2 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXVIII


A tensão de Clara fez o voo chegar em Londres muito mais rápido. Estava preocupada demais principalmente com o longo silêncio de Jack.

Pela primeira vez, os dois ficaram lado a lado absolutamente quietos, sem conversar. Desceram do avião entraram no carro e continuaram quietos.

Mas Clara sentiu que precisava quebrar o gelo: - Jack, vou ligar para a Cindy, nós vamos jantar na casa dela para encontrar com a Kate?

- Vamos. – respondeu em tom decidido. – Você não se preocupe que daquela pirralha, cuido eu.

- Não! Eu vou te ajudar, quer você queira, quer você não queira. Não adianta reclamar porque isso aqui é para sempre. Ok?

- Hum! Pequenininha, mas brava! Menininha você está sempre me surpreendendo! – disse Jack sorrindo.

- É sério, Jack! Não quero me meter entre você e a sua filha, mas não vou ficar quieta no meu canto se ela te ferir de algum jeito. Não vou deixar nada, nem ninguém te machucar.

- A única pessoa no mundo que pode me machucar agora é você. Te amo tanto que dói aqui dentro só de pensar que eu posso te perder.

- Você não vai me perder, mas também não acho certo você não falar com sua filha, meu amor.

- Ok! Vou conversar com ela, já te disse que quero resolver isso, mas se ela acha que vou abrir mão de você por causa dela, ela que esqueça.

- Nós vamos conversar Jack. Resolver tudo isso. Confia em mim.

- Claro que eu confio. Tenho fé total em você menininha.

- Obrigada, meu amor! Agora me beija porque eu preciso de você!

Jack agarrou-a com força. Queria demonstrar que sentia aquilo tudo que vivia repetindo para ela e muito mais.

- Vou ligar para a Cindy confirmando que vamos jantar com eles hoje à noite. Vamos conversar e vai dar tudo certo.

Com o jantar marcado para 9 da noite, eles subiram para a suíte, deixaram a bagagem e já começaram a preparação para ir até a casa de David.

Para não complicar combinaram que o jantar seria informal e Clara escolheu suas roupas mais sérias, era uns três ou quatro anos mais jovem do que Kate e por isso achou melhor usar aquele mesmo terninho que havia usado na reunião na editora em Nova York.

Jack preferiu uma camisa de manga comprida e uma calça black jeans. Preferiu não usar nenhum dos seus complementos habituais, no mesmo clima de Clara queria mostrar para a filha que sua decisão era séria, e para isso, queria também parecer um homem sério.

- Jack, me diz só uma coisa. Por que e como vocês brigaram?

- Foi uma bobagem dela, você sabe que eu namorei com a Joan Brand, aquela cantora americana nos anos 90 e ela teve um filho meu, naquela época.

- Sei... Mas o que aconteceu?

- É que meu filho, irmão dela estava precisando de mim, a Joan teve um problema com drogas e o garoto ficou desesperado e me ligou. Eu larguei tudo o que estava fazendo para ajudá-lo a interná-la, passei uns dias com ele lá na Califórnia, o menino tinha só 13 anos na época e ela ficou nervosa comigo porque ela ia se casar naquela semana e eu não podia fazer isso.

- Você não foi ao casamento da sua filha?

- Não, mas tive uma razão para isso, ela deveria ter entendido.

- Mas não entendeu, ela deve ter achado que você a estava abandonando. Casamento tem um significado bem maior na cabeça de uma mulher do que na de um homem, Jack.

- É. Mas ela nunca mais quis falar comigo e aproveitando que o marido dela é americano, ela foi morar em Chicago e nunca mais sequer pude vê-la.

- Vamos resolver isso tudo hoje, amor. – disse Clara pegando as mãos de Jack. – Agora, me ajuda, trança meu cabelo por favor.

- Me dá a escova. – respondeu Jack.

Ele escovou seus cabelos e fez uma única trança, na parte de trás da cabeça de Clara. Ela retribuiu o carinho arrumando o cabelo dele em um rabo de cavalo e logo estavam prontos para sair.

Jack estava cansado e não queria dirigir, por isso ligou para Khaled, que em apenas 15 minutos estava na porta do hotel, esperando por eles.

Quando entravam na estrada do bosque, Clara recebeu um mensagem de texto em seu celular avisando que Kate e o marido já estavam lá.

- Jack, eles já chegaram.

- Tudo bem, amor. Fica tranqüila. – disse Jack pegando sua mão e beijando-a.

Quando Khaled parou na porta de Heathcliff Hall, David já esperava por eles.

- Boa noite, velhão! Vamos lá que hoje a patroa foi para a cozinha e fez aquele rosbife que ela quase nunca faz. – disse rindo. – Boa noite, Clara. Tudo bem?

- Tudo bem, David.

- Como foram os shows?

- Lindos! O Jack estava muito inspirado e fez shows maravilhosos. – disse Clara enquanto seguia David para dentro da sala de estar.

- Boa noite. – disse Jack para a filha, o genro e Cindy que estavam na sala de estar, enquanto apertava a mão de Clara, muito nervoso.

Mas Kate tinha uma surpresa para ele, que o emocionou assim que colocou os olhos nela. Ela estava grávida de seis meses e Jack não conseguiu fazer muito mais do que caminhar em sua direção e abraçá-la com lágrimas nos olhos. Clara vendo a cena também começou a chorar.

- Me perdoa, pai. Estava sendo apenas uma criança mimada, querendo atenção só para mim.

- Ah! Querida! Não tenho o que perdoar. Me desculpa por não ter estado presente na sua vida. Eu te amo muito! – disse Jack. – Quero que você conheça a Clara.

Clara que estava muito emocionada estendeu a mão à Kate que a abraçou ternamente.

- Pai, se você gosta dela, eu também vou gostar. – disse Kate pegando as mãos de Clara e de Jack e unindo-as. – Vim para cá porque vi vocês juntos na TV e achei que podia ter alguma coisa errada, mas vendo vocês dois de perto, percebi que minha preocupação foi tola.

Depois de mais algumas lágrimas e com a emoção ainda a flor da pele, Clara aproximou-se de Cindy oferecendo ajuda pois sabia que os empregados da casa folgavam aos domingos e as duas foram para a cozinha onde quase tudo já estava pronto.

- São os congelados que minha cozinheira deixou no freezer, a única coisa que fiz foram as batatas que não podem ser congeladas. Pode levar isso aqui para a mesa? Vamos jantar na sala de vidro.

- Está na mão. - respondeu Clara. - Mais alguma coisa?

- Não querida, o resto eu levo. - disse Cindy pegando duas garrafas de vinho. - Foi forte, né?

- O que? - perguntou Clara.

- Essa cena do Jack com a Kate. Achei que eles iam brigar e no fim, foi tão bonito. - disse Cindy.

- Eu não poderia estar mais feliz. O Jack estava bem preocupado também, mas deu tudo certo. - disse Clara enquanto caminhava pelo corredor até a sala de vidro.

A noite foi uma celebração daquele retorno de Kate à vida de Jack e após o jantar, os homens foram para a cozinha arrumar tudo, enquanto as mulheres ficaram conversando sobre o casamento na sala de estar.

Kate queria conhecer Clara melhor e fazia muitas perguntas, sobre sua vida no Brasil, sobre seus livros, sua família. Ainda estava genuinamente preocupada com a escolha de seu pai, especialmente depois de saber que Clara era mais jovem do que ela.

Kate era psicóloga e trabalhava com crianças carentes em Chicago, em uma ONG, ao lado do marido.

Quando os rapazes vieram juntar-se a elas, todos caminharam até a sala de música e David colocou seus velhos vinis de blues em ação. Clara e Jack sentaram-se no chão, deixando os sofás livres para Kate e Mark, seu marido. Jack sussurrou no ouvido de Clara que iria tomar um chá com Kate, no dia seguinte, na casa de Mary, onde Kate estava hospedada.

- Que bom, amor! - disse Clara beijando Jack no rosto.

Os dois estavam bastante cansados, assim como Kate, que viajara de Chicago até Londres naquele mesmo dia e por isso, a noite terminou um pouco mais cedo do que de costume em Heathcliff Hall. Jack ofereceu carona para Kate e Mark, mas eles responderam que estavam com um carro alugado. Então, os dois casais pegaram a estrada de volta para Londres juntos. Khaled levou Clara e Jack diretamente para o hotel e os dois foram direto para a cama dormir um pouco depois das duas da manhã. Teriam uma longa segunda-feira a encarar no dia seguinte.

Clara deixou o celular programado para tocar às 8 da manhã, decidiu ir com Khaled, o motorista, buscar sua família e amigos no aeroporto. Eles usariam a van que costumava transportar a banda de Jack quando estava em Londres.

No mesmo voo, os pais, irmãos, cunhada, duas amigas e Jonas, o seu editor; todos chegando à cidade prontos para assistir ao casamento de Clara. Eles ficariam no mesmo hotel que ela, em quartos já reservados até o final da semana.

Jack sugeriu colocar o pai e a mãe de Clara juntos no quarto anexo à suite em que viviam quando estavam na cidade e ela gostou da ideia, assim poderia curtí-los um pouco depois de tanto tempo longe. Talvez eles não ficassem muito a vontade, mas pelo menos estariam juntos por uns dias.

Ela ficou emocionada ao vê-los chegando, empurrando o carrinho de bagagens. Estavam ainda mais velhinhos do que ela se lembrava, com uma expressão de cansaço, mas pareciam felizes.

Logo ela foi na direção deles e o saguão do aeroporto parecia uma festa particular dela. Seus pais, irmãos e amigos, todos juntos, agora seguindo ela e o motorista até a van que os levaria até o hotel.

Eles iriam almoçar todos juntos na suíte e depois passariam a tarde juntos, sairiam para um passeio ou ficariam por lá se estivessem cansados, Clara estaria a disposição deles e Jack também, até o final da tarde quando iria até a casa de Mary, sua ex-esposa, para tomar chá com sua filha.

Com todos embarcados na van, Clara se deu conta de quanto estava estranhando o comportamento contido daquelas pessoas com quem conviveu a vida inteira, estavam quietos, pareciam tímidos dentro do carro.

- O que houve? Todo mundo ficou educado agora? Não é porque eu agora moro na Inglaterra, que eu não conheço mais vocês, vamos lá, me contem tudo....

A brincadeira de Clara serviu para descontrair e ouvindo seu apelo, todos se sentiram “autorizados” a falar ao mesmo tempo e ela pode dar boas risadas no carro, no horrível trânsito de volta para Londres de todas as manhãs.

- Putz! O trânsito aqui também está um horror... – disse seu pai. – esses caras se acham melhores que todo mundo e não resolveram nem isso ainda?

- Trânsito tem no mundo inteiro e os ingleses não se acham os melhores do mundo. Isso é coisa de americano, pai.

- Ingleses, americanos, é tudo a mesma coisa. Se acham muito e não sabem nada! – respondeu Paulo, o pai de Clara.

- Mas eu quero saber é das fofocas, vamos lá Ciça, quem ficou com quem, na minha ausência? – perguntou Clara para sua irmã.

- Eu sei quem não ficou, aquela chata da Ana. – respondeu Ciça. – Ninguém atura!

E todos riram da piada. Ana, uma amiga das duas irmãs era do tipo que falava muito, mas raramente ficava com alguém.

- Mas essa nunca “pega” ninguém, mesmo. Por que ela não veio? Ela disse que vinha.

- Ela vem, mas vai chegar só amanhã, não conseguiu lugar no nosso vôo. – respondeu Sara, uma das amigas de Clara.

- Nossa, amiga, deixa ver esse anel! Lindo! – disse Renata, uma das amigas de Clara. – É verdade que é da Tiffany? Ué? Por que na mão esquerda?

- Aqui é assim, o anel de noivado se usa na mão esquerda. Vou contar para vocês como foi; o Jack me levou na Tiffany aqui de Londres e foi inacreditável. É meio brega contando, mas depois que eu escolhi o anel, eles diminuíram a luz da loja e ficou só um foco, em cima da gente e ele se ajoelhou e me pediu em casamento no meio daquela joalheria chiquérrima. Daí eles me deram um bouquet de rosas lindo. Foi um mico, mas foi muito romântico.

- E quanto custou esse anel? – perguntou Fernando, seu irmão.

- Não tenho a mínima ideia, ele nunca perguntou o preço, entregou o cartão na mão da gerente da loja e assinou o comprovante. Não consegui saber quanto era. – respondeu Clara.

- Nada como ter todo aquele dinheiro, não é? – respondeu Marina, sua cunhada.

Clara deu um sorriso discreto, diante da observação da cunhada e Jonas, seu editor e amigo veio salvá-la da saia justa.

- E o livro? Como está?

- Não está, Jonas. Quase não tenho tido tempo de sentar na frente do computador nestes últimos dias. Mas já combinei com o Jack e depois que voltarmos do final de semana na casa de campo, vamos trabalhar nisso. Na semana que vem, ele entra no estúdio com a banda para gravar o disco novo e quer que eu acompanhe tudo, aí acho que começamos a trabalhar no livro.

- Eu já estou preocupado com isso, mas acho que aconteceu muita coisa desde que a gente se despediu lá em Nova York, não é?

- Muita mesmo! Mas eu vou contando aos poucos, temos até quinta para conversar. Tudo que tinha que ser feito para o casamento, já está feito ou encaminhado. Por isso, estou tranquila. – respondeu Clara.

- Eu quero só ver a cara desse sujeito. Comigo, que sou o seu pai, ninguém falou ainda. – disse o pai de Clara, em tom de brincadeira.

- Mas, como ele vai falar com você? Desde quando você fala inglês, Paulo? – perguntou a mãe de Clara fazendo todos caírem na risada.

- Demorou, mas estamos quase chegando, o hotel é no próximo quarteirão, o Khaled vai parar na porta para pegarmos a bagagem.

O check in foi feito e Clara avisou ao gerente que seus pais iriam ficar em sua suíte e mais dois cartões-chaves foram providenciados.

Ela acompanhou o restante do grupo até seus quartos, depois subiu com seus pais para a suíte, onde Jack, o mordomo e dois garçons já esperavam. Jack tentou falar em português com os pais de Clara, mas foi desastroso e ele voltou para o inglês, com ela traduzindo. Mas logo, os três estavam íntimos e conversando por mímica, com Clara fora da operação, apenas rindo.

Mas por insistência de Clara, seus pais também se recolheram no quarto anexo para arrumarem-se e todos teriam ainda um tempo para refrescarem-se e trocarem de roupa antes do almoço e Clara marcou de pegá-los no terceiro andar dentro de uma hora.

- Gostei muito dos seus pais, sua mãe também é linda, dizem que para saber como uma mulher será, você só precisa olhar para como é a mãe dela e a sua é linda.

- Jack? Você está pronto? Vai almoçar desse jeito?

- Não, amor, vou me arrumar. Não quero que sua família ache que você está se casando com um mendigo. – disse puxando-a até o quarto dos dois.

- Mas você nunca pareceria um mendigo, meu amor. Você é um príncipe, meu príncipe encantado!

- Estou mais para sapo, Clara! – respondeu rindo. – Você me disse que seu pai é jornalista como você e sua mãe? Ela era jornalista também?

- Não, ela era professora de literatura, acho que herdei dela o gosto pelos livros e meu pai é jornalista esportivo.

- Ah! É verdade, você me disse. E o resto das pessoas que virão aqui?

- Minha irmã mais nova, a Ciça é secretaria em um banco. Meu irmão mais velho, o Fernando é dono de um bar e casado com a Marina, minha cunhada, que ajuda ele a cuidar do bar.
Depois tem minhas amigas, a Renata e a Sara que trabalharam em um jornal comigo e tem o Jonas, que você já conhece e amanhã chega a Ana que trabalhou comigo em um site, que também é minha amiga, mas não conseguiu marcar passagem no mesmo vôo.

- Não vou conseguir lembrar todos estes nomes, mas você entende, não é? – disse Jack com sua habitual sinceridade.

- Claro que entendo, meu amor. Não se preocupe, todo mundo vai se virar, você só precisa ser quem você é, ok?

- Como assim? – perguntou Jack.

- O mesmo Jack de sempre, que eu adoro! – respondeu beijando-o.

- Menininha, você é louca de ter aceitado casar comigo, sabia?

- Sei, mas eles não precisam saber, né! – disse rindo.

Jack tomou um banho e trocou suas roupas, enquanto todos se arrumavam para o almoço, o mordomo e os garçons preparavam a sala de jantar do segundo andar da suíte.

Clara colocou um vestido indiano bem confortável que havia comprado na loja da Carnaby Street e pediu a Jack para trançar seu cabelo.

Ele vestiu-se com uma de suas camisas pretas de mangas longas e uma das calças jeans de que Clara gostava tanto. Colocou só a pulseira de prata que Clara tinha lhe dado. Não sabia o que os amigos dela achariam dele se aparecesse em sua indumentária hippie completa.

- Pode colocar também os colares, amor. Meus pais já te viram inúmeras vezes na TV e sabem o que esperar.

- Ótimo! Então não assustarei ninguém assim?

- Você está brincando, Jack? Todo mundo te conhece, até no Brasil, amor... Já te disse que pode ser você mesmo.

- Bom, não serei por muito tempo, no final da tarde vou até a casa da Mary. Eles já sabem?

- Já, contei no caminho. Está tudo certo, já vou descer no terceiro andar para buscar o resto das pessoas e você vai ficar aqui bonzinho esperando por mim, não vai?

- Sua mãe entende inglês, não entende?

- Sim, ela é meio tímida, mas fala inglês sim.

- Então, tudo bem! Senão descia com você... fiquei com medo do seu pai.

- Por que? Ele é tão baixinho perto de você! – respondeu Clara rindo.

- Mas ele não gosta de mim. – disse Jack, com um sorriso nos lábios.

- Espera, é mais uma das suas piadas, né. E eu cai de novo! Jack...

- Vem aqui, amor. Deixa eu te mimar um pouco, porque não teremos muita privacidade nos próximos dias. – disse Jack, puxando-a para perto e beijando-a.

Clara desceu no terceiro andar onde já esperavam por ela e todos subiram juntos até a suíte na cobertura. Seus pais já estavam sentados na sala de estar acompanhando Jack em um drink e agora todo o grupo estava reunido.

Clara apresentou Jack para cada uma daquelas pessoas ajudando a traduzir o que diziam um ao outro. Era um momento muito especial para ela, a união de sua velha vida, com a nova. Jack foi muito atencioso e carinhoso com todos e com cada um.

E de tempos em tempos, Clara via os olhos de Jack através da sala olhando para ela com um carinho que a emocionava. Logo, o mordomo avisou que o almoço estava servido e todos subiram para a sala de jantar. Jack fez um brinde, que Clara traduziu para todos.

- Todos e cada um dos que estão nesta sala contribuíram de alguma forma para que eu encontrasse a mulher da minha vida. Por isso, agradeço a generosidade de vocês de dividi-la comigo porque agora que a conheci, não conseguirei mais abrir mão dela. Para Clara, meu amor!

- Obrigada, Jack. Devo agora falar em português, para que todos me entendam, para todos vocês, minha família e meus amigos que estão aqui ao meu redor neste momento tão especial da minha vida, quero agradecer sua presença e dizer que minha felicidade não estaria completa sem vocês.

Clara olhava ao redor e sentia que nunca esqueceria aquele dia. Sabia que seu casamento com Jack acabaria por distanciá-la daquelas pessoas, mas lutaria para que isso não acontecesse. Daria um jeito de vê-los sempre que pudesse, assim que estivesse vivendo na casa nova, ela poderia combinar suas férias no Brasil e férias deles todos em Londres; mas por enquanto, continuaria conversando com eles pela internet, como estava fazendo naquele período de quase um mês que esteve fora.

Depois do almoço e da sobremesa, as pessoas voltaram a espalharem-se pela suíte, suas amigas Renata e Sara puxaram Clara até a sacada, enquanto Jack continuava conversando com os pais dela, na sala de estar.

- Meu Deus! Ele é ainda mais bonito pessoalmente, Clara! Estou passada! - disse Renata.

- Eu não sei bem o que ele viu em mim. - respondeu Clara. - Me acho tão sem graça, perto dele.

- Imagina, você está muito bonita... Andou fazendo alguma coisa, não andou? - perguntou Sara.

- Nada... Acho que é alegria! A pele da gente melhora, quando se está feliz. - disse Clara.

- Sei... - riu Renata. - E aí? Como ele é?

- Maravilhoso! Nunca aconteceu nada parecido comigo, na minha vida. Eu contei para vocês por e-mail, a gente mal se conhecia e eu me apaixonei por ele no momento em que o vi.

- Mas você já gostava dele antes, não parava de ver aqueles DVDs da Crossroads, eu lembro disso. - disse Sara. - Você já era louca por ele.

- Mas era coisa de fã. Eu o achava lindo, gostava das coisas que cantava, como gosto do U2, dos Stones. Quer saber, encontrei com o U2 e com os Stones e não foi nada disso. Quando conversei com o Mick Jagger e com o Bono até fiquei pensando, putz! Olha só com quem você está falando, Clara! Mas quando encontrei o Jack, naquele saguão de hotel, em Nova York, eu só pensava em beijá-lo. Foi uma coisa que eu não consigo explicar.

- Você já reparou como ele olha para você? Meu Deus, esse cara está na tua mão, Clara! - disse Renata rindo.

- Ele me assusta! Às vezes, ele me deixa desconcertada com as coisas que me diz e que faz. - respondeu Clara. - Ele se atirou nos meus braços de um jeito que nunca vi ninguém fazer, é uma loucura! Quando paro para pensar, fico com medo mesmo, é muito amor.

Todas riram do que Clara disse, mas ela estava realmente preocupada, Jack estava tão entregue ao seu amor, que ela estava começando a sentir-se responsável por ele, pela sua felicidade.

Jack continuava conversando com seus pais e Jonas parecia estar fazendo a tradução entre eles, enquanto Ciça tirava fotos de seu irmão e de sua cunhada no terraço iluminado generosamente pelos raios do sol naquela tarde de verão.

As horas continuavam passando e Jack veio até o terraço avisá-la que precisava ir encontrar-se com Kate. Ela então acompanhou Jack até a porta do elevador e perguntou o que ele achava dela levar todos até a casa que tinham comprado.

- O que você quiser, meu amor. - respondeu Jack e beijou-a antes de entrar no elevador. - Volto logo.

- Espera, Jack. Não tenha pressa, você precisa estar com ela agora, eu cuido de todo mundo sozinha, quero que você se preocupe apenas com a sua filha. Por favor!

- Ah amor! Não se preocupa, está tudo bem agora! Vou lá conversar um pouco com ela e depois, te ligo, se você estiver lá na casa ainda, eu vou para lá te encontrar, ok?

- Ok! Você tem a chave?

- Não, você vai estar lá, você abre a porta para mim... - sorriu Jack.

- Claro! Tchau amor... vou chamar todos e montar a excursão... - respondeu e o beijou.

Clara entrou de volta na suíte assim que o elevador começou a descer. Foi até o meio da sala de estar e chamou todo mundo.

- Pessoal! Vamos agora dar um passeio? Eu vou levar vocês até a casa que o Jack acabou de comprar para a gente! Ainda vamos reformar para ficar do nosso gosto, mas daqui a um ou dois meses, vamos morar lá. Vamos?

- Onde é essa casa? - perguntou Ciça.

- Fica a umas duas ou três quadras daqui. Dá para ir a pé numa boa. Vou lá pegar minha bolsa e a gente já desce.

Clara subiu no quarto, pegou sua bolsa, seu celular e desceu com todos para o saguão do hotel. De lá seguiu rua acima até a High Gardens e todos ficaram impressionados com a beleza das outras casas da rua, mas a mais bonita de todas era a de Clara.

- Cara! Parece coisa de conto de fadas! Que lindo isso! - disse Ciça. - Olha só, mãe!

- Se deu bem, hein Clara? - disse Marina, sua cunhada. - Caramba, que mansão!

- Olha, mansão mesmo é a casa do David Mersey, onde será o casamento na quinta-feira. Aliás, não é mansão, é um palácio. Vocês vão ver.

- Mas vocês vão reformar essa casa para que? - perguntou a mãe de Clara. - Ela está tão bonita assim.

- É mais uma restauração do que uma reforma e dar uma adaptada em algumas coisas, vamos fazer uma sala de música, um escritório, uma sala de cinema... essas coisas para ficar mais confortável para nós.

- Lá atrás, a casa da piscina, por exemplo, vai virar um bar para receber os amigos. Vai ficar lindo, a arquiteta que vai cuidar da reforma é a Cindy Mersey, a mulher do David Mersey, minha melhor amiga daqui.

- Renata, vamos embora. - disse Sara, fingindo indignação. - Ela já tem uma melhor amiga aqui, vamos embora, ninguém quer mais a gente.

- Que gracinha! Vou mandar construir um palco para as duas fazerem comedia em pé, aqui, perto da piscina... - respondeu Clara, rindo.

Enquanto andavam pelo jardim, o celular de Clara tocou, era uma mensagem de Jack dizendo que estava na porta e ela foi até o portão buscá-lo.

- Viu? Sabia que você ainda estaria por aqui. A Mary e a Kate mandaram beijos para você, mas vou entregá-los do meu jeito. – disse Jack agarrando e beijando Clara com paixão.

- Jack! Todo mundo está aqui, se comporta, por favor. – disse Clara, puxando-o pela mão. – Meus pais, eles não estão acostumados com essas coisas.

- Está bem! Mas depois a gente vai conversar, não vai? – disse Jack rindo. – Eu preciso muito de você, menininha... – sussurrou em seu ouvido.

- Você vai me ter toda para você, mais tarde. – sussurrou Clara no ouvido de Jack.

E ele a puxou de volta, empurrando-a contra um tronco de árvore e beijando-a com toda a paixão que tinha por ela.

- Maluco! Vem amor, vamos lá, as pessoas estão nos esperando lá na casa.

- Vamos. – disse Jack. – Você já combinou com eles o que vamos fazer hoje à noite?

- Ainda não. Preciso perguntar o que eles querem fazer. Devem estar cansados já, estava pensando em jantar lá no hotel e vamos dormir cedo, para passear um pouco por Londres amanhã, que tal?

- Ótimo! Leva eles para conhecer a cidade. National Gallery, Buckingham, Madame Tussaud, London Eye... Vou mandar o Khaled trazer a van amanhã cedo, novamente.

- Pena que você não vai poder vir junto.. Criaria muita confusão se você fosse.

- Não dá... são lugares muito cheios de turistas e basta um me reconhecer que a confusão está criada. Não vale a pena. E as providências para o casamento?

- Fiquei de ligar hoje à noite para a Anne e para a Cindy, amanhã o material da festa vai começar a ser entregue lá em Heathcliff Hall e também vão começar a construir o palco e o altar. – disse Clara dando um suspiro que fez Jack sorrir.

- Então vamos fazer isso, Clara. Vamos voltar para o hotel?

O grupo voltou para o hotel e tudo correu muito bem, Clara pegou alguns folhetos na recepção e Jack ligou para Khaled pedindo que trouxesse a van às nove da manhã, para fazerem o passeio.

Jack também providenciou que um segundo motorista fosse encontrar Ana, outra amiga de Clara, para levá-la ao hotel. Ela perderia o primeiro passeio, mas já estava tudo combinado que o motorista a levaria para encontrar-se com o grupo, depois que ela se instalasse no hotel.

Todos jantaram na suíte de Jack e Clara, conversaram por mais algumas horas e cada um seguiu de volta para o seu próprio quarto.

Clara ligou para Anne e Cindy e se assegurou que tudo estava certo e os pais dela também foram dormir cedo. Com tudo bem engatilhado para o dia seguinte, Clara subiu para o quarto e encontrou Jack nu, na cama, esperando por ela.

- Bom, vou ter que passar a chave na porta e vamos conversar, então. – riu Clara. – Você quer discutir a relação, não é?

- Quero sim, vem aqui porque precisamos conversar, mas só falo se você tirar toda a roupa... – respondeu Jack rindo também.

Clara tirou a roupa e sentou-se na cama. – Então, vamos falar sobre o que?

Jack puxou-a pelo braço e começou a beijar seu corpo todo, Clara sentia-se no céu quando ele fazia isso. Entregou-se aos carinhos dele e os dois passaram as próximas horas em êxtase, concentrados apenas em oferecer prazer um ao outro.

Estavam confortáveis, sentiam-se em casa quando estavam juntos. Era estranho isso para Clara, naquele momento em que as pessoas mais próximas de sua família estavam lá, perto dela, ela percebeu que se sentia mais próxima de Jack do que de qualquer outra pessoa no mundo.

Jack estava mais tranquilo do que nunca e também mais carinhoso. Clara aproveitou a tranquilidade dele para perguntar como tinha sido a conversa dele com Kate e teve uma surpresa.

- Conversei muito com ela hoje, pedi perdão por tê-la abandonado e disse tudo o que estava sentindo e o que eu senti quando estávamos longe um do outro. Me sinto levinho agora.

- Que lindo isso, Jack! Estou feliz que vocês tenham conversado e resolvido tudo. Assim, meu amorzinho fica mais calminho, né...

- E mais feliz do que nunca porque tudo na minha vida melhorou depois que eu te conheci. Tudo!

E a noite dos dois continuou em pura paz e alegria, até que finalmente eles adormeceram.

Acordaram cedo no dia seguinte pediram o café da manhã para quatro pessoas na suíte enquanto Clara e seus pais já estavam prontos para passear por Londres, Jack foi até Heathcliff Hall porque David tinha tido uma ideia para mais uma música e ligou para ele, logo cedo, já do estúdio.

- Vou estar lá, se precisar de alguma coisa, me liga. Algum recado para a Cindy? – disse Jack saindo da suíte.

- Não, amor. Está tudo bem. Dá uma olhadinha por mim se está tudo certo.

- Ok! Vou ver se já entregaram tudo. Tchau... – disse Jack entrando no elevador. – Te ligo mais tarde.

- Bom, vamos nos preparar para passear muito, já está tudo pronto e vocês vão ver Londres hoje.

Eles haviam marcado de encontrarem-se no saguão do hotel, todos com suas câmeras e com roupas confortáveis para enfrentar o que encontrassem pela frente; museus lotados, filas sem fim, horas de espera, mas tudo seria divertido porque estavam todos juntos e em mais dois dias, aconteceria um casamento.

Khaled levou-os primeiro ao Palácio de Buckingham, depois eles passearam pela Trafalgar Square e enquanto esperavam na fila para entrar na National Gallery, Clara recebeu um telefonema de Ana, que estava no hotel e já ia descer para que o motorista a levasse até eles. Ela disse que certamente os encontraria na fila, que estava muito longa naquele dia.

Enquanto ainda esperava por Ana, Jack também ligou para ela, dizendo que tinha conversado com Cindy e com Anne, que também estava por lá. Tudo estava correndo bem e algumas coisas, inclusive o palco, já estavam quase prontas e ficando lindas. Tiraria umas fotos com o celular para que ela pudesse ver.

Quando desligou o telefone, Ana conseguiu localizá-los na fila e já estava conversando com seus amigos.

- Ah! Que bom que você chegou! Está tudo tão perfeito até agora que estou começando a ficar mal acostumada!

- Clara! Que ótimo que está dando tudo certo! E o seu noivo?

- Está na casa do Mersey trabalhando em uma música nova. Acabou de me ligar para me dizer que por lá já está tudo encaminhado.

- É lá que vai ser o casamento, né?

- Vai! A ficha está começando a cair e eu estou começando a ficar nervosa, muito nervosa! - disse Clara mostrando as fotos que Jack enviou para ela no celular. - Queria que ele estivesse aqui para me abraçar e dizer que tudo vai dar certo.

- Achei mesmo que ele estaria por aqui. - disse Ana, vendo as fotos. - Por que ele não veio?

- Não dá! Se ele estivesse aqui, essa fila inteira já estaria em volta da gente e seria o próprio caos. Esse é o tipo de coisa que ele não pode fazer nunca, ir a lugares públicos, turísticos... tivemos alguns problemas para simplesmente passear em um parque em Dublin, na semana passada. Tinha um paparazzo seguindo a gente e foi horrível. Ele ficava falando bobagens para provocar o Jack e ver se ele reagia. Mas ele ignorou o idiota completamente.

O passeio foi cansativo, mas valeu cada minuto de espera na fila. Grandes obras de arte, muitas fotos e uma manhã completamente feliz que terminou em um pub próximo, onde Clara fez questão de que sua família e amigos tivessem a chance de conhecer aquela comidinha de "boteco" típica da Inglaterra.

Do pub, todos sairam para uma volta a pé nas redondezas. Depois de uma conversa entre todos, Clara ligou para Khaled dispensando-o, voltariam para o hotel de metrô.

Caminhariam até o "Rock n' Roll Circus", próximo ao Picadilly Circus e aproveitariam o caminho por uma movimentada rua de comércio da cidade para comprar souvenires e pequenas lembranças para levarem para casa. Canecas, camisetas, brinquedos, cartões postais. Clara ficou preocupada que seu amigo Jonas não estivesse se divertindo porque já esteve algumas vezes na cidade, mas ele parecia um dos mais animados com todas aquelas bobagens que estavam comprando.

Pegaram mais uma fila longa, mas enquanto esperavam, tiravam fotos um do outro, e já dentro do museu, fotografaram Clara ao lado da versão de cera de Jack. Como uma piada, ela enviou a foto para o celular dele; que respondeu com uma mensagem de texto que dizia: "Quem é esse rapaz simpático ao seu lado?".

No final da tarde, pegaram o metrô e seguiram até Lancaster Gate, a estação mais próxima do hotel em que todos estavam hospedados e seguiram através do parque que brilhava com seus muitos tons de verde sob a luz do sol.

Todos estavam cansados, mas felizes, rindo, tirando fotos e aproveitando o delicioso dia de verão que já estava terminando.

Subiram todos com Clara para a suíte e continuaram conversando e rindo, agora no terraço.

- Eu conseguiria fácil me acostumar com essa vida. – disse Ana, que via a suíte pela primeira vez. - Que coisa linda, não?

- Depois de um tempo você nem repara mais. – respondeu Clara.

- Como assim, mulher? Esse hotel é puro luxo! Não dá para ser tão blasé assim. – disse Ana inconformada.

- Quer saber? Se o Jack não estivesse aqui comigo, não acharia a mínima graça. É um hotel, não é minha casa. Já perdi as contas neste mês de quantas vezes fiz e refiz minhas malas. Vou me sentir melhor quando minha casa estiver pronta. – disse Clara para o espanto de suas amigas.

- Ah não, Clara. Não fica nem um pouquinho feliz de estar em um lugar tão lindo, olha só essa vista. – disse Jonas rindo.

- Gente, não estou sendo blasé. Vocês não estão me entendendo. Eu gosto da mordomia, também acho tudo lindo, mas se alguém me fizer escolher entre este luxo e o Jack no meu apartamento em São Paulo, eu vou para São Paulo já, entenderam? – explicou Clara, com o olhar perdido no horizonte. – Queria que ele estivesse aqui.

- É doida mesmo! Quer dizer que você preferia morar naquele apartamentinho de um quarto, que cabe inteiro no banheiro dessa suíte?

- O que eu quero dizer é que de tudo o que está acontecendo aqui, para mim, o que importa mesmo é ele. O resto é tudo bobagem. Ele está sempre me dando presentes, mas o que me deixa feliz mesmo é ouvir ele cantando para mim no palco, ou me mandando uma mensagem de texto, quando estou aqui quietinha, no meu cantinho. Enfim... eu amo o Jack.

- É... mas o relatório de vendas dos seus livros com um aumento de 120% depois do anúncio do casamento também não é nada ruim, não é Clara? - disse Jonas rindo.

- Ah! E o maior contrato da história da música por um disco e por uma turnê também não é nada mal, não é amiga? - disse rindo Ana.

- Ai amiguinhos. Vocês sabem que não ligo para dinheiro, nunca liguei. Se não fosse o Jonas, meu querido editor aqui, nem teria meus livros publicados ainda. - respondeu Clara. - Não tenho essa habilidade de ganhar dinheiro, ainda bem que o Jack tem.

Todos riram muito da forma como Clara encarava aquela surpreendente virada em sua vida. Havia tirado a sorte grande, mas não havia no mundo um prêmio de loteria tão grande como aquele.

- Você não vai ter chá de panela, né amiga? – perguntou Renata. – Queria tanto te zoar.

- Nem sei como são essas coisas aqui, acho que não deve ter esse tipo de tradição, sei lá, estou feliz porque ninguém vai aprontar nada para mim. – disse Clara.

- E o Jack? Não vai fazer despedida de solteiro? – perguntou Jonas.

- Ninguém me disse nada. Mas acho que não. E sinceramente, acho que ele já fez tantas na vida que não existe nada que ele ainda não tenha feito. E quanto mais eu o conheço, mais eu vejo que toda a fama dele de ter pego sei lá quantas mulheres é merecida, ele é assustadoramente sedutor.

- Ah, isso ele é! Nossa que homem lindo! – disse Sara. – Desculpa amiga, mas ele é um espetáculo.

- Não precisa pedir desculpas, Sara. Ele é lindo mesmo. Meu príncipe! – disse Clara rindo. – Eu sou a fã número um dele.

Enquanto eles conversavam, o celular de Clara tocou.

- Oi, noivinha! Você está pronta para sua despedida de solteira? – perguntou Cindy.

- Meu Deus! Minhas amigas do Brasil acabaram de falar nisso. Você está brincando que vai fazer isso comigo.

- Claro que vamos! Me pergunta onde seu noivo está agora. – disse Cindy rindo.

- Tenho medo de perguntar, mas me diz assim mesmo. – respondeu Clara.

- Seu noivo saiu com meu marido, com o Mike e mais uma turma de amigos para um destino ignorado. E você sabe o que isso significa, não é?

- Ok! Se eles foram, nós vamos também. – respondeu Clara decidida. – O que você e a Jennifer têm em mente?

- Vamos num club de Londres festejar um pouco. Vê com suas amigas se elas querem ir e se arruma bem bonita porque hoje é sua última chance de ficar com alguém antes do casamento.

- Até parece que vou ficar com alguém... Não conseguiria ficar com mais ninguém além do meu Jack. – respondeu Clara.

- Sei! Vai se arrumar, come alguma coisa que vamos passar aí às 11. Vocês estão em quantas?

- Espera, vou contar... sete, se minha cunhada quiser ir, ou seis se ela não for. Meu irmão é meio chato, acho que ela não vai.

- Então vamos pegar dois jipes aqui porque cabe mais gente. – disse Cindy

- Só uma coisa. Como é essa balada? Como eu me visto? – perguntou Clara.

- Hum! Aquele pretinho de Paris, não o longo, aquele de babado, está ótimo. Essas baladas de Londres são tranquilas, você pode se vestir como quiser, é como em Nova York. Mas você vai bem arrumadinha porque assim arrumamos alguém para você, é um costume importante, ok?

- Está bom! Vamos nos arrumar e descer no saguão. Vamos jantar agora e nos preparar. – disse Clara.

- Acho bom! A gente se vê....

- Então, a Cindy Mersey quer fazer uma despedida de solteira para mim numa balada aqui de Londres, quem quer ir?

- Eu não vou! – respondeu Ciça. – Estou cansada e não trouxe roupa de balada. Vou ficar com vergonha... não vou.

- Sinceramente, vocês que sabem! Eu não estou feliz com isso e só aceitei ir porque o Jack neste momento está com os amigos fazendo sabe Deus o que.

- Nós vamos! – responderam Ana, Renata e Sara em uníssono.

- Alguém tem que fazer esse sacrifício! - disse Sara rindo.

- E você Marina? – perguntou Clara para a cunhada.

- Não! Só iria se o Fernando pudesse ir junto. – respondeu Marina. – Nenhum dos homens vai?

- Não dá! É coisa só para mulheres... – respondeu Jonas rindo. – Era só o que faltava, não é?

- Somos só nós quatro? Então vamos jantar e nos preparamos para ir. Ciça, se você quiser tenho uma porção de roupas que posso te emprestar. Tem certeza que não quer ir?

- Ah! Vamos Ciça, vai ser divertido. – disse Sara.

- Não. Vou descansar mais cedo. Não gosto de balada, vocês sabem! – respondeu Ciça.

- Vou ligar para o serviço de quarto, vamos jantar e depois vamos nos preparar e descer para o saguão que elas vão passar aqui às onze. O que vocês querem comer?

- Pede uns lanches, não estamos com fome, não tem hambúrguer ai nesse menu? – perguntou Fernando.

- Todo mundo quer hambúrguer, batata frita, refrigerante? Pode ser isso? – perguntou Clara.

Ela pegou o telefone e pediu comida e bebida para todos. Mesmo com o pedido de comida simples, subiram o mordomo da suíte e uma equipe de garçons que transformou aquele lanche tão frugal em refeição sofisticada.

Todos jantaram e partiram para seus quartos. Clara não conseguia deixar de decepcionar-se um pouco com Jack, mas já que essa era a tradição, ela não ficaria para trás.

Colocou o vestido sugerido por Cindy, scarpins pretos de salto altíssimo, perfumou-se e colocou os brincos de rubi. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, maquiou-se e perfumou-se. Pegou uma de suas bolsas sociais, o celular que estava mais quieto do que nunca, o cartão chave, sua carteira e seu passaporte.

Suas amigas já estavam no saguão e seus pais já tinham se recolhido ao próprio quarto, quando ela desceu. Estava ainda chateada, mas saia com a disposição de divertir-se.

Cindy não demorou a chegar e as quatro amigas dividiram-se duas em cada carro. O night club escolhido era caro, mas Clara pagou pela entrada das quatro e logo elas estavam dividindo uma mesa no mezanino que era considerada a área Vip.

O DJ da casa era conhecido de Cindy e assim que a viu chegar colocou “Rockin’ Over” para tocar. Todas sentaram-se e pediram bebidas. Clara optou por champagne.

- E agora? – perguntou Clara. – O que acontece?

- Você encontra alguém interessante e fica com ele, oras! Será que precisamos te ensinar, Clara? – disse Jennifer.

- Mas eu não estou vendo ninguém interessante. Será que não dava só para eu dançar ali na pista, beber um pouco, conversar um pouco, dar risada e ir embora?

- Claro que não! O Jack a estas horas está bêbado e cercado por uma porção de mulheres, você não acha que é uma desforra justa?

- Acho, mas não conseguiria ficar com alguém assim, só por ficar. – respondeu Clara, tentando justificar sua falta de vontade de estar ali.

- Calma! Bebe mais um pouco de champagne que você vai conseguir beijar alguém aqui, hoje. – disse Cindy.

E o grupo de amigas começou a soltar-se aos poucos. Clara estava começando a ficar preocupada porque todas estavam bebendo muito.

Até que um rapaz que estava também em um grupo grande de amigos aproximou-se com alguns deles da mesa em que Clara estava. Era um modelo que havia reconhecido Jennifer e usou isso como desculpa para falar com elas.

Logo, Clara já tinha descido até a pista para dançar com um dos modelos; um americano alto com olhos muito azuis e cabelos negros.

- Sou Carl Jenkins, você é a escritora que vai se casar com o Jack Noble, não é?

- Sou eu sim. Como você sabe? – perguntou Clara.

- Vi umas fotos suas com ele em um parque em Dublin e te reconheci. Esses paparazzi são uns idiotas.

- É, são. O cara bem que tentou provocar o Jack, mas não conseguiu. Fiquei orgulhosa dele não ter reagido.

- Hoje é a sua despedida de solteiro não é?

- As minhas amigas insistiram muito nisso, mas estou tranqüila. Já saí, estou me divertindo. Não preciso ficar com ninguém só porque elas querem.

- Mas é uma tradição. Você tem que ficar com alguém. Espera... – disse Carl, pegando a mão de Clara e puxando-a. - Vou fazer isso porque sou fã da Crossroads e por mais que eu queira te beijar agora, acho que todos os fãs devem muito a você, por isso, a gente vai fazer que elas acreditem que ficamos juntos. Confia em mim?

- Ok!

Carl puxou-a para mais perto na pista e deu-lhe um beijo no queixo, um velho truque cênico que pelo ângulo de visão das amigas de Clara daria a impressão de que se beijavam.

Clara deu um beijo no rosto do modelo e agradeceu.

- Só mantenha seu marido na estrada por tempo suficiente para que eu possa ver a Crossroads ao vivo. É meu maior sonho! - disse Carl ao se despedir de Clara.

- Pode deixar! - respondeu sorrindo.

Clara subiu novamente para a área Vip. Sentou-se ao lado de Cindy e Jennifer que riam dela e aplaudiam.

- Parabéns noivinha! Agora nós permitiremos que se case! - disse Cindy. - E que homem, hein?

- O Carl é modelo. Conheço ele há bastante tempo, até desfilamos juntos algumas vezes em Paris. - disse Jennifer. - Parabéns, Clara!

Para Clara, Carl era apenas um estranho compreensivo que a ajudou convencer suas amigas de que atravessou com honras mais um tolo rito de passagem. Ela sabia que as amigas iriam criticá-la, mas precisava dizer o que estava sentindo:

- Desculpa amigas, mas ainda preferia estar com o Jack. Estou com muitas saudades dele. - disse servindo-se de mais champagne e suspirando.

Clara deu uma olhada na pista, suas amigas brasileiras dançavam e então resolveu descansar um pouco, recostou-se na poltrona do camarote e conversava com Cindy e Jennifer sobre os preparativos do casamento. Estava ficando mais e mais nervosa a cada hora que passava.

- Será que Jack vai voltar para casa ainda hoje? - perguntou Clara preocupada.

- Já voltou, olha essa mensagem que o David me mandou há 15 minutos: "Cheguei! Jack já está entregue! Vou dormir!"

- Vamos embora, então? - disse Clara. - Vou chamar minhas amigas lá embaixo, ver se elas voltam com a gente.

Rapidamente o grupo foi reunido e já estava no carro partindo de volta para o hotel. Clara queria chegar logo, ver Jack, estar com ele, por isso despediu-se de suas amigas no saguão do hotel e subiu correndo para a suite.

Tudo quieto e silencioso, Clara então subiu para seu quarto e teve uma surpresa. Jack a esperava sentado na cama, nu, em meio a muitas pétalas de rosas vermelhas.

- Então, senhorita Oberhan como foi sua despedida de solteira? - perguntou Jack espalhando pétalas de rosas sobre seu corpo. - Terminou cedo, não?

- Eu insisti para que terminasse. E você? - disse Clara. - Onde você foi?

- Os rapazes me levaram a uma casa de moças... bom, você sabe... - disse Jack continuando a brincar com as pétalas. - Eu escolhi duas ou três, levei-as para um quarto, ficamos por um tempo conversando lá e depois dei algum dinheiro a elas e me desarrumei um pouco, para convencê-los que aproveitei a noitada. Depois desci e pedi para ir embora.

Clara começou a rir, e tirar a própria roupa: - Jack, somos patéticos, eu e você!

- Por que você está dizendo isso? - perguntou Jack olhando para ela e estendendo o braço para acariciá-la na beirada da cama.

- Porque, agora, naquela boate Koko, em Camden, as meninas me empurraram para dançar com um modelo, amigo delas e ele tinha ordens de me beijar, mas convenci-o a apenas fazer uma cena para elas e quando eu soube que você já estava aqui, voltei correndo... - disse Clara sentando-se finalmente na cama, nua ao lado de Jack e imitando seu gesto de jogar pétalas sobre seu próprio corpo. - Não consegui ficar com ninguém que não fosse você.

Ouvindo isso, Jack riu aproximou-se dela e a abraçou. Os dois ficaram frente a frente e apenas se olhavam iluminados pela luz da lua cheia que entrava pela janela e clareava o quarto. Jack puxou-a para mais perto, beijou-a e os dois tiveram uma das noites mais românticas de suas vidas; estavam tão apaixonados que nada mais importava.

Continua

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