beijo e vieram os carinhos, Jack pegou Clara no colo e a levou para a cama e os dois tiveram a noite mais perfeita de suas vidas. Paris assistia quieta pelas janelas aquele amor que tinha nascido em um minuto e não morreria tão cedo.

A beleza da noite invadiu os sonhos dos dois, mais uma vez eles cruzavam os céus noturnos de mãos dadas atravessavam o infinito gelado, até chegarem a um outro lugar, um bosque com árvores centenárias, onde a única luz do sol que chegava criava colunas douradas que tocavam delicadamente o solo após romperem a barreira de galhos e folhas. Um perfume de lavanda vinha de um campo florido próximo, que não estava visível, mas que Clara e Jack já conheciam há muito tempo.

Aquele bosque era deles, conheciam cada pedra e cada planta daquele lugar, sabiam até como soava cada um dos pássaros que ali se abrigavam.

E estavam lá por amor. Ela era uma sacerdotisa e tinha abandonado o templo porque se apaixonara por um jovem cavaleiro que um dia atravessou seu caminho, em um momento em que menos esperava.

Ela o viu e o desejou e seu desejo por ele fez com que seu destino, definido pela Deusa no momento de seu nascimento, mudasse completamente.

Destituída de seus poderes sobre os homens, partiu ao lado de seu amado para a floresta e fez dela sua casa. Usando seus conhecimentos da natureza, eles construíram seu lar em uma pequena clareira, um lugar que os homens não se atreviam aproximar-se porque era também o lar de uma grande matilha de lobos.

Ela, que nunca teve medo de nenhum animal, usava agora as lendas que cercavam o bosque para proteger-se.

Mas dentro do coração de seu cavaleiro existia um soldado, que ouviu um dia, através do bosque, o chamado das glórias da guerra e nunca mais voltou para ela.

Cada vez mais triste, ela seguiu cuidando de seu bosque através das estações, ainda na esperança de que ele retornasse para seus braços, mas quando chegou seu dia de voltar para a Deusa, ela morreu sussurrando seu nome.

Jack e Clara acordaram juntos, com os olhos cheios de lágrimas, tinham tido exatamente o mesmo sonho, com o bosque e a sacerdotisa que esperava dia após dia o retorno de seu amado. Não disseram nada um ao outro, apenas começaram a chorar abraçados.

- Jack, como isso está acontecendo com a gente? - perguntou Clara assustada. - Será que...

- Claro, só pode ser... éramos eles... Faz todo sentido do mundo. Daí seus sonhos com aquele mago e tudo mais. Precisamos contar isso tudo para o David, ele entende dessas coisas como ninguém e vai explicar tudo para a gente.

- Ah! O mago... Jack, há alguns dias sonhei com ele novamente, ele me contou uma história sobre um mago que tinha buscado ter muito poder e por isso destruiu a floresta até que ela se tornou um deserto. Depois de um tempo, arrependido e estudando mais, a floresta se refez, mas que mesmo mais sábio, esse mago ainda poderia estar tentado a querer novamente o poder... Faz sentido para você?

- Faz sim. Pior que faz muito sentido...

- E tem mais uma coisa, no sonho, eu perguntei para o mago se eu poderia fazer alguma coisa e ele me disse que eu deveria mostrar para ele onde está a luz.

- Mesmo? É assustador... Mas menininha, eu sabia que te amava há muito tempo, esse sonho só mostra que faz mais tempo do que eu pensava. - disse Jack mudando rápido de assunto e deixando Clara ainda mais intrigada.

- É, nós nos encontramos de novo, pelo jeito... - disse Clara sorrindo e acariciando os cabelos de Jack - E eu estou muito feliz que isso tenha acontecido.

- Vem aqui, vem, menininha, que eu vou te mostrar a espada do cavaleiro... - disse Jack rindo.

- Ah! Que lindinho! - respondeu beijando-o e voltando ao carinhos que, pelo jeito, recomeçavam em suas vidas.

O dia amanhecia quando os dois pegaram novamente no sono. Felizes e tranquilos, não voltaram a discutir o sonho estranho naquela manhã, que aproveitaram fazendo compras em algumas das lojas mais sofisticadas de Paris. Estavam disfarçados com roupas que buscavam torná-los mais um par de turistas no meio da multidão que caminhava pela cidade naquela sexta-feira.

Mas quando eram identificados nas lojas, recebiam o tratamento reservado às celebridades. Sua presença significava o atendimento por gerentes ou donos com um cuidado e uma cortesia que quase nunca seriam vistos pelos turistas comuns.

Jack estava disposto a atender cada pequeno ou grande desejo de Clara e ela, no mesmo espírito, buscava mimá-lo de todas as formas possíveis.

Cheios de sacolas, pegaram um taxi e voltaram para o hotel. Ninguém os perturbou, ninguém os reconheceu. Uma maravilhosa notícia que os liberava para continuar passeando pela cidade. Voltaram para a suite e pediram seu almoço ao serviço de quarto. Por mais que o verão de Paris os convidasse para andar pelas ruas, também eram muito bons os momentos em que ficavam apenas juntos na suíte.

O almoço foi leve e complementado por frutas frescas da cesta oferecida como cortesia ao casal. Logo, aproveitavam a tarde para descansar agarrados no terraço.

- Então nos conhecemos há séculos, menininha... Talvez milênios ou pela eternidade toda...

- Será? Eu estou tão confusa, Jack. Foi uma coisa muito intensa aquele sonho, eu quero dizer, nunca ouvi falar de pessoas sonhando a mesma coisa, no mesmo instante. Só isso já seria estranho, mas o que eu senti... Aquela mulher era uma bruxa, de verdade. Eu quero dizer, ela foi abandonada naquele bosque, mas não existia desespero nela, eu percebi um sentimento de que ela, o bosque e o cavaleiro eram uma coisa só e, assim, mesmo longe, ela continuava ligada a ele. Não sei nem por onde começar a entender uma coisa dessas.

- Mas acho que não é para entender. É uma coisa para sentir, vivenciar e deixar para trás. É como se a natureza estivesse mostrando para nós como tudo começou e o quanto a gente tem sorte de poder reconhecer um ao outro depois de tanto tempo.

Clara ouviu as palavras de Jack e não podia deixar de perceber a profundidade delas. Talvez ele estivesse certo e muito mais do que deixar os dois assustados, eles ganharam uma chance de perceber que o que tinham não era uma paixão repentina causada por uma simples atração, mas uma união de espíritos com muita coisa em comum, reencontrando-se novamente para continuar o que começaram.

- Te preocupa isso, não é? - perguntou Jack carinhosamente para Clara, olhando-a fundo nos olhos.

- Você me conhece. Não precisa muito para me deixar fora do meu normal e esta foi uma experiência daquelas...

- Sempre com um pé atrás... - perguntou Jack com um ar que parecia decepcionado, de um momento para outro.

- Nunca! É que eu desejava que tudo fosse mais simples, eu te amo, você me ama. Fim da história... Viveram felizes para sempre.

Jack sorriu e balançou a cabeça.

- Isso não existe! Você quer um conto de fadas e somos pessoas de verdade.

- Eu sei, meu amor. Mas não é pé atrás. Para mim, estar com você, bastaria. Não preciso saber que nos tivemos e nos perdemos há centenas de anos, não preciso saber exatamente como são os laços que me ligam a você para te amar desesperadamente. - disse Clara com os olhos cheios d'água.

- Ah! Vem aqui, meu amor... - respondeu Jack também com os olhos cheios d'água.

Os dois caminharam até o quarto, precisavam estar juntos mais do que nunca, Clara e Jack se beijavam e choravam diante do vislumbre daquele passado em comum e do poder daquele amor.

Passaram o resto do dia na cama e quando anoiteceu, levantaram-se e foram tomar banho juntos na banheira de mármore. Clara acendeu um incenso e os dois estavam decididos a apenas relaxar e não pensar mais naquele sonho, nem em suas implicações. Como de hábito, um cuidou do outro com muito carinho e logo estavam elegantemente vestidos com as roupas novas que tinham comprado naquela manhã.

A cidade fervia fora da janela, o ar perfumado das flores de um parque próximo era trazido pelo vento e os convidava a sair, por isso, depois do banho, os dois saíram para caminhar de mãos dadas, queriam resgatar a sensação de que o acaso os havia juntado e assim queriam que o acaso os levasse a algum lugar mágico que fosse ao mesmo tempo um bom restaurante, onde eles pudessem ter uma noite romântica para namorar, conversar sobre bobagens e comemorar o fato de estarem juntos.

Encontraram este lugar mágico em um restaurante italiano que ficava a poucos metros do hotel onde estavam hospedados. Mais uma vez foram recebidos como reis, comeram, beberam vinho e se deliciaram com a sobremesa acompanhada de champagne. Estavam bem mais tranquilos e comemoravam o fato de aparentemente, todos os paparazzi e fãs de Paris os terem deixados em paz.

- Ao dia perfeito, ao lado do homem perfeito, na cidade perfeita em um dos momentos mais felizes de todas as minhas vidas. - brindou Clara com uma taça de champagne nas mãos.

- A um amor muito maior do que nós dois! - respondeu Jack, brindando.

Clara brindou e sorriu. Seus olhos mais uma vez mergulhados nos dele, os dois ficaram em silêncio alguns instantes, navegando aquela onda de amor que sentiam, alheios ao que acontecia ao redor.

Jack pediu a conta e os dois saíram, ainda em silêncio, do restaurante. Continuaram seguindo pela rua de mãos dadas até encontrarem a Avenida Champs Elisee. Um vento gelado começava a soprar e Jack percebendo que a pele de Clara começava a ficar mais fria, propôs que voltassem para o hotel, mas ela não quis.

Então para que ela não congelasse, tirou o paletó que usava e a fez vesti-lo. Era enorme para ela, mas assim podiam continuar andando, vendo a cidade mais de perto, juntos, como ela havia desejado antes. Entraram em um bar, pegaram uma mesa em um canto bem escuro, Jack pediu uísque para os dois. O bar tinha música ao vivo e uma banda de músicos veteranos tocava Jazz.

Os dois se aninharam nos braços um do outro e ficaram ouvindo a música. Quando alguns casais se ergueram e foram para a pista de dança, eles resolveram fazer o mesmo.

Os músicos tocavam velhos standards e Jack sussurrava as letras no ouvido de Clara. Era outra vida, outra época e não importava o que acontecesse de agora em diante, ele nunca mais a abandonaria.

Pagaram a conta e voltaram para o hotel no final da noite, quando a neblina começava a tomar as ruas. Subiram para a suíte e foram direto para a cama. Clara estava bem zonza depois do uísque e pegou no sono rapidamente. Jack estava preocupado, fingiu que estava dormindo, mas levantou-se assim que Clara pegou no sono.

Pegou seu celular, foi até o terraço e ligou para David.

- Desculpa te ligar a essa hora, mas tem uma coisa que está me enlouquecendo...

- Oi velhão, tudo bem, estou no estúdio acertando um arranjo. Tudo bem por aí?

- Cara, tem uma coisa que está me enlouquecendo.

- O que foi? A Clara está bem?

- Nós dois tivemos o mesmo sonho na noite passada. Eu era um cavaleiro e ela era uma sacerdotisa, que abandonou tudo para ficar comigo, mas depois de um tempo, eu deixei ela sozinha, na floresta onde morávamos e fui para a guerra.

- Uou! Cara! Fala isso devagar para eu tentar entender. Puxa! Você sabe que isso não foi um sonho, não é Jack?

- Sei. Foi muito intenso, eu e ela acordamos juntos, chorando. Cara, o que eu faço agora?

- Esteja sempre com ela. Você não é nem louco de abandonar essa mulher de novo. Porque sabe o que vai acontecer, se você largar ela?

- O que?

- Ela vai te achar de novo e vocês vão se apaixonar de novo a primeira vista e muito provavelmente ela vai te devolver em dobro o abandono e o sofrimento que ela teve.

- Ela nunca faria isso, nem eu. Não vou conseguir viver sem ela, se ela me deixar, eu sei que não vou sobreviver.

- Então, velhão, está aí a tua resposta! Pára de encanar com essas coisas e vai ser feliz. Se você quer uma explicação para o que está acontecendo, então vai lá; isso de conseguir enxergar o passado de vocês provavelmente é uma coisa dela, os grandes magos adquirem com o tempo essa consciência de tudo o que já viveram e pelo que você já me contou do relacionamento de vocês, ela ainda não sabe, mas já foi uma bruxa poderosa.

- Para mim basta saber que nós estamos juntos agora. Ela também ficou nervosa com essa história e eu não queria que ela ficasse, queria esquecer tudo isso. Ela mesma disse que queria só um final feliz, de conto de fadas.

- Mas vocês podem deixar isso para trás, então vocês já sabem o que aconteceu, porque não conseguem se largar, porque tudo foi tão avassalador. Agora é olhar só para frente, cara. Deixa o passado ficar lá onde está e pronto.

- Você tem razão. Vou dizer para ela o que você me disse e a gente vai ficar bem, tenho certeza disso.

- Vai lá velhão. Dá um trato nela que ela merece. Já esperou muito por você.

- Tchau Dave, beijo.

- Beijo, velho!

Jack desligou o telefone, levantou-se da cadeira do terraço e ficou apenas olhando para a cidade quieta, naqueles momentos em que a noite parece estar dando seu último suspiro e fica ainda mais escura a espera de que o sol surja clareando o horizonte.

Clara acordou, percebeu que estava sozinha na cama e saiu pela suíte procurando por Jack. Estava com frio, por isso pegou um roupão no banheiro e caminhou até o terraço.

- Oi amor. Veio ver o sol nascer?

- Estava conversando com o David. – disse mostrando o celular para ela.

- E o que ele disse?

- Que a gente tem que deixar isso de lado e tocar nossa vida olhando para frente. Ele também acha que o sonho foi uma memória nossa, mas que o melhor é deixar o passado para trás...

- Já deixei. Ele sabe por que isso?

- Ele acha que é um poder seu. Que você era uma bruxa que conquistou isso, que enxerga todas suas vidas anteriores assim e... bom, para resumir, eu estou aqui para você, minha bruxinha. Você manda! E eu te amo e sou completamente teu e nunca mais vou te abandonar. – disse sorrindo e se ajoelhando na frente de Clara.

Clara desconcertada ajoelhou-se também e beijou-o como se o mundo estivesse terminando. As lágrimas corriam dos olhos dos dois e eles decidiram sentar-se na cadeira do terraço para assistir ao nascer do sol juntos.

- Esse dia que está nascendo. É o primeiro da minha vida. Não me interessa o passado, só o futuro. – disse Clara assim que o horizonte começou a tingir-se de rosa.

- E eu te prometo agora, que nunca mais vou te deixar. Vou estar do seu lado para sempre, menininha.

Clara sorriu e beijou Jack no pescoço, no peito e em seguida Jack pegou-a no colo e voltaram para o quarto onde passaram a manhã inteira entregando-se ao que sentiam, um amor que agora eles sabiam, existia há séculos.

Levantaram-se, tomaram banho juntos e desceram para tomar o café da manhã em um dos charmosos cafés parisienses que viram em seu passeio noturno, a poucas quadras dali.

Estavam disfarçados porque sabiam que no final da semana a concentração de turistas passeando pelas ruas aumentava a chance de serem reconhecidos, mas mesmo assim, depois do café, pegaram um táxi e foram até Versalhes. Como o dia estava muito ensolarado decidiram ficar pelos jardins, nem quiseram pegar a fila para entrar no palácio.

- Nós já vimos o que tem dentro mesmo, lá em Nova York. – brincou Jack.

- É! E daquele lugar, só sinto falta do piano do Liberace. – riu Clara, puxando Jack para trás de uma árvore, assim que percebeu que um grupo de turistas apontava para ele e começava a caminhar em sua direção. - Jack, vem, vamos entrar no labirinto, ali. Acho que te reconheceram.

Os dois correram para dentro do labirinto e assim que saíram completamente do campo de visão começaram a beijar-se.

Saíram do labirinto, tomaram um sorvete, pegaram um táxi e foram para o Louvre. A fila estava enorme e eles acabaram desistindo. Decidiram andar um pouco lá perto, pediram para pessoas que estavam passando para fotografá-los juntos e continuaram passeando de mãos dadas até o final da tarde.

Pegaram um táxi e voltaram para o hotel, Estavam mais felizes do que nunca. Jantaram no hotel e decidiram ver “Nasce Uma Estrela”, um velho filme romântico que estava passando na TV.

- Você gosta dessas coisas românticas, né menininha...

- Adoro! Jack. Você não?

- Não muito, mas você manda menininha. Você quer ver filme, eu estou aqui do seu lado.

- Não está certo, Jack. Eu quero que você continue sendo você mesmo. Se não quer ver o filme, tudo bem, o controle remoto...

- Quero ver sim. Eu quero estar com você, estou aqui porque quero estar, ok?

- Ok!

- Quer champagne, menininha?

- Quero! Pede morangos também...

- Seu desejo é uma ordem, senhora Noble. – respondeu Jack curvando-se.

Continuaram assistindo ao filme, agora com taças de champanhe e um prato de morangos nas mãos.

- Queria ser como ela. – disse Clara.

- Quem? A Barbra Streisand?

- É amor! Ter aquele vozeirão. Adoro a voz dela, mas nunca aprendi a cantar, sou desafinada de nascença. – disse Clara repentinamente.

- Desafinada? Não, já te vi cantarolando por aí e você não me pareceu desafinada. Canta um pouquinho para eu ouvir.

- Ah Jack! Eu fico sem graça... – respondeu Clara rindo.

- Vem aqui no piano. – disse Jack puxando-a pela mão. – Vem, quero te ouvir.

Ela levantou-se e foi com ele para a sala de estar da suíte.

- O que você quer que eu toque?

- Conhece “The Nearness of You”?

- Claro! Canta um pouquinho, para eu pegar o teu tom.

E sentada ao lado de Jack, Clara cantou os primeiros versos da música.

- Vamos lá, um dois, três... – contou Jack e Clara começou a cantar.

- Sabe que você leva jeito? Você é bem afinada, talvez falte aprender a soltar mais a voz, vamos fazer um dueto no próximo disco?

- Não, amor... sou muito tímida para essas coisas de palco. Sofria muito quando tinha que fazer alguma coisa para TV.

- Mas você canta bem. Acho que nossas duas vozes se encaixariam tão bem quanto os nossos corpos.

- Quer ver? – Jack começou a tocar “Love you Forever” e pediu que Clara o acompanhasse. Ela cantou como achou que soaria melhor e ele a corrigiu, pedindo que ela colocasse uma das mãos em seu ouvido para ouvir melhor o que estava cantando.

- Solta a voz, amor... solta... – disse Jack.

- Levanta... aqui, tua voz está aqui – disse segurando Clara na altura do abdômen, apertando de leve. – Vai agora amor.

Ela respirou mais fundo, conseguiu acompanhá-lo até o final da música e pela primeira vez na vida gostou de sua própria voz.

- Eu te amo, Jack! Nunca pensei que algum dia me sentiria orgulhosa ao ouvir a minha própria voz cantando, mas é assim que eu me sinto agora. – disse Clara beijando Jack no alto da cabeça.

Jack se virou no banco do piano, puxou Clara para sentar-se no seu colo e começou a tirar a sua roupa, mais uma vez estavam em chamas e o desejo tomava conta de seus corpos e mentes.

Ele levantou-se e levou-a no colo até um sofá da sala de estar, ficaram lá pelo resto da noite, apenas fluindo no ritmo do amor.

Na madrugada, Clara começou a sentir frio e puxou Jack até o quarto, onde pegaram no sono abraçados.

De manhã, o celular de Jack tocou, era David querendo saber como estavam as coisas, Jack levantou-se e foi conversar na sala com ele. Clara também acordou, mas fingiu que ainda estava dormindo para deixá-lo mais a vontade.

- Está tudo bem agora. Contei para ela o que você me disse e a gente decidiu esquecer essa história por enquanto. Passamos um dia maravilhoso ontem.

- Viu só, velhão? Tenham calma que as coisas se ajeitam.

- Você tem razão, Dave. Não tenho pressa, agora eu sinto que tudo vai ficar claro para a gente. Estamos muito felizes.

- É só isso que importa no final das contas, não é? Bom, vou te liberar para vocês serem felizes mais um pouco... manda um beijo para a bruxinha!

- Beijo Dave! E hoje aquele teu timinho vai tomar uma surra.

- Não vai, não... Esse ano é nosso!

Jack desligou o telefone e voltou para a cama tentando não fazer barulho, mas Clara já havia se levantado e voltava do banheiro.

- Bom dia, amor. Era o David, no telefone?

- Sim, queria saber como estão as coisas.

- E o que você disse para ele?

- Que estamos felizes e que o dia de ontem foi maravilhoso. Esqueci alguma coisa?

- Esqueceu sim...

- O que?

- Esqueceu de dizer que eu amo o melhor amigo dele tanto que não consigo passar nem um minuto sequer sem desejá-lo.

- Hum... Gostei dessa parte. Quer que eu ligue para ele para contar isso?

- Não, maluquinho... vem aqui para a cama, vem...

Os dois passaram mais algumas horas doces nos braços um do outro. Tinham combinado de ir a Montmartre, naquele dia, mas estavam com medo por aquele ser um dos pontos de Paris com maior afluência de turistas. O sol e o calor que fazia na cidade também não ajudavam; Clara prendeu o cabelo de Jack em um coque alto e escondeu-o sob um boné, um óculos de sol grande, camiseta regata e bermuda completavam o disfarce.
Clara prendeu os cabelos em duas tranças, vestiu uma camiseta de alças, shorts jeans, chinelos, chapéu e óculos de sol grandes. Para não sentirem frio, nos cafés com seu ar condicionado gelado, os dois amarraram moletons na cintura; estavam iguais aos milhares de turistas europeus que visitavam a cidade durante o verão.

Para dificultar ainda mais o reconhecimento, Clara manteve no dedo só a aliança de casamento, guardando o anel de noivado junto com as outras jóias no cofre da suíte.

Na verdade, aquela lua-de-mel em Paris estava sendo muito mais tranqüila do que os dois jamais haviam imaginado. Até agora, nem sequer um pedido por fotos ou autógrafos. Clara estava até estranhando. Será que o público havia desistido dele depois de tanto tempo?

Mas ela sabia que não era esse o caso e que tudo estava funcionando daquela forma simplesmente porque a cidade estava cheia de turistas, assim encontrá-los por lá seria como achar uma agulha em um palheiro, ainda mais, do jeito que estavam andando, sem seguranças e com roupas idênticas as que as pessoas usavam nas ruas.

Saíram para tomar café na rua, Clara falava com o garçom para evitar que Jack fosse reconhecido pela voz. Ela falava francês e enquanto fazia o pedido, Jack apenas a observava embevecido. Depois que o garçom se afastou, ele sentiu-se livre para falar:

- Francês, ah! Você sabe falar francês também?

- Só o suficiente para me virar... por que?

- Porque é sexy! Você vai falar francês na cama para mim?

- Oui monsieur, je t'aime!

- Não provoca, porque você não sabe do que sou capaz, menininha.

Clara riu e pegou Jack pela mão. - Você é maluquinho, mas um maluquinho que eu adoro.

Jack pegou sua mão e a beijou.

Depois do café, os dois pegaram um táxi até Montmartre. Um dos bairros boêmios de Paris, aquela região era famosa por concentrar muitos artistas plásticos que trabalhavam nas ruas e também músicos, atores e muitos, muitos turistas.

Caminharam, fotografaram, compraram pequenos souvenires e continuaram apenas desfrutando do passeio como aquela multidão de pessoas comuns que aproveitavam o domingo cheio de sol, de um dos verões mais quentes dos últimos anos na cidade.

Ao redor de um dos músicos de rua, alguns turistas dançavam e Jack puxou Clara e os dois também dançaram transbordando felicidade.

Já era hora do almoço e encontraram um restaurante de frutos do mar ali perto. Aliás, o restaurante era uma grata surpresa, depois de passar por uma porta de um estabelecimento comum, os dois foram levados para um belíssimo e florido pátio ao ar livre, onde ficavam as mesas.

Para evitar o reconhecimento, Jack e Clara permaneciam de chapéu e óculos escuros e pagavam todas as contas em dinheiro.

Ela ficou encantada com o restaurante, apresentou-se como uma fotógrafa brasileira de férias e pediu autorização para fotografar os detalhes arquitetônicos do prédio e as flores de cores fortes do pátio e foi muito bem tratada pelo gerente, que lhe entregou um pequeno livro com mais informações sobre aquele prédio que tinha um grande valor histórico.

Enquanto esperavam que sua refeição ficasse pronta, Clara fotografava e Jack permanecia na mesa, admirando-a de longe. Mandando beijos e acenando.

Almoçaram, beberam vinho e saíram mais uma vez andando pelo bairro, de mãos dadas, muito próximos, sem se largarem em nenhum momento. Perto do final da tarde, tomaram coragem e foram até a Torre Eiffel, que continuava agitada, mas as filas já tinham diminuído e um vento gelado começava a espantar uma parte dos turistas que ainda estavam por lá.

Clara e Jack vestiram os moletons que haviam levado. Entraram na fila e aguardaram sua vez de subir na torre sem serem perturbados.

- Menininha, estou surpreso com o que está acontecendo. Estamos invisíveis hoje, ninguém nos reconhece...

- Invisíveis não, amor. Invencíveis! - respondeu Clara beijando-o.

Jack abraçou-a e os dois assistiram ao por do sol do alto da torre, primeiro os reflexos avermelhados do céu e depois as estrelas surgindo no céu transparente, uma a uma anunciando uma noite linda que chegava.

Uma turista japonesa pediu que Clara batesse uma foto dela, no alto da torre e mesmo com medo de ser reconhecida, bateu a foto. A turista certamente não entendia o que aqueles dois faziam de óculos escuros e chapéus naquele lugar cada vez mais escuro, mas não se atreveu a perguntar.

Os dois desceram da torre, pegaram um táxi e logo estavam de volta no hotel. O mais engraçado é que os funcionários do hotel estranharam aqueles dois turistas tão mal vestidos entrando no saguão e até chegaram a aproximar-se, mas Jack tirou do bolso o cartão de hóspede e os dois seguiram rindo para o elevador.

Tomaram um longo banho na banheira juntos e algumas horas depois, quando já estavam muito bem vestidos, preparando-se para descerem para o restaurante Cinq, um funcionário do hotel bateu na porta, com uma entrega, um lindo bouquet de rosas na cor lavanda, com um cartãozinho escrito à mão que dizia: “Caros noivos, ouvi dizer que estas rosas são as favoritas da mais bela noiva que já vi em toda minha vida. Estou na cidade novamente, vamos jantar juntos no Cinq hoje? Liguem na minha suíte para combinarmos Ass: Mick Jagger”

- Sei que não podemos maltratar alguém como ele, mas não estou gostando nada disso... – disse Jack.

- Mas estas rosas são lindas, não amor? – disse Clara examinando o bouquet em suas mãos. – Ah vida, não se preocupa, ele não me atrai nem um pouquinho, você é meu amor!

Jack beijou-a e ligou para a suíte de Jagger. Desta vez ele estava com Gianna Carli, uma bela modelo italiana que estava na lista das maiores top models do mundo.

E logo os quatro desciam juntos no elevador a caminho do restaurante. Clara conversou com Gianna em italiano surpreendendo Jack mais uma vez.

- Hum, italiano? Eu deveria ter deconfiado, aquele seu sobrenome italiano que você não usa. Meu Deus, quantas línguas você fala afinal?

- Quatro! Não é muito Jack. Meu avô, por parte de mãe falava seis, ainda preciso aprender mais duas.

- A Clara é certamente uma mulher inteligente e de muitos talentos, Jack. Mas cuidado porque as inteligentes são as piores. – disse Mick sorrindo.

- Não, queridos, as inteligentes são as melhores, não é Gianna? – disse Clara rindo da frase machista de Jagger.

- O casamento destes dois foi um momento mágico, Gianna. Uma das festas mais bonitas em que já estive. – disse Jagger. – me deu até vontade de casar.

Todos caíram na risada depois da piada de Jagger, Jack abaixou um pouco a guarda e a noite foi muito divertida.

Jagger contou a eles que o casamento estava sendo o grande assunto da mídia nos últimos dias e os cumprimentou por fazer circular o boato de que teriam ido passar a lua-de-mel na casa de campo em Shatterford.

Jack começou a rir novamente. Ele mandou Michael passar uns dias por lá e instruiu-o a nunca deixar-se ver e naquele momento estava descobrindo que o truque funcionara, por isso, as coisas estavam tão calmas em Paris.

- O Michael? Sério? Nossa, precisamos mandar um presente para ele, Jack. Ele está salvando nossa lua-de-mel. Por que você não me disse nada? - perguntou Clara.

- Eu fiquei com medo que você ficasse com pena dele e o liberasse para ir embora antes do tempo. - disse Jack rindo. - Sei lá, aquela coisa de direitos humanos... Advogados não são humanos.

- Coitadinho Jack! Você é muito mau com ele. Ah! Mick, obrigada pelas flores, são tão lindas!

- Ah! Você estava tão linda no casamento no meio delas, que quando vi as rosas, na floricultura, achei que deveria mandá-las para você.

- Só uma pequena curiosidade, como você sabia que estávamos aqui?

- Quando cheguei no hotel ontem, pedi a suíte do piano e o gerente me disse que ela estava ocupada e depois vi vocês passando a pé pelo meu carro ontem à noite e entrando no hotel.

Finalmente uma explicação para toda aquela paz em Paris. Agora estavam ainda mais tranquilos e comentaram que estavam andando por toda a cidade disfarçados de turistas.

Jagger disse que sempre usava estes disfarces e que eles quase sempre funcionavam.

E depois os dois contaram sobre o restaurante de Montmartre que tinham descoberto na hora do almoço. E combinaram de almoçar por lá no dia seguinte.

O dia tinha sido longo e o champagne que tomaram já estava começando a deixar Clara um pouco tonta.

Ela então pegou a mão de Jack e a apertou. Ele entendeu no mesmo instante que ela estava cansada e gostaria de ir descansar.

- Foi um prazer encontrá-los, mas eu e minha esposa tivemos um longo dia de turistas hoje e por isso, vamos descansar agora. Amanhã cedo, te ligo para combinarmos a ida a Montmartre.

- Obrigada pela noite muito agradável, amanhã continuaremos a conversa. – disse Clara levantando-se com Jack.

Eles voltaram para sua suíte, tiraram as roupas e foram deitar. Jack aproximou-se de Clara e começou a beijar seu corpo e todo seu cansaço desapareceu em um minuto. Até que depois daqueles momentos de total entrega, eles pegaram no sono abraçados e só acordaram na manhã seguinte, com enormes sorrisos nos lábios.

- Bom dia, meu amor. – disse Jack. – Sonhei com você a noite toda.

- Hum! O que você sonhou? – perguntou Clara curiosa. – Foi um sonho bom?

- Foi lindo! Estávamos no bosque, perto da casa de campo e você estava cantando para mim, uma melodia linda e depois eu me aproximei de você e você me pegou pela mão e me levou até aquele campo de alfazemas perfumado que tem perto de casa e lá, nós tiramos nossas roupas e fizemos amor no meio das flores e foi sublime.

- Que sonho lindo, meu amor! – disse Clara beijando Jack e levantando-se da cama. – Nossa, parece que o dia está lindo lá fora. Estou morrendo de fome. Vamos tomar café?

- Vamos sim, querida. Quer pedir para o serviço de quarto, ou vamos naquele lugar de ontem? – perguntou Jack.

- No lugar de ontem... aqueles croissants de chocolate são quase tão gostosos quanto você. – disse Clara sorrindo.

- Hum.. Então você me trocaria por chocolate? Mesmo, menininha? – perguntou Jack fingindo tristeza.

- Trocar, não trocaria... mas acho que ia querer os dois juntos, sempre perto de mim. Ah! E tem outra coisa que eu não sei viver sem... música!

- E eu não consigo viver sem você, menininha. Te amo tanto que chega a doer. – disse Jack apontando para o peito. – Bem aqui!

Clara levantou a cabeça e beijou o lugar que Jack apontou. – Onde mais dói?

E Jack entrou na brincadeira e os dois mais uma vez se amaram. Depois levantaram-se da cama, tomaram banho juntos e foram tomar café da manhã.

Saíram com seus disfarces de turistas e enquanto tomavam seu café, receberam um telefonema de Mick Jagger confirmando que almoçariam juntos em Montmartre. Combinaram de sair juntos do hotel, ao meio-dia.

Jack queria ir de táxi, mas Jagger disse que tinha um carro alugado lá e poderiam ir os quatro juntos nele. Mick também disse que tinha dois seguranças a sua disposição que iriam acompanhá-los, já que os quatro juntos corriam o risco de chamar mais atenção.

- Pergunta se o Mick vai disfarçado, amor.

- Vocês vão disfarçados? – perguntou Jack.

- Vamos, claro. Vocês também, não?

- Sim... Tudo para escapar dessas pragas de paparazzi. Odeio essa gente e os malditos que enfiaram câmeras nos celulares também...

- Ok! A gente se vê então, meio-dia, no saguão.

Jack desligou o celular, pegou as mãos de Clara e beijou. - Está pronta, amor?

- Para que?

- Para enfrentar os lobos?

- Por que? Não vamos disfarçados?

- Porque hoje eu sinto que irão nos reconhecer e teremos que fugir de Montmartre com os lobos salivando atrás de nós.

- Ainda confio em nós. Somos invencíveis, lembra?

- Claro, amor. - sorriu Jack e beijou as mãos de Clara mais uma vez. As nuvens que tantas vezes escureciam seu olhar pareciam aproximar-se lentamente, sopradas por um vento manso e constante na preparação de uma nova tempestade prestes a acabar com sua tranqüilidade.

Depois do café, eles andaram um pouco ao redor do quarteirão. Queriam aproveitar o sol e aquelas últimas horas de sossego de sua lua-de-mel. A próxima semana seria de trabalho e sua parte mais difícil seria a de enfrentar a perseguição da imprensa que certamente se sentiria traída, assim que descobrisse a farsa que estava garantindo sua paz.

Retornaram ao hotel, vestiram roupas parecidas com as do dia anterior e alguns minutos antes do meio-dia, já estavam sentados no saguão esperando por Mick e Gianna. Quando os dois desceram, a surpresa foi coletiva e as gargalhadas generalizadas. Todos usavam os mesmos tipos de roupas que quase todos os turistas em férias de verão na Europa acrescidas de alguns detalhes para confundir, como óculos de sol, bonés, chapéus e tudo o que teoricamente impediria seu reconhecimento imediato por fãs ou fotógrafos.

- Desculpa, mas você poderia me informar onde eu encontro um restaurante aqui perto? - perguntou Mick para Clara, demonstrando como era a fala daquele personagem que estava criando.

Clara apenas riu e comentou em italiano com Gianna que gostaria de tirar fotos de todos juntos porque estavam muito engraçados. Jack deu a mão a Clara e todos seguiram para o carro. Lá fora, uma dupla de seguranças, também vestidos da mesma forma os esperava.

Os quatro subiram em um belo Mercedes preto e os seguranças em um carro que parecia um citroen. Mick parecia ter tudo coberto e ela sentia que não teriam problemas maiores naquele lindo dia de sol.

No restaurante, eles foram bem recebidos, assim que o gerente reconheceu Clara como a fotógrafa gentil e interessada na história daquele restaurante que havia almoçado por lá no dia anterior ainda mais agora que ela tinha até trazido mais alguns amigos.

Algumas vezes, ela percebia o olhar de Mick sobre ela, ficava embaraçada, mas nestes momentos, fazia questão de fazer algum gesto carinhoso na direção de Jack, demonstrar onde estava seu coração e sua mente, ocupados completamente por seu marido e sem espaço para mais ninguém.

A tarde foi muito agradável e ao contrário do que Jack esperava, foi tranquila, sem o reconhecimento dos fãs e sem a presença dos fotógrafos. Estavam em segurança e agora, Jack até discutia a possibilidade de comprar um apartamento por lá para passarem férias de tempos em tempos. Mick disse que tinha um, mas que no momento estava em reforma, por isso teve que recorrer ao George V, que na opinião dele, acabava sendo bem mais prático para férias.

- Então Clara, você adaptaria o "Symphathy with the Devil" para cinema? Te conhecendo melhor agora, acho que você faria um trabalho magnífico. - disse Jagger com um sorriso nos lábios.

- Não sei... Como já disse, nunca fiz roteiros, acho que seria melhor só supervisionar, trabalhar com alguém do ramo, apenas discutindo se o trabalho está de acordo com o que eu imaginei para a história. - respondeu Clara insegura, buscando a mão de Jack por baixo da toalha da mesa.

- Esta também é uma boa possibilidade. Vamos conversar com seu escritório nesta semana para fechar os detalhes, um de nossos representantes irá procurar o seu editor. Por sinal, conversei com ele no casamento e ele se mostrou aberto a negociações. Parabéns Clara, seu agente me pareceu um bom homem de negócios, eu o contrataria para meu time.

- O Jonas é ótimo e um bom amigo também, confio nele cegamente. Sei que ele sempre estará agindo em meu favor. Eu, pessoalmente, não tenho cabeça e não gosto de me preocupar com negócios, o que ele decidir está decidido.

- Eu também sou assim, fica tudo nas mãos do Michael. Não gosto de advogados, mas ele tem sido fiel a mim há mais de 20 anos. Uma relação que está durando muito mais do que qualquer relacionamento que já tive. - disse Jack sorrindo.

- Eu não consigo olhar de longe. Preciso saber de tudo, estar envolvido, ou tenho a impressão de que nada funcionará adequadamente. Acho que sou centralizador com estas coisas.

- Minha agente cuida de tudo para mim. Também não tenho cabeça para negócios. Acho tão chato. - disse Gianna dando o toque final de graça naquela discussão sobre controle dos negócios.

A verdade é que ali, naquele ambiente, Clara sentia-se uma estranha no ninho, ela era a única daquela mesa que não ganhava milhões a cada movimento da caneta.

E como Jack e Mick pareciam engajados em discutir negócios, Clara e Gianna começaram a discutir amenidades em italiano, roupas, sapatos, jóias, aquele tipo de conversa que Clara costumava ter com Cindy e Jennifer quando estava em Londres.

Do restaurante, eles caminharam até a escadaria que leva até a Basilica Sacre-Coeur, apenas não entraram para não estragar o disfarce, mas tiraram algumas fotos no meio da multidão de turistas e depois voltaram para o hotel onde riram mais uma vez da reação dos seguranças do hotel que por conta de sua aparência aproximaram-se e estavam prestes a pedir por identidades quando Jack e Mick puxaram os cartões de hóspedes.

Os quatro reuniram-se na suíte de Jack e Clara e ficariam por lá, aproveitando o piano e um jantar que pediram ao serviço de quarto. Mais uma noite perfeita, ao redor de música e conversas estimulantes com pessoas inteligentes e divertidas. Clara sentia que estava ficando mal acostumada, afinal aquele era seu grupo agora.

Aquela era a última noite da lua-de-mel deles em Paris, no dia seguinte partiriam cedo de volta a Londres e no final da tarde, aconteceria a primeira seção de gravações nos estúdios Abbey Road e tudo exatamente no dia de aniversário de Jack. Clara estava muito ansiosa por aquele momento, apesar dele significar o primeiro passo para longe de Jack.

Ela mais uma vez buscava dentro de si mesma as forças para segurar sua ansiedade. Não queria sofrer por antecipação e agora se concentrava em comemorar aquele momento em que ainda estavam juntos.

Mais tarde, quando já arrumavam as malas para a partida, ela teve uma pequena crise, mas não deixou que Jack percebesse. Não queria estragar aquela última noite em Paris sofrendo por algo que ela nem sabia se aconteceria da forma que imaginava.

Jack parecia também ansioso, a tempestade que ela havia percebido aproximar-se em seus olhos parecia agora tomá-lo por inteiro. Depois de deixar todas as malas prontas, Jack tirou a camisa e foi para o terraço com um copo de uísque nas mãos. Clara o seguiu e sem dizer nada, apenas encaixou-se entre seus braços. Jack abraçou-a e começou a tirar sua roupa e os dois fizeram amor no terraço, sob a luz da lua e das estrelas e com os telhados de Paris sob seus pés.

As lágrimas corriam dos olhos de ambos. A sensação era de despedida. Embora aquela vida em comum deles estivesse apenas começando, era preciso agora abrir as portas e deixar o resto do mundo entrar e isso os incomodava de uma maneira que nem eles mesmos sabiam definir, a sensação era devastadora.

Jack pegou-a no colo e levou-a ao quarto onde continuaram naquela doce entrega. Ele era todo carinho e atenção com Clara, enquanto ela se concentrava unicamente em seu desejo. Sentia-se arder por ele e os dois assistiram juntos ao sol nascendo mais uma vez no horizonte. Mas naquele dia, não havia muito tempo para apreciar a beleza do cenário.

Quando Clara acordou sussurrou suavemente no ouvido de Jack: - Feliz aniversário, meu amor. O que você quer de presente hoje?

- Você! Só você, meu amor. – disse beijando-a.

Mas o dia seria corrido e eles logo levantaram tomaram banho juntos e se vestiram para ir embora. Pediram o café da manhã para o serviço de quarto e mandaram fechar a conta do hotel.

Deram mais uma olhada na suíte para ver se tinham esquecido alguma coisa e saíram. No corredor encontraram Mick que estava saindo cedo para ir a uma reunião de negócios em Nice.

Dividiram o elevador e no saguão, Mick despediu-se de Jack dizendo que estaria de volta a Londres em poucos dias e fazia questão de visitá-lo no Abbey Road.

Depois ele pegou a mão de Clara e beijou-a, dizendo que esperava ansiosamente pelo momento em que trabalhariam juntos na adaptação do roteiro do filme. Ela estava tão triste por estar partindo de Paris, que nem as provocações de Mick conseguiam afetá-la.

Enquanto Jack fechava a conta no balcão, Clara sentou-se em um sofá e pegou seus óculos de sol na bolsa. Sabia que estava prestes a chorar e não queria que ninguém visse.

Subiram na limusine e foram muito quietos, por todo percurso. Abraçados até o aeroporto, mas em silêncio. Tristes por estarem se despedindo de Paris e daqueles momentos tão doces em que foram tão felizes.

Desceram do carro na pista do aeroporto, subiram no avião e esperaram a decolagem. Jack, pegou a mão de Clara, puxou-a para perto dele e sussurrou em seu ouvido: - Não fica triste, estamos indo para casa, amor.

- Ah Jack! Me desculpa. Não estou triste. Eu só queria que não tivesse passado tudo tão rápido.

- Eu também não queria. Mas vamos estar sempre juntos. Não se preocupa menininha, eu te prometo que nunca vou te abandonar.

Ouvindo isso, Clara começou a chorar muito. Tirou os óculos de sol e descansou a cabeça no peito de Jack, que a consolava. – Estamos juntos menininha. Estou aqui para você.

- Me perdoa, Jack. Estou estragando seu aniversário. Não sei de onde isso está vindo. Eu te adoro, estou muito feliz de estar com você, mas sinto muita dor agora, sinto como se estivéssemos nos despedindo.

- De jeito nenhum! Você não vai se livrar de mim tão cedo... nunca. – disse Jack abraçando-a e acariciando seus cabelos. – Se você continuar chorando desse jeito, mando o piloto voltar para Paris e de lá a gente avisa o David que só vou gravar quando a gente cansar.

Clara tentou sorrir da piada de Jack, enquanto ele tentava secar seus olhos e cuidava dela. Levantou-se, pediu a ela uma escova e arrumou seus cabelos em uma trança.

- Pronto! Já está a minha lindinha de sempre! – disse Jack tentando fazê-la rir. – Eu te amo tanto. Não quero te ver triste.

Clara respirou fundo, pegou a mão de Jack e a beijou. – Obrigada, meu amor. Eu nunca mais me esquecerei disso.

Jack beijou-a com paixão. O piloto avisou que já estava se aproximando de Heathrow e que pousaria em alguns instantes.

O avião pousou, eles desceram, subiram no carro que já os esperava na pista e foram direto para o hotel.

- Estamos chegando em casa, amor. Me conta o que você quer agora, que eu vou providenciar. – disse Jack. – Me diz, o que você quer.

- Nada, só ficar com você, tanto quanto puder.

Jack pegou a chave com o gerente e eles subiram. Quando saiu do elevador Jack lembrou-se que consideravam aquele hotel como sua casa, assim, fez questão de carregar Clara no colo para dentro da suíte.

- Agora sim! Todos os rituais cumpridos! Vamos ser felizes para sempre! – disse Jack rindo. – Está se sentindo melhor, princesa?

- Muito. Não sei o que me deu, por que eu estava chorando tanto. A verdade Jack é que nem eu me entendo.

- Já notei isso... – disse Jack em tom sarcástico. – E te amo por isso também.

- Bom, vamos arrumar a casa? Vamos levar as malas para o quarto, me ajuda. E o resto das coisas, que você pediu para o Lambert guardar? Quando ele vai trazer para cá? Nossos notes estão lá e eu vou precisar do meu para trabalhar...

- Calma, amor. Vou ligar para o Lambert daqui a pouco. – disse colocando as malas no chão, no terceiro andar. – Antes, quero fazer uma outra coisa.

Jack tirou as malas e pacotes que estavam nas mãos de Clara e jogou-as em uma cadeira. Aproximou-se dela e a beijou apaixonadamente. Começou a tirar suas roupas, jogando-as no chão. Tinha uma urgência naquele gesto que ela nunca tinha notado antes. Eles precisavam expressar aquele sentimento, aquela dor da separação cada vez mais próxima crescendo em seus corações.

Continua

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