29 de nov de 2011

Rockstar - Capítulo L


Depois de muito olharem a internet atrás das tendências da estação, as três amigas desceram à sala de música onde encontraram seus maridos tocando velhos blues construídos ao redor da guitarra de David Mersey, da guitarra acústica de Michael Silver e da voz e gaita de Jack Noble.

Uma visão fascinante para Clara, que tinha conhecido aquele estilo musical depois de ouvir as versões dele feitas pelos Rolling Stones e pela Crossroads. Aquela música a atingia sempre em cheio, aquecendo seu coração e fazendo-a sentir uma estranha familiaridade. As três entraram na sala, serviram-se de vinho e sentaram-se ao redor para aproveitar o privilégio de estarem convivendo com aqueles músicos geniais.

Jack sorriu ao vê-las voltando e gesticulou chamando Clara para sentar-se ao seu lado. A música que se fazia naquela sala era suficientemente boa para encantar multidões, mas apenas ela, além dos três gênios musicais ali presentes, pareciam apreciá-la realmente. Suas amigas pareciam sentirem-se muito mais felizes em um lugar onde pudessem continuar discutindo botas e comprimentos das saias na próxima estação.

Sentada ao lado de Jack, Clara apenas fechava seus olhos e viajava nas histórias tristes de escravos do Velho Sul americano, perpetuadas através de canções que para ela, eram irresistíveis.

Os três músicos presentes eram verdadeiras enciclopédias daquele estilo e traziam de seus recheados baús, letras e melodias que nunca tinha ouvido antes e antigas referências suas como "Love in Vain" e "Cross Road Blues"; a música que deu nome à banda.

Aos poucos a sala foi esvaziando e ao amanhecer, apenas Clara permanecia por ali, servindo como testemunha do fervor quase religioso que aqueles músicos britânicos tinham por aquela música.

Quando decidiram parar, Clara e Jack subiram de mãos dadas as escadas até seu quarto, tiraram as roupas e deitaram-se, pegando no sono felizes, ainda com os ecos daquelas lindas melodias soando em seus ouvidos e ajudando o vinho que tinham ingerido a dar a sensação de que o mundo girava.

O dia amanheceu chuvoso e continuaria assim, mas tanto Jack como Clara acordaram sorrindo. Faltava pouco agora e logo estariam sozinhos em um de seus lugares favoritos no mundo, a suíte do piano, no sofisticado hotel George V, em Paris.

- Bom dia, minha amada... - sorriu Jack, com a cabeça ainda apoiada em seu travesseiro.

- Bom dia, querido. - respondeu Clara, levantando-se da cama e pegando seu robe de seda. - Está frio, não?

- Acho que está chovendo... - disse Jack também levantando-se. – Ouve o barulho?

- Não consigo ouvir querido, apenas o som do vento, balançando as folhas lá fora. - sorriu Clara caminhando até a janela. - Ah! Ainda não arrumei suas malas para hoje à noite... Quer que eu faça?

- Pode arrumar, querida... - disse Jack caminhando ao banheiro. – Não pegue muita coisa, é só um final de semana e estaremos nus durante a maior parte dele...

- Claro, meu amor... - riu Clara. - Vamos comprar roupas para você também... quero vê-lo brilhando nos vídeos que faremos na próxima semana...

- Sim, querida... Estarei brilhando, não por causa de roupas, mas porque você estará ao meu lado, não estará?

- Sempre, meu amor... Vou levar seu blaser e aquele seu casaco de couro preto... alguns suéteres de lã, duas ou três calças jeans, uma camisa branca, uma gravata, suas botas, meias e cuecas... esqueci alguma coisa?

- Coloca um boné e um óculos de sol grande também porque é bem possível que desta vez nos persigam... - disse Jack. - Você colocou disfarces em sua mala também?

- Não... - respondeu Clara. - Mas colocarei... não me lembrei dessa possibilidade, apenas pensava em quanto nos divertiríamos caminhando por Paris, comprando roupas novas para nós dois e buscando meu figurino para o clipe. Falando em figurinos, você estará usando o que?

- Não se preocupe, querida. - disse Jack. - A produção arrumará para mim um traje bem embaraçoso, uma fantasia completa de príncipe encantado...

- O mais lindo de todos... - sorriu Clara e beijou-o no rosto. - Vamos tomar nosso café?

- Sim... - sorriu Jack. - estou faminto... Vamos nos vestir que ainda tenho mais algumas horas de ensaio até podermos viajar. O tempo está ruim... é melhor ligar para alguma companhia aérea e fazer reserva para hoje à noite, não gosto de jatinhos com esse tempo.

- Deixe comigo, querido. - sorriu Clara. - Vamos a que horas?

- Entre sete e sete e meia... - respondeu Jack. - Acho que terminamos lá pelas 4, o que nos dá mais três horas até a partida do voo... estamos próximos do aeroporto e mesmo com o trânsito pesado, chegaremos a tempo.

- Ok! Farei nossa reserva pela internet logo após o café. – sorriu Clara. - fica tranquilo, amor. Também tenho medo de usar jatinhos com esse tempo...

Os dois desceram e encontraram seus amigos na sala de vidro, tomando café, enquanto observavam a chuva caindo no jardim.

- Bom dia, Princesa... - sorriu David ao vê-los aproximarem-se. – bom dia, Velhão...

- Olá David. - sorriu Jack. - Pronto para ir ao estúdio?

- Sempre! - riu David.

- Vocês não vão de jatinho com esse tempo, vão? - perguntou Cindy.

- De jeito nenhum... - sorriu Clara. - Podem revistar meu próprio espírito no aeroporto hoje, que irei em um bom e sólido voo de carreira.

- Querida, acho que não teremos maiores problemas hoje. - disse Jack. - O aeroporto estará lotado e não terão muito tempo para torturar-nos com suas bobagens... estaremos bem.

- Assim espero! - sorriu Clara. - Hum... estas panquecas estão muito boas hoje, não amor?

- Muito boas mesmo! – disse Jack. – Estou com uma fome daquelas.

- É, mas não coma muito porque quero tentar aquele lance que comentei com você ontem... – riu David. – Seu marido vai gemer naquele microfone hoje para fazermos uma vinheta que vai rodar no início dos shows, o que você acha disso Princesa?

- Não faça maldades com meu pobre Jack. Sabe que não aprovo essas coisas... – sorriu Clara. – Prefiro ouví-lo gemendo apenas para mim, em nosso quarto.

A sala de vidro irrompeu em gargalhadas diante da observação de Clara.

- Percebem? – riu Jack. – Ela manda em mim, se ela não quiser que eu fique gemendo nos microfones, obedecerei...

- Melhor para você, querido. – sorriu Clara. – Mas falando sério agora, gostaria de acompanhar essa gravação... posso?

- Claro, querida. – disse Jack. – Assim que terminarmos nosso café, descemos para o estúdio. Você fica lá, do meu lado e aí sim gemerei de verdade...

- Preciso apenas fazer a reserva de nossas passagens para Paris e já desço com vocês.

Clara terminou o café da manhã, puxou seu iPad e comprou duas passagens na primeira classe do voo da British Airways das 07:15 da noite, partindo do Aeroporto de Heathrow com destino ao Aeroporto Charles De Gaulle.

Jack já havia pedido que Khaled, o motorista que trabalhava para o escritório de Michael em Londres, os levasse até o aeroporto naquela tarde.

Clara desceu as escadas que levavam ao porão de Heathcliff Hall, passou pela adega e chegou ao estúdio, onde sentou-se em um sofá que ficava em um dos cantos da enorme sala de gravação. E enquanto os músicos se preparavam para gravar, Clara passava os olhos rapidamente pelos e-mails que havia recebido.

Um deles, enviado por Jonas, tinha um anexo que chamou sua atenção: "Clara, como vai? Tudo bem? Acho que você não tem acompanhado a mídia nos últimos dias, por isso te envio este artigo sobre uma nova biografia não autorizada do Crossroads.

Ainda não li o livro, mas pelo que tem saído na mídia, o material é incendiário... talvez seja interessante dar uma olhada nele. Foi escrito por um ex-roadie da banda chamado Joe Churnins. Ah! O livro se chama Burning Down Heart e tem um foco maior sobre o David Mersey, que segundo o artigo deveria ter sido responsabilizado pelo desaparecimento, em 1975, de uma garota americana de 17 anos, chamada Claire Hulster."

Clara ficou perturbada com a mensagem de Jonas e ainda mais com o artigo. Entrou em um site de venda de livros online, comprou o livro e baixou-o para seu iPad. Decidiu que não diria nada sobre ele a seus amigos por enquanto, mas que precisava conhecer seu conteúdo.

A banda já estava posicionada e a gravação estava prestes a começar. Ela então decidiu desligar o iPad e prestar atenção apenas no que estava acontecendo naquele estúdio. Tinha certeza de que aquele livro era só mais uma tentativa de faturar dinheiro fácil, em cima da fama da Crossroads.

Clara ajeitou-se na poltrona e concentrou-se em olhar para Jack. De olhos fechados, mergulhado na música, ele agora gravava uma de suas grandes especialidades, estabelecia um diálogo entre sua voz e a guitarra de David, com resultados, muitas vezes assustadores. Pela amostra, a tal vinheta seria mais uma razão para congelar o sangue dos fãs da banda que fossem aos shows, quanto à Clara, ela sentia um arrepio percorrendo sua coluna. A urgência daqueles gritos de Jack tirava Clara de seu equilíbrio e a levava a um outro lugar, uma realidade alternativa em que ela parecia escutar um grito de socorro de seu espírito.

- Cara! De onde veio isso? - perguntou David no microfone depois de parar a gravação. - Ficou perfeito!

- Não sei... - disse Jack. - Mas acho que ficou bom... é só colocar uns efeitos e temos nossa vinheta, no primeiro take! De nada, rapazes...

Clara ergueu-se do sofá e caminhou até Jack. Só ela notou que Jack chorava muito naquele instante. Parecia repentinamente envolvido por uma de suas ondas de tristeza, algo que não acontecia há algum tempo, mais precisamente desde que haviam descoberto os acontecimentos que os envolveram em uma vida anterior.

Ela o abraçou e sentiu uma pontada forte no meio de seu peito. Ela sabia que aquela dor vinha de Jack e ele chorava apoiado em seu ombro.

- O que houve? - perguntou David caminhando na direção dos dois.

Clara apenas gesticulou com as mãos para ele não se aproximar.

- O que foi, meu amor? - perguntou Clara, também chorando.

- Me perdoa... - disse Jack. - foi só uma impressão muito ruim... Já vou ficar bem...

- Querido, senti uma pontada muito forte no peito. - disse Clara. - Você tem certeza que está bem?

- Sim, meu amor.- respondeu Jack. - Já passou...

- Vem, vamos dar uma volta no jardim. - disse Clara. - Acho que você precisa respirar ar puro...

Clara deu a mão a Jack e subiu com ele as escadas do porão. Depois levou-o através da porta da sala de vidro até o jardim. A chuva tinha diminuido de intensidade e não chegava a incomodá-los naquele momento.

- O que houve, meu amor... - disse Clara. - Você pode dizer para mim...

- Foi algo estranho, uma sensação ruim. - disse Jack. - Já estou melhor, Menininha. Não precisa ficar preocupada. Nossos amigos ficarão preocupados, vamos voltar ao estúdio.

- Só quando sentir que você está realmente bem, querido. - sorriu Clara. - Esqueceu... você não consegue mentir para mim porque sinto exatamente aquilo que sente e meu peito ainda dói...

- Já foi, querida... já passou... mesmo... - disse Jack abraçando-a. - Vem, vamos para dentro ou ficaremos encharcados.

Clara caminhou com ele de volta à sala de vidro e os dois desceram no estúdio, onde tudo estava parado, esperando pelo seu retorno.

- Tudo bem, Velhão? - perguntou David aproximando-se de Jack ao vê-lo entrando. - Você estava chorando como uma garotinha...

- Está tudo bem... - disse Jack. - Sua mãe nunca me disse isso, quando ela me recebia em casa...

- Ah! Já está xingando a mãe... - sorriu Michael. - Suspende o médico, o Jack já está bem...

- Sério, cara... - disse David aproximando-se de Jack. - Está tudo bem mesmo?

- Está sim! - respondeu Jack colocando a mão no ombro de David. - Vamos terminar logo esse negócio... Quer outro take?

- Vamos fazer sim. - disse David.- Quero mais desses gemidos para colocar na vinheta. Quero fazer uns overdubs com esses gritinhos de moça que só você sabe dar...

Clara beijou Jack e foi sentar-se no sofá novamente. Ainda estava preocupada, mas resolveu acreditar no que ele dizia e assim, dar o espaço necessário para que completassem o trabalho. Se antes estava disposta a ler o livro que havia baixado e discutí-lo com Jack, agora havia decidido deixar para ler quando voltasse para Londres, na próxima semana.

Depois de terminar a gravação da vinheta, todos subiram até a sala de vidro para almoçar. Clara não tirava os olhos de Jack, tentando notar se a tal nuvem escura ainda estava em seu olhar.

E estava... Ali, mesmo entre as tantas gargalhadas agora provocadas por uma série de piadas de gosto duvidoso, estava uma enorme nuvem cor de chumbo, no antes límpido azul dos seus olhos.

- Querida, o Michael vai chegar em alguns minutos. - disse Jack, pegando Clara pela mão. - Quero que você participe da reunião porque ela também diz respeito à você.

- Reunião? Que reunião? - perguntou Clara.

- Desculpa, Princesa... - disse David. - mas parece que temos uma crise em desenvolvimento. O Michael me ligou avisando que precisamos conversar sobre um novo problema que temos, um ex-roadie que trabalhava para mim, escreveu um livro sobre a banda que aparentemente nos descreve como drogados assassinos. Pessoalmente, eu não dou a mínima, não é a primeira vez, nem será a última que farão uma biografia não autorizada, mas o Michael está bem incomodado e quer nossa autorização para tomar as medidas legais... Ele está em pânico porque temos aquelas entrevistas todas marcadas para depois da gravação dos videos.

- Que bom que vocês discutirão este assunto. - disse Clara. - Acabei de receber um e-mail do meu editor falando nele. Comprei uma versão eletrônica do livro pela internet e ele está no meu computador. Se vocês precisarem dar uma olhada...

- Você não ia me dizer nada sobre isso? - perguntou Jack.

- Ia sim, querido. - respondeu Clara. - Estava apenas esperando uma oportunidade para discutirmos esse problema. Me preocupei muito com isso, por causa das entrevistas, mas agora, pela postura do David, vejo que tudo ficará bem.

- Você acha que fizemos essas coisas que ele escreveu? - disse Jack.

- Eu não sei, Jack. - respondeu Clara, começando a ficar nervosa. - Eu não li o livro, apenas um artigo publicado no "The Guardian", que o Jonas me mandou. Pelo que o jornal diz, ele fez acusações muito graves...

- Mas o que sua intuição diz? - perguntou Jack. - Foi o David que deu sumiço na tal garota e me pediu para acobertá-lo com aquela história de hospedagem em Malibu?

- Meu amor, eu não sei... - respondeu Clara. - Como eu posso saber? Eu não tinha nem nascido em 1975... Nos conhecemos há quanto tempo? Dois meses? Como eu posso saber?

- A verdade, Princesa, é que o Jack me acobertou. Não sei o que aconteceu com a tal garota, eu estava tão drogado naquele dia que apaguei e não tenho como dizer nada sobre aquela semana inteira. O Johnson pediu para o Jack mentir sobre minha presença na casa da namorada dele, em Malibu e foi isso que ele fez. Eu sinceramente não sei o que aconteceu...

- E você sabe, Jack? - perguntou Clara olhando em seus olhos.

- Não, meu amor. - respondeu ele suavemente. - Estava em Malibu com essa garota há várias semanas. O Johnson pediu que eu e a garota disséssemos na polícia que o David estava conosco e foi o que dissemos. Você está decepcionada comigo?

- Claro que não, minha vida. - disse Clara pegando a mão de Jack. - Não tem nada que você diga que me faça te amar menos. Lembra?

Jack sorriu, pegou as mãos de Clara e beijou-as.

- Pronto! Agora podemos pensar no que faremos com a imprensa. - disse David. - O que você nos sugere, Princesa?

- Esse seu discurso é perfeito, David. - sorriu Clara.- Dizer que o escritor quer ganhar dinheiro às custas do retorno da banda e que os advogados da banda já estão cuidando disso.

- Mas eles irão pressionar, Clara. - disse Michael. - Você sabe como são esses repórteres...

- Sim, mas daí vocês dizem que não podem dizer nada, porque não leram o tal livro e apenas sabem o que viram sobre ele na imprensa... e pelo que viram, não tem nenhuma verdade no relato dele... é uma biografia não autorizada e mentirosa, como esses livros costumam ser e quem gosta da banda não deve comprar esse livro.

- Boa, Clara! - disse David. - Acho que é por aí mesmo... podemos dizer aos fãs para deixar esse idiota falando sozinho.

- Então estamos prontos para o urubu do Michael... - disse Jack. - Estava preocupado com isso, mas a minha Clara agora me tranquilizou.

- E depois tem um pequeno detalhe, quando o livro do Jack sair, todas essas bobagens desaparecem por completo. - disse Clara.

- Claro... - sorriu David. - O livro do Velhão... Princesa, mais uma vez, você vai salvar nossa pele. Quando o seu livro sair, ninguém mais lembrará da existência desse cara.

- Assim eu espero, David. - sorriu Clara.

A reunião com Michael aconteceu e o advogado disse que seu objetivo era não só o de retirar o livro do mercado como o de processar seu autor e sua editora por calúnia e difamação. E pediu a eles para não contar nada sobre os processos para a imprensa e também que adotassem a ideia de Clara, afirmando sempre que o livro era mentiroso e apelando aos fãs para deixar o autor falando sozinho.
Depois da reunião, Clara pegou seu notebook e pequisou um pouco sobre o assunto nas redes sociais e percebeu que já existia uma grande repercussão da história e publicou uma reação indignada em seu blog e seu twitter, pedindo aos fãs para ficarem longe do livro.

Claro que suas palavras provocaram mais uma avalanche de e-mails pedindo entrevistas e ela apenas escreveu uma declaração à imprensa reafirmando sua indignação e dizendo que conversaria com alguns repórteres, na próxima semana, durante as gravações dos videoclipes.

Enquanto ela trabalhava na sala de vidro, aproveitando os intervalos para simplesmente olhar a chuva caindo no jardim lá fora, a banda estava no estúdio, terminando a mixagem e checando seus resultados. O disco estava pronto, o primeiro trabalho da Crossroads, trinta anos após seu final já estava "na lata" e seria entregue à gravadora até o final da tarde.

Com a fortuna que a gravadora estava apostando naquele trabalho, ele não poderia simplesmente ser levado por algum mensageiro, ou enviado pela internet. Uma operação com couriers que normalmente transportam grandes valores foi contratada e no final da tarde, um carro forte com escolta armada chegava a porta de Heathcliff Hall.

O disco que continha a gravação foi entregue seguindo cada um dos protocolos de segurança a um homem vestindo um terno negro, que usava óculos escuros, mesmo sob a chuva. Toda a cena, renderia mais tarde muitas gargalhadas no quarto, quando Clara e Jack se vestiam para ir ao aeroporto.

Ainda seguindo o tal protocolo, uma segunda cópia foi para o cofre de Heathcliff Hall e uma terceira, foi enviada através da mesma equipe de segurança para o escritório de Michael, na City.

Com tudo resolvido, Jack e Clara ligaram para Khaled, desceram as escadas com sua bagagem e já estavam prontos para o final de semana romântico em Paris que tinham planejado.

- Princesa, então nos vemos novamente só lá no Leavesden, na terça-feira, certo? – sorriu David.

- Não.... – respondeu Clara. – Voltamos para cá na segunda, o Michael acha que aqui é mais perto para ir ao estúdio do que o Four Seasons.

- Isso é verdade, o estúdio fica perto do aeroporto. Era um conjunto de hangares antigamente... – disse David.

- Ficaremos por aqui no começo da semana e depois vamos para Londres. – disse Jack. – Parece também que nossa casa está quase pronta.

- A Cindy me disse que na próxima semana a parte de reforma estará concluída, daí é só colocar os móveis. – disse Jack sorrindo.

- Mas estas coisas demoram e precisamos também contratar empregados. – disse Clara. – Acho que não dará tempo de fazermos tudo antes da viagem ao Brasil.

- Dará sim... – disse Jack. – Vou mandar o Michael cuidar disso...

- Michael, amor? – interrompeu Clara. – Acho que nós dois deveríamos saber quem irá conviver conosco naquela casa.

- Não, querida... – disse Jack. – O Michael é o ideal para esse trabalho porque no momento em que os candidatos ao emprego nos reconhecem, as coisas começam a ficar estranhas. Podemos até escolher os currículos mais apropriados e posicionar uma câmera para assistir tudo, mas o Michael deve fazer as entrevistas, para não dar espaço para algum repórter disfarçado entrar na nossa casa.

- Você acha que tem gente capaz disso? – disse Clara. – Tentar empregar-se na casa para bisbilhotar nossa vida?

- Olha amor, já vi muita coisa estranha nesse mundo e te digo que tudo é possível. Não custa nada tomar alguns cuidados. – disse Jack.

- Isso é verdade, eu e a Cindy fizemos a mesma coisa. – disse David. – Os nossos empregados vieram de uma agência de absoluta confiança e mesmo assim, quem os contratou efetivamente foi o Michael, depois de faze-los assinar contratos de sigilo bastante rigorosos, que se quebrados, os colocará em apuros bem sérios.

- Nem me fale desses contratos. – sorriu Clara. – Ainda tenho um na minha pasta que é um calhamaço. Fiquei apavorada quando ele me entregou para assinar, lá em Nova York.

- Então... – disse Jack, rindo. – E já estávamos juntos e eu já estava apaixonado por você... imagina para quem só me conhece da mídia, o quanto o Michael pode funcionar como um bicho-papão.

- Tem razão, querido. – sorriu Clara.

- Amor, o Khaled já chegou, disse Jack olhando para uma mensagem que recebeu no celular. Ele já está entrando pelo portão. Vamos?

- Bem, Cindy, David... – sorriu Clara. – Mais uma vez. Obrigada por sua hospitalidade e por sua generosidade. Estes nossos dias aqui foram muito bons e espero em breve poder retribuir essa estadia tão agradável na nossa casa de Londres.

- Claro, querida! – disse Cindy. – Nós amamos vocês... sua casa está ficando linda. Vamos lá na semana que vem para começar a decoração. Tchau queridos, boa viagem.

- Velhão e Princesa... – sorriu David, beijando os dois no rosto. – Vocês moram no nosso coração... Obrigado por terem feito a minha vida valer a pena de novo.

- Tchau Michael, tchau Jenni... – sorriu Clara. – Nos vemos na segunda. Bom final de semana para vocês... Nós amamos muito todos vocês.

- Tchau Clara. – sorriu Jennifer. – diz para o Jean Paul que estarei em casa na próxima semana e vou ao atelier dele atualizar meu guarda-roupa.

A bagagem foi colocada no porta-malas e os dois entraram na Mercedes de Khaled. Já eram quase cinco e meia da tarde e, como era de se esperar, o trânsito para o aeroporto estava um caos.

Jack parecia mais tranquilo desde a reunião com Michael e agora, estava com a cabeça deitada no ombro de Clara aproveitando o trajeto para descansar um pouco. Ela, por sua vez, estava com seu iPad nas mãos, conferindo a repercussão das postagens que havia feito naquele dia e alegrou-se ao ver entre os fãs muitas mensagens de solidariedade e até mesmo alguns grupos organizando boicotes ao livro.

Como haviam calculado, o aeroporto estava lotado e isso incluia alguns repórteres e paparazzi. Khaled entrou junto com Jack e Clara e atuou como segurança, afastando os repórteres.

Os dois seguiram para uma fila que atendia apenas a primeira classe e para diminuir o tumulto, seu check-in foi feito rapidamente e Jack levou a mala deles como bagagem de mão enquanto Clara carregava uma bolsa grande que continha o restante das coisas que levariam. Deixaram em casa cremes e xampus para facilitar o embarque.

Um funcionário da companhia aérea acompanhou-os até a sala vip, mas antes agilizou a passagem dos dois pelos irritantes procedimentos de segurança. Com a atenção extra, logo Clara e Jack estavam na sala vip, aguardando a chamada de seu voo.

- Sabe, não sou muito a favor desses privilégios, mas acho que estaríamos lá embaixo, naquela fila interminável, se não fossem eles. - disse Clara.

- É, querida... - sorriu Jack. - Também sou contra, mas pelo menos estamos do lado certo deles.

Apesar da chuva também em Paris, o voo chegou rapidamente. e os dois pegaram um taxi até o hotel George V onde o gerente já os aguardava com a suite do piano pronta para o final de semana.

Eles subiram, entraram na suite e assim que o funcionário do hotel os deixou sozinhos, os dois encheram a banheira e tiraram as roupas, iriam descansar naquela noite chuvosa e aproveitariam a cidade no dia seguinte. Tinham marcado de passar no final da tarde no atelier de Jean Paul e antes disso, fariam algumas compras nos endereços indicados por Jennifer.

- Amor, agora que estamos sozinhos, será que você não pode me falar alguma coisa sobre essa história de garota desaparecida? - perguntou Clara, um pouco sem graça.

- Melhor eu te dizer tudo o que eu sei, então. - disse Jack com uma expressão na voz que Clara não conseguiu distinguir mas estava em algum lugar entre a tristeza e a irritação. - Você sabe que quando fomos fazer nossa terceira turnê pelos Estados Unidos, depois daquele episódio da revista geral no aeroporto de Austin, ficamos um pouco mais cuidadosos e decidimos que além de precisarmos de um avião próprio para nos deslocarmos, precisavamos também de um QG, para onde voltarmos após cada show. Assim, o Johnson alugou dois andares inteiros de um hotel de 4 estrelas na Sunset Boulevard que passou a ser a casa da banda durante aquela turnê.

- Engraçado... - disse Clara, massageando os cabelos de Jack com creme hidratante. - Mas na minha cabeça, esse cenário do hotel aconteceu antes, em 70 ou 71.

- Bom, esse cenário faz parte da lenda. - respondeu Jack. - Lá, roadies, fãs, traficantes, groupies, músicos de outras bandas e uma porção de pessoas que nós não sabíamos nem quem eram, circulavam entre nós. Não era muito raro ver gente dormindo nas portas dos nossos quartos, quando voltávamos de madrugada de algum show e ter que pedir para a segurança do hotel para expulsá-los, para termos como abrir a porta. O Michael foi o primeiro a achar que aquilo não estava certo para ele, começou a namorar com uma atriz que fazia pequenos papéis em Hollywood e logo se mudou para a casa dela em Santa Monica. O Don estava numa fase muito ruim e arrumava confusão quase todos os dias e o David, como ele mesmo te disse, tinha mergulhado em drogas pesadíssimas e nos intervalos entre os shows desaparecia de nossa vista, estava em uma viagem de "gênio solitário" e quando descobríamos em que quarto ele estava, ele mudava; fugindo especialmente do Don. Comecei a me cansar daquilo porque como eu era o mais sóbrio e o mais tranquilo de todos, acabava sendo eleito para resolver, dos quebra-quebras que o Don aprontava, aos socos no nariz que o David dava em repórteres bisbilhoteiros e também decidi que precisava de um refúgio.
Lembra daquela modelo chamada Laura Jones, que é mãe da Stephanie. Aquela garota loura que veio me procurar no hotel em Manchester e você achou que era uma groupie? Nós ficávamos juntos sempre que eu ía para os EUA e ela alugou uma casa em Malibu para passar o verão.

- Sei... - disse Clara. - A Cindy me disse que essa garota quase provocou seu divórcio...

- Tem razão... - sorriu Jack. - Quando ela soube que tivemos uma filha, ela ficou enlouquecida... Bom, mas o ponto é que naquele final de semana, eu estava em Malibu, o Michael em Santa Monica e só o Don e o David estavam no hotel com os roadies, o Johnson e todo aquele pessoal estranho. Tinhamos um show para fazer na Flórida, mas o aviso da passagem de um furacão, cancelou nossos planos e ficaríamos por lá a semana inteira, até o próximo show, em Chicago. Foi aí que aconteceu... a polícia invadiu o hotel a pedido dos pais de uma garota que todos disseram ser uma das groupies, mas que eu nunca vi por lá, entre as garotas que estavam sempre no hotel.
O Johnson fez uma operação rápida, colocou o David em um carro e o levou, desacordado mesmo para a casa em que eu estava com a Laura. Chegando lá, ele me disse: - Se alguém perguntar, o David veio para Malibu com vocês e nem ele nem você sabe quem é Claire Hulster...

- E você nunca soube o que aconteceu, de verdade? - disse Clara.

- Meu amor, eu estava com outros problemas para resolver naquele momento, a Laura me disse que estava grávida, eu tinha que ajudá-la sem que minha mulher descobrisse e aquela história toda, acabou me dando um álibi para dizer para a Mary. Eu tinha ido para a casa da tal da Laura a pedido do David, com quem estava trabalhando em uma música.

- E você então nem sabe quem era essa garota... - disse Clara.

- Não... Tinha uma porção delas lá no hotel, mas quando me mostraram fotos, não consegui me lembrar. - disse Jack. - Talvez ela nem tenha chegado em nós, os roadies, seguranças e todos aqueles que apareciam lá no hotel, usavam o nome da banda para conquistar essas menininhas mais ingênuas...

- Sabe o que eu estava aqui pensando? - sorriu Clara. - No quanto você é doce e adorável...

- Sou, é? - riu Jack. - E você é a minha ninfa, minha Rainha da Luz e principalmente, a mulher que me fez mais feliz neste mundo...

- Lindo! - disse Clara, beijando-o.

Os dois levantaram-se da banheira, secaram-se nas toalhas e foram para a cama. Estavam felizes porque estavam juntos e aquele passado estranho não importava mais.

- Estou com fome, meu amor... - disse Jack sorrindo. - Vamos pedir nosso jantar ao serviço de quarto?

- Seria bom, mas quem vai lá na sala de estar buscar aquele menu deles para escolhermos o que comer?

- Hum... está frio aqui para você, não Menininha?

- Sim, acho que precisamos regular um pouco aquele aquecedor. - disse Jack. - Deixa eu olhar aquele controle remoto que controla tudo aqui dentro...

Jack ligou o aquecedor e regulou-o para 20 graus e quando Clara começou a sentir-se mais confortável com a temperatura, ela levantou-se nua e foi até a sala. Jack foi logo atrás dela e sentou-se nu no banco do piano.

- Vem aqui, comigo... - disse ele. - Vamos escolher juntos... Este filé com batatas me parece muito bom, o que você acha?

- Ótimo! - disse Clara. - Vou pedir vinho e uma tábua de queijos e frutas e champagne para a sobremesa.

- Parece bom... - disse Jack. - Agora vem aqui no meu colo ligar para eles... e pede tudo em francês... é tão sexy...

- Jack, você não vale nada... - disse Clara sentando-se no colo dele e beijando-o.

Clara pediu que a comida fosse deixada na porta e dispensou o serviço de mordomo para aquela refeição. Assim ela e Jack poderiam ficar tranquilos, apenas namorando nos braços um do outro e jantar vestindo seus robes.

- Querido, acabei de ter uma ideia... - disse Clara. - Por que não investigamos nós mesmos o desaparecimento da tal garota? Eu quero dizer, pode ser que ela esteja viva por aí, cuidado de filhos e netos e se a acharmos, desmontaremos completamente o livro desse cara...

- Mas como fazer isso? Já faz muito tempo e se a policia não conseguiu achá-la, por que você acha que conseguiremos?

- Eu sou uma repórter ainda... Sei como pesquisar, podemos começar pela cidade de origem dela, procurar onde foi registrado o desaparecimento, os arquivos de jornais da época, buscar pistas, falar com os policiais que fizeram a investigação...

- Bom, se me lembro direito, ela era de Santa Barbara. Mas você acha que seria capaz de achá-la? Meu medo é a imprensa saber que você está pesquisando e resolver fazer mais sensacionalismo em cima disso.

- Podemos contratar um detetive particular... ou melhor, o Michael pode contratar... que tal?

- Genial! Assim não nos expomos e se essa mulher for achada, fazemos o maior barulho...

- E terminamos esta história para sempre. Tem mais uma coisa que precisamos terminar... o nosso livro. Estou preocupada porque o tempo está passando, logo vamos para a estrada e nem terminei o terceiro capítulo ainda.

- Claro, amor... Mas você não trouxe o notebook, como você vai escrever?

- Não vou, posso ao menos adiantar algumas entrevistas e colocar no texto quando chegarmos em Londres...

- Perfeito, amor... vamos fazer isso depois do jantar...

- Não, querido, hoje não! Tenho outros planos para esta noite...

- Hum... - sorriu Jack. - sou todo ouvidos...

- Bem, meu amado, vi na grade de programação da TV que um velho filme, da lista dos meus favoritos será exibido hoje à noite e então gostaria de convidá-lo para me acompanhar em uma noite de champagne, morangos e TV...

- Menininha, eu te acompanharia em uma noite de descascar batatas em um porão de navio...

- Lindo! Então vou ligar novamente para o serviço de quarto, pedir mais champagne e uma boa porção de morangos e chocolate.

- Só uma pergunta...

- Sim?

- Como é o nome desse filme?

- Chama-se Spellbound. É do diretor Alfred Hitchcock. Já assistiu?

- Hum... acho que não...

- Você vai adorar... é um filme fantástico...

- Você é fantástica, Menininha... - disse Jack sorrindo e agarrando-a... - Se você gosta, eu também vou gostar...

Os dois sentaram-se na cama e assistiram ao filme com atenção, um suspense intrincado, onde o romance entre uma psiquiatra e um homem que havia perdido a memória deixa a audiência intrigada até os últimos minutos de exibição.

- Querida, muito bom... - sorriu Jack quando o filme terminou. - Viu? Desta vez não dormi...

- Que bom que você gostou, amor...

- Você namorou com um psicanalista, não?

- Sim... já te disse isso, não te disse? Ele dava aulas na mesma universidade que minha mãe. Era bem mais velho do que eu e quando tive depressão, por causa do Roberto, ele passou a ser meu analista. Aprendi muito com ele...

- Imagino... - sorriu Jack.

- Não, querido... sério... ele é um grande pesquisador, tem vários livros escritos... um intelectual...

- Que não conseguiu resistir ao charme de uma paciente...

- Não, mas a impressão que tenho é que nunca foi uma relação analista-paciente, de verdade. Tivemos a primeira sessão de psicanálise e nos encontramos, por acaso, no lançamento de um livro de um outro professor da universidade. Conversamos e nos tornamos amigos e só depois, viramos amantes.

- Incrível!

- Incrível?

- É... fico imaginando como ele pode ter resistido a você? Como ele não te beijou logo na primeira sessão de análise?

- Nunca fui tudo isso, Jack... - sorriu Clara. - eu era uma repórter novata, chatinha, metida a intelectual, magricela, sem qualquer atrativo e ainda por cima passando por uma grande crise de depressão...

- Hum... e hoje é uma delícia... - disse Jack beijando-a e abrindo seu roupão. - Que me deixa louco...

Jack agora percorria cada centimetro de seu corpo com as mãos, fazendo-a tremer por dentro com cada movimento e o desejo desenfreado tomou conta de ambos até que tudo fosse expressado. Gemidos encheram a noite e quando o dia amanhecia em Paris, os dois ainda estavam agarrados um no outro, como se precisassem daquele contato para continuarem vivos.

A luz do sol batia pálida contra as cortinas, começando a iluminar o quarto, quando Jack levantou-se e caminhou nu até a varanda, esforçando-se para não fazer nenhum som. Levou com ele seu celular que usou para ligar para Michael e, enquanto discava, as lágrimas escorriam grossas de seus olhos.

A conversa não durou muito, logo ele estava um pouco mais calmo, sentado na cadeira do terraço. Depois da chuva do dia anterior, o sol voltava a tingir a paisagem de dourado.

Clara, na cama, ainda de olhos fechados, estendeu o braço e não encontrou Jack. Levantou-se, vestiu seu robe e caminhou até o terraço.

- Oi amor, já acordado? Está tudo bem?

- Tive um pesadelo, estava de novo perdido na névoa, na nossa montanha. - disse Jack puxando-a para sentar-se em seu colo. - Liguei para o Michael para pedir que ele contrate um detetive particular e ele gostou da ideia. Disse que vai para a América na semana que vem tratar disso.

- Ótimo! - sorriu Clara acariciando os cabelos de Jack. - Vamos aproveitar o sol para tomar nosso café com croissants de chocolate?

- Vamos... - sorriu Jack. - Estou com muita fome. Já podemos sair com os endereços na mão e de lá, tomar um taxi para irmos fazer nossas compras...

- Foi o que pensei, querido. Mas acho que não vamos...

- Por que? Viemos até aqui para isso.

- Acho que precisamos andar um pouco primeiro, no sol. Caminhar um pouco de mãos dadas e só depois retomar nossa agenda aqui...

- Não entendi...

- Estamos em Paris, amor... a agenda pode esperar... vamos ficar juntos, sentir o sol batendo no nosso rosto porque merecemos essa alegria. Depois compramos tudo e vamos até o atelier do Jean Paul... Agora, só penso em te fazer feliz...

- Ai, meu amor... - disse Jack abrindo o robe de Clara e beijando seu corpo.

E na manhã de sol parisiense, os dois passaram algumas horas juntos no banco do terraço, dividindo o prazer intenso que sentiam quando estavam juntos.

Tomaram banho, vestiram-se e foram tomar café da manhã em seu lugar favorito. Depois andaram um pouco pelo bairro e pegaram um taxi para irem a algumas lojas sofisticadas, onde Clara comprou roupas e acessórios para o outono que se aproximava.

Não usaram disfarces e foram recebidos com muita festa pelos endereços mais exclusivos da cidade. Clara também fez questão de comprar algumas coisas para Jack e na hora do almoço, eles já estavam desembarcando no George V com um grande número de sacolas de compras nas mãos.

- Será que tudo isso vai caber na nossa mala, Menininha? - riu Jack quando percebeu que elas tomavam uma boa parte da sala de estar.

- Acho que precisamos comprar uma mala maior. - sorriu Clara. - Ai amor... desculpe, mas acho que me empolguei...

- Não peça desculpas, querida! Podemos comprar outra mala de bordo e dividimos tudo entre as duas, quando voltarmos para Londres.

- Não tnha pensado nisso, amor... - sorriu Clara. - Acho que dará certo.

- Vamos almoçar? Peço serviço de quarto? - perguntou Jack. - Ou você quer aproveitar o sol e ir almoçar em Montmartre?

- Hum.. Montmartre! Vamos amor... deixa tudo aí. Vamos almoçar e depois compramos uma nova mala.

Pegaram um taxi e seguiram até a porta de seu restaurante favorito em Paris e pela primeira vez, não se preocuparam em usar disfarces. Foram muito bem recebidos pelo gerente do restaurante, que mesmo com a casa cheia, tratou-os como realeza.

- Meu amor, não sei se é por causa da fome que estou sentindo, mas esta lagosta está incrível... - sorriu Jack. - Eles se superaram desta vez.

- Como eu adoro este lugar... Estar aqui, com você, para mim, é como um sonho. Dá até uma dor no coração de saber que já estamos no outono e logo não poderemos mais vir aqui, porque estará muito frio.

- É mesmo, querida. O outono já começou. Não quero ver minha menininha sentindo frio. Você quer mais casacos?

- Não amor... acho que já comprei tudo o que queria. Para ser sincera, ainda não sei como embalarei tudo para levarmos para casa. - sorriu Clara. - Vamos comprar mais uma mala de bordo e colocamos tudo dentro dela. Estou com medo de termos dificuldade no aeroporto na volta para casa.

- Ah amor, não se preocupe. Se quiser compramos uma mala maior e despachamos. Se você quiser, mando embalar Paris inteira para você levar para casa...

- Ai, meu querido... Não precisa. Acho que já compramos o suficiente para mim. Agora quero comprar algumas coisinhas para você. Quero te ver lindo sempre. Vamos comprar roupas para os shows?

- Nunca me preocupei com isso, menininha... usava qualquer coisa para subir no palco.

- Mesmo, meu amor? Eu sempre gostei muito do jeito que você se veste no palco. Até aquelas calças super apertadas... Aliás, principalmente elas.

Jack piscou para ela e deu uma deliciosa gargalhada. - Menininha, você também? Todos falam das tais calças, mas era só uma coisa que as pessoas usavam naquela época...

- Mas você ficava maravilhoso com elas... - sorriu Clara. - Delicioso, para ser mais exata...

- Menininha... depois você reclama... não provoca, ou essa conversa vai continuar no banheiro do restaurante e vamos acabar expulsos daqui por indecência...

- Não, vida... isso não pode acontecer... eu amo esse lugar... E o monsieur Martouk é um querido, não podemos fazer isso com ele.

- Mas eu vou precisar de uma compensação por isso... Vamos voltar para nossa suíte?

- Precisamos ir ao atelier do Jean Paul, pegar as roupas ainda, querido... Mas vou compensá-lo mais tarde... aliás, eu vou te mimar mesmo que você não queira...

- Hum, não vejo a hora... Você é minha casa... posso te contar um segredo?

- Sempre...

- Nunca fui exatamente louco por esta cidade. Até falo um pouco de francês, mas muito mais porque gostava de conversar com o pessoal de New Orleans, do que por vir até aqui. Aliás nunca vi nada aqui; até que começamos a vir juntos. Quando vi seus olhinhos brilhando por este lugar, de repente, foi como se o visse novamente e agora estou apaixonado... Vamos comprar um apartamento aqui?

- Ai, meu amor. - sorriu Clara. - Você é adorável... Acho que não precisamos ainda de um apartamento aqui. Temos nossa montanha e logo teremos nossa casa em Londres... aqui... temos o George V e a casa do Mike...

- Para ser sincero, você é minha casa. Moro entre essas perninhas finas... Mas já que estamos apaixonados por este lugar, podemos comprar um refúgio nosso aqui...

- Você é lindo, sabia? - sorriu Clara. - Vem, vamos andar um pouco por aí... quero te dar um presente, antes de irmos ao Jean Paul.

Jack pagou a conta e os dois sairam caminhando de mãos dadas pelo bairro. O dia de sol tinha enchido Montmartre de turistas, alguns os reconheciam e pediam fotos e autógrafos, mas eles continuavam passeando tranquilos, entrando em pequenas lojas e barracas de uma feira de antiguidades e artesanato.

Em uma delas, Jack encontrou um grande número de discos de vinil e os dois passariam um bom tempo procurando entre eles a música que gostavam. Clara encontrou um vinil de Barbra Streisand e mostrou-o a Jack.

- Amor, tem uma música nesse disco, que eu gostaria de regravar, se você e o Dave levarem mesmo adiante essa loucura de eu gravar um disco...

- Claro, querida... Não conheço bem a obra dela, mas podemos ir atrás... Vamos comprar esse disco?

- Não precisa, querido. Tenho um em meu apartamento no Brasil. A música é esta aqui "Why Let it Go"; aliás, este disco é tão lindo, tão romântico... Tem muitas coisas aqui que eu queria cantar para você, mas sei que não tenho capacidade vocal para isso...

- Podemos estudar isso... adaptar os arranjos para sua voz, meu amor. Mas acho que você merece uma safra nova de músicas feitas especialmente para você. Você é minha estrela...

- Meu sonho agora é estar a altura do que você pensa de mim... Eu mesma, não sei nem se vou conseguir subir no palco com vocês...

- Vai sim... e vai deixar o mundo boquiaberto quando o fizer...

Os dois continuaram a caminhar na feira e Clara encontrou em uma das barracas, um anel de prata masculino, com uma linda granada retângular, de uma cor vermelho escuro, que vista de uma distância maior aparentava ser preta. Ela colocou na mão esquerda de Jack, no dedo mínimo e comprou-o.

- Que lindo, amor... Obrigado! - disse Jack diante da jóia, que ficou perfeita em sua mão.

Clara pagou pelo anel e comprou, na mesma barraca, um pequeno japamala no formato de uma pulseira, com contas de jade. Deu-o de presente a Jack.

- Querido... vou consagrar esse japamala para a Deusa, na próxima noite de lua cheia, sei fazer isso e ele passará a te dar proteção... quero que você o use o tempo todo em seu pulso, depois que eu consagrá-lo...

- Obrigado, meu amor... - sorriu Jack. - Você não estava brincando quando disse que ia me mimar hoje...

- Nem comecei, querido...

Eles continuaram andando e tiveram uma grata surpresa, mais adiante, no pequeno atelier de um pintor, viram na vitrine um quadro pintado a partir de uma foto de Jack, feita durante um show na década de 70.

- Olha, amor... é você... que lindo!

- Queria ser assim ainda, amor... só para te deixar mais feliz.

- E quem disse que não sou feliz com sua versão atual?

- Eu sei que estou um caco... quer comparar com isso?

- Caco? - Clara aproximou-se mais dele e sussurrou em seu ouvido. - Você está mais sexy do que nunca...

- Menininha... Vem aqui, vem.... - disse Jack, puxando-a para mais perto e beijando-a.

Os dois entraram no atelier, compraram o quadro e pediram ao lojista para despachá-lo para o endereço deles em Londres.

- Hum, queria estar voltando para o hotel agora... Mas temos que ir no Jean Paul. - disse Clara suspirando.

Jack e Clara pegaram um taxi e foram até o atelier de Jean Paul. No caminho a conversa voltou a ser sobre o futuro disco de Clara e ela começava a sentir-se pela primeira vez, mais calma com a ideia que antes simplesmente a apavorava.

- Jean Paul, querido... como vai? - disse Clara ao encontrar o figurinista na porta do atelier, esperando por eles.

- Olá querida... nossa, que chique... o casal mais badalado do mundo, no meu atelier... Viram a capa da People?

- Ainda não... - sorriu Jack. - Como vai, Jean Paul?

- Vamos lá dentro que mostro para vocês. - sorriu o figurinista ao ser beijado no rosto por Jack e por Clara.

Os dois seguiram Jean Paul até seu escritório, onde ele entregou uma revista nas mãos de Clara. Na capa, uma foto dos dois na porta do restaurante Cinq com a manchete: "O poder do amor - Conheça melhor a escritora brasileira que conseguiu a maior vitória da indústria musical nas últimas décadas"

- Querida, olha só como você está linda nesta foto... - disse Jack.

- Meu Deus! Mas... como? Não dei entrevista para ninguém...

- Não é entrevista, querida. - disse Jean Paul. - É uma espécie de perfil seu, com uma porção de fotos e a história da Crossroads e do contrato do novo disco.

- É boa publicidade... o Michael te deve um presente... - sorriu Jack.

- Sim... eu te devo um presente também, querida. - sorriu Jean Paul. - Hoje é o dia da folga da minha secretária e tive que deixar o fone fora do gancho para conseguir falar com vocês. Passei o dia atendendo telefonemas da América... todas querem se parecer com você...

Clara não tinha o que responder, estava confusa, não sabia se ficava empolgada com aquela atenção toda daquela revista tão importante ou se ficava triste por sentir que estava roubando atenção do que era mais importante, a volta da Crossroads.

- Querido, será que isso é mesmo bom para a banda? - perguntou Clara.

- Claro que é, meu amor... - sorriu Jack. - Além disso, é a verdade... se não fosse por você, não existiria mais Crossroads...

Aquela frase de Jack serviu para aumentar o desconforto de Clara com a situação. Afinal, ela já se sentia culpada por ter feito Jack mudar de opinião e aquela matéria amplificava ainda mais o que sentia. Desde o primeiro momento, ela temia estar prejudicando Jack de alguma forma e a revista apenas a lembrou disso.

Jean Paul interrompeu por instantes as aflições de Clara... - Querida, quero te dar mesmo um presente... - disse, entregando a ela uma grande caixa.

- Para mim?

- Sim, querida! Como um agradecimento pela sua gentileza comigo e por ter mudado completamente o rumo de minha vida. Você já é uma estrela e minha cliente mais chique!

Clara abriu a caixa e dentro dela, um deslumbrante vestido de veludo preto, tomara que caia, feito especialmente para ela pelo estilista.

- Que lindo! Jean Paul... obrigada! Este vestido é maravilhoso!!! Olha amor...

- Meu amor... vai lá experimentar... você vai ficar linda nele... Quero te levar a algum lugar lindo e luxuoso, só para você usá-lo...

Clara pegou o vestido e entrou atrás do biombo, para experimentá-lo.

- Você a ama muito, não? - sorriu Jean Paul, visivelmente comovido com o amor dos dois, que naquela tarde transbordava e atingia todos ao redor...

- Muito mais do que ela imagina, Jean Paul... - sorriu Jack, secando os olhos. - Não tenho nem palavras para dizer o que sinto por esta mulher. Ela é a minha vida...

- O amor de vocês é comovente... Quando li essa matéria que saiu na revista, até chorei. Há muito tempo não se vê uma história de amor interessando tanto as pessoas, como a de vocês; o mundo anda muito cínico e é bom que as pessoas percebam que isto não está certo...

- Tem razão, Jean Paul. Além disso, ela é encantadora, não é?

- Muito... Vocês dois têm muito carisma. Quando entram juntos em um lugar, parece que alguém acendeu a luz... Não podia ser diferente.

Quando Clara saiu detrás do biombo usando o vestido, Jack e Jean Paul sorriram...

- Que linda, meu amor... - disse Jack. - Você está parecendo uma rainha com este vestido...

- Sim, Jack! Ela está deslumbrante...

- Gostei muito, Jean Paul! Estou me sentindo maravilhosa nele... Obrigada, querido! Vou me trocar agora para conversarmos sobre os figurinos do show.

Jean Paul trouxe todos os figurinos e Clara experimentou-os um por um. Também provou os sapatos e depois de prová-los, todos foram embalados em caixas luxuosas; que também precisavam ser levadas com eles para Londres.

- Querido, acho que apenas mais uma mala de bordo, não será suficiente... - sorriu Clara após vestir novamente suas roupas.

- Vamos comprar então uma mala grande e uma mala de bordo. Despachamos a grande e levamos conosco as duas de bordo...

- Mas se posso aconselhar uma coisa a vocês é procurar dividir o máximo que puderem entre estas malas de mão, porque as companhias aéreas vivem perdendo malas... não despachem nada de importante... Será que não preferem que eu mande o figurino por courier?

- Querido, você faria isso? Acabamos de comprar um quadro, em um atelier em Montmartre e pedimos que ele fosse entregue em nossa casa. - disse Clara. - Tenho também uma aflição danada de despachar malas no aeroporto.

- Não amor... não precisa... quer saber? Vamos de jatinho particular e levamos tudo conosco sem maiores problemas... Não precisamos quebrar a cabeça...

- Ótimo! Mas acho que precisamos comprar malas de qualquer jeito, não? Querido... me desculpa, não achei que o volume de coisas fosse ser tão grande...

- Não precisa pedir desculpas, amor. Você é uma estrela e merece cada mimo que eu puder te dar...

- Lindo! - sorriu Clara.

Jean Paul ajudou Jack e Clara a levar as caixas até o taxi e os dois precisaram da ajuda de um dos carregadores do hotel para levar tudo à sua suite.

Já estava anoitecendo quando voltaram ao hotel, mesmo assim, eles arriscaram caminhar até uma área próxima do hotel que tinha algumas lojas luxuosas para tentar comprar as malas que necessitavam.

E conseguiram. Compraram duas malas, uma pequena, dentro do padrão que era permitido levar a bordo nos aviões de carreira e outra grande, do tipo que as companhias aéreas só costumam aceitar se for no porão.

Chegando no hotel, Clara conseguiu dividir todas as suas compras entre as duas malas e deixou tudo embalado e pronto para a partida dos dois no dia seguinte, à tarde.

- Bom, agora que está tudo embaladinho... vamos sair para jantar? Quer ir ao Cinq? - perguntou Jack.

- Estava pensando em jantar aqui mesmo... acho que me cansei, amor... queria comer alguma coisa, sem necessariamente estar vestida...

- Hum... acho que você tem planos bem melhores que os meus... vou ligar para o serviço de quarto, então...

- É assim, que se fala, amor... pede champagne e morangos para mais tarde?

- Claro, amor... Vamos escolher um jantar para nós... cadê aquele menu?

- Está aqui! - disse Clara trazendo o menu para Jack e sentando-se no colo dele para olharem juntos.

Escolheram salmão grelhado com legumes e salada verde de acompanhamento e pediram também vinho e uma porção de pães, queijos e frutas.

Mais uma vez, pediram que a refeição fosse deixada na porta do quarto e enquanto esperavam por ela, tomaram um banho e vestiram seus robes.

Jantaram e foram deitar-se, assistiram um pouco de TV e pegaram no sono, cansados do ritmo intenso de suas vidas nos últimos dias.

Clara levantou-se, estava em seu apartamento no Brasil passando uns dias, enquanto Jack estava na estrada com a Crossroads. O dia de verão que fazia lá fora deixou-a com vontade de dar um passeio e antes mesmo de comer, ela pegou a bicicleta e desceu com ela e sua câmera. Estava feliz, tinha passado a noite conversando com Jack pelo telefone e embarcaria naquela mesma noite para encontrá-lo em Nova York.

O sol deixava o parque brilhando e naquela manhã, Clara sentia-se nas nuvens. Encostou a bicicleta sob um árvore centenária e passou a fotografar um bando de periquitos que fazia um enorme estardalhaço em seus galhos.

- Bom dia, Clara - disse Roberto aproximando-se dela.

- Bom dia. - sorriu Clara. - Não sabia que você estava aqui no Brasil.

- Vim aqui para falar com você...

- Mesmo? O que você quer?

- Acabar com minha dor. - respondeu Roberto puxando uma faca e cravando-a no peito de Clara.

Neste instante, Clara acordou de um salto, chorando e acordou Jack quando o fez.

- Amor, o que foi? - disse Jack ao vê-la perturbada.

- Nada, amor... - disse tentando controlar-se. - Foi só um pesadelo, me desculpa ter te acordado.

- Não querida... você está tremendo... vem aqui... - disse Jack abraçando-a. - Quer água?

- Estou bem, amor... - disse Clara, levantando-se e caminhando até o banheiro. - Foi só um pesadelo.

Clara não conseguia controlar-se, estava em pânico. Chorava e tentava lavar as lágrimas do rosto na pia, suas mãos tremiam e ela não parava de ver os olhos de Roberto e o brilho do metal da faca em suas mãos.

- Amor, você está bem? - perguntou Jack preocupado ao chegar no banheiro. - O que foi?

- Jack, me abraça... - disse ela tremendo. - Sonhei que estava no parque perto do meu apartamento, no Brasil e o Roberto me chamou e me esfaqueou...

- Meu amor! - Jack abraçou-a. - Agora estou com medo... Não quero mais vê-la sozinha, vou pedir ao Michael para providenciar segurança para você. Ele não chegará nunca mais perto de você...

Continua

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