18 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XIII


A noite seguiu perfeita em todos os aspectos e mais uma vez Clara passou toda a madrugada nos braços de Jack. Tudo estava tão doce entre os dois que de repente, ela começou a sentir medo de que acabasse como começou, do nada.

- Você vai mesmo para Londres amanhã? – perguntou Jack.

- Sim, por que?

- Porque eu acho que vou querer te encontrar lá, mais tarde.

- Mas você não vai trabalhar amanhã no disco?

- Vou, mas estou aqui pensando em fazer umas coisas lá na cidade. Vou passar no escritório do Michael, contar para ele sobre os meus planos e depois ligar para a Mary porque nosso neto mais velho faz aniversário no final da semana e ela quer que a gente vá à festa dele.

- Quantos anos ele tem?

- Oito.

- Então precisamos comprar um presente para ele. Como ele é?

- Ele é um garotinho de oito anos.

- Como é o nome dele?

- John...

- Então, como o pequeno Jonh é? Geek, descolado, esportista, músico?

- Você não acha que é cedo demais para isso?

- Claro que não, Jack. As crianças de hoje em dia são bem ligadas. É uma outra geração, parece até que já nascem sabendo de tudo.

- Tem razão, ele é muito esperto, joga futebol, vira o computador de cabeça para baixo e está aprendendo a tocar guitarra com o pai dele.

- Viu? Eu tenho razão... ele não é tão pequeno assim, então.

- Que tal uma camisa de futebol do time que ele torce? Ou um daqueles jogos de guitarra?

- Hum... Ótimas ideias! Vamos às compras então. Mas não posso ir de manhã com vocês, só lá pelo final da tarde, acho que só vou sair daqui depois das 4.

- Quatro? Por que?

- Nós estamos trabalhando em mais uma música, mas acho que até amanhã à tarde tudo estará resolvido.

- Então você convida seu amigo para ir para a cidade com você, não acho muito bom deixá-lo aqui sozinho.

- Você é mesmo incrível! Pensa em todo mundo...

- Ai Jack, sou assim mesmo. Não consigo deixar ninguém para trás. Sabe que às vezes tenho pena até daquele horror do Michael.

- Hahahaha!!!! Sabe que se eu não puxasse as cordinhas, ele já tinha te mandado de volta para o Brasil ainda de Nova York?

- Sei... Fiquei com muito medo dele, Jack. Sai daquela reunião em Nova York tremendo.

- Pobrezinha! – disse Jack puxando-a para mais perto e beijando sua cabeça.

- Tenho um problema sério com advogados, leis, polícia e autoridades em geral, sabia?

- Hum! Vem para cá, menininha rebelde... Vem... – disse ele usando sua voz mais sedutora.

E a noite seguiu seu curso. Quando amanheceu, Clara levantou-se para fazer sua Yoga mais uma vez, deixando-o na cama, dormindo tranquilamente com seus cabelos louros espalhados pelo travesseiro.

Olhou para ele com carinho e de repente, até mesmo a Yoga parecia para ela uma enorme perda de tempo. Desejava estar com ele tanto quanto fosse possível, porque sabia que logo ele voltaria para a estrada e tudo seria mais difícil.

Clara e Cindy foram para Londres logo de manhã, passaram pelo escritório e em seguida, foram até uma bela casa na região da Victoria Station dar uma olhada no andamento do trabalho de restauração. A casa, do período georgeano já estava na última fase do acabamento e, até o final do ano, se transformaria em um hotel aconchegante e bem localizado, já que dali era possível visitar uma boa parte da cidade andando a pé.

De lá, as duas foram tomar café em um dos pubs da estação e para evitar o trânsito e a dor de cabeça de estacionar novamente o carro, seguiram a pé para as compras.

Clara tinha um carinho muito especial pela cidade e desde que começara a fazer algum sucesso com seus livros, nunca deixava de visitá-la pelo menos uma vez por ano. Tinha até feito uma tarde de autógrafos em uma livraria há dois anos por lá e antes disso, quando era apenas uma repórter, sempre que podia, dava um jeito de candidatar-se a cobrir seus eventos.

Andar pela cidade, descobrindo suas pequenas e grandes surpresas era uma de suas maiores alegrias e aquela saída para comprar roupas quentes também serviria para isso.

Cindy levou-a a uma grande loja de produtos esportivos onde ela pode comprar alguns moletons e uma boa bota para caminhadas, algo necessário para andar pelo bosque próximo da casa de Jack.

Enquanto esperavam que o vendedor trouxesse uma bota um pouco menor, o celular de Clara avisou a chegada de uma mensagem de texto de Jack que dizia simplesmente “Eu te amo, estou com saudades”.

Clara mostrou o celular para Cindy que riu das lágrimas que brotaram no canto dos olhos da amiga: - Definitivamente vocês foram feitos um para o outro. Sabia que quando a modelo ligava, às vezes ele também chorava só de falar com ela?

- Mesmo? Mas você me disse que a relação com ela não era séria.

- Não, mas ele não consegue deixar de ser intenso mesmo assim... ela estava saindo com ele e apareceu em um videoclipe que ele gravou na época e quando ela cansou dele, mesmo sabendo que não era para sempre, ele ficou arrasado.

Em um impulso, Clara digitou rapidamente em seu celular uma resposta para Jack: “Eu também te amo. Conto os minutos para te ver de novo”.

Da loja de esportes, as duas seguiram para uma outra, mas desta vez pequenina. Lá uma velhinha com forte sotaque irlandês vendia os mais belos suéteres de lã feitos de tricot que Clara já havia visto.

Comprou dois ou três para ela e escolheu um de tamanho grande, com gola alta, na cor cinza chumbo para dar de presente ao Jack. Comprou também um cachecol, luvas e um gorro.

Com tudo o que queria nas mãos, agora as duas voltaram ao carro onde deixaram as compras no porta-malas e aproveitaram para dar mais um passeio pelas lojas da região. Clara ficou encantada com uma loja de cosméticos naturais e comprou sais de banho, sabonetes e cremes hidratantes. Para Jack, comprou um creme de tratamento para os cabelos que segundo a vendedora fazia milagres em cabelos cacheados.

Mais uma vez com as mãos cheias de sacolas, as duas voltaram ao carro e saíram prometendo para si mesmas que não comprariam mais nada naquele dia até os rapazes chegarem.

Perto do meio-dia o celular de Cindy tocou, era David avisando que tinham terminado a música e estava a caminho da cidade e as encontraria em 45 minutos no Chez Montagne. Clara ficou um pouco preocupada de encontrar novamente os paparazzi na porta, mas estava tão ansiosa por estar com Jack de novo, que nem passou muito tempo pensando, de qualquer maneira as duas chegariam antes dos rapazes e só seriam fotografadas junto com eles na saída.

Apenas um paparazzo estava ali naquele dia, Cindy e Clara posaram para ele mais uma vez na porta do restaurante. Alguns minutos mais tarde a agitação foi bem maior, aparentemente a presença das duas no restaurante alertou um pequeno exército de fotógrafos atrás de um flagrante de Jack Noble com sua nova musa.

O almoço foi em ritmo de comemoração, as músicas estavam prontas e Jack, por enquanto, estava livre para viajar para a casa de campo, onde os dois poderiam trabalhar no livro e aproveitar todo o tempo restante sozinhos antes da próxima fase da turnê.

Segundo Cindy, era um local bastante isolado, onde o amor dos dois passaria pelo maior de todos os testes, a convivência sem interrupções nem distrações. E se não houvesse a questão do trabalho de ambos no livro, aquela seria uma lua-de-mel, na fronteira com o Pais de Gales.

Os quatro deixaram o restaurante juntos e para o deleite dos fotógrafos, Jack e Clara posaram para as fotos de mãos dadas.

Do restaurante, seguiram para uma grande loja de departamentos onde compraram os presentes para o neto de Jack, Clara comprou uma camisa oficial da seleção brasileira e Jack, o jogo do Crossroads para o Guitar Hero. David e Cindy também compraram presentes para o garoto.

- A festa será no domingo, nós vamos para Shatterford amanhã cedo, de carro até minha casa de campo. No domingo, dormimos no hotel em Londres e voltamos para Birmingham na segunda de manhã, a tempo de almoçar em Shatterford. O que você acha?

- Se você me prometer que estaremos juntos todo o tempo, para mim está perfeito - respondeu Clara já no carro, a caminho de Heathcliff Hall.

Jack sorriu e ligou o som do carro, pegou um CD que estava no bolso da jaqueta e colocou-o no player.

- Bom, o que você vai ouvir ainda não é nada definitivo, mas você pode colocar em seu currículo que é a primeira pessoa a ouvir o terceiro disco de Mersey e Noble, que ainda não tem nome, mas que se dependesse de mim, se chamaria “I love you so much, Clara”.

O CD começou a rolar e Clara logo reconheceu a primeira música, aquele blues maravilhoso que Jack cantou no show de Londres, em uma versão ainda mais linda, com Jack fazendo um duelo entre sua gaita de boca e a incrível guitarra de Mersey.

Depois seguiram as demais faixas, letras românticas, melodias mais lentas, hipnóticas, que apenas reafirmavam que aquele casamento musical dos dois tinha algo de fora do comum, aquilo que os místicos do mundo certamente perceberiam como divino.

A medida que o disco avançava, mais as emoções de Clara afloravam e antes da metade do disco, as lágrimas já escorriam por seu rosto; Jack que estava dirigindo também se emocionou e quando também começou a chorar, decidiu parar de tocá-lo, com medo de que suas lágrimas causassem um acidente na estrada.

- Meu Deus, menininha! Você está me transformando em uma manteiga derretida. Desde que nos conhecemos, só choro...

- Jack, não sei o que está acontecendo, é sempre tão intenso, me sinto em chamas, como se não existisse nada para mim fora deste carro, longe de você. Tenho medo de me perder de mim mesma, de nunca mais me encontrar, se você me deixar.

- Nunca vou te deixar, menininha. Você não vai se livrar de mim tão cedo. – respondeu Jack sorrindo.

Os dois carros chegaram juntos à propriedade de David e todos ajudaram a levar as compras para dentro.

Como agradecimento pela hospitalidade nos últimos dias, Jack e Clara deram de presente para David e Cindy um conjunto de cristal bacarat de garrafa e copos para uísque.

Eles jantaram batatas assadas, rosbife e salada de legumes. Um bom vinho tinto acompanhou a refeição e champagne foi servido junto com um delicioso bolo de chocolate comprado por Cindy em Londres.

Aquela sensação de amor tão intensa que chegava a doer ainda acompanhava Clara quando a noite chegou, trazendo consigo uma chuvinha fina.

Jack e Clara se recolheram mais cedo do que de hábito e passaram uma boa parte da noite recolhendo objetos e arrumando suas malas.

Quando tudo já estava pronto, eles tomaram banho, programaram os alarmes de seus celulares para seis da manhã e deitaram-se. Queriam sair bem cedo para evitar o trânsito pesado nas estradas próximas de Londres. Dormiram abraçados e saltaram da cama antes dos alarmes de seus celulares soarem.

Haviam combinado com David e Cindy que iriam embora sem se despedirem, porque sairiam muito cedo, mas quando desceram com sua bagagem, seus anfitriões já estavam na sala para ajudar a carregar o jipe de Jack.

Seriam quase 3 horas de estrada, isso se não houvesse muito trânsito, mas os dois tinham suas próprias razões para estarem felizes; Jack por estar voltando ao seu “habitat natural” depois de alguns meses de estrada e Clara por ter a oportunidade de conhecer este lugar que todos diziam ser maravilhoso.

As paisagens iam mudando pelo caminho, bosques, pastos, plantações de verdes variáveis que se perdiam ao longe. Mudava também o ar, a estrada oferecia perfumes diferentes conforme avançava para o noroeste do país e Clara, que nunca havia viajado para muito longe de Londres, ficava cada vez mais encantada com o que via pelo caminho a ponto de tirar os óculos de sol que estava usando para perceber melhor as cores.

E também as expressões de Jack, concentrado na estrada, ouvindo velhos blues no som do carro e apontando aqui e ali para placas que sinalizavam lugares que ele gostaria que Clara conhecesse e depois de dirigir por quase duas horas, ele pegou uma estradinha secundária e seguiu até uma pequena cidade, atravessou suas poucas ruas e seguiu para um parque, já nos arredores de sua casa, para uma simpática casa de chá.

Eles não haviam tomado café da manhã e já estavam sentindo fome. Jack então lembrou-se daquele gostoso lugar turístico e quis mostrá-lo para Clara, com seus lagos, bosques e lindos jardins.

Mas antes de descer do carro, Jack pegou o lenço colorido que estava amarrado no pescoço de Clara e usou-o para cobrir seus cabelos, óculos de sol e pronto, desta forma chamaria menos atenção no parque já lotado de turistas.

Clara prendeu os cabelos com um palito japonês e vestiu um casaco de moletom com zíper, já que a temperatura naquela região ficava muitos graus abaixo do fervente verão londrino.

Mesmo disfarçados, acharam melhor não facilitarem ficando muito tempo no restaurante, pegaram chocolate quente e muffins para viagem e foram até perto do lago, onde comeram sentados em um banco.

A paisagem ali era tão linda que Clara não resistiu e fez algumas fotos do lugar e de Jack, que parecia ter saído diretamente de algum velho filme sobre piratas, com aquele lenço amarrado na cabeça.

- Jack este lugar é lindo. Você vem sempre aqui?

- Não dá para vir sempre porque tem muitos turistas, eles me reconhecem e pronto, acabou o sossego...

- Acho que essa é a pior parte da fama, não é?

- Não... o ruim mesmo é não poder confiar nas pessoas, sentir-se algumas vezes como um alvo, ou um troféu que alguém quer mostrar para os outros, ou sei lá, explorar de algum jeito.

- E isso aconteceu muitas vezes?

- Muitas... Você me conhece, me jogo sempre de cabeça e por isso essas coisas sempre me machucam. E tem também uma outra coisa, quando você faz muito sucesso, as pessoas acham que têm obrigação de falar mal daquilo que você faz. Julgar suas razões, suas atitudes...

- Mas você sempre me pareceu uma pessoa tão independente, que sempre fez o que bem entendeu.

- Mas não sou surdo, muita gente me ataca porque não aceitei reformar a banda, porque não estou fazendo rock, porque ainda uso meus cabelos longos... Enfim... Minhas atitudes sempre acabam tendo um preço.

- Acho que eu só te critiquei uma vez na vida, sabia?

- Hum... Quando?

- Quando você disse que não voltaria nunca mais a tocar com a Crossroads... te chamei de teimoso e te xinguei muito porque você acabou com todas as minhas esperanças de ver a banda tocando de novo.

- É, mas sem o Donovan, não existe Crossroads, você sabe disso, não sabe?

- Sei, mas não me pareceu uma coisa lógica naquele instante, ainda achava que você fosse ceder, nem que fosse por todo aquele dinheiro que ofereceram pela turnê.

- Você agora sabe que não ligo a mínima para dinheiro.

- É, mas naquele momento eu achava que você estava fazendo charme para conseguir mais dinheiro.

- Não... Eu avisei o David e o Silver que não tinha jogo, era um show só e não existia dinheiro suficiente no mundo para me convencer a fazer uma tour.

- Estava aqui pensando... e se eu pedisse? Você faria uma tournê?

- Deixa ver... O que você me daria em troca? – Perguntou Jack olhando maliciosamente para Clara.

Clara sorriu, puxou Jack para mais perto e sussurrou em seu ouvido: - Serei sua escrava e farei todas as suas vontades.

- Baby, você já está fazendo isso, agora mesmo não existe nada que eu deseje mais no mundo do que estar com você, mas se você jogar esta carta, eu chamo o Michael e ele te expulsa do Reino Unido para sempre – respondeu rindo. – e sem hesitação.

- Só por que te pedi para fazer uma turnê?

- Não, porque eu me sentiria usado e quando isso acontece, eu costumo explodir.

- Sei você é um homem muito intenso, o seu mundo está sempre em chamas.

- Não meu amor, você me deixa em chamas. – disse sussurrando no ouvido de Clara.

- Hum! Jack... Não faz isso comigo... Você me deixa tremendo quando fala essas coisas...

Jack riu e beijou-a com paixão, os próximos dias prometiam ser paradisíacos para os dois.

Voltaram para o carro e um pouco mais de meia-hora depois estavam na porta da casa de Jack.

Continua

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