26 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XLVII


Os dois procuraram pelo próximo voo entre as duas cidades, compraram os bilhetes de classe executiva e logo estavam na sala VIP esperando para embarcar.

- Chegamos até aqui, querida. – disse Jack. – Estou feliz que você está ao meu lado.

- Você sabe que estarei sempre por perto, não importa o que aconteça. - sorriu Clara acariciando os cabelos de Jack.

- Linda! – disse Jack, beijando-a.

Jane ligou para Jack dizendo que o bebê ainda não tinha nascido, que por ser o primeiro filho de Kate, aquele parto podia demorar ainda um pouco mais e que o médico disse ao genro que estava monitorando a situação e se houvesse algum risco maior, faria uma cirurgia.

Mary já estava em Heathrow pronta para embarcar no voo das cinco da tarde direto para Chicago e logo os dois também estariam por lá.

- Já que vamos de jato particular, por que a Mary não vai conosco, Jack? – perguntou Clara.

- Porque ainda não sabemos a que horas poderemos ir. – disse Jack. – O Michael está em Heathrow providenciando o avião para nós, mas o Lambert vai demorar umas duas horas para chegar lá com meu passaporte e ela não quer perder esse voo direto.

- Você sabe quanto tempo de voo de Londres até lá? – disse Clara.

- Umas 9 horas, acho. – disse Jack. – Menininha, logo estaremos chegando.

- Ah! Lembrei de uma coisa. – disse Clara. – Está aqui, na minha bolsa. Ela abriu a bolsa, pegou seu japamala de jade e pendurou-o no pescoço de Jack. – para que você tenha a luz necessária para enfrentar isso tudo da melhor maneira possível, querido.

- Obrigado Menininha, você não sabe o que isso significa para mim. - disse Jack.

O voo até Londres foi rápido. Em menos de uma hora, os dois desembarcavam em Heathrow e encontravam-se com Michael no saguão.

Ele entregou para Clara uma pasta com seus documentos provisórios, uma cópia de sua certidão de casamento e uma carta de um órgão público britânico que afirmava que seu processo de solicitação de cidadania européia já havia sido iniciado a partir da data da certidão de casamento.

O avião particular até Chicago já havia sido contratado, agora os três aguardavam pacientemente pela chegada de Lambert no saguão com o passaporte de Jack.

- Está tudo pronto! – disse Michael. – Assim que o Lambert chegar pegamos o meu carro e seguimos até a pista para que vocês embarquem, já consegui autorização para isso também.

- Que bom, Michael. – disse Clara. – o Jack está muito aflito. Precisamos sair daqui o quanto antes.

Sentados no saguão, as horas se arrastavam.

- Já são quatro da tarde. – disse Clara. – eu também estou aflita, Michael. A que horas o Lambert chega aqui?

- Já deve estar chegando. – disse Michael olhando no relógio. – Tem umas duas horas de caminho da casa da montanha ao aeroporto.

Michael atendeu o celular, era Lambert dizendo que já tinha chegado no aeroporto e que estava estacionando o carro.

- Ele já chegou! – disse Michael. – Vamos ao encontro dele no estacionamento.

- Meu carro está parado na área L e o dele, na área J. São próximas daqui, vem, vamos pegar o elevador. – disse Michael.

Os dois seguiram Michael até o carro e encontraram com Lambert próximo a ele. Pegaram o passaporte de Jack e foram de carro até a pista, onde um agente de imigração britânico carimbou os passaportes de ambos e checou o visto americano de Clara.

Com tudo autorizado, entraram em um jato particular e rapidamente estavam decolando rumo a Chicago; com chegada prevista após 9 horas de voo, para as 10 da noite, no horário local.

- Vamos lá, querido... Agora descansamos um pouco e logo estaremos lá, do lado da Kate e do seu netinho...

- Estou muito nervoso, amor... - disse Jack. - É tão longe... porque ela está vivendo tão longe de mim?

- Porque ela tem a vida dela, o trabalho dela... Eu entendo que você a queira mais perto, mas fico aflita porque perdi várias oportunidades na minha carreira graças ao meu pai sempre querendo me manter por perto.

- Mas se você tivesse aproveitado estas tais oportunidades, talvez agora você estaria longe de mim... Acho que as coisas acontecem porque têm que acontecer.

- Eu também acho, querido. Mas do ponto de vista do filho, isso sempre é muito injusto. Imagina se você nunca tivesse aparecido em minha vida, nem o Jonas. A esta hora, eu estaria lá no Brasil, trabalhando em um lugar que eu detestava, triste, frustrada...

- Mas você voltou para mim, Menininha... - interrompeu Jack. - E não sabe o quanto isso me fez feliz...

- Lindo! - sorriu Clara, pegando a mão de Jack e beijando-a. - O que eu mais quero é te fazer feliz, como você me faz...

- Será que podemos usar nossos telefones aqui? Internet? Essas coisas... - perguntou Jack.

- Espera, querido. Vou descobrir. - disse Clara apertando um botão do intercomunicador que falava com a cabine. - Alô... senhor comandante?

- Sim, co-piloto Rupert, senhora. Como posso ajudá-la.

- Podemos utilizar telefone celular e internet nesta aeronave?

- Sim senhora. - disse o co-piloto. - Temos o fornecimento deste serviço ativado e funcionando, basta ligar seus telefones, tablets ou computadores.

- Obrigada senhor Rupert.

- É uma honra tê-los a bordo, senhora.

- Podemos telefonar então, querido. - disse Clara pegando o celular desligado em sua bolsa e ligando-o. - Vou ligar para a Jane.

- Jane, querida. É Clara. Já estamos a caminho de Chicago e nos liberaram o uso do celular a bordo. Por isso você pode continuar nos mantendo informados sobre como estão as coisas.

- Manterei, querida. - disse Jane. - Como está o Jack?

- Ainda muito aflito... Mas tenho certeza de que tudo dará certo...

- O Mark continua esperando ao lado dela, no quarto para seguir para a sala de parto. Parece que os dois estão bem, tanto ela quanto o bebê.

- Que ótimo, Jane. - sorriu Clara. - fico feliz! Vou avisar o Jack.

- Querido, o Mark ligou para a Jane e ainda estão aguardando para levar a Kate até a sala de parto e tanto ela como o bebê estão bem...

- Que bom! Isso é muito bom... Estou até achando melhor ajeitar estas cadeiras para dormirmos um pouco, porque assim chegamos mais rápido.

- Tem razão... - sorriu Clara soltando-se do cinto de segurança e pegando cobertores e travesseiros no compartimento de bagagem. - Vamos descansar...

Clara tirou as botas dos pés de Jack, ajeitou sua cadeira, colocou um travesseiro sob sua cabeça e cobriu-o com o cobertor. Diminuiu a luz na cabine dos passageiros e, a seguir, sentou-se e fez a mesma coisa para si mesma, tirando as botas e ajeitando-se na cadeira, para dormir.

- Boa noite, amor. - disse Clara, programando o celular para tocar dentro de seis horas.

- Boa noite, meu anjo. - respondeu Jack.

Os dois dormiram apenas uma parte das seis horas programadas por Clara e logo já estavam acordados novamente. O voo não tinha serviço de bordo, mas o avião tinha toda a estrutura para que eles mesmos se servissem de comida e bebida.

Seguindo as intruções de um folheto, Clara aqueceu a comida para ela e para Jack e colocou-a em bandejas apropriadas, junto com vinho, que Jack abriu e serviu para ambos em uma pequena mesa que dividiram.

- Querida, acho que se decidíssemos dançar aqui dentro deste avião, conseguiríamos. Aliás, nunca tive uma comissária mais deliciosa me servindo.

- Jack, meu amor. - sorriu Clara. - Não fala essas coisas... Você sabe que fico sem graça...

- Não fique, amor. Eu não fico sem graça em dizer que você é a mulher mais gostosa que conheci em toda a minha vida.

- Maluquinho! Meu doce, maluquinho... Sinto tanto carinho por você, que nem consigo ficar realmente chocada com seus modos, como deveria.

- Estamos a sós, minha querida. - riu Jack. - Por isso posso dizer-lhe aquilo que bem entender e você também tem aqui a liberdade de dizer aquilo que passar por sua mente.

- Então direi! - sorriu Clara. - Adoraria tê-lo dentro de mim, neste momento... Mas infelizmente isso não será possível, pois estamos dentro de um avião e não seria nada agradável se o piloto ou co-piloto caminhassem até aqui e nos vissem fazendo aquilo que costumamos fazer quando estamos sozinhos.

- Eu não me importaria, minha querida. - respondeu Jack rindo. - Como sabe, já vivi situações muito mais embaraçosas em minha vida e estar dentro de você, não seria motivo para embaraço, mas para orgulho.

- Ai, querido... - suspirou Clara. - Melhor pararmos por aqui, antes que as coisas se compliquem ainda mais...

A seguir, Clara levantou-se, colocou as bandejas no compartimento indicado e travou-as. Caminhou até o banheiro do avião para escovar os dentes, mas Jack foi atrás dela e entrou com ela no apertado compartimento.

- Jack! – riu Clara. – Ficou maluco?

- Maluco por você... – disse agarrando-a por trás; ela reagiu imediatamente, virando-se para ele, que já tirava suas roupas íntimas e em um movimento rápido, pegou-a no colo e mesmo naquele pequeno cubículo, os dois encontraram um jeito de entregarem-se a seus desejos e sentir muito prazer juntos. A sensação de estar fazendo algo errado e perigoso deixou Clara ainda mais excitada e ela saiu do banheiro ainda com os joelhos falhando, enquanto Jack não conseguia disfarçar seu largo sorriso de satisfação.

- Que loucura, Jack! – disse Clara retornando para seu assento e sussurrando no ouvido do marido que caminhava ao seu lado. - Vou precisar pegar outra calcinha na mala.

- Não é minha primeira vez em um banheiro de avião, querida. – disse Jack rindo muito.

- Mas é a minha. – riu Clara enquanto pegava a mala no compartimento de bagagem - Isso é uma loucura. Nunca pensei...

- Você é adorável, Menininha... - riu Jack.

- Vou me vestir, querido. – disse Clara colocando a mala de volta no compartimento e caminhando até o banheiro.

- Quer que eu te ajude? – perguntou Jack.

- Você já ajudou! – riu Clara.

Clara arrumou-se novamente, escovou os dentes, ajeitou os cabelos e ficou preparada para a hora do desembarque que se aproximava.

Quando saiu do banheiro, Jack falava ao telefone e chorava.

- O que foi meu amor? – disse Clara caminhando até ele e abraçando-o.

- O meu neto nasceu... é um menino e ele e a Kate estão bem... o médico disse que é uma criança forte e saudável, apesar de prematuro e por isso ele tem uma boa chance.

- Que bom amor! – sorriu Clara. – quem te ligou?

- O Mark, meu genro. Preciso ver minha filha...

- Estamos chegando, amor. – disse Clara. – arrumei meu relógio para o fuso horário de Chicago e já são quase 9:30... mais meia hora e iremos pousar.

Alguns minutos depois o comandante anunciava que estava iniciando o pouso no Aeroporto O'Hare, em Chicago e também disse que o horário local era 9:55 da noite e que a temperatura era de 15 graus centígrados.

Por causa das leis americanas mais rígidas do que as européias, Jack e Clara tiveram que pegar um carro na pista para levá-los ao terminal de passageiros para passarem pela imigração.

E assim que tiveram seus passaportes carimbados, os dois pegaram um taxi e seguiram para o Hospital onde Kate estava internada.

Enquanto Jack encontrava-se com Mark, Clara foi a uma floricultura ao lado do hospital e comprou um grande bouquet de rosas.

- Parabéns, Mark! – sorriu Clara, abraçando o genro de Jack. – Comprei estas flores para a Kate. Podemos vê-la?

- O médico quer que ela descanse. Mas acho que ela vai ficar feliz em vê-los. – disse Mark. – Obrigado por virem. Ah! Aquele ali é o médico da Kate, vou pedir para que ele autorize a visita de vocês.

- Dr Summers, o pai da minha esposa e a esposa dele chegaram agora de Londres e gostariam de ver a Kate. – disse Mark. – Eles estão ali no corredor, mas a enfermeira não os autorizou a entrar.

- Sua esposa precisa de repouso senhor Benning. – disse o médico. – Mas posso conversar com eles, se isso for necessário.

- Senhor...

- Jack Noble, esta é minha esposa, Clara. Dr Summers, certo?

- Desculpa Dr Summers, viajamos muitas horas, estamos cansados. O Jack só vai levar estas flores para a filha dele e já vamos embora em seguida.

- Ok... Acho que não será problema. – disse o médico. – Então entra só o senhor. Ela se cansou muito e precisa do descanso. Estou abrindo uma exceção aqui, porque o senhor Benning me disse que vieram direto do aeroporto. Cinco minutos, ok?

- Obrigada, Doutor! – sorriu Clara entregando o bouquet de flores para Jack – Vai amor, eu fico aqui te esperando, com o Mark.

- Engraçado, senhor Benning... – disse o médico. – Seu sogro faz o que?

- Ele é cantor, por que? – disse Mark segurando o riso.

- Tenho a impressão que já o vi antes. – disse o médico. – A senhora também... a senhora trabalha na TV?

- Não... – disse Clara. – Sou escritora.

- Amanhã, a senhora e seu marido podem vir até aqui no horário de visita, que é a partir das duas da tarde e aí sim podem conversar, ver o seu neto e ficar mais tranquilos.

- Sobre o bebê... – disse Clara. – Como ele está, doutor?

- Bem... – disse o médico. – Ele nasceu bem pequeno, mas é saudável e deve ficar sob cuidados especiais por uns dias, até ganhar um pouco de peso.

- Fico feliz. – disse Clara.

- A senhora não é muito jovem para já ter um neto? – disse o médico.

- Não é meu neto. – sorriu Clara. – É neto do meu marido e da ex-esposa dele.

- Já passaram os cinco minutos. – disse o médico. – desculpem ser rígido, mas preciso que ela descanse para poder dar-lhe alta.

Jack abriu a porta e saiu do quarto limpando as lágrimas dos olhos. Caminhou até Clara e abraçou-a.

- Mark, nós vamos embora agora. Viemos tão rápido para cá que nos esquecemos de reservar um hotel. Vamos procurar por um agora.

- Tem um Holiday Inn ótimo, aqui nesta avenida mesmo, senhor Noble. O senhor conhece? – disse o médico. – Tem umas tarifas ótimas lá, principalmente para nós, senior citizens.

- Obrigado, doutor! – disse Jack sorrindo. – Boa noite para o senhor.

- Meu Deus! – disse Clara rindo. – Ele não tem a mínima noção de quem você é, Jack! Como pode existir gente assim ainda no mundo?

- Pois é... – disse Mark. – nunca senti tanta vontade de rir de alguém na vida. Acho que amanhã venho para cá usando aquela camisa da Crossroads que tem uma foto enorme do Jack.

- Vem sim... – riu Clara. – Isso promete ser engraçado.

- Para onde vocês vão? - perguntou Mark. - Vocês querem ficar no nosso apartamento?

- Não precisa, Mark. - disse Jack. - Vamos para um hotel. Esquecemos de fazer uma reserva antes, mas não acho que seja difícil conseguir, a Clara já está trabalhando isso no celular. Não está querida?

- Estou sim, Jack. - respondeu Clara, enquanto procurava pelo número do telefone do hotel na internet.

- Precisamos de uma suite para esta noite e... um momento por favor... - disse Clara. - Jack, vamos ficar até quando?

- Até quarta, amor. - disse Jack.

- Desculpe, precisamos de uma suite para esta noite e temos planos de ficar até quarta feira. Somos clientes preferenciais da rede, cartão número 2397892 categoria diamante. Correto. Suíte Royal... Perfeito... estamos a caminho daí... Obrigada.

- Pronto! Mark, estamos no Four Seasons, na Suite Royal e se precisar falar conosco só precisa ligar nos nossos celulares. Agora, querido, volta lá para o quarto, a Kate já deve estar aflita por estar sozinha. Amanhã voltamos aqui às duas da tarde para visitá-la. Parabéns Mark!

- Obrigado Clara. Obrigado Jack. - disse Mark. - Eu e a Kate estamos muito felizes por tê-los aqui.

- Obrigado Mark! - disse Jack. - Nós também estamos felizes por estarmos aqui.

- Ah! Mark... desculpa, mas você sabe onde tem um caixa de banco por aqui? - perguntou Clara.

- Não sei... - disse Mark. - Por que?

- Temos Euros, Libras, mas não temos dólares. - respondeu Clara. - Devíamos ter trocado no aeroporto, mas esquecemos. Para nossa sorte, o taxista aceitou cartão de crédito.

- Tenho uma nota de 50 aqui no bolso.- disse Mark sorrindo.

- Obrigada, Mark. - disse Clara. - Vamos trocar nossos euros no hotel e trazemos de volta para você amanhã.

- Querida, não precisava pegar dinheiro. Muitos taxistas aceitam cartão por aqui. - disse Jack.

- Jack, é tarde. - respondeu Clara. - E se não acharmos? Melhor garantir, não?

- Está tudo certo, Jack. - sorriu Mark. - Ela está certa, melhor garantir mesmo.

Os dois saíram, pegaram um taxi e Jack perguntou se aceitava cartão e ele respondeu que não.

- Viu só? - disse Clara. - Para o Hotel Four Seasons, por favor.

O percurso foi longo, mas já era quase meia-noite e o trânsito estava tranquilo. O hotel ficava em uma área nobre da cidade, a beira do Lago Michigan e o frio tinha aumentado consideravelmente naquele horário e mais ainda naquela região tão aberta à ventania constante da cidade.

O dois desceram do taxi e entraram correndo no hotel, com Jack puxando a propria mala.

O gerente atendeu-os com grande cortesia e logo eles já estavam na suíte Royal, no 46º andar de uma enorme torre. Depois de instalarem-se, os dois tomaram um banho rápido e foram deitar-se. Estavam muito cansados e deixaram o celular programado para tocar às 10 da manhã, para descansar um pouco mais, antes de irem até o hospital.

Dormiram abraçados, mas acordaram antes do previsto com um telefonema de Jane.

- Bom dia, Jane. - disse Jack ainda tentando acordar. - Sim, chegamos ontem, mas era muito tarde para ligar para aí avisando. Falei com a Kate ontem e está tudo bem. A Mary? Vamos ao hospital daqui a pouco, acho que a encontraremos por lá. Ok, nos falamos mais tarde, então Jane. Beijos.

Ainda deitada, Clara o olhava conversando com a irmã ao telefone. Sentado na cama, nu, com seus cabelos louros e cacheados agora bastante despenteados, ele tinha a aparencia de um homem selvagem, porem falava mansa e carinhosamente.

- Vamos levantar, querido? - perguntou Clara. - estou morrendo de fome!

- Também estou com fome, amor. - disse Jack levantando-se da cama. - Mais tarde, me lembra que preciso ligar para o David.

- Não é melhor ligar depois de passar no hospital? - disse Clara. - Conversamos com a Kate e com o médico e daí sabemos exatamente quando voltaremos para Londres.

- É verdade, querida. - disse Jack. - Já são três da tarde por lá e acho que todos estão a caminho de Heathcliff Hall.

- Assim que pudermos, estaremos com eles, querido. - disse Clara levantando-se da cama, vestindo seu robe de seda e caminhando até a janela. - Nossa, olha só essa vista... está escuro lá fora e acho que está chovendo.

- É melhor você se agasalhar bem. - sorriu Jack. - até eu costumo sentir frio por aqui.

- Precisamos comprar um presentinho para o bebê... - disse Clara. - Uma roupinha ou um acessório de bebê bem bonitinho para dar de presente à Kate hoje.

- Tem lojas muito boas aqui no prédio do hotel mesmo, querida. - disse Jack. - Vamos tomar nosso café e damos uma passada lá.

Clara pegou o menu do serviço de quarto e pediu um café da manhã com panquecas, frutas, chá, torradas e queijo.

Quando a refeição foi servida, ela e Jack já estavam prontos para sair. Por sorte, Clara tinha comprado um casaco de couro em Paris e agora ela o estava vestindo, com suas botas de cano alto, calças jeans e uma camiseta preta simples.

Jack estava com uma camiseta branca sob o blaser preto, com calças jeans e bota de cowboy. Os dois estavam com os cabelos amarrados, para não ter muitos problemas com o vento.

Clara guardou o colar e os brincos de pérolas no cofre e os dois saíram logo após o café da manhã. Só quando chegaram ao térreo puderam perceber que não chovia, mas o tempo estava bem escuro. Trocaram os 300 euros que Jack tinha no bolso por dólares, com o gerente do hotel e seguiram para suas compras.

Nos primeiros andares da torre do hotel existia um shopping center com uma grande loja de departamentos e os dois se empolgaram com os artigos que encontraram para bebês e compraram brinquedos, roupas e acessórios para o neto de Jack.

Com as mãos cheias de sacolas com presentes, os dois subiram de volta para o quarto de hotel e ligaram para Mark avisando que estavam a caminho do hospital.

- Querido, acho que exageramos um pouco. - disse Clara olhando para o número de sacolas dentro do taxi.

- Quero mimar um pouco meu neto, amor. - disse Jack sorrindo. - Seu neto também, de acordo com aquele médico que encontramos ontem.

- Pois é... - sorriu Clara. - Que figura, aquele médico, não? Não sei como não ri quando ele começou a falar sobre desconto para seniors...

- É, amor... mas ele tem razão... eu tenho direito a esse desconto... - riu Jack.

- Não se dependesse de mim... ninguém com esse corpinho deveria ter esse desconto. - disse Clara acariciando o peito de Jack, que imediatamente a agarrou e beijou seu pescoço.

- Gostosa! Você me enlouquece... Se ao menos tivéssemos tempo hoje... - disse Jack abraçando-a. - Queria passar o dia todo te mimando...

- Ai, minha vida... - sorriu Clara, acariciando o rosto de Jack. - Vamos mimar a Kate e o bebê hoje... Estou louca para vê-los.

- Estava aqui pensando... não foi a primeira vez que um médico não me reconheceu... e acho que não será a última... - disse Jack. - Me lembre de te contar sobre quando fui renovar minha carteira de motorista, na década de 80, em Londres. O médico que fez o meu exame de vista tinha uns cem anos e não tinha a mínima ideia de quem eu era. Foi muito engraçado, achei até que estivesse na TV.

- Tadinho, do meu amor... - sorriu Clara e beijou-o no rosto. - Será que o Mark foi lá com aquela camiseta?

- Acho que ele passou a noite lá, amor, com a Kate. O médico vai dar alta para ela hoje, mas o bebê ainda não vai para casa.

- Dá muita pena, Jack. Eu me coloco na situação dela e fico pensando o quanto deve ser difícil deixar o filho no hospital.

- É, amor... Nunca passei por isso, mas quando a Mary sofreu aquele acidente na estrada, ela estava grávida e perdeu o bebê. Foi horrível, nunca me perdoei por estar longe, nem ela me perdoou.

- Que triste, querido. - disse Clara pegando a mão de Jack. - Quando você fala disso, sinto sua dor, aqui, dentro do meu peito.

- Eu te amo, Menininha! - disse Jack beijando-a na testa.

O taxi chegou ao hospital e os dois desceram. Um garoto que estava na porta e tinha acabado de ter seu braço engessado, reconheceu Jack e aproximou-se, pedindo para tirar uma foto.

Jack sorriu, abraçou o garoto e pediu que Clara batesse a foto com seu celular.

- Obrigado cara! - disse o garoto. - Cai do skate, quebrei meu braço, mas estou muito feliz de te encontrar!

- Cuidado com esse skate, garoto! - disse Jack sorrindo.

- Vamos, querida. - disse Jack.

Os dois seguiram até o quarto onde Kate estava e encontraram com Mark no corredor.

- Oi Jack, oi Clara! Vamos entrar? - disse Mark. - Hoje o médico liberou a entrada de vocês.

Os dois entraram no quarto e Kate estava sentada na cama, conversando com Mary.

- Podemos entrar, querida? - disse Jack abrindo a porta.

- Oi pai! - sorriu Kate.

- Olá Mary, tudo bem? - disse Jack.

- Olá Mary, olá Kate. - sorriu Clara. - Trouxemos uns presentinhos para o bebê. Parabéns!

- Obrigada, Clara! - sorriu Kate. - Quantas sacolas! Meu pai, o exagerado!!!!!!

- Achamos tantas coisas lindas que não resistimos, querida. - sorriu Clara.

Jack abraçou Mary e os dois choraram por alguns minutos, nos braços um do outro. Enquanto Kate abria os pacotes com roupinhas de griffe e brinquedos.

- Que bonitinho! Clara, vocês não deviam... - disse Clara. - Estas coisas são muito caras...

- Mas são muito lindas, querida e queremos mimar o pequenino, enquanto podemos. - disse Clara. - Vocês já escolheram o nome dele?

- Eu e o Mark discutimos isso. - disse Kate. - E o nome do bebê será Jack James Noble Benning, em homenagem ao papai.

- Que lindo! - disse Clara, com os olhos já lacrimejando.

- Obrigado querida! - disse Jack, os olhos cheios de lágrimas, abraçando a filha. - Estou muito feliz com a homenagem. Muito feliz, mesmo!

- Vamos lá conhecê-lo? - disse Mark. - Conversei com o médico e ele autorizou que vocês o visitem. Disse que ele está bem, mais alguns dias e vai para casa.

Clara e Jack caminharam pelo hospital com Mark e foram até o berçário onde a enfermeira mostrou a eles o bebê. Era bem menor que os outros, como era de se esperar, tinha a pele muito clara e estava com os olhinhos fechados.

- Jack, ele parece com você, meu amor... - disse Clara. - Que lindo!

- Parece mesmo, Jack! - disse Mark sorrindo. - pena que não podemos pegá-lo no colo ainda.

- Mas logo ele receberá alta e irá para casa com vocês. - disse Clara.

- Assim esperamos, Clara. - disse Mark. - Ficamos muito preocupados ontem, ainda não estava na hora dele nascer.

- Vocês acham que ele terá alta quando? – perguntou Clara. – O médico disse alguma coisa?

- Aqui eles não fazem esse tipo de previsão, querida. – disse Jack. – As pessoas aqui processam por qualquer coisa, então eles são muito cuidadosos com previsões. Mesmo que a pessoa vá sair amanhã, eles dizem que não sabem.

- Também acho isso excessivo, Jack. – disse Mark. – Mas você tem razão. Oficialmente eles me disseram que farão um exame na Kate hoje, mas não disseram absolutamente nada sobre a alta; eu sei porque é o que se espera, depois de um parto sem grandes complicações como o dela.

- Que horror! – disse Clara. – Nestas horas eu dou valor ao Brasil. Lá é uma bagunça, mas os médicos pelo menos não são assim, escorregadios.

- É mesmo! – riu Mark. – Você é brasileira... sempre me esqueço disso, você não tem sotaque algum... Aliás, tem horas que dá a impressão de que estou falando com alguém de Nova York, que já mora há algum tempo na Inglaterra e está começando a pegar o sotaque de lá.

- Obrigada! – sorriu Clara.- Aprendi inglês porque gostava de música e queria saber cantar as músicas que ouvia e mais tarde, quando já era adolescente, me apaixonei pela Crossroads e pelos Stones e passei a comprar tudo o que achava sobre as duas bandas. Sempre brinco que meus professores de inglês foram Jack Noble e Mick Jagger.

- Essa é boa! – sorriu Jack. – Quer dizer que até nisso aquele sujeito está metido? Mick Jagger... humpf!

- Não liga, Mark... – riu Clara. – Seu sogro é muito ciumento e ultimamente acha que o Mick Jagger quer me roubar dele.

- E quer? – perguntou Mark rindo.

- Claro que quer. – riu Jack. – Mas não vai conseguir nunca, não é querida?

- Não sei querido. – riu Clara. – Absorvo muito rapidamente a cultura do meio em que estou e a ideia dos médicos americanos, afinal não é de todo ruim.

Os três gargalharam da piada, mas ela percebeu um brilho diferente no olhar de Jack no mesmo instante e ficou com medo de que ele pudesse levar a sério o que disse.

- Eu li seu livro sobre as músicas dos Stones e achei muito bom. – disse Mark. – Coisa de quem conhece bem o contexto da banda. Li também o livro sobre a Crossroads e ele não é só bom, é uma obra-prima! E não digo isso porque estou aqui na frente do Jack, mas porque é incrível mesmo. Já reli muitas vezes.

- E qual sua história favorita? – perguntou Clara.

- A "Song of the Woods". – sorriu Mark. – Lindo trabalho! E sei do que estou falando. Sou formado em Literatura Inglesa e minha especialidade é exatamente a cultura celta. Foi a primeira faculdade que fiz, antes de resolver ser psicólogo. Quais foram as suas fontes sobre a cultura celta? Eu sou fascinado por eles, o povo da floresta, mas seu livro descreve algumas coisas que me surpreenderam de verdade.

- Se eu te disser que quase não pesquisei, você ficaria muito chocado? – perguntou Clara. – Bem é uma longa história, espero poder te contar...

Os três voltaram para o corredor onde Mary agora aguardava o final do tal exame que liberaria ou manteria Kate no hospital por mais um dia.

- Então? – perguntou Jack. – O médico vai liberá-la?

- Ele acabou de entrar para fazer o exame, Jack. – disse Mary. – Espero que sim. Assim podemos ir para a casa dela.

- Você está hospedada lá, Mary? – perguntou Clara.

- Sim, querida. – disse Mary. – Foi tudo uma confusão enorme, quando a Kate me ligou dizendo que a bolsa tinha rompido, sai correndo e vim para cá. O Frank, meu marido, está em Roma fechando um contrato e eu peguei o primeiro voo para cá.

- Nós também. – disse Clara. – Estávamos em Paris, comemorando nosso aniversário de um mês de casamento, quando a Jane ligou. Viemos correndo para cá, nem lembramos de pegar dólares, quase não conseguimos pagar o taxi para vir ao hospital porque só tínhamos euros no bolso. Aliás, Jack, você já devolveu os 50 dólares que pegou com o Mark ontem?

- Ainda não! – disse Jack estendendo uma nota de 50 para Mark – Desculpe, estão aqui. Obrigado! Ainda bem que pegamos, porque o taxi não aceitava cartão, nem euros.

- E como está a banda? – perguntou Mary. – O disco já está pronto?

- O David já está trabalhando na mixagem, no estúdio de Heathcliff Hall. Nós íamos ensaiar um pouco esta semana porque eu e a Clara vamos para o Brasil daqui uns dias.

- Brasil? – riu Mary.

- Vamos descansar um pouco antes da turnê e ter uma lua-de-mel um pouco mais longa. - sorriu Clara.

- Você vai levar sua nova esposa para a terra dela na lua-de-mel, Jack? Não tinha outro lugar? – riu Mary.

- Não é bem minha terra, Mary. – disse Clara. – Sou de São Paulo, que é uma cidade grande, tipo Nova York. Esse lugar para onde vamos, é uma praia distante, onde existe apenas uma aldeia de pescadores. Mas também passaremos uns dias em São Paulo, no apartamento em que eu morava antes de vir para cá.

- Hum, parece muito bom... - disse Mark. - O Jack merece, vai trabalhar muito nessa turnê.

- Não só ele... - sorriu Clara. - Eles me convenceram e fiz a loucura de regravar "The Light" com a banda. Também vou participar da turnê...

- Que lindo! - disse Mary. - Vocês não conheceram o Jack quando o conheci. Estávamos lá no Black Country e ele ficou obcecado com aquela fazenda que comprou. Ele ía todos os dias atrás de um historiador que deu para ele uma porção de livros sobre a cultura das pessoas que viviam lá antes do cristianismo chegar às ilhas. Entre os livros estava "O Senhor dos Anéis". Ele ficou tão fascinado que escreveu várias músicas. "The Light", "Song of the Woods", "Love You Forever" e mais algumas.

Clara tinha uma boa ideia das causas mais profundas daquela obsessão de Jack, mas preferiu manter em segredo. Pelo menos, por enquanto.

- Pois é, Menininha... - disse Jack. - Na época eu não sabia por que, achei que era por causa das histórias que meu avô contava, sobre o "povo da floresta"; mas agora já sei, aliás, nós já sabemos, não é?

- Não entendi... - disse Mary intrigada. - Você descobriu mais alguma razão para aquele seu interesse?

- Nós descobrimos... - disse Jack, abraçando Clara. - Contarei para vocês quando chegarmos em casa.

Naquele momento, a porta do quarto se abriu e o Dr Summers saiu para conversar com os três.

- Boa tarde. - disse o médico. - A Kate está bem. Falta só o resultado de alguns exames de laboratório e se eles estiverem de acordo, darei alta a ela. Conversei com o pediatra e o bebê deve ficar conosco mais alguns dias. Por sinal, ele me disse que o bebê está muito bem, sem maiores dificuldades respiratórias, agora é só uma questão de ganhar peso.

- Que ótimo! - disse Jack. - podemos então ficar com ela agora?

- Sim, claro... - respondeu o médico. - Senhor Noble, não?

- Isso mesmo, doutor. - sorriu Jack.

- O senhor é músico, não? - disse Sanders. - Engraçado, mas não consigo localizar de onde o conheço. O senhor tem algum disco gravado?

- Alguns. - respondeu Jack. - Eu fazia parte de uma banda na década de 70, na verdade estamos voltando... o nome da banda é Crossroads, o senhor conhece?

- Crossroads? - riu o médico. - Desculpa! Sou mesmo desligado... Claro, a banda que voltou, só falam disso na mídia... estou muito envergonhado...

- Imagina, doutor. - sorriu Jack. - Isso acontece muito. Eu era bem diferente naquela época.

- Todos éramos, senhor Noble... - riu novamente o médico. - O senhor era um ícone do rock, quase um Mick Jagger.

- Obrigado doutor! - sorriu Jack, tentando evitar olhar para Clara que agora gargalhava. - Então podemos dizer para a Kate que ela vai para casa hoje?

- Sim... - disse o médico. - Já disse para ela também... O senhor me dará um autógrafo, não?

- Claro doutor! - sorriu Jack. - Estamos todos muito felizes porque a Kate e o pequeno Jack estão muito bem.

Os três se despediram do médico e entraram no quarto de Kate gargalhando.

- Seu médico é muito engraçado, Kate. - disse Clara. - Primeiro ele não reconheceu seu pai e agora quer um autógrafo dele.

- O Dr Summers é mesmo uma figura. - riu Kate. - meio maluco, muito desligado, mas um ótimo médico. Salvou eu e o meu filho.

- Sim querida! - disse Jack beijando a testa de sua filha. - Pronta para ir para casa?

- Quase papai. - sorriu Kate. - Queria tanto levar o pequeno Jack comigo. Mas o doutor Hawkins disse que ele ainda precisa ganhar peso.

- Vai dar tudo certo, querida! - disse Clara. - Nós vimos o pequeno Jack e ele é tão lindo... estamos loucos para mimá-lo, não Jack?

- Pode ter certeza, Kate! - sorriu Jack. - Ele é mesmo lindo... parece comigo...

Todos riram muito da piada de Jack e Clara aproximou-se dele e abraçou-o.

- Bom, acho que daqui a algumas horas vamos mudar esta nossa conversa para nossa casa. - disse Mark, beijando Kate. - Não vejo a hora de isso acontecer e logo o pequeno Jack vai estar lá conosco.

- E nós estaremos todos ao redor dele. - sorriu Jack. - Quer saber, querida, podemos passar por aqui no caminho de volta para Londres, depois da nossa viagem ao Brasil, para mimar o pequeno Jack por uns dias, não?

- Sim amor. - disse Clara. - Podemos passar por aqui na volta.

- Obrigada, queridos! - disse Kate. - Vocês são mesmo maravilhosos, assim, tentando me ajudar a não ficar mal por deixar meu filho no hospital.

Clara e Jack aproximaram-se de Kate e a abraçaram.

Enquanto conversavam, a enfermeira entrou no quarto e pediu que todos saíssem. O Dr Summers tinha decidido pela alta de Kate e ela a ajudaria a vestir-se para partir. Mary ficou no quarto, enquanto Jack, Mark e Clara saíram novamente para o corredor.

- Obrigado por me ajudarem. - disse Mark. - Agora vai ser um momento crítico, é muito triste deixar o bebê aqui, mas acho que vamos conseguir mantê-la bem com isso.

- Faremos o que pudermos, Mark. - disse Clara. - Vamos lá para seu apartamento e ajudaremos no que pudermos, não, Jack?

- Sim... - disse Jack. - Estamos por aqui a princípio até quarta-feira, mas podemos ficar mais, se for necessário. Queremos ver vocês três bem!

- Obrigado Jack! - disse Mark. - A Kate passou muito tempo ressentida por causa da história do nosso casamento, mas desde o casamento de vocês, ela está mais feliz, fazendo planos de ir para Londres vê-los, parece que ela sente que voltou a ter uma família.

- Que bom, Mark. - disse Clara. - E você? E sua família, o que pensa disso?

- Minha família é a Kate e o pequeno Jack. - disse Mark. - Sou filho único e meus pais morreram em um acidente de avião há sete anos.

- Ah! Que pena! - disse Clara. - Isso é triste.

- Quando conheci a Kate, estava me sentindo muito perdido. - disse Mark. - Ela também sentia-se meio órfã e por isso me ajudou a superar. Agora sei que tudo será diferente.

- Me sinto em família quando estou com vocês. Estou muito feliz de estar aqui...

Jack abraçou Clara e beijou-a na testa.

Quando a enfermeira saiu do quarto, os três entraram novamente para pegar todas as sacolas e malas de Kate e ela estava, já pronta, sentada em uma cadeira de rodas, por exigência do hospital.

Jack pediu um pedaço de papel para uma funcionária do hospital, escreveu um bilhete de agradecimento com seu autógrafo e pediu que ele fosse entregue ao doutor Summers.

Logo todos estavam no apartamento de Kate, um lugar agradável, em uma boa vizinhança. Muito longe do luxo da casa de Jack Junior em Londres, aquele era o lar despretenciosamente bem decorado de dois jovens profissionais ainda lutando para alcançar o sucesso.

Todos sentaram-se na sala de estar e passaram o resto da tarde conversando e fazendo planos para quando o pequeno Jack estivesse entre eles. Jack queria os três morando na Inglaterra, perto dele, mas tanto Kate, como Mark, diziam que estavam fazendo o próprio caminho lá em Chicago e não tinham qualquer intenção de mudarem-se para a Europa.

Por enquanto, Jack parecia aceitar seus argumentos, mas Clara sabia que aquele assunto não se esgotava ali.

- E vocês? - Mary perguntou para Clara. - Quando vocês terão um filho?

- Ainda não pensamos sobre isso, Mary. - disse Clara. - Para dizer a verdade, apesar de já estarmos casados, ainda estamos nos conhecendo. E neste momento, temos compromissos demais para sequer pensarmos nisso.

- Isso é verdade. Tem o disco da Crossroads, tem o livro, a turnê e o David quer fazer um disco com a Clara. Ah! E o filme. A Clara vai adaptar uma das histórias do livro dela sobre os Stones para o cinema e até já assinou o contrato para a adaptação. - disse Jack. - Por algum tempo, nossas vidas estarão loucas demais para pensarmos em um filho nosso.

- Uau! Não fazia ideia... - disse Mark. - Acho que nossa família terá mais uma estrela em breve.

- Não sei sobre isso, Mark. - sorriu Clara. - O David e o Jack estão compondo algumas músicas e querem que eu grave, mas eu ainda estou bem longe de me sentir segura sobre isso.

- Para mim, querida, você já é uma estrela. - disse Jack. - Logo você será muito maior do que eu e até do que a Crossroads. Tenho certeza disso.

- Poxa! - disse Mark. - Estou começando a ficar com vontade de ouví-la cantar, Clara. Sabe que sou fã da Crossroads desde sempre e ouvir o Jack falando assim de você, já me deixa muito curioso e ansioso.

- Espero estar a altura da confiança que ele tem em mim. - disse Clara. - Posso até ter um dia sonhado em subir no palco, mas sempre foi uma coisa muito distante, completamente fora da realidade. Acho que no fundo, bem lá no fundo, todo mundo sonha com uma coisa assim, a fama, os holofotes... mas nem todos encontram um Jack Noble disposto a transformar esse sonho em realidade.

- Querida, onde existe talento de verdade, o caminho acaba aparecendo. - disse Jack. - Só te disse o que seus vizinhos deviam saber quando você cantava no banho... Nossa! Essa garota sabe cantar!

- Jack, você é lindo! - sorriu Clara, beijando-o no rosto.

- Vocês são lindos juntos. - disse Kate. - Só vou dizer uma coisa para você, Clara; não perde tempo com essas coisas não. Vai lá ter logo um filho, vocês fazem sentido demais juntos.

- Ah! Você ficou de me contar suas fontes sobre cultura celta, Clara. - disse Mark. - De onde mesmo você tirou aquelas histórias tão fantásticas?

- Bem, Mark. - sorriu Clara. - Nunca pesquisei nada sobre a cultura celta. A "Song of the Woods" sempre foi minha música favorita, a que mais emocionava de todo o repertório da Crossroads e por isso, quando chegou o momento em que eu devia escrever uma história relacionada à música, tive um tremendo bloqueio criativo. Comecei a escrever várias coisas diferentes, mas nada me convencia. Já estava cansada de lutar e deixei o disco para repetir seguidamente a música e me deitei, estava ansiosa, comecei a achar que não conseguiria escrever... peguei no sono e sonhei com um mago, que me contou exatamente aquela história sobre um cavaleiro que se apaixonava por uma visão que teve no bosque. Acordei e digitei tudo de um fôlego só.

- Estou impressionada! - disse Mary. - Você sabe que aquela é a história do Jack, do momento em que ele fugiu de casa e começou a andar no bosque próximo daquelas montanhas em que nós subíamos quando éramos adolescentes. Como você sabia disso? Não lembro de ter visto o Jack falando sobre isso em nenhuma entrevista.

- Aí é que está! - disse Jack, segurando a mão de Clara. - Ela não sabia e sonhou com coisas que aconteceram comigo. Por isso a chamei para me ajudar com o livro e por isso estamos juntos hoje. Aliás, por isso e por mais algumas outras coisas, que descobrimos depois...

- Estou ficando ainda mais curiosa, pai. - disse Kate. - Então aquilo que vocês disseram na entrevista na TV...

- Era só um jeito que arrumamos para não revelar que a autobiografia do Jack não será escrita por ele, mas por mim. Sou a ghost writer dele. - sorriu Clara. - Melhor contar a vocês toda a história; recebi um convite da editora de Nova York para ajudar o grande Jack Noble a escrever sua autobiografia, deveria encontrá-lo em Nova York, gravar algumas entrevistas, passar alguns dias na casa da montanha, escondida e escrever o livro, mantendo ao máximo a impressão de que ele era o autor.
Bom, isso não aconteceu. Me apaixonei perdidamente por ele, no dia em que o conheci e acabamos ficando juntos, mas estávamos só namorando, nos conhecendo, quando ele resolveu me pedir em casamento e me contou que tinha pensado em mim para o trabalho do livro, porque tinha visto a si mesmo, no cavaleiro do meu livro.

- Nós achamos que o tal sonho era um sinal de que deveriamos ficar juntos. - disse Jack. - e então, consegui dobrar a Clara que não queria se casar comigo de jeito nenhum.

- Eu achei que era cedo demais para casarmos, mal nos conhecíamos. - disse Clara.

- Mas depois, começamos a sonhar um com o outro. - disse Jack. - Éramos nós dois, mas em outra época e descobrimos, depois que o David hipnotizou a Clara, que nossos sonhos não eram só sonhos, eram memórias de uma vida passada em comum.

- Sério? - perguntou Kate. - Mas vocês dois sonharam?

- Sim, querida. - disse Clara. - Parece uma conversa de malucos, mas vimos cada detalhe do que nos aconteceu. Uma história de amor muito bonita, mas muito triste porque só pudemos ficar juntos por pouco tempo; mas sim, estávamos juntos, éramos da religião da Deusa e construímos nossa casa no topo daquela montanha onde fica a casa de campo do seu pai.

- É incrível! - disse Mary. - Vocês sabem que sou descendente de indianos e embora minha família não seja exatamente religiosa, para nós, essas coisas de carma e reencarnação são verdades absolutas. É como uma coisa que você sabe que funciona assim e pronto. Bom, o que eu quero dizer é que sempre convivi com essa ideia de que as pessoas vivem muitas vidas. Ouvi muitas histórias sobre pessoas que lembram de suas vidas passadas, e mesmo para mim, a história de vocês é surpreendente e assustadora.

- Para mim é muito mais. – disse Clara. – Eu não acreditava em nada. Meus pais tentaram me levar para a igreja católica, mas nunca conseguiram. Sempre fazia perguntas que os embaraçava e eles acabaram desistindo de mim. Bem, quando tinha 22 anos, estava muito deprimida com o final de um relacionamento e minha mãe me obrigou a fazer terapia. Mas comecei a namorar com meu terapeuta e ele era um estudante dos ditos assuntos esotéricos. Aprendi uma porção de coisas com ele, mas nunca deixei de questionar. Vocês não imaginam como fiquei quando estes sonhos começaram a acontecer...

- Aqui nos EUA isso não é muito comum, mas já trabalhei com colegas que faziam essas sessões de hipnose e as pessoas descreviam coisas e situações que só podiam indicar a possibilidade de outras vidas. – disse Kate. – É impressionante e se isso não fosse criar imediatamente um circo gigantesco na mídia, eu iria pedir para vocês me contarem essa história em detalhes para um estudo, ou quem sabe um livro.

- É verdade. – disse Clara. – a mídia. Esse é nosso maior medo! Nunca mais teríamos paz se eles descobrissem isso. Acabamos de correr um risco muito grande de isso acontecer na semana passada. O Jean Paul, o estilista que tem feito algumas roupas para mim, fez um vestido para eu usar no palco que era idêntico ao vestido que eu e o Jack tínhamos visto em nossos sonhos. Quando ele chegou com o vestido pronto, para vermos, nós dois começamos a chorar. Ele não entendeu nada e ficou sentido de não contarmos a razão daquilo para ele.

- É melhor terem mesmo cuidado. – disse Mark. – Vocês não podem deixar isso vazar para a mídia de jeito nenhum. Nossa! Posso imaginar a repercussão...

- Engoliria nossas carreiras para sempre. – disse Clara. – Acho que nem a fama da Crossroads conseguiria fazer frente a algo assim.

- E vocês tiveram filhos nessa vida passada? – perguntou Mary.

- Não. – disse Clara.

- Então deve ser por isso que estão juntos novamente. – disse Mary. – Para ter filhos.

- Não sei. – disse Clara. – Nós éramos muito jovens, eu era uma aprendiz do Templo, uma futura sacerdotisa da Deusa e o Jack era o terceiro filho do senhor de toda a região. Ele me viu em uma festa da vila e me sequestrou. Me levou para uma caverna perto do topo da montanha. Eu fugi dele, mas quando voltei para o Templo, minha mestra disse que aquele não era mais o meu destino e me expulsou de lá. Então, decidi me matar. Me atirei em um lago que ficava próximo ao povoado, mas o Jack me salvou e me levou novamente para a montanha. Me apaixonei por ele e começamos a construir uma casa lá no alto. Por alguma razão que não sei, fizemos amizade com uma matilha de lobos que viviam por ali e as pessoas da vila passaram a nos temer. Mas um dia o Jack foi para a vila comprar mantimentos para o inverno que se aproximava, os irmão dele o sequestraram na estrada e o levaram para a guerra. Ele morreu no caminho para sua primeira batalha e mesmo morto, voltou para a montanha. Não me perguntem como ou porque, mas eu o via perdido na ilusão de que estava voltando para mim, só que não conseguia que ele me visse e ele achava que eu o tinha abandonado. Tentei ajudá-lo, mas não conseguia, então busquei conhecimentos até conseguir assumir para ele a aparência de um lobo. Queria assustá-lo para tentar expulsá-lo da montanha, ou quem sabe faze-lo tomar consciência de sua condição, mas ao invés disso, ele se ajoelhou na minha frente e me pediu para matá-lo e eu o matei. Ele perdeu a consciência e até o final dos meus dias eu o via dormindo serenamente naquele campo de alfazemas que existe até hoje próximo à casa da montanha.

- Que história mais comovente. – disse Kate chorando. – Vocês precisam ser felizes juntos. Por favor. Esqueçam tudo! Esqueçam o trabalho, a música e vão ser felizes!

- E vocês sonharam com tudo isso? – perguntou Mark. – É impressionante... nunca tinha ouvido nada igual. Você vai escrever essa história, Clara. Não vai?

- Não sei se consigo. – disse Clara. – estou muito envolvida emocionalmente, acho que seria muito doloroso colocar isso no papel.

- Por que vocês acham que lembram disso tudo? – disse Mary.

- O David, que também estudou esses assuntos, acha que eu estudei magia com o povo da floresta e que isso me fez desenvolver alguns poderes que me permitem ver o passado. E ele acha que uma parte de mim reconheceu o Jack e por isso essas memórias vieram à tona.

- Talvez... – disse Mark. – De qualquer forma, são experiências importantes para ambos. É interessante ver que por causa disso os dois morreram sentindo-se abandonados.

- Sim... – disse Clara. – E depois que soube de tudo, percebi que duas coisas sempre foram muito fortes em mim, o desprezo pela religião instituída e a sensação de abandono e agora entendi o porquê e tudo passou a fazer mais sentido, meu terapeuta ficaria orgulhoso de mim.

- O Jack também tinha isso. – disse Mary. – Quando nos separamos, ele quase morreu. Ele não aceitava ser abandonado de jeito nenhum. Tive que bater nele para entender que nosso casamento tinha terminado.

- Aquele momento foi um pesadelo na minha vida. Eu estava tão deprimido que fiquei doente e quando a Mary me disse que queria o divórcio, eu desmoronei... Quase morri.

- Isso é muito louco. - disse Mark. - Nunca pensei que fosse ouvir uma história como essa.

O celular de Jack tocou, era David avisando que já estava em Heathcliff Hall e querendo saber como estavam as coisas e Jack contou que se tudo continuasse correndo bem, eles embarcariam na quarta-feira de volta para Londres.

- Kate... – disse Jack. – Mudando um pouco de assunto, você sabe que o seu pai agora está ganhando uma quantia irracional de dinheiro. Será mesmo que você e o Mark não podem levar o trabalho de vocês para Londres? Sabe, lá também tem muitas crianças pobres que precisam de ajuda; só que estaremos mais perto, eu comprei uma nova casa, perto da casa do Jack Jr e da Jane e você sabe que tenho aquele apartamento em Kensington, onde morava com a cantora americana... Eu mandei reformar, não queria nada nele que me lembrasse daquela criatura e já está quase pronto. Vocês podem mudar para lá, posso ligar para o Michael e passar ele para o seu nome. O que você acha?

Clara ficou um pouco chocada com a atitude de Jack, que apesar de carinhosa e aparentemente desprendida era tão egoísta quanto a que seu pai teve quando acabou com suas chances de conseguir uma vaga como correspondente de uma emissora de TV em Nova York.

- Ai pai... – disse Kate. – Isso de novo?

- Querida, vocês podem ter mais apoio lá. – disse Jack. – Você quer fundar uma ONG? Montar um abrigo? Uma escola? – continuou. – Eu tenho os recursos, vocês entram com o trabalho. Se precisarem de mais mão-de-obra, eu e a Clara trabalhamos também, e de graça!

Clara sorriu e confirmou que estava disposta a ajudar.

- Jack. – interrompeu Clara. – Eu entendo a Kate. Passei por uma situação parecida, tinha muitos amigos na redação de um telejornal em uma emissora de TV brasileira e eles conheciam meu trabalho e estavam dispostos a me mandar para Nova York, como correspondente. Eu estava com 26 anos e aquele era um dos meus maiores sonhos. Mas quando meu pai soube, ele ligou pessoalmente para o diretor da emissora, que tinha trabalhado com ele em um jornal, e o fez barrar minha contratação.
Hoje eu sei que ele não fez isso por mal, teve medo de que eu não conseguisse me virar bem sozinha, mas esse passo praticamente destruiu minha carreira no "jornalismo sério". Depois, ele conseguiu que me indicassem para trabalhar no caderno de cultura de um jornal e aí, contra a minha vontade, me tornei uma crítica de cinema e de música... Mais tarde passei até a gostar da nova função, mas não tinha um dia em que não ficava imaginando como seria minha vida se tivesse ido para Nova York. Por isso, querido. Quero que agora você se lembre do que seu pai tentou te fazer aceitar e se imagine como o gerente de banco ou contador que ele tanto queria que você fosse...

- Você tem razão, meu amor. Mas a situação é diferente. O que ofereço aqui para vocês é aquilo que vocês quiserem fazer, só que do outro lado do mar... Falei na ONG, mas se quiserem consultórios chiques ou clínicas, ou o que vocês quiserem. Me explorem... Tenho muito mais dinheiro do que preciso... Peçam o que quiserem, só não me façam dar dinheiro à Clara, porque se fizer, ela me abandona...

- Como assim, pai? – riu Kate.

- Quando ela gravou comigo no estúdio, o Michael chamou-a no escritório para pagar pelo trabalho e ela quase me fez engolir o cheque. – riu Jack. – achou que era um truque meu para dar-lhe dinheiro depois do contrato pré-nupcial que ela me obrigou assinar.

- Como assim? – sorriu Kate. – Você fez ele assinar o contrato pré-nupcial?

- O Michael quis proteger os interesses dos herdeiros legítimos de seu pai e preparou um contrato muito justo com cláusulas que não me permitem levar nem um centavo, se nos divorciarmos ou se ele morrer... separação total de bens e tive que brigar com ele para que assinasse e quando vi o cheque que eles queriam me dar por gravar apenas uma música, achei que era uma manobra para passar o dinheiro que é de vocês por justiça para mim e fiquei um pouco irritada.

- Não sabia disso. – disse Mary rindo. – Parabéns! Você é uma das nossas!

- Obrigada! – sorriu Clara. – Não canso de repetir para seu pai que não me casei por dinheiro.

- Olha, pai. – disse Kate. – Sua proposta não é ruim, mas como a Clara, não estamos nisso por dinheiro, estamos porque é uma coisa que nos realiza. Quando o pequeno Jack começou a nascer antes da hora, eu e o Mark ficamos apavorados, mas percebemos que éramos capazes de segurar essa também e por isso ficamos felizes. Hoje estamos aprendendo mais uma lição. Desculpa Clara, mas quando soubemos que vocês iam casar, achamos que você estava tentando dar um golpe no
velho... Mas depois, quando a conhecemos em Heathcliff Hall e mais tarde, quando o Michael nos contou sobre o contrato pré-nupcial, que você praticamente forçou meu pai a assinar...

- Daí em diante, - interrompeu Mary. - percebemos que não só ele tinha escolhido muito bem, como entendemos que também o amava, como nós o amávamos...

- Mas o que quero dizer aqui, mamãe... – disse Kate. – É que não estamos aqui por rebeldia, nem por ser alguma coisa estratégica para nossas carreiras, mas porque acreditamos que podemos conseguir por nós mesmos. Mas se é tão importante assim que estejamos perto de você, sim, podemos nos mudar para Londres, mas não precisamos do apartamento de Kensington, podemos alugar consultórios ou conseguir trabalho em instituições de lá. Mas a minha pergunta é por que você nos quer por perto?

- Porque sinto que passei muito tempo negligenciando você e o Jack Jr. – respondeu Jack. – Queria que o tempo voltasse e eu pudesse te dar aquilo que não dei quando estava na estrada trabalhando. Eu deveria ter mimado vocês dois quando podia, mas já que isso não aconteceu, pelo menos me dá a chance de mimar meu neto... Por favor querida... pensa nisso com carinho.

Kate sorriu, levantou-se do sofá e abraçou Jack. Tinha decidido mudar-se para Londres assim que fosse possível e isso fez Jack muito feliz.

- Vamos jantar? – perguntou Mark. – O que vocês preferem? Comida chinesa, pizza, japonesa?

- Comemos aquilo que vocês preferirem. – disse Jack. – O que você acha querida?

- Do que vocês gostam mais? - perguntou Clara.

- Da pizza... – disse Kate. – É muito boa...

- Perfeito, então pizza! – disse Jack. – Quer que vamos buscar?

- Não precisa... – disse Mark. – tem uma pizzaria ótima que sempre nos trás pizza aqui, vou ligar.

E a noite seguiu com todos fazendo planos felizes e tranquilos, para o futuro do pequeno Jack, que permanecia no hospital, totalmente alheio ao que acontecia por lá. Em breve, ele se mudaria para Londres, para mais perto dos olhos de Jack e de Clara, seus futuros "mimadores" oficiais.

Mais tarde, Jack e Clara pegaram um taxi de volta ao hotel. Estavam cansados, um pouco tontos com o fuso horário, mas felizes porque Jack tinha conseguido o que queria, convencer Kate a ir morar mais perto dele; depois de vê-la afastar-se por anos.

Jack estava mais cansado do que Clara e por isso, deitou a cabeça em seu ombro no caminho e apenas descansou enquanto o taxi seguia de volta. O frio da noite de Chicago era torturante, mas ela estava tão enlevada pela alegria de Jack, que nem o sentia mais.

- Minha vida, acho que terei que correr quando o carro parar... estou congelando...

- Amor... - disse Jack. - que mão gelada! O frio daqui é cruel até para mim...

Jack pagou o taxi e os dois correram para dentro do hotel. Subiram para sua suite e resolveram aproveitar a banheira gigante de mármore para aquecerem-se e relaxarem um pouco, antes de irem dormir.

- Amor... acho que hoje estamos bem... - sorriu Clara. - Quando te disse que me senti em família hoje à tarde não estava brincando. Meu coração sentiu-se aquecido lá na casa da sua filha. Sempre achei que essa seria uma situação muito estranha para mim, mas não foi...

- Eu percebi... - disse Jack. - e fiquei muito feliz em sentir o que senti lá. Você é uma parte de mim, Clara... A melhor, por sinal...

- Te amo tanto, Jack... - sorriu Clara. - Às vezes sinto que somos a mesma pessoa...

- Linda! - disse Jack, beijando-a.

E a doce rotina de amor, recomeçou na banheira e seguiu no quarto. Estavam juntos, felizes e voltariam em dois dias para casa, sentindo-se parte um do outro como nunca haviam sentido antes.

Quando a terça-feira amanheceu, ainda estavam abraçados. Clara levantou-se, vestiu seu robe de seda e caminhou até a janela. O lago Michigan brilhava a seus pés, parecia uma jóia refletindo a luz alaranjada do céu dos primeiros momentos da manhã. Um espetáculo tão lindo que ela decidiu registrá-lo em uma foto.

Jack também acordou e caminhou até ela. Não disse nada, apenas aproximou-se por trás, abraçou-a e beijou-a no topo da cabeça. Ela então, completamente envolvida por seus sentimentos, virou-se e beijou-o. Os olhos de ambos cheios de lágrimas pela beleza daquele momento. Duas pessoas totalmente entregues ao amor, enquanto Chicago lentamente acordava lá embaixo.

- Querida, a que horas mesmo vamos ao hospital ver o pequeno Jack?

- Às duas, amor. - respondeu Clara, aninhada nos braços do marido. - A Kate e a Mary vão para lá às 10. Estava pensando... conhece algum restaurante bom aqui em Chicago, onde possamos jantar todos juntos, amanhã vamos embora, não? Seria bom termos um dia bem gostoso com eles por aqui, antes de voltarmos para casa.

- Você tem razão, querida. - respondeu Jack. - Vamos passar o dia juntos, seremos uma família de agora em diante. Não vejo a hora de pegar o pequeno Jack no colo e levá-lo no estádio para ver uma partida do Wolves.

- Aposto que sim... meu amor! - disse Clara, acariciando os braços de Jack. - Você é adorável, sabia?

- E o nosso? - perguntou Jack.

- Não entendi. - disse Clara.

- Nosso filho... - respondeu Jack. - Vamos fazer um pelo menos, não vamos?

- Querido... - disse Clara surpresa. - Claro que sim, meu amor. Quando tudo estiver mais calmo, faremos sim o nosso pequeno Jack ou nossa pequena Clara...

- Assim que chegar em casa, vou ligar para o médico que me operou. Ele disse que se eu quisesse, podia reverter a cirurgia, ou fazer uma inseminação artificial. - Jack sorriu. - Vamos lá costurar tudo de volta, para que eu possa te engravidar, meu amor.

- Você é incrível, Jack. - disse Clara. - Quero muito ter um filho seu e espero que ele seja exatamente como você, o Amor transformado em gente.

- Ai, Menininha... - disse Jack abraçando-a ternamente e beijando-a. - Vamos tomar café da manhã?

- Vamos sim, querido. - sorriu Clara. - também estou com fome. Ligo para o serviço de quarto?

- Pode ligar, amor. Já vou me vestir. - disse Jack. - Estou com vontade de comer panquecas hoje.

- Vou pedir, então.

Clara ligou para o serviço de quarto, enquanto Jack procurava por suas roupas na mala. Assim que desligou o telefone, ela foi até ele e separou algumas roupas para ela mesma.

Mais uma vez o balé de cuidados e carinhos era encenado no quarto. Jack penteou cuidadosamente os cabelos longos de Clara e ajeitou-os em uma trança. Ela, por sua vez, ajudou-o a vestir um suéter de gola alta e depois acertou os cachos louros de seu cabelo, com o cabo do pente.

- Menininha... não tenho palavras para dizer o quanto está sendo maravilhoso viver com você. - disse Jack pegando a mão de Clara e beijando-a. - Desde que você apareceu na minha vida, até as coisas que eu achava impossíveis, estão acontecendo. Minha filha nem falava mais comigo, agora eu consegui convencê-la a voltar para casa...

- Querido... Você não imagina o quanto isso tudo me faz feliz. Quando você está assim, perto de mim, o mundo lá fora fica todo cor de rosa. Vai parecer incrivelmente tolo isso, mas quando estou com você, me sinto no paraíso.

- Não é tolo, amor... - respondeu Jack, ajeitando a gola do casaco de couro de Clara. - porque também me sinto assim. Desde a primeira vez que te vi, nada mais importa, a não ser ficar perto de você e te ver feliz.

Os dois tomaram o café da manhã e desceram para uma caminhada nas movimentadas ruas próximas do hotel. Compraram mais presentes para Kate e para o pequeno Jack e mais algumas roupas quentes para ambos, porque tinham sentido muito frio na noite anterior.

Algumas pessoas reconheceram Jack em um dos shoppings em que entraram e começaram a cercá-lo, pedindo autógrafos e batendo fotos, aos poucos formou-se um verdadeiro tumulto e os dois acabaram presos dentro de uma loja, cercada por fãs e precisaram da ajuda da segurança do shopping para conseguir chegar à rua e pegarem um taxi de volta ao hotel.

- Jack... - disse Clara já dentro do taxi. - fiquei apavorada, amor...

- Eu também. - respondeu Jack. – Há muito tempo não tinha esse problema. Mas acho que com a volta da Crossroads é melhor nos acostumarmos.

- Parece um sonho... – disse Clara. – Cada vez que lembro que vocês vão fazer shows novamente juntos... fico tão feliz.

- Logo, querida... logo mesmo...

Os dois desceram do taxi e entraram rapidamente no hotel, estavam com a impressão de que se demorassem muito tempo naquela área movimentada da cidade, logo seriam cercados novamente.

Jack e Clara subiram para o quarto, deixaram as sacolas e desceram para almoçar em um restaurante japonês que viram no caminho de ida a poucos quarteirões do hotel. Mas desta vez, Clara prendeu os cabelos de Jack e colocou um boné para que fosse mais difícil reconhecê-lo.

Almoçaram e pegaram um taxi na porta do restaurante até o hospital, onde se encontrariam com Kate, Mark e Mary.

- Nossa pai... – riu Kate ao vê-lo de boné. – O que aconteceu?

- Tomamos um susto em um shopping hoje de manhã, eu e a Clara ficamos presos dentro de uma loja cercada de fãs e só conseguimos sair de lá com a ajuda da segurança. Então decidimos não facilitar... – riu Jack.

- Foi complicado... – disse Clara. – em questão de minutos, toda a frente da loja estava tomada de pessoas e elas filmavam, fotografavam... foi bem assustador.

- Ah querida... – sorriu Mary. – Precisa se acostumar com isso. O Jack chama atenção de longe e isso acontecia muito na época em que éramos casados. Acho que passamos alguns anos sem poder sairmos sozinhos, tinha sempre que levar um ou dois seguranças para simplesmente andarmos por aí.

- Quando eu era pequena, ficava apavorada. – disse Kate. – tinha muito medo daquele pessoal maluco que cercava meu pai, de repente.

- Ah! Trouxemos mais uns presentinhos para você e para o pequeno Jack. – disse Jack, entregando as sacolas que tinha nas mãos para Kate. – Dissemos que vamos mimá-lo.

- Obrigada papai. – disse Kate sorrindo. – Já vi que terei dificuldades para criá-lo como uma criança normal.

- Ah! Querida... – sorriu Jack. – Quem quer ser normal? Ele é meu neto, não é?

- Você já o viu hoje? – perguntou Clara. – Como ele está?

- O pediatra disse que ele está reagindo muito bem e que já ganhou algum peso. – disse Kate. – Disse que se continuar nesse ritmo, pode ser que ele seja liberado logo para vir para casa.

- Que ótimo! – disse Jack. – Daqui uns 15 dias vamos para o Brasil e passamos aqui na ida, ficamos uns dias com vocês e depois, na volta, passamos novamente e podemos até ajudar com a mudança para Londres. Que tal amor?

- Claro, querido! – sorriu Clara. – O que você quiser...

- Mas papai, não posso mudar assim, de um minuto para o outro. – disse Kate. – Preciso me organizar, encontrar pessoas para cuidar da ONG aqui, vender nosso apartamento... Não acho que vá conseguir fazer tudo isso antes da turnê.

- Mas vocês vão conosco para Londres para a estreia, não vão? – perguntou Jack. – Até lá, a casa que nós compramos estará pronta e vocês podem se hospedar lá pelo tempo que for necessário. Tem 9 quartos, pelos planos que a Clara fez, são 2 só para hóspedes. Vocês vão, ficam conosco e arrumamos uma boa babá para deixar o pequeno Jack, enquanto vocês vão assistir ao show. É isso, não é amor?

- Sim, querido. – sorriu Clara. – Vai ser muito bom hospedá-los na nossa casa. Vou mandar colocar um berço para o pequeno Jack no quarto e deixar tudo lindo para vocês.

- E nós temos outra novidade. – disse Jack. – Vocês nos animaram tanto, que assim que chegarmos em Londres, vou procurar o médico que fez minha vasectomia para revertê-la. Queremos ter um filho, assim teremos muito trabalho para mimar duas crianças...

- Que bom que decidiram isso. – sorriu Kate. – esse bebê de vocês será alguém muito especial.

- Estou muito feliz por vocês! - sorriu Mary.

O grupo seguiu pelos corredores do hospital até o berçário, onde Kate entrou e vestindo roupas apropriadas e uma máscara, pode pegar o pequeno Jack em seus braços. Clara desligou o flash de sua câmera e bateu uma foto dos dois juntos através do vidro.

Todos ficaram lá no berçário até serem expulsos pelas enfermeiras no horário em que terminavam as visitas. Daí seguiram a pé, pela rua do hospital até um café, onde passaram o resto da tarde conversando.

Não foram incomodados desta vez e passaram algumas horas alegres, animados pelos prognósticos do médico que estava cuidando do pequeno Jack.

Jack tinha muita vontade de ajudar a filha e o genro e tinha feito um pequeno plano com Clara para que isso desse certo. Primeiro, Clara chamaria Kate para uma conversa e ofereceria a ela um dinheiro, pedindo que ela não contasse a Jack, nem a Mark, porque talvez eles se opusessem àquela ajuda.

Ao mesmo tempo, Jack faria o mesmo com Mark, pedindo que ele não dissesse nada a Kate. E por último, ele entregaria a Mary uma boa quantia para que ela entregasse aos dois.

Kate não gostou muito daquilo, mas acabou concordando porque entendeu que Jack fazia aquilo por amor a eles.

Depois de um bom jantar em um dos melhores restaurantes na cidade, Jack e Clara se despediram, porque embarcariam logo cedo, na manhã seguinte, de volta a Londres e voltaram felizes ao hotel, porque sua estratégia havia dado certo e Jack conseguiu dar 200 mil dólares à filha, de modo indireto, 50 mil para cada um e mais 100 mil para Mary entregar-lhes depois.

Na viagem de volta a Londres, os dois estavam cansados, mas muito felizes. O jato particular partiu às 9 da manhã do aeroporto O'Hare e após 9 horas de voo, chegou em Londres à meia-noite.

Continua

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