30 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXV


O sol já estava alto quando Clara acordou, ainda de olhos fechados estendeu o braço na cama e percebeu que Jack já estava de pé.

- Jack?

- Bom dia amor. – ele respondeu do banheiro – pronta para voltar para casa?

- Bom dia. A que horas é o vôo para Londres mesmo?

- Às duas, vamos ficar no hotel de Londres até sexta. De lá vamos para Liverpool e depois para Dublin, onde eu farei meus dois últimos shows da turnê.

- Que bom, amor! Mas por que no hotel? Você não vai trabalhar com o David?

- Não nesta semana. Quero que você me ajude numa coisa, mas só vou te contar quando a gente chegar lá.

- Está bom.. eu acho... – Clara respondeu sem ter a mínima ideia sobre o que Jack falava.

Jack riu e voltou para o quarto, onde ela já recolhia as roupas espalhadas para refazer as malas.

- Desculpa amor, mas vou te deixar curiosa por enquanto. Antes de te contar ainda são necessários alguns acertos. – disse ele agarrando-a de repente e fazendo-a derrubar as roupas que havia acabado de recolher de uma cadeira.

- Jack! Preciso arrumar as malas, seu maluco!

- E eu preciso te beijar e beijar e beijar.

Clara tentou empurrá-lo para longe, mas não conseguiu resistir por muito tempo e os dois mais uma vez se entregaram ao que sentiam um pelo outro.

- Jack... Precisamos ir, me ajuda a arrumar as malas, vamos...

- Malas são minha especialidade, amor. Não se preocupe, eu arrumo tudo rapidinho.

- Vou tomar um banho, então. As roupas que vestirei estão aqui separadas, o resto você recolhe tudo.

- Hoje nem precisa se preocupar muito com isso, porque nosso voo é de jato particular.

Clara tomou banho rapidamente e já veio do banheiro com as nécessaires dos dois prontas para irem para as malas e as encontrou praticamente arrumadas. Quem olhava para Jack não imaginava, mas ele tinha uma grande capacidade de organização.

- Nós não vamos almoçar aqui, hoje, vamos? – perguntou Clara.

- Acho que não há tempo para isso, já liguei pedindo para eles fecharem a conta e assim que você estiver pronta, estamos saindo. Você está com fome?

- Não estou. É só para eu saber. – disse Clara terminando de calçar as botas.

- Falta agora só dar uma geral na minha bolsa de mão, parece que está tudo aqui, celular, carteira, notebook, jóias, passaporte.

- Então vamos?

O celular de Jack tocou, era David perguntando se já estavam saindo e dizendo que já estavam na porta do elevador.

Clara então chamou o funcionário do hotel para ajudar a levar as malas até o estacionamento e ela e Jack saíram do quarto juntos e encontraram com David e Cindy ainda esperando o elevador.

- Todo mundo pronto?

- Sim! Nos complicamos um pouco porque a moça aqui comprou Paris inteira. – disse Jack rindo.

- Tadinha Jack, comprou tão pouquinho... – disse Cindy.

- Estou brincando! Minha princesa pode comprar tudo que quiser! Sempre que quiser. – disse Jack, beijando-a na testa. – Cadê o Mike?

- Já foi! Precisava chegar mais cedo porque tinha um compromisso em Londres hoje. A equipe foi com ele. Sobramos só nós, velhão!

O elevador chegou e os quatro desceram para o saguão do hotel. Clara e Cindy foram sentar-se nos sofás do saguão, enquanto Jack e David faziam o check out.

- Não te contei ainda, mas o Jagger veio dar em cima de mim ontem, fugi correndo dele.

- Cuidado com ele, vai pegar no seu pé de agora em diante. Não deixa. – disse Cindy com ar de preocupação.

- Mas ele não ousaria ir ao meu casamento para fazer isso, iria?

- Ele é capaz de qualquer coisa, amiga. Procura ficar longe, você fez bem de correr dele.

- Correr do que? – perguntou Jack que já se aproximava delas.

- De um jornalista brasileiro que ficou atrás de mim no camarote do show ontem. – mentiu rapidamente Clara.

- Você precisa de um novo celular para que estas pessoas não possam te achar mais. Vamos comprar um ainda hoje. – disse Jack.

Os quatro saíram pela porta principal do hotel e entraram nas limusines que os esperavam. Foram direto para a pista do aeroporto, onde embarcaram em um jato particular para Londres.

Normalmente Clara tinha medo daquele tipo de avião, mas naquele dia apreciou a descomplicação que ele significava; sem filas, sem revistas, sem detectores de metal e todas aquelas bobagens.

O avião era particular, mas tinha um serviço de bordo luxuoso e os quatro almoçaram risoto de camarão e salada de lagostas.

Na sobremesa uma deliciosa torta doce com sorvete e claro, muito champagne. Além da ausência de exigências aquele tipo de vôo era ótimo pela privacidade. Estavam tranquilos lá dentro, podiam conversar a vontade, sem ninguém os observando, nem pedindo fotos ou autógrafos.

- Não é esse o tipo de avião que vai ser usado na tournê, é? - Clara perguntou para David.

- Não... Vai ser um boeing grande, tipo o Air Force One. Eu também não gosto destes jatinhos. – respondeu David

- Ufa! Acho que ninguém gosta! – disse Cindy.

- Hoje era o que tinha disponível, mas para a turnê tudo estará no contrato. Avião com camas para a gente dormir e tudo. – sorriu Jack.

Embora pequeno, o avião tinha uma comissária de bordo que agora viajava quieta em uma poltrona no fundo, permitindo que eles tivessem privacidade.

Mas assim que ela recolheu as bandejas do almoço, o comandante já avisou que estava iniciando o pouso no aeroporto de Heathrow. Estavam chegando em casa.

O avião manobrou e seguiu para um dos hangares, onde eles desceram, subiram em seus carros com motoristas e partiram cada um para seu lado, David e Cindy a caminho de Heathcliff Hall e Jack e Clara de volta ao Four Seasons Over the Park.

- Jack, você vai me achar maluca se te disser uma coisa?

- Não sei, você ainda não me disse. – respondeu rindo.

- Sério, Jack! Mas pela primeira vez, quando o avião pousou aqui, hoje. Me senti em casa. Estou muito maluca?

- Não amor! Você está certa, você está em casa aqui e eu fico muito feliz que você sinta isso porque essa é a verdade. Para mim, você é minha casa, aqui, entre esses dois bracinhos magricelas.

- Vem aqui para eles, lindo. – disse ela puxando Jack para mais perto de seu corpo e deitando sua cabeça em seus seios.

- Hoje nós vamos comprar um iPhone para você e mais o que você quiser; fala para mim o que você quer.

- Você, só você! – respondeu Clara acariciando os cabelos de Jack.

- Você já me tem. – disse Jack beijando-a.

O carro encostou na porta do hotel e rapidamente Clara e Jack desceram e entraram no saguão. O gerente logo veio conversar com eles e entregou em suas mãos os cartões-chave.

Os dois subiram para a suíte triplex que na cabeça de Clara já tinha uma cara de lar. Guardaram as roupas no closet e logo estavam livres para fazer o que quisessem.

- Vamos caminhar aqui perto, tem algumas lojas em uma travessa desta rua em que nós estamos aqui para cima; vem, estou louco para te livrar deste celular velho.

- Será que não teremos problemas para andar a pé?

- Não. Conheço muito bem este bairro e nunca tive problema nenhum por aqui.

Os dois desceram de elevador e subiram a rua juntos a pé, de mãos dadas. Atravessaram uma rua e seguiram até o próximo quarteirão, entrando na próxima travessa. Clara estranhou porque não viu nenhum estabelecimento comercial por ali, mas continuou acompanhando Jack e caminhando por aquela bela rua arborizada, com casas que se pareciam muito com as do filho e da irmã de Jack.

Até que ele parou na frente de um portão muito alto, quase no final da rua e o portão se abriu. Clara queria apressar o passo com medo de que um carro saísse de lá, mas Jack parou bem no meio da calçada.

- Jack vem, vamos acabar sendo atropelados aqui.

- Acho que não, Clara. Vem comigo, vamos dar uma olhada no que tem atrás desse portão?

- Está maluco? Vai invadir essa casa?

- Acho que nós vamos, vem. – disse puxando-a pela mão – Acho que não tem ninguém aqui.

- Mas e se tiver? Segurança? Cachorro? Ah Jack, não faz isso não. A gente vai parar na capa de todos os tablóides amanhã.

- Olha só que casa linda... Você gosta? – perguntou Jack enquanto apontava para a casa mais bonita que Clara já havia visto. Era uma típica mansão inglesa e ficava no meio de um belíssimo e perfumado jardim.

Jack continuava puxando-a pela mão e eles seguiram andando ao redor da casa e encontraram uma bela piscina, no meio de um jardim que só podia ser descrito como paradisíaco.

Canteiros de rosas e um incrível caramanchão todo florido deixaram Clara boquiaberta e ao mesmo tempo com muito medo; tudo o que ela esperava ouvir naquele momento era a sirene dos carros da polícia chegando para levá-los.

- Vem Clara, a porta de trás está aberta. Vamos ver como é lá dentro.

- Não. Jack não podemos invadir a casa dos outros, é perigoso.

- Vem, não tem ninguém aqui... vem meu amor...

Eles subiram e entraram pela porta dos fundos que estava aberta, Clara estranhou que a casa estava completamente vazia, mas no meio de uma enorme sala de estar tinha uma pequena caixa de presente.

- Jack! O que é isso?

- Abre querida!

Clara chorava muito agora, tinha começado a entender o interesse de Jack pela casa, ele tinha comprado aquela mansão e dentro da tal caixa havia pétalas de flores e no meio delas uma caixa menor, no formato de coração, que tinha um cartão escrito com a letra de Jack, “Bem vinda a nossa casa, meu amor!” e um molho de chaves.

Ela se levantou do chão onde estava ajoelhada e beijou Jack: - Ai meu amor! Esta casa é linda!

- Comprei para a gente, amor!

- Mas quando isso aconteceu? Você nunca saiu do meu lado.

- Eu mandei o Michael comprar assim que você aceitou se casar comigo. Já estava de olho nela há algum tempo e mandei-o deixar tudo pronto aqui para quando nós chegássemos. Vamos contratar um decorador que vai mobiliá-la de acordo ou se você quiser, podemos reformá-la inteirinha e colocar o teto no chão e o chão no teto!

- Isso parece um sonho! Se for, não quero nunca mais acordar!

- Vem amor... Vamos ver nosso quarto!

- Hum! Claro... Quero ver toda a casa! Que linda, meu amor, nunca imaginei algo assim.

Os dois subiram para o segundo andar e seguiram por um longo corredor até uma porta dupla, a única deste tipo no corredor, que Jack abriu. Atrás da porta, uma enorme suíte com piso de madeira, uma grande lareira em uma das paredes, grandes janelas que se abrem em um terraço e atrás de uma das portas um grande banheiro de mármore com uma moderna banheira de hidromassagem. No meio da banheira, um balde com gelo, uma garrafa de champagne e duas taças.

- Você pensou mesmo em tudo, senhor Noble!

- Precisamos inaugurar esta casa e que lugar melhor para isto do que esta linda banheira?

- Hum! Tudo planejado! Vejo a banheira, o champagne, mas o senhor esqueceu dos sais de banho!

- Não esqueci não! - disse Jack tirando três frascos do bolso, um com óleo essencial, outro com sais de banho e o terceiro com o creme hidratante que Clara costumava usar para massageá-lo. - Nunca esqueço de nada...

- Só as letras de suas músicas, então... - riu Clara.

- Hum... Uma estocada em cheio no meu coração! Doeu! Você vai ter que dar muitos beijinhos agora para passar. - respondeu Jack abrindo sua camisa e apontando para seu peito. Aqui, bem aqui...

E os dois passaram algumas horas de puro prazer na banheira da casa completamente vazia. Ainda maior do que a sensação de prazer e relaxamento, no coração de Clara uma represa de puro amor acabava de se romper e invadia tudo e agora ela sentia que o próprio universo se transformava em uma onda de sentimento intenso, algo muito maior do que simplesmente aquilo que estava acontecendo entre ela e aquele homem que estava ao seu lado.

- Sabe o que eu estou sentindo agora? - Clara disse para Jack.

- Será que é o mesmo que eu? - Jack respondeu - Uma fome de leão?

- Exatamente! Viu? Não somos só corpos que se encaixam perfeitamente... somos também mentes em sintonia. - disse Clara sorrindo.

- Ok! Vamos ao pub do Dan. Quero contar para ele que seremos vizinhos.

- Ótima ideia! Gostei daquele lugar! Mas não posso continuar comendo essas coisas super calóricas que a gente vem comendo senão não vou caber nem no meu vestido de noiva.

- Mas você vai caber aqui e eu não vou te soltar nunca mais.

- Vamos Jack... já estou ficando gelada. Espera... Tem toalhas aqui?

- Naquele armário ali, perto da pia.

- Ufa! Achei que você tivesse esquecido. Vem, vamos passar o hidratante, vestir nossas roupas e descer até o pub do Dan.

- Hum! Massagem! – Ele disse erguendo-se da banheira e pegando a toalha que Clara lhe entregou.

Clara encheu as mãos de creme e massageou todo o corpo de Jack e ele retribuiu fazendo o mesmo por ela. Os dois vestiram suas roupas, amarraram os cabelos, arrumaram tudo em uma mochila que estava guardada em um dos armários e partiram para o pub.

A caminhada a partir da casa era um pouco mais longa e foi feita pela rua detrás do hotel. Com um trânsito menor, algumas lojinhas charmosas, pubs, restaurantes e um pequeno mercado.

Os dois passeavam de mãos dadas tranquilos pela cidade, algumas pessoas os reconheciam, mas estavam com uma aura de felicidade tão grande que ninguém ousava perturbá-los.

A temperatura tinha mudado um pouco e Jack, sentindo a pele de Clara gelada, ficou preocupado porque ela estava usando apenas uma camiseta regata, parou em uma pequena loja de material esportivo e comprou para ela um casaco de moleton.

Os dois continuaram descendo a rua e finalmente chegaram ao pub do Dan, que se chamava “Mad Man on the Mountain”.

- Jack? Posso te perguntar uma coisa?

- O que?

- De onde você conhece o Dan?

- De casa, crescemos na mesma vizinhança, estudamos nas mesmas escolas e depois, ele também tinha uma banda, mas acabou deixando tudo para trás para casar e trabalhou por um tempo como roadie. Depois ganhou na loteria, comprou o pub e um estúdio de ensaios e nós nunca deixamos de nos ver...

- E você não me disse nada... Ele pode ser um ótimo personagem para me ajudar a contar como foi sua infância, sua peste...

- Mas eu não quero que ele te conte.

- Por quê?

- Porque eu vou contar. Nós tínhamos combinado de ir para o Black Country, não tínhamos?

- Ok! Mas você é um biografado muito misterioso, senhor Noble!

- E você é uma ghost writer gostosa demais para ficar perdendo tempo escrevendo... tenho planos muito melhores para nós. – disse beijando-a antes de entrar no pub.

- Hey Dan! Como estão as coisas?

- Altezas! Sejam bem vindos. – disse Dan. – Princesa, você estava linda nas fotos que saíram na revista. Parecia uma estrela de Hollyood!

- É linda, mas tem dono! – respondeu Jack. – Minha mesa está vaga?

- Sim, alteza! Vai indo que eu já vou falar com vocês. Ou aja como uma pessoa normal e pede para a Susy anotar seu pedido.

- Ok! Dessa vez passa... mas sério, velho, vem logo que eu quero te contar uma coisa.

- Beleza! Susy, vem aqui, preciso anotar os pedidos de sua majestade!

Os dois seguiram pelo salão do pub que tinha poucas pessoas e ocuparam a mesma mesa da semana anterior. Susy cumprimentou-os e entregou os menus e Dan veio anotar os pedidos. Um prato de “purê com salsichas” para Jack e um “peixe com salada” para Clara e cerveja para ambos.

- E então velhão? O que você queria me dizer?

- Você lembra da casa do velho John Taylor, na High Gardens?

- Sei, o velho morreu e eles fecharam tudo faz uns dois anos.

- Pois é, dei um lance nela há uns dez dias e eles me venderam na segunda feira. Nós vamos morar lá!

- Sério cara? Poxa! Vamos ser vizinhos de novo! Que ótimo, bro! Vai ser lindo!

- Vai mesmo! Eu estou muito feliz adorei a casa! – disse Clara.

- Princesa! Se você precisar de alguma coisa quando o Jack estiver fora é só ligar que eu vou correndo.

- Olha lá, bro! Ela é minha mulher, não vem com essas conversinhas. – disse Jack rindo. – Mas sério Clara, se tiver algum problema é só ligar para o Dan mesmo, mas cuidado.

- Que ótimo! Porque pelo jeito vou ficar muito tempo sozinha em casa. A tournê do retorno da Crossroads vai ser longa e o Jack estará muito tempo longe.

- Mas você vai viajar comigo, não vai?

- Claro, Jack. Sempre que você me deixar, eu estarei lá na estrada, do seu lado.

- Viu Jack, ela é mesmo uma princesa. Você tirou a sorte grande velhão!

A conversa com Dan foi até bem tarde, o pub encheu, mas desta vez ninguém perturbou a conversa dos três, que seguiu até às duas da manhã, com o pub já fechado. Como já era muito tarde, Dan deu uma carona para os dois até o hotel.

- Jack, eu estava pensando na nossa casa... a Cindy é arquiteta, será que não seria bom que ela desse uma olhada?

- Claro, amor! Quero que a casa tenha tudo o que você quiser; quartos de hóspedes, sala de cinema, biblioteca, salão de baile. Para mim a casa já tem tudo o que eu quero: você e aquela banheira!

Clara riu da sinceridade dele, aninhou-se em seus braços e dormiu. Foi um sono agitado, ela estava vestida de noiva e corria pelos corredores de Heathcliff Hall mas não conseguia chegar ao jardim onde tocavam a marcha nupcial e ela olhava pela janela e via uma tempestade se aproximando, batia nos vidros e gritava, mas ninguém lá fora a ouvia.
Jack chorava, e corria na direção da floresta enquanto ela nada podia fazer, estavam separados para sempre e ela caia de joelhos no chão e chorava. Clara acordou repentinamente chorando, tremia muito, estendeu os braços procurando por Jack e não o encontrou. Então saiu procurando por ele pela suite e o viu lá embaixo, no terraço, com um copo de uísque na mão.

- Jack? O que foi?

- Te acordei? Me desculpa, tive um pesadelo, não estava conseguindo dormir de novo e decidi beber um pouco para relaxar.

- Pesadelo?

- Não é nada... é uma bobagem... Já vou ficar bem...

Clara aproximou-se dele e o abraçou. - Você não está com frio, amor? Vem, vamos entrar...

Os dois sentaram-se no sofá da sala de estar e Jack pousou sua cabeça em seus seios enquanto Clara acariciava seus cabelos. Jack voltou a pegar no sono em seu colo e logo ela o abraçou e os dois dormiram no sofá. Uma chuva começou a bater leve na parede de vidro da suíte. Estavam tranquilos agora e apenas descansavam quando o dia amanheceu, Clara acordou e puxou-o de volta até o quarto.

Levantaram-se cedo, Jack iria fazer uma entrevista em uma rádio em Londres e depois aconteceria uma reunião importante com Michael e a banda no escritório da gravadora.

Jack queria que Clara o acompanhasse, mas ela disse a ele que teria um dia cheio, ligaria para Cindy para ver quando ela poderia vir dar uma olhada na casa e também falaria com a planejadora do casamento para saber como estavam as coisas, já que o casamento aconteceria em apenas uma semana. Mas o pesadelo da noite passada a havia deixado mais preocupada do que nunca e o fato de Jack ter tido um pesadelo ao mesmo tempo que ela não poderia ser um bom sinal.

Cindy disse no telefone que estava a caminho da cidade, que passaria na obra da Victoria Station e chegaria ao hotel por volta do meio dia, para as duas irem de lá até a casa. Depois, almoçariam e iriam ver Anne Clark.

- Jack, você está bem? – perguntou Clara preocupada.

- Estou... Fica tranqüila Clara, o Michael já está negociando com a gravadora há uma semana, vamos lá hoje só para assinar a papelada. Tudo já foi definido antes.

- Não, é outra coisa, estou preocupada, não sei bem o que é, mas eu sonhei com nosso casamento, estava em Heathcliff Hall, vestida de noiva e não conseguia ir até o jardim, foi horrível.

- Isso é bobagem. Você está preocupada porque daqui uma semana, nesta mesma hora, estaremos nos preparando para sair naquele jardim e você vai vir até mim e o David vai nos casar. Ah! Tenho que te mostrar outra coisa que comprei na Tiffany. Está aqui, na minha mala; nossas alianças, amor.

Jack abriu um estojo de veludo preto com um par de alianças de ouro grossas. – Viu? Já está tudo pronto, toda a papelada está providenciada e depois do David fazer o número dele, o juiz fará que tudo seja legalmente válido. E menininha, você não tem mais para onde fugir! – disse agarrando Clara.

- Eu não fugiria nem que você me mandasse embora.

- Vai lá conversar com a Cindy, com a Anne, e descansa. Tudo vai dar certo e quando você aparecer na minha frente vestida de noiva, eu vou chorar.

- Ai, pára Jack. Ou eu vou começar a chorar agora, só de pensar.

- Não chora amor. Não quero chorar também. – disse puxando Clara para seu colo e beijando-a com paixão.

- Está mais calma agora?

- Estou. Parece que eu sou louca, que não consigo me controlar, mas...

- Eu sei que eu pareço tranquilo, mas tudo está sendo louco demais até para mim. Não quero que você me olhe como alguém diferente, estamos no mesmo barco.

O celular de Jack tocou e era Khaled, o motorista avisando que já estava lá para levá-lo aos estúdios da rádio BBC.

- Tchau amor! Te ligo assim que puder.

- Tchau Jack.

Clara estava agora sozinha na suíte, pegou o notebook para dar uma olhada nas novidades e a grande notícia ainda era a do sucesso do show em Paris e da volta da Crossroads.

Depois ela passou a responder os e-mails e mandou mensagens para sua família e para Jonas, pedindo notícias e checando se tudo estava bem encaminhado e preparado para a vinda deles para Londres.

Fechou o computador e foi se vestir. Colocou roupas esportivas porque queria andar um pouco no parque tentar relaxar antes de encontrar Cindy.

Caminhou até um bosque tranqüilo e sentou-se sob uma das árvores, sempre de olho em seu celular, com medo de atrasar-se, mas disposta a descansar de verdade, esforçando-se para abandonar de vez aquela ansiedade que a estava enlouquecendo.

Mas era difícil calar aquele turbilhão que fazia sua cabeça rodar e suas mãos tremerem. Respirou fundo, abriu os olhos e concentrou-se no cenário verde do parque, que naquele dia estava sob um céu muito cinzento.

Queria muito ser novamente aquela pessoa equilibrada que meditava, fazia Yoga, escrevia suas matérias, seus livros e estava muito tranquila, no Brasil, correndo atrás de dinheiro, naquele ambiente sempre caótico, mas onde ela tinha total controle.

Ela não podia recuar, mas era em momentos como aquele que aparecia um estranho arrependimento de ter se envolvido com Jack Noble. Faltava apenas uma semana para o casamento e ela não conseguia abandonar a sensação de que ainda estava conhecendo aquele homem. Ele era fascinante, inteligente, sexy e ela o amava com todas as forças. Ela podia sentir que laços fortes os uniam, mas será que eles seriam suficientes para justificar um casamento?

Jack parecia amá-la muito e não eram somente seus gestos tresloucados, como comprar um conjunto de brincos e colar de diamantes que custava pelo menos meio milhão de libras ou uma mansão em Londres para que ela não se sentisse sozinha na casa de campo enquanto ele trabalhava; mas o jeito como a olhava quando estavam perto. O carinho imenso que ele tinha por ela em cada momento e o fato dele ter repetido tantas e tantas vezes que seria capaz de abandonar até mesmo a música por ela.

Cansada de sua própria ansiedade, Clara lutava contra seus instintos que a mandavam sempre ficar com um pé atrás e aquela sensação de que não iria durar; que daqui algum tempo ela olharia para aquele momento e sentiria pena de si mesma por ter sido tão ingênua e confiado tanto naquele homem.

O alarme do celular soou avisando que era hora de voltar ao hotel, trocar de roupa e descer no saguão para encontrar Cindy.

Foi tudo muito rápido, interrompido apenas por uma mensagem de texto de Jack que dizia: “Te amo, menininha!” que ela respondeu imediatamente com um “estou com saudades”; e Clara já estava pronta para partir quando Cindy ligou do carro, na porta do hotel.

- Oi Cindy. A casa é bem perto daqui, duas ruas para cima do hotel na High Gardens. Você conhece?

- Sim, claro! Vou subir até a terceira e descer pela rua de trás porque a High Gardens é mão para cá.

- Seu namorado estava na BBC agorinha mesmo, você ouviu?

- Não, fui andar no parque e só subi agora para trocar de roupa. O que ele falou?

- Nada de muito útil, uma porção de bobagens sobre o time dele e depois, falou dos últimos shows da turnê e da volta da Crossroads. O locutor disse que tinha visto uma foto na revista dele com a noiva e Jack só respondeu, “sim, ela é gata, mas é minha!” Até que foi engraçado, o Jack pode ser bem divertido quando quer.

- Eu adoro o Jack, mas tem alguma coisa que não está certa. Sabe que estou começando a ficar com medo.

- Do que? Vocês acharam uma coisa que muita gente procura a vida inteira e não encontra e o Jack, bom, vou te dizer uma coisa que talvez ainda demore um pouco para você perceber, mas que depois de conhecê-lo há dez anos eu percebi.

- O que?

- Ele é transparente! É só olhar nos olhos dele e você vai saber exatamente o que ele está pensando.

- Não me fala isso. Estou quase enlouquecendo. Eu acho que sou desconfiada demais, tento entender as coisas do meu jeito e quando não consigo, começo a viajar em explicações malucas e começo a ver coisas que não estão lá de verdade; que só existem quando eu começo a juntar momentos de estranheza, silêncios, olhares e alguns pesadelos horríveis que tenho tido ultimamente.

- Clara, o Jack é aquilo que você vê. Sim, algumas vezes é uma pessoa difícil, teimoso, tem aquelas mudanças de humor e ataques de grossura inexplicáveis, mas nunca o vi fazendo ou dizendo coisas que indicassem algo de ruim, ele é muito autêntico, sincero até demais. Nem ele e nem o David são os homens mais fiéis do mundo, mas acho que isso, junto com a bebida, as horas de trabalho e as viagens, são da profissão deles. As mulheres se atiram aos pés dos dois desde que tinham 15 anos de idade e não é exatamente culpa deles.

- Eu sei disso tudo, mas meus instintos continuam gritando.

- Pode ser só aquele medo normal por estar a uma semana do casamento. O Jack mudou sua vida completamente, até de país você está mudando.

- Espero que seja só isso. Olha, a casa é aquela ali, no próximo quarteirão. Estou com o controle do portão aqui na bolsa, vou abrir para nós.

O carro foi até a porta da casa e as duas desceram.

- Clara! Que linda! Talvez precise de alguma restauração, mas essa fachada é incrível. Vou pegar meu Ipad no carro e a gente vai anotando o que precisa.

As duas foram percorrendo a casa e Clara descrevendo o uso que poderia fazer de cada cômodo e como Jack já havia sugerido pediu uma boa sala de cinema, um escritório ou biblioteca onde pudesse escrever, uma academia que tivesse alguns aparelhos de ginástica e um pequeno espaço para praticar Yoga, uma cozinha bem equipada, um bom closet, pelo menos dois quartos de hóspedes, uma pequena adega e um pequeno espaço para a música de Jack.

Ele não havia pedido por isso, mas ela queria que um dos quartos da casa fosse adaptado com revestimento acústico e que servisse tanto como um pequeno estúdio, onde ele pudesse ensaiar ou gravar alguma coisa, como também, tivesse espaço para armazenar e ouvir sua coleção de discos.

- Esta casa é muito boa, sólida! Que tipo de decoração vocês vão querer? Clássica, né? – perguntou e respondeu Cindy rindo. – Desculpa, mas amo esse período e me empolga muito fazer projetos de decoração deste estilo em particular. Também precisamos dar uma olhada na área de serviço e nas acomodações de empregados. Você aqui vai precisar de uma cozinheira, uma copeira, umas duas arrumadeiras, um jardineiro e um mordomo.

- Tudo isso?

- Lógico. Você viu bem o tamanho dessa casa? Você não vai me dizer que quer dar uma de super mulher e cuidar disso tudo sozinha?

- Não, mas achei que ia ficar sozinha com meu marido.

- Sem chances. Ou a casa ficaria em pouco tempo um lixo, ou você não faria mais nada na vida e mesmo assim não daria conta de tudo. Eu também não estava acostumada com tanta gente em volta quando me casei, mas agora quase nem percebo. É tranquilo, você vai ver.

As duas percorreram também as acomodações dos empregados que eram bem confortáveis, ficavam em cima da garagem e comportavam pelo menos dez pessoas, com uma entrada pela rua dos fundos.

- A área da piscina também é muito boa, a casa da piscina podia se transformar em um pequeno salão de festas, acho que dava para ajeitar um pouquinho e você teria um lugar gostoso para receber as pessoas, um bar com vista para a piscina, que tal?

- Ótimo! Acho que seria uma boa ideia.

- Bom, então acho que percorremos tudo, vai faltar só o jardim, mas estas coisas eu prefiro que um paisagista cuide. Tem um muito bom que trabalha para mim que virá até aqui nos próximos dias. Eu vou preparar um orçamento com tudo o que precisa e um planejamento da reforma e da decoração assim que eu conseguir as plantas e marcaremos uma reunião para discutirmos tudo o que precisa ser feito.

- Você sabe quanto tempo leva, mais ou menos?

- Uns dois meses para fazer tudo, incluindo parte elétrica, encanamento e aquecimento. Tenho uma equipe grande que fará tudo bem rapidamente. Depois vem a parte de decoração e aí você vem comigo; gosto de fazer isso de acordo com o gosto de quem vai morar. Fica tranqüila porque vou trazer essa casa do século XIX para o XXI, fácil. O Jack fez algum pedido?

- Você sabe como ele é: Pode colocar o teto no chão e o chão no teto, mas deixa a banheira na nossa suíte. – riu Clara.

- Ele é mesmo uma figura! – disse rindo. – Meio maluco, mas tem um ótimo coração. O David já me contou algumas histórias sobre ele de deixar qualquer um surpreso. Ele é muito generoso, do tipo que tira a própria roupa para ajudar os outros e, quando se apaixona, é capaz de loucuras, mas isso você já deve ter percebido.

- Ai – suspirou Clara – Ele me surpreende o tempo todo. Eu nunca imaginava que uma coisa como essa podia acontecer na minha vida, mas está acontecendo. Muitas vezes preciso me beliscar para ter certeza de que não estou sonhando.

- Eu já tive essa fase também. Quando comecei a namorar com o David foi assim. Sinceramente, eu não sei qual era sua situação financeira antes, eu sei que eu trabalhava como uma maluca e mal pagava minhas contas.

- Eu já tinha começado a viver dos meus livros, mas nada perto da vida que vocês têm aqui. Aliás, acho que pouca gente no mundo tem o que esses dois têm.

- O que nós quatro temos, querida. O Jack não abriu uma conta conjunta para vocês?

- Abriu, mas não gasto nada dessa conta. Não fala nada para ele, mas estou pagando tudo com meu dinheiro.

- E por quê?

- Porque tenho a impressão de que o dinheiro não é meu, é dele. Não acho certo gastar dinheiro que não é meu.

- Eu até admiro isso, mas sinceramente é bobagem. Guarda seu dinheiro, distribui para sua família, faz alguma coisa boa com ele, mas não faça isso.

- Talvez você esteja certa. Mas é tudo tão estanho para mim. Há um mês eu estava na minha casa, lá no Brasil pensando se deveria aceitar trabalhar como ghost writer para o Jack por medo de desmanchar a imagem que eu tinha dele.

- Mas quando vocês se conheceram, você trocou a imagem pelo homem, não?

- Não imediatamente, mas acho que isso está mudando aos poucos, com a convivência.

- Bom, a situação de vocês é bem diferente da minha história com o David. Eu também estava trabalhando para ele, mas não rolou nem beijo no primeiro encontro, quanto mais sexo e demorou um bom tempo para a gente começar a morar junto.

- Você sabe que eu não tenho explicação para isso. Quando eu o vi no hotel, pela primeira vez eu passei a precisar dele. O Jack tentou me beijar algumas horas depois de me conhecer e eu escapei dele, na verdade foi só uma coincidência, eu queria beijá-lo, mas o alarme do meu celular tocou e eu tomei consciência que estava fazendo uma loucura, queria muito beijá-lo, mas sabia que isso ia complicar tudo.

- Mas vocês ficaram juntos nessa mesma noite, não foi?

- Bom, ele me chamou para o show e depois na festa, no camarim, eu não consegui resistir. Precisava beijá-lo, foi muito intenso, sabe?

Cindy sorriu e terminou as anotações em seu iPad, conferindo com Clara se estava tudo certo.

E depois da confirmação, as duas passaram a trancar as portas da casa, entraram no carro e seguiram até o restaurante onde combinaram de almoçar juntas com Anne Clarke, a planejadora de casamento.

A uma semana do casamento, tudo estava perfeito, as reservas no hotel estavam feitas, o transporte dos convidados de Clara até a casa de David providenciado, as roupas prontas e entregues e sua família chegaria na próxima segunda-feira em Londres para participar de um jantar que aconteceria no restaurante do hotel na quarta-feira e do casamento, no dia seguinte.

Clara respirou aliviada ao receber o relatório de Anne. Aos poucos todas as questões do casamento estavam sendo solucionadas. O casal havia pedido no convite que ninguém enviasse presentes e que fizessem doações para uma instituição que Jack ajudava e a arrecadação das doações também era bastante animadora.

Continua

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