3 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XXIX


O dia começou cedo para Jack e Clara, tomaram café com os pais e os irmãos de Clara que os acompanhariam até Heathcliff Hall onde aconteceria um ensaio da cerimônia, almoçariam por lá e depois voltariam para a cidade onde mais tarde jantariam com alguns parentes e amigos no restaurante do hotel.

Depois do almoço, os parentes de Clara voltariam ao hotel, enquanto os noivos iriam até o escritório de Michael Peters assinar um contrato pré-nupcial.

O casamento estava marcado para o meio dia do dia seguinte nos jardins de Heathcliff Hall. Clara passaria toda a manhã em um SPA que funcionava no hotel em que estava hospedada e partiria às 10 da manhã para a casa de Mersey, já pronta para a cerimônia.

Jack também faria a mesma coisa. Os parentes e amigos de Clara hospedados no hotel iriam para lá em uma van que acompanharia seu rolls royce prateado onde seus pais também viajariam.

Na limusine de Jack iriam juntos Jane, Kate, sua filha, e seu genro.

Clara estava muito nervosa quase não abriu a boca durante as quase duas horas de viagem até Heathcliff Hall. Jack percebendo seu nervosismo sussurrava carinhosamente em seu ouvido, tentando acalmá-la.

- Vai dar tudo certo, você vai estar linda e nosso casamento será maravilhoso. – dizia Jack, enquanto acariciava os cabelos de Clara.

Os pais e irmãos de Clara também falavam pouco no carro e Jack tentava ser simpático com todos, perguntando sobre os passeios que fizeram no dia anterior ou simplesmente jogando conversa fora.

Logo a van atravessou a estrada do bosque e estava no portão de Heathcliff Hall, o palácio de David Mersey, que esperava pela chegada dos amigos na porta.

- Velhão! E aí? Pronto para se enforcar?

- Oi David. Não vejo a hora, para dizer a verdade. – respondeu Jack beijando as mãos de Clara.

- Bom dia, princesa! – disse David em português para Clara.

- Bom dia, David, quero te apresentar para meus pais e meus irmãos. – respondeu em português. – Pessoal, esse é o David Mersey, ele é guitarrista da banda do Jack e será o oficiante da cerimônia.

- Nossa! Você fala português. – disse o pai de Clara.

- Falo. Morei por um tempo no Brasil. – respondeu David com um sorriso. – E agora exercito meu português com sua filha.

- Meu Deus! Você mora aqui? É mais bonito que Buckingham! – disse Marina, a cunhada de Clara.

- Eu também acho. – respondeu David com simpatia. – Vamos entrar, depois a Cindy, minha esposa, pode fazer com vocês o tour oficial da casa. Bem vindos a Heathcliff Hall.

Clara segurou Jack pelo braço e deixou que todos entrassem. – Jack, preciso falar com você um minuto, antes que eu perca a coragem.

- O que foi, meu amor? – perguntou Jack.

- Você tem certeza que é isto mesmo que você quer? – disse Clara.

Jack não disse nada, apenas a apertou nos braços e a beijou. – Alguma dúvida? – perguntou a seguir.

- Não... me desculpa, mas estou tendo uma pequena crise de véspera de casamento. – disse Clara, as lágrimas escorrendo pelo rosto. – Fala para mim que esse casamento não é uma loucura, fala que tudo vai dar certo.

- Vem aqui, amor. Vai dar tudo certo! Agora vamos lá ensaiar. – disse pegando Clara no colo e levando-a para dentro da casa.

- Senhoras e senhores, apresento para vocês a noiva! – disse Jack para um grupo de pessoas de olhos arregalados no meio da sala de estar de David.

- Desculpa pessoal, o Jack é louco. – disse Clara em português e inglês. – para os parentes e amigos que riam dos dois.

- E aí? Vamos ao ensaio! – chamou Cindy colocando ordem na bagunça e chamando todos para seguirem para a porta de trás da casa que se abria para o jardim.

Clara ficou maravilhada com o que viu. Todas as estruturas já construídas, cadeiras espalhadas pelo gramado para os convidados, o altar branco especialmente construído para a cerimônia, e mais para trás um palco, onde alguns músicos convidados do casamento se revezariam durante a festa.

- Vai chorar de novo? – sussurrou Jack em seu ouvido.

- Vou sim! – respondeu Clara. – Está tudo tão lindo!

- Cindy, Anne, Jennifer... nem sei o que dizer a vocês! Está tudo perfeito! Obrigada!!!!

- Noivinha! Vamos lá ensaiar agora? – disse Jack.

Anne tomou a frente dos ensaios. Organizou a ordem de entrada e explicou o papel de cada uma das pessoas que participariam da cerimônia e depois, com música soando nos alto-falantes, foi feita a simulação completa, com todos ocupando seus lugares e finalmente Clara entrando ao lado de seu pai. Anne ficou atenta a cada um dos detalhes corrigindo e dando dicas e por último pedindo aos noivos cópias dos votos.

Anne deu uma olhada nos dois papéis e disse: - Perfeitos! Conhecendo o trabalho dos dois sabia que seriam assim. Os votos serão impressos e farão parte de um pequeno livro que servirá como lembrança do casamento e pelo que vejo aqui, fará muito sucesso. Lindos mesmo! Parabéns. Então é basicamente isso. Alguma dúvida? Alguma observação? Ah! Já ia me esquecendo, o juiz estará lá dentro, na biblioteca, por isso, assim que vocês saírem daqui, vocês seguem para a biblioteca no segundo andar e assinam os papéis.

- Como é essa saída? – perguntou Jack.

- Os noivos vêm na frente e depois as pessoas do altar, oficiante, padrinhos, pais, vêm pelo meio da passarela e os demais convidados saem pela lateral.

- Quem segura o bouquet enquanto estou no altar? – perguntou Clara.

- A Cindy. Depois, quando o David disser, agora digam seus votos, a Jennifer entregará um livrinho para você, e o Dan entregará um livrinho para o Jack.

- Ok! Acho que não tenho mais dúvidas, espere Anne, vou perguntar para os meus parentes que não falam inglês se eles têm alguma pergunta.

Passaram toda a cerimônia novamente e depois estavam todos livres para almoçar na sala de vidro. Cindy contratou um buffet para servir um almoço leve e o clima era tão amistoso que todos já pareciam fazer parte da mesma família.

Após o almoço, era hora de voltar para Londres, foram todos para o hotel e Jack e Clara apenas passaram lá para pegar o carro de Jack e seguir até o escritório de Michael para assinar o contrato pré-nupcial.

Michael leu todo o contrato para os dois, obviamente aquele documento era voltado a proteger o patrimônio de Jack contra Clara, em caso de separação.

- Espera, Michael. Não quero assim. O que é meu é dela. Acho tudo isso bobagem. – disse Jack, balançando a cabeça. - Ela é minha mulher.

- Não, Jack. É justo. Você tem seus filhos, são eles que devem ficar com o seu dinheiro, sou sua mulher, não quero nada. Não estou casando com você por dinheiro e se nós brigarmos daqui a algum tempo, acho completamente justo e natural que o Michael proteja os seus interesses e os dos seus filhos.

- Muito bem, Clara! Viu Jack? Ela entendeu, por que você não entende? – disse Michael, ainda tenso por não estar conseguindo convencer Jack a assinar o contrato.

- Porque eu não acho nada disso certo, nem justo. Ela é a mulher da minha vida e não vou deixá-la desamparada mesmo que ela não queira me ver nunca mais. Você não entende isso, Michael?

- É justo, querido. Eu vou assinar e pronto! – disse Clara pegando a caneta da mão de Jack. – Vai amor, assina, por favor...

- Ok! Mas vou querer mudar meu testamento na semana que vem. Se acontecer alguma coisa comigo, você precisa ficar bem.

- Olha, Jack. – Clara começou a dizer com lágrimas nos olhos. – Sou uma escritora, meu padrão de vida não chega nem na metade do seu, mas vivo bem com os contratos de edição e vendas de livros que consegui ao longo de minha carreira. Se acontecer alguma coisa com nosso casamento volto para o Brasil e continuo a viver como vivia antes.

Jack a abraçou e beijou, depois pegou a caneta e assinou o contrato, também com lágrimas nos olhos.

- Não é justo com você, menininha. Não é justo... – disse Jack novamente abraçando-a. – Me perdoa.

- Não tenho o que perdoar. Não estou me casando com seu dinheiro, estou me casando com você e não ligo a mínima para mais nada no mundo. Para dizer a verdade, se for preciso estou disposta a dividir o meu apartamento no Brasil com você. – disse Clara olhando nos olhos de Jack e segurando suas mãos.

A atitude de Clara emocionou Michael de tal forma, que ele não resistiu e a abraçou; - Raramente as pessoas me surpreendem neste mundo. Clara, por favor, aceite minhas desculpas. Me coloco a sua disposição, se precisar de alguma coisa, estou aqui.

- Obrigada Michael. Vou ficar muito feliz de recebê-lo amanhã em meu casamento.

- Claro que irei. Não perderia por nada. – disse Michael beijando a mão de Clara.

- Bom, caro Michael, eu e minha princesa então o veremos amanhã.

Os dois saíram do escritório de mãos dadas e voltaram para o hotel. No caminho de volta, Jack ainda resmungava e balançava a cabeça, inconformado com os papéis que havia acabado de assinar.

- Vamos mudar de assunto? Estamos bem, estamos felizes e eu não poderia te amar mais do que eu já te amo, por isso, chega! Não quero mais ouvir falar dessa chatice de documentos, ok? – disse Clara em tom de ultimato.

- Está bem... – disse Jack. – Não quero te deixar nervosa.

- Melhor mesmo. Você ainda não me viu nervosa. Agora quero esquecer tudo, ir para casa me arrumar e ficar linda para o jantar de hoje à noite, porque amanhã vai ser uma barra pesadíssima, vou chorar, vou dar vexame e se você não estiver do meu lado, me apoiando... nem sei do que sou capaz!

Jack sorriu, estava no trânsito da City, uma das áreas mais movimentadas de Londres e decidiu parar o carro porque queria conversar com Clara.

- Vou estacionar naquela travessa ali. Tem um pub ali na rua de trás, vamos lá tomar um chá e conversamos, ok?

- Ok! Me perdoa, minha família não nos deixa ter mais privacidade...

- Sua família é adorável, como você! Olha tem uma Starbucks nova ali, é melhor ainda.

Os dois entraram na cafeteria e sentaram-se em uma das mesas do fundo. Jack pediu um chá gelado e Clara um capuccino.

- Então, Jack, o que você queria me dizer? – disse Clara.

- Queria te dizer primeiro que estou quase louco de tanta felicidade porque você aceitou casar comigo e que essa palhaçada de contrato pré-nupcial ainda não terminou. -disse Jack. - Se bem que hoje eu vi algo que nunca tinha visto antes, o Michael estava quase parecendo humano, lá com você, no escritório.

- Ah, Jack! Você é terrível. Quanto ao contrato, isso não me incomoda. Não tenho a menor intenção de me separar de você, então esse contrato é irrelevante, o que mais?

- Eu te amo desesperadamente menininha e quero o melhor para você e quero que você me diga o que você quer, porque seja o que for, eu te dou.

- Qualquer coisa? – perguntou Clara. – Hum, me deixa ver... Tudo o que eu quero neste mundo é... Você! E eu acho que você eu já tenho, não tenho?

- Completa e totalmente. Sou seu! Então, o que mais você quer?

- Nada, nada mais me importa, mesmo! Todo o resto é bobagem. – disse Clara. – O que mais você quer me falar?

- Eu já deveria ter dito isso para você, mas como nós nunca falamos sobre filhos, olha Clara, você já sabe que tenho mais filhos do que deveria ter por aí e há uns cinco anos, depois de um relacionamento desastroso, decidi que deveria fazer uma vasectomia. – disse Jack passando as mãos nos cabelos de Clara. – Conversei com meu médico e ele me disse que se nós quisermos ter filhos, ele pode fazer uma inseminação...

Clara apenas sorriu e pegou as mãos dele sobre a mesa para dizer: - Tecnicamente, estamos empatados, querido.

- Não entendi... - ele respondeu ainda preocupado.

- Quando viajei para cá, estava fazendo um tratamento de anemia e minha médica me deu uma injeção que me impedia de ovular pelos próximos 3 meses. Isso significa que momentaneamente também não posso ter filhos. Mas não se preocupa. Não penso em ter filhos, não agora! Na verdade, nunca parei para pensar nisso. – respondeu Clara. – Vamos fazer assim? Se algum dia decidirmos ter um filho, fazemos a inseminação e pronto...

- Você já melhorou da anemia? - perguntou Jack.- Eu pergunto porque sua mãe me disse que te achou muito magra. Me disse que estava preocupada com você.

- Minha mãe está sempre preocupada comigo, querido. Ela é assim mesmo. Eu acho que estou bem. Na verdade, viajei e não pude mais ir ao médico. Pelo menos não tenho me sentido mal como me sentia. - disse Clara.

- Você precisa ir ao médico, Menininha. Mas confesso que estou aliviado, pensei que você ia se levantar daqui dizendo que nunca mais ia querer falar comigo e você continua aqui. Obrigado por me entender, meu amor. – disse Jack pegando a mão de Clara e beijando.

- Mas é claro que eu entendo, a não ser por um ou dois acessos de ciúmes que eu sei que terei eventualmente, sou uma pessoa fácil de conviver. – disse Clara, sorrindo.

- Mas eu sou uma pessoa difícil? – perguntou Jack. – Sei que minha memória não é grande coisa, mas acho que nunca brigamos.

- Não, você é mais tranquilo do que eu esperava, perto da primadona que eu achava que iria encontrar, você é um anjo. Me surpreendeu porque ao invés do monstro egóico da minha imaginação, encontrei um homem inteligente, sensível, meu melhor amigo e o melhor amante que já tive.

- Ah Clara! Tem tanta coisa que você ainda não sabe sobre mim... - disse Jack com aquele olhar triste que geralmente precedia suas crises. - Tem muita coisa que você precisaria saber antes de...

- Jack, não! Por favor, já te conheço o suficiente para te amar e nada que você possa me dizer sobre o que aconteceu no passado vai mudar isso. - respondeu Clara, segurando as mãos de Jack com firmeza e olhando em seus olhos.

- Mas...

- Mas nada! Agora não! Vamos viver nosso sonho em sua totalidade antes de sermos engolidos pela mediocridade do mundo. Ninguém é perfeito. Depois de tomar muita pedrada na vida, aprendi a não julgar ninguém. Seja o que for que você quer me falar eu te digo que foi o que você pode fazer, de acordo com o que você sabia naquele momento. Você é uma pessoa boa, transparente, cheia de luz até. Se você fez algo de ruim no passado tudo ficou para trás, perdoe a si mesmo e esqueça.

Lágrimas corriam dos olhos de Jack e Clara beijou-o na testa e abraçou-o. Ficaram juntos por alguns minutos. Depois, Clara secou os olhos de Jack com um lenço de papel, puxou-o pelas mãos e caminharam silenciosamente até o carro.

Ele não fez a ela a revelação que pretendia fazer, mas depois de tudo o que ela disse, Clara tinha a impressão de que seu semblante estava mais sereno, alguma coisa que ela disse ajudou Jack a encontrar um pouco de paz.

Quando chegaram ao hotel encontraram os amigos e parentes dela na suíte ainda conversando, olhando as fotos e completamente apaixonados por Heathcliff Hall e seus jardins.

O clima de festa na suíte trouxe a alegria de volta. Notando que o sorriso tinha voltado ao rosto de Jack, enquanto conversava com seus amigos, Clara apenas ergueu-se de onde estava e foi em sua direção, beijando-o.

- Você é maravilhoso. E eu te amo! - sussurrou Clara em seu ouvido.

Já era o final da tarde e cada um seguiu para seu quarto para prepararem-se para o jantar. Foi uma noite perfeita, em que Clara e Jack brilhavam de tanta alegria. Os parentes e amigos dele conhecendo os parentes e amigos dela. Aquele tipo de festa nem era uma tradição britânica, mas os dois ficaram muito satisfeitos de fazê-la porque acabou mostrando a um lado e ao outro que mesmo morando em países tão distantes, não eram tão diferentes assim.

Mas existiam alguns costumes diferentes sim e antes do jantar, Jane entregou a Clara uma caixa de presente com alguns itens que faziam parte da tradição britânica.

- Clara, você talvez não saiba, mas existe uma tradição de casamento britânica que a noiva precisa ter alguns items com ela, para dar sorte no dia do casamento. Normalmente quem fornece estes itens é a madrinha, mas eu pedi a Cindy que me desse essa alegria de trazê-los até você, o poema é assim:

"Something old, something new
Something borrowed, something blue
And a silver sixpence in her shoe."

- Aqui nesta caixa estão todos eles: Este pequeno broche foi usado pela minha avó no dia do casamento dela e eu quero que ele seja seu agora, apontou Jane para uma delicada flor de ouro, com pérolas e pequenos diamantes que estava em um pequeno porta joias de veludo.

- Que lindo! Mas é uma jóia de família, não posso aceitá-la!

- Filha, você é família agora! A minha avó, minha mãe e eu usamos esta flor em nossos vestidos e ela nos deu sorte em nossos casamentos. Quero que você fique com ele agora e o dê a seus filhos com o Jack, para passar essa felicidade adiante querida.

- Obrigada! É a coisa mais linda que eu já vi!

- Calma que apenas começamos. - disse rindo. - Esta caixinha aqui tem uma coisa nova. A Cindy me disse que seu vestido é no estilo Regency e eu tomei a liberdade de mandar fazer estes brincos de pérolas seguindo algumas indicações que me foram dadas por ela e são um presente para você!

- Meu Deus! Jane! Que lindos! Obrigada...

- Ainda tem mais, querida... Esta pulseira de pérolas é uma das minhas favoritas e é emprestada, você deve me devolver. Mas só ela, certo?

- Claro! Mas são jóias muito preciosas...

- Você merece cada uma delas, querida. Por fazer meu irmão feliz novamente! - disse Jane. - e aqui está, uma cinta liga azul e uma genuína moeda de seis pence que você deve colocar dentro do seu sapato. Pronto querida! Você terá toda a sorte do mundo em seu casamento!

- Jane! Não sei como agradecê-la. Prometo que farei o possível e o impossível para fazer o Jack feliz.

- Era só isso que eu queria ouvir, querida. Ele já sofreu demais, está na hora de ser feliz agora.

Continua

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