23 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XVIII


Os dois tomaram banho e se prepararam para descer. O domingo seria um dia corrido para Jack trabalhando na pré-produção do disco e depois indo à festa de aniversário de seu neto.

Para tentar recuperar o foco, Clara decidiu trabalhar no livro, terminar o primeiro capítulo que agora incluiria sua decisão de voltar a trabalhar com Michael Silver e os planos para uma pequena tour pela Europa.

E depois de pensar um pouco decidiu que o capítulo seria finalizado com um depoimento de David, contando o que esperava daquele retorno, o que conseguiu fazer durante o brunch, assim que desceram. David disse que tentava há muito tempo voltar a trabalhar com Jack, mas não conseguiam entrar em um acordo e acabavam assumindo projetos diferentes. Mas que naquele momento tudo havia dado certo e que estava muito feliz de voltar a trabalhar com Jack e Michael.

Por alguma razão que nem ela compreendia, Clara aceitou aquele depoimento sem muita profundidade de David e enquanto os rapazes desciam para o estúdio e Cindy e Jennifer conversavam mais uma vez sobre roupas e sapatos, Clara subiu rápido e foi trabalhar no seu quarto. Mas não conseguiu ficar lá por muito tempo, Cindy mandou-lhe uma mensagem de texto convidando-a para acompanhá-las ao salão de beleza, em Londres e achou melhor aceitar pois ia enfrentar toda a família de Jack pela primeira vez, reunida naquela noite.

O salão era muito luxuoso e sua clientela era toda composta por mulheres sofisticadas, muito ricas, que certamente ficariam horrorizadas só em saber que uma sul-americana como ela, estava ali, desfrutando do mesmo luxo.

Sem muita paciência para frivolidades, Clara apenas pediu ao cabeleireiro uma boa escova pois pretendia ir à festa com seus cabelos soltos. Também fez as unhas e um pequeno ajuste nas sobrancelhas que eram naturalmente claras e delicadas.

Também aceitou uma limpeza e hidratação do rosto, quando ouviu muitos elogios à sua pele, que ela sempre havia cuidado, fugindo do sol e usando máscaras de hidratação.

Logo as três estavam prontas para a festa daquela noite, mesmo assim resolveram que um pequeno passeio pelas vitrines nos sofisticados arredores do salão não faria mal a ninguém.

Sapatos, vestidos, acessórios diversos, os tais cartões platinum dos maridos eram sacados repetidamente e apenas Clara não se deixava envolver por aquele fervor consumista, comprou apenas um bom perfume, um batom e um vestido longo e preto para usar na festa daquela noite, que seria muito bem completado por sua echarpe azul, tudo muito discreto e elegante para enviar a mensagem certa; não sou uma groupie, nem uma das amiguinhas de Jack Noble e vim para ficar.

Voltaram para Heathcliff Hall felizes da vida com suas sacolas e caixas. Clara disfarçava mas não conseguia livrar-se do medo que sentia por estar prestes a enfrentar pela primeira vez a família de Jack, com o agravante de que ele não estaria por perto o dia todo para contar-lhe o que esperar.

Ela já havia conhecido o filho, a nora e a ex-esposa, que de um modo geral, a haviam tratado muito bem, mesmo assim, sabia que não se sentiria a vontade, ainda mais agora que o casamento estava marcado e aquele anel nada discreto, estava em seu dedo.

As três chegaram em casa e já foram preparar-se. Havia pouco tempo para isso e Cindy foi direto ao estúdio para chamar os rapazes, sairíam em uma hora, a festa estava marcada para 6 da tarde e já eram 4. Mesmo sem trânsito, entre Heathcliff Hall e a casa de Jack Jr, em Londres, tinha fácil uma hora de caminho. Já estavam atrasados.

David e os rapazes já estavam saindo do estúdio quando Cindy começou a acenar da sala de controle. Jack convidou Paul, o novo baterista, para a festa de aniversário, mas ele disse que tinha um outro compromisso e não poderia ir, mas que estaria de volta ao estúdio na terça-feira para continuarem os ensaios e deixou sua bateria montada no estúdio.

Em apenas alguns minutos, os rapazes já estavam prontos para a festa e todos saíram juntos pelo portão de Heathcliff Hall, cada casal em um dos carros indo na direção da casa de Jack Jr, que ficava próxima do hotel onde passaram a primeira semana em Londres.

A casa era digna do herdeiro de um dos maiores rockstars da historia, grande e imponente no meio de um belo gramado.

Chegaram juntos e logo entraram e entregaram seus presentes para um belo garotinho de cabelos louros e grandes olhos azuis. Ele ficou radiante com todos os presentes e ainda mais com a presença de seu avô que via apenas muito raramente, mas que adorava, porque ele simplesmente era seu companheiro de brincadeiras favorito.

Era um prazer vê-los juntos, Jack se esforçava por mimá-lo, mas não parecia menos encantado entre seus dois netos menores.

Como Clara temia, a conversa dos adultos girava em torno do grande evento social do ano, o casamento de Jack com sua pequena Clara, com certeza, mais uma de suas excentricidades, mas pelo menos aquela festa prometia.

Além disso, ele parecia mudado, mais calmo, mais tranqüilo e agora voltava a compor com seus velhos companheiros de banda, um retorno que levaria Jack novamente ao centro das atenções.

Mas naquela noite, enquanto Jack rolava no chão com as crianças era Clara, sua noiva, quem atraia todos os olhares.

O burburinho na festa era tão grande que Mary, a ex-esposa, resolveu pegar Clara pela mão e levá-la ao jardim para conversarem.

- Então irão mesmo casar! Vou te confessar uma coisa, eu achava que você era apenas mais uma, mas o Jack não se casaria com você, se fosse, então devo entender que o que existe entre vocês é algo maior.

- Acho que sim, não estamos juntos por acaso, se é o que você quer dizer.

- Sei que não, você está devolvendo ao Jack algo que ele não tinha há anos; a alegria de viver e por isso eu sou grata a você, meu querido amigo voltou a ser ele mesmo.

Mary pegou as mãos de Clara e as beijou, o que imediatamente umedeceu seus olhos. Clara decidiu sentar-se em um banco lá fora para recuperar-se do mar de emoções que estava sentindo e alguns minutos depois Jack saiu também, abraçado em Jane, sua irmã. Uma senhora de cabelos tingidos de um vermelho pálido, usando um longo kaftan amarelo e que naquela noite apoiava-se em uma bengala para mover-se pois estava usando uma bota de gesso no pé esquerdo.

- Clara, quero que você conheça Jane, a minha irmã.

Clara ergueu-se e foi na direção dos dois. Ajudando Jack a levar Jane até o banco onde estava sentada.

- Estou muito feliz em finalmente conhecê-la! - disse Clara - O que houve com seu pé?

- Ah! Querida, uma bobagem, um buraco inesperado na calçada, este país está um caos ultimamente! Mas me diga, meu irmão está te tratando bem?

- Muito bem, Jane. Ele é maravilhoso! - respondeu sorrindo, mas com os olhos enchendo de água novamente - Ele não poderia ser melhor!

- Ele me disse que você está escrevendo o livro de memórias dele. Se você quiser historias sobre o Jack, basta me visitar que te conto tudo... Podemos tomar um chá juntas nesta semana.

Elas trocaram números de seus celulares e continuaram conversando lá fora, enquanto Jack preferiu atender ao chamado de seu neto para jogar uma partida de guitar hero contra David, seu companheiro de banda.

A noite seguiu agradável e feliz, com muita música e dança no final. Foi a primeira oportunidade que Clara teve para dançar com Jack e isso a fez muito feliz.

O retorno dos seis para Heathcliff Hall foi cedo, antes da meia-noite já estavam na estrada e rapidamente chegavam em casa.

Clara teve um longo dia e quis recolher-se cedo, assim como Jack, que estava cansado de tanto brincar entre as crianças, mas que ainda tinha fôlego para dançar no quarto com sua nova parceira.

- Nunca imaginei que você dançava tão bem, Jack.

- Uma das maiores obrigações de um sex symbol é saber dançar, baby.

- Vou fingir que não estou ouvindo isso... Mas hoje você estava realmente lindo, meu amor.

- São seus olhos.

- Não, Jack é a beleza do seu coração, só alguém muito especial rolaria com seus netos pelo chão e conseguiria me deixar anda mais apaixonada ao fazê-lo.

Jack que dançava abraçado a Clara diminuiu o ritmo de seus movimentos e passou a beijá-la, as roupas caindo ao chão, lenta, sensualmente. E a noite foi longa e doce até o amanhecer quando ambos pegaram no sono exaustos.

Nos braços de Jack, Clara dormia e sonhava que olhava pela janela e lá fora, no gramado, Jack a chamava.
Ela seguia até ele com os pés descalços e sentia a fria luz do luar tocando sua pele. Uma bela melodia chegava a seus ouvidos e como Clara não conseguia identificar de onde vinha perguntou a Jack, que apenas respondeu: - É a música das estrelas, meu amor, vem, vamos voar até elas para ouvir melhor.

E os dois atravessaram o céu noturno, cada vez mais longe do chão e mais próximos das estrelas, ouvindo a melodia das esferas celestes.

Na manhã seguinte, Clara não se lembrava do sonho, acordou enquanto Jack continuava dormindo.

Levantou-se, vestiu-se e desceu até a sala, precisava andar. Estava tendo mais uma crise de pânico era como se naquele momento algo de muito ruim estivesse prestes a acontecer e andar no jardim talvez ajudasse a aliviar a sensação de estar sendo sufocada pela ansiedade.

Era segunda-feira, mas os rapazes não trabalhariam no estúdio. Queria passar aquele dia com ele tentar dividir o mundo de responsabilidade que sentia pesar em suas costas onde até mesmo as palavras simpáticas de Mary eram motivos para mais preocupação.

Deitou-se na grama, precisava conseguir relaxar, o céu estava limpo, sem nuvens e o sol já estava aquecendo aquela parte do jardim, aquele calorzinho ainda suave começava a lhe dar um novo ânimo.

O dia seguiu tranqüilo, Jack logo veio unir-se a ela e também se deitou na grama para aproveitar um pouco o sol, antes do almoço.

Jennifer e Cindy desceram prontas para aproveitar a piscina; David e Michael estavam na sala de música atrás de uma música que fazia parte de um disco de música folk irlandesa dos anos 20, que foi regravada por um dos mestres do blues na década de 50, em Chicago, que por sua vez aprendeu a canção em uma fazenda de algodão, no Velho Sul.
Refaziam o caminho daquela canção que era tão especial que atraiu a atenção de moleques britânicos que cresceram depois da Segunda Guerra e mudariam de vez a cara da música.

Jack resolveu não embarcar naquela viagem musical deles, tinha ficado dolorido da brincadeira com os netos e também naquele momento preferia ficar mais tempo perto de Clara porque sabia que a partir do dia seguinte com a pré-produção, tudo ficaria bem mais complicado.

- Hey, cadê as roupas de banho de vocês? Vamos para a piscina, aproveitar esse sol – disse Cindy.

- O que você acha Jack? Vamos? – perguntou Clara.

- Vamos sim... Mas primeiro me ajuda a levantar porque alguma coisa está meio travada aqui. Você tem certeza que quer se casar com alguém da terceira idade? – disse Jack rindo, enquanto lutava para se reerguer do chão.

Clara puxou-o do chão com carinho e os dois subiram para colocar suas roupas de banho. David e Michael finalmente se juntaram a eles, agora os dois músicos passariam a mostrar seus dotes culinários pilotando uma moderna churrasqueira.

Clara estava quieta, decidiu deixar momentaneamente suas muitas preocupações de lado e entrar no clima de festa que acontecia naquela casa.

David e Michael apanharam um pouco, mas logo a carne começava a chegar no ponto para ser consumida.

Jennifer e Cindy falavam sobre as roupas das pessoas que estavam na festa da noite passada e Jack navegava na rede conferindo detalhes de sua agenda em um e-mail que tinha recebido de Michael.

- Clara, quer uma caipirinha? – perguntou David inesperadamente em português.

- Não obrigada, David. – ela respondeu em português. - Mas se vocês forem fazer, cuidado com o sol, o limão queima a pele.

- Não se preocupe, eu já estou ligado! – continuou David em português.

- Vocês estão vendo isso? Eles só fazem para me deixar maluco. – disse Jack rindo – Estão planejando alguma coisa.

- Não, seu bobo, o David está só me oferecendo caipirinha... – respondeu Clara – Você quer?

- Hum! Quero sim... Você vai fazer?

- O David está fazendo... Pensando melhor uma caipirinha agora cairia muito bem – disse levantando-se da cadeira e indo na direção de David.

- Eba! Caipirinha para todos então! – disse David em um português bastante enrolado.

- É de cachaça? – perguntou Clara, em português.

- Sim, tenho algumas garrafas no bar que comprei em uma loja de brasileiros aqui em Londres. – Respondeu David ainda em português.

- Quer ajuda?

- Não precisa, de caipirinha sou especialista! – respondeu sorrindo.

Jack aproximou-se de Clara e disse: - Melhor essa capirrinha valer a pena... Estou com ciúmes de não entender o que vocês falam.

- Não fica com ciúmes, amor. – disse Clara rindo.

- Pronto, seus drinks, caros amigos... Saúde!

Todos brindaram e Clara aprovou o sabor do drink típico de seu país. – Muito bom! Parabéns, David!

- Obrigado. Mas vamos voltar a falar em inglês de novo ou seu noivo vai me dar umas pancadas já. – disse David sorrindo – Que tal, velhão?

- Hum... Muito bom! Forte, não? – disse Jack.

- Sim, amor, é forte... Cuidado, sobe rápido. – respondeu Clara.

O dia de sol foi bem aproveitado pelos seis. Mas terminou muito rápido e logo Clara já estava começando a sentir-se muito triste e sozinha, por isso pegou seu notebook e começou a responder os e-mails e checar as notícias; seu casamento já estava sendo comentado nos sites de celebridades e ela já voltava a receber uns tantos pedidos de entrevistas.

Escreveu um e-mail para Jonas avisando que no dia seguinte, Michael mandaria uma nota oficial sobre o casamento para toda a imprensa.

Enquanto ela trabalhava, Jack já havia mergulhado mais uma vez em suas conversas sobre músicas e arranjos com David e Michael. Já sentia saudades dele como se estivesse do outro lado do mundo e não em outra sala a apenas alguns metros de distância. Começou a organizar os vídeos que tinha gravado, revendo na tela aquela maravilhosa interação dos dois músicos.

Ela começou a sentir-se cansada, os olhos já estavam pesados, então pegou o celular e mandou uma mensagem de texto para Jack: - Vou dormir, te amo!

Depois de passar a mensagem, Clara guardou o computador e foi até o banheiro tomar um banho e preparar-se para dormir. Ela ainda estava no chuveiro quando Jack entrou no banheiro, estava nu...

- Tem lugar aí no chuveiro?

- Hum, vem amor... Não gosto mesmo de tomar banho sozinha.

- Eu acho que nunca mais tomarei banho sozinho!

E os dois tiveram mais uma noite maravilhosa, aproveitando cada segundo, comemorando o fato de estarem vivos e apaixonados.

A manhã seguinte chegou rápida e o dia ainda não tinha amanhecido, quando Clara chegou à sala de vidro precisava fazer Yoga, cuidar de sua ansiedade antes que ela e o medo se unissem para paralisá-la.

Ela tinha acabado de subir para trocar-se de roupa quando ouviu o motor do carro de Paul aproximando-se da casa. O trabalho já ia começar no estúdio e Jack estava se vestindo para descer.

- Já acordado, amor?

- Tenho que trabalhar, nós combinamos de começar cedo hoje. Mas vamos tomar café da manhã juntos antes.

- Vou trocar de roupa, já desço.

- Vou te esperar aqui, então. Você quer assistir tudo no estúdio? Ficar lá embaixo com a gente?

- Posso? Não vou atrapalhar?

- Não... você pode ficar naquele cantinho em que estava no outro dia e até gravar alguma coisa em vídeo, o que você acha?

- Mas vou ficar presa lá dentro e tenho algumas coisas ligadas ao casamento para fazer, vamos até Londres, numa gráfica atrás dos convites. Preciso deles prontos e endereçados até quinta feira, no máximo, e também vamos visitar uma empresa de catering, que a Cindy costuma contratar quando dá festas aqui.

- Ok! Vou ficar triste de não te ver por lá, mas é por uma boa causa. Você sabe que minha irmã te adorou?

- Sim, ela é doce como você Jack. Vou ligar para ela quando voltar para casa. Gostei muito de conhecê-la, engraçado, mas como fã, quando imaginava você e o resto da banda, não me passava pela cabeça que vocês tivessem tempo para conviver com a família. Para mim, vocês sempre fugiam de festas como a de domingo, mas me senti realmente em família na casa de seu filho.

- Fiquei muito feliz pois todos gostaram muito da ideia de nos casarmos e até com um pouco de ciúmes, não posso nem repetir o que alguns daqueles velhos tarados estavam falando sobre você. - disse Jack rindo.

- Me dói dizer isso, mas vamos descer, ou não teremos tempo de tomar café. - disse Clara, abraçando Jack.

- Baby, precisamos ir ao banco nesta semana, quero providenciar uma conta conjunta para você, cartões e também vamos comprar um carro e tirar uma licença para dirigir aqui na Inglaterra.

- Não preciso de nada disso, Jack. Além disso, tenho muito medo de dirigir aqui, até para atravessar a rua eu fico toda enrolada porque me parece tudo do avesso.

- É fácil, você vai ver.

Os dois desceram as escadas, tomaram um bom café da manhã e se separaram. Jack desceu para o estúdio com a banda e mais dois ou três técnicos e roadies que Clara ainda não tinha visto por lá, enquanto ela seguiu para Londres com Cindy e Jennifer.

Continua

Nenhum comentário: