22 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XVII


Clara pegou no sono a seguir e sonhou novamente com o homem que se parecia com Gandalf. Ele aproximou-se e pediu mais uma moeda de ouro para contar-lhe outra história.

Era uma vez um aprendiz de magia que entrou na floresta e com uma ambição cega por poder e glória não teve qualquer respeito pela natureza e por seus elementos e acabou destruindo a floresta até transformá-la em um deserto.

Arrependido, ele passou anos estudando e aperfeiçoando-se na arte, até que um dia, do deserto, pequenas plantas começaram a brotar novamente e veio a chuva e o sol e os elementos, percebendo que ele agora havia compreendido a lição passaram a ajudá-lo a refazer aquela floresta, folha por folha, galho por galho.

- Mas é uma historia muito curta, não vale a moeda de ouro que lhe dei – disse Clara para o homem.

- É porque ela ainda não terminou. O mago pode fazer qualquer coisa agora. Ele está mais sábio, mas o poder atrai e corrompe até os mais sábios.

- E o que posso fazer para evitar que ele destrua tudo novamente?

- Mostre para ele onde está a luz!

Clara acordou assustada. Pegou seu caderno de notas e escreveu rapidamente tudo o que havia visto em seu sonho. E só depois de escrever percebeu que Jack não estava mais na cama.

- Jack? Você está aí?

- Bom dia, amor... Estou tomando um banho... Vem aqui, vem.

- Ela levantou-se e foi até o banheiro, entrando no box com ele e os dois tomaram banho juntos, brincando sob o chuveiro. Jack terminou primeiro, mas continuou por lá e ajudou-a a lavar os cabelos e massageou seu corpo.

Os dois saíram do chuveiro e Clara pegou o secador de cabelos, Jack vestindo apenas uma toalha ao redor da cintura, pegou a escova e o secador de suas mãos e começou a secar seus cabelos, quieto, em silêncio, ele parecia comprometido apenas com a idéia de servi-la.

- Jack, o que houve com você?

- Como assim? Acordei com vontade de cuidar de você. Só isso.

- Ah, meu amor. Não existem palavras que consigam expressar o que eu sinto por você agora, mas estou preocupada.

- Por que?

- Porque temos o mundo e mais mil coisas para resolver antes do nosso casamento e parece que não vai dar tempo, eu me sinto atrasada, perdida e sobrecarregada. – disse Clara enquanto lágrimas escapavam de seus olhos.

Jack colocou os dedos sobre a boca de Clara – Shiiiii! Não se preocupe, estou aqui para te ajudar, quero só te ver feliz. Do que você precisa?

- Tempo e um pouco de paz para poder colocar tudo em ordem do meu jeito, sem a pressão de ter que fazer tudo correndo.

- Seus cabelos estão quase secos! Como você os quer arrumados?

- Você está me mimando, Jack Noble... Posso saber por que?

- Porque você merece ser mimada. Está me aturando e vai enfrentar os leões na arena muito em breve, perder sua liberdade, ser observada, fotografada e julgada onde quer que vá, como algum tipo de animal raro; se eles pudessem nos colocariam em um zoológico.

- Eu não ligo, desde que você esteja comigo. Vou para o zoológico com um sorriso no rosto.

Jack sorriu e pegou novamente a escova para ajeitar os cabelos de Clara. Penteou-os cuidadosamente e depois a ajudou a escolher as roupas que vestiria e também a vesti-las.

Quando estava pronta para sair, Clara ajudou Jack, queria também mimá-lo um pouco, pegou um dos seus cremes hidratantes e massageou todo seu corpo. Depois escolheu uma camiseta branca lisa e sua velha calça jeans desbotada e logo os dois estavam prontos para o brunch, já que depois da longa madrugada de comemorações e conversas, tudo naquela casa começou bem mais tarde do que o habitual.

Quando estavam descendo, Jack recebeu um telefonema de Charles, seu assessor de imprensa, perguntando se ele estaria disponível para dar entrevistas para a TV e ele aceitou fazer dois ou três talk shows e alguns programas de rádio.

Ao chegarem na sala de vidro, Jack anunciou que estava indo para Londres com os rapazes para testar alguns bateristas e que só voltariam no final do dia. As três mulheres, envolvidas no planejamento do casamento, quase comemoraram o fato de terem a casa só para elas e poderem trabalhar em paz.

A parte boa da união das três era que cada uma tinha um tipo de talento; enquanto Clara era uma boa repórter investigativa e sabia onde encontrar as informações e contatos necessários para providenciar cada detalhe da festa, Cindy desenhava os projetos para a decoração e Jennifer tinha muitos contatos no mundo da moda e um grande amigo estilista que poderia desenhar o vestido de noiva.

Antes do final da tarde já estava tudo encaminhado e as três já tinham marcado uma visita ao atelier do estilista para o dia seguinte, de manhã, uma corrida rápida até Paris, por apenas algumas horas, antes da chegada do final da semana.

E já quase no final do dia, Cindy já havia chamado a planejadora de casamentos mais festejada de Londres para uma reunião em sua casa. Tudo estava caminhando muito bem.

Como esperado, os rapazes não retornaram de Londres naquela noite, passaram parte da madrugada no estúdio e dormiram na suíte do Four Seasons Over the Park, onde Jack costumava morar quando estava na cidade por alguns dias.

Nem Cindy, nem Jennifer disseram nada, mas Clara entendeu tudo. Já tinha começado, a música, a maior amante que os três tinham na vida, já estava mantendo Jack longe.

Sem muito o que fazer, elas foram dormir mais cedo naquela noite e deixaram tudo pronto para irem até o aeroporto na manhã seguinte e de lá para Paris.

Era a primeira vez que Clara ia até lá, mas estavam com muita pressa para fazer turismo, foram rapidamente ao luxuoso atelier onde o estilista francês conversou com as três e depois fez o desenho de um vestido de noiva seguindo as ideias de Clara, algo romântico, baseado nas personagens femininas de Jane Austen.

Ele desenharia também o traje do noivo e dos padrinhos. Mais parecia um figurino de teatro, sofisticado e ao mesmo tempo desesperadamente romântico, mas as amigas aprovaram e garantiram para Clara que certamente Jack aprovaria.

Logo as três estavam livres para voltar para Londres, mas Cindy e Jennifer desejavam levar Clara para um Café, para que ela ao menos pudesse perceber que estava em uma das cidades mais belas do mundo.

- Seu vestido vai ficar maravilhoso, Clara, o Jean Paul é um gênio, nunca imaginei um vestido de noiva feito com veludo. – disse Cindy.

- Ele é meu estilista favorito, tem uma sensibilidade absurda, logo viu na Clara essa coisa de princesinha de contos de fadas da Disney. O Jack também, aquele hippie maluco, ficaria muito bem no figurino da Fera do desenho. – disse Jennifer.

- Você está muito quietinha Clara, o que foi? - perguntou Cindy.

- Eu sei que vocês vão dizer que é bobagem, mas eu estou aqui, olhando para a torre Eiffel ali adiante e ficando triste porque o Jack não está aqui, porque hoje amanheceu e eu não o vejo desde ontem. Eu sei que é patético, mas estou sentindo muita falta dele.

- Ah, Clara, eu já te disse isso uma vez, você precisa aprender o quanto antes a lidar com isso. Vão ser grandes e pequenas ausências, no aniversário de casamento, no seu aniversário, nas festas da família, na hora que você precisa de alguém para dividir Paris ou a chateação de um cano que explodiu na cozinha, você vai olhar para o lado e ele não vai estar. – disse Cindy.

- Eu ainda estou me acostumando, faz dois anos que estou morando com o Mike e ele faz boa parte do trabalho no estúdio em casa, mas é complicado porque nós moramos em Paris e sempre tem uma reunião em Los Angeles para resolver isso e aquilo e nos intervalos ainda tem a banda de jazz e as participações em shows e discos ao redor do mundo.

- Eu sei disso tudo, mas poxa vida, é Paris e ao invés da gente estar aqui passeando de mãos dadas, ele está lá em Londres escolhendo entre uma porção de barbados suados, o melhor para colocar na banda.

- Pois é, você sabe então como são essas coisas e se eles estão lá, nós estamos aqui, com nossos cartões de crédito platinum, sem limite, para comprar tudo o que quisermos. Eles estão na estrada com as amantes e coisas lindas e caras podem nos consolar. – disse Jennifer sorrindo. - Ele já te deu um cartão platinum, não?

- Não, ainda nem tivemos tempo para isso. E não sei se acho certo. Sou uma escritora de sucesso, não preciso de um homem para me sustentar, sempre fui independente financeiramente e nunca fiz parte dessa coisa de consumo, luxo... Posso ser romântica, mas quando se trata de dinheiro, sou prática.

- Quase hippie... Opa! Mais uma coisa em comum com o Jack! É impressionante, vocês foram mesmo feitos um para o outro. – riu Cindy.

- Vocês estão rindo, mas eu acho que não conseguiria mesmo sair torrando o dinheiro dele só por torrar, já fui muito pobre e talvez, por isso, aprendi a respeitar o dinheiro.

- Você está certa, sabe. Talvez eu também tenha pensado assim no começo do meu relacionamento com o David quando me matava de trabalhar na reforma da casa dele e recebia a visita do Michael quase todos os dias apenas para me infernizar. Mas depois de 10 anos junto com alguém como ele você acaba precisando de outras distrações além do seu trabalho e das visitas esporádicas quando sobra tempo depois de gravações, tournês, obras humanitárias, premiações e mais um montão de coisas que ele faz pelo mundo afora.

- Eu entendo e, por favor, não tomem o que eu disse como uma crítica. Não sei o que acontecerá comigo e com o Jack nem na próxima semana, quanto mais daqui há dois ou dez anos.

- Não esquenta Clara. A gente te entende e para dizer a verdade nós gostamos muito de você. Das namoradas do Jack você é a melhor e a que está fazendo mesmo alguma diferença na vida dele. – respondeu Cindy.

- Eu convivi muito pouco com ele, mas tinha uma outra imagem do Jack, de maluco, difícil e para ser sincera, de um daqueles bêbados chatos e grossos que só aparecem para estragar as festas. – disse Jennifer repentinamente, pegando Clara de surpresa.

- Olha Clara, seu namorado nunca foi um santo, ele é uma pessoa bem difícil, passional, teimoso e se transforma em um homem das cavernas quando pisam nos seus calos. – disse Cindy diante da expressão de espanto de Clara.

- Mas, eu nunca vi isso nele... Quero dizer, ele comigo é gentil, doce, carinhoso, sensível...

- Por isso mesmo que achamos que você mudou a vida dele. – disse Jennifer.

- É verdade, quando encontrou seu livro, de repente, ele era um adolescente de novo e estava apaixonado pela idéia de te conhecer, não falava de outra coisa. De lá para cá foram poucas bebedeiras e mais nenhum vexame. Você matou o homem das cavernas que vivia nele. – disse Cindy.

- Então é isso? A fera virou um príncipe encantado! – disse Clara.

E como se fosse para ilustrar aquilo que conversavam o celular de Clara tocou avisando da chegada de uma mensagem de texto de Jack: - Estou com saudades!

Clara respondeu imediatamente: - Paris não tem nenhuma graça sem você! Eu te amo!

- Bem, caras amigas, vamos agora para o aeroporto e pegaremos o próximo vôo para casa. Espero que os rapazes já tenham arrumado o barbado para segurar as baquetas, porque hoje quero meu marido em casa. – disse Cindy rindo.

Depois de um par de horas na sala vip do aeroporto, as três amigas embarcaram de volta a Londres, na primeira classe, como era de se esperar das esposas de três grandes e milionários rockstars.

A chegada em Londres foi tranqüila e assim que pisaram no terminal de passageiros, Clara, Cindy e Jennifer ligaram para seus maridos e receberam a mesma resposta; estamos em Heathcliff Hall esperando por vocês.

Clara sentiu um novo alento ao ouvir a voz de Jack do outro lado da linha. Cindy e Jennifer tinham razão, aquele seria um relacionamento em que ela lutaria todo o tempo com uma rival impossível de derrotar, mas existia dentro dela uma certeza inexplicável de que estariam felizes pelo tempo em que estivessem juntos.

No caminho do aeroporto até Heathcliff Hall, Clara sentia-se ansiosa para reencontrá-lo, queria mostrar-lhe os modelos criados especialmente para ele por Jean Paul, queria dizer que Paris não significava nada sem ele, queria mimá-lo de tal forma que daquele momento em diante a música passasse a ser apenas uma amiga distante que ele visitava de vez em quando. Mas ela sabia que isso era impossível e o que ela realmente necessitava era aprender a dividir Jack com o resto do mundo.

Perdida em seus pensamentos, Clara nem percebeu o trânsito pesado, era como se estivesse em um mundo paralelo, enquanto Cindy e Jennifer conversavam sobre os próximos passos do planejamento do casamento, que agora era o projeto a que ambas dedicariam seu tempo.

Logo o carro estava entrando na estradinha através do bosque e chegavam a porta de Heathcliff Hall onde os três esperavam por elas. Jean Paul os queria em Paris para tirar as medidas para as roupas, mas conformou-se em ensiná-las como fazer as medidas e enviá-las por e-mail, isto após a aprovação daqueles modelos que ele havia desenhado para cada um deles.

Jack riu do modelo proposto para ele, mas concordou quando percebeu que aquilo era muito importante para Clara. Com o modelo aprovado, ela tirou suas medidas e anotou-as em uma folha de papel.

- Você não gostou do modelo, Jack? Você pode dizer não e escolher algo mais de seu agrado.

- Já vesti coisas piores, Clara... Como já te falei, se você escolheu para mim, sei que é o melhor. Só tenho dificuldade para me encaixar nessa imagem de herói folhetinesco que você faz de mim. Sou um cara comum, que veio do Black Country e teve muita, mas muita sorte de te encontrar.

- Você sabe o que faz comigo, quando fala estas coisas? Eu sinto uma vontade louca de te mimar até você se cansar de mim.

- E o que você está esperando? Vem aqui, vem...

- Não posso, os nossos anfitriões estão nos esperando para jantar. Não é justo deixá-los esperando.

- Ok... Talvez você tenha razão, não quero chatear nossos amigos, agora que estamos tão próximos, conseguimos um bom baterista e vamos fazer a pré-produção por aqui mesmo, até eu voltar para a estrada e, nesse tempo, estou a sua disposição, menininha.

- Então vamos jantar, porque já estou com muita fome. Você não está?

- Estou com fome de você - sussurrou no ouvido de Clara, deixando-a com os joelhos fracos.

Os dois desceram e encontraram seus amigos na sala de estar, bebendo uísque, enquanto esperavam por eles e como de hábito entre os membros da banda Crossroads, o ausente era o assunto e pelo volume das gargalhadas, a vítima das piadas, que cessaram imediatamente assim que Jack chegou.

E o assunto passou a ser a vinda de Paul Clarke, o baterista americano que os havia impressionado tanto no teste em Londres e chegaria no dia seguinte para os ensaios e a pré-produção do disco.

A refeição foi leve e logo os seis estavam na sala de música ouvindo velhas preciosidades que haviam acabado de chegar do Japão, pelo correio, para David, que estava feliz como uma criança na manhã de Natal, abrindo os presentes deixados sob a árvore pelo Papai Noel.

Jack estava feliz também, finalmente ele conseguia ouvir um disco que ele e David procuravam há anos e que estava nas mãos de um colecionador japonês que havia sido difícil de dobrar e só havia concordado em vender o disco, depois de David oferecer uma pequena fortuna por ele.

Aquele cenário da sala de música não existia nem em seus sonhos mais ambiciosos de fã. O prazer que aqueles homens sentiam com aquela música era algo difícil de descrever e provocava em Clara uma sensação de bem estar que para ela estava muito próxima do que ela imaginava ser o paraíso.

Antes que Jennifer e Cindy começassem a falar, Clara levantou-se da poltrona onde estava e foi sentar-se no braço da poltrona de Jack. Não queria perder a chance de estar perto dele, o casamento estava bem encaminhado e ela não tinha mais nenhuma vontade de ficar falando sobre roupas, cabelos e sapatos.

Jack puxou-a para seu colo e repetia à sua maneira a letra do blues que ouviam, sussurrando-as em seu ouvido.

Quando o disco terminou e antes que David colocasse o próximo, Cindy encontrou um jeito de entrar na conversa: - E aí, rapazes? Gostaram dos trajes para o casamento?

- Não entendo nada de moda, mas acho que estaremos todos muito bonitos nesse casamento. Não vejo a hora de ter as fotos nas mãos. – disse David.

- Sério pessoal, se vocês não gostaram me falem, por favor, podemos procurar outro estilista, o Jean Paul é muito bom, mas não é o único. – disse Clara.

- Eu posso falar por mim, gostei bastante e já usei muito as roupas do Jean Paul, inclusive no Oscar do ano passado. – disse Mike sorrindo. – Não é, amor?

- Sim, Jean Paul é um dos nossos favoritos de sempre. – comentou Jennifer.

- David? – perguntou Clara – Você gostou?

- As roupas são lindas, vamos parecer personagens saídos dos livros e o Jack será o próprio Mr Darcy.

- Então vamos dar o sinal verde para o Jean Paul começar, porque são muitos trajes e o tempo é muito curto. – disse Cindy – Vocês já mediram seus maridos? As medidas do David estão aqui, neste papel.

- O Jean Paul tem minhas medidas e do Mike, agora faltam as do Jack. – disse Jennifer.

- O papel está aqui no meu bolso – disse Clara estendendo uma folha de caderno para ela.

- Vou buscar meu iPad para mandar o e-mail para o Jean Paul, assim ele começa logo a fazer nossas roupas. – disse Jennifer – Venha Clara, Cindy... Vai ser divertido, a gente pode conversar com ele pelo MSN.

Clara beijou Jack na testa e seguiu suas amigas. Bem que tentou, mas não conseguiu escapar de mais uma reunião sobre coisas belas e fúteis.

A tecnologia não parava de surpreender Clara, agora ela e as amigas conversavam com Jean Paul, como se estivessem na mesma sala, usando um iPad.

- Clara, ainda não vi nada na imprensa sobre o casamento de vocês, é segredo? – perguntou Jean Paul.

- Não, mas também não estamos divulgando, vai acontecer na casa do David e só os amigos mais próximos estarão na lista de convidados, por quê?

- Porque uma vez que os fornecedores começarem a ser contratados, mesmo que vocês coloquem cláusulas de segredo nos contratos, as informações acabam indo parar na imprensa. Mas não preciso te contar isso, você é jornalista, não é?

- Eu sei, mas a gente ainda não conversou sobre isso. O que você acha Cindy?

- O Jack é uma pessoa muito discreta, não gosta de badalação. Acho melhor perguntar para ele.

- Vou lá embaixo perguntar, é melhor.

Clara sentiu-se aliviada por sair daquela sala, desejava tanto estar com Jack e só com ele que momentaneamente queria que todos desaparecessem. Caminhou rapidamente até a sala de música e lá encontrou Jack servindo-se de mais uma dose de uísque.

- Amor, vem aqui... O Jean Paul pediu para perguntar se o nosso casamento é segredo?

- Não, mas não quero fazer dele um carnaval de mídia. Diz que pode divulgar, mas não quer os detalhes, nem as nossas roupas circulando por aí, só o básico, rockstar casa-se com escritora em cerimônia fechada apenas para os mais próximos.

- Eu imagino que ele quer um pouco de divulgação.

- Mas faça pé firme com ele ou amanhã não teremos mais paz. Acho que vou mandar o Michael para Paris, com um daqueles contratos de sigilo.

- Boa idéia! Vou lá dizer que você quer sigilo e que vai mandar seu empresário com uns papéis para ele assinar.

Clara beijou Jack e correu de volta para a biblioteca.

- Bem, acabei de falar com o Jack, ele quer sigilo por enquanto porque amanhã o empresário dele vai até aí com uns papéis para você assinar.

- Ok! Vou esperar por ele.

- O Jack quer evitar que o casamento vire um circo da mídia e pediu para não divulgar nenhum detalhe por enquanto. Depois, mandaremos algumas fotos para a imprensa e aí você fica livre para fazer o que bem entender.

- Claro! Assim será bom para todos. Bem, queridas, estou cansadinho e vou para meu soninho de beleza agora. Parabéns de novo, Clara, você é uma princesinha da Disney e seu casamento será um sucesso.

- Assim espero Jean Paul. Se tiver algum problema entre em contato.

- Beijos Jean Paul – disseram Cindy e Jennifer em coro.

- Beijos queridas, nos falamos.

Clara sorriu e chamou as meninas para voltarem para a sala de música, onde os rapazes ainda ouviam velhos blues e conversavam sobre eles. Na verdade já haviam se animado tanto que David estava com sua guitarra na mão tentando reproduzir um efeito que o intrigava há muito tempo.

Clara e as garotas chegaram serviram-se de uísque e sentaram-se ao redor, em silêncio, apenas testemunhando a genialidade que só David tinha com uma guitarra em suas mãos.

Jack logo foi buscar sua gaita e um pandeiro, Michael pegou seu baixo acústico e o bandolim e Clara pegou a filmadora para registrar aquele momento; mais uma das memórias que ela, como fã daqueles três caras, queria guardar para sempre.

Michael pegou uma guitarra acústica e começou a mostrar uma melodia com ares folk para David, que a aprendeu rapidamente passando a tocá-la, liberando-o para pegar o bandolim.

Jack tocava pandeiro e começava a soltar a voz. Era mais uma daquelas melodias especiais que só o Crossroads poderia fazer. E Jack cantava algumas palavras que tentava encaixar com a melodia.

Give me your gold and I’ll give you the truth
The voice of the wizard have sounded on the woods
You are my future
You are my desire
The sun that lights the hills
And sets my soul on fire

Outra vez ela estava presenciando um momento histórico, Jack e David trabalhavam em cima de uma idéia melódica de Michael e o resultado era uma nova canção linda, que Clara sabia, era sobre sua história com Jack.

Era uma sensação estranha aquela, a coisa mais próxima da Crossroads, uma das maiores bandas de rock que já existiu, estava naquele momento criando uma canção que falava sobre um sonho que ela, uma garota sul-americana sem graça tinha sonhado. Ela estava definitivamente no céu.

Mais uma vez a música seguiu madrugada adentro e Clara registrava cada gesto, cada sutil suspirar daqueles três músicos geniais que eram ainda melhores quando trabalhavam juntos.

Cindy e Jennifer se cansaram e logo foram dormir. Clara, embora cansada, continuava firme, completa e totalmente fascinada por aquela música que eles faziam.

Já estava amanhecendo e os pássaros cantavam lá fora quando Jack e Clara foram dormir. Estavam felizes por estarem juntos e tinham pena de precisarem dormir porque teriam muito trabalho naquele dia que nascia.

Tiraram as roupas, deitaram-se na cama, se abraçaram e logo pegaram no sono. Clara sonhou que andava pelos corredores de Heathcliff Hall e ouvia uma melodia muito suave que parecia vir da sala de música, ela então caminhava até lá, abria a porta e encontrava novamente o mago que abria a cortina e mostrava que o sol se aproximava muito forte, o jardim começava a queimar. Ela corria ao ver as chamas, precisava encontrar Jack, salvá-lo do fogo. Mas não conseguia encontrá-lo.

Clara acordou assustada, suava e chorava muito, acordando Jack. – O que foi amor? O que houve?

- Jack foi um pesadelo, tudo estava em chamas e eu não conseguia te encontrar.

Jack a abraçou e foi até o banheiro para buscar um copo de água para ela. – Calma, meu amor, foi só um sonho.

- Jack, não me deixa, por favor. Não me deixa!

- Nem que você me mande embora e me dê um chute no meio do traseiro, meu amor, eu nunca vou te deixar.

- Eu não consigo entender o que está acontecendo comigo, Jack. Eu estou feliz, não existe nada fora daqui deste quarto que me interesse, que me importe, mas estes pesadelos, minhas emoções estão descontroladas e eu estou com medo de me perder.

- Se você se perder eu te encontro, não se preocupe, sou um GPS humano e sempre encontro o que procuro, tenho uma bússola aqui dentro. - disse Jack tentando aliviar o clima.

- Você é adorável Jack. Aposto que você não sabe, mas é o homem mais maravilhoso que já conheci.

- Eu sei... tenho espelho em casa, baby! - disse Jack rindo.

Continua

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