17 de out de 2011

Rockstar - Capítulo XII


Quando se está escrevendo um livro, a primeira frase costuma ser uma das decisões mais difíceis. Pelo menos para Clara, que naquele dia havia decidido trabalhar no primeiro capítulo da biografia de Jack Noble, começando por descrever aquele momento de sua vida.

Pegou o computador e escolheu como cenário o jardim de rosas, que de manhã cedo recebia ainda uma brisa gelada, antes de ser tocado pelos raios do sol.

A beleza daquele amanhecer de domingo havia tirado Clara da cama mais cedo e mal a luz do sol começou a tingir o horizonte de vermelho, ela já estava fazendo suas asanas e meditação, na sala de vidro.

Quando terminou, ela levou o material da Yoga de volta ao quarto e pegou o computador, estava movida por uma estranha certeza e ansiosa por colocar no papel aquilo tudo que tinha testemunhado nos últimos dias.

Começo este relato sobre minha vida neste momento em que existem muitas mudanças e poucas certezas.
Na última semana voltei a trabalhar com meu parceiro de sempre David Mersey e, embora ainda não saiba qual será o destino final destas músicas que escrevemos nos últimos dias, acredito que em breve elas estarão por aí, embalando amores e colocando as pessoas para dançar.

Todas são o resultado de um momento muito especial em que reencontrei minha criatividade e me senti mais uma vez um homem pleno, como artista e como ser humano.

Quando havia parado de reler e estava prestes a continuar o texto, Jack apareceu no portão do jardim vestindo uma estranha camiseta de futebol alaranjada.

- Bom dia, meu amor... Vamos dar um passeio?

- Jack! Bom dia... Já tenho os primeiros parágrafos do livro, quer ver?

Jack sorriu e sentou-se ao lado de Clara no banco, puxando o notebook para seu colo.

- Perfeito! Era exatamente isso que imaginei quando você me disse ontem à noite. Estou orgulhoso de ter te escolhido! Bom, mas tenho um convite para te fazer. Meu time joga hoje em Londres contra o Chelsea e nós vamos assistir ao jogo daqui mesmo, na sala de cinema do David. Até lá a gente está livre para passear pelo jardim, ficar na piscina... o que você me diz?

- Vamos só passear um pouco, nunca pensei que algum dia fosse dizer isso, mas já estou com saudades de Nova York, de passear com você pelo parque.

- Você não chegou a tomar café da manhã ainda, né?

- Não, vim direto para cá, queria escrever um pouco, estou sem fome.

- Eu também! Vamos andar um pouco por aí, deixa o computador aí no banco, vem. – disse estendendo a mão carinhosamente.

Clara desligou o notebook, fechou e deixou-o sobre o banco. Abraçou Jack e os dois saíram caminhando pelo jardim até uma área um pouco mais distante onde começava um bosque com muitas árvores.

Ali, sentaram-se e sem falar muito ficaram apenas aproveitando o contato com a natureza. Clara não entendia muito bem o que estava acontecendo com Jack, naquela manhã ele parecia um pouco triste e embora estivesse até mais carinhoso do que o habitual, em alguns momentos parecia perdido em seus próprios pensamentos.

- Está tudo bem com você, Jack?

- Me desculpa Clara, sou assim mesmo. Tem dias que acordo assim, com saudades de alguma coisa que eu não sei o que é. Estou feliz, do lado da mulher que eu amo, trabalhando novamente com meu melhor amigo, mas alguma coisa aqui dentro dói e eu não faço a mínima idéia do que é.

- Ah, meu amor! Vem aqui, vem. – Clara puxou Jack de encontro a seu peito e passou a acariciar seus cabelos.

Ficaram assim por longos minutos, abraçados no bosque apenas descansando nos braços um do outro daquele momento que viviam, o peso e a responsabilidade da situação dos dois tornava-se um fardo que começavam a dividir.

O que mais impressionou Clara foi que por alguns momentos ela pode sentir exatamente aquilo que Jack estava sentindo; a dor que vinha do fato de que estava trilhando novamente um caminho que o feriu muito e o medo disso acontecer de novo.

Uma mensagem de texto no celular de Clara interrompeu o descanso dos dois sob as árvores, era Cindy, que tinha acabado de acordar e os chamava para um bruch.

Os dois voltaram pelo mesmo caminho e passaram pelo jardim das rosas, para pegar o notebook de Clara. Foram depois até a casa e viram de longe Cindy e David na sala de vidro arrumando a mesa, já que os empregados da casa tiravam sua folga neste dia.

Clara e Jack se aproximaram e passaram a ajudá-los na preparação, pães, queijos, frios, sucos, frutas, ovos, purê de batatas e salsichas; uma grande quantidade de comida sendo preparada e consumida com prazer pelas quatro pessoas que pareciam relaxar cada vez mais, à medida que o dia ia passando.

Jack agora sorria novamente e Clara sentiu imediatamente um alivio na dor que estava sentindo no peito desde que o havia abraçado no bosque.

O restante da manhã seguiu feliz, com os quatro amigos rindo e comparando histórias de futebol inglesas com algumas que Clara sabia do futebol brasileiro, filha de um cronista esportivo, ela havia conhecido muitos jogadores de futebol e sabia muito sobre o assunto.

As histórias de Clara impressionaram tanto Jack, que ele saiu da sala de vidro por um momento e voltou com uma das camisas de seu time nas mãos e entregou-a a Clara: - Para você, meu amor para que você dê sorte ao meu time mais tarde.

Clara sorriu e agradeceu, mediu a camiseta em seu corpo e percebeu que nela ficaria um vestido.

- Vai ficar grande, mas você é linda de qualquer jeito.

- Até parece, o Chelsea hoje vai depenar esse seu timinho, Jack... – disse Cindy rindo de Jack.

- Não vai, não... e se o Jack disse que hoje é o time dele quem vai ganhar, então, acredito nele.

- Ah baby, se não fosse ter jogo hoje, te levava lá para o quarto agora. – disse Jack abraçando Clara.

Logo chegou a hora do jogo de futebol e eles tinham em mãos cervejas e baldinhos cheios de pipoca, Jack estava mesmo nervoso, torcia, xingava e Clara mais uma vez optou por distanciar-se para observá-lo. Intenso, como sempre, parecia acreditar que os jogadores podiam ouvir seus gritos.

No meio tempo, Clara saiu da sala para ligar para Jonas que havia deixado um recado em seu celular querendo saber sobre o andamento do livro. Conversaram rapidamente e ela voltou antes do início do segundo tempo.

Jack e David cantavam para Cindy alguns dos hinos que os torcedores costumam entoar no estádio, as canções de guerra, como eles chamavam por lá. Como no Brasil, o futebol na Inglaterra era uma paixão nacional e antes da criação de regras disciplinares bem rígidas, era palco de muitas batalhas sangrentas entre torcedores.

Clara voltou quieta e sentou-se novamente em sua poltrona. Jack sorriu para ela e ela retribuiu o sorriso. O segundo tempo já estava começando e ele mergulhava mais uma vez em sua paixão.

Cindy não gostava muito de futebol e mudou de lugar na sala para sentar-se perto de Clara, a ideia era aproveitar o tempo para conversar um pouco, mas David percebeu de longe suas intenções e puxou-a de volta para sentar-se ao seu lado. - Lembra das "regras do estúdio"? Elas valem aqui também... - disse David rindo enquanto a puxava.

Clara compreendeu e deixou-os ter aquele momento. Sua mente estava bem longe dali, reconstruindo frases, buscando naqueles últimos dias passagens que revelariam aos leitores de seu livro alguns traços da personalidade de Jack que ela mesma estava conhecendo agora.

De repente, em um destes momentos em que ela parecia olhar para a tela, mas revia Jack contando suas aventuras no Delta do Mississipi, o time do Jack marcou um gol e bastou isso para que ele saísse pulando e gritando como alguém possuído. Clara também comemorou, mas sinceramente não conseguiu ver o lance do gol nem nos replays da emissora de TV.

Para seu alivio, o tal jogo de futebol terminou rápido, com o time de Jack vencendo por apenas um gol. Logo, todos estavam fora daquela sala gelada e escura como qualquer grande cinema para continuarem com seus planos. David e Jack desceram para o estúdio e Clara ajudou Cindy a recolher a bagunça da sala de cinema e desceu com ela para a biblioteca onde as duas vasculharam a internet por algumas horas atrás de vídeos de entrevistas e apresentações antigas da Crossroads.

Muitas chegavam a ser engraçadas, nelas Jack era verdadeiramente um pavão; calças muito apertadas, camisas abertas, colares, pulseiras; para Clara que antes de conhecê-lo costumava devorá-lo com os olhos nestas velhas gravações, agora restava apenas rir delas. Vendo mais de perto, o olhar de Jack revelava que uma boa parte de tudo aquilo era provocado por um sólido consumo de drogas e aquele brilho, que agora acendia os palcos em suas últimas apresentações estava ausente.

- Cindy, você me disse que o Jack diminuiu o uso de drogas, isso significa que ele não parou?

- Ah! Ele e o David algumas vezes fumam alguma erva, mas isso é bem raro. Neste tempo em que os conheço, virou uma coisa que eles fazem uma vez por ano, se tanto.

- Mesmo?

- Sim, tem um detalhe que a gente nunca presta muita atenção, mas acho que é central para entender o Jack. Ele sempre se refere a si mesmo como hippie. Esse estilo de vida nunca está no passado para ele e embora ele tenha a vida confortável de um milionário, ele jamais se sentiria deslocado do outro lado da estrada, vivendo em um trailer ou algo do gênero.

- É verdade, pensando bem, acho que ele trocaria tudo isso aqui por uma vida mais simples em segundos.

- Você ainda não conheceu a casa de campo dele, não é?

- Ainda não.

- Além da casa de campo, ele também tem um apartamento em Londres, mas eu soube que um pouco antes de começar a turnê ele começou uma grande reforma nele e acho que ainda não terminou. De qualquer forma, acho que só na casa de campo dá para entender ele de verdade. É uma espécie de habitat natural do Jack, parece um chalé bem rústico em uma região cercada de montanhas, do lado do bosque mais lindo que você pode imaginar, com todos aqueles sons de floresta ao redor.

- Deve ser lindo...

- É... mas é bem gelado. Se eu fosse você comprava umas roupinhas mais quentes antes de ir para lá.

- Você tem razão, não estou acostumada com frio, no Brasil nem no auge do inverno chega a ser muito frio.

- Isso deve ser muito bom! Mas vamos resolver seu problema, amanhã preciso passar em uma obra em Londres e você vai comigo. De lá, a gente vai fazer umas comprinhas. Conheço umas lojas ótimas.

- Ótimo! Compras! Adoro fazer compras! - respondeu rindo.

O restante do domingo foi tranqüilo, Clara negou uma porção de pedidos de entrevistas e pode perceber que após ver seu nome associado ao de Jack Noble, gente que há muito tempo nem dava mais sinal de vida, havia escrito para ela perguntando como estavam as coisas.

Para estes, nem respondeu. Não tinha a mínima intenção de permitir qualquer aproximação de gente interesseira, sempre atrás de qualquer suposta notoriedade.

- É incrível como as pessoas só querem te usar. Olha só isso aqui, gente que não dá sinal de vida há anos e agora lembrou que eu existo só porque alguém me fotografou do lado de um rockstar.

- Isso é assim mesmo... Fiquei cheia de amigos que se lembram de mim do jardim da infância e até da creche, depois que comecei a namorar com o David Mersey. É até engraçado.

- Não entendo isso. Por que as pessoas são assim tão interesseiras? Eu sou a mesma pessoa que mandou mensagem de Natal e de aniversário no ano passado e elas nem se dignaram a responder.

- Aí é que está! Você não é mais a mesma. Você agora namora com um dos “caras”, uma daquelas pessoas que o mundo pára para olhar. E o fato dele ser um milionário também não atrapalha ninguém, não é?

- Será que estas pessoas acham que eu fiquei rica, só porque namoro com ele? Isso é ridículo. Todo dinheiro que eu tenho ganhei com meus livros, foram anos de trabalho escrevendo, pesquisando e olha que nem é tanto dinheiro assim.

- Se eu posso te sugerir uma coisa é tentar se fechar mais, porque assim que eles perceberem que você não vai dar a chave da sala vip para eles, pode se preparar para os ataques, logo vai começar aquela história: “ficou rica e esqueceu dos pobres, está esnobando quem sempre te apoiou e daí para baixo.”

Clara sabia que Cindy tinha razão e começou a fazer alguns ajustes em suas contas de e-mail para ter mais domínio sobre quem poderia ou não contatá-la. Fez o mesmo com as contas de redes sociais em que tinha perfil.

Abriu uma nova conta de e-mail e avisou apenas as pessoas mais próximas pedindo que não divulgassem aquele endereço para ninguém.

Enquanto fazia isso, Cindy disse que estava ficando com fome e que ia até a cozinha preparar alguma coisa, porque os rapazes haviam prometido que sairiam do estúdio para jantar.

- Espera Cindy, eu adoro cozinhar, vou com você e vamos preparar um jantar especial para os rapazes.

Clara carregou o notebook com ela para a cozinha, tinha uma porção de receitas muito boas registradas nele, além de links de seus sites de culinária favoritos que podia consultar a qualquer momento.

Desde sua primeira visita à cozinha da casa havia ficado impressionada e com vontade de cozinhar alguma coisa por lá. Passou no quarto, prendeu os cabelos longos com um lenço colorido, pegou um avental na gaveta e abriu as portas da geladeira e da dispensa em busca dos ingredientes para preparar alguma coisa que fosse do agrado de todos.

Encontrou algumas embalagens de salmão defumado e logo teve a idéia de adaptar uma receita de molho branco bem leve, que costumava fazer com frango, com um pacote de macarrão italiano que encontrou na dispensa.

Pediu que Cindy trouxesse o mesmo vinho branco que haviam tomado algumas noites atrás e ainda sobrou tempo para preparar uma calda com morangos e açúcar, para acompanhar o sorvete de chocolate, que montou sobre raspas de uma barra de chocolate que também encontrou na dispensa.

Usou sua criatividade, encaminhou tudo e foi preparar-se no quarto, vestiu-se, perfumou-se e logo estava pronta para o jantar.

Cindy fez a mesma coisa e logo as duas estavam na sala de controle de gravação, acenando para os dois, que respondiam os acenos, mandando beijinhos apenas para irritá-las.

Mas logo abriram a porta para as duas que os empurraram para fora e os mandaram para o chuveiro com ordens para arrumarem-se como se fossem jantar em algum restaurante chic de Londres.

Jack repetiu a roupa do jantar de Nova York e David também vestiu um belo terno. Quando estavam prontos, desceram para o salão de vidro e tiveram a surpresa de encontrá-lo iluminado por velas acesas em candelabros de prata e a mesa posta para um jantar de gala.

- Vocês fizeram tudo isso sozinhas? – perguntou David.

- A arrumação da mesa fui eu que fiz. - respondeu Cindy - e a comida quem fez foi a Clara, não me deixou mexer em nada lá na cozinha.

- Ela cozinha? Meu Deus, quem disse que não existe perfeição no mundo? – disse Jack rindo.

Clara trouxe a comida da cozinha e sua simples massa com salmão defumado foi muito elogiada por todos.

- Bom, não me resta mais nada a não ser aproveitar o clima desta noite, em que as pessoas que eu mais amo no mundo estão aqui e levantar um brinde por estarmos vivendo mais esta alegria.

Todos ergueram suas taças e a noite seguiu agradável como Clara e Cindy planejaram. No final da refeição, Jack ajoelhou-se aos pés de Clara e a pediu em casamento, todos ao redor riram e Clara apenas respondeu que pensaria no caso dele.

Os rapazes fizeram questão de lavar os pratos e arrumar a bagunça no final do jantar, enquanto Clara e Cindy foram até a sala de estar esperar por eles.

Com tudo pronto, todos os quatro foram para a sala onde ficava a coleção de discos de David e passaram o resto da noite ouvindo velhas raridades, jogando conversa fora e bebendo champagne.

Clara disse a Jack sobre seus planos de ir até a cidade com Cindy no dia seguinte, comprar algumas roupas mais quentes, para serem usadas por ela na casa de campo e ele achou uma boa idéia pois tinha intenção de ir para lá antes do final de semana.

- David, você acha que acabamos até quarta? – perguntou Jack.

- Não sei, acho que 12 músicas são suficientes para um disco, o que vocês acham?

- Vocês já tem 12 músicas? Puxa! Estou impressionada. – disse Clara.

- Acho que eu estava represando um montão de ideias e quando este pequeno ser aqui surgiu na minha vida, essa represa explodiu. – respondeu Jack rindo.

- Quando vamos conhecer as outras músicas? Vocês mostraram para gente só umas 3 ou 4 destas 12... – perguntou Cindy.

- Com o tempo... estamos planejando uma coisa, que se der certo, bom será nosso terceiro disco juntos.

- Mas antes, preciso terminar a tour do meu disco solo, preciso pedir para o Michael não fechar mais nenhuma data. Assim, quando fizer o último show, aqui no Reino Unido, nós já podemos gravar esse material novo e sair pelo mundo com ele.

Clara estava feliz, mas aqueles planos de terminar a turnê para gravar material novo e planejar outra soaram dolorosos demais para ela. Aquilo significava apenas uma coisa, dentro de alguns meses eles se veriam apenas quando a estrada permitisse.

Continua

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