24 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XIX


Demorou quase duas horas para chegar em Londres e no caminho, Clara disse para as amigas sobre os planos de Jack, de abrir uma conta conjunta e dar-lhe um carro, falou também do quanto tinha medo de dirigir por lá e Jennifer, que era americana, disse que conhecia uma boa auto-escola onde ela havia estudado para adaptar-se a mão inglesa.

- Não é nada demais, mas a gente se enrola mesmo. Ter que pensar tudo ao contrário... demorei um bom tempo andando na contramão de vez em quando.

- Bom saber que a dificuldade não é só minha, juro que quando o Jack me falou sobre isso, entrei em pânico e estou até agora.

Cindy riu das duas, naquele quesito estava com alguma vantagem tendo vivido sua vida inteira em Londres nunca teve ou teria aquele problema.

- Conta conjunta? Hum... você está mudando completamente de classe social, sabia? - disse Jennifer.

- Não me preocupo com isso, foi ideia dele. Acho que está pensando nos gastos do casamento.

- Falando em gastos, você já fez a compra das passagens dos seus parentes?

- Já, eles retiram os bilhetes no aeroporto, no dia do embarque. Estão todos correndo atrás de passaportes.

- Quem vem?

- Meus pais, meu irmão mais velho e a esposa dele e minha irmã mais nova. E claro, o meu editor, Jonas e mais duas ou três amigas. Minha lista completa de convidados! É deprimente, não?

- Até que não. Você veio de longe, vocês decidiram pelo casamento de um minuto para o outro, acho mesmo difícil que muita gente tenha a disponibilidade de vir até aqui só para um casamento. - disse Jennifer.

- Mandarei mais alguns convites para tios, tias; mas duvido que venham. Não vou bancar a viagem deles porque como disse antes, sempre fomos os pobres da família e por isso sempre ficávamos de lado e enquanto eles se refestelavam, estávamos sempre a um passo de passar fome.
Não acho justo agora bancar a viagem deles para cá. Vou mandar o convite, se quiserem, que comprem suas passagens e venham!

- Existe algum ressentimento aí, pelo que pude perceber! - disse Cindy - mas eu também não gosto de um montão de gente que só lembrou de mim depois que comecei a namorar com o David.

- É melhor acostumar com a idéia, quando me casei com o Michael foi a mesma coisa. Todos acham que você tem obrigação de ajudá-los ou que você é uma espécie de porta para a "sala VIP" do mundo. Te pedem convites para festas, ingressos de shows. Você acredita que até convites para o Oscar me pediram neste ano? – disse Jennifer.

- Isso já fazem comigo há algum tempo, sou jornalista e sempre trabalhei na área de cultura. Sempre me pediam convites para shows e eu sempre respondi que deveriam ir até a bilheteria.

- Essa é muito boa. - disse Cindy - Vou começar a responder assim também.

- Você tem muita sorte, a família do Jack é adorável. Você não imagina como são os parentes do Michael. Uma gente horrível! Por isso fomos morar em Paris, mas ainda não é suficientemente longe. Queria me mudar para Los Angeles...

- Não é fácil conviver com gente, eu sei disso. Mas no final de tudo ainda acho que vou ficar feliz se vierem. – disse Clara quando já chegavam à porta da gráfica.

A visita foi rápida, logo escolheram um modelo clássico de convite, registraram quais deveriam ser os dizeres a serem impressos e receberam uma promessa de que eles seriam entregues por courier até quinta-feira.

De lá foram a algumas lojinhas charmosas, Clara queria comprar um presente para dar à irmã de Jack que havia combinado de visitar naquela semana. Apaixonou-se a primeira vista por um xale de seda rosa, pintado a mão.

Fizeram mais algumas compras e em uma pequena loja de produtos orientais, ela comprou um porta incenso e uma caixinha com incensos de sândalo, que ela tinha costume de queimar quando fazia Yoga e meditava.
Além disso, comprou alguns colares e brincos de origem indiana e uma maravilhosa pulseira de prata para dar de presente para Jack. Aliás, a idéia era dividir com ele também os colares. Para ela era bem engraçado escolher assessórios daquele tipo para seu namorado.

Mais um passeio e logo já era hora de visitar a empresa que faria o catering para a festa, iriam provar alguns menus e escolher o bolo e doces que seriam servidos. Com isso resolvido faltava ainda a decoração, a segurança, a organização do jantar da véspera; todas decisões a serem tomadas com a ajuda da planejadora de casamentos e a única parte que ficaria unicamente nas suas e nas mãos de Jack, seria a escolha das palavras que diriam um para o outro durante a cerimônia.

Anne Clark, a planejadora de casamento já estava esperando por Clara no buffet. E as amigas rapidamente selecionaram o menu e passaram a escolher os bolos, a tradição britânica era que fossem dois, um de frutas para a noiva e outro de chocolate para o noivo. Este último levava como recheio uma mousse de nozes com chocolate branco, que Cindy afirmou que Jack adorava.

O modelo do bolo da noiva era simples, tinha três camadas, com os tradicionais bonequinhos dos noivos no topo sob um altar branco, decorado por rosas, sobre o qual voava um cupido e alguns pombinhos. Aliás, ele seria construído seguindo um desenho de Cindy, que havia feito o design da decoração do casamento e seria idêntico ao que seria construído próximo ao jardim de rosas, que serviria de altar para o casamento.

Vendo os projetos dos bolos, Clara sentiu mais uma vez os olhos se encherem de água. Ela disfarçou e com a parte do buffet acertada, foram a um café que ficava na esquina, para continuar a reunião com Anne.

A planejadora passou a elas um relato de todas as etapas de planejamento da festa e tudo, por enquanto, corria perfeitamente dentro do previsto, mas segundo Anne os problemas só começariam a surgir quando a data se aproximasse e as coisas começassem a ser entregues.

- Vocês dois devem escrever seus votos, no último ensaio, na véspera do casamento, eu quero eles por escrito. Vocês devem me trazer uma cópia impressa e uma em pendrive ou CD. A tradição manda que seja uma surpresa, o Jack não pode saber o que você escreveu e você não pode saber o que ele escreveu. – disse Anne.

Clara não estava realmente ouvindo o que Anne falava, estava imaginando a festa, em detalhes e já com a certeza de que seria muito difícil atravessar aquilo tudo sem desmanchar-se em lágrimas.

Era preciso começar a pensar no que escreveria e por incrível que pareça, ela não tinha a menor idéia e não sabia nem por onde começar. Nos casamentos brasileiros não existia essa tradição e por isso, decidiu pedir algumas dicas a Anne.

- Bem, você pode dizer um poema, ou contar como vocês se conheceram. Você é uma escritora, não é? Tenho certeza que não terá grandes problemas para conseguir escrever.

- Nós vamos ajudá-la Clara, você vai conseguir escrever isso fácil... – disse Cindy.

Pela primeira vez em muito tempo, Clara não tinha a mínima pressa para voltar para casa, sabia que Jack ficaria no estúdio o dia todo e isso a deixava mais triste do que ela mesma admitia. Queria estar agora lá no estúdio, quietinha em seu canto, trazendo-o mais perto com o zoom de sua câmera.

Cindy e Jennifer eram boa companhia, mas naquele momento ela queria silêncio, sentar-se sob uma árvore no parque e pensar nele e na vida que passaria a ter depois do casamento com o homem dos seus sonhos.

Voltaram para casa e Clara subiu direto para o quarto alegando que tentaria trabalhar em seus votos. Pegou o notebook, sentou-se na cama e ficou por horas assistindo aos vídeos que havia feito dele no estúdio e só então lembrou que deveria ligar para Jane, sua cunhada.

- Jane, sou eu, a Clara. Podemos conversar agora?

- Oi querida! Que bom que você me ligou. Estava pensando em você. Será que você pode vir aqui amanhã tomar um chá comigo?

- Claro! Hoje já encaminhei as últimas coisas que precisava para o casamento e amanhã estou absolutamente livre, já que seu irmão não sairá tão cedo daquele estúdio.

- Hum! Será que estou imaginando ou na sua voz tem um extra de frustração por não estar com ele?

- Tem sim, Jane... Estou tentando trabalhar este sentimento, sei muito bem que ele não pode ficar muito tempo ao meu lado, a carreira dele começou antes de eu nascer, mas está difícil, está doendo tanto ficar longe.

- Você sabe onde está se metendo, não é? O Jack não é a pessoa mais fácil do mundo para se conviver de um modo geral, mas se você perguntar para ele, "a música ou eu", você sabe bem o que ele responderá, não sabe?

- Sei... Mas acho que é o meu momento, estou em uma situação muito estranha aqui, viajei para fazer um trabalho, me apaixonei perdidamente por alguém que fazia parte dos meus sonhos desde sempre e agora nós vamos nos casar. Ainda não tive tempo de entender o que aconteceu entre a gente e já estou aqui escolhendo convites e doces para a festa.

- Acho sinceramente que vocês foram feitos um para o outro, mas esse começo vai ser difícil porque todo começo é difícil, mas se ajuda, nunca vi meu irmão mais apaixonado em toda a minha vida. Você passou como um caminhão sobre o pobre coraçãozinho dele e nem tem tamanho para isso, não é?

Clara riu, mas quanto mais Jane falava, mais nervosa ela ficava.

- Eu entendo o que você quer dizer Jane. Acho que preciso digerir isso o mais rápido possível. Sabe o que eu estava pensando quando te liguei? Eu estava torcendo para que você me contasse um montão de defeitos do Jack porque eu quero começar a vê-lo como uma pessoa comum, igual a mim.

- Nem para mim ele é comum... O Jack é um gênio, meu amor, ele nunca foi comum, nem para mim que o vi nascer. Quanto aos defeitos, ele tem uma porção, mas só vou te contar amanhã, no nosso chá. Só espero que depois de saber tudo isso, você não desista de casar com ele porque do jeito que ele gosta de você vai acabar com ele se te perder.

- Não tem nada que você possa me dizer que me fará amar menos. Vamos conversar mais amanhã, então. Até amanhã, Jane.

- Que bom ouvir isso querida, até amanhã.

Clara desligou o telefone e deu um longo suspiro. Falar sobre o Jack não era a mesma coisa do que estar perto dele e só estando perto dele aquela angústia que ela sentia iria embora.

Resolveu voltar para o texto de seus votos. E naquele momento teve uma idéia clara sobre o que podia escrever. Quando terminou, chorava tanto que se alguém a visse ficaria seriamente preocupado. Ela precisava controlar-se, respirar fundo.

Fechou o computador, foi até o banheiro e lavou o rosto. Suas mãos ainda tremiam um pouco, mas ela já estava se controlando. Logo poderia deixar tranquilamente o quarto sem que ninguém percebesse que tinha se acabado de tanto chorar.

Começou a sentir muita culpa, achava que estava sensível demais, dramática demais. Sentia-se ridícula e decidiu que deveria sim descer e conversar com suas amigas e distrair-se de algum jeito até Jack retornar a seus braços.

Guardou tudo e desceu correndo, sem dar chance de começar a ficar nervosa novamente.

Desceu as escadas e encontrou suas amigas na sala de visitas, às voltas com seus iPads, navegando na rede.

- Olá meninas, tenho uma novidade, meus votos estão prontos! Lá no meu note.

- Ah! Eu quero ler... deixa eu ler, Clara! – disse Cindy animadamente.

- Vou buscar, deveria ter trazido para cá mesmo.

Ela subiu de volta ao quarto, pegou o notebook e desceu correndo. Estava louca para ver o que as outras pessoas achariam do que ela escreveu.

- Bem, aqui está!

Logo Cindy e Jennifer estavam lendo e as duas ficariam emocionadas com o texto de Clara que era a mais romântica das declarações de amor.

- Lindo! Sabia que você conseguiria! Estou toda arrepiada. – disse Jennifer.

- Uau! Perfeito! Acho que você vai matar o Jack do coração, mas é a mais linda declaração de amor que já vi.

- Obrigada queridas! – respondeu Clara tentando controlar a emoção.

As três jantaram juntas e foram ver filmes na sala de cinema. Sabiam que os rapazes não sairiam tão cedo do estúdio, por isso era importante encontrar outras coisas para fazerem, simples distrações.

Quando o filme terminou, Clara apenas deu boa noite a suas amigas e foi dormir. Logo estava novamente sonhando, estava em uma colina toda verde que terminava num grande abismo sobre o mar. Ao longe, Jack se aproximava cada vez mais dela, estava montado em um lindo cavalo negro.

Clara o viu e começou a acenar para ele, mas ele não parecia enxergá-la, mas vinha rápido cavalgando em sua direção.

Ela gritava e acenava desesperadamente e de repente, o cavalo deu um salto e caiu no vazio.

Clara acordou chorando e gritando. Estava sozinha no quarto e tremia da cabeça aos pés. Era mais um de seus pesadelos mas Jack não estava por lá para acalmá-la e dizer que tudo estaria bem.

Ela levantou-se, vestiu um robe de seda e desceu as escadas, foi até a cozinha, pegou um copo de água, uma colher de açúcar e tomou.

Precisava acalmar-se, manter suas emoções sob alguma forma de controle. Não podia continuar daquele jeito, ou estaria destruída antes de chegar o dia do casamento. Suas mãos ainda tremiam e ela ficou muito feliz de não encontrar ninguém no caminho até a cozinha. Não queria que as pessoas soubessem que ela estava muito perto de ter um colapso nervoso.

Respirou fundo mais uma vez e voltou para o quarto. Pegou seu notebook e sentou-se na cama, começou a navegar um pouco pela internet, procurou por fotos de Jack e centenas delas apareceram, novas, antigas, ele era mesmo um ícone e ela não conseguia compreender o que um homem como aquele podia ter visto nela.

Começou a reorganizar-se, preparou uma lista de perguntas para fazer a Jane e aproveitou para checar a agenda de planejamento do casamento. O mais estranho de tudo e que até agora não tinha passado nem pela cabeça dela, nem pela de Jack é que não existia mais do que três dias realmente livres na agenda para acontecer uma lua-de-mel, após toda a correria do casamento.

Perdida em seus pensamentos, repentinamente ouviu barulho de carros se movimentando na frente da casa, o baterista e os técnicos de som estavam indo embora e isso podia significar que Jack poderia estar com ela dentro de apenas alguns minutos. Logo a porta se abriu e Jack entrou no quarto. Estranhou encontrá-la acordada; - São quatro da manhã, amor, o que houve que você ainda está com esse computador ligado?

- Não sei, Jack... estou angustiada. Não acho que darei conta de tudo o que é preciso fazer para o casamento... enfim... sou patética, não vou conseguir escrever o livro e estou prestes a ter um colapso.

- Não, amor... deixa o computador ai e vem aqui no banheiro, vamos tomar um banho juntos, relaxar e descansar. E amanhã tiramos o dia para ficarmos juntos, o que você acha?

- Não dá, Jack. Amanhã vou tomar chá com sua irmã em Londres.

- Perfeito! Vou com você e a gente passa o dia no nosso hotel, vamos passar no banco, conversar com o gerente, almoçamos juntos e vamos até a casa da Jane, que é lá perto, depois a gente passa uma noite linda e voltamos para cá só depois de amanhã. Que tal?

- Mas eu não quero atrasar seu trabalho.

- Não tem o que atrasar, as coisas estão correndo bem, estão até adiantadas, se você quer saber fizemos muito hoje, mais do que pretendíamos, não vai matar ninguém se dermos uma fugidinha. Quer saber? Vamos para Londres, agora. Pegamos um dos carros do David emprestado e vamos para a estrada.

- Você faria isso por mim?

- Não tem nada que não faria por você! E isso pela primeira vez na minha vida inclui até deixar a música para trás. Quando penso em estar longe de você me dói tanto que tudo parece pequeno demais e sem importância.

Clara não conseguia mais segurar as lágrimas, deixou que elas corressem por seu rosto. E o abraçou.

- Vem, vamos tomar um banho e seguimos para Londres, então? Quero estar com você, preciso estar com você... Vem...

Jack passou a tirar suas roupas, abriu o roupão de Clara e acariciava seu corpo, beijava suas mãos e puxou-a pelo braço. Os dois entraram no banheiro juntos. Clara chorava muito, vê-lo tão entregue assim e abandonando o próprio destino em suas mãos doía muito. Era uma responsabilidade que a apavorava. O pesadelo que teve começava a fazer sentido, agora era preciso parar aquela cavalgada maluca ou ele cairia do precipício.

Ele ligou o chuveiro e puxou-a com ele, para dentro do box. Logo Jack também chorava e a beijava sob a água quente do chuveiro. Os dois abraçados, não conversavam mais, apenas se moviam lentamente e um cuidava do corpo do outro como se fosse o seu próprio. Logo não choravam mais, entregavam-se apenas a seus desejos, haviam encontrado ali um outro caminho que apontava para uma felicidade infinita, em contraste com a dor absoluta que sentiram apenas um momento antes.

Depois do banho, deitaram-se e Clara conseguiu convencer Jack que fugir dos ensaios como ele pretendia seria uma loucura, mas que o acompanharia no final de semana nos shows da turnê e também estaria nos bastidores das gravações dos programas de TV e rádio.

Ela acordou com o barulho dos carros dos técnicos e do baterista chegando em Heathcliff Hall e quando abriu os olhos já estava sozinha na cama.

Levantou-se, vestiu-se e desceu as escadas. Logo foi informada por Cindy de que o gerente do banco e o advogado de Jack chegariam em alguns minutos na casa para providenciarem a abertura da conta conjunta e que ela deveria ir buscar seu passaporte.

Jennifer também tinha um aviso, Jean Paul gostaria de saber se elas estariam disponíveis para a primeira prova dos vestidos na sexta-feira, em Paris.

- Sexta-feira? Hum, o Jack vai tocar em Manchester na sexta e no sábado. Ok! Vamos para Paris e de lá vou encontrá-lo em Manchester, assim tudo fica certo.

- Ótimo, vou mandar um texto para o Jean Paul.

- Bem, hoje à tarde vou visitar Jane, minha cunhada e já que estarei em Londres quero ver se adianto tudo o que for possível. Vou ligar para a Anne, ver se a gráfica entrega os convites um dia antes para que ela possa fazer o endereçamento e a postagem. Estou com pressa, vou passar os próximos dias com Jack e estou preocupada de que estes compromissos interfiram na agenda do casamento.

- Você vai mesmo atrás dele nessa chatice toda de shows e entrevistas? – perguntou Cindy com uma expressão de censura.

- Prometi a ele que iria. E para mim, não é uma chatice. Sempre estive envolvida com este mundo do entretenimento e aquele também é meu ambiente natural. Além disso, sou a ghost writer do Jack e me ajuda muito quando vejo as coisas com meus próprios olhos e mais do que isso, sou sua noiva e quero estar perto dele, sempre que puder.

O rosto de Clara parecia iluminar-se quando dizia isso. Tanto que Cindy e Jennifer desistiram de listar os aspectos negativos daquele tipo de decisão na vida de uma esposa de rockstar e se limitaram a seguir de acordo com seus planos.

O gerente, dois funcionários do banco e um dos advogados que trabalhava para Jack chegaram à casa e Clara passou uma mensagem de texto para avisá-lo. Reunidos na biblioteca, Clara e Jack assinaram os documentos e dentro de alguns dias receberiam os cartões e talões de cheques da conta conjunta.

Almoçaram juntos e logo Jack já estava retornando para o estúdio. Clara estava nervosa, mas logo foi para o quarto preparar-se para ir até Londres encontrar Jane para um chá.

Pegou seu gravador, o bloco de notas com as perguntas e pediu que Khaled viesse buscá-la para levá-la a Londres.

Rapidamente estava na porta da casa de Jane, que ficava próxima do Four Seasons e da casa de Jack Jr.

- Querida! Que bom que você veio. Acabei de falar com Jack e ele me disse que estava preocupado com você, que ele até quis passar o dia com você hoje e você não quis, você o mandou para o estúdio, trabalhar.

- Não conta para o Jack, mas tive um sonho horrível, em que ele caia de um precipício, não posso deixar que isso aconteça. Prometi para mim mesma que por mais que isso me doa, por mais que me sinta sozinha, não vou mais interferir no trabalho dele, não quero mais sentir o peso que senti nesta madrugada quando ele me disse que estava disposto a abandonar a música por mim.

- Sério! Você deixou meu irmão maluquinho mesmo! Nunca pensei que isso fosse possível. Você fez bem então, a única coisa que eu sei que meu irmão não consegue viver sem é a música.

- Bom, trouxe um gravador e algumas perguntas para te fazer, para o livro, mas ao mesmo tempo estou com medo. Preciso de alguém que me apóie e que me impeça de, sem querer, destruir a vida do Jack. Foi muito assustador ontem, muito mesmo.

- Eu estou completamente ao seu lado, querida. Não vamos deixá-lo cair do precipício, mas você também não pode deixar de ouvir o seu lado, não pode simplesmente sair da frente e deixar que a carreira o leve para longe porque isso é um erro. E quanto ao livro, pode perguntar, estou a sua disposição.

- Ok! Bom, então vamos começar a entrevista; Como era o Jack quando criança? Já demonstrava algum talento musical?

- Ele era um menininho inquieto, estava sempre correndo e quebrando coisas até o momento que fez cinco anos e teve um problema de saúde realmente grave, meus pais o levaram para um hospital em Birmingham e ele ficou por lá mais de um mês.
Depois disso, minha mãe passou a controlá-lo mais de perto, mas ele dava as fugidas dele para jogar futebol, que por sinal, ele ainda ama muito.
Quanto à música, ele começou muito cedo, meu pai e meu avô eram músicos e nós sempre tivemos instrumentos musicais em casa, até eu aprendi a tocar piano, era uma coisa da época em que crescemos.
Tudo normal e tranquilo até o momento em que ele ouviu Elvis pela primeira vez. Depois disso, ele ficou tomado por essa idéia, ele ensaiaria e treinaria sem descanso porque aquele era seu novo projeto de vida, ele queria ser o Elvis.

- Mas e o blues?

- O Jack foi crescendo e entre os moleques de sua idade não era exatamente cool querer ser o Elvis. Os meninos que andavam com ele ouviam blues, então ele começou a ouvir também e com uns 12 ou 13 anos, ele já estava montando sua primeira banda. Um detalhe que ninguém sabe é que nessa época, um bluesman americano famoso veio fazer um show em nossa cidade e Jack, não só conseguiu invadir os bastidores do show, como roubou uma harmônica dele.
Ele passou a carregá-la sempre no bolso e a dizer que era seu mojo. Nem eu, nem meus pais tínhamos a menor idéia do que era um mojo, mas ele passou a dedicar-se ao instrumento e logo, além de cantar, estava tocando seu “mojo” com a banda.

- E como você se relacionava com ele nessa época?

- Ele era meu irmão mais novo e nós brigávamos muito, sempre. A mentalidade da época era muito diferente. Eu tinha 15 anos e queria me casar enquanto o Jack tinha 13 e queria ser um artista, sonhava em levar seu “mojo” para a estrada, mostrar seu talento. Ele sempre me dizia que ia morar em Chicago e que era para eu ser uma irmã boazinha ou ele não me deixaria conhecer o Elvis.

- Ele é adorável, não?

- Sim... e você não poderia estar mais apaixonada por ele, não é?

Clara sentia as lágrimas rolando mais uma vez no seu rosto. Era difícil continuar sendo uma pessoa objetiva quando pensava nele.

- Desculpa Jane, mas depois que conheci o Jack choro praticamente todos os dias. Ele fez alguma coisa aqui dentro que deixou todas as minhas emoções a flor da pele. Nunca imaginei que um amor destes era possível e até bem pouco tempo atrás me orgulhava de ser uma pessoa contida e equilibrada, mas agora...

Jane abraçou Clara também com lágrimas nos olhos.

- Olha, querida, eu não deveria contar isso para você, mas no domingo, conversei com Jack e ele me disse a mesma coisa, que suas emoções estavam descontroladas e que ele nunca tinha sentido na vida o que estava sentindo agora por você.

Clara começou a tremer, queria estar com ele agora, dizer o quanto o amava.

- O amor de vocês me surpreende. Sou viúva hoje, mas fui casada por mais de 30 anos com um bom homem. Gostava muito dele, mas acho que nestes 30 anos nunca vivemos nada parecido com o que vocês têm. Estou muito feliz por vocês dois.

- Obrigada! E desculpa pela minha absoluta falta de foco, está difícil me concentrar no trabalho, ele me pediu em casamento há uma semana e ainda estou me acostumando com a idéia de que não vou fazer uma bobagem enorme, nos conhecemos há apenas 20 dias e vamos nos casar daqui a duas semanas.

- Isso é maravilhoso, nunca vi um amor assim. Vocês têm algo de muito especial e não podem nem devem abrir mão disso por nada nesse mundo. Só uma coisa que eu não entendi; como ele aceitou voltar a tocar com o Mersey e com o Silver?

- Bom, o Mersey compôs as músicas novas com ele e o Silver quis fazer parte desse disco novo com eles, por quê?

- Você ainda não me perguntou, mas vou te dizer, o Jack considerava o Donovan muito mais irmão dele do que eu mesma. Quando aconteceu aquela tragédia, ele se culpou e culpou a banda. Nos primeiros dias, tivemos que ficar de olho nele, para que não cometesse um desatino, especialmente contra o David.
Eu consegui convencê-lo de que ninguém tinha culpa e mesmo assim, ele pegou um velho jipe da Segunda Guerra e foi para Marrocos, ficamos muito preocupados com ele e depois ele mesmo me disse que era para afastar-se dos dois, por isso acho tão estranho ele aceitar isso. Mas um amor como esse que vocês têm costuma mesmo mudar tudo.

Aos poucos Clara retomou sua lista de perguntas e completou, ao menos momentaneamente, o depoimento de Jane para o livro que estava escrevendo sobre Jack.

A informação mais notável continuava sendo a dos estranhos fatos que aconteceram quando ele esteve doente, a beira da morte aos cinco anos de idade, internado com problemas muito graves em seu fígado.

Logo, Clara se despedia de Jane, prometendo marcar um outro chá para conversarem mais, assim que possível.

Ao sair da casa de Jane, Clara recebeu uma ligação de Anne, a planejadora de seu casamento, que avisou que já estava com os convites e que os estava endereçando para postá-los ainda naquele mesmo dia no correio, uma boa notícia, já que pelos planos originas, eles seriam entregues só no dia seguinte.

Com tudo certo e encaminhado, Clara decidiu voltar para Heathcliff Hall no final da tarde e embora tenha demorado um pouco demais no trânsito, logo chegou em casa cansada. Queria agora apenas tomar um banho e descansar.

Cindy e Jennifer estavam esperando por ela para jantar e Jack continuava no estúdio onde tinha trabalhado o dia todo.

Depois de jantarem, as três desceram ao estúdio e ficaram observando o trabalho da banda da sala de controle. Era incrível a música que aquela banda estava fazendo naquele momento.

A sala não era mais só delas, além de um técnico de som que costumava trabalhar com David, o estúdio agora tinha a presença de Joey Chuck, um renomado produtor de discos de rock que estava ali apenas para ajudar a organizar os arranjos e os ensaios que levariam à gravação do disco.

Jack logo a viu e pediu que se fizesse um intervalo porque queria conversar com sua noiva. E o fato dele ter dito isso no microfone deixou Clara bastante sem graça.

Depois de tirar os fones de ouvido, Jack caminhou até a porta da sala de controle, abriu-a, pegou Clara pela mão e puxou-a até o corredor mal iluminado que levava até a adega. Abriu a porta da adega e sem sequer acender a luz, pressionou seu corpo contra o corpo de Clara, empurrando-a contra a porta, beijando-a como se não a visse há anos.

Clara se espantou com sua atitude, mas não se oporia se ele decidisse começar a transar ali mesmo, de pé, contra a tal porta. Na verdade, desejava fazer isso, mas não teve coragem de dizer, apenas disse em seu ouvido que o amava e que tinha sentido falta dele o dia todo.

- Tenho boas notícias, o Lambert está em Londres e trouxe meu carro para cá. Vamos usá-lo para ir até o hotel amanhã de manhã, vou gravar um programa de TV em Londres e depois, passamos a noite por lá e voamos para Manchester, onde vou dar uma entrevista no rádio.

- Mas as meninas querem que eu vá para Paris provar o vestido na sexta.

- Planos mudados, amor. Eu pedi que elas marcassem com o Jean Paul para domingo e nós seis estamos indo para lá e ficamos até quarta, porque nos convidaram para participar de um show beneficente lá na terça-feira à noite e na quarta de manhã, estamos de volta, em Londres.

- Sério? Ah meu amor! Eu não sei nem o que te dizer... Estou explodindo de felicidade!!!!

- É só Paris, amor! Ainda está cheio de franceses por lá. – disse Jack rindo de sua empolgação, mas também com os olhos faiscando de alegria.

Clara beijou-o e mais uma vez seu rosto estava molhado. Jack puxou-a de volta até o corredor e com os dedos ajudou a secar suas lágrimas e os dois voltaram para o estúdio. Clara sentia-se pairando alguns metros acima do chão, agora sim, ela veria Paris de verdade.

Continua

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