18 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo XLII


Lambert parou o carro e ajudou a levar a bagagem para dentro de casa. Depois disse que a ONG de proteção aos lobos havia marcado uma reunião na prefeitura na próxima semana e que estaria lá ajudando a defender aquelas pobres criaturas.

Clara agradeceu seu esforço e colocou-se a disposição dele. Caso fosse necessário, ela viria de Londres para ajudá-lo a lutar contra os fazendeiros que pretendiam caçá-los.

- Obrigado senhora Noble, mas acho que não será necessário. Tomei a liberdade de dispensar todo o staff da casa antes de partir para o aeroporto e agora, se não precisarem mais de mim, já estou de partida. - disse entregando a chave do Jaguar a Jack e pegando sua própria mala. - Tenham um bom final de semana. Estarei de volta por aqui no domingo à tarde, como combinado, senhores.

- Bom final de semana, Lambert. - disse Jack. - E obrigado por tudo. Até domingo!

- Eu que agradeço, senhor Noble. - disse Lambert seguindo até seu próprio carro e partindo com ele na direção da estrada.

- Bem, senhora Noble, acho que estamos sozinhos agora! - disse Jack sorrindo.

- Também acho, senhor Noble. - riu Clara. - O que acha de levarmos nossas malas lá para cima e...

- Tirarmos nossas roupas e... - disse Jack.

- Guardarmos nas gavetas... - gargalhou Clara. - Desculpa amor, mas você levantou a bola, eu tive que cortar.

Os dois riram e subiram com as malas, deixaram-nas em um canto do quarto, tiraram as roupas e as jogaram pelo chão.

E se amaram, lentamente enquanto as cores das luzes que passavam pela janela mudavam para os tons avermelhados e alaranjados e iam aos poucos desaparecendo, deixando o quarto em total escuridão para finalmente descansarem nos braços um do outro, felizes, plenos de amor e aquecidos sob o edredon.

- Você ouviu isso? - disse Jack repentinamente.

- O que? Alguma coisa lá fora? - disse Clara assustada.

- Não querida, aqui dentro... - apontou Jack para seu estômago sorrindo. - Acho melhor comermos alguma coisa.

- Hum... Vamos até a cozinha ver o que a Mona preparou para a gente, amor.

Jack levantou-se nu da cama e puxou Clara.

- Espera. Preciso vestir alguma coisa. Já está muito frio para mim. - disse Clara indo até as malas.

Jack caminhou até o closet e voltou com um roupão preto felpudo enorme entregando-o a Clara.

- Veste isso. - sorriu.

Clara vestiu o roupão e colocou nos pés as botas que estava usando quando chegou e desceu junto com Jack.

- Eu deveria tirar uma foto sua, Menininha. Você está muito engraçada com esta roupa. - disse rindo. - Vou acender a lareira e você já fica livre para andar nua por aqui também.

Clara foi até a cozinha e encontrou roastbeef com batatas no forno, ainda aquecido. Ela ligou novamente o forno e preparou uma salada verde com frutas e queijos como acompanhamento e os dois jantaram nus na frente da lareira, sobre o edredon que Jack trouxe do quarto para servir de "ninho" para eles naquela noite.

- Não sei o que você fez comigo, eu não sou assim. - disse Clara rindo.

- Menininha você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. - disse Jack sorrindo. - Eu achava que nunca mais conseguiria me entregar em um relacionamento e quando te conheci, não pude evitar me jogar de cabeça no seu colo. Que bom que você me segurou! Eu podia cair de cabeça no chão.

- E quem não te seguraria? Só se eu fosse uma louca. - respondeu Clara acariciando os cabelos de Jack. - Um homem tão doce, tão carinhoso e tão lindo por dentro e por fora. Não sei se já te disse isso, mas você sabe por que não aceitei imediatamente seu convite para fazer o livro?

- Não. Acho que você nunca me disse.

- Você sabe que já entrevistei muita gente famosa, músicos, atores de cinema.... enfim... Eu não tinha mais ilusões com ninguém nesse mundo, só com você. - sorriu Clara.

- Eu? Por que?

- Eu me apaixonei por você, pela sua música, pela paixão que eu percebia em você e ao mesmo tempo que desejava muito te conhecer, estar perto, tinha muito medo de me decepcionar com o seu "eu real". Que você fosse alguém cheio de ego e me desprezasse.

- Ah! Minha vida! E eu estava aqui desesperado para estar com você...

- É... Eu me surpreendi com você. Assim que te vi, tive a certeza de que você era a minha casa. Eu sinto às vezes que você é minha própria pele, meu abrigo nesse mundo.

Clara levantou-se, pegou o roupão para vestir-se novamente para ir para a cozinha, lavar os pratos e vasilhas, mas ele a segurou pelo braço.

- Eu cuido de tudo, Menininha. É só um minuto, amor. - ergueu-se Jack e pegou as vasilhas de suas mãos.

- Eu te ajudo amor e vamos mais rápido. - disse Clara vestindo o roupão e as botas.

- Este roupão está muito engraçado. - disse Jack.

- E você está lindo! Lavando louça nu, meu amor. - disse Clara beijando Jack no rosto.

Os dois arrumaram a cozinha e depois voltaram para a lareira com taças de vinho nas mãos. Estavam apenas namorando agora.

- Ah! O David me deu um CD com uma música que ele fez para você.

- Eu sei, querido. - suspirou Clara. - O que você acha que eu devo responder a ele? Eu preciso da sua sinceridade, minha vida. Eu devo gravar?

- Eu gosto muito da sua voz. Ela é muito boa... Mas talvez eu não seja a melhor pessoa para te dizer isso porque morro de ciúmes de você.

- Eu também morro de ciúmes de você, amor. Mas vou tentar dividir você com o resto do mundo. Eu cheguei atrasada nesta história e não tenho nenhuma escolha, eu seria uma monstra se tentasse te guardar só para mim.

- Você tem razão querida. Mas tenho medo de que a música nos afaste e por isso não acho que possa tomar essa decisão pela gente. Eu não posso negar a você o prazer do palco, da música e por isso te ajudarei em tudo o que puder.

- Isso significa muito para mim, meu amor. - disse Clara com os olhos cheios de água. - Mas se te incomodar de qualquer jeito, eu desisto. Sou uma escritora, é o que eu faço e não sei viver sem... mas ultimamente também não saberia o que fazer sem você.

- Espera até o momento em que subir no palco. A adrenalina, a música... É um mundo aparte onde só existe você e aquela música que te move... É lindo, Menininha!

- Você vai estar lá também. Para mim será uma chance de estar com você. Olhar nos seus olhos de perto e tentar captar a tua emoção lá em cima.

- Ah Menininha! Isso não é possível. No palco, você tem que se entregar completamente, não tem isso de ir só como uma observadora para relatar depois as emoções que surgirem. Se você não se jogar de cabeça, a música perde.

- É tão bonito te ouvir falando assim... tão doce sentir a tua entrega no palco. Se tem uma coisa que eu amo é te ver cantando. - disse Clara acariciando-o e começando a beijar todo o seu corpo.

As palavras começaram a desaparecer e mais uma vez eles se entregavam aos sentimentos e quando o sol já estava brilhando lá fora, eles acordaram e descobriram que estava nevando.

- Nossa! Moro aqui há muito tempo e é a primeira vez que neva assim cedo, em setembro. Quer ir lá fora ver como estão as coisas, Menininha?

- Quero... Mas vamos nos vestir primeiro...

- Não... Vem... Quero te batizar... - disse Jack puxando-a pela mão através da porta para o deck da piscina... - Vem, depois eu te esquento...

Clara sentia muito frio, mas decidiu experimentar aquela loucura que ele estava propondo. Os flocos de neve caiam lentamente sobre os dois, que dançavam nus no deck, tentando controlar o frio que sentia, ela tremia, mas o abraçava... e a sensação era de liberdade. A mais absoluta liberdade que já havia sentido em sua vida.

- Vamos para dentro agora, amor... - disse Jack rindo. - Estamos virando dois picolés.

Entrar na casa quentinha foi um alívio. Jack envolveu-a com o roupão e pediu que se sentasse na frente da lareira para aquecer-se. Ela tremia e estava com os lábios arroxeados, mas sorria feliz.

- Meu Deus! Fizemos uma loucura! Mas foi tão bom!

- Foi maravilhoso, meu amor! - sorriu Clara. - Vamos tomar café da manhã, nos vestiremos e depois subiremos no topo da montanha.

- Vamos, mas vamos tomar um banho quentinho antes... vem, já para a banheira, Menininha!

Jack encheu a banheira, eles tomaram um banho e vestiram-se com roupas quentes e botas, pegaram também luvas, cachecóis e toucas de lã.

Desceram até a cozinha, prepararam panquecas com calda de chocolate e capuccinos e comeram com gosto e logo estavam livres para enfrentar o frio lá fora em busca de fotos bonitas e vídeos no topo da montanha, enquanto a neve cobria aos poucos todo o chão de branco.

- Amor, está frio demais até para mim. - disse Jack. - Melhor voltarmos para casa. Vou reforçar o aquecimento para ficarmos quentinhos.

Os dois caminharam de volta para casa e Jack mostrou a ela como controlar a temperatura da casa em um moderno painel eletrônico onde podia escolher a temperatura desejada.

- Já que não podemos sair, acho que vou trabalhar um pouco no livro. - disse Clara subindo para pegar o notebook.

Jack sentou-se no piano com as partituras que David havia lhe dado e começou a tocar uma balada jazz elegante. Muito diferente de tudo o que a Crossroads já tinha feito em sua carreira.

- Hum, o que é isso que você está tocando? - perguntou Clara.

- A música que o David fez para você... Tem uma levada sexy, não? - disse Jack.

- Gostei... - disse Clara sentando-se no piano ao lado dele e beijando seu pescoço. - Hum... adoro esse perfume que você está usando hoje.

Jack parou de tocar, agarrou Clara e os dois andaram até os sofás da sala de estar onde ficaram apenas namorando.

- Acho que só vou conseguir trabalhar de verdade quando estiver longe de você... - riu Clara. - É muito desejo... meu amor!

- Ah! Quero ver o que você escreveu, querida. - disse Jack pegando o notebook do chão. - Me mostra...

Clara sorriu, abriu o arquivo de texto para Jack ler e encostou a cabeça em seu ombro.

- Menininha, parece que você estava lá! Estou emocionado e impressionado com a tua capacidade de entrar aqui, no meu coração. - disse Jack beijando-a. - Tenho muita sorte de você ser a minha "ghost writer"; estou aqui lendo e assistindo a minha vida passar na frente dos meus olhos.

- Ah minha vida. Você é lindo por dentro e por fora, por isso esse livro está ficando tão bom... Eu me sinto privilegiada de estar aqui, te conhecendo melhor e estes últimos dias, desde que te conheci, têm sido os melhores da minha vida.

- Eu adoro esses óculos cor de rosa que você usa para me ver. Você é muito doce e ingênua, mas tentarei te contar tudo com o tempo. Estou muito longe de ser alguém que sequer merece tudo isso que você pensa de mim.

- Eu não sou tão ingênua assim, Jack. Eu tenho 32 anos, já li tudo o que pude encontrar sobre sua vida, até mesmo aquele livro horrível do Clive Stewart e nunca vi nada de realmente ruim. Vocês estavam na estrada, lutando para ter uma carreira e ...

- Nós eramos muito ruins, Menininha. Fazíamos coisas cruéis de que me arrependo muito hoje.

Jack colocou o notebook no chão novamente e abraçou Clara. Agora estava chorando em seus braços. Clara não dizia nada, apenas acariciava e beijava seus cabelos.

- Eu estou aqui e sempre estarei por você. Queria ter o poder de arrancar essa dor do seu coração, sentí-la em seu lugar para nunca mais vê-lo sofrer. - disse Clara beijando-o.

- Esta é a oferta mais doce e linda que alguém já me fez, Menininha. Eu sou desprezível e seu amor é uma forma de magia que me transforma no mais feliz dos homens.

Clara agora chorava também. Estes momentos de emoção pura os uniam ainda mais. Clara não conseguiria trabalhar mais naquele dia, mas ela queria estar ao lado de Jack e aproveitar aquele momento em que os dois estavam tão felizes.

- Preciso escrever, amor. - disse Clara abaixando-se para pegar seu notebook do chão. - Vamos trabalhar? Você viu que já cheguei em sua adolescência? O que me leva a um ponto crucial. Quando você perdeu a virgindade?

Jack sorriu e acariciou o rosto de Clara. - Foi no banco detrás de uma limusine, em Nova York...

- Isso é doce, amor, mas sério...

- Foi com a Mary... Eu namorava com uma outra garota nessa época, a Jane Chambers já tinhamos feito muitas coisas, mas ainda não tinhamos transado, eu já tinha 16 anos, o pai dela descobriu e mandou-a para um colégio interno, em Birmingham e eu fiquei arrasado. Como a diretora Sanders te disse, depois dos 13 anos eu e o Donovan já estávamos cansados da escola e passamos a causar todo tipo de problema. Passamos a fazer parte de uma turma que subia em um morro perto da casa dele para ficar ouvindo música, namorando, bebendo e fumando. Quando você nasceu, as pessoas já eram livres, mas naquela época, não tínhamos qualquer espaço. Meu pais tentavam me controlar, mas não conseguiam mais. Estávamos experimentando a vida, nos conhecendo e conhecendo o mundo ao nosso redor.
Em uma das festas no morro, eu conheci a Mary, que era irmã mais nova de um cara que andava com a gente. Foi amor a primeira vista, ela passou a ser minha namorada e logo, lá no morro, dentro de um carro, aconteceu.

Clara suspirou, puxou o notebook para mais perto de seu corpo e apoiou as costas em uma almofada, no braço do sofá. Jack pegou seus pés, colocou-os em seu colo e passou a fazer massagem.

- Hum... Vai ser difícil me concentrar no menininho rebelde se o homem deliciosamente sexy em que ele se transformou, continuar me acariciando deste jeito. Eu me perco totalmente...

Jack sorriu e continuou a massagem, enquanto ela o olhava por sobre a tela do computador, o desejo entre os dois crescia. Logo o computador estava novamente no chão, Clara estava sentada no colo de Jack e os dois se beijavam com todo o ardor que seu desejo inspirava.

Ficaram deitados mais alguns minutos apenas descansando. Jack estava com fome novamente e foi para a cozinha. Decidiu que prepararia seu prato favorito para almoçarem e depois do almoço, voltaria para o piano para ensinar a nova música de David para Clara.

Jack descascava batatas enquanto contava velhas histórias protagonizadas por ele e Donovan, naquelas loucas noites em que subir em um morro e pertencer a uma turma eram decididamente atos de rebeldia e Clara bebia cada palavra, junto com uma taça de um vinho tinto aveludado que ele serviu para os dois.

Ela então decidiu que faria um brigadeirão para comerem mais tarde, pegou as latas na dispensa e preparou o doce. Jack ficou indignado que algo tão bom fosse tão simples de preparar, apenas abrindo latas.

Nos intervalos entre uma preparação e outra, os dois se beijavam e se agarravam no meio da cozinha. Quem os visse imaginaria estar assistindo a algum balé maluco, mas certamente muito romântico.

Almoçaram na sala de jantar e depois de arrumar a cozinha e colocarem o brigadeirão na geladeira para comerem mais tarde, Jack puxou Clara até o piano para ensinar-lhe a nova canção. Ela conseguiu aprendê-la rapidamente, e a letra que falava sobre uma mulher apaixonada que aos poucos ia conhecendo melhor seu amante, era mesmo algo que ela gostaria de cantar para Jack.

- Essa música é linda, amor... Como eu estou me saindo? - perguntou depois de passar a música duas vezes.

- Muito bem, querida! - respondeu Jack. - Vamos precisar arrumar um contrato com uma gravadora logo para você e quando você for uma estrela, por favor, não esqueça de mim...

- Isso é impossível... Não conseguiria te esquecer, nem se quisesse... Desculpa, mas você não vai se livrar de mim assim tão fácil. - sorriu Clara, beijou-o no rosto e levantou-se do piano.

- Onde você vai?

- Trabalhar... Tenho um livro para escrever... - disse Clara pegando o notebook no chão.

- Mas eu quero gravar uma demo para mostrar para o David... pode trazer esse seu traseiro lindo aqui para esse piano que você vai cantar mais algumas vezes antes de poder voltar para esse computador.

Ela sorriu e caminhou de volta até o piano. Jack tocou mais uma vez a música, mas agora com o gravador ligado e fizeram a demo em três takes.

Assim que terminou de gravar, Jack pegou o notebook de Clara e mandou a música anexada em um e-mail para David. Alguns minutos depois, David ligava para Jack pedindo para falar com Clara.

- E aí Velhão? Posso falar com a Princesa?

- Hum, depois dessa letra em que você disse que "não é ninguém sem seu homem", acho que pode sim... Amor, o transformista conhecido antes como David Mersey, quer falar com você.

- Ai Jack... você é terrível. Oi David!

- Princesa! Você está perfeita! Magnifica! Desculpa, mas terei que compor um álbum inteiro para você e não aceitarei um não desta vez...

- Ai, David... A música é linda... Mas ainda não subi no palco, não sei como me sentirei...

- Princesa, você é uma estrela... nasceu assim e vai encher qualquer palco em que subir de luz!

- Não sei David. Não me sinto uma estrela, me sinto uma pessoa pequena e frágil que está prestes a dar um passo que ainda não tem certeza se consegue dar, mas que está disposta a tentar. - disse Clara fechando os olhos e respirando fundo.

- É assim que se fala, Princesa! Vamos trabalhar nisso assim que eu voltar da Itália! Seu marido ainda está por aí?

- Está...

- Deixa eu conversar com ele. Beijos, querida.

- Beijos! - disse Clara. - Ah! A Cindy está por aí?

- Sim, aqui do meu lado...

- Vou ligar para ela, então. Beijos.

Clara entregou o telefone para Jack e foi pegar o seu celular.

- Oi Cindy... estou em pânico!

- Não fica! Eu e o David ouvimos a música e ficou linda. Você sabe que está entre os melhores do mundo e se eles te dizem que você é capaz, é melhor ouví-los.

- Eu disse para o David que vou tentar... E o casamento? Quando será?

- Já foi! - sorriu Cindy. - Estamos na festa agora.

- Ué? Mas como vocês ouviram a demo?

- No celular, querida. Nós ouvimos e nos apaixonamos. Ficou lindo!

- Obrigada Cindy! E que tal o casamento?

- Maravilhoso! Este lugar é incrível. Estamos em um terraço sobre um mar absolutamente azul, lá embaixo. Vocês têm que vir para cá, é um lugar lindo para namorar!

Clara sorriu e suspirou no telefone. Olhou para Jack que parecia concentrado na conversa, mas caminhava em sua direção.

- Falando em coisas lindas, amanheceu nevando por aqui hoje e a montanha está incrível. Fomos lá no topo, mas está muito frio e tivemos que voltar para casa. Não dá para fazer muita coisa por aqui além de namorar.

- Ah! Que chato, não amiga... - riu Cindy.

- Eu queria que este fim de semana não terminasse nunca mais. - disse Clara, enquanto Jack desligava o telefone e começava a beijar seu pescoço.

- Bom Cindy, o Jack está me chamando lá da cozinha. Vou ver o que ele quer...

- Vai lá amiga... Aproveita e se joga! Vocês dois merecem essa chance de estar juntos. Beijos querida.

- Beijos. - disse desligando o telefone.

- Bem, Jack... Onde nós estávamos? - disse beijando Jack e aninhando sua cabeça no ombro dele.

- O David já está fazendo os contatos e o Michael está preparando um contrato para você. Parabéns, você já tem uma carreira na música, meu amor!

- Ai, será que darei conta?

- Nós vamos te ajudar. Você nasceu para isso!

Clara queria responder que tinha muito medo, que estava apavorada de ter que subir no palco junto com a Crossroads, mas estava decidida a lutar contra seu medo e tentar.

- Vem aqui, Grandão! - Clara disse beijando Jack. - Acho que passaremos todo o final de semana fazendo sexo.

- Alguma reclamação? - sorriu Jack, agarrando-a.

- De jeito nenhum!

E os dois passaram as próximas horas juntos exercitando todo o amor que tinham um pelo outro, ardendo nas chamas da paixão. Depois, cansados, apenas adormeceram por algum tempo na mais absoluta paz.

Acordaram sorrindo, levantaram-se, vestiram-se e foram até a cozinha. Jack queria uma fatia de brigadeirão.

- Deus! Isto é muito bom! - disse Jack. - Cada vez que como este doce tenho vontade de te pedir em casamento de novo!

Clara sorriu e beijou Jack na testa: - Você é bem melhor do que todo o chocolate do mundo. Te garanto!

- Sabe, eu estava aqui pensando. Não me lembro de ter sido mais feliz na minha vida. Nem quando meus filhos nasceram, nem quando a banda me deixou milionário... Nada se compara a estar aqui com você.

- Eu também estou muito feliz! Tenho até medo de tudo ser um sonho.

- Você é um sonho, Menininha! - disse Jack beijando-a. - Só quero te mimar...

Clara sorriu e acariciou o rosto de Jack. Pegou mais uma fatia de doce e caminhou até a sala de estar, onde ligou novamente o notebook.

- Preciso trabalhar, amor. Já estou me sentindo culpada de assumir todos esses compromissos. Tenho a impressão de que não conseguirei concluir nada.

- Nós vamos te ajudar, querida. Tudo vai dar certo. - disse Jack pegando mais uma fatia de brigadeirão e seguindo-a até a sala de estar.

Jack recolheu pratos e talheres e levou-os até a cozinha para lavá-los. Depois voltou da cozinha com duas taças de vinho nas mãos.

Clara estava agora concentrada em seu texto e escrevia sem parar. Descrevia agora um por do sol que Jack assistiu de cima do morro, sentado ao lado de Mary e com uma garrafa de vinho barato nas mãos, apenas alguns dias depois de transarem por lá pela primeira vez. Jack sentia-se um homem, aos 16 anos, cantaria em um pub em Stourbridge e naquela mesma noite sentiria pela primeira vez a certeza de que havia nascido para a música e era aquilo que faria para sempre em sua vida.

Naquele instante, ele encerrava unilateralmente uma luta que travava há alguns anos contra seu pai, que queria vê-lo trabalhando em algo que garantisse um futuro mais sólido do que a música. Naquele instante, imbuído da coragem do álcool circulando em seu sangue ele tinha tomado a decisão de que deixaria a casa de seus pais para sempre e que iria atrás de seu sonho de qualquer maneira, mesmo que para isso fosse necessário morar nas ruas.

Os olhos de Clara começaram a lacrimejar. Sem dizer uma palavra, ela apenas pegou o computador e colocou-o no colo de Jack, que leu as últimas páginas que ela havia acabado de escrever. Jack colocou o computador no chão e chorando também, abraçou-a.

- Como você sabe disso? - disse ele. - Foi exatamente assim que me senti naquele morro. Me lembro desse momento exatamente assim como você o descreve. Como? Não me lembro de ter te contado sobre isso... nem a você, nem a ninguém...

- Não sei, amor. Estava aqui escrevendo e apenas vi essa cena e senti aquilo que passava por sua cabeça naquele momento em que o céu mudava de cor no horizonte. Eu não sei explicar isso, mas foi uma sensação muito forte; como aquela que eu tive quando o David me hipnotizou e eu era a Ceridwen e você era o Bertold.

Os dois agora choravam e se abraçavam. As mãos de Clara tremiam e Jack beijava-a e tentava secar suas lágrimas.

- Me perdoa, amor...

- Perdoar o que? - disse Jack sorrindo. - Você e eu somos um só... Acho que esse é o jeito que os Deuses encontraram de mostrar isso para a gente... só isso.

Clara ainda estava um pouco confusa, mas entregou-se sem reservas ao carinho que Jack agora lhe dava. Os dois ficaram agarrados por mais algum tempo no sofá.

- Você está bem agora? - perguntou Jack.

- Estou lutando comigo mesma para me acalmar. Não sei se já te disse, mas quando vejo algum destes fenômenos ditos sobrenaturais acontecendo, entro em guerra por uma explicação que faça sentido e quando não a encontro, tudo fica ainda mais confuso.

- Não tenta explicar, amor. Não é cabeça é coração...

- Eu sinto um amor maior do que o infinito por você e ele me abriga e me dá a sensação de que tem alguma coisa além daquilo que nossos olhos podem ver.

- Ai Menininha! Eu te amo tanto, tanto, tanto... - disse Jack antes de beijá-la.

Já estava anoitecendo e a neve começava a cair novamente. Jack levantou-se do sofá e foi regular novamente o aquecimento da casa. Estava preocupado que esfriasse muito durante a noite. Não queria que Clara sentisse frio.

- Pronto, Menininha... Já aumentei o aquecedor e daqui a pouco vou acender a lareira para você. - disse Jack. - Você está com frio, amor?

- Não querido. Estou confortável aqui dentro. Quer jantar?

- Hum... Mais tarde... Quem sabe fazer aquela coisa de chocolate...

- É mesmo! Um fondue! É mesmo quentinho... Você quer só de chocolate, ou fazemos de queijo também?

- Prefiro de chocolate, vida! Acho que vi frutas na dispensa...

- Eu pedi para a Mona comprar quando o Mick Jagger me convidou para jantar.

- Eu sei, querida... Mas por favor não vamos falar sobre esse cara...

- Você fica tão lindinho com ciúmes, amor. - sorriu Clara.

- Fico é? - disse Jack, agarrando-a. - Você é minha! Só minha!

- Não sou não... Sou um membro orgulhoso das indústrias literária, jornalística e cinematográfica caminhando a largos passos para adentrar também na indústria musical! - riu Clara. - E você, meu caro marido e suposto protetor me encoraja a espalhar-me ainda mais por aí...

- Isso é o que você faz, Menininha... Não o que você é... - riu Jack. - Você é uma mulher jovem, inteligente que eu amo muito e em quem eu tenho muita fé. Sei que aqui, nesse corpinho pequenino, existe um talento infinito.

- Eu te amo Jack! Eu vou guardar estas suas palavras doces no meu coração, para quando estiver triste e cansada.

- Não precisa! Eu estarei repetindo elas em seu ouvido sempre que for necessário...

- Ai que lindo!

- Sério... É para sempre, Menininha!

- Claro que é! - disse Clara beijando-o novamente. - Acho que vou editar o segundo capítulo do livro agora e assim que terminar, vamos para a cozinha preparar o nosso fondue... que tal?

- Perfeito, amor! - disse Jack. - E eu vou buscar o meu violão para fornecer uma trilha sonora para minha escritora favorita.

Novamente ela pegava o notebook e voltava a ser a escritora, cortando parágrafos, corrigindo erros de digitação, repassando informações, checando com Jack a cronologia de alguns fatos e sentindo um carinho enorme por aquele garotinho frágil que crescia diante de seus olhos e se tornava um adolescente rebelde pronto para tomar o mundo em suas mãos.

- Hum... bom, muito bom... Vai mandar já para o Michael? - disse Jack terminando de ler seu texto.

- Não sei, Jack. Ainda não estou feliz com este capítulo...

- Hum... Perfeccionismo... Olha amor, sei que eu e o David não somos exatamente as pessoas certas para dizer isso, mas cobrar a perfeição de você mesma é um caminho muito duro, simplesmente porque não existe perfeição.

- Eu sei, amor. Mas ainda tenho a sensação que posso melhorar algumas coisas. Preciso reler mais uma vez e me convencer de que fiz o meu melhor... só isso. - disse suspirando. - Vamos para a cozinha preparar o nosso fondue?

Enquanto Jack cortava frutas, Clara ralava uma barra de chocolate para preparar o fondue. Depois eles levaram o rechaud até perto da lareira, tiraram todas as roupas e comeram com gosto enquanto bebiam champagne.

- Estou vendo que em breve teremos problemas. - disse Clara.

- Por que? - perguntou Jack.

- Quando estivermos na casa de Londres, será difícil colocar em nossos convites para jantar em casa de que o traje é nenhuma roupa! - Clara respondeu rindo.

- Hum... Isto é potencialmente problemático, Menininha... - disse Jack sorrindo. - Mas não precisamos convidar ninguém nunca... Precisamos?

- Maluquinho! Queria que isso fosse verdade. Acho que no fundo eu ainda sou aquela garota que você salvou do lago, na nossa vida anterior e que decidiu que dali em diante viveria só por você.

- Mas podemos ter isso. Deixar o resto do mundo lá fora sempre que estivermos juntos. Não importa se aqui, no alto da nossa montanha, ou lá embaixo, no Madison Square Garden, com 20 mil pessoas nos olhando.

- Melhor não estarmos nus por lá... - riu Clara.

- Melhor não... Embora eu ache que você ficaria linda nua sob as luzes fortes do palco... quanto a mim, seria apenas desastroso...

- Você é muito mais bonito do que pensa, meu querido. - disse Clara. - Estes cabelos, esta pele, estes olhos, estes braços fortes... Meu amor, você é uma delícia. Quer saber? Você sabe o quanto é lindo! E fala estas coisas só para me provocar, não é?

- Eu já tive dias muito melhores... Tem horas que tenho vontade de quebrar todos os espelhos...

- Não, amor... Você envelheceu muito bem. Eu sei que é clichê, mas você é como um vinho bom que vai ficando mais e mais gostoso com o tempo.

- Você é boa demais para mim...

- Não sou, não. Você não usa muito a internet, certo? - disse Clara.

- Não. Por que?

- Vou pegar meu notebook e te mostrar uma coisa... - disse Clara ligando o computador e mostrando para ele. - Olha só isso aqui, no Twitter... é só escrever seu nome aqui e você pode ver o quanto as pessoas do mundo inteiro ainda te amam. E aqui no Facebook, olha só as coisas que falam sobre você, sua música e sua aparência. De fato, acho que eu devo até ficar com ciúmes desta mulherada maluca...

- Hum... não imaginava... depois quero ver isso melhor... tem alguma gata aí?

- Tem... mas elas não estão aqui... - disse Clara pegando a mão de Jack e colocando-a em seu seio.

- Verdade. - disse Jack agarrando-a e beijando-a. - Menininha... você acaba comigo...

E a noite continuou romântica e divertida. O relacionamento dos dois podia ser definido por três qualidades essencias: Amor, intimidade e bom humor. E naquela noite gelada enquanto a neve deixava tudo branco lá fora, eles sentiam-se essencialmente felizes e na frente do fogo da lareira, a paixão queimava sem parar.

Na manhã seguinte o tempo melhorou, a neve já tinha parado de cair e o sol derretia uma parte do gelo. Mesmo assim, Jack não deixou Clara sair porque tinha medo que ela, desacostumada com aquele tipo de ambiente, escorregasse e se ferisse na queda.

Os dois tomaram café da manhã e Clara logo pegou seu notebook para dar os últimos retoques no texto e mandá-lo para Michael e Jonas, este último, com os costumeiros pedidos de feedback.

E já que estava na internet, resolveu atualizar seu blog, escrevendo um longo texto sobre amor, chocolate e felicidade que rapidamente se tornaria um hit instantâneo ao ser traduzido para o inglês e repassado pelos fãs da Crossroads pelo mundo afora.

- Amor, vamos almoçar o que? Me ajuda a escolher alguma coisa aqui na lista da Mona... - disse Clara.

- Que tal este filé?

- Acho que vou descongelar também os legumes e vou fazer um risoto para acompanhar...

- E eu faço o que? - perguntou Jack. - Posso ficar aqui dançando nu para seu entretenimento...

Clara caiu na gargalhada. - Não, amor... você vai cortar um pedaço deste queijo em quadradinhos bem pequenos...

- Sim senhora! - disse Jack enquanto pegava uma faca grande e uma tábua para levar até a bancada no meio da cozinha. - Deste tamanho, amor?

- Isso mesmo! - sorriu Clara, enquanto preparava os outros ingredientes.

- Tarefa cumprida, cara senhora! Faço o que agora?

- Hum... Muito bem! Agora arruma a mesa na sala de jantar, querido...

- Considere feito! Hum... qual vinho combina com este almoço?

- Aquele tinto aveludado de ontem... seria maravilhoso amor...

Assim que Clara chegou com as travessas com o almoço, Jack começou a bater fotos dela e dos pratos...

- O que foi isso?

- Tive uma ideia e se você puder me ajudar, eu gostaria de publicar algumas coisas na internet a partir de hoje...

- Claro, amor... - sorriu Clara. - Será maravilhoso e os seus fãs ficarão muito felizes!

- Só tem uma pessoa que eu quero fazer muito feliz nesse mundo... Você!

- E sempre consegue! - respondeu Clara sorrindo para ele.

Depois de almoçarem e arrumar a cozinha, os dois foram para a sala de estar com o notebook de Clara nas mãos.

- Qual a sua ideia? Posso te sugerir uma coisa?

- Claro, amor...

- O Twitter. Acho que é a melhor ferramenta onde você pode escrever e compartilhar o que quiser, sem muita exposição. Vamos fazer uma conta no Twitter...

- Eu já tenho... eu pedi para o John Burke registrar meu nome sempre que aparecesse alguma coisa nova, relevante, para evitar o uso por gente mal intencionada.

- Que lindo! E você sabe a senha?

- Sei... Combinamos isso também... Vamos entrar lá...

- Olha querido... Já está logado... Você quer me seguir?

- Quero sim...

Os dois seguiram um ao outro no twitter e Clara atualizou seu status dizendo: Meu melhor amigo está agora na rede... todos digam oi para @Jack_Noble.

Como era de se esperar a mensagem causou muita agitação. Rapidamente os números de seguidores da conta antes completamente parada de Jack foram aumentando descontroladamente.

- Quero mandar uma foto, como faço? - perguntou Jack.

Clara colocou as fotos da câmera no computador, ele escolheu uma e escreveu: Vou convidar esta gata para sair comigo hoje. Que tal?

- Que lindo! Te amo, sabia?

Clara respondeu pelo twitter: Convite aceito!

Os dois causaram uma revolução no twitter naquele sábado. Em poucas horas os comentários sobre a presença de Jack na rede social colocaram seu nome na lista de assuntos mais comentados e ele e Clara já tinham atingido a marca de um milhão de seguidores cada um.

- Mas é sério... você vai sair mesmo comigo hoje? O que você tem em mente?

- Um restaurante muito bom, de um amigo meu em Birmingham... Frutos do mar? Que tal?

- Hum... delícia. É chic? Ou podemos ir com roupas mais casuais?

- Tranquilo, querida... Não é aquele francês cheio de frescura de Londres que você gosta tanto...

- Ok! Você já fez reserva?

- Vou ligar para meu amigo... Ele é um primo da Mary, sabia?

- Hum... Liga para ele, então...

- Quer saber? Acho que vamos sair mais cedo, amor... Quero comprar novos celulares e uns iPads para a gente. Assim não dependemos só dos computadores para falar com as pessoas.

- Ok! Então vamos tomar um banho e logo estaremos fora daqui. Hoje é sábado, será que a loja está aberta?

- Está sim... é no shopping de Birmingham. Fica perto do consultório da sua médica.

- E a neve?

- O que tem a neve?

- Não é perigoso sair?

- Não... Vamos de jeep.

- Você tem outro jeep?

- Tenho! É um pouco mais velho do que aquele que está em Londres, mas vamos pegar lá na garagem quando estivermos prontos. - disse Jack puxando Clara.

- Espera! Liga para seu amigo primeiro. Acho muito chato aparecer do nada no restaurante de alguém em um sábado à noite achando que está tudo certo.

Enquanto ele telefonava, Clara tuitou: "Eu te amo @Jack_Noble!

Jack viu a mensagem, agarrou Clara e beijou-a com ardor.

Os dois então subiram para um longo banho de banheira que completaram com massagens com hidratantes e óleos essenciais. Depois Clara cuidou dos cabelos de Jack, arrumando seus cachos com capricho.

Os dois então vestiram-se e colocaram casacos que poderiam tirar caso o tempo em Birmingham estivesse mais quente.

A garagem de Jack era um grande galpão que ficava na parte detrás da casa, próxima das acomodações dos empregados. Naquela noite, além do Jaguar e do Jeep, estavam estacionados por lá um Bentley, uma Ferrari, um Rolls Royce e duas motos Harley Davidson.

- Amor... Quantos carros!

- É... o que posso dizer? Sou um rockstar milionário e decadente... - sorriu.

Os dois subiram no jeep, que era um pouco mais velho do que aquele que haviam deixado no aeroporto de Londres e seguiram pela estrada, que agora tinha pouca neve acumulada sobre os arbustos e na grama.

- Viu... Não tem mais neve, querida. Olha para a estrada, já está limpa com o sol que fez hoje o dia todo!

O transito até Birmingham estava tranquilo naquele final de tarde e os dois chegaram rapidamente ao shopping, deixaram o carro no estacionamento e vestiram bonés e óculos escuros, na tentativa de não serem reconhecidos. Além disso, Jack checou antes o mapa do shopping e os dois desceram pelas escadas do estacionamento direto no andar da loja onde iriam para não ficarem circulando muito e assim diminuir as chances de serem avistados.

O vendedor da loja parecia em pânico ao vê-los estacionados no balcão. Jack e Clara ficaram alguns minutos parados lá, olhando para telefones e tablets sem que ninguém se aproximasse deles. Clara já tinha vivido situações parecidas com aquela, quando era pobre e por acaso entrava nas chamadas "lojas da moda", costumava ser ignorada pelos vendedores até se irritar e sair prometendo para si mesma que nunca mais pisaria lá.

Mas aquilo era diferente, apesar dos óculos e bonés, os dois estavam bem vestidos e lá na Inglaterra, mesmo quando estava mal vestida, aquele tipo de coisa nunca tinha acontecido antes. Mas ela entendeu tudo quando um senhor bem mais velho do que os vendedores da loja aproximou-se do balcão para atendê-los.

- Em que posso ajudá-los?

- Gostaríamos de ver seus iPhones e iPads mais modernos. Precisamos que vocês nos ajudem pois não entendemos nada de tecnologia. - disse Jack.

- Ok! Me desculpem, mas nossos vendedores estão ocupados neste momento. - disse o dono da loja olhando para o segurança, que neste instante se aproximava.

- Jack, acho que já entendi o que está acontecendo aqui. - disse Clara. - Senhor, desculpe nossos bonés e óculos. Estamos tentando não ser reconhecidos. Este é Jack Noble, meu marido e usamos estas coisas apenas porque é um shopping center e ficamos com medo dele estar cheio.

- Meu Deus! É ele mesmo... - disse o homem sorrindo. - Desculpem... assaltaram uma loja aqui do shopping na semana passada e ficamos em pânico quando vimos pessoas de óculos de sol e boné entrando aqui. Claro! Me perdoem... Sou um grande fã da Crossroads! Vou chamar um vendedor para atendê-los porque também não entendo nada de tecnologia. John, por favor, ajude-os a comprar os equipamentos que querem... Me perdoem, estou com muita vergonha, senhora... senhor Noble.

Os dois gastaram um bom dinheiro na loja, comprando dois iPhones e dois iPads de última geração e alguns acessórios como bolsas e capas para que eles não se arranhassem com o uso. Demoraram ainda mais alguns minutos pedindo explicações sobre o funcionamento. O dono da loja, preocupado com o movimento do shopping pediu que um dos seguranças que trabalhava para a loja os acompanhasse de volta até o carro para evitar maiores problemas e eles logo estavam novamente na rua.

- Conseguimos, Menininha! Compramos nossos brinquedinhos novos!

- Que ótimo, amor! Agora podemos tuitar de onde quisermos! - respondeu Clara rindo.

- Mas precisamos tomar cuidado com isso, ou logo não teremos mais nenhuma privacidade... - disse Jack batendo uma foto de Clara e postando-a junto com o texto: "Linda, não é?"

Jack e Clara tiveram uma noite maravilhosa no restaurante de Jimmy Sitar, especializado em lagostas. Jimmy era um velho amigo de Jack e também fazia parte da turma de adolescentes que subia o monte próximo da casa de Richard Donovan para ficar ouvindo os discos dos mestres do blues, avidamente importados dos EUA por outros jovens como eles. Clara ficou muito feliz de ver os dois conversando sobre os velhos tempos e relembrando histórias da época em que todos sonhavam em ser bluesmen.

Além do restaurante, Jimmy trabalhava como distribuidor de frutos do mar e logo após o jantar, os levou até o depósito onde negociava diretamente com lojas e restaurantes e deu a eles algumas lagostas e alguns quilos de filé de salmão congelados, embalados em uma bolsa térmica especial.

Voltaram para casa no início da madrugada e a montanha estava gelada, mas não havia qualquer sinal de neve naquela noite, que por sinal, estava muito estrelada e sem nuvens no céu.

- Que noite linda, amor... Olha! Dá vontade de subir até o topo da montanha e ficar lá até o amanhecer... - disse Clara assim que desceu do carro.

- Não dá para confiar, querida... a montanha nesta época do ano é imprevisível, tudo pode mudar em uma questão de minutos e podemos ficar presos lá em cima e congelados... É perigoso, amor.

- Que pena, querido... Bem, vamos para dentro então levar nossos frutos do mar para o congelador, que eu preciso te mimar mais um pouquinho nesta noite.

- Vou levar o jeep de volta para a garagem... Quer que eu leve uma destas sacolas?

- Não precisa, amor... já vou entrar porque estou com frio...

Clara entrou em casa, deixou as sacolas da loja de celulares na sala de estar e levou a bolsa térmica até a cozinha, onde colocou as lagostas e o salmão no freezer. Jack já tinha entrado também e agora conversava com David pelo telefone, enquanto pegava na dispensa um novo pacote de lenha para colocar na lareira.

- Amor, vou me trocar de roupa... ficar mais a vontade... quer alguma coisa lá de cima?

- Traz o edredon, para a gente descansar aqui na lareira... vou acender tudo e já subo para me trocar também. - respondeu Jack rapidamente para continuar falando no celular. - Você tem razão! Acho que seria bom, mas não sou mais um homem solitário e preciso consultar minha mulher agora para decidir uma coisa dessas.

Clara ouviu esta frase enquanto subia as escadas e deu um suspiro profundo, ele queria consultá-la para tomar uma decisão. Jack Noble precisava perguntar-lhe o que achava sobre alguma coisa que David Mersey havia sugerido. Era surreal, mas acontecia agora mesmo, na sala de estar, de uma mansão inacreditável fincada na floresta que cobria a montanha em que ela morava agora, ao lado de seu marido.

Uma onda de emoção atingiu-a em cheio naquele instante. A impressão era muito semelhante a de um episódio de sua infância, que aconteceu nas férias que esteve nos EUA com seus pais. Estavam em uma reserva natural acampados em um trailer alugado. Ela estava sozinha andando na mata e decidiu subir em um monte próximo para ver melhor. Subiu lentamente sem pensar muito no que fazia, mas quando chegou ao topo, ficou apavorada e só conseguiu sair de lá no colo de seu pai.

Como no parque, ela olhava para baixo agora e percebia onde estava e chorava novamente, não de medo, mas de emoção. Sentada na cama que dividia com Jack, ela tentava parar de chorar para conseguir trocar-se de roupa. Enquanto chorava, ouviu os passos de Jack na escada e correu para o banheiro, não queria que ele a visse naquele estado.

- Amor? - disse Jack entrando no quarto atrás dela. - Cadê você Clara?

- Aqui, no banheiro. - respondeu.

Jack percebendo algo errado em sua voz entrou atrás dela no banheiro. Encontrou-a no espelho, tentando lavar as lágrimas do rosto.

- O que foi, amor? - disse ele abraçando-a - Fiz alguma coisa errada?

- Não querido! Sou boba... Me emocionei, só isso.

- Por que? - disse beijando seus cabelos. - Não quero te ver triste...

- Estou bem, querido... Já passou... É que eu ouvi você dizendo para o David que precisava me consultar para decidir e eu... sou ridícula, não?

Jack puxou-a contra seu corpo e beijou-a com paixão. Ainda agarrados, os dois caminharam até o quarto enquanto iam se despindo. Jack beijava todo o seu corpo e a acariciava como se quisesse compensá-la por cada gota de lágrima derramada alguns minutos antes. Decidido a dar muito prazer a Clara, ele a amava de uma forma lenta e intensa.

Estavam na cama, um lugar estranho para ambos naquela temporada em que passavam todas as noites na frente da lareira na sala de estar, mesmo tendo também uma lareira no quarto.

A alegria que os dois sentiam era imensa. Sempre que estava nos braços de Jack, ela sentia que estava em casa.

- Estava aqui pensando... você nunca menstrua? - disse Jack repentinamente.

- Tomei uma injeção para suspender a menstruação por três meses, um pouco antes de viajar para Nova York. Te disse isso na véspera do nosso casamento, lembra?

- É mesmo. E quando voltará a menstruar?

- Não sei. A injeção dura por três meses. Na verdade, precisava procurar um médico por aqui para saber se preciso continuar com este tratamento.

- Precisa sim, Menininha! Não quero te ver doente, ainda mais agora que teremos muito trabalho pela frente. Segunda-feira vamos procurar um médico para você. Será que a Cindy não conhece algum bom para te indicar?

- É... posso pedir para ela uma indicação...

- Sim... precisa cuidar bem dessa coisinha aqui, que eu amo tanto. - disse Jack acariciando o sexo de Clara. - Ela é muito preciosa para mim.

- Você a faz completamente feliz! - respondeu Clara sorrindo. - Ah! O que o David queria?

- Hum... ele quer que passemos a próxima semana em Heathcliff Hall para facilitar o processo de composição dele para o seu disco solo, agora que o disco da Crossroads está bem encaminhado.

- Não acho uma boa ideia querido. A estrada para lá tem muito trânsito e vocês estariam indo e voltando de Londres para ir ao Abbey Road... Não gosto disso.

- Eu também... você sabe que não tenho nenhuma paciência para o trânsito... Mas ele quer compor para você, querida.

- Será que ele não pode fazer isso lá na nossa suíte? Vocês passam muitas horas no estúdio de qualquer jeito e ele e a Cindy podem ficar no quarto anexo e podemos levar seu gravador daqui e usar o piano e o que for lá em nosso hotel. O que você acha?

- Se você prometer que eles estarão lá, ao alcance das minhas mãos... - disse pegando seus seios e rindo.

- Eles sempre estão a seu alcance, Grandão! - respondeu rindo. - Eu te amo tanto, Jack.

Ele puxou-a para mais perto de seu corpo e beijou-a.

- Vamos para perto da lareira, agora? - disse Jack. - Eu te carrego, Menininha...

- Hum... não precisa carregar... Vem... deixa eu pegar o edredon... - respondeu Clara.

Os dois desceram as escadas nus, colocaram o edredon na frente da lareira e lá passaram uma noite romântica de completo envolvimento e alegria. O clima imprevisível da montanha trouxe mais neve, um pouco antes do amanhecer e muita neblina, enquanto dormiam tranquilos.

Clara acordou sem fazer barulho e foi até a cozinha atrás de um copo d'água. Jack dormia em paz, seus longos cabelos louros espalhados pelas almofadas que estavam sob sua cabeça. A luz dourada da lareira iluminava-o, Clara tinha vontade de fotografá-lo naquele instante. Desejava beijá-lo mas contentou-se em apenas deitar-se ao seu lado, sentindo o calor de seu corpo aquecê-la.

Jack abriu os olhos e vendo-a acordada, olhando para ele sorriu... - O que foi Menininha?

- Nada... levantei para tomar um copo d'água e descobri que está nevando novamente. - respondeu Clara.

- Hum... sabia! Aquelas estrelas de ontem à noite não conseguiram me enganar. Imagina se tivessemos passado a noite lá no topo... estariamos iguais a picolés agora. Minha Menininha igual um sorvete, com estas duas perninhas fininhas servindo de palito - Jack riu e beijou-a. - Está com frio, querida?

- Não mais, amor... Você é tão quentinho... - sorriu Clara. - Estava aqui na cama pensando, sobre o próximo capítulo do livro... você perdido naquele bosque, sob a chuva... sem uma casa para voltar.

- Passei coisas terríveis naqueles dias, mas sabia que tinha que ser daquele jeito. Não podia fazer aquilo que meu pai queria me obrigar. Imagina eu trabalhando de contador ou como um gerente de banco? Cabelos curtos, usando terno e gravata todos os dias da minha vida. Já teria morrido com toda certeza, de tédio, ou de depressão. E nunca te conheceria, meu amor.

- Acho que a música não seria a mesma sem você.

- Você acha, amor? Eu quero dizer, as pessoas sempre falam essas coisas sobre meu trabalho e sobre a Crossroads, mas quando você diz é diferente. Me atinge direto aqui. - disse Jack apontando para seu coração.

- Não faz isso comigo, Jack. - respondeu Clara. - Não quero chorar mais...

- Não estou dizendo para te fazer chorar. Estou dizendo porque sinto isso e sinto não só porque te amo, mas porque você é a única pessoa nesse mundo que eu quero agradar e que me faz querer melhorar sempre mais.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Clara mais uma vez. Jack secava-as com as pontas dos dedos. Ele sentou-se sobre o edredon, perguntou o que ela queria comer no café da manhã e caminhou nu até a cozinha.

- Vou te ajudar... Mas preciso me vestir primeiro. - disse Clara colocando as almofadas de volta sobre o sofá e dobrando o edredon para levá-lo até o quarto.

Clara foi até o banheiro, lavou o rosto e depois caminhou até o closet para encontrar roupas quentinhas que pudesse vestir. Seu estômago também estava roncando e ela escolheu um suéter colorido, calças jeans e botas de cano alto para vestir. Pegou também um cachecol de lã.

- Linda, como sempre... - disse Jack ao vê-la chegando na cozinha enquanto preparava a massa para fazer panquecas.

- Vai se vestir amor... está muito frio. - disse Clara aproximando-se dele por trás e beijando suas costas. - deixa que faço as panquecas, vai lá vestir uma roupa, por favor.

- Não estou com frio, mas está bem... Se você não gosta que eu ande nu por aí...

- Pelo contrário, querido... eu adoro te ver nu... mas estou preocupada porque está frio e não quero que você fique doente.

- Eu sei, meu amor! Bem, vou até o closet vestir algumas roupas e já volto.

Clara preparou as panquecas e uma calda de morangos para acompanhá-las e logo Jack descia de calça jeans, uma camiseta de seu time de mangas compridas e botas.

- Demorei?

- Não meu amor! Viu? Está mais quentinho agora?

- Só fico quentinho quando estou perto de você, Menininha... Depois do café podemos brincar com nossos brinquedinhos novos.

- Hum! Boa ideia...

Jack ajudou Clara a arrumar a cozinha após o café e os dois sentaram-se na sala de jantar com seus iPhones e iPads. Ainda um pouco confusos sobre como usá-los.

Clara também checou seus e-mails e percebeu que tinha uma nova mensagem de Michael Peters elogiando o segundo capítulo do livro e dizendo que estava ansioso por ver como seriam os próximos.

Jonas também foi só elogios. Disse que naquele segundo capítulo ela soava ainda mais como ele revisitando com todas as cores sua infância e levando os leitores a um passeio pela época em que era apenas um garotinho franzino que mais tarde se tornaria um adolescente fascinado pela música dos mestres do blues.

- Já estou feliz! - disse Clara. - Tanto o Jonas quanto o Peters elogiaram muito o segundo capítulo. Já posso começar a escrever o terceiro. Pensei em começar com o bosque e terminar na primeira vez em que você entrou no estúdio para gravar com o Crossroads. O que você acha?

- Bom! Você vai entrevistar alguém?

- Ainda não sei. Talvez o Dan Joyce e mais alguém que tenha tocado com você e com o Donovan naquela época.

- Isso será tranquilo, menininha. Podemos marcar uma tarde qualquer com o Dan e vocês conversam.

- Ótimo! Preciso acelerar o trabalho no livro porque teremos muito o que fazer nos próximos meses. Quero estar com o quarto capítulo pronto antes do próximo final de semana...

- Terceiro...

- Sim, amor e o quarto também... Quero acelerar... - disse Clara. - Sabe o que o Jonas disse sobre o segundo capítulo? Que eu estou soando ainda mais como você. Que todos os fãs terão certeza de que você escreveu.

- Também achei... Parece que você nasceu para ser minha "ghost writer", Menininha. - sorriu Jack. - Aliás... Você já escreveu poesia, ou letra de música alguma vez?

- Nunca. Por que?

- Porque eu tenho uma baladinha de violão bem bonita, que talvez fique linda na sua voz. Não quer tentar?

- Por que não? Vai pegar o violão e toca para mim... - sorriu Clara. - Quando estou ao seu lado, me sinto capaz de qualquer coisa.

Jack correu até o quarto onde guardava seu equipamento musical, pegou um violão, um pandeiro, sua gaita, o gravador e microfones, enquanto Clara continuava respondendo e-mails e tuitando.

Depois ela desligou os aparelhos, pegou um caderninho e uma caneta e passou a ajudá-lo na preparação dos instrumentos e microfones. Logo ele estava sentado tocando para ela a melodia. A canção era linda, lenta com influência folk e ele a tocava para que ela se familiarizasse com a melodia.

Então ele passou a acompanhar a melodia que tocava no violão com sua voz, mas sem cantar palavras ainda, só sons... Mas não aconteceu nada, as palavras não apareciam e ela ia ficando cada vez mais embaraçada com a situação.

- Não, Jack! Acho que não consigo fazer isso. Queria gritar para o mundo o quanto te amo, mas não sei colocar este sentimento em palavras que caibam em uma música...

- Querida, você têm tantos talentos que eu não duvido que possa fazer isso lindamente. Apenas não descobriu o caminho ainda. - disse Jack, levantando-se do piano e indo até a cozinha para buscar uma garrafa de vinho. - Quer vinho?

- Não é muito cedo para beber?

- Não, querida. Já estamos trabalhando, podemos beber um vinho... - disse Jack entregando-lhe uma taça.

- Hum... Vou cortar um pouco de queijo e pão para comermos junto... antes que o vinho suba demais... - disse Clara.

A manhã de domingo foi ao redor da lareira quentinha, com música e vinho. A neve tinha parado de cair e Jack quis ir lá fora ver como estavam as coisas, Clara quis ir junto e os dois colocaram casacos, gorro e luvas.

Tinha apenas alguma neve no chão e estava muito frio. Jack jogou sal para evitar que escorregassem e deixou tudo arrumado para a chegada, no final da tarde, dos empregados.

Depois os dois voltaram para perto da lareira e para o trabalho na nova música. Clara tirou uma foto de Jack tocando violão em casa e mandou para o twitter com os dizeres: "Nevou lá fora e está muito frio por aqui. Pelo menos temos música ao vivo da melhor qualidade."

Clara foi para a cozinha e disse que prepararia uma receita italiana, porque na família do pai dela, era uma tradição comer massas no almoço de domingo e preparou espaguete ao sugo e uma peça de filé mignon ao forno recheado com uma pasta de ervas e queijo que ela preparou e que Jack adorou.

- Daqui a pouco tem um jogo do meu time... quer ir ver comigo, lá no quarto, Menininha?

- Quero sim! É contra quem? - perguntou Clara.

- Contra o Newcastle... Não é um jogão e mesmo sendo no campo dos Wolves, acho melhor vermos da nossa cama, está muito frio para irmos no estádio. Mas vou ligar para o presidente mais tarde porque eles ficam me esperando, quando estou aqui.

- Isso é tão bonitinho, Jack.

- O que?

- Essa sua relação com seu time. Meu pai também é assim, só que ele é da imprensa esportiva e nunca pode declarar seu amor pelo Palmeiras publicamente porque jornalista não pode ter time no Brasil. As pessoas são fanáticas e cobram muito isso. Apesar dos fiscais, sempre de olho, ele levava eu e meus irmãos sempre ao estádio para assistir aos jogos. Eu e meus irmãos somos palmeirenses como ele.

- Aqui também as pessoas são fanáticas. Mas como meu time nunca está entre os mais importantes, me deixam em paz.

- Vai querer pipoca e cerveja para a hora do jogo? - perguntou Clara.

- Não precisa querida... acho que comi demais... vou levar umas garrafas de vinho para nós...

- Vou levar então um pouco de pão, queijo e uma frutas. - disse Clara.

Clara preparou uma bandeja e subiu, enquanto Jack mexia nos controles do aquecedor para manter o quarto acima dos vinte graus para que Clara não se sentisse desconfortável.

Os dois subiram, tiraram as botas e as calças e sentaram-se sob o edredon... A bandeja com coisinhas para comerem estava colocada entre eles sobre a cama, as garrafas de vinho em um balde de gelo sobre a bandeja.

- Que tal está a temperatura? - perguntou Jack.

- Melhor... Você mexeu no aquecedor?

- Sim... aumentei um pouco a regulagem... Olha só a nossa clarabóia já está cheia de neve...

- Dá frio só de olhar lá pra fora, amor. Mas aqui tudo está quentinho. - sorriu Clara.

Jack ligou a TV e colocou no canal de esportes que anunciava que sua próxima atração era o jogo Wolverhampton Wanderers x Newcastle, ao vivo do Estádio Molineux, em Wolverhampton.

Assim que o jogo começou, Jack parecia ter mergulhado no estádio. Torcia e vibrava com cada jogada e o futebol era mais uma atividade em que ele se mostrava intenso.
Clara tentava concentrar-se também no jogo, mas sua cabeça estava longe. Ela pensava em tudo o que teria que fazer nas próximas semanas e depois de alguns minutos de jogo, levantou-se da cama e pegou seu notebook para tentar fazer um planejamento do terceiro e do quarto capítulo.

Ela buscou na internet por dados dos primeiros shows de Jack e fez uma linha do tempo com os nomes das bandas e formações de que participou. Naquele começo ele participava de uma porção de bandas, quase sempre como vocalista, embora ela tivesse visto que em uma ou duas, ele também aparecia como guitarrista.

No Youtube, ela encontrou algumas músicas desta fase. Baixou os vídeos, na verdade, coleções de slides acrescentadas às músicas e guardou-as no computador para consultar Jack sobre as gravações.

Continuou pesquisando e fez uma lista de pessoas que tocaram com ele nesta época, tentando associá-los aos nomes das bandas e estilo de repertório, quase sempre ligado ao blues, mas existiam algumas bandas em que ele cantava coisas mais viajantes, já que o movimento psicodélico crescia entre os jovens como ele, na Inglaterra da época.

Depois de tudo encaminhado, Clara desligou e guardou o computador sob a cama e voltou a assistir ao jogo. O primeiro tempo estava chegando ao fim e ninguém havia feito nenhum gol.

Ela então pegou uma taça de vinho e ofereceu outra para Jack. Ele pegou a taça, mas nem olhou para ela. O futebol era a única coisa que o absorvia tão completamente quanto a música. Para ela restava que o primeiro tempo terminasse e Jack lembrasse de sua existência.

Quando terminou o primeiro tempo, Jack levantou-se, foi ao banheiro, mas logo voltou...

- Oi amor... - disse Clara.

- Oi querida... Desculpe, estava vendo o jogo, essa defesa está um horror, espero que melhore no segundo tempo porque senão vamos acabar perdendo. Você estava dizendo...

- Nada, querido. Estava apenas organizando o material para o próximo capítulo. Depois do jogo a gente conversa. Tem uma lista de pessoas de suas antigas bandas que talvez eu possa entrevistar... o que você acha?

- Ótimo! Gostaria mesmo de saber por onde andam algumas pessoas daquela época... Acho que seria engraçado... - disse pegando pedaços de pão e queijo e improvisando um sandwiche. - Quer uma mordida?

Clara apenas sorriu e pegou um morango na bandeja...

Logo, o jogo reiniciava e ela colocava a bandeja em uma cadeira próxima da cama. Assim ela pode encaixar-se no braço do marido e deitar a cabeça em seu ombro. Estava em casa, de novo.

O time de Jack estava tendo uma atuação desastrosa e a cada nova ameaça de gol do adversário, ele escondia o rosto nos seios dela. Ela jamais admitiria isso, mas já estava torcendo pelo adversário, ao menos, para que continuasse aproximando-se do gol dos Wolves com perigo.

Um lance de sorte, quase no final do jogo e um dos atacantes do Wolves se viu cara a cara com o goleiro, marcando um gol. A torcida comemorou, mas a televisão repetiu várias vezes o lance e os comentaristas pareciam todos concordar que o árbitro havia errado, pois o jogador do Wolves estava impedido.

- Ai amor... se fosse eu, não daria esse gol! - disse Clara.

- Você está do lado de quem, Clara? Marcamos, o juiz deu, é gol... - respondeu Jack sorrindo.

- Mas estava impedido! - Clara riu e beijou Jack no rosto.

- Menininha... deixa terminar esse jogo que você vai ver... - Jack agarrou Clara e beijou seu pescoço, depois ficou segurando-a em seus braços e disse em tom ameaçador. - Vamos esperar só pelo apito final... e eu acabo com você. Você é uma agente infiltrada aqui na minha casa, não é?

- Estava impedido! - Clara ria tentando soltar-se de Jack.

- Não estava! - Jack gargalhava e fazia cócegas nela.

Assim que veio o apito final do jogo, os dois se engalfinharam em uma luta corporal que logo os levaria de volta ao clima sensual e romântico em que costumeiramente viviam desde que se encontraram pela primeira vez, em Nova York, há quase dois meses.

A tarde de domingo já estava terminando e da cama, os dois ouviram o barulho do carro de Lambert parando na frente da casa. Era o começo do fim daquele final de semana tão maravilhoso, em que os dois estiveram tão felizes, isolados do resto do mundo, no alto de sua montanha.

Levantaram, vestiram-se e foram conversar com Mona. Queriam que ela preparasse um jantar leve, com o salmão que ganharam de Jimmy Sitar e depois passaram a trabalhar na lista de músicos das antigas bandas de que Jack participou. Ele corrigiu, organizou a lista e depois pediu a Lambert os contatos de algumas pessoas que poderiam dar depoimentos a Clara nas próximas semanas.

- Vamos gravar alguma coisa para o livro, amor? - perguntou Clara para Jack quando ele voltou para o sofá do escritório de Lambert e sentou-se ao seu lado.

- Vamos. Onde está a câmera? - perguntou Jack.

- Fica onde você está, meu amor. Vou buscar... - disse Clara levantando-se e subindo as escadas até o quarto. Estava triste porque o final de semana estava terminando, mas decidiu concentrar-se no trabalho para tentar espantar a tristeza para longe.

Jack sentou-se segurando o notebook de Clara em suas mãos e voltou a conferir as informações que Clara já tinha colhido sobre aquele período de sua vida. Queria ver se conseguia lembrar-se de mais alguma coisa para ajudá-la.

Clara, por sua vez, estava agora no banheiro, lavando o rosto para evitar que Jack percebesse que tinha chorado novamente.

- Amor? Cadê você? - disse Jack entrando no quarto.

- Estou aqui, no banheiro. - respondeu Clara.

- Chorando de novo? - disse Jack abraçando-a - Oh, meu amor. Não fica triste, vou ficar o tempo todo grudado em você, você vai cansar de mim.

- Estou cansada de chorar, Jack. Queria tanto conseguir me concentrar no livro e te deixar trabalhar sossegado... Me sinto culpada, um fardo no teu caminho.

- Não, amor. De onde você tirou essa ideia? Vem aqui comigo, vem... - disse Jack puxando-a pela mão até o quarto e sentando-se na cama ao seu lado. - Olha, você é a única razão de eu conseguir trabalhar hoje. Quando você apareceu na minha vida, mudou tudo. Fico muito triste de te ver assim, porque você é a minha própria vida. Se você não quer que eu grave mais...

- Não, meu amor... - Clara chorava ainda mais. - Eu vou ficar bem... Sabe, acho que ainda tem um pouco daquela impressão do abandono em mim e toda vez que você se afasta isso me joga no chão. Vou ao médico na próxima semana, vou conversar com ele sobre essa choradeira e também sobre os meus outros probleminhas de saúde.

- Você vai sim... - respondeu Jack. - Quero que você se cuide porque teremos muito trabalho pela frente e preciso tanto de você agora que chega a me assustar.

- Eu vou melhorar, para você... - respondeu Clara secando as lágrimas e abraçando Jack. - Eu te adoro tanto, não quero te ver assim, triste, preocupado...

- Vai ficar tudo bem, meu amor. - disse Jack beijando-a na testa e abraçando-a. - Vamos descer agora e trabalhar no livro? O que você quer que eu te conte?

- Não, amor... depois do jantar a gente volta a trabalhar, ok? - respondeu Clara acariciando o rosto de Jack. - Obrigada por me aturar...

Continua

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