27 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXII


Jack e Clara deixaram seus celulares prontos para despertar bem cedo, às seis da manhã já estavam prontos, subindo na limusine, com sua bagagem já guardada no porta-malas.

O voo partia às nove, mas precisavam chegar com antecedência ao aeroporto por causa dos infinitos procedimentos de segurança que tornavam as viagens uma verdadeira maratona de paciência. Tudo era ainda pior nos Estados Unidos, mas a Europa não ficava muito atrás, perguntas, revistas, tirar sapatos, cintos, jóias. Definitivamente nada de divertido havia sobrado nas viagens de avião.

Clara e Jack estavam indo mais cedo, enquanto o restante da equipe, que iria direto para Londres, embarcaria mais tarde.

Quando os dois finalmente chegaram à sala vip, algumas pessoas vieram pedir autógrafo ou fotos para Jack e mais ainda naquela manhã de domingo, já que na última sexta-feira à noite, o programa de TV que haviam gravado, tinha ido ao ar e com uma grande audiência. Jack continuava atendendo a todos com um sorriso no rosto e existia agora uma expressão de paz que Clara nunca tinha visto antes.

Um casal de brasileiros em lua de mel pela Europa reconheceu Clara na sala de conexão de Heathrow e fez questão de vir cumprimentá-la. Disseram que viram o programa de TV e ficaram muito felizes quando descobriram que a namorada do grande Jack Noble era uma brasileira, como eles.

Os dois conversaram um pouco com os brasileiros, mas o voo para Paris foi chamado e Jack puxou Clara pela mão através do finger até o avião, imaginando se o resto da banda já estaria por lá.

E já estavam. Ocupando a maioria dos assentos da primeira classe, os casais Mersey e Silver fariam companhia ao futuro casal Noble naquela curta viagem de apenas uma hora. Paul Clarke, o novo baterista, viajava na economica, junto com a equipe de roadies. Logo o avião partiu e todos estavam livres para caminhar na cabine, incluindo o piloto do avião que fez questão de vir cumprimentar seus passageiros ilustres.

O seis estavam sendo observados de perto pelo apresentador de TV que havia entrevistado Jack em Londres na quinta-feira e Clara sentiu que aquele não era exatamente o ambiente em que podia conversar com Cindy ou Jennifer sobre o episódio com a groupie americana, nem qualquer outro detalhe mais íntimo.

Mas o avião chegou rápido e existiam três limusines esperando por eles na pista, batedores da polícia e carros de apoio com seguranças. Aquele era um retorno à cena em grande estilo de uma das maiores bandas de rock que o mundo já viu.

Clara sabia que aquilo poderia acabar com o humor de Jack e dentro da limusine, ao invés de olhar para o lado de fora, ainda na rodovia que ligava o aeroporto Charles de Gaulle à cidade, ela não tirava os olhos dele e já tinha percebido uma mudança significativa, estava nas nuvens no aeroporto em Londres e agora, parecia estar sendo engolido por aquela neblina misteriosa de dor que sempre surgia quando alguém falava da banda.

Clara puxou a cabeça de Jack para seu ombro, segurou sua mão e a beijou. Jack aninhou sua cabeça no peito de Clara e ela passou a acariciar seus cabelos e a beijar sua cabeça, dizendo: - Eu te amo, não se preocupe com nada, estou aqui para você.

- Eu vou ficar bem, mais um pouquinho aqui no meu "ninho" e serei um homem renascido, você vai ver!

- Hum... Estava aqui pensando, você não pode ir comigo no Jean Paul, você não pode ver meu vestido de noiva antes do casamento!

- Mas eu não quero te ver vestida, eu nunca quero te ver vestida! – sussurrou Jack em seu ouvido.

Clara começou a rir e o beijou suavemente. Havia espantado a sombra de tristeza para longe e agora ele colocava os dois braços ao redor dela enquanto Paris começava a surgir radiante nas janelas do carro.

A limusine já se aproximava do hotel, o George V era um dos mais caros e luxuosos de uma cidade onde até as coisas mais simples podiam ser bem mais caras do que em outros lugares. O prédio era antigo, do início do século XX, mas dentro dele os hóspedes tinham acesso a todos os recursos mais modernos.

Todo o primeiro andar estava reservado para os artistas que participariam do show da UNICEF. Jack e Clara ficaram na suíte 1020, com um terraço com vista para a fonte das Três Graças. Atrás das portas duplas, um luxo inacreditável, espelhos com molduras douradas, tapetes orientais, mármores, ouro nas maçanetas e nas torneiras, lustres de cristal, um enorme piano de cauda; tudo indicava que estavam dentro de um palácio.

Assim que os dois ficaram sozinhos na suíte, Jack pegou Clara pela mão e levou-a até o banheiro todo de mármore onde existia uma enorme banheira: - Nossos banhos serão bem melhores enquanto estivermos nesta cidade, o que você acha? – disse Jack já tirando a camisa e abrindo as torneiras.

- Jack, você tem certeza que nós temos tempo para isso? Não vamos almoçar antes de ir ao atelier do Jean Paul? A Cindy...

Jack pegou Clara no colo e levou-a até a enorme cama e começou a tirar sua roupa, mas quando apenas haviam começado, a campainha da suíte soou.

- Jack, pára, deve ser a Cindy.

- Fica bem quietinha que ela vai embora.

- Não podemos! Jack, eles vieram até aqui por causa do nosso casamento, lembra?

- Está bom, mas você vai ter que compensar tudo isso na volta, só vou sair desta cama na hora de subir no palco...

- Por mim está combinado! Mas você vai fazer uma coletiva e terá que fazer soundcheck e sessão de fotos também.

- Eu sei, droga!

Clara levantou-se, ajeitou a roupa, deixou Jack deitado na cama e foi abrir a porta da suíte; eram Jennifer e Cindy que vieram conversar com Clara sobre a ida ao atelier após o almoço, que seria servido na suíte de David.

- Oi meninas!

- Oi Clara... Viemos dar uma olhada na sua suíte.. As nossas também são incríveis! Poxa, a nossa não tem piano.

- O piano não é nada, você precisa ver o banheiro todo de mármore, com uma banheira gigante, parece uma piscina!

- Nós estaríamos dentro dela agora, se vocês não estivessem aqui. – disse Jack perto do bar, sem camisa, derramando uísque em um copo.

- Não queremos atrapalhar vocês, vamos indo Jennifer? – disse Cindy com os olhos arregalados, puxando a amiga de volta à porta.

- Não, vocês não vão embora. O Jack vai se comportar, vamos nos arrumar e ele vai pedir desculpas a vocês. Não vai, amor?

- Vou sim, desculpa senhoras! Já vamos nos preparar.

Cindy e Jennifer saíram da suíte e Clara sentia que sua segunda briga com Jack estava prestes a acontecer

- Ficou maluco, é? São nossos amigos, você não pode tratar nossos amigos desse jeito.

- Posso sim!

- Não pode, Jack! Você não tem direito de tratar ninguém assim! Vou me trocar de roupa, nós vamos almoçar e depois vou para o atelier do Jean Paul e só volto para esta suíte quando você se comportar como um ser humano, entendeu?

Ela entrou no quarto e fechou a porta, abriu sua mala e começou a escolher o que queria vestir; quando Jack entrou atrás dela.

- Desculpa amor, acho que fui longe demais. Me senti frustrado porque elas nos interromperam. – disse ele acariciando os cabelos de Clara.

- Vem aqui – disse Clara – Eu também preferia passar meu dia aqui nesta cama, mas nossos amigos estão nos esperando e nós temos pouco tempo para isso agora. Então...

Continuou Clara abrindo o zíper da calça de Jack e os dois se entregaram novamente ao fogo da paixão, ardendo em desejo e rapidamente se refizeram e se vestiram.

O sorriso voltou aos lábios de Jack e Clara sentia seus joelhos ainda enfraquecidos enquanto caminhava pelo corredor do hotel rumo a suíte 1030.

Eles chegaram a porta da suíte tocaram a campainha e logo David abriu a porta. Clara passou rapidamente e foi conversar com suas amigas, deixando Jack falando com David e Michael.

- Desculpa de novo meninas, o Jack teve uma pequena crise de homem das cavernas. Mas dei um jeito nele e agora ele está mansinho. – disse Clara sorrindo.

- Que bom! – disse Cindy rindo. – foi um pouco assustador.

- Para mim, também, Cindy. Precisei dar uma rapidinha com ele, antes de vir para cá. Mas agora ele está feliz!

- Nossa! Amiga! Encarou ele daquele jeito mesmo? – perguntou Jennifer.

- Eu amo aquele homem tão desesperadamente que neste momento estou sentindo falta do corpo dele, de tê-lo nos meus braços.

- Isso é que é paixão! Mas vamos almoçar que o Jean Paul está nos esperando. – disse Cindy.

As três foram até a sala de jantar da suíte e Cindy deu ordens ao mordomo para começar a servir o almoço.

Elas chamaram os rapazes na sala de estar e todos tiveram uma agradável refeição francesa, regada a vinho e finalizada com boas taças de champagne.

Depois as três amigas desceram e foram ao atelier de Jean Paul, usando uma das limusines, enquanto os rapazes se juntaram na suíte de David para assistir a uma partida do futebol inglês, na TV a cabo.

No caminho, Clara teve finalmente a chance de fazer a pergunta que estava em sua cabeça desde Manchester: - Cindy, você já ouviu falar em uma groupie americana chamada Stephanie Jones?

- Stephanie? Tem certeza que é esse o nome?

- Tenho. Minha memória para nomes é muito boa. Não esqueceria assim fácil. Bom, essa mulher veio de Los Angeles e apareceu ontem no hotel lá em Manchester para pegar ingressos para o show e o Jack fez questão de descer no saguão para entregá-los.

- Olha, Clara... Se for a Stephanie Jones que eu conheço, ela não é uma groupie, ela é filha de uma groupie de Los Angeles, tem mais ou menos uns trinta e cinco anos e é filha do Jack.

- Como? Mas eu achei... Ah! O Jack é terrível! Ele podia ter me dito... Eu estava morrendo de ciúmes dele, a gente quase brigou feio. Acho que ele quis me dar uma lição e não falou nada! Para príncipe encantado, o senhor Jack Noble está se mostrando um grandessíssimo manipulador.

- Você nunca ouviu falar da Laura Jones? Ela era modelo e fazia umas pontas em Hollywood e ia atrás do Jack todas as vezes que ele pisava nos Estados Unidos. Foi caso dele por anos e quando a Mary soube dessa filha dele na América, ela deixou ele, foi a primeira grande crise do casamento deles, anos antes do divórcio.

- Meu Deus! Só para eu ficar avisada, você sabe quantos filhos o Jack tem por aí?

- Não tenho a mínima ideia, mas segundo o David, ele tem muitos, inclusive um com uma outra cantora americana que ele namorava na década de 90.

- Ele é maluco mesmo. - disse Clara sentindo-se um pouco mais triste naquele instante. Sua figura de homem perfeito se desfazia sozinha diante de seus olhos.

A limusine parou na porta do atelier e as três desceram. Jean Paul veio encontrá-las na porta de entrada e seguiu com elas até o salão onde fariam as provas.

Uma a uma experimentaram seus vestidos de madrinhas, o modelo seguia o estilo Regency, com grandes decotes quadrados, feitos de seda na cor lavanda, como as rosas que fariam toda a decoração do casamento, um tipo raro de flor que Clara simplesmente amava e que também estariam em seu bouquet.

Depois que Jennifer e Cindy haviam provado suas roupas ainda sem os acabamentos, foi a vez de Clara experimentar seu vestido de noiva.

O modelo tinha duas partes. Um vestido de seda branco, muito leve, quase etéreo cuja saia terminava nas mais belas rendas que ela já tinha visto e sobre ele, uma espécie de capa, que apertava seus seios e se fechava com um broche do tipo camafeu no meio deles, o decote, no caso do vestido de Clara seria parcialmente recoberto pela mesma renda que faria o acabamento da saia. A capa era de veludo branco, com flores delicadas em relevo.

O vestido ainda não estava pronto, faltavam alguns acabamentos, mas assim que se viu no espelho, Clara sentiu-se uma princesa de contos de fada. Os sapatos que também experimentou eram escarpins clássicos, de salto alto, recobertos com o mesmo veludo do vestido.

Nos cabelos, o arranjo também já estava decidido. O penteado imitaria o estilo das mulheres do final do século XVIII, basicamente um coque muito alto, finalizado com pequenos cachos no alto da cabeça. O véu, todo de renda, seria preso no coque.

Jean Paul parecia estar no céu. Suas clientes vip estavam incrivelmente felizes e isso significava que assim que as fotos delas chegassem à mídia muitas outras viriam.

Enquanto as pessoas próximas de Clara na Inglaterra esperavam que Jean Paul terminasse suas roupas, a família de Clara no Brasil já estava pronta para o casamento. Todos os modelos comprados para a festa foram fotografados e tiveram suas fotos enviadas para que ela os aprovasse.

As roupas dos rapazes também estavam prontas, mas Jean Paul sugeriu que eles não se vissem antes, seria uma surpresa dupla, os rapazes e as moças se veriam prontos só na hora do casamento.

Assim que Clara vestiu novamente suas roupas, as três entraram na limusine e partiram de volta para o hotel e quando elas chegaram, eles partiram para o atelier.

Clara estava nervosa, queria muito conversar com Jack e ao menos tentar entender por que ele havia deixado que ela ficasse com ciúmes, quando ele ia só encontrar sua filha.

Repentinamente, Clara lembrou-se de que a imprensa estava atrás dele no pub e provavelmente registrou o tal encontro. Ela pegou o notebook na mala e começou a revirar a internet. Encontrou uma foto de Jack ao lado de uma loura muito bonita, de olhos azuis. A manchete do tablóide era: "Após anunciar casamento publicamente, Jack Noble encontra-se com loura misteriosa."

No texto o repórter dizia que a noiva de Jack Noble teria saído e que sua ausência foi aproveitada pelo músico para conversar com uma linda loura americana que o havia visitado no hotel.

Apesar de Jack ter voltado rapidamente para o hotel, para Clara foi uma longa espera. Ela colocou a página do tablóide nos favoritos e fez uma pesquisa na internet com os nomes da filha e da groupie que as suas amigas haviam dito.

Encontrou apenas uma página no Facebook onde descobriu que Stephanie era formada em psicologia na UCLA e morava em Los Angeles.

- Olá, meu amor! Já cheguei! Vamos aos nossos planos interrompidos?

- Oi Jack, que tal a roupa?

- Só mesmo por você irei vestir aquilo, mas você sabe que até que eu gostei?

- Lindo! Amor vem aqui um instante, quero te fazer uma pergunta.

- Certo, aqui estou!

Clara abriu a página do tablóide e mostrou a Jack.

- Por favor, não fica puto... A Cindy me disse que essa moça é sua filha. Isso é verdade?

- É.

- Então por que você quis que eu achasse que era uma groupie?

- Eu não quis nada, Clara. Lembra? Eu só disse que ia encontrar alguém no saguão e você foi preenchendo os vazios com informação da sua cabeça. Eu só não parei para explicar.

- É que agora eu estou me sentindo péssima! Eu gostaria de ter conhecido sua filha.

- Nós não somos próximos, eu apenas ajudei a mãe dela financeiramente para criá-la e de tempos em tempos ela ou a mãe dela me visitam.

- Existem mais filhos com fãs e groupies por ai?

- Sim, do meu conhecimento são mais dois e tenho um outro filho com uma cantora que namorei na década de 90; com meu filho que você já conhece, minha filha que se mudou para os EUA e finge que eu não existo; bom, são 6 ao todo. Você ainda quer casar comigo?

- Eu quero sim! Mas confesso que fiquei preocupada por você ter me deixado pensar uma porção de coisas, quando a gente vai se casar e não cabem mais tantos segredos.

- Vou ser completamente sincero com você, Clara. Eu não gosto de ciúmes, sou da política do viva e deixe viver. Não vou ficar pulando de cama em cama por aí enquanto estiver casado, mas você sabe que nunca fui nem posso ser nenhum santo. Eu já disse que te amo e eu sei que você me ama. É só disso que a gente precisa.

Clara sentia mais uma vez aquela sensação de que seu "homem ideal" desaparecia e ela ainda não tinha muita certeza do que sentia pelo homem real que começava a substiuí-lo.

- Não é só isso, Jack. Eu acho que nós precisamos também respeito, consideração um pelo outro. A fagulha do desejo vai diminuindo com o tempo, eu sei; mas o respeito, o carinho, estas coisas nunca morrem, nem diminuem. Eu sei que o que você sente por mim é mais do que desejo e até acho isso estranho porque mal nos conhecemos ainda, nem tive tempo de saber como você gosta do seu café...

- Eu prefiro chá...

- É disso que eu estou falando! Eu estou confundindo desejo e admiração com amor e você é um homem doce, que está muito confuso por causa de uma coincidência maluca que...

- Confuso? Eu? Clara, olha para mim agora e me escuta... Você acha que a esta altura da minha vida eu faria tudo o que estou fazendo só para transar com alguém? Se fosse esse o caso, Menininha, o Michael já teria te despachado naquela reunião em Nova York. Bem antes de você nascer, eu já lidava com mulheres me querendo desesperadamente, só porque eu era o cara da Crossroads...

- Então por que não me despachou? Isso tudo é sobre poder, não é? Eu sou a menininha boba do terceiro mundo que pode fazer o "tour" pela vida do Jack Noble, mas nunca irá conhecê-lo de verdade porque ele não contará nada para ela, nem mostrará o que realmente importa porque ela é mesmo só mais uma fã idiota que ficará hipnotizada pelo ouro nas maçanetas do hotel e te deixará em paz para continuar com a vida que sempre teve. Não é?

- Não! Você não entendeu nada... Está muito mais perdida do que imagina e não escuta o que estou te dizendo porque já tirou todas as suas conclusões pelo que você acha que está acontecendo, você não acredita nem em você mesma, está sempre achando que existe algum motivo oculto para tudo o que faço. O que você não entendeu ainda é que sou transparente, não tenho motivos ocultos e se ainda não te contei tudo, absolutamente tudo, foi por medo de te assustar demais e você fugir por aquela porta, me deixando aqui, sozinho...

- Mas você é tão feliz sozinho. Tem sua música, suas amantes, groupies, fãs, a estrada e tudo isso que nem sei o nome, mas que é certamente muito melhor do que uma garotinha ingênua e perdida.

- Nada disso importa, de verdade! - Jack respondeu com um tom tão triste que interrompeu até a irritação crescente de Clara.

- O que?

- Vou te contar o que acho disso tudo. É tudo bobagem. Sempre tive tudo isso em minhas mãos e mesmo assim chorava todas as noites porque sentia falta da minha mulher e dos meus filhos que tinham ficado em casa. Tinha as drogas como distração e consolo e mesmo assim, me sentia um lixo... Nada importa para mim, a não ser isso que a gente tem. Mas você está buscando desculpas e razões que não existem a não ser na sua cabeça para diminuir o que está acontecendo entre nós. Por
quê? É tão impossível assim que eu te ame de verdade e saiba separar amor de desejo?

- Não. - disse Clara tentando segurar as lágrimas, que escorriam grossas por seu rosto - Jack me escuta agora. Para mim é muito intenso, muito forte e por isso me amedronta demais.

- Medo? Por que? Do que?

- Da intensidade do que eu sinto, da necessidade de estar com você o tempo todo; nunca precisei de ninguém na vida quanto eu preciso de você. - Clara tremia e chorava muito neste instante.

- Vem aqui, menininha... não consigo ficar longe de você - disse Jack aproximando-se e a abraçando. - Me deixa te mimar e tirar dessa tua cabeça esse monte de bobagens que você fica imaginando sobre o que eu sinto por você.

Jack a beijou e secou suas lágrimas. Puxou-a para dentro do quarto e os dois sentaram-se na cama, apenas olhando um para o outro. Ainda choravam e secavam as lágrimas um do outro com as mãos. Jack acariciava os cabelos de Clara e puxava sua cabeça contra seu peito, para que ela descansasse. Ela o abraçou e começou a beijar seu peito e pescoço. Jack a segurou forte nos braços e disse: - Eu estou aqui para você, menininha. Sempre!

E os dois passariam o que restava da tarde abraçados, não fosse o celular de Clara tocando insistentemente. Ela levantou-se e foi buscar o telefone na bolsa. Era Cindy perguntando se eles gostariam de jantar todos juntos e que Mick Jagger tinha ligado e ia se juntar a eles, com a sua nova namorada, uma modelo de nome estranho, que Clara não conseguia repetir.

- Vamos, Jack? - perguntou Clara, enquanto passava as mãos em seus cabelos.

- Vamos! Claro que vamos.

- Ok Cindy... nós vamos sim. Traje formal? - perguntou rindo.

- Sim, é nossa chance de usar tudo aquilo que compramos e jantar com homens bem arrumados uma vez na vida, não? - respondeu também rindo

- A que horas será isso?

- Nove! É o horário que o David marcou com o Jagger.

- Ótimo, então terei tempo de me arrumar um pouco. E cuidar do meu noivo, como ele precisa ser cuidado. - disse para Cindy, enquanto olhava Jack nos olhos e sorria.

- Gostei dessa parte... será que isso envolve um longo banho de banheira? Alguns incensos, hidratantes e coisinhas em geral?

- É pelas coisinhas em geral que faço isso... tomamos banhos demais às vezes, grandão! - respondeu Clara beijando-o.- E vou cuidar dos seus cabelos! Ah! Vou perguntar pessoalmente para o Mick Jagger qual é o xampu que ele usa, porque o cabelo dele é maravilhoso, você já reparou?

- Não me leve a mal, mas nem sei do que você está falando... não costumo ficar olhando para os cabelos dos meus amigos ou colegas músicos.

- Vem grandão, vamos para a banheira então... vamos colocar a mesma roupa de Nova York. Você coloca seu terno preto e eu coloco meu vestido preto com o sari, que você vai me ajudar a vestir.

- Mas primeiro vamos tirar e isso sempre me deixa ainda mais feliz do que vestir...

- Aposto que deixa... vem, vamos estreiar nossa banheira de mármore...

Depois de algum tempo relaxando dentro da luxuosa banheira, Clara lavou cuidadosamente os cabelos de Jack, usando o creme que havia comprado em Londres para hidratar.

Os dois saíram do banho, secaram os cabelos e arrumaram-se muito bem para o jantar com os amigos.

Clara prendeu os cabelos com palitos japoneses, maquiou-se, colocou o vestido preto e foi ajudada por Jack para vestir o sari vermelho. Depois vestiu o colar, os brincos e ajudou Jack a arrumar-se.

- Vamos? Nem acredito que vou jantar com o Mick Jagger... É um sonho que está se tornando realidade.

- Não chega muito perto... Ele é um cara muito sacana e vai querer te pegar se você deixar.

- Não acredito que você está com ciúmes. Não estou interessada nele, mas ele é um cara que eu sempre sonhei em conhecer, só isso.

- Está bom... mas chega. Vamos lá jantar, que estarei de olho...

Eles seguiram pelo corredor e tocaram a campainha da suíte de David. Um mordomo do hotel abriu a porta e Clara cumprimentou todos e Jack novamente a apresentou a Mick Jagger, agora como sua noiva.

A noite foi muito agradável, com as conversas mais variadas possíveis, Donietska, a modelo russa que estava com Jagger era conhecida de Jennifer e logo o grupinho se dividiu em dois, com as mulheres falando sobre os planos do casamento e os homens falando sobre futebol e música.

Clara algumas vezes parecia perder a concentração, olhando a cena para ela, surreal; três quartos do Crossroads e Mick Jagger juntos dentro de uma suíte do luxuoso Hotel George V, em Paris, conversando, e ela a poucos metros deles.

- Nossa, que anel lindo! É da coleção nova da Tiffany, não é? – perguntou Donietska.

- Sim, ele me lembra os olhos do Jack, aqui, como a luz não está muito forte ele fica dourado e onde tem mais luz fica azul.

- Ah! Que lindo! Vi a entrevista de vocês na sexta feira. Que história maluca, você vai para Nova York para assinar um contrato e acaba se casando com o Jack Noble! Loucura, não?

- É, foi estranho mesmo. Até agora não acredito no que está acontecendo. Parece um sonho.

De repente, Mick Jagger veio na direção de Clara: - Então você é a garota que escreveu aqueles livros sensacionais? Eu li todos e adorei. Você não planeja escrever mais?

- Nossa! Obrigada! Que bom que você gostou! – disse Clara tentando conter a euforia que estava sentindo por estar sendo elogiada por um dos seus maiores ídolos. - Devo retomar a série logo, ainda não escrevi sobre os Beatles, por exemplo.

- Hum, genial! Não sei se você sabe, mas tenho uma produtora de cinema e nós andamos cogitando filmar o "Sympathy for the Devil", vamos mandar uma proposta para vocês, queria que fosse analisada com carinho. Você faz questão de participar da adaptação do roteiro?

- Sempre tive essa vontade de controlar tudo, mas não sei se vou conseguir dar conta. Adaptar um roteiro não é muito fácil, toda hora vemos filmes horríveis feitos a partir de bons livros, mas minha vida está mudando tanto ultimamente que não sei se posso assumir esse compromisso. Mas não abro mão de ao menos aprovar essa adaptação; não conseguiria ficar sem acompanhar de alguma forma o que está sendo feito.

- Faz bem! Não dá mesmo para confiar. Vou mandar meu pessoal falar com o seu, então.

- Ótimo! - respondeu Clara com vontade de pegar o celular e ligar para Jonas aos berros! Mick Jagger quer filmar meu livro! O que pode ser melhor do que isso?

Jack, percebendo que Clara conversava com Jagger aproximou-se dela e a abraçou; estava "marcando território", deixando claro para ele que ela tinha dono.

David e Michael também se aproximaram e a conversa passou a ser novamente em grupo. Os Rolling Stones foram convidados para uma participação no show da UNICEF e também estariam hospedados no George V a partir da segunda-feira.

A conversa foi madrugada adentro regada a muito champagne e uísque. Clara e Jack estavam bem altos quando voltaram para sua suíte com o dia já avermelhando o horizonte.

Eles dormiram rápido e depois de apenas duas horas de sono, Clara acordou. A manhã ainda estava fresca, mas ela fez questão de sair na sacada, precisava respirar pois tinha a sensação de que podia explodir a qualquer momento.

Era muito cedo para ligar para o Brasil, então pegou o notebook e escreveu um e-mail para Jonas alertando-o sobre o interesse da produtora de Mick Jagger em filmar sua história. Tinha bebido muito champagne na noite anterior, mas os detalhes daquela conversa brilhavam em meio a uma densa névoa alcóolica.

Estava usando apenas uma camiseta de Jack que pegara no quarto escuro e começou a sentir frio, então voltou ao quarto, pegou um roupão no banheiro e vestiu-se. Jack havia acordado e a procurava pela imensa suíte.

- Bom dia, princesa! - disse ele ainda nu, fazendo uma mesura.

- Olá meu amor! - respondeu Clara rindo.

- Já trabalhando? - perguntou Jack apontando para o notebook.

- Estou avisando o Jonas sobre o interesse da produtora do Jagger na adaptação da história. Não consigo me conter, estou no céu desde ontem, sabia?

- Quer dizer que nada do que este corpinho aqui faz te interessa, você prefere aquele...

Clara riu e foi na direção de Jack balançando a cabeça. - São dois tipos de céus diferentes. Duvido que o corpinho do Mick Jagger seja assim, tão...

- Tão?

- Vem cá, vem... - disse Clara beijando-o com paixão, tirando o roupão e puxando-o de volta para a cama. Aquela segunda-feira ensolarada tinha começado muito bem para Clara.

- Jack, o que vamos fazer hoje?

- Tem uma entrevista coletiva à tarde e depois uma sessão de fotos com todo o elenco do show. Mais tarde vamos fazer um programa de rádio. Chatice o dia todo, mas pelo menos temos até a hora do almoço para descansarmos um pouco.

- Ah! Ah não! Droga! A Cindy me convidou ontem para fazer compras, vamos nós três e a Doni..., a namorada do Mick Jagger - disse Clara lembrando repentinamente o que havia combinado com as amigas.

- O Mick vai dar uma canja no nosso show. Estamos incluindo "Crossroads" no set e ele vai cantar enquanto eu toco gaita... Vai ser muito bom!

- Meu Deus! Vai ser demais! Não vejo a hora!

- Nós vamos ensaiar isso hoje, mas nem sei quando, nem onde.

- Não vou ficar com você hoje, amor. Vou sair com minhas amigas, lembra? Gastar dinheiro...

- Ainda bem! Não gosto de te ver perto do Jagger.

- Eu também te amo! - disse passando a mão nos cabelos de Jack. - Estou com fome, você não está?

- Vamos pedir um cafá da manhã, então: chá, torradas, manteiga, queijo, presunto, melão e suco de laranja?

- Boa memória... quero croissants também desta vez! Dizem que são divinos aqui.

- Hum... Croissants? Ok! - disse Jack com o telefone na mão repetindo o pedido para o serviço de quarto.

- Vamos nos vestir, antes que eles cheguem. - disse Clara pegando as roupas que estavam espalhadas pelo quarto inteiro.

- Não se preocupe, pedi para eles servirem o café na sala de jantar. Vem aqui ficar mais um pouquinho comigo. Estou carente e vou passar o dia no meio dos lobos.

- Tadinho... - disse Clara deixando as roupas que havia recolhido sobre uma cadeira e voltando para a cama.- Você quer que eu vá com você?

- Não precisa, não quero atrapalhar os planos que você fez com suas amigas. É Paris! Vai lá gastar dinheiro, amor.

- Não Jack! Sei reconhecer um pedido de socorro quando ouço um. Se você me quer junto...

- Melhor não... Ou os rapazes vão começar a te chamar de Yoko.

- Ok! Mas se precisar de alguma coisa, me manda um texto, que vou correndo para você, está bem?

- Hum... E eu não sei o que dizer, nunca uma mulher se ofereceu para me salvar dos lobos antes. Mas acho que desta vez vou ter que enfrentá-los sozinho!

Clara abraçou Jack e beijou-o no topo da cabeça. Estava preocupada, não sabia o que alegar para acompanhá-lo, mas lembrou que tinha a desculpa mais perfeita do mundo. Como biografa de Jack, ela precisava estar por perto e por isso, iria sim na coletiva de imprensa.

- Jack, quer saber? Não tem nada que me impeça de ir pelo menos na coletiva de imprensa. Sou sua biógrafa, não?

- Claro! Mas até ontem você era minha ghost writer, agora é minha biografa?

- Sim, o que direi? Mick Jagger quer adaptar uma das minhas histórias para o cinema, meu passe se valorizou... - Clara respondeu rindo.

- Acho que estarei bem, você não precisa fazer isso. Quando eu voltar te conto tudo! E quanto ao Mick Jagger, a produtora dele é de segunda linha... Você continua sendo só uma ghost writer, minha ghost writer!

- Ok! Mas vamos nos vestir agora e pensamos melhor nisso enquanto tomamos nosso café.

Os dois levantaram, tomaram banho e foram para a sala de jantar tomar o café da manhã. Clara agora queria convencê-lo de qualquer maneira a deixá-la ir junto; estava com medo, sabia que a imprensa cairia na pele dele como nunca.

O teimoso, que tinha resistido por 30 anos, a todo tipo de proposta, crítica, insulto, ridicularização defendendo com firmeza e dignidade a sua posição, tinha mudado seu discurso para: "Minha mulher quer ver minha banda junta novamente, ela nunca teve essa chance e resolvi que essa era uma boa razão para voltar." Ele será massacrado! Não posso deixá-lo sozinho!

Pegou o celular e levou-o até o banheiro, queria conversar com Cindy, ver se ela tinha alguma ideia.

- Cindy, é o seguinte, preciso ir com o Jack na coletiva, não quero e não posso deixá-lo sozinho! Aquela coletiva será um ataque de lobos sobre ele.

- Também acho, Clara... mas mesmo que você vá até lá e fique segurando a mão dele o tempo todo, os lobos vão atacá-lo e vai ser difícil e ele precisará defender-se, lutar com suas próprias armas.

- É, mas quero estar perto dele.

- Mas não vai adiantar. Quer saber? Ele sempre fez isso muito bem, ele está na estrada há mais de 40 anos, acho que sabe enfrentar um bando de jornalistas carniceiros. É só uma coletiva, Clara. O David diz que coletivas são só para jornalistas inexpressivos.

- Está bem, então. Não posso fazer nada mesmo. Vou sair com vocês então!

- Que bom! Vamos fazer compras, passear o dia todo por Paris. Busca em você esse lado que curte essas coisas, roupas, sapatos, coisas lindas... Ah! Você vai se casar daqui uns dias, não quer nem comprar umas lingeries para a lua de mel? Vamos, você vai gostar!

- Vou sim... Espero que o Jack consiga defender-se dos lobos, então.

- Ele vai se sair bem, desencana.

- Bom, vou voltar para a sala de jantar. Daqui a pouco a gente conversa mais.

Clara saiu do banheiro e foi até a sala de jantar, onde Jack estava conversando no celular, aparentemente com David.

- A coletiva está marcada para uma da tarde, o David acabou de confirmar, nós vamos para lá ao meio-dia e só volto quando tudo terminar, lá pelas nove da noite.

- Ah! Queria tanto passear com você pela cidade. Droga! Não acredito que estou em Paris de novo e não vou ficar com você!

- A gente se encontra aqui de noite. Você cuida de mim depois que tudo terminar. Vou precisar muito de você para me escutar depois.

- Eu te amo, Jack. Agora vamos escolher uma roupa bonita para que todo mundo fique tão apaixonado por você, quanto eu.

- Ah! Eu comprei esses colares junto com aquele bracelete de prata que eu te dei outro dia; tinham sumido na mala, mas agora achei. Acho que estes ficariam lindos em você.

- Lindos mesmo, amor! Já sei! Camiseta branca, colares, calça jeans detonada, botas de cowboy.

- Você fica lindo assim, dá um ar de vulnerabilidade e sensibilidade e destaca esses seus olhos azuis que eu amo tanto. Vai ficar lindo nas fotos.

- Hum... Espera Jack... Tive uma ideia. Meu japamala, de jade... Põe no pescoço, ou no bolso e ele vai te proteger e eu vou estar espiritualmente com você.

- Oh, meu amor! Obrigada! Você não sabe o quanto isso significa para mim. Vou usar no pescoço.

Os dois se arrumaram e logo estavam prontos para sair, Jack e Clara foram para a suíte de David onde todos já estavam prontos apenas aguardando a chegada de Michael Peters e de Charles Hutton, para irem até o Palais des Sports onde aconteceria a coletiva e o show no dia seguinte.

Quando tudo estava pronto para saírem, Clara puxou Jack para um canto e repetiu mais uma vez: - Se precisar de mim, me chama. Vou correndo para você.

- Calma, Clara. Tudo vai dar certo. Agora o Jack está fazendo o que eles querem. – disse Cindy

- Deus te ouça!

Clara, Jennifer, Cindy e Donietska foram às compras. De limusine, elas foram às lojas mais sofisticadas de Paris e passaram o dia entre roupas, sapatos e acessórios.

E como Cindy havia sugerido, também foram a uma loja incrível de lingeries. Clara comprou algumas peças, incluindo um conjunto branco de underwear com espartilho para usar sob o vestido de noiva, meias sete oitavos e cintas-liga.

Além disso, comprou uma linda camisola longa, que poderia tranquilamente ser confundida com um vestido de festa, para a noite de núpcias.

- Onde vai ser a lua de mel de vocês? – perguntou Donietska.

- Na casa de campo do Jack. Temos só três dias e não vamos perder tempo viajando por aí.

- Ah! Que pena! Vocês podiam ir para Barbados, o Mick tem uma casa espetacular lá. Será que não dá para ficar mais tempo? Tenho certeza que o Mick empresta a casa para vocês. – disse Donietska.

- É a agenda do Jack, depois nós voltamos, ele grava o disco e naquele intervalo que vai ter entre o pós-produção e lançamento, aí sim nós viajamos.

- Ah! Tá! Entendi! E daí para onde vocês vão?

- Ainda não sabemos. Estamos decidindo. O Jack quer ir para Fiji.

- Lindo! Fiji é um lugar incrível, o próprio paraíso.

- Você vai adorar, Clara. As praias são maravilhosas e não tem ninguém em volta para encher o saco. Fui para lá umas duas ou três vezes com o David. – disse Cindy.

Clara apenas sorriu. Naquele momento ela compreendia uma estranha realidade sobre aquele paraíso. Quantas memórias Jack teria daquele lugar, com quantas mulheres diferentes ele teria ido para lá? Repentinamente as tais praias com seus resorts e hotéis exclusivos, para ela, assumiam a aparência de um enorme cemitério de memórias de velhos relacionamentos. Não, definitivamente ela não queria ir para lá. Mas se não fossem para lá, iriam para onde? Para qual lugar do mundo Jack Noble ainda não foi com alguém?

- Que bom! Vamos fazer o que agora? – perguntou Cindy.

- Vamos a um café recuperar as energias, para continuar comprando? - disse Jennifer.

- Para dizer a verdade, acho que tenho uma ideia melhor. Sabe o nosso hotel? Ele tem um spa completo. Que tal se nos jogarmos em uma sessão de massagens, limpeza de pele e aquelas coisinhas todas? – disse Clara.

- Perfeito! – respondeu Cindy – Finalmente você está entrando no espírito do grupo.

A ideia de Clara estava mais relacionada com estar em um lugar quieto, onde pudesse encontrar algum silêncio e tranqüilidade para tentar diminuir a ansiedade que estava sentindo. Na limusine, no caminho de volta para o hotel, as três falavam sem parar enquanto a cabeça de Clara voava para longe. O que será que Jack estava fazendo agora? E os lobos? Será que o atacaram? Ela desejava estar com ele, curar suas feridas, acalmá-lo em seus braços, acariciar seus cabelos até que pudesse cair novamente no sono com um sorriso nos lábios.

O spa acompanhava o mesmo clima de luxo e exclusividade do hotel e isso significava beleza para onde quer que se olhasse. Era um lugar onde até o próprio ar que se respirava parecia diferenciado, perfumado por essências raras e na temperatura certa, o que significava muitos graus abaixo do calorão que o sol de verão promovia lá fora.

Mas de todos os luxos, o maior que aquele lugar oferecia era mesmo o silêncio. Ali ela podia relaxar e preparar-se para qualquer tempestade emocional que Jack poderia estar enfrentando quando chegasse de volta do trabalho e ainda sairia perfumada, com a pele mais macia e com os cabelos mais brilhantes do que nunca.

Quando finalmente estava pronta para ir, Clara olhou-se no espelho e gostou muito do que viu. Mesmo ela, que sempre dava preferência ao conteúdo sobre a forma podia beneficiar-se de alguns cuidados que realmente faziam milagres. Estava comprovada sua teoria de que a cura para a feiúra já havia sido inventada e chamava-se dinheiro.

As quatro subiram para suas suítes e combinaram definir o que fariam mais tarde assim que os maridos chegassem.

Clara tinha seus próprios planos, abriu o computador em busca de notícias sobre o show que aconteceria no dia seguinte e encontrou diversos vídeos da entrevista coletiva e inúmeros artigos sobre a volta da Crossroads.

Leu tudo o que pode rapidamente, viu alguns vídeos e em todos Jack aparentava estar radiante e mesmo sob seus olhos treinados para cada uma de suas expressões, parecia dizer a verdade, nem sinal daquela sombra que o havia invadido tantas vezes naqueles poucos dias em que estavam juntos.

Fechou o computador, guardou-o e ficou esperando que Jack chegasse no quarto, zapeando pelos canais de TV, ela se percebeu ansiosa novamente por notícias da coletiva. Ele estava demorando e ela já estava começando a desesperar-se.

A porta da suíte se abriu; - Clara? Cadê você? – ela ouviu a voz de Jack, desligou a TV e correu até a sala de estar.

- Você chegou, meu amor! – disse Clara indo em sua direção. – Como foi a coletiva?

- Está aqui! Pedi para o Charles gravar tudo em vídeo para você. – disse Jack entregando um pendrive à Clara.

- Hum! É por isso que eu te amo. – disse Clara. – Mas como você está agora?

- Feliz, suado e com uma fome de leão. Vamos pedir serviço de quarto ou vocês combinaram alguma coisa para esta noite?

- Nós estávamos esperando vocês chegarem para decidir, mas a Cindy fez uma reserva no restaurante aqui do hotel, que é considerado um dos melhores de toda a França para um grupo de oito pessoas.

- Ótimo! O Mick vai jantar novamente conosco. Você não faz ideia de como nosso ensaio hoje foi bom; pedi para o Charles gravar para você também, está no pendrive.

- Lindo! Então vamos trocar de roupa? Vou ligar para a Cindy confirmando... – dizia Clara quando foi interrompida pelo celular.

- Nossa! Será que tem câmeras aqui? – riu Jack.

- Ok Cindy! Estamos nos vestindo... – disse Clara desligando o celular. – Vamos Jack, tudo confirmado.

- Vou tomar um banho rapidinho, quer ir comigo?

- Não, amor, passei o dia no spa do hotel e já tomei meu banho, só vou colocar um vestido que comprei hoje. Ah! E eu comprei umas roupas novas lindas para você, vem comigo.

Clara levou-o ao quarto e entregou-lhe uma sacola com roupas.

- Lindas, amor! Adoro estas cores! Você me vê mesmo! – disse Jack beijando-a.

- Vamos Jack, eles estão nos esperando...

Clara colocou um vestido preto, com um grande decote, com babados ao redor, que havia comprado naquela tarde e colocou os brincos do conjunto de rubis que Jack lhe deu.

Jack vestiu um terno preto, com uma bela camisa e gravata cinza que Clara havia comprado para ele. Combinação perfeita com um par de botas pretas de bico fino, que faziam parte de seu figurino para festas mais elegantes.

Ela prendeu os cabelos de Jack em um rabo de cavalo, enquanto os dela já estavam alisados e arrumados elegantemente.

E os dois seguiram pelo corredor até a suíte vizinha onde todos já esperavam por eles e estava formado um grupo de pessoas elegantes que se destacaria mesmo em um dos endereços mais exclusivos de Paris, descendo de elevador até o térreo, aqueles quatro homens estavam na lista das maiores fortunas da Grã Bretanha e provavelmente juntos teriam dinheiro suficiente para comprar alguns países.

O restaurante chamava-se "Cinq" e tinha a fama de ser um dos melhores da cidade. Só os turistas mais endinheirados podiam freqüentá-lo e mesmo para eles, a visão daqueles quatro grandes artistas, atravessando o salão elegante, era um evento a ser comemorado.

A noite foi animada, champagne, boa comida e Clara de tempos em tempos precisava repetir para si mesma que não estava sonhando.

- Seu noivo estava muito inspirado hoje, Clara. – disse Mick Jagger – o show de amanhã será algo inesquecível.

- Eu sei que vou chorar mais do que um bebezinho. – disse Clara pegando a mão de Jack.

- E quando ela diz que vai chorar, pode se preparar para uma inundação, nunca imaginei que coubesse tanta água em uma pessoa tão pequenininha. – disse Jack rindo.

Jagger apenas sorriu para Clara e disse: - Ele não te entende. Não adianta.

- Entende sim. E já choramos juntos muitas vezes. Está só fazendo tipo agora. – respondeu Clara.

- Faz parte do personagem! – disse Jack piscando para Clara.

- Mas me conta, de onde vieram aquelas histórias todas. Como você teve a ideia de escrever, seu primeiro livro foi o dos Stones, não foi?

- Foi. Estava ouvindo muito Stones na época e um dia acordei com essa ideia de escrever histórias baseadas nas minhas músicas favoritas. O mais estranho é que as histórias surgiram na minha cabeça e eu não tenho a mínima ideia de onde elas vieram. Foi como se elas me invadissem.

- As músicas também fazem isso com a gente, Clara – disse David – quantas vezes já não acordei com uma melodia na cabeça. Tem uma guitarra e um pequeno gravador no meu quarto sempre pronto para esses casos.

- Já nem tento entender. Nem interromper, principalmente – disse Cindy. – ele me acorda, mas sei que não devo atrapalhar.

- Eu já o vi trabalhando com o Jack essas ideias e o processo é impressionante; fico sempre comovida, parece que estou assistindo a algum tipo de evento cósmico como o nascimento de uma estrela. – disse Clara.

- O David deve ser como o Keith. No quarto dele, nem sempre tem uma mulher, mas a guitarra e o gravador estão sempre lá... Ele diz que pega coisas no ar e as traduz, mas tem alguma coisa ali que é inexplicável. Queria que um cientista algum dia estudasse isso. – disse Jagger.

- Acho que qualquer um de vocês seria suficiente para deixar qualquer cientista maluco. – respondeu Clara. – Cientistas não têm sentimentos, eles quantificam, qualificam as coisas. Por isso, não imagino como usar métodos científicos para explicar algo que é puro sentimento.

- Bem, senhores, sugiro levarmos nossa discussão sobre criação musical para nossas suites, porque me parece que o restaurante já está vazio e não é justo mantê-lo aberto apenas para nós. – disse Jack, apontando para o resto do salão.

David fez um gesto discreto para o garçom, mas quem veio na direção da mesa foi o gerente do restaurante agradecendo em francês a nossa presença e dizendo que a conta estava paga, pela nossa ilustre presença lá.

Mick conversou em um francês impecável com o gerente, Jack, David e Michael também participaram da conversa; assinaram um livro de honra e todos subiram para a suíte de David, onde pediram mais garrafas de champagne ao serviço de quarto.

A conversa continuou, mas logo Mick disse que era melhor todos irem descansar porque o dia seguinte seria longo e ninguém ali gostaria de ser fotografado e filmado com aquelas horríveis bolsas sob os olhos que se formavam quando não dormiam por tempo suficiente. E ainda disse que a ideia de Bono Vox, de usar sempre óculos escuros, era a melhor: - Se ao menos aquele bastardo irlandês não tivesse feito isso antes...

A exemplo dos membros da Crossroads, Mick Jagger também era um homem muito inteligente e conversar com ele era um grande prazer.

Assim que Mick foi para sua suíte, Jack arrastou Clara de volta para a deles, dizia que estava muito cansado, mas a verdade é que estava eufórico com tudo o que estava acontecendo e desejava uma comemoração mais íntima. Tanto, que atravessou a sala de estar e o corredor que levava ao quarto sem sequer acender a luz.
Puxando Clara pela mão, ele só parou no quarto, onde os dois se despiram e ficaram juntos na cama, até o amanhecer, que foram assistir do terraço.

Aliás, o dia do show começou tão bonito que Clara foi buscar sua câmera fotográfica e bateu diversas fotos do céu cor de rosa de Paris.

Jack pegou a câmera da mão de Clara, posicionou-a contra aquele céu rosa e tirou uma foto dela, com seu corpo parcialmente coberto por uma toalha, recostada em uma das cadeiras do terraço.

Ela fez a mesma coisa, arrumou Jack contra o céu rosa e fotografou-o seminu. Para ela aquela era a foto mais adorável de todas as que já havia tirado. O homem que amava no momento em que o dia amanhecia em Paris.

De repente, a emoção mais uma vez a invadia e ela caiu em um choro incontrolável, chorava de soluçar, enquanto Jack apenas a abraçava.

Continua

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