26 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XXI


Molhados até os ossos, os dois voltaram ao hotel e subiram para a suíte. Tiraram as roupas e entraram juntos no chuveiro. A água quentinha ajudou-os a relaxar e logo repartiam o secador de cabelos e cuidavam novamente um do outro, com seus cremes e hidratantes. Clara acendeu um incenso e o ar perfumado com sândalo deixou-os ainda mais tranquilos.

Mas eles precisavam deixar tudo pronto para a partida no dia seguinte de manhã para Manchester. Lambert os levaria de carro até o aeroporto, no meio do caminho, um telefonema de Michael Peters mudou um pouco as coisas. A imprensa estava desde cedo fazendo plantão no aeroporto e mesmo com a segurança já reforçada, foi feita uma autorização para o carro de Jack entrar em uma área restrita do aeroporto para não aumentar o caos.

Jack estava um pouco assustado com toda a atenção, que sempre teve de alguma forma durante toda a sua carreira, mas que não alcançava aquele nível há tempos, aquela era uma cena comum no auge da Crossroads, quando a banda tinha até um avião próprio durante as turnês.

Os dois, junto com Michael Peters, chegaram sãos e salvos na primeira classe do vôo 2343 da British Airways para Manchester, sentaram-se juntos e lá comentaram com o empresário sobre toda a confusão. Peters foi até a classe econômica chamar Charles Hutton, o assessor de imprensa e fizeram uma pequena reunião a bordo para
discutir como lidariam com o aumento do assédio.

Charles teve ordens de endurecer as regras para dificultar o acesso aos membros da banda e Michael comprometeu-se em contratar seguranças para esta fase. Na verdade, Michael estava tão preocupado que do avião mesmo já providenciava sua viagem de retorno para Londres para cuidar de tudo, logo após providenciar a licença para a limusine entrar na pista do aeroporto de Manchester para levá-los até o hotel e um reforço na segurança em Manchester.

Aquela situação mudava tudo, significava que ficariam presos no hotel e que daquele momento em diante, tudo seria muito mais complicado.

- Querida, desculpa essa confusão, mas acho que as coisas estarão bem mais chatas do que nós imaginávamos. Estaremos presos entre o quarto de hotel, o teatro e o aeroporto, fugindo de paparazzi, repórteres, fãs e todo o tipo de maluco que você pode imaginar.

- Eu sei Jack... Mas estou bem! Estou tranqüila e como você sabe, já estive do lado de lá da barreira, então não tenho nenhuma razão para ter medo, desde que estejamos juntos.

- Você é linda! Achei que você fosse ficar assustada, reclamar da confusão e querer voltar com o Michael para Londres; mas você está aqui firme e forte!

- Você não vai se livrar de mim assim fácil, Jack! E se a gente não estivesse junto, provavelmente eu estaria no meio daquele povo lá no aeroporto, como fã ou como repórter ligando para o Charles e pedindo entrevista ou a liberação do meu credenciamento para o show de Paris.

- É verdade, a Clara já tinha me pedido algumas vezes uma exclusiva com você na época do lançamento do disco e nós negamos, lembra Michael?

- Viu? Aquilo partiu meu coração sabia? - disse Clara rindo para Charles - Mas o bom repórter sempre consegue um jeito de contornar assessores de imprensa malvados! Agora eu consigo todas as exclusivas que eu quiser com o Jack, não é amor?

- O que você quiser, querida! - respondeu Jack rindo.

Todos riram da piada de Clara, mas ainda estavam bastante preocupados. Aquela era uma outra época onde todos tinham câmeras que publicavam instantaneamente as fotos na internet e um fã que o encontrasse na rua, podia transformar-se em uma multidão descontrolada em questão de minutos.

O voo era curto, com o aviso de que estariam logo pousando, Charles retornou ao seu assento na econômica. A comissária aproximou-se e pediu a Jack para aguardar que todos os passageiros descessem, pois o carro já estaria esperando por eles na pista.

Michael não estava incluído desta vez, por isso seguiu com os outros passageiros até o terminal, já Charles subiu na limusine e ficou feliz em constatar que carros de apoio e batedores de polícia esperavam por eles, como nos velhos tempos.

Manchester era uma cidade grande também, mas estava bem longe de ter o charme e a graça de Londres.

- Agora sim, estou ao lado de um rockstar de verdade! – disse Clara na hora em que chegaram ao hotel e tiveram que passar por uma barreira de seguranças para entrar, enquanto flashes explodiam e repórteres gritavam tentando chamar sua atenção.

Ao entrar, o contratante Anthony Reed e o chefe da segurança local, Claude Thomas, foram apresentados a Jack e Clara; que logo subiram para sua suíte. Luxuosa como de costume, ela tinha acomodações anexas para os seguranças. O restante da equipe, incluindo a banda, estava hospedado em um segundo hotel, mais próximo do teatro.

O show aconteceria naquela mesma noite e Jack queria ir pessoalmente ao teatro fazer o soundcheck, um costume seu de que nunca abria mão. Mas antes disso, Jack foi junto com Clara até os estúdios de uma rádio local para uma entrevista divulgando as duas apresentações que faria.

Mais uma vez o tema das entrevistas foi o show em Paris e o casamento com Clara, que assistiu a tudo quieta, sentada em um sofá em um canto do estúdio junto com Charles Hutton e Claude Thomas.

Depois do show de rádio, eles seguiram até o teatro onde Jack encontrou-se com a banda e subiu ao palco junto com Clara para ver se estava tudo de acordo.

Checava seus tapetes, seus ventiladores e o posicionamento dos teleprompters, aparelhos que eram uma necessidade de sempre para alguém que como ele tinha muitas músicas para escolher e sempre fazia questão de variar o repertório.

Além disso era preciso testar os microfones, os fones do retorno, e a guitarra que usaria para tocar um blues que decidira incluir no repertório no último minuto.

Clara estava tão maravilhada com aquilo que estava ouvindo no ensaio, que puxou seu celular e passou a gravar a performance de Jack com a banda.

Quando reparou que Clara gravava, Jack parou de tocar por um minuto e chamou a banda, pediu uma guitarra acústica e começou a dizer: - Esta música eu fiz para aquela que me trouxe de volta a vida e que daqui a alguns dias me dará a honra de passar a usar meu sobrenome e dividir sua vida comigo. – e logo começou a tocar sozinho "Unexpectedly"

Mesmo com os olhos cheios d'água, Clara continuou gravando e até considerou por alguns momentos colocar o vídeo em seu blog, mas desistiu quando percebeu que isso só aumentaria a fúria da imprensa em cima dela e da banda.

Jack e Clara programaram os celulares para despertar e foram dormir até próximo do horário de voltar ao teatro, com tempo apenas para tomar um banho, vestirem-se e partirem para o show.

Clara sonhou que os dois dormiram demais e quando acordaram, de madrugada, o show foi cancelado e que todo o público do teatro havia caminhado até a porta do hotel e esperava lá fora, que Jack fosse até a sacada do hotel cantar.

Apesar da loucura do sonho, Clara acordou assustada antes do alarme soar e Jack acordou em seguida, com um sorriso nos lábios dizendo que tinha sonhado que estavam transando em uma praia paradisíaca, que ele conheceu no Caribe.

Os dois foram para o chuveiro juntos, não tinham muito tempo, mesmo assim cuidaram um do outro e Clara fez questão de ajudá-lo a secar os cabelos, deixando-os ainda mais bonitos.

Ela então escolheu para ele vestir uma calça jeans velha e bastante desbotada, um par de botas pretas de bico fino e uma camisa preta. Complementando o visual, Clara colocou em seu pescoço seu japa-mala para protegê-lo e um bracelete de prata que havia comprado em Londres há alguns dias, mas tinha perdido dentro de uma das malas.

Para ir ao show, Clara optou por uma calça jeans também bastante desgastada, uma bata indiana cor de laranja, alguns colares, pulseiras, tênis nos pés e pediu que Jack trançasse seus cabelos, o que ele fez muito bem. Fez uma maquiagem leve, apenas para não deixá-la parecendo um fantasma se fosse fotografada e estava pronta
para ir ao show.

Uns cinco minutos antes do horário combinado para a chegada do carro da produção, os dois já estavam descendo para a garagem do hotel acompanhados de seguranças grandes e mal encarados. Entraram na limusine e seguiram para o teatro com batedores rompendo o trânsito na sua frente.

Nestes momentos antes do show os dois ficavam em silêncio, apenas abraçados no banco de trás. O carro entrou no portão atrás do teatro e logo foram encaminhados aos camarins. Michael Peters que já havia ido e voltado de Londres entregou uma credencial à Clara para que ela pudesse ver o show de uma das laterais do palco.

No camarim Jack pegou um copo de uísque e sentou-se em um confortável sofá ao lado de Clara, que bebia champagne. Tudo naquele camarim era idêntico ao do show em Londres e muito parecido com o que encontrou em Nova York. Não precisava nem perguntar, cada detalhe estava certamente descrito no contrato e havia sido providenciado de acordo pelo contratante.

Jack não costumava comer antes dos shows, apenas bebia seu uísque e ficava bem quieto, agarrado a Clara que agora o ajudava a colocar os fones do retorno, aliás uma coisa que estava ainda testando naquela turnê e que provavelmente não faria parte da próxima porque ele não tinha conseguido adaptar-se e reclamava muito toda a vez que o roadie responsável se aproximava e ele tinha que tirar a camisa para pendurar os fios em seu pescoço e prendê-los com silver tape ao seu corpo.

- Clara, me ajuda a colocar essa droga?

Ela olhou para o roadie responsável que explicou como e onde prender os fios e ele ligou tudo, certificando-se de que estava funcionando.

Depois ela o ajudou a vestir novamente a camisa para que tudo se assentasse. Já estava quase na hora de subir ao palco e Jack pegou Clara pela mão, os camarins ficavam atrás do palco e eles agora seguiam por um longo corredor de aparência labiríntica, cuja saída terminava em uma das laterais do palco. Os seguranças estavam ao redor e a banda já estava reunida na área atrás do palco, apenas esperando por Jack, que subiu em silêncio de mãos dadas com Clara.

Ao chegar no fundo do palco, Clara, Charles e Michael seguiram um roadie até a área de onde veriam o show e Jack foi se juntar aos músicos da Princes of New Orleans. As luzes se apagaram e a plateia começou a gritar.

Jack entrou no palco e começava o show que teve uma setlist muito parecida com a apresentação de Londres e mais uma vez, o espetáculo arrebatou a platéia e conseguiu carregar os mais sensíveis para um mundo só dele; que tinha tudo o que o clima do blues evocava, luz e sombra, sexo, amor, alegria e desespero.

Jack não quis participar da festa após o show que a banda havia planejado e assim que saiu do palco, embrulhou-se em uma toalha seca, pegou Clara pela mão e seguiu com ela, pelo longo corredor, passando direto pelas portas dos camarins e entrando na limusine que já o esperava na entrada de serviço do teatro. Em poucos minutos estavam de volta no hotel, subiram direto para a suíte e Clara o ajudou a tirar os fios do retorno, para entrar no chuveiro.

- Então, baby? Gostou do show?

- Muito... você sabe que eu amo sua música e não é a única coisa sua que eu amo. Não sabe? - disse Clara, enquanto tirava a roupa para entrar no chuveiro com ele.

- Estou a sua disposição, meu amor, vem aqui, vem....

E Clara entrou no box com ele e os dois ficariam horas namorando debaixo d'água. Depois saíram, vestiram-se e pediram um jantar, que comeram sentados na cama, assistindo TV.

- Jack, você já escreveu seus votos?

- Ainda não. Você já?

- Já... Para variar, chorei como uma louca.

- Mas você sempre chora. – respondeu Jack rindo.

- É que eu me emociono. – disse Clara tentando explicar. – Não sei mesmo o que acontece, nunca fui de chorar. Mas agora, parece que não consigo fazer outra coisa.

- Ah! Consegue sim! – respondeu cheio de malícia na voz.

- Não é disso que estou falando. É de sentimento mesmo, Jack. Estou preocupada porque sempre que não estou com você é como se o mundo saísse de foco e não existisse nada para mim. Eu sei que isso está errado, eu era auto-suficiente, mas agora não consigo parar de pensar em você, não consigo trabalhar, escrever, fazer Yoga... Estou enlouquecendo...

- Eu aceitei voltar para a Crossroads.... E fazia trinta anos que eu sempre dizia não, o que você acha disso?

- Mas você disse sim por minha causa?

- Foi... Queria te ver feliz, você me disse que nasceu tarde demais para ver a banda em ação e eu quis te dar esse presente.

- Mas não queria voltar?

- Não. – respondeu Jack com um suspiro.

- Jack, eu te amo muito. Mas será que essa volta da banda não vai te deixar triste? Não quero que você faça nada que te machuque. Agora está doendo em mim porque me sinto culpada de você estar fazendo uma coisa que não queria fazer.

- Mas não sinta. Vou te explicar melhor; a banda terminou porque meu melhor amigo morreu e sempre que alguém vinha tentar nos juntar de novo no mesmo palco, a única coisa que eu sentia era a dor de pensar que quando eu olhasse para a bateria eu veria um estranho e não meu irmão. Desta vez, além dessa dor eu também senti uma felicidade enorme de saber que estaria te dando esta chance de presente, de ver-nos juntos de novo. E isso, menininha é uma grande mudança depois de trinta anos, o peso ficou mais leve e dá para carregar, entendeu?

- Mas se ficar pesado demais, estou aqui, do seu lado sempre. Não esqueça! – disse tentando segurar as lágrimas.

- Agora vem cá. – disse Jack puxando-a para mais perto. – eu quero te mimar um pouco.

- Você é adorável e eu te amo cada vez mais.

E a noite seguiu tão doce que Clara levantou-se mais uma vez antes do amanhecer pronta para fazer Yoga.

Depois foi até a janela e abriu a cortina para ver como era o amanhecer em Manchester. Pegou uma das toalhas grossas do hotel, colocou ao redor de seu corpo e sentou-se na varanda para ver o céu aos poucos mudando de cor e assumindo tons róseos e avermelhados.

Jack logo acordou e também saiu para assistir ao sol nascendo ao seu lado. Há muito tempo ele tinha esse hábito, chegava a subir em uma colina próxima de sua casa todos os dias, para assistir ao nascer e ao por do sol, mas com o tempo deixara esse costume para trás.

Os dois entraram novamente no apartamento com o dia já claro. Queriam andar um pouco em um parque que viam da janela, mas sabiam que isso provavelmente não seria possível, a imprensa ainda estava cercando o hotel.

- Vamos andar no parque, Clara... Levamos um segurança e pronto, o que você acha?

- Mas será que não dará confusão?

- Não, o Michael é meio exagerado e acho que se a gente conversar com os caras eles nos deixarão em paz.

- Podemos tentar, ao menos.

- Ótimo! Vou me vestir e a gente sai...

Jack, que estava nu, colocou bermuda, tênis, camiseta e um lenço nos cabelos. Clara manteve o figurino que estava usando, de roupas para Yoga, fez duas tranças nos cabelos, colocou tênis nos pés e os dois saíram da suíte e foram conversar com Claude Thomas, o chefe da segurança para perguntar o que ele achava da ideia.

- Sem problemas, mando dois homens com vocês. O parque fica a duas quadras daqui. Vocês querem o carro?

- Não. Andamos até lá – disse Clara.

- Tudo bem então. Mas vai ser complicado impedir que fotografem.

- Sem problemas, deixa fotografarem. A gente só não quer que vire tumulto, não daremos entrevista, nem queremos parar a cada trinta segundos para dar autógrafos e tirar fotos. – disse Jack.

- Também não queremos ver os seguranças batendo em ninguém; ou dá para ser um passeio tranqüilo pelo parque ou não vamos, ok? – disse Clara.

- Sem problemas! Os rapazes são tranqüilos.

Logo dois seguranças enormes, de terno, estavam descendo de elevador com eles, que riam da situação.

Dois ou três fãs tentaram aproximar-se de Jack no saguão do hotel, mas os seguranças impediram. Logo, os quatro saiam para a rua e atravessavam a caminho do parque. Era uma bela manhã e até mesmo a cinzenta Manchester brilhava sob os raios de sol.

Alguns repórteres até fizeram menção de aproximar-se, mas Clara conversou com eles, pedindo para que respeitassem a privacidade dos dois, pois não importava o que dissessem ou fizessem, eles não dariam entrevistas, estavam saindo para uma caminhada.

E por incrível que pareça a não ser por dois ou três câmeras que filmavam ou fotografavam os dois andando de mãos dadas de longe, os repórteres e até mesmo os fãs desistiram de perseguí-los.

- Viu, tinha certeza que conseguiríamos!

- Você é tão linda que eles te obedecem.

- Não sou não, Jack! Tenho espelho em casa!

E os dois puderam andar por todo o parque, onde Clara usou seu celular para bater algumas fotos de Jack. E os dois só voltaram para o hotel quando começaram a sentir fome.

Subiram direto para a suíte e pediram um brunch reforçado com frutas, peixe, batatas assadas, salada e sorvete. E sucos para beber. Desde que conhecia Jack aquela era a primeira vez que faziam uma refeição sem álcool. Para Clara, que já estava preocupada com seu consumo de bebidas alcoólicas, aquela parecia ser uma boa novidade.

- Você quer fazer o que agora? – perguntou Jack.

- Acho que vou pegar meu computador e dar uma olhada no que está acontecendo. Vou lá na cama... vem. – disse Clara.

- Opa! Vamos para a cama, então! Para isso estou sempre pronto.

- Eu estou indo para navegar Jack, não para fazer essas coisinhas que você quer... Acabamos de comer, faz mal. – disse Clara rindo.

Clara tirou a calça porque havia sentado na grama e não queria sujar a cama. Jack fez a mesma coisa e os dois sentaram-se na cama próximos um do outro, cada um com seu computador, conferindo seus e-mails e pesquisando o que havia saído sobre Jack e a banda nos últimos dias.

Clara achou um e-mail de Jonas perguntando se ela estaria disposta a dar entrevistas para programas de TV, jornais e revistas brasileiros, mas ela respondeu que não falaria com ninguém. Que estava muito feliz e que não queria interromper aquela felicidade para ficar atendendo repórteres.

Procurou textos e imagens do show da noite passada e gostou muito do que viu, gravando alguns vídeos na memória e mostrando-os a Jack.

E depois encontrou fotos e até um pequeno vídeo dela e de Jack passeando no parque, de manhã. Também salvou no computador, como um souvenir, uma lembrança de um momento em que sentiram-se especialmente felizes. Clara colocou uma das fotos em sua área de trabalho e a postou no blog e em seu Facebook, com a frase: "Sim, existe felicidade!"

Jack também respondia e-mails e aproveitava para descobrir que seu time estaria jogando naquela tarde. Se estivesse em casa, certamente estaria a caminho do estádio, mas na estrada, tudo ficava mais difícil e restava apenas descobrir uma emissora na TV que fosse transmitir o jogo.

Clara já estava cansada do computador e perambulava pelo quarto, tentando deixar as coisas arrumadas para a partida na manhã seguinte; quando o telefone da suíte tocou e Jack atendeu.

- Sem problemas, já estou descendo.

- Descendo? O que houve?

- Nada, uma pessoa chegou da América para me ver, vou lá embaixo dizer oi.

- Quem Jack?

- Stephanie Jones. Ela é de Los Angeles.

- E...

- Veio até aqui, Manchester, Reino Unido para me ver...

- E você vai descer só por isso?

- Vou levar para ela uns convites para o show de hoje à noite.

- Mas você precisa entregar isso pessoalmente, eu quero dizer, tem os seguranças, o Charles, o Michael, os roadies e o staff inteiro do hotel e você vai até lá embaixo entregar pessoalmente um ingresso?

- Já sei para onde essa conversa vai, Clara e acho que não é um lugar que você gostará muito. Então, é melhor parar por aqui. Vou lá, conversar com alguém que atravessou quase todo o planeta terra para vir me ver e já volto.

- Ok! E eu vou ficar aqui, nesta suíte me odiando por aceitar que isso aconteça! - disse Clara com a voz bastante alterada.

Jack parou no caminho até a porta, olhou para Clara, que já havia vestido sua calça novamente e o seguido até a sala de estar da suíte, sentando-se no sofá.

- Clara, a gente precisa conversar! Aqui é a estrada, as regras mudam. Não estou indo lá embaixo para transar com alguém, agora estou em um relacionamento com você. Nós vamos nos casar, não vamos?

- Jack, me desculpa... É muita coisa para entender em muito pouco tempo... Não estava aqui pensando que você fosse transar lá embaixo, mas senti ciúmes sim. Ainda não consegui me acostumar com a ideia de que terei que dividir você com o resto do mundo.

- Vem aqui, amor... Não fica assim, vou lá falar com ela e já volto. E você não vai dividir nada com ninguém. Eu amo você e só você. O resto do mundo é só o resto do mundo, ok? - disse Jack beijando Clara na testa.

Clara abraçou-o e beijou-o com toda a paixão que sentia por ele naquele momento. Estava um pouco atordoada e ainda não tinha certeza, mas acreditava que aquela tinha sido sua primeira briga com Jack e isso nunca é um bom sinal. Mas depois do beijo que deu em Jack, ele suspirou, parou por um momento e acariciou seu rosto, enquanto a olhava nos olhos daquela maneira intensa e profunda que sempre a amolecia.

Assim que Jack fechou a porta da suíte, Clara ficou ainda mais nervosa. Ela tremia e por isso, começou a andar de um lado para outro dentro do quarto, queria descer e seguí-lo para ver a tal mulher que merecia tanta atenção por parte daquele que em duas semanas seria seu marido, talvez entrar no meio da conversa dos dois e estabelecer "novas regras" para a estrada, que vigorariam daquele momento em diante.

Mas não conseguiu encontrar coragem para fazer isso, a verdade é que ela não tinha a menor ideia do que esperar dele se fizesse uma cena pública de ciúmes. Ainda mais depois de já ter ouvido dele que não se importava com fidelidade.

Ligou a TV, passou por todos os canais com o controle remoto, sentou-se no chão, na posição de Lótus, tentou fazer um exercício respiratório para acalmar-se, mas nada parecia funcionar.

E foi aí que teve uma ideia brilhante... Ela trocou de roupa, escolheu cuidadosamente roupas esportivas que havia comprado quando decidiu seduzir um dos professores da academia que frequentava, pegou sua câmera e deixou a suite.

Ao descer do elevador, não viu qualquer sinal de Jack e só notou algum movimento no pub que ficava ao lado do hotel. Teve a impressão de ver flashes lá dentro, o que significava que os fãs e a imprensa os seguiram. Clara ficou feliz com o fato dele não estar tendo qualquer privacidade no encontro com a tal groupie americana.

Então ela seguiu direto para o parque, queria fazer algumas fotos das flores que viu no passeio de manhã, ao mesmo tempo precisava prestar atenção ao relógio do celular.

Depois de fazer algumas fotos de rosas e de uma das fontes do parque, Clara recebeu a primeira boa notícia, Jack mandou uma mensagem de texto para seu celular dizendo que já estava na suíte e que agora iria assistir ao jogo de seu time. Ela apenas sorriu, respondeu a mensagem dele com um ok e calculou o momento exato para voltar ao hotel, sua entrada precisava coincidir com o intervalo do jogo, e continuou fotografando.

No momento em que o alarme do celular soou, ela caminhou de volta até o hotel. Eram os últimos minutos do primeiro tempo, e Jack estava com os olhos na tela da TV. Clara passou rápido pela sala de estar e seguiu direto para o quarto, com o ouvido atento esperando pelo anúncio do intervalo. Quando ele veio, era o momento exato de começar a falar, casualmente.

- Pena que você não estava comigo lá no parque, agora... Olha só o que eu consegui fotografar, que lindo. – Clara aproximou-se dele, casualmente, com a câmera bem perto dos seios, mostrando-lhe uma foto de um lindo pássaro de cor azul muito forte e brilhante. – Você sabe que tipo de pássaro é este?

Jack pegou a câmera de sua mão e disse que não sabia o nome, mas que era uma ave que via às vezes lá na Inglaterra. Ela pegou de volta a câmera e disse que iria deixar as fotos subindo para o computador enquanto tomava um banho.

Não disse uma palavra sobre a groupie, não queria saber de nada, mas Jack parecia sentir a necessidade de justificar-se e começou a andar atrás dela pelo quarto, enquanto ela escolhia a roupa que usaria no show daquela noite.

- Encontrei com a Stephanie no pub aqui ao lado... – disse Jack agora com os olhos grudados no decote de Clara. – A imprensa e os fãs vieram atrás e foi meio tumultuado, mas conseguimos conversar.

- Que bom! - disse Clara começando a tirar as roupas para entrar no banho, de olho nas reações de Jack, mas fingindo estar distraída. – E ela estará no show hoje à noite?

- É... ela disse que vai – respondeu Jack, parecendo distraído, mesmo olhando para ela. – Mas você sabe que vamos voltar cedo para o hotel de novo, não é?

- Vamos? – perguntou Clara já quase nua, enquanto continuava a andar pelo quarto fingindo que estava preparando o banho. – Que pena! Não vou conhecê-la, então! – disse cinicamente.

- Acho que não. – respondeu ainda olhando para ela, que propositalmente veio em sua direção para pegar uma nécessaire que estava perto dele. Aquele era o movimento chave de todo o seu balé de sedução, se ele mordesse a isca, ela o faria esquecer completamente da existência da groupie americana.

E deu certo, quando se aproximou esticando o braço para pegar a nécessaire, Jack pegou-a pelo braço e a puxou para perto de seu corpo. Beijou-a apaixonadamente, enquanto ela o ajudava a tirar suas roupas.

Tentou puxá-lo para dentro do banheiro, mas ele preferiu atirá-la na cama, mostrar onde estava sua fidelidade e provar que ainda a amava tanto que ela não tinha com o que se preocupar.

Depois de algum tempo na cama, os dois se levantaram e foram para o banho juntos. Clara fingiu que nem lembrava da existência da tal Stephanie e as reações do corpo dele mostravam que ela já estava esquecida.

Os dois estavam prontos para ir ao show e no teatro o ritual foi praticamente idêntico ao da noite anterior, exceto que naquela noite, Jack estava ainda mais mergulhado em Clara, mais apaixonado do que nunca, praticamente desconcentrado nos bastidores do show.

E divino no palco. Clara nunca o havia visto mais inspirado, mais tranqüilo e mais feliz sob as luzes fortes, ele suava, sorria e cantava como se aquele fosse o último show de sua vida.

Com uma setlist idêntica a da noite anterior, logo chegou o momento em que Jack cantaria "Unexpectedly", ele pegou o microfone e enquanto o roadie trazia para ele uma guitarra acústica, ele começou a dizer: "Há apenas algumas horas eu percebi uma verdade que como todas as verdades brilha mais do que o próprio sol. Eu amo tanto essa mulher que por ela sou capaz de qualquer coisa. Menininha, não se preocupe nunca mais, nunca vou te magoar."

Os olhos de Clara logo estavam afogados em lágrimas, no canto do palco, ela chorava de soluçar. Enquanto Michael a olhava e balançava a cabeça, estendendo um pacote de lenços de papel para tentar ajudá-la de alguma forma.

Assim que o show terminou, Jack entrou embaixo da toalha, pegou Clara pela mão e os dois entraram na limusine que seguiu veloz de volta para o hotel.

- Menininha, você quase me matou do coração hoje! Não faz mais isso comigo. Não me deixa sozinho nunca mais, porque sozinho eu só faço bobagem.

- Jack, vem cá. – disse Clara deitando a cabeça de Jack em seus seios e secando seus cabelos com a toalha.

Os dois desceram no estacionamento do hotel, subiram direto para a suíte, Jack foi para o chuveiro, enquanto Clara recolhia todas as roupas e arrumava a bagagem para a partida logo cedo, no dia seguinte.

Não iriam para casa, pegariam um vôo até Londres e de lá, seguiriam para Paris. Uma continuação daquela lua-de-mel antecipada para eles e o primeiro show oficial da Crossroads em sua nova fase.

Continua

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