20 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XV


Os temores de Clara e Jack se confirmaram, quando do carro preto saltaram David, Michael Peters e Michael Silver.

Clara, que estava de mãos dadas com Jack ficou gelada ao vê-lo saindo do carro, os cabelos outrora longos, agora, bem curtinhos, penteados para trás e um tom de pele meio alaranjado, certamente fruto de algumas sessões de bronzeamento artificial.

- Olá Jack, tudo bem com você? – disse David beijando Jack no rosto. – Olha só quem veio me procurar ontem.

- Oi Jack – disse Michael Silver também beijando Jack no rosto – quanto tempo, brother!

- Você deve ser a Clara, o David tem toda razão, você é mesmo linda! – disse Silver estendendo a mão para cumprimentar Clara.

Michael Peters cumprimentou apenas Jack e mais uma vez olhou para Clara como se olhasse para um inseto.

- Vamos entrar, porque não quero gritar com vocês aqui fora. – disse Jack.

- Sentem-se, por favor – disse Clara para todos na sala de estar. – Jack, acredito que não pertenço a este cenário, vou dar uma volta no jardim e vocês podem ficar a vontade...

- Não, Clara. Quero que você fique! Não tenho segredos para você e preciso do seu apoio aqui dentro.

- Mas ela não pode ficar aqui, Jack! É uma jornalista, você sabe que não se discute negócios na frente de jornalistas. – disse Michael Peters fuzilando-a com os olhos.

- Ela não está aqui como jornalista, está como minha melhor amiga e apoio neste momento em que mais uma vez direi não para vocês. - respondeu Jack apertando a mão de Clara.

- Como você sabe a resposta de uma pergunta que não foi feita ainda? – disse David – nós não estamos aqui para isso, a proposta desta vez é diferente.

- Não? Não vieram aqui para dizer que a Crossroads tinha que voltar para a estrada? – perguntou Jack em tom de provocação.- Querem nos dar o que agora? Um país inteiro? A lua?

- Não Jack, eu vim até aqui porque quero trabalhar com você e com o David, desta vez. – disse Michael Silver – Você sabe que nos dois outros discos, eu já queria ter feito isso, te disse isso quando nos encontramos naquela premiação, em Los Angeles. Agora, eu ouvi as novas músicas, me apaixonei pelo trabalho como há muito tempo não me apaixonava por nada e quero uma chance para tocar com vocês. Não ligo para o nome da banda, mas quero estar envolvido desta vez.

- Ok! Mas como isso funcionaria? Eu não quero tocar nenhuma das músicas antigas da Crossroads, nem tocar em estádios ou lugares enormes. Já falei para vocês três inúmeras vezes que não existe Crossroads sem o Don. Qualquer coisa que fizermos juntos terá que estar muito distante do que fazíamos. Quero uma turnê curta, só aqui no Reino Unido, ou por poucas cidades da Europa... Ah! E precisamos de um novo nome para a banda...

- Hum... Pelo menos desta vez ele não disse não – disse David com um sorriso irônico nos lábios.

- Isso não funcionaria, Jack... Como você acha que alguém compraria esta idéia? Ninguém aceitaria este tipo de condição. As pessoas se matariam por ingressos na internet e todos ficariam frustrados se vocês não tocassem as músicas antigas. – disse Michael Peters.

- Viu? E eu sou o irredutível aqui! – respondeu Jack enquanto derramava uísque em alguns copos para servir aos visitantes.

O clima era tenso e Clara observava tudo quieta, era inacreditável para ela presenciar o que acontecia naquela sala, três gigantes decidiam sobre o destino de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos.

Ao mesmo tempo, o homem que ela amava estava lutando mais uma batalha de uma longa guerra que travava há 30 anos, para ter sua vontade respeitada. A impressão que sempre teve sobre ele, de que aceitaria fazer qualquer coisa, desde que ficasse longe da banda, agora se confirmava.

Jack distribuiu os copos de uísque entre os visitantes, enquanto esperava ouvir o que os amigos tinham a dizer.

- Não sei, Jack. - sorriu David. - Não sei se funcionaria. No momento em que nos virem juntos, a mídia, os fãs... não importa o que dissermos, será a Crossroads de volta.

- Exatamente! - disse Jack. - Há 30 anos vocês querem ressuscitar esse monstro e eu fico lutando contra tudo e todos, tentando ficar o mais longe possível disso. Vocês sabem muito bem que gosto muito de vocês, mas se continuarem a insistir nessa história, não terei alternativa. Queimo as novas músicas e ninguém nunca mais as ouvirá...

- Isso seria muito radical, Jack... Nós amamos você, mas seria injusto acabar mais de 40 anos de amizade desse jeito. Esse disco que eu e você estamos fazendo já é uma outra coisa; ele está nascendo porque você se apaixonou pela Clara e isso, meu amigo, trouxe a música de volta à sua vida... - disse David pegando a mão de Clara e beijando-a. - Não acho que seria justo com ela...

Clara faria tudo para ficar de fora daquela discussão, mas achou que cabia a ela dizer alguma coisa naquele instante: - Olha David, por mais que essas músicas novas tenham um significado especial para mim, acredito que o Jack precisa ser livre para decidir sobre elas. Eu o amo e não quero nunca vê-lo triste, ou fazendo algo que o machuque...

- Querida... - disse Jack levantando-se e beijando Clara na testa. - O David tem razão, você trouxe a música de volta para a minha vida e por isso tenho vontade de tocar novamente com estes caras... O que não quero é desrespeitar a memória do meu irmão Don... E acho que eles também não querem isso, mas quero que você tenha a chance de nos ver juntos novamente.

- Isso mesmo, Jack e não acho que ninguém aqui quer desrespeitar o Don, a banda era dele também e sem ele, não tem nenhuma razão pela existir novamente. - disse David inesperadamente. - Mas quer saber? Nós podemos tentar fazer do jeito que você quer. Shows pequenos, teatros... Estaremos tocando juntos e isso é o que importa...

- Também concordo – disse Silver sorrindo – Acho que vamos trabalhar juntos de novo! Um brinde ao próximo disco. – levantou seu copo de uísque.

David logo levantou seu copo. Clara olhou para Jack nos olhos e ele decidiu também levantar o copo.

Michael fazia força para não fazer uma careta e logo todos os quatro estavam brindando àquele sim de Jack, o terceiro em 30 anos e o primeiro para algo maior do que apenas um show.

Clara não tinha um copo nas mãos, estava nervosa, mas resolveu respirar fundo e tomar uma decisão; - Já que vocês decidiram por um entendimento e provavelmente passarão a falar em cifras milionárias, esta pequena proletária do terceiro mundo agora se retira para a cozinha onde providenciará a preparação de um almoço para todos nós, isto se os caros senhores nos acompanharem...

- Claro! - respondeu David - Sou testemunha de que quando a Clara decide cozinhar, coisas maravilhosas costumam acontecer... Não perderia esta oportunidade por nada!

Jack sorriu para ela e piscou antes que se virasse indo na direção da cozinha.

Clara entrou na cozinha e sentou-se, tremia muito e chorava compulsivamente. Aquele tinha sido um momento difícil para ela, como fã, como jornalista, mas principalmente como pessoa. Estava muito preocupada com Jack, sabia que aquela era a pior das decisões que ele poderia ter tomado e embora ainda não entendesse completamente suas razões, sabia que era um sim que ele não queria, nem deveria dar.

Demorou alguns minutos, mas respirando fundo, ela finalmente conseguiu acalmar-se e voltar a dedicar-se ao almoço, que ela já tinha começado a fazer antes da chegada de seus visitantes. Os escalopes só precisavam ser aquecidos, mas o risoto deveria ser feito fresco, naquele momento.

Respirou fundo novamente e concentrou-se em apenas mexer o arroz e ir adicionando o caldo de galinha conforme ele pedia. Queria conversar com Jack, isso a deixaria mais calma, mas agora estava fora de cogitação... Uma taça de vinho branco e pronto, hora de acrescentar os queijos, transferir tudo para a travessa adequada e partir para a sala de jantar.

Respirou fundo mais uma vez, pegou as primeiras travessas e as levou para a sala de jantar. Vendo-a aproximar-se, Jack ergueu-se e ofereceu ajuda. E Clara pediu que ele fosse buscar o vinho.

- Não disse? Deliciosa! Você cozinha muito bem, Clara. Deveria abrir um restaurante - disse David sorrindo.

- Obrigada David!

- É amor, você é maravilhosa em tudo o que faz.

- Não sou não, você ainda não me ouviu cantando, Jack, nem desenhando.

- Ninguém pode ser bom em tudo, Jack. Mas posso dizer que este almoço está muito bom! Parabéns, Clara - disse Michael Peters para seu espanto.

Jack piscou novamente para Clara. Sabia que ela estava surpresa porque nunca esperava nenhuma simpatia vinda de Peters.

- Ótimo almoço, então você é a tal garota que vai ajudar o Jack a contar tudo, não é? - perguntou Michael Silver.

- Bom, acho que sou. O Jack me chamou e eu gostei da idéia de trabalhar com ele.

- Eu li um dos seus livros, aquele dos Rolling Stones. Muito bom! Acho que deveria ser adaptado para cinema. - disse Michael Silver.

- Já tive algumas propostas, mas deixei esta parte do trabalho com meu editor, porque não sou nada boa com números e negociações.

- Hum.. Não é a toa que vocês estão juntos. Você e o Jack têm tanto em comum! – disse David, rindo.

- Como assim? – perguntou Clara intrigada.

- Bom, os dois fecham os olhos e se atiram, não importa a profundidade da piscina, sempre se jogam de cabeça, choram por qualquer coisa e não gostam de números, nem de negócios... Vocês deveriam casar. – respondeu David ainda rindo.

Clara ficou sem graça com o que ouviu de David, especialmente por ele estar dizendo isso na frente de Michael Peters.

- Ele tem razão Jack, você se divorciou há muito tempo, já passou da hora de você voltar a ser um homem sério. – disse Silver querendo participar da brincadeira.

Jack sorriu, procurou pelos olhos de Clara e então disse: - Me caso hoje, é só ela me aceitar.

- Então, Clara? Você sabe que ele precisa se casar, você gosta dele, não gosta? – disse David provocando.

- Muito... Mas acho que casamento é uma coisa muito séria para ser decidida assim, brincando. – respondeu Clara assustada com o rumo daquela conversa. – Nós acabamos de nos conhecer, um casamento agora seria pura loucura.

- Você quer dizer que não se casaria comigo?

- Eu quero dizer que ainda não está na hora de nos casarmos, você mal me conhece, eu mal te conheço. Gosto muito de você e estamos juntos, mas estamos só nos conhecendo ainda.

Jack levantou-se da cadeira e beijou Clara no topo da cabeça. – Por favor, rapazes, deixem meu anjo em paz, antes que ela desista de mim.

- Vamos até a sala de estar continuar nossa reunião. - disse David.

- Querida, venha conosco porque quero que você saiba tudo o que está acontecendo. – interrompeu Jack.

- Não Jack, não acho apropriado. Vou cuidar da louça na cozinha. Depois você me conta o que aconteceu, ok?

- Está bem, meu amor, eu só queria deixar claro que agora você faz parte de tudo o que acontece em minha vida.

Clara apenas sorriu, recolheu pratos, talheres e travessas e levou-os para a cozinha. Estava feliz de não precisar continuar aquela conversa. Não sabia nem se estava namorando com Jack, estava certamente apaixonada por ele, mas casamento? Era uma coisa muito definitiva para duas pessoas que se conheciam há menos de 15 dias.

Colocou toda a louça na máquina de lavar e iniciou sua operação. Estava muito perturbada e resolveu ligar para Cindy.

- Oi Cindy, você sabia que o Silver vinha junto?

- Sabia, mas o David me pediu para ficar quieta para não dar tempo do Jack se armar contra a ideia deles. Desculpa Clara, mas acho que já está na hora deles se entenderem, você não acha?

- Acho. Mas foi uma coisa arriscada essa que vocês fizeram.

- Você tem razão, eu pedi para o David não fazer, mas ele quis tentar e já que você não está gritando, nem chamando a polícia, acredito que o plano deu certo.

- O Jack está lá na sala com eles e sim, o Silver está na banda, mas ele continua dizendo que não é a Crossroads e se eles saírem em tour será só com as músicas novas.

- Meu Deus! Que teimosia! Seu namorado é o cara mais teimoso que eu já vi, Clara! Mas é isso? Eles concordaram com estes termos?

- Sim e estão agora mesmo acertando os detalhes, saí da sala para deixá-los mais a vontade.

- Fez bem!

- Acho que sim, mas o Jack me queria lá dentro. Tem mais uma coisa, ele quer se casar comigo e eu percebi no tom de voz dele que ficou muito decepcionado quando disse que ainda era muito cedo para isso... Estou tremendo aqui na cozinha, a gente não se conhece nem há quinze dias.

- Hahahahaha! Ele está maluco! Você disse não, assim, na cara dele?

- Disse! Mas acho que ele entendeu, ficou decepcionado, mas entendeu.

- Posso te dizer uma coisa, Clara? Você não vai ficar chateada comigo?

- Claro que pode.

- Bom, o Jack te ama e ele não se importa nem um pouco se isso começou hoje ou há dez anos, ele te encontrou e agora quer se casar, ponto final! Se eu fosse você aceitava, porque não faz mesmo sentido vocês separados.

- Ai Cindy, não fala isso! Eu adoro o Jack, mas a gente mal se conhece, nem sei ainda direito do que ele gosta ou não...

- Ele gosta de você! E você gosta dele! Vocês estão vivendo juntos há quase 15 dias, sinto muito Clara, mas isso parece um casamento para mim e começou no mesmo dia em que vocês se conheceram, se não me engano.

- Você tem razão, Cindy! Isso é uma loucura sem tamanho. Me joguei de cabeça porque cheguei aqui com a cabeça cheia de bobagens românticas sobre alguém que admirei toda a minha vida e nunca parei para pensar no que estava fazendo. Estou aqui para escrever um livro e não para me casar com Jack Noble.

- Você não está entendendo, não é?

- O que tem para entender? Comportei-me como uma groupie e estou pagando o preço. Jack Noble é um homem vivido e inteligente, percebeu que eu era uma fã ingênua, puxou as cordas certas, me atirou na cama dele e agora...

- Quer se casar com você! Clara, deixa eu te contar uma outra coisa sobre o Jack que você não sabe. Hoje em dia, eles são amigos, mas o divórcio dele com a Mary foi uma guerra. O David me contou que ele perdeu mais de 20 kg e quase morreu na época.
Você conheceu a Mary, ela não é uma pessoa muito grande, nem muito forte, pois bem, ela bateu nele, deu uma surra para fazê-lo entender que queria a separação porque queria casar-se com outro cara. Ele foi parar no hospital com pneumonia e lá na cama, jurou na frente do David que nunca mais se casaria de novo, não importava o que acontecesse, nada nem ninguém mudaria isso, ele seria solteiro para sempre daquele momento em diante.

- Então não sei de mais nada!

- Calma, deixa os rapazes irem embora e conversa com o Jack. Vocês se amam, puxa o que será que precisa além disso para um casamento funcionar?

Clara sentia suas mãos geladas e tremia muito, decidiu que era melhor controlar-se e despediu-se de Cindy prometendo avisá-la sobre os próximos acontecimentos.

Lavou o rosto na pia, usou uma das respirações da Yoga para acalmar-se, bebeu um copo de água e caminhou até a sala para ver se a reunião já tinha terminado, mas quando se aproximava da porta, Jack estava vindo em sua direção, dizendo que iria preparar um café para seus amigos na máquina que fazia expressos, que havia comprado há pouco tempo.

Ele percebeu que Clara estava perturbada e apenas disse em seu ouvido: - Calma, meu amor. Nós vamos conversar assim que eles voltarem para a estrada. – pegou sua mão e a beijou – confia só um pouquinho em mim.

Com medo de chorar novamente, Clara apenas balançou a cabeça afirmativamente enquanto procurava as xícaras para servir o café.

- À direita, na segunda porta, Clara. – disse Jack, enquanto colocava água na máquina.

Com as xícaras de café devidamente colocadas sobre uma bela bandeja de prata que encontrou em um dos armários, Clara seguiu Jack até a sala e os dois serviram juntos os expressos que haviam feito.

- Muito bem – disse David – então está tudo certo agora, semana que vem vamos ao meu estúdio acertar os arranjos, quero todo mundo por lá, inclusive a Clara e a Jennifer, esposa do Mike. Assim, a Cindy tem com quem conversar e me deixa trabalhar um pouco. Clara, querida, estaremos esperando por vocês dois. E se você puder, por favor, passa um texto para a Cindy avisando que estou voltando para casa assim que sairmos daqui, tem um avião esperando pela gente no aeroporto de Birmingham.

- Claro, David! Boa viagem de volta para vocês.

- Foi um prazer conhecê-la senhorita Oberhan, brincadeiras à parte, estou muito feliz de ver que o Jack encontrou a mulher dos seus sonhos.

- Obrigada Michael, foi um prazer conhecê-lo.

- Bem, pelo jeito o prazo do livro vai estourar bastante, mas acredito que é por uma boa causa, sei que começamos com o pé esquerdo, mas espero que não existam ressentimentos. Sempre ajo no melhor interesse de meus clientes.

- Sem problemas Michael, eu tentarei entregar os primeiros capítulos no prazo.

- Me mantenham informado sobre a escolha do baterista, rapazes. – disse Jack enquanto os acompanhava até o carro.

- Vamos voltar para a civilização, antes que escureça nestas terras perdidas – disse David rindo.

E o carro partiu, com Michael Peters na direção e os dois músicos rindo muito, provavelmente de Jack, ele explicou para Clara que aquela era uma tradição dentro da banda, bastava alguém estar mesmo que momentaneamente ausente para se transformar em alvo das piadas.

Com eles indo embora e Clara passando a mensagem de texto para Cindy, restava agora ter a tal conversa séria com Jack sobre casamento.

Continua

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