28 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXIII


Jack ficou preocupado com Clara, levou-a para dentro e lhe trouxe um copo d'água.

- O que foi, meu amor? Você está bem?

- Ah Jack, me desculpa. É mais forte do que eu... Não estou triste, estou explodindo de felicidade, te amo demais e não agüentei!

- Vem, vamos voltar para a cama, descansar um pouco mais. O Jagger tem razão, não quero subir no palco com cara de batata cozida.

- Vamos dormir mais um pouco, prometo que não vou chorar mais. – disse Clara indo para a cama com ele. – boa noite, meu amor.

- Boa noite. – disse Jack beijando-a na testa.

Os dois acordaram novamente às 10 da manhã, envoltos em uma inexplicável paz. Pediram o café da manhã para o serviço de quarto e foram tomar um banho.

Vestiram-se e logo começaram os telefonemas. O dia seria bem agitado por lá. O show seria longo, com a participação de 12 atrações, tudo estava programado para começar às 3 da tarde. As limusines pegariam a banda no hotel só às 7 da noite e eles entrariam no palco para tocar a partir das 8; logo depois do U2 e antes dos Rolling Stones fecharem a noite.

A finalidade era de criar um fundo em favor das crianças que sofriam ao redor do mundo. As guerras e os grandes desastres naturais eram apenas algumas das faces mais visíveis deste sofrimento.

As primeiras bandas e cantores poderiam apresentar apenas uma música; mas U2, Crossroads e Stones estavam liberados para tocar até cinco músicas cada; eram as bandas que todos queriam ver e era bom deixar público e mídia felizes.

A Crossroads tocaria quatro músicas, sendo que a última teria a participação especial de Mick Jagger. Para aumentar a sensação de evento único, David Mersey dividiria uma música com o U2 e Bono Vox cantaria com os Stones.

Para Clara aquele era mais um dos seus sonhos transformado em realidade. Na mesma noite ela veria não só sua banda favorita fazer a apresentação que marcava seu retorno, mas também bandas que admirou toda sua vida. E se ela não estivesse na confortável situação de futura esposa de um dos músicos que participariam do show, era muito provável que teria passado a última semana indo de redação em redação tentando ser escalada para a cobertura, dizendo que estaria a caminho de Paris de qualquer maneira.

E agora, neste momento em que mal havia acordado, ela estaria com muitos amigos e conhecidos jornalistas na coletiva de imprensa do U2 no hotel em que a banda estava hospedada, próximo do Palais des Sports.

Na verdade, uma parte dos telefonemas que ela atendia ou mensagens de texto que chegavam em seu celular eram destes amigos perguntando onde ela estava e outra parte pedindo ajuda para conseguir acesso ao show.

Jack já estava começando a ficar incomodado com o número de vezes que o aparelho chamava e por isso pegou-o de sua mão, desligou-o e pendurou-o em um dos lustres de cristal da suíte: - Pronto! Assim teremos um pouco de paz! - disse rindo.

- Mas, Jack... Meus colegas querem minha ajuda...

- Eu também quero e se você ficar falando com eles, eu não terei com quem falar... - respondeu beijando sua testa. - Você vai ajudar esse pessoal a entrar no show? Ou fazer a cobertura dele?

- Provavelmente você tem razão... Desculpa, estou tão ansiosa que por mim, já estaria lá no Palais des Sports.

- Eu também! - respondeu com um sorriso nos lábios.

Quando o telefone da suite começou a tocar, Clara e Jack caíram na gargalhada. Deixando de lado o croissant que comia, Clara atendeu ao telefone. Era Cindy chamando os dois para irem até sua suíte porque algumas visitas queriam conhecê-la.

- Visitas? Que visitas? - ela perguntou intrigada.

- Vem para cá que vocês verão. Não conto! - respondeu Cindy rindo.

- A Cindy quer que a gente vá até a suíte dela, parece que tem uma visita lá que quer ver a gente. Vamos?

- Tudo bem... Não adianta querer mesmo ter algum sossego hoje.

Os dois atravessaram o corredor e seguiram até a suite de David que estava com a porta aberta. Lá dentro uma grande agitação de vozes e Clara aproximou-se de mãos dadas com Jack e assim que passou pela porta viu Keith Richards e Ron Wood sentados nos sofás.

- E aí, Jack? Pronto para hoje? - perguntou Richards.

- Mais do que nunca! - disse Jack.

- Minha noiva, Clara Oberhan!

- A escritora, né! Olá Clara, gostei muito do seu livro. Mas você poderia ter arrumado coisa melhor. O Jack é meio caído... - disse Richards rindo.

- Olá princesa! - disse Ron Wood beijando sua mão.

- Olá! - Clara respondeu rindo, enquanto Jack a puxava para longe dos dois guitarristas. - Bom dia, pessoal. - disse, sentindo-se um pouco embaraçada com toda aquela atenção.

- Então, velhão? Senta por aí! Estamos aqui combinando umas coisas para hoje à noite. Vai ter uma festa aqui no salão do hotel e nós conseguimos autorização para tocar. Esses franceses são esquisitos, não querem que a gente faça aquilo que todo mundo pede para a gente fazer. - disse David.

- Claro! Estou dentro; vamos brincar um pouco lá e depois a gente vem para cá e brinca mais um pouco. - respondeu Jack. - Ah! E vocês vão ao nosso casamento não, lá terá também um palco para tocarmos.

Os planos e gargalhadas rodavam pela sala e Clara sentia-se no paraíso. Cindy fez um gesto de longe e ela levantou-se e seguiu-a até o corredor.

- O que foi? - perguntou Clara.

- O Jack está bem?

- Claro! Por que?

- O David me disse que ontem ele teve uma daquelas crises no estúdio depois que o Mick Jagger foi embora.

- Ele estava bem ontem quando chegou aqui, até um pouco eufórico. - disse Clara.

- Então não foi nada! Que bom! Hoje será um dia e tanto! Você já sabe como vai se vestir?

- É um show de rock, Cindy... acho que com roupas bem simples.

- Não sei... aquele lugar vai estar cheio de fotógrafos até o teto.

- E o que você sugere?

- Vem aqui no quarto que eu vou te mostrar.

Cindy mostrou à Clara algumas de suas roupas, mas agora ela já tinha outras preocupações com Jack e o que poderia acontecer ainda naquela noite na frente de alguns milhões de pessoas que assistiriam ao show pelo pay-per-view da TV a cabo e pela internet.

- Acho que vou colocar uma daquelas batas indianas que comprei na loja da namoradinha do Jack... - disse Clara para encerrar aquela discussão sobre roupas. - Vou colocar uns acessórios e acho que vou ficar bem.

- Não esquece de colocar um cinto nessa bata.

- Por quê?

- Bom, vocês vão casar muito rápido e eles podem inventar uma gravidez para você...

- Verdade! Não tinha pensado nisso. Acho que vou acabar indo com uma camiseta do Crossroads, calça skinny e botas.

- Ótimo, a Barbie anti-glamour em ação! - riu Cindy.

- Gostei! Esse podia ser meu novo apelido! - riu Clara. - Teve uma época, quando todo mundo me chamava de "fadinha do rock" em que eu queria gritar que fadinha era a mãe! Mas hoje, acho que sou só uma fã da banda do meu querido futuro marido que quer ver tudo bem de perto e divertir-se sem maiores preocupações.

- Então vamos todas assim... Depois, voltamos para o hotel e nos arrumamos para a festa. Que tal?

- Perfeito! Vai ser lindo!

- Vamos voltar para a sala então, quero ficar perto do Jack hoje. Falando em ficar perto, onde está a Jennifer?

- Está lá no spa. Acordou dolorida e queria outra daquelas massagens.

- Hum... isso é bom! Mas hoje não acho que vá sobrar tempo. Pena...

- E você? Está pronta para enfrentar os leões hoje à noite?

- Estou ansiosa por hoje.

- É! Mas você sabe que hoje você vai ser só um borrão no caminho do palco, no meio de groupies, jornalistas, empresários, agentes, fãs, outros músicos... e coisas que normalmente só se vê em um zoológico. Até atores de Hollywood estarão por lá!

- Sei Cindy! Mas você não consegue se animar nem um pouquinho com o que vai acontecer em cima daquele palco?

- Claro que sim! Não sou esse monstrinho cínico que você está montando aí na sua cabeça. Eu também estou emocionada com tudo o que está acontecendo, só que já vivi mais tempo do lado de cá e sei que ainda hoje você vai se deparar com uma porção de coisas que vão te fazer lembrar de mim.

- Eu sei de tudo isso, Cindy. Já faz um tempo que estou a um passo do lado de cá, lembra? Eu sou jornalista. Trabalho há anos no meio musical e já andei por muitos destes zoológicos.

- Então você não vai se decepcionar.

- Acho que não. Espero, que não...

As duas foram até a sala de estar onde a conversa estava animada, regada a muito uísque e como sempre ia da música ao futebol e de volta à música.

Clara não gostou do que viu, Jack tinha acabado de tomar café da manhã e seguia de perto o ritmo de Keith Richards agarrado ao seu copo de uísque.

- Vocês ficaram com a suíte do piano, não é? – Keith perguntou a Jack.

- É, nós estamos lá! A Clara gosta de pianos! E eu toco para ela quando ela não consegue dormir, não é amor?

- É... – respondeu Clara um pouco sem graça.

O celular de Cindy começou a tocar, era uma mensagem de texto de Jennifer chamando ela e Clara para irem até a suíte dela.

- Rapazes, se vocês prometerem ficar bonzinhos, eu e a Clara vamos nos encontrar com a Jennifer Silver na suíte dela. Emergência de figurino.. Já voltamos!

- Fica tranqüila, querida. Eles irão se comportar! – respondeu David.

As duas seguiram pelo corredor, passaram pela suíte de Mick Jagger e chegaram na de Jennifer e ela já estava na porta esperando.

- Já voltou do spa? - perguntou Clara.

- Sim... quis só uma massagenzinha, acordei com uma dor danada no pescoço... - sorriu. - Vocês não imaginam o que aconteceu nesta madrugada! A Donietska foi embora! O Mick brigou com ela e ainda de madrugada nós ouvimos ela saindo da suíte.

- Meu Deus! O que será que aconteceu? – disse Clara.

- Não faço a menor ideia. – respondeu Jennifer.

- Hum! Eu acho que isso já estava para acontecer. O Mick é assim mesmo, depois do divórcio ele vive trocando de namorada o tempo todo. – disse Cindy. – Cuidado Clara! Se ele já estava se jogando para cima de você ontem, na frente da Donietska. Imagina agora que está solteiro?

- Mas ele não deu em cima de mim, ontem! – disse Clara. – Será que eu estava tão bêbada que não percebi?

- Ah! Clara! Você não notou? O Jack estava a uns dois centímetros de dar um soco nele. Cuidado que ele tem todo um discurso de que não liga para fidelidade, mas é bastante ciumento. – disse Cindy. – Não seja ingênua de achar que ele leva esse tipo de coisa numa boa.

- Mas eu não notei nada... – disse Clara. – Já estou começando a ficar com medo de ir a esse show. Quanto a mim, não quero nada com o Mick. Não consigo nem pensar em ficar com outro cara que não seja o meu Jack.

- Mudando um pouco de assunto, com que roupa você vai ao show, Jennifer? – perguntou Cindy.

- Ainda não pensei, meninas vamos até o closet e vocês me ajudam a pensar. – disse Jennifer.

E elas passaram mais algum tempo pensando no que vestiriam; do closet de Jennifer, foram até a suíte de Clara. Ao se depararem com o celular dela pendurado no lustre, fizeram um enorme discurso, dizendo que ele não tinha direito de fazer isso, e ajudaram Clara a resgatá-lo, segurando a cadeira.

Assim que ligou o celular, ele voltou a tocar. E as ligações e mensagens de texto de colegas jornalistas recomeçaram. Jack tinha razão; ela estava em outra situação e não fazia mesmo sentido ficar com o telefone ligado se ela só podia dizer não para todos os que ligavam.

As horas começavam a passar mais depressa e elas voltaram à suíte de David depois que ele avisou que havia pedido um almoço para todos ao serviço de quarto.

E as três foram para a suíte de David e descobriram que Michael Peters já estava por lá, pronto para cuidar de seus clientes e atender a todos os seus pedidos.

Clara fez um sinal discreto para David, chamou-o para conversar no corredor.

- Não deixa o Jack beber demais. Estou preocupada com ele, você sabe se ele está nervoso sobre o show?

- Ah Clara! Fica tranqüila! Você está com medo dele beber demais e dar vexame no palco? Não, ele não funciona assim. Ele é um velho profissional e beber demais está fora de questão. Você vai perceber que agora no almoço ele vai tomar só um suco, tomar um banho e depois só vai tomar um uísque lá no camarim, um pouco antes do show.

Clara deu um suspiro profundo e sorriu para David. Agora ela estava mais calma. Jack não tinha pirado, ele estava só agindo como sempre. Tudo estava sob controle.

David e Clara voltaram para a sala de estar e Jack puxou-a para sentar-se ao seu lado no sofá. Mas logo, o almoço que David pediu chegou e todos estavam ao redor da mesa, na sala de jantar.

Como David havia previsto, Jack passou para os sucos e também foi moderado na comida. Com o passar das horas, ele parecia estar entrando em um ritmo diferente, ia aos poucos ficando mais quieto, parecia perdido nos próprios pensamentos, mas na verdade apenas se concentrava naquilo que faria mais tarde.

Depois do almoço todos foram para a suíte de Jack, Keith queria mostrar a David uma ideia melódica que estava desenvolvendo no piano a partir de um truque que aprendeu diretamente de um velho pianista de blues de New Orleans.

A sala se encheu de olhos brilhantes, Jack parecia nem respirar observando as mãos encarquilhadas de Keith correndo sobre as teclas do piano em uma irresistível levada de blues.
Era mais uma daquelas coisas que ela sempre sonhou e que agora estava vivendo. Ela levantou-se de onde estava e foi na direção de Jack, que estava parado, de pé, ao lado do piano e pegou-o pela mão. Jack puxou-a, abraçou-a e beijou sua cabeça; ainda com os olhos fixos nas teclas do piano, como se Keith estivesse dividindo com ele um segredo importantíssimo sobre o funcionamento do universo.

David sentou-se ao lado de Keith, no banquinho do piano e os dois passaram a trocar técnicas. Ron Wood e Michael Silver logo foram buscar guitarras acústicas e Jack trouxe sua gaita. A jam estava formada e eles ficariam uma boa parte da tarde tocando velhos blues.

Quando Keith e Ron começaram a cantar, Clara definitivamente estava no céu e apenas sentou-se em um dos sofás observando quietinha, as lágrimas brotavam no canto dos olhos, mas eram discretas e não tiraram a atenção de ninguém da música maravilhosa que estava sendo feita ali.

A tarde seguiu doce, para ela tudo estava tão perfeito que ela desejava que o tempo parasse naquele instante para sempre. Uma onda de carinho a invadia novamente ao perceber que seus dois grandes amores estavam com ela na mesma sala, de um palácio luxuoso de Paris; a música e Jack Noble.

Mas o tempo continuou correndo e logo cada um dos presentes já havia partido para sua própria suíte com a ideia de preparar-se para o grande evento do dia e ela estava mais uma vez sozinha com Jack. Ele, por sua vez, estava muito quieto, sem camisa, no terraço com o olhar perdido no horizonte ensolarado de Paris. Clara aproximou-se e apenas encaixou-se em seus braços, respeitando seu silêncio.

Vendo-a perto, ele aproximou-se ainda mais pressionando seu corpo contra o dela, empurrou-a contra o muro e a beijou com paixão; além do amor, aquele beijo trazia para ela uma sensação estranha, como se fosse a última subida para a superfície de alguém que se afogava em seu desespero por apenas um pouco de ar.

- Jack, acho que precisamos nos preparar para sair. Lembra que eu estou ao seu lado, não importa o que aconteça, estou aqui para você. - disse acariciando o rosto de Jack e olhando em seus olhos.

- Eu vou ficar bem, amor. Pela primeira vez eu sinto que posso subir naquele palco hoje e que isso será bom para mim, não vai doer tanto porque você vai estar lá e depois daquilo tudo a gente volta para cá e tudo estará curado. Você fez isso comigo!

- Então vamos, amor. Está ficando tarde. Não quero que você se atrase. Além disso, meu lado jornalístico quer muito ver o U2 no palco.

- Em que parte do corpo fica esse lado jornalístico? - perguntou Jack tentando tirar a roupa de Clara.

- Vem amor, já para o banheiro, vamos tomar banho que lá eu te mostro...

E Clara puxou-o até o banheiro, onde os dois se despiram e entraram na banheira. Ela queria cuidar especialmente dos cabelos de Jack, lavou-os, passou um creme que os deixaria ainda mais vistosos. Queria que os milhões de pessoas que veriam o show daquela noite o vissem com seus olhos apaixonados.

Depois Clara secou cuidadosamente os seus cabelos, apertando-os entre os dedos para manter o formato dos cachos e passou hidratante por todo o seu corpo, massageando-o. Os dois então caminharam até o quarto, onde ela escolheu suas roupas e ajudou-o a vestí-las. Um black jeans, botas pretas de bico fino e uma camisa preta. Pulseiras, anéis e o japamala de jade no pescoço, para proteção, completou o figurino.

Clara vestiu-se com uma bata branca indiana, sobre uma camiseta regata também branca. Calça jeans skinny, botas de cano alto e salto agulha e um cinto largo fazendo cintura na bata para afastar qualquer possibilidade de comentários maldosos. Colares e pulseiras indianos, brincos de argola, maquiagem e um perfume discreto. Os cabelos presos em um rabo de cavalo, amarrado com um lenço colorido.

Na hora de ir para o show, Michael bateu na porta, desceriam todos juntos e iriam até o Palais em limusines. A equipe foi reforçada por um grande número de seguranças e batedores. Clara sentia-se vivendo um momento histórico, quando entrou na limusine no subsolo do hotel de mãos dadas com Jack. Junto com eles, o carro, o motorista e dois seguranças.

Ela não sabia se era o ar condicionado do carro, mas sentia frio e suas mãos estavam geladas. Jack pegou a garrafa de uisque no bar do carro, serviu um copo para ele e outro para ela.

- Você está tão gelada... Vou te esquentar um pouco.

Continua

Nenhum comentário: