29 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXIV


Havia pessoas seguindo os carros da banda, em motos e carros durante todo o percurso. Aquela volta da Crossroads parecia ter levado toda a cidade à loucura e Clara procurava nem olhar para fora do carro, para não aumentar ainda mais seu nervosismo.

- Não se preocupe, menininha. Vai dar tudo certo, você vai ver - Jack dizia em seu ouvido.

A distância até o Palais des Sports era longa e mesmo andando em alta velocidade, o trajeto pareceu torturante para Clara. Tinha deixado o celular no hotel e agora sentia falta de trocar mensagens de texto com Cindy.

Mais adiante, uma moto furou o bloqueio dos batedores e seus ocupantes batiam com as mãos no carro, deixando-a em pânico.

- O melhor a fazer é ignorar - disse Jack aos seguranças. - Meu Deus, nunca pensei que veria algo assim novamente! Que loucura!

- Só quero chegar a salvo no show e voltar a salvo para o hotel. – disse Clara escondendo o rosto no peito de Jack depois que uma outra moto que levava um fotógrafo quase caiu.

- Calma baby... estamos quase lá.

O comboio chegou a bem guardada porta do ginásio e entrou direto no estacionamento fechado do subsolo.

Um alívio para Clara que agora tremia muito. Os seguranças desceram do carro, abriram a porta e pediram que descessem também.

Nos demais carros, David, Cindy, Michael e Jennifer também desciam, enquanto Michael Peters, Charles Hutton e os outros membros da equipe vinham a seu encontro.

Michael Peters distribuiu crachás a cada um deles e pediu para que todos colaborassem com a segurança indo direto aos camarins, sem parar pelo caminho.

Jack disse no ouvido de Clara que não largasse da mão dele e se preparasse para andar bastante. O caminho através do subsolo foi bem tranqüilo, sem outros problemas além de um ou outro fã que os fotografava a alguma distância e pessoas do próprio staff do show que haviam descido para vê-los de perto.

E depois de seguirem por extensos corredores, todos chegaram finalmente na área de camarins. Na verdade um dos vestiários do ginásio que estava repartido em salas menores por divisórias. As três bandas, maiores atrações da noite ficariam ali. Enquanto isso o outro vestiário menor, era repartido por todas as demais atrações do show.

Como o camarim era muito pequeno, logo Michael pediu que apenas a banda permanecesse nele e que as esposas fossem imediatamente ao camarote de convidados da organização de onde poderiam acompanhar o show tranqüilas e para onde a banda iria assim que sua apresentação terminasse, para esperar pelo momento de subir novamente ao palco, no gran finale.

Clara deu um beijo em Jack e seguiu junto com as outras esposas e dois seguranças até o camarote que estava lotado de artistas conhecidos.

Lá havia uma mesa com comida e bebida, sofás e telões no fundo do camarote, em uma parte reservada e cadeiras para acompanhar o show na parte da frente.

Clara, Cindy e Jennifer sentaram-se em um dos conjuntos de sofás e pegaram taças de champagne enquanto esperavam pelo final da montagem do palco do U2.

Quieta, ela bebia o champagne com um dos olhos fixos no telão, no fundo do camarote. O ator Tom Hanks subia ao palco e as três abandonaram as suas taças de champagne porque não era permitido levá-las a parte da frente do camarote onde encontraram três cadeiras vagas e sentaram-se.
Hanks leu um longo texto sobre as condições de vida das crianças em áreas atingidas por guerras e depois disse que estava honrado de estar chamando ao palco uma das maiores bandas do mundo: Senhoras e senhores, U2!

O público que já estava agitado passou a gritar de forma ensurdecedora, as luzes se apagaram por um momento e logo, "Magnificent" chegava aos alto-falantes, acompanhada em coro pela público.

A seguir veio "Beautiful Day" e um pequeno discurso de Bono Vox pedindo doações para as crianças. Depois "Vertigo" e em seguida, o cantor chamou David Mersey para subir ao palco e eles tocaram juntos "Helter Skelter".

Mas com o final do set do U2 o barulho dentro do enorme ginásio pareceu dobrar e o coração de Clara começava a acelerar perigosamente. Ela estava inquieta, tremia dos pés a cabeça e sentia a necessidade de mover-se, caminhar de volta à sala detrás, onde bebeu mais champagne e sentou-se em um dos sofás preocupada com Jack. Queria estar com ele, segurando suas mãos e dizendo que tudo daria certo.

Quando a atriz Angelina Jolie subiu ao palco, Clara ficou gelada; mas o som que vinha da platéia era tão ensurdecedor que impedia Angelina de começar a falar.
Assim que as coisas se acalmaram um pouco, Angelina começou seu discurso sobre as crianças vítimas de todo tipo de violência e Clara quase não conseguia mais respirar de tanta ansiedade.

- Esperamos 30 anos para que isso pudesse acontecer, tenho a honra de chamar ao palco a banda que todos queriam ver novamente, com vocês Crossroads.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Clara quando o palco se apagou, Cindy, pegou-a pela mão e Jennifer também aproximou-se e colocou a mão em seu ombro, mas não havia nada que a fizesse parar de chorar.

Os primeiros acordes de "Rockin' Over" explodiam nos alto-falantes, as luzes do palco piscavam e finalmente a Crossroads começava a tocar.

As pessoas pulavam e gritavam ensandecidamente como se uma Copa do Mundo tivesse acabado de terminar. Um telão atrás do palco mostrava o rosto de Jack gigante e Clara podia ver seus olhos agora, brilhando muito, como haviam brilhado inúmeras vezes olhando para ela nos últimos dias. Ele parecia estar muito feliz e ela sentia suas emoções explodindo junto com a música.

A emoção era tanta que Clara nem percebeu que a setlist que tinham combinado estava mudada. Eles iriam fechar com "Rockin' Over", mas estavam abrindo o show com ela. Estranho, mas lindo, pensou.

- Bon Soir Paris! – Jack disse no microfone. – Nós somos a banda Crossroads! Estivemos longe dos palcos nos últimos 30 anos e agora estamos juntos de novo para ver no que vai dar. Faz mais ou menos um mês que alguém entrou no meu caminho e mudou tudo. Ela me devolveu a vida e por isso, eu dedico esta música para ela: "Unexpectedly".

- Meu coração vai explodir hoje! O Jack vai acabar me matando! - disse Clara. Ela cantava junto com todo o ginásio aquelas palavras que tinha ouvido pela primeira vez há poucos dias e que o mundo todo já conhecia, graças a gravações feitas pelos fãs nos últimos shows de Jack.

- E depois de uma nova, nada como uma bem velha para matar as saudades "Love you Forever"!

Bem no meio da música, um blues lento, Jack começou a improvisar a letra. Para ela era algo muito sexy, porque ele usava o mesmo tom de voz com que às vezes sussurrava coisas em seu ouvido.

- Meu Deus, ele está me provocando... vou lá embaixo pegar ele. – disse Clara rindo.

- Bom, sou um homem apaixonado! – Jack começou a dizer depois da música. – Mas estamos aqui pelas crianças que sofrem ao redor do mundo. E para ajudar a gente a te convencer a doar dinheiro para melhorar a vida delas, nós vamos chamar aqui ao palco um ídolo nosso que nos dará a honra de cantar com a gente. Senhoras e senhores, Mick Jagger!

- Boa noite, Crossroads! Estou feliz de estar com vocês hoje! Vamos tocar um blues?

Jack começou a puxar uma melodia blues na gaita e Mick disse no microfone: - Crossroads...

E como a banda não queria mais sair do palco, eles emendaram com "Love In Vain", uma música que Clara nem sabia que estava na setlist.

No final Jack deu boa noite e disse que aquele era apenas o começo e que eles voltariam para a estrada em breve.

Clara foi até o banheiro com Cindy, queria lavar o rosto. - Vamos rápido Cindy, acho que o Jack vai subir para ver os Stones daqui de cima.

Cindy e Clara saíram do banheiro e logo perceberam um clarão de flashes se aproximando. A Crossroads chegava ao camarote e encontrava por lá os músicos do U2, Bono se ajoelhou na frente de Jack para as câmeras de poucos privilegiados que estavam no camarote, mas as imagens rodariam o mundo.

Clara pegou Cindy pela mão e puxou-a para um canto mais discreto, não queria a atenção dos flashes e as duas desceram rapidamente para área onde ficavam as cadeiras.

- Os rapazes já chegaram, mas estão cercados por todo mundo, preferi vir para cá e volto lá quando as coisas se acalmarem.

Enquanto as três amigas conversavam, Jack e o restante da banda vinham em sua direção.

- Então, amor? Gostou do show?

- Muito! – disse Clara beijando Jack – sob os aplausos de quem estava ao redor.

Todos se acomodaram nas cadeiras do camarote, Jack agora estava agarrado em Clara e não a soltava por nada. O show dos Rolling Stones estava prestes a começar e o ator Jack Nicholson subia ao palco.

- As crianças do mundo dependem de gestos simples de solidariedade para crescerem e se transformarem em adultos felizes, doem. Com vocês, os Rolling Stones.

Clara nem conseguia mais prestar atenção ao que acontecia no palco, mas os Stones abriram o show com "Gimme Shelter", uma de suas músicas favoritas.

Agora, ela estava aninhada no ombro de Jack, que estava com os braços ao seu redor.

- Boa Noite Paris! Estamos aqui pela melhor razão do mundo. – disse Mick, a seguir, a banda atacou com a música "It's Only Rock n'Roll" .

Depois Mick chamou Bono e juntos eles cantaram "Angie" e "Satisfaction" encerrando a noite.

Mas antes de Satisfaction começar, Clara, Cindy e Jennifer já tinham saído do camarote junto com a Crossroads que agora voltava ao palco para o final do show.

As três já estavam nos carros apenas aguardando que a banda chegasse a eles e rapidamente o comboio de carros deixava o estádio e seguia de volta para o hotel. Jack e Clara estavam cansados, mas felizes.

A festa pós-show seria ainda mais sofisticada do que Clara imaginava e pedia traje black-tie completo.

Os dois chegaram ao hotel, tomaram banho juntos e logo Clara começou a arrumar-se, enquanto Jack se atirava nu na cama.

- Posso saber o que você está fazendo? – perguntou Clara enquanto vestia sua lingerie.

- Descansando um pouco e vendo a mulher mais gostosa do mundo vestir-se. – respondeu Jack com um sorriso que arrasou com toda a vontade de Clara de brigar com ele; pelo contrário, ela parou de vestir-se para beijá-lo.

- Vamos, amor... estão nos esperando na festa, e depois vão até te deixar cantar...

- Se não fosse por isso, nem ia nessa festa. Ficava aqui mesmo, com você a noite inteira. – disse beijando o corpo de Clara e acariciando seus cabelos.

- Mas teremos que ir, vem Jack, vou secar seus cabelos. Você estava maravilhoso hoje no telão, este hidratante que nós usamos no seu cabelo melhorou muito a aparência dele.

- Eu não ligo para essas coisas, sou um velho hippie – disse acompanhando Clara até o espelho do banheiro.

Clara que estava seminua, pegou o secador de cabelos e foi secando os cabelos longos dele com carinho e com cuidado, amassando os cachos em suas mãos. Para ela também estava difícil controlar-se e concentrar-se no que fazia, olhando para os olhos dele brilhando no espelho.

Depois de secar os cabelos, ela passou hidratante mais uma vez em todo o corpo dele e finalmente conseguiu convencê-lo a vestir-se.

A seguir, pediu que Jack a ajudasse a vestir um novo vestido longo preto que comprou em uma da lojas mais sofisticadas de Paris. Com decote tomara que caia, o vestido não faria feio no tapete vermelho do Oscar.

Colocou sapatos prateados de salto altíssimo e pegou o estojo com as jóias que havia ganho de Jack em Londres, pedindo a Jack, já vestido, que a ajudasse com o colar.

- Mas esse colar não combina com este vestido.

- Esse colar é a única jóia que eu tenho. Tem que combinar.

- Me recuso a colocar essa coisa horrível nesse pescocinho tão lindo... – respondeu Jack, enquanto beijava seu pescoço.

- Ok! Vou por só os brincos então. Me dá a caixa. – disse Clara estendendo as mãos na direção de Jack.

- Não! Os brincos também não combinam. Espera um pouco.- disse ele abrindo a gaveta do armário e tirando um outro estojo de jóias preto.

Clara ficou tão surpresa que não sabia o que dizer. Dentro do estojo um conjunto de gargantilha e brinco de diamantes que mudavam de cor conforme a luminosidade do ambiente como o anel de noivado que Jack havia lhe dado.

- Jack, mas..

- Mas nada! Quero te ver linda da cabeça ao pés. Estou só te mimando como posso.- sussurrou Jack enquanto beijava seu pescoço e seios.

- Obrigada meu amor! É lindo demais.

Os dois colocaram seus perfumes favoritos e Clara deu mais um beijo apaixonado em Jack antes de passar o batom. Saíram da suíte andando pelo corredor, atentos se percebiam algum movimento vindo das outras suítes.

Um tapete vermelho se estendia através do luxuoso saguão do hotel a partir da porta do elevador e muitos fotógrafos agora se acotovelavam por lá, atrás de barreiras de metal.

Jack e Clara tiveram que parar para algumas fotos e além de ficar cega com os flashes, Clara também sentiu-se tonta com os gritos deles por atenção. Já tinha participado de eventos como aquele, mas do lado de lá da barreira e nunca imaginou que se sentiria tão desorientada no meio de toda aquela luz e gritos. Tinha sorte que Jack segurava sua mão, pois se ele não estivesse por lá cairia sentada no chão.

A festa era um jantar dançante e Jack e Clara foram conduzidos por uma hostess até a mesa onde já estavam Michael, Jennifer e Mick Jagger.

- Boa noite, pessoal! Meu Deus! Quase cai no tapete vermelho agora! Como vocês agüentam isso. Fiquei completamente tonta!

- Você se acostuma! É só tentar não olhar muito para os flashes - disse Mick Jagger levantando-se, enquanto Jack puxava a cadeira para Clara sentar-se.

- O David já desceu? - perguntou Jack.

- Não! O Michael Peters estava lá na suite conversando com ele na hora que nós passamos, acho que já estão negociando a nova tour. - respondeu Michael Silver.

- Ótimo! - disse Jack. - Vamos trabalhar agora até virarmos pó!

- Eu não me importo. - respondeu Michael.

- E as damas? Vocês se importam? - perguntou Mick Jagger, de olho em Clara.

- Eu fico feliz quando o Jack está feliz. - respondeu Clara com um sorriso.

- Eu também! Quero dizer, se fazer shows fará o Mike feliz, então eu também estarei feliz.

Embora soubesse da resposta, Jennifer decidiu perguntar: - E a Donietska? Eu não a vi no show hoje.

- Foi para a América, tinha algumas fotos para fazer lá e foi embora hoje mesmo. - respondeu Mick.- Olhem, o David está chegando.

- Ah! Que bom! O Peters não está com ele. - disse Jack.

- Pobre homem, você não gosta mesmo dele. - respondeu Clara.

- Advogados não são boa companhia para festas. - disse Jack rindo.

- Olá pessoas! Todos felizes? Olá velhão! Pronto para decolar?

- Por mim, tudo perfeito! Boa noite Cindy. – disse Jack.

- Boa noite Jack! Boa noite pessoal! Demoramos demais porque o Peters não ia mais embora. - disse Cindy.

- É, mas ao menos eu consegui o que nós queríamos, teremos um avião para toda a turnê.- disse David.

- Perfeito! Eu sabia que você conseguiria dobrá-lo. Não dá para viajar em aviões comerciais, ainda mais agora. – disse Jack.

- Ah! Com os Stones já faz algum tempo que colocamos o avião como cláusula do contrato. Não dá para ficar dependendo de vôos comerciais. – disse Jagger entrando na conversa.

Como Jack estava interessado em discutir negócios musicais com sua banda e com Mick Jagger, Clara, Jennifer e Cindy saíram da mesa dizendo que iam até o toalete.

- Esse colar ficou um escândalo de lindo amiga! O Jack pediu minha ajuda e eu fui com ele na Tiffany para escolher. – disse Cindy.

- Então você sabia?

- Claro, na semana passada ele me ligou no escritório, em Londres, e pediu para ajudá-lo a escolher um presente para você porque ele não sabia comprar essas coisas.

- Lindo! Meu coração quase parou quando ele abriu o estojo. O Jack ainda me mata...

- Vocês estão fazendo muito sucesso juntos. – disse Jennifer. – Dei uma olhada online antes de me preparar para a festa e está cheio de fotos de vocês lá no show e agora só se fala do casamento. É até meio irritante. – riu.

- Mesmo? Não vi nada ainda. O Jack não me deixou. Para ser totalmente sincera, por mim, nem teríamos descido para essa festa hoje. Estava tão bom lá em cima. – disse Clara suspirando.

- Eu imagino. – riu Cindy. - Ah! E cuidado com o Mick Jagger. Ele nem começou a beber e já estava com os olhos no seu decote.

- Nem notei! Mas vou tomar cuidado. – disse Clara preocupada.

As três voltaram à mesa e encontraram Bono e The Edge sentados em seus lugares. Os dois se levantaram imediatamente e Jack apresentou Clara para ambos e eles disseram que haviam lido seus livros e que gostaram.

Ela por sua vez declarou-se fã incondicional do U2 e disse que já havia entrevistado The Edge há alguns anos por telefone e ele disse que se lembrava porque ela tinha perguntado a ele algo sobre uma música muito antiga que fazia parte de uma das demos da banda e que nunca foi gravada depois.

Todos estavam muito animados, podia-se quase pegar com a mão uma enorme euforia naquele ambiente. As pessoas estavam felizes pelo sucesso do show, por ele ter arrecadado mais do que o dobro do esperado e claro, por significar um novo sopro de ar na própria indústria da música, que agora esperava ansiosamente para sentir os
efeitos do retorno da Crossroads ao cenário.

Aos poucos o jantar começou a ser servido e quando todos terminaram; o palco no fundo do salão, na frente de uma pista de dança de cristal, foi iluminado.

A banda da casa tocava standards da música americana e aos poucos a pista começou a lotar. Jack pegou Clara pela mão e levou-a direto até a pista. A banda reconhecendo-os, começou a tocar "Unexpectedly"

Os dois dançavam de rosto colado e Jack sussurrava as palavras da letra no ouvido dela. Ali nos braços dele, Clara pensava que se o mundo terminasse naquele momento, ela morreria como o mais feliz dos seres humanos.

Dançaram mais um pouco e logo David veio chamá-lo porque ele e os outros músicos desejavam subir ao palco para tocar. Jack beijou Clara e seguiu David até o backstage.

Clara foi até o banheiro refrescar-se um pouco e retocar a maquiagem. Iria procurar Cindy em seguida, mas assim que saiu do banheiro Mick Jagger veio casualmente em sua direção, com duas taças de champagne nas mãos: - Um brinde para a rainha da festa! – disse ele entregando uma das taças para Clara.

- Obrigada! Você é muito gentil. – disse Clara. – Você viu a Cindy Mersey por aí?

- Não querida. Estou me aquecendo para cantar um pouco com a banda de seu marido, daqui a pouco e ficarei feliz de vê-la nos assistindo.

- Obrigada Mick, estou muito lisonjeada. – respondeu Clara.

- Aliás, você poderia me ajudar neste aquecimento; podemos dançar um pouco na pista, esquecer o resto do mundo por alguns momentos. – disse estendendo a mão para tocar seu rosto.

- Desculpa Mick, mas me caso com Jack Noble dentro de poucos dias e não acho que ele ficará nada feliz em me ver dançando com você.

- Mas ele não precisa nos ver. Este salão é imenso...

- Desculpa novamente, mas não. E agora com licença, que preciso encontrar a Cindy.

- Ok! Sei perceber quando perdi, minha cara... - Mick fez uma pequena mesura com a cabeça e afastou-se.

Clara saiu andando com a taça de champagne na mão, que deixou na primeira bandeja que encontrou pelo caminho. Pegou seu celular dentro da bolsa e mandou uma mensagem de texto para Cindy perguntando onde estava.

Ela respondeu, que estava no lado direito do salão, perto do bar e Clara seguiu rápido para lá, quase correndo e finalmente achou Cindy conversando com as esposas de Bono e The Edge, que também tinham sumido na área de backstage.

- Nossa Clara, o que houve? Você está gelada.

- Não foi nada. Deve ser o ar condicionado. – disse para não comprometer-se na frente de pessoas que não conhecia.

- Tive uma ideia! Vou pegar um uísque ali no bar. Assim eu esquento! – sorriu.

- Olá senhoras. – disse Bono aproximando-se do grupo. – e colocando os braços ao redor de sua esposa.

- Vocês não vão tocar? – perguntou Clara.

- Sim, mas agora tem homem demais lá dentro, precisei vir para fora tomar um ar. – respondeu Bono. – Seu noivo está lá pronto para subir no palco, mas o David foi buscar a guitarra dele lá na suíte.

- Ah! Então é isso o que está acontecendo. Vou dizer uma coisa, vocês músicos são muito cruéis, nos fazem esperar de pé, nestes saltos altos. Meus pés já estão me matando. – disse Clara para Bono.

- Por isso não, você já foi até o jardim de inverno? – perguntou Bono.

- Não. Nem sei onde é.

- Ali, passando um pouco o palco, está vendo uma luz dourada naquela direção? Vem do jardim de inverno, podemos nos sentar lá até começar a rolar o som. O que vocês acham?

- Ally, me desculpa, mas seu marido merece um beijo! – disse Clara sorrindo.- Meus pés estão me matando.

- Merece mesmo! Eu também estou morrendo de dor nos pés. – sorriu Ally.

E o pequeno grupo mudou-se para as cadeiras no jardim de inverno, onde estava montada uma área para descanso que as pessoas aproveitavam também como espaço para namorar.

Clara sentou-se, tirou os sapatos e massageou um pouco os pés. Ally fez a mesma coisa. Mas mal a dor nos pés havia aliviado um pouco, ela começou a ouvir música vinda do salão, vestiu novamente os sapatos e correu para a pista de dança.

Jack começou o set cantando "Little Sister", uma música gravada por Elvis Presley. Do palco, ele olhava para o público procurando por Clara, que começou a acenar para ele, de uma das laterais. Quando finalmente a viu, acenou, sorriu e mandou um beijo.

E o show continuou com mais músicas da década de 50 e Jack brincando de Elvis. O mais irônico era que ele nunca gostou de imitadores, sempre criticou pesadamente as bandas covers assumidas e mais ainda as que seguiam o estilo do Crossroads por admiração ou esperteza, tentando recriar ao menos na imagem algo que mesmo 30 anos depois do seu final, ainda era popular.

Com estes últimos, Jack chegava a ser impiedoso, algumas histórias dessa enorme implicância dele ficariam famosas e criariam verdadeiras guerras entre os fãs da Crossroads e destas outras bandas.

Mas naquela noite, Jack era Elvis, um Elvis muito mais sexy do que o original, de cabelos louros longos e cacheados e um par de olhos azuis que quando fitavam Clara conseguiam fazê-la esquecer de que existe um mundo lá fora.

- Eu entendo que tem uma fila de músicos aqui nos bastidores esperando a vez para brincar um pouquinho aqui no palco, mas antes disso, quero agradecer a todos pelo apoio que nos deram lá no Palais des Sports e aqui e dizer que nos veremos muito pela estrada. Obrigado! Vou chamar ao palco um dos nossos ídolos de sempre para cantar um pouquinho aqui conosco: Madames et Monsiers Mick Jagger.

Mick cantou dois ou três blues tradicionais, com o acompanhamento da Crossroads, enquanto Jack tocava sua gaita. A seguir, os músicos da Crossroads desceram do palco dando lugar aos Rolling Stones. Jack desceu do palco suado e abraçou Clara. Eles ficaram mais alguns minutos no show, mas estavam muito cansados e acabaram subindo para a suíte.

Normalmente nenhum dos dois perderia aquilo que estava acontecendo naquele pequeno palco, mas o cansaço os estava vencendo. Ao subir para a suíte, Clara carregava seus sapatos nas mãos e Jack, o paletó.

Os dois passaram rapidamente pelo chuveiro e foram dormir. Clara ainda precisou colocar alguns esparadrapos nos dedos machucados, mas Jack mergulhou de cabeça nos travesseiros e dormiu imediatamente.

Clara deitou-se a seguir e lembrou-se só naquele instante que aquela era a última noite deles em Paris e até agora, seu tão sonhado passeio com Jack por aquele cenário maravilhoso, não tinha acontecido.

Continua

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